... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, August 12, 2016

Silly season # 2

Diz-se maldosamente que em Agosto ninguém trabalha – é mentira, até porque com a quantidade de turistas que Agosto significa há muita gente cuja única coisa que faz em Agosto é trabalhar. No entanto, operadores turísticos à parte, há um certo sentimento de folga que se estende pelo país inteiro. Por isso, quem tem urgência em fazer algo, depressa descobre que não vai conseguir.
Tivemos disto exemplo quando eu e um grupo de amigos fomos, armados de boa vontade (todos) e músculo (alguns, porque eu não…), ajudar um de nós a mudar de casa. À hora marcada, lá estávamos, depois de termos feito uns quantos kms de carro – porque esta coisa dos “arredores de Lisboa” é um conceito muito vasto.

O primeiro desaire aconteceu quando não apareceram os homens das mudanças. Teria a carrinha dos móveis tido um acidente? Ter-se-iam perdido? As horas iam passando e as hipóteses iam-se tornando mais fantásticas. Teriam sido assaltados na estrada? Teriam aproveitado para surripiar os velhos móveis da avó e vendê-los a um antiquário? Por fim, para acabar com o nosso sofrimento, ao fim de algumas horas (durante as quais não atenderam o telemóvel nem telefonaram), lá contactaram a esclarecer: “Desculpe, mas não nos é possível aparecer hoje porque tivemos um problema com a viatura. Agora, só amanhã.” Só isto. Queres reclamar? Serve-te de alguma coisa? Queres os móveis, não queres? Os móveis estão connosco e damos-tos amanhã. Sem mais explicações. A ver se não te exaltas nem chateias.

Um bocado aparvalhados com esta falta de bom “customer service”, engolimos em seco e lá voltámos a fazer o caminho todo para voltar no dia seguinte. Mais aventuras nos esperavam. Nesse segundo dia, enquanto arrastávamos móveis e transpirávamos como miseráveis, foi a casa de eletrodomésticos que não entregou os ditos. Esperámos até à noite e já considerávamos dormir todos ali, como se fosse um festival de música improvisado mas com tecto (porque duche também não havia nesta casa). Depois de vários – mais de uma dezena, embora eu não tenha escutado todos – telefonemas para a dita empresa, onde sempre asseguravam  a pés juntos que o serviço “estava a caminho”, acabaram por dizer que “não, afinal parece que não é possível efectuar a entrega hoje, o que lamentamos” e “gostaria de agendar para outro dia?”

Para além do inqualificável serviço que aqui se denota, é bom notar que entre tantas chamadas de telefone e custos de gasolina, facilmente se chega à conclusão que o cliente podia ter comprado uns eletrodomésticos mais caros e melhores…

Mas a saga ainda não terminara. Entramos agora no departamento das ditas utilidades básicas. Muito antes de se mudar, já o meu colega tinha pedido as devidas instalações. Se a da água foi rápida, o mesmo não se poderá dizer das restantes. É o agendamento que não é feito e tem de ser o cliente a ligar e a insistir; é o técnico que não aparece e tem de ser o cliente (que passou a tarde em casa, à espera) a insistir com a companhia; é o técnico que vai e se esquece de fazer uma parte importante da ligação… 

Problemas do Primeiro Mundo, dirão, mas convenhamos que parece um Primeiro Mundo bastante atrasado! Sobretudo no que diz respeito ao tratamento de quem paga um serviço.  O cliente tem sempre razão? Só se for… turista. 


Friday, July 29, 2016

Silly season


A silly season não me preocupa. Preocupa-me o silly world. Vem a propósito de uma notícia que vi na net (agradeço ao Facebook de Leonor Sampaio) em que Robert Swartz, Professor Emérito da Universidade de Massachussets e Director do National Center for Teaching Thinking, revela um estudo no qual diz que “90% a 95% da população mundial não sabe pensar adequadamente”. Não é novidade; já a minha avó o dizia. Aliás, todos nós o podemos comprovar quando pensamos num fenómeno de escala tão ampla e tão assustadoramente estúpido como seja o fenómeno Trump, cujo risco de vir a governar este planeta não deixa de constitutir realidade. Portanto, empiricamente estamos bem servidos de exemplos actuais que comprovem a Academia. Mas é doloroso ver que apenas 5% a 10% pensa. Pior: a hipótese desses 5% a 10% fazer lei, governar ou ter papel de peso social é… mínima.

