... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, December 2, 2016

Ilusionista crónica


Era uma vez um rapaz. Há alguns anos que não o vejo, talvez quinze ou dez, talvez apenas cinco, talvez muitos mais. Não sei se mudou. Pode estar mais gordo, mais moreno, pode ter mudado o corte de cabelo, ter feito a barba, e, portanto, eu não estou certa se aquele rapaz que eu recordo e procuro é o rapaz que hoje anda por aí. Aumenta, por isso, a minha dificuldade em encontrá-lo.

Certa vez, encontrei o nome dele na internet. Era uma exposição de fotografias dele. Fui. Ele não estava. Por um lado, achei mais fácil porque não tinha ideia nenhuma do que lhe dizer quando o encontrasse e ele então… pior ainda! Já o conheço. Ia começar a sorrir, muito atrapalhado, e com tanta vontade que eu por lá ficasse como vontade que eu me fosse embora. Ele nunca foi uma pessoa muito decidida nem com grandes capacidades verbais. "O mestre da fuga, o mago supersónico."

Vi a exposição e até reconheci algumas. Tudo tão bonito. Tão cheio de silêncio e de equívocos. Os pequeninos detalhes em que ninguém reparou. Mensagens que tanto podiam ser assim como não ser para quem não intuísse nem conhecesse o significado escondido.
Mas aquela atenção ao pormenor, à claridade, à sombra, o cuidado que punha em tudo.
Não assinei o livro da exposição; tive vergonha. Saí.

Depois, subitamente, voltei atrás, entrei e assinei. Então, dirigi-me à rapariga que lá estava e perguntei-lhe quando é que podia encontrar o fotógrafo e ela disse-me "Hoje não, mas amanhã ele passa por aqui ao fim da tarde."
Sou incapaz de esconder a minha ansiedade de ver alguém e muito menos o meu interesse. A rapariga - cujo laço ao fotógrafo devia ser mais íntimo do que o meu agora é, coisa que percebi imediatamente por uma intuição feminina intemporal - perguntou-me, de forma ligeiramente agreste: "Conhecem-se?"
Era uma pergunta cheia de direitos. E eu respondi, quase alheada:
"Sim, somos como irmãos. Não te importas de lhe dar isto?"
Entreguei uma fotografia gasta que tinha tirado da minha mala e a rapariga, já simpática, aceitou-a, esperando que eu escrevinhasse uma mensagem à pressa. Umas palavras sem nexo que não queriam dizer nada. O importante era o tempo condensado de memória que lá pus. Espero que ele tenha gostado - se é que alguma vez recebeu.
Ele nunca me respondeu. Não fiquei surpreendida porque não esperava retorno. Foi tal qual como quando, em criança, escrevi ao Pai Natal, desconfiando da utilidade do gesto.

O que o rapaz não sabe é que não se passa uma única semana em que não me aconteça este estranho fenómeno visual: estou na rua, no autocarro, num corredor da universidade e vejo um rapaz de costas, um rapaz a andar, em tudo igual ao que ele é. Perdão, ao que ele era (porque não sei se já disse, eu não o vejo há alguns anos). E é como se me acendessem um fósforo debaixo dos pés, cresço uns centímetros, estico o pescoço, sobe-me o ritmo do coração e penso "É ele!" e não é raro apressar o passo e chego a ir tocar no ombro moreno ou no cabelo espesso desse rapaz alto que vislumbro, e virá-lo e depois... nunca é, nunca é ele, é sempre outra barba mal feita, outras unhas roídas, outro riso claro, outro rapaz, enfim, a quem peço desculpas desajeitadamente.

E o que me vai acontecer quando for velhinha e andar de bengala é isto: andarei ainda a observar os rapazes de 20 anos, pensando "é ele" porque só me resta a memória, como uma fotografia gasta. Tal como uma pessoa desaparecida, para mim ele nunca vai envelhecer. Rendo-me, assim, à realidade de que já o perdi. Porque mesmo que um dia o reencontre, já não o irei reconhecer.

