... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, January 13, 2017

Chuva Ácida


Uma semana depois da entrada no Ano Novo, já todos se esqueceram das resoluções de boa vontade do dia 1. Encolhe-se os ombros e até a memória ao que em 2016 provocava espanto. Lá nos vamos habituando a Trump e ninguém estranha que Dylan seja Nobel da Literatura – embora ainda se façam piadas com “Os Lusíadas” em versão rap sugerindo “um Grammy póstumo de Carreira para o Luíz Vaz”.

Como dou aulas em duas universidades, não tenho tempo para ler o que gostaria (reparem que isto devia ser um paradoxo mas adiante… ), pelo que raramente leio artigos de opinião. Porém, tenho um colega que deixa na secretária crónicas interessantes, e assim vi o excerto de uma opinião de Emma Lindsay, onde ela fala do que “decidiu deixar de fazer este ano”. Em vez da típica lista de coisas a começar em 2017, esta era a lista de coisas a cortar pela raíz.

Lindsay diz que deixou de ter paciência para todos os que negam a sua realidade, dizendo-lhe “Estás a exagerar”, “isso não pode ter acontecido” ou “vê lá se deixas de ser piegas.”  Bem sei: isto recorda a infeliz frase de Passos Coelho, mas aqui Lindsay falava mesmo de quem, supostamente, passa por ser amigo dela.

Sejamos práticos: em última análise, não há maneira de uma pessoa saber como é que outro ser humano se está a sentir. Ainda não foi inventada a forma de nos metermos na pele de outrem. Logo, podemos sempre dizer “não tenho tempo para lidar com os teus sentimentos/visão das coisas agora” (isso é válido e aceitável) mas não podemos nunca dizer “Na verdade, não sentes isso. Eu não me sentiria assim, portanto também não te sentes assim. Estás só confuso” ou outras nhanhas do género.

Concordo e vou mais longe.  Colocamos tanto ênfase em fazer uma boa alimentação, praticar exercício, deixar vícios, enfim, não fazer o que nos faz mal, mas esquecemos este ponto fundamental que é cortar as presenças tóxicas da nossa vida. Deixar de manter relações com quem nos oxida ou até nos maltratou não é ser estranho, é ser humano e é ser, sobretudo, amigo de nós mesmos. Quem não entende ou nos nega esse direito, talvez devesse repensar a sua postura mas nunca obrigar-nos a ser "bonzinho" ou "esquecer"... como não nos obrigaria a tomar cocaína - dizendo que é para nosso bem! “Para nosso bem” é sempre paternalista quando não pedimos conselho.

"Perdoar e oferecer a outra face" é um conceito mal traduzido. Aliás, a Bíblia também diz “olho por olho e dente por dente”, portanto convém não exagerar. Não há nada de errado em criar autoestima suficiente para dizer "chega"… ou corremos o risco da tal outra face ficar toda vermelha de bofetadas. Negar sentimentos de amargura e de recusa em relação a quem nos fez mal é muito negativo. Temos direito a tê-los perante quem nos agride. Perdoe quem acha que deve, mas ninguém deve obrigar outro a sentir como ele. Além disso, perdoar é diferente de aproximar. Criar distância  em tais casos é sinal de inteligência emocional.

Uma personalidade obrigada a calar-se durante anos perante injustiças, explodirá um dia, seguramente de modo pouco saudável. Isto serve perante progenitores, filhos, casais, amigos, patrões, qualquer pessoa que nos cause mal estar, muito mais as que são fonte de tortura. A vida é curta para viver em regime de escravidão.


Como dizia Jacques Brel, "Amemos quem devemos amar e esqueçamos quem devemos esquecer".  Ou, mais prosaicamente, como dizem os brasileiros “Cancela essa intimidade que você acha que tem comigo”, sendo “achar” aqui um verbo de compreensão fundamental. 

Friday, December 30, 2016

Pasta de Arquivo

Esta semana, ocorreu-me um pensamento que, teimosamente, não me largava. Aconteceu quando vi uma secretária, muito profissional na sua função, a catalogar pastas de arquivo. Sou de natureza observadora e não consigo evitar fazer ligações entre as coisas, quase intuitivamente. Foi assim que me veio à mente a ideia, talvez despropositada, talvez  sentimental, mas o certo é que cá continuava: em que pasta de arquivo estaria eu guardada?