Swartz põe a ênfase do problema na escola, cujo foco está na memorização e não no raciocínio e cratividade e acredita que uma mudança no sistema educativo na direcção do pensamento crítico e da comunicação (já que, segundo o mesmo autor, 99% dos problemas humanos são primariamente linguísticos) vai resolver, pelo menos parte, da questão.

Não sou tão optimista nem acredito que a raíz da questão resida na escola (embora parte do assunto passe por lá). Vejamos: a primeira parte de uma ideia é o próprio gerar desta. Ora, a génese ninguém ensina a ninguém – embora se possa dar liberdade para tal ou mesmo para a multiplicidade de ideias. Perdoem-me se vos choca, mas nem todos temos a mesma capacidade geradora de pensamento. Da mesma forma que uns nascem fisicamente fortes e outros fraquinhos, uns altos e outros baixos, também temos de admitir que uns nascem intelectualmente mais robustos do que outros. Há hoje a ideia falsamente democrática de que temos todos as mesmas capacidades. Não temos. Eu gostava de ter ombros de nadadora, mas tenho literalmente uns ombros de tísica. Isto é aceite socialmente. No entanto, se falamos de capacidades mentais, certo é que é politicamente incorrecto referir que há  pessoas mais dotadas do que outras. Mas que as há, há. Atirem-me pedras.

 O que não consigo explicar é porque é que há cada vez menos pessoas mais dotadas. Exemplo: quando chegámos a George Bush Jr, todos pensámos que os E.U.A. estavam no limite da tolice. Agora, estamos capazes de erguer uma estátua ao homem que até já disse publicamente que não apoia Trump. Será a falta de capacidade intelectual humana uma degeneração genética? Eu não sei. Mas ela anda aí. Outro exemplo: há alguns anos atrás, toda a gente se ria de algumas instruções tolas que apareciam em certos produtos como “Do not iron clothes on body” (nos ferros da roupa), “may cause sleepiness” (nos comprimidos para dormir) ou “warning: contains nuts” (num pacote de amendoins)…  mas hoje são  instruções obrigatórias por lei. Assustador. Raciocinar começa a ser fora da lei.

Analisar, inferir, deduzir, comparar, clarificar, sequenciar… acredito que a escola pode e deve ajudar em tudo isso e ademais desde tenra idade pois quanto mais cedo se aprender a pensar e a pensar criticamente melhor. Planear, resolver problemas, tomar decisões, em tudo isso há certamente um papel crucial dos educadores (seja em casa seja na escola). No entanto, parece-me que esta é a construção da casa. Há que ter matéria prima para construir. Idealmente, será da conjunção de ambos – boa matéria prima e boa construção – que sai um excelente resultado. Assim, poderemos um dia (?) deixar de ver aquelas fabulosas e ao que parece essenciais instruções com que nos brindam os pacotinhos de aperitivos da American Airlines: “1) open package; 2) eat nuts.”

Friday, July 15, 2016

Sente-se a Voz

Domingo passado, o pastel de nata venceu o croissant, com grande ajuda do chocolate importado da Guiné. Foi isto que eu disse no meu Facebook na altura. Calma; gosto de futebol e reconheço-o como símbolo da cultura de um país, usado como bastião de glória, provocando em todos uma justa sensação de superação e de excitação. Vou saltar por cima das explicações bio-endorfínicas e de psicologia das multidões que explicam porque a redução de pessoas diferentes no mesmo abraço desportivo é explicável e determina o poder cativante do desporto, nomeadamente do futebol. Gostava antes de me debruçar sobre o lado psico-cultural de cada nação que está espelhado na maneira como esta joga futebol.

Por exemplo, os ingleses. Quero dizer, o Reino Unido. Deixa de ser Unido no futebol, repararam? Nem tão pouco é Grã Bretanha. Desune-se todo. Passa a ser País de Gales, Escócia e Inglaterra. Não há cá confusões. Na verdade, eles não gostam assim tanto uns dos outros que queiram partilhar uma taça. Ainda que partilhem um Primeiro Ministro, vá lá suporta-se… Mas uma taça de um campeonato, nem pensar! O futebol é a oportunidade para passarem rasteiras e darem caneladas à vontade uns aos outros. E chamarem nomes às suas mães (N.B.: o próximo que me vier dizer que um pai é tão importante como uma mãe na vida de alguém, mando-o logo a um jogo de futebol… nunca ninguém insulta o pai do árbitro!) Malgré – fica bem falar francês – a desunião ilhoa, os brits partilham todos aqueles passes compridos que nunca mais acabam. Uma pessoa vê um jogo de futebol entre britânicos e percebe que eles chutam a bola logo a km; não há passes curtos como o pessoal do sul. Porque o brit pensa “in the long run”.

