... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, August 11, 2017

https://www.youtube.com/watch?v=GQj4dx-QXzg

Friday, February 10, 2017

Viver é Escolher


Quando eu tinha 16 anos, mudei de terra, de casa, de escola, de amigos (“se são amigos, não mudam, acumulam-se!”). Era o dia 4 de janeiro quando embarquei no avião para ir fazer o 2º período noutra escola secundária. Ainda não estava matriculada. Era uma situação confusa porque nessa escola não tinham as mesmas disciplinas e era o meio do ano. Aconteceu, assim, que deixei de ter Latim e passei a ter Psicologia, deixei de ter Tradução e passei a Jornalismo, etc, etc… Não escolhi; era o que estava  disponível.

Quando cheguei, fui dormir para casa de uma tia, cujo cheiro a perfume americano e a tangerinas era flagrante. Na primeira noite, tive saudades da minha cama – não da minha casa, diferença que me pareceu de bom prenúncio. Para ir para a escola, caminhava-se um bom bocado. Eu fazia o caminho sozinha, mas determinada. Como diz Pepe Mujica, quando se está só, tem-se muito tempo para pensar: é por isso que estar só não é de todo negativo para uma pessoa dada à racionalidade.

Adaptei-me bem. Tinha certo bom humor para encontrar o melhor de cada situação. “No meio do caos e do dilúvio, eis que ela vive e sorri ainda!” foi uma frase que, por piada, um dos colegas do grupo de Teatro decalcou de uma opereta para exprimir essa capacidade de metamorfose nas catástrofes.

Mas… tinha saudades de voltar. Conversei, na época, com uma professora que me disse “Viver é escolher”, conversa acerca da qual muito reclamei porque eu não tinha feito escolha nenhuma nem considerava ter tido hipóteses de escolher. Mas vendo bem, existe sempre uma escolha no meio de qualquer desespero, por mais profundo que este seja, mesmo que abissal. Claro que o exemplo que dei aqui de uma mudança é banal, ainda que possa ser importante aos 16 anos, se considerarmos a solidão que daí advém. Mas se pensarmos em exemplos realmente vitais ou devastadores, que possam conduzir o ser humano a situações de dor ou perda insuportável, compreendemos melhor.

A escolha fundamental do ser humano em tais momentos é esta: continuar ou desistir.

É legítimo desistir e não condeno os que o fazem. De facto, nem eu mesma sei qual é a melhor opção já que na vida não há segundas hipóteses ou – voltando às aulas de Teatro – “na vida, o ensaio final e a estreia são uma e a mesma coisa!” Nunca é possível voltar atrás para verificar como teria sido se tivéssemos agido de outra forma, razão pela qual também não vale a pena perdermos muito tempo a remoer nisso.

Porém, desistir oferece um grande perigo: não há mais retas nem curvas, chegou o ponto final. Pode ser tentador, se já estamos muito cansados de lutar e tentar, mas é demasiado (de)terminante.

Continuar é sempre optar pela Vida, que mesmo sendo hoje amarga pode amanhã vir a ter outro sabor. É o não-estático, o devir, o aceitar das mudanças como das estações. Na Vida nada se apaga, mas um caminho faz-se andando – de preferência por nós mesmos - e não parando, esperando que nos venham ceifar os pés.

Portanto, mesmo quando nos dizem “não tens escolha” - essa frase ameaçadora e dominante que soa a gume de espada, a frio de gelo autocrático -, não acreditem. Há sempre uma escolha. Pode não ser a melhor. Pode ser muito difícil e dura, por ter de se pagar um alto preço (“o preço de algo é a vida que trocamos por ele”) mas uma escolha…  existe.


Friday, January 27, 2017

Estados serão, Unidos não mais


O título resume o que penso acerca dos E.U.A. atualmente. O maior problema da eleição de Trump nem é tanto o que o Presidente possa vir a fazer, a ameaça que poderá constituir, as alianças ou as guerras, (des)acordos e loucuras que possam vir a ter lugar. Tudo isto são hipóteses e apenas têm para já lugar no campo do nosso receio, ainda que este tenha fundamento real e siga a cadência lógica de atos e discursos feitos pelo próprio. O maior problema reside, hoje, dentro da própria nação. 