E foi assim que, quando entrei na reunião, já tinha colocado em segundo plano o motivo inicial da mesma. Já, quase inconscientemente, procurava no meu interlocutor sinais que me permitissem descortinar qual era a minha etiqueta, qual era, enfim, o rótulo com que ele me tinha colocado na sua estante arrumada. Seria eu um “protocolo”? Seria uma “entrada”? Se sim, para onde? Ao certo, o que queriam dizer essas palavras no seu léxico pessoal?

“Está incomodada?” perguntou-me o senhor, admirado com a minha postura, tão diferente do ar reservado e levemente distante que tenho (quase) sempre no trabalho.

Mas a ideia não me deixava. Alastrava, tomava forma. Fiquei a pensar em que pasta de arquivo me guardariam as pessoas de cuja vida deixei de fazer parte. Aqueles cujos projetos profissionais já foram também meus e dos quais me retirei, aqueles que moram ainda nos países e locais onde já vivi, aqueles que já foram meus alunos, aqueles que já foram meus vizinhos, colegas de escola, amigos de todos os dias ou de todas as horas, aqueles que dividiram comigo casa e outros leito, aqueles a quem mudei fraldas um dia apesar de não ser muito mais velha do que eles, aqueles que já não são.

Onde me guardam? Para onde fui depois da pasta de arquivo “saída”? Ou fiquei nos “pendentes”? Comecei a fazer o perigoso jogo de adivinhar o que pensariam os outros das suas memórias. Felizmente, depressa me dei conta da inutilidade de tudo isto quando, passados os portões do trabalho, me deram a mão.

Não posso perder tempo com arquivos (cold cases, como dizem os anglo saxónicos) quando tenho a vida entre as minhas mãos. 

Tudo isto me leva à ideia da passagem de ano, um momento que, enquanto tradição, sempre me provocou um certo torcer de nariz porque não aprecio datas marcadas em que me colocam a obrigação de me divertir. A diversão é como as restantes emoções da vida – não se marca por calendário como função compulsiva ou então… deixa de ser divertida, porque se constituiu em dever.

Porém, enquanto pretexto para celebrar a vida, adoro a ideia do Ano Novo. Na verdade, não necessitamos do 1 de janeiro para mudança porque, todo o ano, o próprio ciclo das estações nos recorda que a renovação é uma constante. Mas talvez um calendário novo seja uma ótima desculpa para deitar fora as pastas de arquivo que já têm teias de aranha e cujo pó só nos causa espirros e nenhuma recordação de alegria ou de calor. 

Friday, December 16, 2016

O último tango para Maria

Recentemente, o premiado realizador Bernardo Bertolluci veio a público dizer que a famosa “cena da manteiga” no seu filme “O último tango em Paris” não estava no guião. Consequentemente, foi uma total surpresa para a atriz Maria Schneider, na época com 19 anos, quando tudo aconteceu. Bertolucci combinou toda a ação com Marlon Brando, então com 48 anos, e encenou com o ator principal, e apenas com ele, uma violação anal que não revelou à atriz como se iria passar. “Não queria que ela atuasse, queria captar a verdadeira emoção de uma real humilhação.” Quando perguntaram a Bertolucci se estava arrependido de não ter dito nada a Maria Schneider, ele disse que arrependido não estava porque “há que fazer sacrifícios em nome da arte”, mas que é pena que a “pobre Maria tenha morrido cedo demais e sem nunca me perdoar”.

Sou cinéfila, mas não tenho paciência para o filme – não porque este pertença a uma geração anterior ao meu nascimento, mas porque o plot “americano de meia idade conhece francesa juvenil ansiosa por viver relação erótica com ele” pode ter tido muito sucesso quando foi lançado pelas cenas (então) ousadas mas hoje é um filme demodé para homens em crise.

Das afirmações de Bertolluci, muitas coisas se depreendem. Primeiro, ele sabe que pode fazê-las com absoluta impunidade. Nunca acontece nada a um tipo que é famoso, premiado e velho, confortavelmente instalado em 75 anos de prémios da Academia. Uma só destas premissas bastaria para o ilibar, mas as três juntas são imparáveis. Depois, repare-se no irrealismo e na arrogância do tal “sacrifício em nome da arte” que o realizador menciona, pois ele não fez sacrifício algum! Foi a atriz que foi humilhada pelo realizador (como ele mesmo reconhece), pelo ator com quem trabalhava e perante toda a equipa que assistia à cena… sendo que tais imagens ficaram para a posteridade num filme que pode ser repetido até à exaustão por quem quiser visionar a cena. Ademais, o sacrifício não foi consentido, pois não lhe foi perguntado se ela acedia à cena e nem tão pouco lhe foi dado recusar porque ela ignorava o que se ia passar!