Poucas coisas são tão curiosas de se ver como um jogo Itália vs Alemanha. Os italianos intimidam o adversário em cima da cara deste, têm aquela atitude de bravata como  rapazes que levam tudo à sua frente. Os alemães são frios e controlados, esquemáticos em vez de apaixonados. Insultam baixa e veladamente, mas têm muito a certeza da sua superioridade.  

Interessante também é ver Portugal vs França. Os franceses gostam de fazer jogos bonitinhos. Há dois tipos de homens franceses (qualquer mulher confirma isto): ou são muito gentis ou são muito brutos; não conhecem meio termo. Vemos no campo este tipo francês também. Quer fazer uma coisa bonita. Se não conseguir, parte para a violência e manda o CR7 embora. Mas, em boa verdade, querer fazer bonito acaba por ser um ponto fraco francês. O português não está assim tão preocupado com o floreado. A única coisa que realmente caracteriza o português é que ele não desiste. A outra coisa é que o português sempre precisou de heróis. Daí que endeuse pessoas e ainda espere pelo D. Sebastião quando está nevoeiro. O português acredita que num herói mítico reside a força de um povo. Neste momento, o português endeusou o CR7. Quando ele saíu de campo, o português muito justamente fez o que faz melhor: não só não desistiu como acreditou que ia miticamente ganhar… por ele. Veja-se o que diz Éder (provavelmente o herói injustamente mais esquecido, e Portugal historicamente está cheio deles) “Ronaldo disse-me que eu ia marcar!”. Portugal tornou-se maior sem CR7, mas pensou que era por ele e para ele, porque isso é a maneira de ser do português. Nunca, que eu tivesse visto, jogou de forma bonita. Mas jogou sempre daquela forma que o português tem de querer, com fibra de vontade.

Outro ponto interessante é este Éder guineense, este Quaresma cigano, o CR7 da Madeira e, por exemplo, os antigos Eusébio de Moçambique e Pauleta dos Açores. Esta vitória europeia, a primeira internacional de Portugal, foi em Paris, a segunda cidade no mundo (depois de Lisboa) onde habitam mais portugueses devido ao fluxo de emigrantes. Portugal cumpre, ainda hoje, um destino fora do quadrado peninsular. “Heróis do mar” não é um hino ultrapassado. 

Friday, July 1, 2016

"Europa, Nossa Mãe Rasgada"

Há cinco anos atrás, escrevi aqui um artigo intitulado “Estados Unidos da Europa” onde, entre outras coisas, afirmei que a “Europa se incompatibiliza[va], pouco a pouco, entre si.” Na época, um senhor disse-me peremptória e publicamente que eu devia ser pouco inteligente e certamente não percebia nada do que era a Europa. Tendo em conta o rumo que as coisas tomaram, a ironia do assunto é demasiada para que eu não o mencione, contrariamente ao meu hábito de não trazer mesquinhices ao papel. Mas esta era mesmo irresistível. 

Vou repescar algumas ideias, a ver se ainda são verdade nesta “baixa” Europa onde me encontro. É que existe a Europa de cima e a Europa de baixo. Mal comparado, é como as ilhas de cima e as ilhas de baixo – sabem todos do que falo. Eu só dei pelo facto de estar na Europa de baixo quando em Maio de 2008 fui em viagem de trabalho à Bélgica e ao aterrar no aeroporto dei de caras com um cartaz que ostentava as estrelinhas da União Europeia (não, não é “a estrela fria a vinte pontas nos céus de aço” contrariamente ao que disse certo político que afirmava que Nemésio elogiava a UE!!!...).  O cartaz dizia “Bienvenue à l’Europe” pelo que nos aguardava como se viéssemos de outro continente. “Mas nós não viemos da Europa?” perguntei, incrédula, ao meu colega, que era açoriano. “Parece que não… Olha, viemos! Mas foi da Europa de baixo!” E foi assim, a rir, que cunhámos o termo com que nos brindou a Europa dos que não são pobrezinhos, ou, se quiserem, a Europa dos que mandam. 

