... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, October 11, 2018

O crítico de arte


O que é um crítico de cinema? É um tipo que não conseguiu ser realizador e, eternamente frustrado, fala mal (ou muito bem se o convidaram para um “pre screening”) de um filme. Isto era uma piada – ou então nada mais que um reflexo da realidade – que se contava na Escola de Artes Performativas onde andou uma amiga minha.

 Se me pedem para analisar peças literárias, sinto um certo desconforto, porque recordo sempre esta frase. Tanto pode estar ali uma obra de arte ou um bocado de lixo, mas convenhamos que raramente o crítico faz boa figura – porque é crítico, e quase o ouvimos a ranger os dentes na sua aspiração de querer ser outra coisa, não raro exatamente autor. Não estou certa? Então está bem. Vão lá perguntar às criancinhas se gostavam de ser atores, atrizes, escritores, pintores, músicos… Estes desejos existem. Mas quantas dizem: eu queria ser crítico de cinema, literatura, pintura, música? Nenhuma. Imediatamente na nossa mente, está reservada a ideia de que o crítico é aquele indivíduo que sabe um bocadinho daquela arte, sim senhor, sabe a teoria da coisa, mas não tem qualquer lampejo de génio criativo que lhe permita fazer cinema, escrever, pintar, compor, etc. Ou se tem, é medíocre, e por isso faz vida a criticar os demais.

Apesar desta característica tida como assente, todo o criativo sabe que deve ser extremamente delicodoce com os críticos. Se não for, pode ser arrasado com críticas teóricas brutais, insinuações terríveis e uma espécie de contra-marketing que funciona como a censura da arte. Desta forma, o que o criativo faz é a cultura da hipocrisia, acabando por dizer ao crítico que admira imenso o trabalho dele, i.e. criticar a arte, e não raro diz que ninguém viu na sua obra o que ele (o crítico) viu. Esta última parte é sempre certa, aliás, até porque o autor não raro se espanta com a parafernália de truques e sentidos que outros encontram na sua obra e nos quais ele nunca tinha pensado. Mas a obra desdobra-se para cada um e assim mesmo deve ser.

Cria-se um círculo vicioso, à maneira da TV dos anos 80 em que só havia um canal em Portugal, em que o Manel do Programa X convidava o Zé do Programa Y sendo que depois o Zé do Programa Y convidava o Manel do Programa X, e estas pessoas ficaram famosas e queridas de todos: daí que tanta gente ainda hoje venere o Carlos Cruz e o Herman José, apesar dos (enormes) pesares, nomeadamente em relação ao primeiro – dos quais nem vou falar. Existe o mesmo ciclo na arte portuguesa, que é um meio necessariamente pequeno: o autor convida o crítico, para compensar o crítico desfaz-se em elogios ao autor, sendo que o autor tem de retribuir os elogios ao crítico… e não se sai disto porque não há pessoas novas, espírito novo nesta roda!

Porém, a internet ameaça de morte os críticos. Espaço excessivamente democrático (com perdão da perigosa hipérbole), a internet veio colocar ao crítico um problema: hoje, toda a gente pesquisa e dá opinião, faz um blogue temático, mediatiza. O crítico perdeu força, exceto para a camada intelectual de gente que vai aos lançamentos, às estreias, enfim, a sua tribo. O crítico é uma espécie em extinção. Secretamente, o autor suspira: “Ainda bem!”


Thursday, September 27, 2018

Cartoons Versão Gay



Recentemente, uma “polémica” encheu as notícias sobre uma dupla da Rua Sésamo, Egas e Becas (em inglês Ernie e Bernie). O criador dos bonecos, Mark Saltzman, disse que a dinâmica entre Ernie e Bernie era a de um casal, melhor dizendo “lovers”. Isto foi tomado como uma corajosa afirmação pró-sexualidade aberta, gay rights, educativa, enfim, uma série de rótulos.