No entanto, o mais curioso de tudo isto é que durante toda a sua (curta) vida – Schneider morreu na meia idade ainda, após internamentos psiquiátricos e problemas severos – a atriz proclamou isso mesmo: que não tinha sido avisada dessa cena, onde se sentira “humilhada e um pouco violada” por um “homem manipulativo e sujo” (Bertolucci), pessoa com quem aliás cortou contacto quando as filmagens terminaram. No entanto, nunca ninguém acreditou em Maria Schneider apesar dela manter sempre a mesma versão coerente da história. Talvez porque não era famosa, porque era mulher ou porque não convinha manchar a reputação e imagem de Bertolucci, o certo é que Schneider se converteu no elo mais fraco e foi conveniente não acreditar nela – de todas as inúmeras vezes em que contou o sucedido. Mas bastou uma única entrevista de Bertolucci a dizer que isto aconteceu para ninguém mais duvidar! E ademais, não o criticar: pois se o grande Bertolucci o fez, o certo é que ele teve uma boa razão -  foi o seu amor à arte… Vale a pena estragar uma vida para fazer um filme(zito).


O público alimenta o narcisismo de poderes tóxicos, não vê falhas nos seus ídolos mesmo quando estes apontam para os seus pés de barro, desculpa-os com bonomia e encontra razões para as suas perversidades, sublimando tudo numa espécie de força maior, o que só vem abrir caminho para posteriores e maiores venenos. A culpa não é só de Bertolucci. É de todos os que o apoia[ra]m, mesmo que apenas calando. 

Friday, December 2, 2016

Ilusionista crónica


Era uma vez um rapaz. Há alguns anos que não o vejo, talvez quinze ou dez, talvez apenas cinco, talvez muitos mais. Não sei se mudou. Pode estar mais gordo, mais moreno, pode ter mudado o corte de cabelo, ter feito a barba, e, portanto, eu não estou certa se aquele rapaz que eu recordo e procuro é o rapaz que hoje anda por aí. Aumenta, por isso, a minha dificuldade em encontrá-lo.

Certa vez, encontrei o nome dele na internet. Era uma exposição de fotografias dele. Fui. Ele não estava. Por um lado, achei mais fácil porque não tinha ideia nenhuma do que lhe dizer quando o encontrasse e ele então… pior ainda! Já o conheço. Ia começar a sorrir, muito atrapalhado, e com tanta vontade que eu por lá ficasse como vontade que eu me fosse embora. Ele nunca foi uma pessoa muito decidida nem com grandes capacidades verbais. "O mestre da fuga, o mago supersónico."

Vi a exposição e até reconheci algumas. Tudo tão bonito. Tão cheio de silêncio e de equívocos. Os pequeninos detalhes em que ninguém reparou. Mensagens que tanto podiam ser assim como não ser para quem não intuísse nem conhecesse o significado escondido.
Mas aquela atenção ao pormenor, à claridade, à sombra, o cuidado que punha em tudo.
Não assinei o livro da exposição; tive vergonha. Saí.

Depois, subitamente, voltei atrás, entrei e assinei. Então, dirigi-me à rapariga que lá estava e perguntei-lhe quando é que podia encontrar o fotógrafo e ela disse-me "Hoje não, mas amanhã ele passa por aqui ao fim da tarde."
Sou incapaz de esconder a minha ansiedade de ver alguém e muito menos o meu interesse. A rapariga - cujo laço ao fotógrafo devia ser mais íntimo do que o meu agora é, coisa que percebi imediatamente por uma intuição feminina intemporal - perguntou-me, de forma ligeiramente agreste: "Conhecem-se?"
Era uma pergunta cheia de direitos. E eu respondi, quase alheada:
"Sim, somos como irmãos. Não te importas de lhe dar isto?"
Entreguei uma fotografia gasta que tinha tirado da minha mala e a rapariga, já simpática, aceitou-a, esperando que eu escrevinhasse uma mensagem à pressa. Umas palavras sem nexo que não queriam dizer nada. O importante era o tempo condensado de memória que lá pus. Espero que ele tenha gostado - se é que alguma vez recebeu.
Ele nunca me respondeu. Não fiquei surpreendida porque não esperava retorno. Foi tal qual como quando, em criança, escrevi ao Pai Natal, desconfiando da utilidade do gesto.

