... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, August 3, 2018

O Imigrante Saudável



Em Julho passado, a revista científica Psychiatry Research publicou um estudo de Salas-Wright, Vaughn e outros da Universidade de Boston sobre os imigrantes e as doenças mentais nos E.U.A. que vem corroborar uma tese já existente chamada “healthy migrant”. Em síntese, esta tese sustem que existe um paradoxo na imigração: apesar de ser este um fenómeno que usualmente acarreta muito stress para o indivíduo / família e onde co-existem diversas adversidades pessoais, sociais e fenómenos de aculturação de dificuldade menor ou maior consoante os envolvidos, o certo é que os imigrantes sofrem de menores problemas comportamentais e menos doenças do foro mental quando estatisticamente comparados com a população nativa.

Esta tese não é nova. Existe, pelo menos, desde o ano 2000 (MacDonald, Universidade de New Brunswick), mas não é muito publicitada, sobretudo porque nos últimos anos a ideia de quase todo o mundo é fechar fronteiras e, como em todos os estudos, promovem-se apenas os que dão jeito à política atual.  

Voltemos à questão inicial. Como explicar esta elevada quota de imigrantes mentalmente saudáveis, mau grado as suas vidas serem mais complexas do que as dos nativos? Segundo os estudos, há mais do que uma razão. A primeira é a seleção inicial no país de origem, ou seja, só decide imigrar para longe quem tem coragem para tal. Muitos tinham as mesmas dificuldades, estavam na mesma situação, mas… preferiram não saltar. Só vai quem já tem um esquema mental de força e pragmatismo para enfrentar o novo e o risco, com o desconforto que isso exige. Desta seleção positiva inicial resulta que as famílias de imigrantes / os imigrantes reportam um baixo ou inexistente historial de problemas psíquicos. A segunda razão tem a ver com a sua vida pós-entrada no país de acolhimento. De forma geral, a situação pessoal e profissional do imigrante é mais dura do que a do nativo. Porém, a sua motivação e resiliência tem igualmente níveis muito superiores, o que faz com que uma situação causadora de ansiedade a um nativo não seja mais do que um encolher de ombros para o imigrante trabalhador.

Os estudos foram feitos em adultos e adolescentes (desde os 12 anos), demonstrando que existem menos doenças psiquiátricas, menos uso de álcool e de drogas e menos nível de criminalidade entre imigrantes do que entre nativos. Apontam, igualmente, para um estilo de vida mais saudável. Quanto às crianças, era esperado o que dizem: as crianças que imigram não demoram muito tempo para acolherem um país novo desde que imigrem com a sua figura de referência. De facto, dá-se o caso de se tornarem mais culturalmente parecidas com o país de acolhimento do que com a sua nacionalidade.

A nacionalidade do imigrante não era fator de diferenciação, pois foram analisados imigrantes da América Latina e do Sul, da Ásia, da África e da Europa. Apenas uma questão fica por saldar: os estudos não diferenciaram entre imigrantes voluntários e involuntários (i.e. refugiados e asilados), embora admitam que os últimos tenham uma (muito) elevada concentração de Stress Pós-Traumático, Depressão e Ansiedade que os primeiros, obviamente, não apresentam.

Dito isto, aquela conversa do imigrante criminoso, mal inserido e coitadinho… é tese que já foi.

Friday, July 20, 2018

Uma Escrita Assim Mais Masculina



Durante alguns meses, tive de combinar uma conferência com colegas com os quais só me correspondi por mail. Visto que o endereço da universidade não contempla o primeiro nome e a nossa assinatura formal tão pouco, o contacto realizou-se sempre nestes termos. Ao fim de vários mails, o meu interlocutor falou-me do “dia livre” e sugeriu que todos dessemos um passeio familiar, acompanhados das nossas mulheres e filhos. Respondi que era uma boa ideia, mas sendo eu heterossexual, restava-me levar o meu marido e filho. Acrescentei um sinal de “smile”. Desfazendo-se em desculpas, ele respondeu que jamais tinha pensado estar a falar com uma mulher, dado que a minha forma de escrever era “tão lógica, tão direta, tão pragmática”.