Friday, November 18, 2016

Diálogo (A)Político

-Obama amigo! Não é fácil falar contigo, pá! Já sabes que inglês não é o meu forte, mas é para isto que estão aqui os tradutores simultâneos. Vou explicar qual era a minha urgência. É que nós temos a solução para o problema do Trump.
- Nós quem?
- Nós, portugueses. Enfim, nós governo de Portugal.
- Ah sim? Um momento. (Oh, Biden, tu verificaste se isto não era da Candid Camera? Parece-me que tem todo o aspeto… Ah, é mesmo do Primeiro Ministro de Portugal… Ok) Desculpem, coisas internas. Então, têm a solução. Vamos lá saber. Convém que seja rápida que janeiro está quase aí.
- Precisamente, amigo. Não tem nada que saber. Aqui em Portugal eu sou Primeiro Ministro e não ganhei as eleições.
-… Come again?!
- Again e quantas mais vezes forem precisas, amigo. Vocês têm é que aprender connosco. Nós por cá não percebemos qual é o problema de mandarem esse tipo embora. Vai de carrinho. Ganhou? E então? Tu estás que nem podes de o ver entrar pela Casa Branca dentro. Tens de arranjar maneira de o meter fora. Não há-de ser difícil. Uma treta qualquer constitucional, uma brecha legal que se aproveite, enfim… Mas quem é, ainda por estes dias, o Presidente? És tu, aproveita enquanto podes.
- Eh…. Pois. Não pode ser. Nós aqui não fazemos as coisas dessa maneira.
- Bem vi, pá. Tu a recebê-lo, todo gentil, na Casa Branca, a dizer que há que perceber que a democracia é soberana, etc, etc, parecia que estavas a engolir 500 sapos enquanto apertavas a mão ao platinado cor de laranja. Epá, não pode ser. Vocês têm de largar essa onda de tentarem parecer gentlemen e essa coisa da democracia. Isso são cenas absolutamente ultrapassadas. O povo vota e tal, nhanha. Olha o povo vota e depois ganham gajos destes. O povo interessa mas é quando interessa, amigo.
- Na verdade, o voto popular deu a vitória aos Democratas. O Donald Trump ganhou porque o nosso sistema é um pouco diferente, existe a questão do Senado.
- Olha o Senado! Essas coisas legalistas são outra coisa que interessa apenas e quando joga a nosso favor. É como digo: vocês têm imenso a aprender com os latinos, caramba. Estão aí tão perto do Brasil, do México e afinal nunca se contagiam… Olha, cuidado, que já se ouviu dizer que a Rainha de Inglaterra mandou umas bocas sobre a democracia estar em queda nos EUA. Ainda vos apanha de volta para a Monarquia. Então agora, que estás a promover essas virtudes anglo saxónicas de bom perdedor e cavalheiresco…
- Há um tempo para tudo. A verdade é que não ganhámos.
- Arranja-se maneira de ganhar! Desenrasca-se!
- ….O tradutor não percebeu.
- É natural, pá. Dá-se um jeito, faz-se um arranjinho.
- … Continua a não perceber.
- Epá, salta-se para a cadeira. Não ganhar é irrelevante. O importante é sentar no spot. Olha, já te aconselhei, meu velho. Faz o que puderes que nós por cá assim que o Trump ganhou metemos logo cartazes por Lisboa inteira a mostrar que não somos lá grandes amigos dele. Sem hostilizar, claro. Cenas com piada. Nós, aqui, somos um país cheio de piadas. Até um dia, companheiro.
- Bye… (Oh, Biden… Vocês passam-me cada telefonema! Afinal, isto era ou não uma gag? Era, não era?)


Saturday, November 5, 2016

Amor

Um amigo meu, grego ortodoxo de origem, disse-me que o seu nome significa "aquele que é amado”. Com este significado, eu só conhecia o nome judeu "David" mas ele explicou que o seu nome – “Agapitos” - contem a mesma semântica.