O que o rapaz não sabe é que não se passa uma única semana em que não me aconteça este estranho fenómeno visual: estou na rua, no autocarro, num corredor da universidade e vejo um rapaz de costas, um rapaz a andar, em tudo igual ao que ele é. Perdão, ao que ele era (porque não sei se já disse, eu não o vejo há alguns anos). E é como se me acendessem um fósforo debaixo dos pés, cresço uns centímetros, estico o pescoço, sobe-me o ritmo do coração e penso "É ele!" e não é raro apressar o passo e chego a ir tocar no ombro moreno ou no cabelo espesso desse rapaz alto que vislumbro, e virá-lo e depois... nunca é, nunca é ele, é sempre outra barba mal feita, outras unhas roídas, outro riso claro, outro rapaz, enfim, a quem peço desculpas desajeitadamente.

E o que me vai acontecer quando for velhinha e andar de bengala é isto: andarei ainda a observar os rapazes de 20 anos, pensando "é ele" porque só me resta a memória, como uma fotografia gasta. Tal como uma pessoa desaparecida, para mim ele nunca vai envelhecer. Rendo-me, assim, à realidade de que já o perdi. Porque mesmo que um dia o reencontre, já não o irei reconhecer.

Friday, November 18, 2016

Diálogo (A)Político

-Obama amigo! Não é fácil falar contigo, pá! Já sabes que inglês não é o meu forte, mas é para isto que estão aqui os tradutores simultâneos. Vou explicar qual era a minha urgência. É que nós temos a solução para o problema do Trump.
- Nós quem?
- Nós, portugueses. Enfim, nós governo de Portugal.
- Ah sim? Um momento. (Oh, Biden, tu verificaste se isto não era da Candid Camera? Parece-me que tem todo o aspeto… Ah, é mesmo do Primeiro Ministro de Portugal… Ok) Desculpem, coisas internas. Então, têm a solução. Vamos lá saber. Convém que seja rápida que janeiro está quase aí.
- Precisamente, amigo. Não tem nada que saber. Aqui em Portugal eu sou Primeiro Ministro e não ganhei as eleições.
-… Come again?!
- Again e quantas mais vezes forem precisas, amigo. Vocês têm é que aprender connosco. Nós por cá não percebemos qual é o problema de mandarem esse tipo embora. Vai de carrinho. Ganhou? E então? Tu estás que nem podes de o ver entrar pela Casa Branca dentro. Tens de arranjar maneira de o meter fora. Não há-de ser difícil. Uma treta qualquer constitucional, uma brecha legal que se aproveite, enfim… Mas quem é, ainda por estes dias, o Presidente? És tu, aproveita enquanto podes.
- Eh…. Pois. Não pode ser. Nós aqui não fazemos as coisas dessa maneira.
- Bem vi, pá. Tu a recebê-lo, todo gentil, na Casa Branca, a dizer que há que perceber que a democracia é soberana, etc, etc, parecia que estavas a engolir 500 sapos enquanto apertavas a mão ao platinado cor de laranja. Epá, não pode ser. Vocês têm de largar essa onda de tentarem parecer gentlemen e essa coisa da democracia. Isso são cenas absolutamente ultrapassadas. O povo vota e tal, nhanha. Olha o povo vota e depois ganham gajos destes. O povo interessa mas é quando interessa, amigo.
- Na verdade, o voto popular deu a vitória aos Democratas. O Donald Trump ganhou porque o nosso sistema é um pouco diferente, existe a questão do Senado.
- Olha o Senado! Essas coisas legalistas são outra coisa que interessa apenas e quando joga a nosso favor. É como digo: vocês têm imenso a aprender com os latinos, caramba. Estão aí tão perto do Brasil, do México e afinal nunca se contagiam… Olha, cuidado, que já se ouviu dizer que a Rainha de Inglaterra mandou umas bocas sobre a democracia estar em queda nos EUA. Ainda vos apanha de volta para a Monarquia. Então agora, que estás a promover essas virtudes anglo saxónicas de bom perdedor e cavalheiresco…
- Há um tempo para tudo. A verdade é que não ganhámos.
- Arranja-se maneira de ganhar! Desenrasca-se!
- ….O tradutor não percebeu.
- É natural, pá. Dá-se um jeito, faz-se um arranjinho.
- … Continua a não perceber.
- Epá, salta-se para a cadeira. Não ganhar é irrelevante. O importante é sentar no spot. Olha, já te aconselhei, meu velho. Faz o que puderes que nós por cá assim que o Trump ganhou metemos logo cartazes por Lisboa inteira a mostrar que não somos lá grandes amigos dele. Sem hostilizar, claro. Cenas com piada. Nós, aqui, somos um país cheio de piadas. Até um dia, companheiro.
- Bye… (Oh, Biden… Vocês passam-me cada telefonema! Afinal, isto era ou não uma gag? Era, não era?)