O ideal que esteve na construção de uma união de estados europeus não só era louvável mas era também pragmático. Devastada por duas Grandes Guerras, a Europa sentia que devia unir-se em ideais comuns de tolerância fraterna, em políticas que a tornassem militarmente unida e economicamente mais forte. Em suma, que a Europa não se dividisse – porque a Europa sempre foi um continente convulso. Apesar de pequeno em tamanho relativamente aos restantes, é, indubitavelmente, pleno e vasto em diferenças culturais, difíceis de harmonizar quantas vezes mesmo dentro daquilo que constitui um só dos seus países (veja-se o Reino Unido, a Espanha, e não falemos já do que até há pouco tempo era país e deixou de ser para se dividir em dois ou vários, como a República Checa e a Eslováquia, o mosaico jugoslavo ou a parte europeia da antiga URSS.) Uma união de estados europeus, um pouco similar à estrutura americana, era um sonho prático para evitar a aniquilação que as Grandes Guerras trouxeram à Europa. 

De facto, a Europa tem sido o palco de guerras muito sangrentas e não tão longínquas assim. O horror da Segunda Guerra Mundial acabou em 1945, ou seja, ainda hoje existe quem tenha passado por isso. Mesmo depois, nos anos 90 e até 2001, recordemos a guerra da ex-Jugoslávia, que fraturou completamente toda aquela área que é hoje Bósnia, Kosovo, Montenegro, Croácia, Eslovénia, Macedónia e Sérvia. E agora, a guerra que existe entre a Rússia e a Ucrânia e da qual não se fala. 

Porém, a União Europeia foi uma federação unida de estados europeus, cumprindo esse sonho? O Reino Unido nunca aderiu à moeda única e para aumentar a confusão há países fora dos estados membros onde o euro é moeda oficial: Montenegro usa o euro há anos, apesar de encavalitado no centro dos Balcãs e de não pertencer à UE. O Espaço Schengen, i.e. a abolição de controlo fronteiriço, nunca teve ligação direta com a União Europeia, pois há países que não pertencendo à UE pertencem ao Espaço Schengen, como sendo a Suiça, a Islândia, o Liechstein e há outros que sendo da UE determinam fechar o Espaço Schengen conforme se sentem ameaçados (como exemplo a França, a Alemanha, a Bélgica na sequência dos ataques terroristas deste ano). 


Os nacionalismos têm crescido avassaladoramente na Europa, dentro dos países – vemos como agora os escoceses apelam novamente à sua independência do Reino Unido – e fora destes – em manifestações da extrema direita que ascende. Foi este mesmo fator, o nacionalismo, que sempre levou a Europa à sua destruição. A Europa morre sempre por suicídio e nunca porque alguém a ataca. Certo é que sempre renasce, como fénix das cinzas. Mas primeiro morre como escorpião, mordendo a sua própria cauda. 

Friday, June 17, 2016

Ser ou não ser...

Na quinzena, duas notícias foram manchete nos E.U.A. O massacre da discoteca em Orlando e o fim(?) do julgamento de Brock Turner. Ambas são paradigmáticas de uma visão atual preocupante.

É pouco relevante que se discuta se o atirador de Orlando, Omar Mateen, era muçulmano ou tinha conexões ao Estado Islâmico. Importante é perceber porque é que um homem, qualquer homem, chega a uma loja nos EUA e compra uma AR-15 (a arma com que Mateen disparou). Não é uma arma de desporto, não é uma arma de caça, não é uma arma de defesa pessoal. É o nome que se dá ao modelo civil correspondente às M16 militares e em tudo similares a estas. Portanto, um tipo entra numa loja, identifica-se, compra uma espingarda semi-automática e sai. No problem. Ninguém quer saber se ele vai matar coelhos ou seres humanos. As questões que hoje se colocam em relação à sua persona – violento, misógino, homofóbico, com um historial de abuso doméstico e possível uso de medicamentos – são questões que se deviam colocar quando alguém quer comprar uma arma... e não depois desse alguém matar 50 pessoas. O retrato psicológico de um indivíduo tem alguma utilidade depois do crime mas apenas para ajudar a prevenir crimes posteriores... nunca, jamais, terá utilidade para o crime que já se passou!

Massacres nos EUA não são novidade. É por isso que é com algum sarcasmo que reajo a imagens moralistas que nos mostram miúdos do Terceiro Mundo de arma na mão, e dizem que temos de acabar com essa desgraça. Até parece que no Primeiro Mundo (expressão engraçada!) não existe o mesmo... só que com mais dinheiro e noutro enquadramento.