Vamos ser sérios. Os bonecos existem desde o início dos anos 80, e agora Saltzman diz que sempre (sempre!) foram namorados, mas ninguém teve coragem de explicitar (incluindo ele). Naquela altura, não era assim tão comum assumir-se a homossexualidade – exceto Freddie Mercury e outros corajosos. Era a época da SIDA, da ignorância, “olha o maricas”, etc. Agora, não só é comum como é moda, entrou no mainstream, é déjà vu. Hoje, cortam-te a cabeça socialmente se fores homofóbico.  Portanto, Saltzman, deixa de ser cocó. Se querias dizer algo, dissesses quando era necessário ter tomates para o fazer e não agora quando é super fashion fazê-lo.

Mas esta não é a questão, sequer. A questão é: porque é que, nos últimos anos, se assiste à necessidade de inventar uma vida sexual para personagens unicamente destinadas ao entretenimento infantil? As crianças não têm qualquer interesse nem neste tipo de interação nem na orientação sexual de cada um. Costumam ver criancinhas a perguntar se alguém é gay, hetero ou bissexual? Não. Simplesmente porque este é um assunto que só interessa aos adultos. É uma ideia que só aflora o mundo infantil quando foi lá plantada por um adulto. Porque terão os adultos interesse em fazer tal implante? Ademais, porque tem a sociedade interesse nisso? São questões que merecem ponderação

Uma breve pesquisa na net demonstra que estes mesmos bonecos que ensinam os miúdos da pré-escola a contar já foram usados em protesto numa petição online em 2011 que requeria um casamento na Rua Sésamo entre Ernie e Bernie  – não será necessário um génio para saber que os autores e signatários da petição não foram crianças, embora (e tenhamos sempre isto em mente!) os espetadores da Rua Sésamo o sejam. Uma decisão do Supremo Tribunal de Nova Iorque sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo foi noticiada com uma foto de Ernie e Bernie em 2013. Inocente? Só para quem não perceber de marketing ou de psicologia.

Mas não se trata apenas de Ernie e Bernie. Os desenhos animados Sailor Moon, por exemplo, já há muito que têm pares homossexuais de homens e mulheres e fóruns onde estas relações são discutidas ao pormenor. Novamente: os desenhos animados são para crianças, supostamente, mas estes fóruns na net são mantidos por adultos… as crianças não têm interesse em saber se a Sailor Uranus é secretamente interessada nos dois sexos, se é trans ou que raio se passa dentro das suas cuecas. O que interessa às crianças na Sailor Moon é apenas a magia das miúdas que se transformam em guerreiras.

Se vamos extremar as relações dos desenhos animados, arrogo-me o direito de me interrogar agora sobre as relações entre o Snoopy e o Charlie Brown, entre o Garfield e o Jon, entre o Wallace e o Gromit. Será zoofilia?  E que dizer da Heidi e do avô, da obsessão do pai do Pinóquio para ter um filho com aquele suspeito narizinho? Acho que o melhor é ficarmos por aqui e deixar o mundo dos miúdos com direito a ser crianças… sem sexualidade prematura imposta à força.