Saturday, November 5, 2016

Amor

Um amigo meu, grego ortodoxo de origem, disse-me que o seu nome significa "aquele que é amado”. Com este significado, eu só conhecia o nome judeu "David" mas ele explicou que o seu nome – “Agapitos” - contem a mesma semântica.

Apaixonada pelas línguas, perguntei-lhe como se dizia "Amor" em grego. "Mas qual das variantes?" questionou ele. Não percebi. Ele insistiu: “Qual das variantes de Amor?”

A língua grega distingue vários tipos de Amor. Porque uma língua reflete uma cultura e a verdade é que usamos a mesma palavra Amor para sentimentos tão diferentes. Os ingleses, então, exageram! Love serve para tudo desde "I love coffee" a "I love walking in the rain" a "I love you" - e a facilidade com que dizem este "I love you" é mesmo impressionante... sem o peso, quase sentencial, de "Eu amo-te". Os portugueses não gostam de "Eu amo-te". Parece muito definitivo e comprometedor. Mas mesmo usando o subterfúgio "Eu gosto de ti" não há volta a dar quanto ao sentimento porque estamos sempre a falar do substantivo Amor

Os gregos não. Os gregos não ignoram a realidade. Aos vários tipos de Amor deram palavras completamente diferentes. Arrumaram o assunto sem confusões. 

Agápe é a raiz do nome do meu amigo. Agápe é o Amor por excelência, o Amor incondicional, a afeição profunda, a paz no Amor, a partilha no Amor, o Amor que não se incomoda por fazer sacrifícios, o Amor que está presente, o Amor, ponto final. É possível senti-lo por um Deus, um filho, um companheiro, um cão. Na língua grega, não há distinção de por quem se pode sentir este Amor assim. É o sentimento que conta, não o "objecto" dele.

Mas há outros tipos de Amor e todos sabemos disso. Talvez se misturem, por vezes. Atire a primeira pedra quem nunca fez confusão ou até se iludiu durante anos.  

Eros é o Amor que inclui desejo e, logo, vontade de proximidade e intercâmbio físico. O Amor íntimo. Os gregos acreditam que o corpo é uma celebração, nunca uma vergonha, jamais um pecado e que a intimidade é a festa da vida. Logo, Eros é a força da vida por oposição à força da morte que existe em todos os seres humanos e que é preciso combater. É muito complicado definir o Eros grego porque, instintivamente, pensamos em sexo. Mas isso não resume a essência. Eros implica querer. Mas o querer grego não se resume a tocar um corpo - ou a dar (d)o seu. É a busca da beleza enquanto ideal de perfeição e, nessa senda, a sensualidade acaba por ser uma forma de comunicação para chegar ao não-corpóreo, ao plano transcendente. A Beleza, para os gregos, equivale à Verdade, porque são Absolutos. E chega-se ao Absoluto por meio de Eros. Mas nem todos são capazes de viver Eros desta forma tão completa e profunda. Então, Eros pode ainda dividir-se em vários planos menores.

Philia seria um Amor de companheirismo. Implica conforto, familiaridade e lealdade. Não existe nele paixão, mas existe constância. É o tipo de Amor que une ao longo do tempo. Não é encarado apenas como aquele cimento entre amigos e família, mas também como aqueles amores que nutrimos por algo que gostamos muito de fazer (daí philosophia, amor pela sabedoria). A lealdade solidifica-se numa base regular e contínua, quando a compreensão intuitiva e o gosto comum existem entre pessoas de quem gostamos muito. 

Ainda há um amor a que se chama Storge, espécie de afeição costumeira, isto é, adquirida pelo costume de estar com alguém. Uma afeição que nasce do hábito apenas. 