Como é óbvio, uma eleição nunca agrada a todos. Há sempre uma fação do povo que se sente injustamente representada pelo eleito. Porém, nunca como agora se viu um levantamento popular contra um Presidente como o que se verifica contra Trump. Há centenas de websites dedicados a “Trump is not my President”. Vários órgãos de comunicação social são abertamente contra Trump e não se coíbem de o demonstrar com notícias em que colocam a nu as suas incoerências. Por sua vez, Trump - como todo aquele que é apanhado em falta - acusa-os de volta, chamando-os portadores de “fake news”.

O Wall Street Journal, menos corajoso, tem chegado a apresentar duas versões da mesma notícia na mesma edição de jornal, numa apresentando o título “Trump softens his tone” e na outra “Trump talks tough on Wall”. Falta dizer que a primeira era para ser distribuída no Texas e a segunda em New York… Ou seja, para diferentes mercados dos E.U.A., constrói-se uma notícia diversa, consoante o público seja apoiante de Trump ou não. Porque é que isto é feito por alguns OCS, que não tomam posição definida? Porque precisam de vender, claro. Mas a questão de fundo não é esta. A questão é: os E.U.A. estão profundamente divididos, cortados como nunca.

Nunca se tinham visto populares a protestar na rua no dia da tomada de posse de um Presidente dos E.U.A. Discordar de uma eleição é uma coisa; protestar a ponto de não considerar sequer o Presidente como tal é outra, absolutamente muito mais radical.

Trump não conseguirá ultrapassar esta barreira psicológica que mais de metade de povo americano tem contra ele: não o respeitam o suficiente e, como tal, não lhe reconhecem autoridade (moral, intelectual, qualquer que seja) para o assumir como seu Presidente. A partir do momento em que Trump começou a ser olhado com desprezo, perdeu a hipótese de ser “o” Presidente. A Lei dá-lhe a autoridade, mas o indivíduo comum vê nele o ridículo, o narcisista, aquele que precisa de recorrer ao Direito de ser Presidente porque não tem o perfil. Como disse um advogado da minha faculdade: “Mal está quem tem de recorrer a Decretos para promover sentimentos que só por si são Lei… ou então não existem!”


Creio que foi Chateaubriand que disse que a História nunca é imparcial, pois limita-se a ter a perspetiva do vencedor. Esta frase é tanto mais séria se pensarmos que nunca teríamos tido conhecimento da existência do Holocausto e seus horrores caso os nazis tivessem ganho a Segunda Guerra. Tudo teria, então, “não existido”, sido uma fantasia dos oprimidos. Hoje existe o vídeo, a internet… mas a verdadeira opressão é sempre feita em segredo, é recatada. Que sabemos nós do que realmente acontece?

Se é verdade que Trump venceu, não é menos verdade que venceu apenas no papel pois que não ganhou nem o respeito nem a afeição daqueles que pretende sejam o seu povo. Para além disso, a perspetiva histórica do vencedor é, no caso de Trump, muito pobre pois ele não é um indivíduo brilhante e palpita-me que as obras (livros, filmes) que vão retratar esta época no futuro lhe farão justiça. A palavra tem, eu sei, falta de uso nos tempos que correm. São tempos de Trump.




Friday, January 13, 2017

Chuva Ácida


Uma semana depois da entrada no Ano Novo, já todos se esqueceram das resoluções de boa vontade do dia 1. Encolhe-se os ombros e até a memória ao que em 2016 provocava espanto. Lá nos vamos habituando a Trump e ninguém estranha que Dylan seja Nobel da Literatura – embora ainda se façam piadas com “Os Lusíadas” em versão rap sugerindo “um Grammy póstumo de Carreira para o Luíz Vaz”.

Como dou aulas em duas universidades, não tenho tempo para ler o que gostaria (reparem que isto devia ser um paradoxo mas adiante… ), pelo que raramente leio artigos de opinião. Porém, tenho um colega que deixa na secretária crónicas interessantes, e assim vi o excerto de uma opinião de Emma Lindsay, onde ela fala do que “decidiu deixar de fazer este ano”. Em vez da típica lista de coisas a começar em 2017, esta era a lista de coisas a cortar pela raíz.

Lindsay diz que deixou de ter paciência para todos os que negam a sua realidade, dizendo-lhe “Estás a exagerar”, “isso não pode ter acontecido” ou “vê lá se deixas de ser piegas.”  Bem sei: isto recorda a infeliz frase de Passos Coelho, mas aqui Lindsay falava mesmo de quem, supostamente, passa por ser amigo dela.