Thursday, September 13, 2018

Léxico mal-entendido


Um rapaz toca guitarra. Não sei quem é nem o que toca, mas a melodia é desajeitada (ou é ele que é desajeitado, não sei bem definir ainda). 
Estão algumas pessoas sentadas aqui fora, em mesinhas improvisadas, com velas gastas. Nas escadinhas de pedra antiga, há gatos sujos a lambuzarem restos de sardinhas e pares improváveis por entre copos muito sujos com o que se adivinha ser vinho tinto. 
A minha roupa molhada está a secar, pesada ainda e oscila pouco. Não há muito vento esta noite. 
Entre o cão imponente da rapariga atiradiça aqui da frente e o ar intrometido da velhota que espreita pela janela, há muitos risos aos quais se junta o meu. 
Há gente de todas as etnias por aqui. Batem palmas ao rapaz desajeitado, e não é porque ele mereça. Em alguns, poderá opinar-se que talvez o vinho já faça efeito (e, no entanto, é ainda cedo). Melhor assim. Há uma atmosfera de alegria sem razão. A melodia flutuante contribui para isso. Contrariamente ao que se pensa, no meio de uma Babel não são precisos aditivos para florescerem sorrisos. 
Não há propriamente delicadeza nas pessoas, porque existe uma ansiedade breve... Mas existe vontade de partilha. Também eu me desajeito com as chaves e, como é meu costume perante a frustração, rio-me de mim própria. Um rapaz hesitante pergunta-me se quero ajuda. Hesitante porque é a segunda vez que passa por mim mas esperou pela segunda vez para me perguntar. Mas aceito. Já que decidi que é tempo de deixar de ser orgulhosa. É simpático, não é intrusivo. Acho que gostaria dele, caso lhe prestasse atenção. Porque é que não lhe presto atenção? Hei-de refletir sobre isso mais tarde.  
Há uma rapariga que dança algo vagamente tribal, e tão rapidamente que parece perder densidade física; volatiza-se como vapor perante os nossos olhos.
Entretanto, tudo aqui é aconchegante, de calor e de diversão. Se fizesse o exercício de pensar, concluiria que gosto disto.  Até porque existe aqui uma secreta vantagem: isto não me recorda de nada, nem lugares, nem pessoas, nem cheiros, nem sons, nem sequer línguas (já que no meio das várias etnias todos tentam, atrapalhadamente, ensaiar o idioma local, com maior ou menor sucesso). Quanta maravilha se esconde numa tábua rasa!
Como se me lesse os pensamentos, B. atira uma das suas sentenças (sem que houvesse frase que iniciasse a conversação):
- É o que dá termos vindo viver para o fim do mundo!
-… Sabes que o mundo é redondo? -pergunto, com mal disfarçado riso – e, portanto, segundo toda a lógica, o que para ti é o fim do mundo pode ser o princípio do mundo de outra pessoa.
- Para o diabo com respostas de mulheres espertas!
- Sabes o que é que tem mais piada?
- Diz lá! – porque, embora desconfiado e na posição de perdedor deste jogo que jogamos tantas vezes, B. não resiste a continuar com a conversa. É como uma criança que ainda não abriu o brinquedo ao meio.
- É que adoras este sítio!
-… Sim, confesso. Estou mesmo a gostar. Gosto… dadas as circunstâncias.
Neste momento, faço um ar trágico-cómico e dou o mote final:
- Isso não, não digas essas conversas cheias de reticências! Olha que é mesmo muito feio quase pedir desculpa por gostar de uma coisa.

Friday, August 31, 2018

O Bom Colonizador



Um colega inglês dizia-me, orgulhoso do antigo império britânico e da História da Coroa, que nunca um povo colonizador fora tão benevolente e, ao mesmo tempo, oferecera tanto aos povos colonizados por ele como os ingleses. Tem piada, retorqui eu, isso é exatamente o mesmo pensamento e discurso dos portugueses.  

Minha querida (“my dear” soa menos impositivo, mas estou a traduzir), vou tomar como exemplo a Índia, dizia ele. A Índia era um compósito de tribos, de dialetos, de leis até chegarmos. Foi a bandeira britânica que os unificou e os fez o que hoje são: um país. Daquela mais de meia centena de dialetos que possuíam, embora inegavelmente fascinantes, o certo é que não se entendiam e apenas a língua inglesa os fez dar as mãos, língua essa que hoje permanece como uma das línguas oficiais da Índia. Mas como se isso não bastasse, os Britânicos, em apenas dois séculos, dotaram a Índia de fabulosos avanços, seja no campo dos transportes como os caminhos de ferro, seja no campo da política como a Democracia. Calou-se, saboreando a sua bebida, com um ar de triunfo íntimo, que não necessita de demonstração exterior.