Ficarei admirada se o massacre de Orlando vier mudar as leis de posse de armas nos EUA. O massacre de Sandy Hook em que morreram vinte crianças de 7 anos não mudou coisa alguma em 2012... Porque é que este mudaria? Mas talvez mude pois as crianças não votam!

Já a sentença judicial de Brock Turner no caso Estado da Califórnia vs. Turner (e não rapariga violada em plena universidade vs Turner, como alguns pensam, já que é um crime público andar a violar gente) seria humorística se não fosse lamentável.

Turner, estudante exemplar em Stanford e atleta de renome, promessa em treino para um possível lugar na equipa Olímpica, foi apanhado por dois outros alunos a violar uma colega que se encontrava inconsciente nos jardins da Universidade de Stanford. Como a rapariga só recuperou a consciência no hospital várias horas depois, nada do que ela diz é considerado prova. De facto, Turner até podia ter violado uma morta. Não estava acordada, logo o juiz não a considera factual.  O DNA de Turner não está na vítima (porque ele a penetrou com os dedos e com objetos segundo as testemunhas e as provas médicas), mas o da vítima está em Turner. O juiz considera isto uma violação menor. Ficai a saber que há graus de violação e que, assim como assim, estando ela inconsciente, um objecto ou outro, um dedo a mais ou a menos, uma ferida ou outra, tanto faz. Turner mostrou “simpatizar com a vítima” (diz a sentença) e “perceber que o álcool prejudica”. Porque Turner foi apanhado em plena “acção” (“acção” é o que está lá escrito, porque um gajo não viola; age) seria difícil não o condenar e o juíz deu-lhe seis meses de prisão, que diminui para três por boa conduta. Seguiram-se várias cartas e petições porque Turner é tão bom rapaz e tão bom atleta que há quem ache que 3 meses é muito tempo para um tipo pagar por ter sido apanhado a penetrar uma rapariga em estado comatoso.

Eu só queria saber quantos segundos o Brock faz nas suas piscinas olímpicas. Porque esses segundos, senhores, é quanto vos basta ser para poderem fazer toda a porcaria extra-aquática que vocês quiserem.


Friday, June 3, 2016

Johnny Be Good

Os Hollywood Vampires vieram tocar ao Rock in Rio. Eles são assim um mix de outras bandas, formados por Alice Cooper, Joe Perry (guitarrista dos Aerosmith) e por Johnny Depp, que é actor e cuja maior habilidade não está em tocar guitarra. Antes de continuar, quero dizer que sempre fui fã do Johnny Depp. Fã é understatement. Tinha 15 anos e gostava imenso dele. Gostava imenso dele ainda na semana passada. Fiquei muito emocionada com o “Eduardo Mãos de Tesoura” e o “Chocolat”, grandes fairy tale dos tempos modernos. Fantástico em Sweeney Todd e até lhe acho imensa graça como Jack Sparrow, Mad Hatter e o escritor de Neverland. Apesar de ser o DiCaprio a fazer um excelente papel como deficiente mental em “Who’s eating Gilbert Grape”, era do Johnny Depp (que, na verdade, não faz lá nada de especial a não ser um rapaz atraente, confuso e perdido) que eu gostava. A (minha) Natureza explica isto melhor do que eu.

Mais ou menos no mesmo dia que os Hollywood Vampires tocaram em Lisboa, chega a notícia (que só é notícia porque Depp é ele mesmo e não um anónimo): a actual mulher de Johnny Depp com a cara ferida, acusa-o de abuso físico e pede o divórcio. Então, todas as fãs do Johnny dizem que não pode ser, lá fica o nosso mito destruído, ninguém quer ver as suas ideias adolescentes estragadas, lá que o vizinho da frente bata na mulher é uma coisa, mas um ídolo nosso é que não! E toca de inundar a internet com comentários, chamando Amber Heard (actual mulher dele, e – para desgraça dela – bonitinha e não do tipo submisso) de todos os nomes que vêm no catálogo. Também há uma data de homens pró-Depp que se levantam a dizer que não pode ser, que esta Heard tem mesmo cara disto e daquilo e que as mulheres querem é dinheiro, e porque é que ela nunca se queixou,e parte para outra Johnny que há muitas que te querem.

Ele há-de haver muitas, senhores. Mas esta, em particular, já não o quer. Pois não esqueçamos que quem pede o divórcio é ela. A mim, nem me parece prova contrária o facto da sua ex mulher vir dizer que a relação anterior deles durou 14 anos e continua a ser maravilhosa. Pois se é maravilhosa, porque carga de água se divorciaram?