Apaixonada pelas línguas, perguntei-lhe como se dizia "Amor" em grego. "Mas qual das variantes?" questionou ele. Não percebi. Ele insistiu: “Qual das variantes de Amor?”

A língua grega distingue vários tipos de Amor. Porque uma língua reflete uma cultura e a verdade é que usamos a mesma palavra Amor para sentimentos tão diferentes. Os ingleses, então, exageram! Love serve para tudo desde "I love coffee" a "I love walking in the rain" a "I love you" - e a facilidade com que dizem este "I love you" é mesmo impressionante... sem o peso, quase sentencial, de "Eu amo-te". Os portugueses não gostam de "Eu amo-te". Parece muito definitivo e comprometedor. Mas mesmo usando o subterfúgio "Eu gosto de ti" não há volta a dar quanto ao sentimento porque estamos sempre a falar do substantivo Amor

Os gregos não. Os gregos não ignoram a realidade. Aos vários tipos de Amor deram palavras completamente diferentes. Arrumaram o assunto sem confusões. 

Agápe é a raiz do nome do meu amigo. Agápe é o Amor por excelência, o Amor incondicional, a afeição profunda, a paz no Amor, a partilha no Amor, o Amor que não se incomoda por fazer sacrifícios, o Amor que está presente, o Amor, ponto final. É possível senti-lo por um Deus, um filho, um companheiro, um cão. Na língua grega, não há distinção de por quem se pode sentir este Amor assim. É o sentimento que conta, não o "objecto" dele.

Mas há outros tipos de Amor e todos sabemos disso. Talvez se misturem, por vezes. Atire a primeira pedra quem nunca fez confusão ou até se iludiu durante anos.  

Eros é o Amor que inclui desejo e, logo, vontade de proximidade e intercâmbio físico. O Amor íntimo. Os gregos acreditam que o corpo é uma celebração, nunca uma vergonha, jamais um pecado e que a intimidade é a festa da vida. Logo, Eros é a força da vida por oposição à força da morte que existe em todos os seres humanos e que é preciso combater. É muito complicado definir o Eros grego porque, instintivamente, pensamos em sexo. Mas isso não resume a essência. Eros implica querer. Mas o querer grego não se resume a tocar um corpo - ou a dar (d)o seu. É a busca da beleza enquanto ideal de perfeição e, nessa senda, a sensualidade acaba por ser uma forma de comunicação para chegar ao não-corpóreo, ao plano transcendente. A Beleza, para os gregos, equivale à Verdade, porque são Absolutos. E chega-se ao Absoluto por meio de Eros. Mas nem todos são capazes de viver Eros desta forma tão completa e profunda. Então, Eros pode ainda dividir-se em vários planos menores.

Philia seria um Amor de companheirismo. Implica conforto, familiaridade e lealdade. Não existe nele paixão, mas existe constância. É o tipo de Amor que une ao longo do tempo. Não é encarado apenas como aquele cimento entre amigos e família, mas também como aqueles amores que nutrimos por algo que gostamos muito de fazer (daí philosophia, amor pela sabedoria). A lealdade solidifica-se numa base regular e contínua, quando a compreensão intuitiva e o gosto comum existem entre pessoas de quem gostamos muito. 

Ainda há um amor a que se chama Storge, espécie de afeição costumeira, isto é, adquirida pelo costume de estar com alguém. Uma afeição que nasce do hábito apenas. 

Se já acham que o Amor é complicado (ou que o Amor em grego é complexo) deviam ter ouvido a conversa. Então" pensei "No meio de tanta designação, torna-se mais fácil ou mais difícil explicar a alguém o que sentimos?"

"Explicar não é importante. O importante é que tu saibas o que sentes. Isso nem sempre é fácil e, por vezes, muda. Há que aprender a ouvir o próprio corpo. Mas quase todos têm uma dificuldade enorme em ouvir-se e, contrariamente, vivem cheios de pesos.” E como eu retorqui com ironia, ele calou-me daquela forma unificadora e cativante com que os gregos encaram a vida:O corpo não é um vaso da alma, como diz a vossa cultura. Trata-o bem. Escuta-o. Não está lá dentro uma substância estranha, não competem os dois… Toda tu és essa alma. És uma só." 