Sejamos práticos: em última análise, não há maneira de uma pessoa saber como é que outro ser humano se está a sentir. Ainda não foi inventada a forma de nos metermos na pele de outrem. Logo, podemos sempre dizer “não tenho tempo para lidar com os teus sentimentos/visão das coisas agora” (isso é válido e aceitável) mas não podemos nunca dizer “Na verdade, não sentes isso. Eu não me sentiria assim, portanto também não te sentes assim. Estás só confuso” ou outras nhanhas do género.

Concordo e vou mais longe.  Colocamos tanto ênfase em fazer uma boa alimentação, praticar exercício, deixar vícios, enfim, não fazer o que nos faz mal, mas esquecemos este ponto fundamental que é cortar as presenças tóxicas da nossa vida. Deixar de manter relações com quem nos oxida ou até nos maltratou não é ser estranho, é ser humano e é ser, sobretudo, amigo de nós mesmos. Quem não entende ou nos nega esse direito, talvez devesse repensar a sua postura mas nunca obrigar-nos a ser "bonzinho" ou "esquecer"... como não nos obrigaria a tomar cocaína - dizendo que é para nosso bem! “Para nosso bem” é sempre paternalista quando não pedimos conselho.

"Perdoar e oferecer a outra face" é um conceito mal traduzido. Aliás, a Bíblia também diz “olho por olho e dente por dente”, portanto convém não exagerar. Não há nada de errado em criar autoestima suficiente para dizer "chega"… ou corremos o risco da tal outra face ficar toda vermelha de bofetadas. Negar sentimentos de amargura e de recusa em relação a quem nos fez mal é muito negativo. Temos direito a tê-los perante quem nos agride. Perdoe quem acha que deve, mas ninguém deve obrigar outro a sentir como ele. Além disso, perdoar é diferente de aproximar. Criar distância  em tais casos é sinal de inteligência emocional.

Uma personalidade obrigada a calar-se durante anos perante injustiças, explodirá um dia, seguramente de modo pouco saudável. Isto serve perante progenitores, filhos, casais, amigos, patrões, qualquer pessoa que nos cause mal estar, muito mais as que são fonte de tortura. A vida é curta para viver em regime de escravidão.


Como dizia Jacques Brel, "Amemos quem devemos amar e esqueçamos quem devemos esquecer".  Ou, mais prosaicamente, como dizem os brasileiros “Cancela essa intimidade que você acha que tem comigo”, sendo “achar” aqui um verbo de compreensão fundamental. 

Friday, December 30, 2016

Pasta de Arquivo

Esta semana, ocorreu-me um pensamento que, teimosamente, não me largava. Aconteceu quando vi uma secretária, muito profissional na sua função, a catalogar pastas de arquivo. Sou de natureza observadora e não consigo evitar fazer ligações entre as coisas, quase intuitivamente. Foi assim que me veio à mente a ideia, talvez despropositada, talvez  sentimental, mas o certo é que cá continuava: em que pasta de arquivo estaria eu guardada?

E foi assim que, quando entrei na reunião, já tinha colocado em segundo plano o motivo inicial da mesma. Já, quase inconscientemente, procurava no meu interlocutor sinais que me permitissem descortinar qual era a minha etiqueta, qual era, enfim, o rótulo com que ele me tinha colocado na sua estante arrumada. Seria eu um “protocolo”? Seria uma “entrada”? Se sim, para onde? Ao certo, o que queriam dizer essas palavras no seu léxico pessoal?

“Está incomodada?” perguntou-me o senhor, admirado com a minha postura, tão diferente do ar reservado e levemente distante que tenho (quase) sempre no trabalho.

Mas a ideia não me deixava. Alastrava, tomava forma. Fiquei a pensar em que pasta de arquivo me guardariam as pessoas de cuja vida deixei de fazer parte. Aqueles cujos projetos profissionais já foram também meus e dos quais me retirei, aqueles que moram ainda nos países e locais onde já vivi, aqueles que já foram meus alunos, aqueles que já foram meus vizinhos, colegas de escola, amigos de todos os dias ou de todas as horas, aqueles que dividiram comigo casa e outros leito, aqueles a quem mudei fraldas um dia apesar de não ser muito mais velha do que eles, aqueles que já não são.

Onde me guardam? Para onde fui depois da pasta de arquivo “saída”? Ou fiquei nos “pendentes”? Comecei a fazer o perigoso jogo de adivinhar o que pensariam os outros das suas memórias. Felizmente, depressa me dei conta da inutilidade de tudo isto quando, passados os portões do trabalho, me deram a mão.