Claro que estamos a falar de missivas de trabalho, não de escrita ficcional (assim espero, embora haja casos que roçam o fantasioso, mas não vamos por aí). Seria inusitado se eu escrevesse de forma barroca, gótica, maneirista, simbolista ou romântica. Ainda assim, a situação coloca-me o velho dilema, tão discutido, da escrita feminina versus a escrita masculina.

Pessoalmente, não sou a favor da distinção.  Certa vez, assisti a uma palestra de um crítico (por respeito, não digo quem) em que ele defendia que certos géneros literários eram exclusivamente bem escritos no feminino e outros no masculino. Citou o Realismo Mágico sul americano de Isabel Allende e a Fantasia Contemporânea da autora de Harry Potter, J. K. Rowling, como géneros femininos. Mas também podia ter citado Gabriel Garcia Márquez para o primeiro caso e Tolkien e o seu Senhor dos Anéis para o segundo, o que destrói a sua teoria. Também citou o género criminal de Conan Doyle e o seu Sherlock Holmes como género masculino. Então e Agatha Christie?

Existe, claramente, um discurso masculino e um discurso feminino quando se escreve. Mas estes discursos podem ser assumidos por autores de diferentes géneros desde que sejam autores competentes para o fazer. Se “o poeta é um fingidor” então conseguirá fingir o que não é… mas para isso tem de ser exímio no que faz, o que não estará ao alcance de todos.

Outra questão prende-se com a experiência, se formos a favor da teoria que tudo aquilo sobre o que se escreve é previamente determinado (nem que seja um pouco) por experiências vividas de onde se retira um magma essencial que moldará a ficção posterior. Determinados assuntos são exclusivos da experiência feminina, como sejam a menstruação, a gravidez, o parto, o aleitamento, a menopausa, eventuais abortos e uma descarga de hormonas que os ginecologistas explicam bem. No entanto, não basta ser mulher para fazer literatura da experiência de o ser…

Concordo, sem sombra de dúvida, com uma identidade feminina diferente da masculina. Mas não com uma escrita feminina diferente da masculina. Criar divisões na Arte é menosprezá-la. A Literatura não precisa de género sexual para se definir; precisa de se definir em boa ou má. Se assim não for, como continuaremos a dizer que a Literatura que mais nos toca trata de experiências universais que dizem respeito a toda a condição humana?

Friday, July 6, 2018

Dar a Outra Face



Ultimamente, há uma ideia muito popularizada pela Psicologia de cordel (aquela que não se apoia em cientificidade, mas vende livros de autoajuda) e pelos Tribunais (basta vermos as decisões que vêm a público): é a ideia, profundamente cristã, de que a vítima deve perdoar. Por maior que tenha sido o crime, opina a corrente atual que a vítima não encontrará descanso se o perpetrador for culpado; pelo contrário, a paz advém do perdão.

Assim, todo aquele que diz que não perdoa é imediatamente considerado um indivíduo pouco avançado em termos espirituais, nestes tempos em que o Ocidente vê a espiritualidade como escada para o Nirvana – outra coisa da qual pouco percebe, porque os Orientais não concebem o perdão jamais, apenas se desligam a tal ponto que o Outro deixa de lhes interessar (ideia muito mais genial!).

A propósito, a BBC noticiou ontem um curioso episódio de uma mulher, Nancy Shore, que demonstra o ridículo destes perdões modernos. Nancy foi baleada na cabeça por um atirador contratado, negócio bem feito, em que este fingira ser um assaltante. O “assalto” vinha a ser planeado há três anos pelo marido de Nancy, que, vendo o tiro falhado (a bala foi alojar-se no pulmão) ainda fez o papel de ir acompanhar Nancy no Hospital, pesarosa e diariamente. A Polícia apanhou o atirador e chegou ao marido, descobrindo o enredo. Mas a parte interessante é a reação de Nancy.