Por vezes, fico com a sensação de que não devia (ainda) ser professora. Afinal, sou estudante.


Friday, October 21, 2016

Fábio


Muito discreto e sem estender a mão: "Tem dinheiro para eu comprar um bolo?" Completamente honesto, quase infantil. 

Foi como um portal no tempo. Regressei imediatamente à primeira infância, arrastada por uma mão que me apertava o músculo do coração sem qualquer piedade. Regressei à minha escola, ao Lar das Meninas, a mesma cara envergonhada, o mesmo destino de quem come porque pede dinheiro ou então rouba, os mesmos olhos que seriam tristes se não fossem acomodados, que seriam assustados se não fossem já inertes de tanto apanhar tareia, as mesmas mãos cheias de cicatrizes. Tive a mesma sensação, inteira e avassaladora, de desespero e de mágoa. 

Ele tinha uma expressão de miséria completa - de dinheiro e da outra, miséria de vida desprezada. Misérias disfarçadas por roupas dadas que até estavam em estado decente. Hesitei um momento sobre como o abordar. “Não devias estar na escola?”

Encolheu os ombros e foi até ao bar, onde começou a comer e a beber com muita sofreguidão uma sandes, um sumo e um bolo que lhe venderam mais barato porque era de ontem e estava muito duro. Sem creme, sem açúcar, só massa, nada de doce. Tratavam-no com familiaridade. É o mendigo habitual das 4h30. 

Deixei, como que por acidente, 2 euros em cima da mesa e tudo por comer.
Ele veio atrás de mim:
"Esqueceu-se do seu dinheiro ali. E da comida também. Se já não quiser, eu como."
Empurrei o dinheiro e o sumo para o lado dele e disse "podes ficar". 
Já antes tínhamos olhado longamente um para o outro mas ninguém soube o que dizer. Não nos ensinaram muitas palavras de boa vontade. Ele tinha tido muito tempo para apanhar o dinheiro se quisesse.  Não havia mais clientes e a rapariga do café estava de costas. Mas não o fez.
Cheguei injustamente a recear os olhares... Quando lhe disse "podes ficar", não olhou mais para mim, mas disse "obrigado". Verdadeiramente envergonhado da sua pobreza material. 
Todo este regresso ao passado e às anteriores sensações de sinestesia de espelho causaram-me uma perturbação forte. Voltei a ser eu pequenina.

No dia seguinte, à mesmíssima hora, mas num sítio completamente diferente da cidade, é nítido que o Universo procura dizer-me algo porque o encontro novamente. Está vestido com roupas dadas; ficam-lhe umas grandes e outras pequenas. Conheço o estilo, que já foi o meu. A princípio não o vejo e é ele que me cumprimenta. 
"Menina, tudo bem?" 
E fala-me de uma data de coisas, metade das quais miseravelmente não percebo. Não pede nada, não invoca nada. Mas sou eu, memória apertada a escorrer sangue, alma e coração como que sofrendo a carnificina do que já foi e volta a ser, sensações físicas que me torturam até ao espasmo das mãos que se contorcem, que lhe digo, embora sofra de uma enorme vergonha "O que é que posso fazer por ti?" 

E esta mesma pergunta o faz pensar que sou uma “menina”. Mas sou barro da mesma lama, madeira da mesma árvore. "Da mesma árvore se faz lenha para a lareira e um santo para o altar". Somos os dois lenha de lareira, mas um foi salvo da fogueira para enfeitar um arranjo de outono e o outro olha-a como se de santa se tratasse.  