Não posso perder tempo com arquivos (cold cases, como dizem os anglo saxónicos) quando tenho a vida entre as minhas mãos. 

Tudo isto me leva à ideia da passagem de ano, um momento que, enquanto tradição, sempre me provocou um certo torcer de nariz porque não aprecio datas marcadas em que me colocam a obrigação de me divertir. A diversão é como as restantes emoções da vida – não se marca por calendário como função compulsiva ou então… deixa de ser divertida, porque se constituiu em dever.

Porém, enquanto pretexto para celebrar a vida, adoro a ideia do Ano Novo. Na verdade, não necessitamos do 1 de janeiro para mudança porque, todo o ano, o próprio ciclo das estações nos recorda que a renovação é uma constante. Mas talvez um calendário novo seja uma ótima desculpa para deitar fora as pastas de arquivo que já têm teias de aranha e cujo pó só nos causa espirros e nenhuma recordação de alegria ou de calor. 

Friday, December 16, 2016

O último tango para Maria

Recentemente, o premiado realizador Bernardo Bertolluci veio a público dizer que a famosa “cena da manteiga” no seu filme “O último tango em Paris” não estava no guião. Consequentemente, foi uma total surpresa para a atriz Maria Schneider, na época com 19 anos, quando tudo aconteceu. Bertolucci combinou toda a ação com Marlon Brando, então com 48 anos, e encenou com o ator principal, e apenas com ele, uma violação anal que não revelou à atriz como se iria passar. “Não queria que ela atuasse, queria captar a verdadeira emoção de uma real humilhação.” Quando perguntaram a Bertolucci se estava arrependido de não ter dito nada a Maria Schneider, ele disse que arrependido não estava porque “há que fazer sacrifícios em nome da arte”, mas que é pena que a “pobre Maria tenha morrido cedo demais e sem nunca me perdoar”.

Sou cinéfila, mas não tenho paciência para o filme – não porque este pertença a uma geração anterior ao meu nascimento, mas porque o plot “americano de meia idade conhece francesa juvenil ansiosa por viver relação erótica com ele” pode ter tido muito sucesso quando foi lançado pelas cenas (então) ousadas mas hoje é um filme demodé para homens em crise.

Das afirmações de Bertolluci, muitas coisas se depreendem. Primeiro, ele sabe que pode fazê-las com absoluta impunidade. Nunca acontece nada a um tipo que é famoso, premiado e velho, confortavelmente instalado em 75 anos de prémios da Academia. Uma só destas premissas bastaria para o ilibar, mas as três juntas são imparáveis. Depois, repare-se no irrealismo e na arrogância do tal “sacrifício em nome da arte” que o realizador menciona, pois ele não fez sacrifício algum! Foi a atriz que foi humilhada pelo realizador (como ele mesmo reconhece), pelo ator com quem trabalhava e perante toda a equipa que assistia à cena… sendo que tais imagens ficaram para a posteridade num filme que pode ser repetido até à exaustão por quem quiser visionar a cena. Ademais, o sacrifício não foi consentido, pois não lhe foi perguntado se ela acedia à cena e nem tão pouco lhe foi dado recusar porque ela ignorava o que se ia passar!

No entanto, o mais curioso de tudo isto é que durante toda a sua (curta) vida – Schneider morreu na meia idade ainda, após internamentos psiquiátricos e problemas severos – a atriz proclamou isso mesmo: que não tinha sido avisada dessa cena, onde se sentira “humilhada e um pouco violada” por um “homem manipulativo e sujo” (Bertolucci), pessoa com quem aliás cortou contacto quando as filmagens terminaram. No entanto, nunca ninguém acreditou em Maria Schneider apesar dela manter sempre a mesma versão coerente da história. Talvez porque não era famosa, porque era mulher ou porque não convinha manchar a reputação e imagem de Bertolucci, o certo é que Schneider se converteu no elo mais fraco e foi conveniente não acreditar nela – de todas as inúmeras vezes em que contou o sucedido. Mas bastou uma única entrevista de Bertolucci a dizer que isto aconteceu para ninguém mais duvidar! E ademais, não o criticar: pois se o grande Bertolucci o fez, o certo é que ele teve uma boa razão -  foi o seu amor à arte… Vale a pena estragar uma vida para fazer um filme(zito).