Portugal também acredita que foi o melhor de todos os colonizadores, disse eu (que nunca sofri de patriotismos cegos). Os livros de História proclamam-no e passam esse mito às novas gerações, que o vão aprendendo na escola. Julgo até que era uma teoria do Estado Novo, mas esta – tal como muitas outras coisas da Ditadura – é algo que o meu país gosta de manter, sob nova máscara. Mantemos o que nos dá jeito. A escravidão dos africanos levados para o Brasil aparece como uma coisa necessária para o crescimento da economia – não tivemos outra opção. Diz-se que a miscigenação das populações foi resultado da grande capacidade portuguesa para a aculturação, não resultou de violações. A religião nunca foi imposta à força, mas sim um presente da nossa cultura aos outros, que eram bravios e filhos de um deus menor. Não seguimos mar fora motivados por sede de riqueza mas para expandir a língua e a fé. Continua a falar-se em lusotropicalismo e em racismo invisível em Portugal… E até há uma piada famosa do escritor Fernando Dacosta que diz que o homem português tratava o escravo da mesma forma como tratava a mulher e o filho: batia em todos! …. Portanto, o senhor português era muito justo e igualitário.

 O melhor é falar com um indiano para ver se ele tem do Imperialismo Britânico uma opinião tão favorável como a tua… sugeri. É mais que certo que os povos colonizados por portugueses não acreditam na visão maravilhosa do bom colonizador português.

Pelo menos vamos concordar, disse o meu colega inglês já com certo ar plúmbeo, que as nossas nações não foram estúpidas como os belgas que dividiram as tribos da África Central, resultando nas carnificinas que duram até hoje, ou violentas e incultas como os espanhóis que dizimaram as grandes e sábias nações da América do Sul.

 O que têm os espanhóis? perguntou uma vozinha ciciada que acabara de chegar, com um certo sotaque de Barcelona. A discussão não acabou por aqui… E nem cheguei a abordar o polémico Museu dos Descobrimentos que agora, para agradar, mudou de nome e já calou as hostes.

Friday, August 17, 2018

Decisão salomónica



Deparei-me com um vídeo na net onde um alemão corta a meio os seus pertences na sequência de um divórcio. O homem tomou em sentido literal as palavras do juiz que dizia que deviam ser divididos a meio os haveres do casal. Vai daí, muniu-se de uma serra e cortou tudo milimetricamente: cama, televisor, cadeiras, telefone portátil, capacete de moto, ursinho de peluche, enfim os objetos variam no tamanho e intimidade… há, realmente, de tudo (o juiz disse tudo e ele é obediente, como os carniceiros nazis). Inclusivé o carro. Ver para crer. Depois pôs à venda no E-Bay as suas metades – que até atingiram preços bem elevados, porque há malucos para cortar e malucos para comprar.

Este vídeo é bem conhecido e apareceu em várias cadeias de televisão, incluindo Portugal, em 2015. Algumas partes do vídeo original estavam cortadas, nomeadamente quando ele dedica o vídeo à ex-mulher de 12 anos e diz (traduzo do alemão): “mereceste realmente a metade… felicidades ao meu sucessor” antes da medição e cortadeira elétrica.

O que me surpreendeu foram as reações ao vídeo. As pessoas acham hilariante. De facto, em Portugal, a pivot da TVI achou tão engraçado que nem conseguia parar de rir enquanto dava a notícia, desculpando-se porque aquilo era muito divertido.

Fiz, então, uma experiência e mostrei o vídeo a pessoas divorciadas de gente descompensada (eufemismo para gente pouco saudável): ninguém achou piada. Todos identificaram aquele sadismo persecutório das frases do vídeo e o total nonsense aterrorizante das ações. Uma das pessoas era uma mulher cujo marido tinha designado certos quartos em casa onde ela e o filho não podiam entrar; eram quartos só dele. Se entrassem levavam um choque elétrico, com “taser”. Já não tem assim tanta piada, pois não?