Friday, October 7, 2016

Rapariga perdida [de si mesma] no metro


A mulher bem vestida entra no metro com uma criança e senta-se no único lugar disponível. E aí está a outra, sentada em frente. Faz tanto calor que a outra não pode evitar trazer um mínimo de roupa. Vêem-se-lhe o pescoço, os braços, todas as veias marcadas pelo (ab)uso de seringas. Até poderia apostar que barriga, tornozelos, e pernas também estarão assim, mas ela veste calças. Tem o cabelo sujo e a cara magoada. Tem feridas no corpo, próprias de quem se coça com escova. Os lábios com cicatrizes estão tão marcados de golpes que lhe deve ser difícil comer. Um olhar parado, de ausência. 

As pessoas olham-na com um misto de curiosidade e de nojo. E aquela rapariga esburacada, cuja palidez de cadáver sobressai num transporte onde quase todos são morenos de um Verão tórrido, tem, de repente, um lampejo de lucidez quando o homem que está ao lado dela a mira mais demoradamente. Senta-se direita e vira-lhe as costas, como se lhe dissesse que também ela tem o direito de o desprezar a ele. 

Nessa altura, o metro pára e na janela vê-se um anúncio que diz "Produto X mata piolhos e lêndeas". A criança da mulher bem vestida pergunta: "O que são lêndeas, mãe?" A mulher hesita e a rapariga esburacada, que despertou da sua letargia, responde primeiro "Lêndeas são os filhotes dos piolhos!" A mulher não esperava que aquele cadáver ambulante falasse e tartamudeia: "Pois... é isso." A criança questiona muito audivelmente (porque as crianças são assim, não conhecem as convenções sociais apropriadas) "Mãe…Quem é esta?"

A rapariga olha-a, interessada, porque depois de ter reparado no olhar de asco do homem quer saber como vai esta mulher responder. Heróinomana será, mas ainda lhe interessa isto, ao menos neste momento. "É uma senhora", diz a mulher. A rapariga sorri (uma senhora!), e diz à criança "Sabes que os piolhos gostam de cabeças limpas? As pessoas pensam que os piolhos só andam em gente suja mas não! Eu morei cinco anos na rua e nunca tive piolhos. Mas quando era criança e andava na escola, morava numa boa casa e tive a cabeça cheia deles!" Dita esta sua sentença - e disse-a muito alto porque era para as pessoas do metro que falava, queria que soubessem um bocado da sua história, a pele toda esburacada como uma renda teria, mas piolhos não e já não morava na rua - olhou para a mulher, esperando concordância. Que havia a outra de dizer? "Na verdade não sei... Suponho que pode acontecer" disse a mulher, aparentando naturalidade. "Pois é mesmo assim" continuou a esburacada, que entretanto se tinha virado para a bem vestida desde que esta a presenteara com o antroponímico "senhora". 

"Agora vou ter de sair do metro" explicou a rapariga, continuando a falar muito alto, e era com tanta raiva como com altivez e orgulho que falava à sua assistência de passageiros (embora só olhasse para a mulher) "porque tenho de ir trabalhar!" rematou. 

Levantou-se e colou-se à porta, porque em pouco tempo estaríamos perto de uma estação, numa zona da cidade famosa por muitos tipos de comércio, inclusivé o da própria carne, que suponho ser o que a rapariga vende - para depois comprar o que a entope. E eis que a criança pergunta à mãe "Onde é que esta senhora trabalha?" A mulher ficou de novo em cheque, sobretudo porque a rapariga a olhava desafiadoramente a ver como se ia safar. Consciente de que a rapariga esperava uma resposta sua tanto como a criança, a mulher disse "Ela pode fazer muitas coisas... Neste sítio, há muitas lojas e cafés... Se calhar, trabalha nalgum!" A rapariga sorria melancolicamente, e não a contradisse. Antes de sair do metro, recuperou o seu ar ausente, que lhe dava muito jeito - já que ia trabalhar e há tarefas das quais convém estar alheado. De facto, a julgar pelo ar dela, a rapariga vivia alheada de toda a sua vida. 

"Espero que não trabalhe nalguma loja horrível. Porque ela não está nada feliz. E não cheira muito bem" disse a criança.  