O público alimenta o narcisismo de poderes tóxicos, não vê falhas nos seus ídolos mesmo quando estes apontam para os seus pés de barro, desculpa-os com bonomia e encontra razões para as suas perversidades, sublimando tudo numa espécie de força maior, o que só vem abrir caminho para posteriores e maiores venenos. A culpa não é só de Bertolucci. É de todos os que o apoia[ra]m, mesmo que apenas calando. 

Friday, December 2, 2016

Ilusionista crónica


Era uma vez um rapaz. Há alguns anos que não o vejo, talvez quinze ou dez, talvez apenas cinco, talvez muitos mais. Não sei se mudou. Pode estar mais gordo, mais moreno, pode ter mudado o corte de cabelo, ter feito a barba, e, portanto, eu não estou certa se aquele rapaz que eu recordo e procuro é o rapaz que hoje anda por aí. Aumenta, por isso, a minha dificuldade em encontrá-lo.

Certa vez, encontrei o nome dele na internet. Era uma exposição de fotografias dele. Fui. Ele não estava. Por um lado, achei mais fácil porque não tinha ideia nenhuma do que lhe dizer quando o encontrasse e ele então… pior ainda! Já o conheço. Ia começar a sorrir, muito atrapalhado, e com tanta vontade que eu por lá ficasse como vontade que eu me fosse embora. Ele nunca foi uma pessoa muito decidida nem com grandes capacidades verbais. "O mestre da fuga, o mago supersónico."

Vi a exposição e até reconheci algumas. Tudo tão bonito. Tão cheio de silêncio e de equívocos. Os pequeninos detalhes em que ninguém reparou. Mensagens que tanto podiam ser assim como não ser para quem não intuísse nem conhecesse o significado escondido.
Mas aquela atenção ao pormenor, à claridade, à sombra, o cuidado que punha em tudo.
Não assinei o livro da exposição; tive vergonha. Saí.

Depois, subitamente, voltei atrás, entrei e assinei. Então, dirigi-me à rapariga que lá estava e perguntei-lhe quando é que podia encontrar o fotógrafo e ela disse-me "Hoje não, mas amanhã ele passa por aqui ao fim da tarde."
Sou incapaz de esconder a minha ansiedade de ver alguém e muito menos o meu interesse. A rapariga - cujo laço ao fotógrafo devia ser mais íntimo do que o meu agora é, coisa que percebi imediatamente por uma intuição feminina intemporal - perguntou-me, de forma ligeiramente agreste: "Conhecem-se?"
Era uma pergunta cheia de direitos. E eu respondi, quase alheada:
"Sim, somos como irmãos. Não te importas de lhe dar isto?"
Entreguei uma fotografia gasta que tinha tirado da minha mala e a rapariga, já simpática, aceitou-a, esperando que eu escrevinhasse uma mensagem à pressa. Umas palavras sem nexo que não queriam dizer nada. O importante era o tempo condensado de memória que lá pus. Espero que ele tenha gostado - se é que alguma vez recebeu.
Ele nunca me respondeu. Não fiquei surpreendida porque não esperava retorno. Foi tal qual como quando, em criança, escrevi ao Pai Natal, desconfiando da utilidade do gesto.

O que o rapaz não sabe é que não se passa uma única semana em que não me aconteça este estranho fenómeno visual: estou na rua, no autocarro, num corredor da universidade e vejo um rapaz de costas, um rapaz a andar, em tudo igual ao que ele é. Perdão, ao que ele era (porque não sei se já disse, eu não o vejo há alguns anos). E é como se me acendessem um fósforo debaixo dos pés, cresço uns centímetros, estico o pescoço, sobe-me o ritmo do coração e penso "É ele!" e não é raro apressar o passo e chego a ir tocar no ombro moreno ou no cabelo espesso desse rapaz alto que vislumbro, e virá-lo e depois... nunca é, nunca é ele, é sempre outra barba mal feita, outras unhas roídas, outro riso claro, outro rapaz, enfim, a quem peço desculpas desajeitadamente.

E o que me vai acontecer quando for velhinha e andar de bengala é isto: andarei ainda a observar os rapazes de 20 anos, pensando "é ele" porque só me resta a memória, como uma fotografia gasta. Tal como uma pessoa desaparecida, para mim ele nunca vai envelhecer. Rendo-me, assim, à realidade de que já o perdi. Porque mesmo que um dia o reencontre, já não o irei reconhecer.