“Tínhamos um casamento maravilhoso. O meu marido era muito gentil, gostava de mim. Muito dedicado aos meus filhos. Adora crianças.” Logo aqui, começo a suspeitar que a sra Shore sofre de negação da realidade. “Maravilhoso” será, no mínimo, hipérbole... Quanto a ser “gentil”, etc, bem sei que a bitola varia para todos nós, mas parecem-me qualidades incompatíveis com um assassinato planeado friamente ao longo de anos, com a hipocrisia de ser chorado copiosamente quando viu a tentativa lograda.

“Quando ele soube [o que acontecera], começou a chorar, descontrolado, ficou fora de si, como a minha filha o descreveu. Tentou fazer o que podia para me salvar.” A sra Shore não interiorizou que estas lágrimas do marido teriam sido perfeitamente evitáveis se… o próprio marido não a tivesse mandado matar! Mas o melhor está para vir, no modo benevolentemente patético como a sra Shore o desculpa: “Ele confessou, chorando muito [que o tinha feito] porque estava com outra mulher. E ele sabia que eu jamais me divorciaria dele! Claro que não lhe restava outra hipótese senão matar-me!”

Nancy Shore não tem dúvidas: “Ainda o amo. Não romanticamente, mas não se pode deixar de amar o pai dos nossos filhos. […] Ele sempre foi bom marido e pai até deixar de o ser.” Acrescenta Nancy, para rematar: “Tive de me divorciar porque ele foi condenado. Mas se ele sair da cadeia, poderemos voltar a casar. Eu já o perdoei. Se não o perdoasse, viveria amargurada.”

Vítimas assim são o sonho do Sistema atual. O Sistema que manda dar a outra face; que oferece “thoughts and prayers” mas não mexe um dedo para resolver situações. O problema é que pessoas desta qualidade não têm um pingo de auto preservação e instinto de sobrevivência e colocam em perigo também os outros, já que um predador raramente ataca uma presa só.



Friday, June 22, 2018

Imunidade Diplomática



Nos anos 80 e princípio de 90, Boris Becker era o campeão de ténis por excelência: ganhou 13 títulos Masters Series, medalha olímpica de ouro, foi o mais jovem jogador de sempre a ganhar Wimbledon com 17 anos.

Becker tinha um conjunto de qualidades que o fizeram entrar na bolha que o mundo reserva para as suas ilusões. Não parecia agressivo (a sociedade estava farta de tenistas como John McEnroe); chegou a aparecer em causas sociais; tinha um ar tão distante, e com tanta falta de colorido com aquelas pestanas amarelas, que apelou mesmo à publicidade e era fotografado por revistas de moda. À conta de um fenómeno que não é raro nos famosos, tornou-se atraente.

A sua fama declinou quando deixou de ganhar títulos, mas manteve-se por conta da publicidade e histórias da sua vida pessoal. Casou com uma mulher de origem africana, uma união que a sociedade não encarou bem, embora gostasse do contrastante colorido, especialmente quando ambos posaram nus em conjunto para uma revista. A polémica acentuou-se quando se divorciaram e Becker admitiu um confronto físico devido a um episódio de infidelidade. Tudo isto é só uma abertura para o que vem a seguir.

Em 2017, Boris Becker declarou falência no Reino Unido, curiosamente dois meses antes de ser declarado o Head of Men’s Tennis da Federação Alemã. Becker tinha pedido certa soma de dinheiro a um banco privado do Reino Unido, não a pagou e declarou que não tinha quaisquer condições de pagar. Premissa 1: estava falido, estava no Tribunal como réu. Premissa 2: continuava a ser uma estrela na sua terra, e no mundo. E agora Becker, como sair desta? Os advogados de Becker não tiveram dúvidas e fizeram o que qualquer advogado com dois dedos de testa faria: utilizaram a premissa 2 para que Becker se livrasse da premissa 1.

Alguns meses depois, em 2018, os advogados de Becker declararam que as questões em Tribunal estão terminadas porque Becker tem “imunidade diplomática” visto que foi nomeado adido diplomático para o desporto e cultura da República Central Africana na União Europeia.