Eu era grande fã do Johhny Depp. Grande fã da figura que o meu imaginário construíu do Johnny Depp. Porque eu não conheço o Johnny Depp. E caso o tivesse conhecido – podia ter trabalhado no Rock in Rio, como conheço quem faça – conheceria apenas a faceta da figura que ele queria mostrar. O homem simpático, que alastra beneficiência e charme na sua vida pública, como o é toda a vida de um actor. Questão de marketing da parte dele e de ilusão da minha. Não desminto que parte da culpa da ilusão é do próprio iludido, e a mim me cabe desfazer o elo.


Não é irrelevante que esta mesma semana apareça a notícia da menina de 16 anos violada por 33 homens no Brasil. Para uns, estava a pedi-las porque era promíscua; para outros, vítima de crime. Por mais que fosse promíscua, como não ver este gangue como um grupo de criminosos? Até o gangue maior da favela brasileira onde isto aconteceu os condenou. É interessante verificar como os criminosos se condenam entre si, consoante o tipo de crime cometido mas a nossa puritana sociedade os absolve porque são todos bons rapazes... São todos actores bonitinhos. 

Friday, May 6, 2016

O Dia da Mãe


Havia uma miúda na escola que detestava o Dia da Mãe. Primeiro porque não tinha mãe e depois porque a escola obrigava todos os meninos a escreverem cartões não apenas à mãe mas "à melhor mãe do mundo", num total desprezo pela pedagogia e pela psicologia infantil e numa utópica crença de que todas as mães não só existiam mas eram, sem sombra de dúvida, fenomenais. Havia outros miúdos que tinham mãe, ao contrário desta menina, e que, portanto, nem sequer tinham a desculpa de tentar livrar-se do fatídico cartão dizendo que não a tinham. As professoras respondiam sempre: “Mas de onde é que nasceste?”. Contra esta resposta, não raro acompanhada de risos (como se fosse caso para rir!), não havia volta a dar. Mas como o cartão insistia que se escrevessem coisas incomparavelmente boas sobre as mães e eles, em boa verdade, não tinham nada de muito positivo para dizer, parecia-lhes uma coisa ridícula, se não mesmo perturbadora.

No Dia do Pai era a mesma história. Todos tinham de escrever cartões a pais inexistentes, ausentes, violentos, abusadores… enfim, chegado àquele dia todos tinham “o melhor pai do mundo!” segundo a escola desta menina.

O calendário tem destes dias de hipocrisia e de sacrifício, espécie de calvário interior infantil.

Até que a miúda descobriu que tinha algum talento para escrever. Jogava bem com as palavras, tinha imaginação e estilo. Tanto o seu talento era visível entre os colegas que passou a escrever as frases para os cartões de quase todos os meninos, mesmo dos que tinham mães das quais se orgulhavam. "Adoro-te, adoro-te" de tantas maneiras diferentes que disse com floreados de artista a muitas mães mas nunca usou na sua vida real por simples falta de oportunidade. "Podes escrever a mesma coisa em todos" diziam os colegas mas ela, não, não, aprumava aquilo e fez verdadeiras declarações de Amor a colos estranhos que nunca a embalaram. Nunca ninguém descobriu porque depois era tudo copiado com a letrinha de cada um e parecia sair da imaginação de cada filho. Não se pense que isto não alegrava também a menina, porque daqui resultava que se sentia menos só e mais feliz, ainda que o fim do dia fosse sempre amargo, porque nunca eram seus os abraços e as mãos dadas.

Um dia, já adulta, encontrou por acaso uma antiga colega com a mãe e, ao beijar a senhora por cortesia, pensou na ironia que tudo aquilo era mas claro que guardou para si. Não pode conter-se que não telefonasse, depois, à colega como se fosse para falar de trivialidades e disse "Recordas os cartões das mães?" E a colega: "Ai, nem me fales! A minha mãe guarda-os todos! Diz que nunca lhe disseram nada tão bonito como eu (como tu!!!) naqueles tempos!"...


E assim a menina descobriu que tinha feito tantas mães desconhecidas felizes com as suas palavras. Sobra-lhe uma ponta de pena que não tenha restado uma Mãe, qualquer uma, para si. Mas talvez seja tudo isto o Amor Incondicional que vem nos livros e que diz que amar os outros é dar sem esperar nada em troca. Ela chega à conclusão que, afinal, no seu caso, sempre soube o que isso é.