Se já acham que o Amor é complicado (ou que o Amor em grego é complexo) deviam ter ouvido a conversa. Então" pensei "No meio de tanta designação, torna-se mais fácil ou mais difícil explicar a alguém o que sentimos?"

"Explicar não é importante. O importante é que tu saibas o que sentes. Isso nem sempre é fácil e, por vezes, muda. Há que aprender a ouvir o próprio corpo. Mas quase todos têm uma dificuldade enorme em ouvir-se e, contrariamente, vivem cheios de pesos.” E como eu retorqui com ironia, ele calou-me daquela forma unificadora e cativante com que os gregos encaram a vida:O corpo não é um vaso da alma, como diz a vossa cultura. Trata-o bem. Escuta-o. Não está lá dentro uma substância estranha, não competem os dois… Toda tu és essa alma. És uma só." 

Por vezes, fico com a sensação de que não devia (ainda) ser professora. Afinal, sou estudante.


Friday, October 21, 2016

Fábio


Muito discreto e sem estender a mão: "Tem dinheiro para eu comprar um bolo?" Completamente honesto, quase infantil. 

Foi como um portal no tempo. Regressei imediatamente à primeira infância, arrastada por uma mão que me apertava o músculo do coração sem qualquer piedade. Regressei à minha escola, ao Lar das Meninas, a mesma cara envergonhada, o mesmo destino de quem come porque pede dinheiro ou então rouba, os mesmos olhos que seriam tristes se não fossem acomodados, que seriam assustados se não fossem já inertes de tanto apanhar tareia, as mesmas mãos cheias de cicatrizes. Tive a mesma sensação, inteira e avassaladora, de desespero e de mágoa. 

Ele tinha uma expressão de miséria completa - de dinheiro e da outra, miséria de vida desprezada. Misérias disfarçadas por roupas dadas que até estavam em estado decente. Hesitei um momento sobre como o abordar. “Não devias estar na escola?”

Encolheu os ombros e foi até ao bar, onde começou a comer e a beber com muita sofreguidão uma sandes, um sumo e um bolo que lhe venderam mais barato porque era de ontem e estava muito duro. Sem creme, sem açúcar, só massa, nada de doce. Tratavam-no com familiaridade. É o mendigo habitual das 4h30. 

Deixei, como que por acidente, 2 euros em cima da mesa e tudo por comer.
Ele veio atrás de mim:
"Esqueceu-se do seu dinheiro ali. E da comida também. Se já não quiser, eu como."
Empurrei o dinheiro e o sumo para o lado dele e disse "podes ficar". 
Já antes tínhamos olhado longamente um para o outro mas ninguém soube o que dizer. Não nos ensinaram muitas palavras de boa vontade. Ele tinha tido muito tempo para apanhar o dinheiro se quisesse.  Não havia mais clientes e a rapariga do café estava de costas. Mas não o fez.
Cheguei injustamente a recear os olhares... Quando lhe disse "podes ficar", não olhou mais para mim, mas disse "obrigado". Verdadeiramente envergonhado da sua pobreza material. 
Todo este regresso ao passado e às anteriores sensações de sinestesia de espelho causaram-me uma perturbação forte. Voltei a ser eu pequenina.

No dia seguinte, à mesmíssima hora, mas num sítio completamente diferente da cidade, é nítido que o Universo procura dizer-me algo porque o encontro novamente. Está vestido com roupas dadas; ficam-lhe umas grandes e outras pequenas. Conheço o estilo, que já foi o meu. A princípio não o vejo e é ele que me cumprimenta. 
"Menina, tudo bem?" 
E fala-me de uma data de coisas, metade das quais miseravelmente não percebo. Não pede nada, não invoca nada. Mas sou eu, memória apertada a escorrer sangue, alma e coração como que sofrendo a carnificina do que já foi e volta a ser, sensações físicas que me torturam até ao espasmo das mãos que se contorcem, que lhe digo, embora sofra de uma enorme vergonha "O que é que posso fazer por ti?" 

E esta mesma pergunta o faz pensar que sou uma “menina”. Mas sou barro da mesma lama, madeira da mesma árvore. "Da mesma árvore se faz lenha para a lareira e um santo para o altar". Somos os dois lenha de lareira, mas um foi salvo da fogueira para enfeitar um arranjo de outono e o outro olha-a como se de santa se tratasse.