Estou a ver as pessoas que leem isto a dizer “pá, isso é gente doida”. A quantidade de doidos que conhecemos vai muito para além do que supomos. Aliás, se estas pessoas não fossem excelentes atores e carismáticos seres sociais, não se teriam casado…

Voltando ao vídeo, viemos a saber que, afinal, o vídeo não passou de uma farsa. A revista da Ordem dos Advogados alemã veio a confessar que foram os próprios que fizeram a filmagem como chamada de atenção, por acreditarem que os divórcios conduzem a situações de disputa que acabam muitas vezes de forma surreal como essa, na ânsia de dividir tudo 50/50. Aconselhavam, por isso, os casais a fazerem acordos pré-nupciais.

Concordo. Mas acho importante referir outro aspeto. Há casais que se divorciam nas calmas e esses nunca vão a Tribunal. Quem vai é porque tem um problema. As pessoas irracionais apoiam-se nas decisões salomónicas ou estapafúrdias para exercerem crueldade ou loucura. Jamais um juiz é responsabilizado pelas crianças que sofrem ou até morrem até porque um juiz não pensa que um irracional vai usar a decisão dele para fazer o que lhe apetece. Mas se o irracional tiver filhos, a coisa complica-se. Sobretudo se for mesmo descompensado… e também tiver uma serra, um taser ou outro daqueles brinquedos que eles têm.

Friday, August 3, 2018

O Imigrante Saudável



Em Julho passado, a revista científica Psychiatry Research publicou um estudo de Salas-Wright, Vaughn e outros da Universidade de Boston sobre os imigrantes e as doenças mentais nos E.U.A. que vem corroborar uma tese já existente chamada “healthy migrant”. Em síntese, esta tese sustem que existe um paradoxo na imigração: apesar de ser este um fenómeno que usualmente acarreta muito stress para o indivíduo / família e onde co-existem diversas adversidades pessoais, sociais e fenómenos de aculturação de dificuldade menor ou maior consoante os envolvidos, o certo é que os imigrantes sofrem de menores problemas comportamentais e menos doenças do foro mental quando estatisticamente comparados com a população nativa.

Esta tese não é nova. Existe, pelo menos, desde o ano 2000 (MacDonald, Universidade de New Brunswick), mas não é muito publicitada, sobretudo porque nos últimos anos a ideia de quase todo o mundo é fechar fronteiras e, como em todos os estudos, promovem-se apenas os que dão jeito à política atual.  

Voltemos à questão inicial. Como explicar esta elevada quota de imigrantes mentalmente saudáveis, mau grado as suas vidas serem mais complexas do que as dos nativos? Segundo os estudos, há mais do que uma razão. A primeira é a seleção inicial no país de origem, ou seja, só decide imigrar para longe quem tem coragem para tal. Muitos tinham as mesmas dificuldades, estavam na mesma situação, mas… preferiram não saltar. Só vai quem já tem um esquema mental de força e pragmatismo para enfrentar o novo e o risco, com o desconforto que isso exige. Desta seleção positiva inicial resulta que as famílias de imigrantes / os imigrantes reportam um baixo ou inexistente historial de problemas psíquicos. A segunda razão tem a ver com a sua vida pós-entrada no país de acolhimento. De forma geral, a situação pessoal e profissional do imigrante é mais dura do que a do nativo. Porém, a sua motivação e resiliência tem igualmente níveis muito superiores, o que faz com que uma situação causadora de ansiedade a um nativo não seja mais do que um encolher de ombros para o imigrante trabalhador.

Os estudos foram feitos em adultos e adolescentes (desde os 12 anos), demonstrando que existem menos doenças psiquiátricas, menos uso de álcool e de drogas e menos nível de criminalidade entre imigrantes do que entre nativos. Apontam, igualmente, para um estilo de vida mais saudável. Quanto às crianças, era esperado o que dizem: as crianças que imigram não demoram muito tempo para acolherem um país novo desde que imigrem com a sua figura de referência. De facto, dá-se o caso de se tornarem mais culturalmente parecidas com o país de acolhimento do que com a sua nacionalidade.