A mulher bem vestida nada tinha em comum com a rapariga esburacada. No entanto, quando saíu na paragem seguinte, apertando com força a mãozinha da filha na sua, tinha uma ruga sombria na sua expressão sensível que parecia indicar o quanto sabia como era fácil poder ser ela a estar no lugar da outra, caso a roda da fortuna tivesse girado de forma diferente nalgum dos momentos da vida.


Friday, September 23, 2016

Competir


A única coisa que me entristece no início de um novo ano letivo é saber que começou mais uma competição. Cada ano, este espírito se intensifica. Os alunos da Universidade competem entre eles, mesmo que digam que não. Por seu lado, os docentes, árbitros no jogo dos alunos, também competem! Chegados ao fim do ano, se estamos no top dos professores, muito bem. Se não estamos no pódio, é como nos Jogos Olímpicos: de pouco nos serviu participar.

No entanto, o que mais me preocupa como ser humano não é esta competição de gente adulta. É a competição que se instila nos miúdos desde o primeiro dia da sua vida (pré)escolar.

De forma generalizada, ser “o melhor da sua aula” é a ambição incutida em toda a criança por pais e professores. Saudável e desejável se estivermos a falar da ampliação de conhecimentos. Porém, o mais comum é estarmos a falar tão somente da obtenção de uma nota. Há crianças portuguesas que fazem festa de graduação da Pré – parece piada, mas não… A Pré é levada a sério. Como se não tivessem muitos anos para serem sérios sem terem de começar já aos 5, de beca fingida e capelo.

Os exames nacionais começam no 2º ano de escolaridade. Há crianças que passam verdadeiros tormentos por causa disto, não tanto pelo que significa (todos nós fizemos exames e sobrevivemos) mas pela pressão que os pais lhes incutem – “Vê lá não fiques atrás do João!” “Não apanhes pior nota que a Maria!” De facto, há pais que, como treinadores desportivos nunca iam fazer fortuna, tal é a ansiedade que vertem. São os mesmos que stressam imenso com os trabalhos de casa e os de férias - não há maior contra senso do que a frase “trabalhos de férias”, aliás.  Levantaria burburinho de sindicato caso a criança fosse um trabalhador, mas toda a mãe e todo o professor sabem do que falo.

 A criança trabalha mais do que um adulto, se formos a pensar corretamente. Deveria dormir bastante mais do que um adulto e ter mais horas de lazer porque, literalmente, aprende com a experiência da brincadeira. Mas a Educação está cheia de “metas” e corremos tanto para lá chegar, carregados de livros – em cada ano que passa, é maior o peso destes e mais a soma do dinheiro que se gasta neles. Livros são sabedoria mas quando saboreados com intenção, entendidos… Haverá tempo para tal quando os consumimos como pastilhas?

Nesta confusão, os alunos, como atletas magoados, irritam-se. Os professores, como treinadores, mal compreendidos, fazem o mesmo. Os pais, que são os mais fervorosos adeptos, invadem o campo. Não é raro jogarem todos contra todos.

As próprias férias são competitivas. Pergunta-se aos miúdos que férias tiveram e o desgraçado que não viajou, que não consumiu, é um falhado social. Como o é aquele que não tem Iphone ou Ipad ou roupa de marca. Desde cedo se ensina que a escadaria social importa.


Vivemos uma competição desregrada, mas sobretudo inútil porque estéril. O meu filho perguntou-me (por ocasião do desaire escolar de um amigo) se eu gostaria dele igualmente caso ele não fosse bom aluno. Ele gostaria de mim se eu não fosse professora da universidade? Ele ficou muito surpreendido, porque gostar de mim não tem nada a ver com a minha profissão. Pois eu gostar dele também em nada se relaciona com ele andar na escola a aprender… e a brincar, esfolar-se, arranjar namoradas, confundir vespas com abelhas, brigar e fazer as pazes com amigos e estragar as calças e os sapatos mensalmente. Ainda que eu dispensasse este último item. 