A nacionalidade do imigrante não era fator de diferenciação, pois foram analisados imigrantes da América Latina e do Sul, da Ásia, da África e da Europa. Apenas uma questão fica por saldar: os estudos não diferenciaram entre imigrantes voluntários e involuntários (i.e. refugiados e asilados), embora admitam que os últimos tenham uma (muito) elevada concentração de Stress Pós-Traumático, Depressão e Ansiedade que os primeiros, obviamente, não apresentam.

Dito isto, aquela conversa do imigrante criminoso, mal inserido e coitadinho… é tese que já foi.

Friday, July 20, 2018

Uma Escrita Assim Mais Masculina



Durante alguns meses, tive de combinar uma conferência com colegas com os quais só me correspondi por mail. Visto que o endereço da universidade não contempla o primeiro nome e a nossa assinatura formal tão pouco, o contacto realizou-se sempre nestes termos. Ao fim de vários mails, o meu interlocutor falou-me do “dia livre” e sugeriu que todos dessemos um passeio familiar, acompanhados das nossas mulheres e filhos. Respondi que era uma boa ideia, mas sendo eu heterossexual, restava-me levar o meu marido e filho. Acrescentei um sinal de “smile”. Desfazendo-se em desculpas, ele respondeu que jamais tinha pensado estar a falar com uma mulher, dado que a minha forma de escrever era “tão lógica, tão direta, tão pragmática”.

Claro que estamos a falar de missivas de trabalho, não de escrita ficcional (assim espero, embora haja casos que roçam o fantasioso, mas não vamos por aí). Seria inusitado se eu escrevesse de forma barroca, gótica, maneirista, simbolista ou romântica. Ainda assim, a situação coloca-me o velho dilema, tão discutido, da escrita feminina versus a escrita masculina.

Pessoalmente, não sou a favor da distinção.  Certa vez, assisti a uma palestra de um crítico (por respeito, não digo quem) em que ele defendia que certos géneros literários eram exclusivamente bem escritos no feminino e outros no masculino. Citou o Realismo Mágico sul americano de Isabel Allende e a Fantasia Contemporânea da autora de Harry Potter, J. K. Rowling, como géneros femininos. Mas também podia ter citado Gabriel Garcia Márquez para o primeiro caso e Tolkien e o seu Senhor dos Anéis para o segundo, o que destrói a sua teoria. Também citou o género criminal de Conan Doyle e o seu Sherlock Holmes como género masculino. Então e Agatha Christie?

Existe, claramente, um discurso masculino e um discurso feminino quando se escreve. Mas estes discursos podem ser assumidos por autores de diferentes géneros desde que sejam autores competentes para o fazer. Se “o poeta é um fingidor” então conseguirá fingir o que não é… mas para isso tem de ser exímio no que faz, o que não estará ao alcance de todos.

Outra questão prende-se com a experiência, se formos a favor da teoria que tudo aquilo sobre o que se escreve é previamente determinado (nem que seja um pouco) por experiências vividas de onde se retira um magma essencial que moldará a ficção posterior. Determinados assuntos são exclusivos da experiência feminina, como sejam a menstruação, a gravidez, o parto, o aleitamento, a menopausa, eventuais abortos e uma descarga de hormonas que os ginecologistas explicam bem. No entanto, não basta ser mulher para fazer literatura da experiência de o ser…

Concordo, sem sombra de dúvida, com uma identidade feminina diferente da masculina. Mas não com uma escrita feminina diferente da masculina. Criar divisões na Arte é menosprezá-la. A Literatura não precisa de género sexual para se definir; precisa de se definir em boa ou má. Se assim não for, como continuaremos a dizer que a Literatura que mais nos toca trata de experiências universais que dizem respeito a toda a condição humana?