Friday, September 9, 2016

Agora que tenho a vossa atenção...


O boom que se deu no turismo em Portugal nos últimos anos teve consequências, sobre as quais já muito se escreveu – acerca dos prémios (Portugal, melhor destino turístico da Europa; Lisboa, melhor cidade europeia para viver; Portugal, país que mais prémios de turismo acumulou); acerca dos preços que aumentaram exponencialmente (nomeadamente no aluguer de apartamentos para quem quer viver cá e não é turista, ganhando um ordenado tuga!); acerca da diversidade cultural com que nos vimos a braços – embora os imigrantes já a tivessem, de pleno (eu diria de maior) direito, instaurado.

Isto tem piada quando se mistura aqui a questão do burkini. Primeiro, e para que a questão fique arrumada, esclareço que não sou nem contra nem a favor do burkini. Porque não tenho de ter nada a ver com a maneira como alguém se veste. Seria tão ridículo eu pronunciar-me contra ou a favor do burkini como contra ou a favor da gravata ou da minissaia. O resto é ruído à volta do assunto.

Há questões de bom gosto na(s) roupa(s)? Com certeza. E de bom senso também. Mas umas e outras ficam com quem as veste. Pessoalmente (sublinho que é “pessoalmente”) eu não gosto de ver homens com camisolas de clubes de futebol (exceto se forem mesmo jogadores) nem homens de gravata, ou mulheres de lantejoulas nem com padrões de zebra. E também não gosto de ver homens de lantejoulas e zebrados embora já ache uma certa piada a mulheres de gravata, dependendo do estilo.

 Mas, essencialmente, e aí é que está a questão: eu não tenho nada a ver com isso. Porque raio haviam os outros de se vestir para me agradar? E, mais importante, porque tenho eu de policiar a aparência alheia?

Disse-me um colega que a questão é as pessoas estarem vestidas na praia, o que já foi amplamente rebatido com o argumento dos mergulhadores, dos surfistas e das mulheres da Nazaré que andam mergulhadas na água com os seus saiotes. “Ui, mas a cara tapada”. Pura ignorância. Não existe cara tapada num burkini – nem na maior parte das vestimentas muçulmanas para mulheres, aliás.

“Ah, mas aquilo é um símbolo religioso.” Mas esperem!... O Estado não é laico? Então, se os Estados europeus são laicos permitem o uso de todo e qualquer símbolo religioso. Eu uso uma Estrela de David ao pescoço e nunca fui atacada por usar um símbolo judeu (sendo que sempre o usei, inclusive em país muçulmano); andei numa escola católica e a profusão de cruzes na parede era notável e notória. Quem não queria olhar, virava a cara.

“Oh, mas tu és feminista! Devias estar alegre por ver um homem a defender o direito à mulher não ser oprimida. O burkini é uma opressão.” Outra ignorância. O feminismo defende igualdade de direitos, e não é isso que vejo quando observo uns tipos fardados a obrigar uma mulher a despir-se porque os outros também estão despidos (nota: os polícias estavam vestidos na praia; deviam ter-se despido, segundo a regra “na praia não se pode ter tanta roupa”!). Suspeito que falamos de pessoas que gostam de controlar e não de ajudar a desoprimir… E qualquer controlador é perigoso – começa pela roupa, acaba não sabemos onde.

Mas se há homens tão subitamente preocupados com a opressão que algumas mulheres alegadamente sofrem por vestirem burkini, fico bem feliz. Porque seguramente esses homens estarão também muito interessados em combater os direitos desiguais que as mulheres sofrem a nível laboral e salarial (aí mesmo ao vosso lado), ao nível da justiça, o número incrível de violações e abusos que existem, a violência doméstica e sexual que passa impune, etc, etc. Ah… era só a roupa a mais na praia que incomodava? Bem me parecia. Eu compreendo. Eu também gosto de olhar para gente bonita. Mas elas têm o direito de querer que eu não olhe.