A primeira coisa que ocorre é “conveniente”.  A segunda é ir procurar ao mapa onde fica a RCA, que, provavelmente, nunca teve na UE tanta importância como tem hoje. Mas eu ainda duvido desta realidade: a RCA serve-se de Becker para ganhar notoriedade na UE? Ou Becker serve-se da RCA para escapar ao Tribunal? Quanto a mim, é a segunda! Aguardo resultados para a RCA, porque até agora quem os obteve foi Becker.

Li o testemunho de Becker (outra coisa negativa é a necessidade de recorrer aos media para estas defesas de caráter), dizendo que tinha aceite o convite “também com intenção de pôr termo a esta farsa criada contra ele”. Por último, note-se que este posto diplomático não existia até agora… não é preciso muito para verificar que foi criado à medida para que Becker o ocupasse!

Imunidade política é conveniente para quem a usa, claro. Mas estas próprias palavras “conveniência”, “uso” e mesmo “imunidade”… não são, por si mesmas, prova de que algo está muito podre?

Thursday, June 7, 2018

Quo vadis Miss América?


O concurso Miss América anunciou que vai deixar de julgar a aparência física. Todas podem concorrer, independentemente das medidas, e não haverá mais provas reveladoras do corpo. Eu abomino concursos de Miss, mas dizer que a Miss América vai passar a valorizar o intelecto e o espírito é mais ou menos como um vegetariano que vai passar a comer bacon com sabor a alface. Temos de ter a frontalidade de não mascarar as coisas e de as assumir como são. Quem quer, participa ou vê; quem não quer, opta por outra coisa.

Estou a falar dos concursos de adultas capazes de fazerem as suas escolhas. Não de outros concursos Pageant que são os concursos infantis, com meninas maquilhadas e em fralda de folhos, bamboleando saltos altos. Este vómito devia ser proibido por lei. Essas crianças não escolheram nada e são vítimas de mães que as vendem nessas exibições. Além disso, esses concursos são uma montra para pedófilos.

Voltando ao concurso de Miss, não posso concordar com a sua existência e regras obsoletas, patriarcais, denegridoras: só podem concorrer mulheres solteiras e sem filhos porque as outras já estão estragadas (já dizia cruelmente certa familiar minha que a única espécie em que a fêmea vale mais depois de ter filhos é a vaca), exibição do corpo feminino em montra como se estivesse num talho em que os compradores escolhem o melhor bocado (continua a metáfora de gado), promoção da competição entre as mulheres e da ideia de que terá sucesso (por um efémero ano!) aquela cujo corpo mais agradar aos homens. Está tudo errado nesse concurso, até as perguntas risíveis às concorrentes em que elas, angelicais, dizem que o mais querem é a paz no mundo e o fim da fome e da guerra. Também eu, o Guterres, e até a claque do Sporting desejamos o mesmo – cada um com a modesta contribuição que se verifica, mutatis mutandis.

Mas não sou hipócrita ao ponto de dizer que estes concursos devem continuar a existir, só que mudando de regras – é isto que se vai fazer. Pretende-se uma Miss América, versão Einstein/ Madre Teresa. Acabam com os desfiles de bikini e vestido aberto, porque “abaixo o corpo”. No entanto, visto que também somos contra a opressão de burkas e afins, interrogo-me como irão as candidatas desfilar? Terão liberdade de escolha? Penso que não. Sem liberdade lá se vão o feminismo e o humanismo.

Pretende-se uma exibição das qualidades intelectuais das candidatas (provas de raciocínio, interpretação? A dúvida consome-me!)  e espirituais (qual a medida da espiritualidade?!). As pessoas menos dotadas fisicamente podem concorrer (quanto mais não seja para sofrerem bullying na internet o resto da vida com memes deste acontecimento).

Esta elevação intelectual a par de uma orientação inclusiva do concurso de Miss não é de louvar… é de rir. Não sejamos politicamente corretos, mas sim verticais e acabemos com os concursos em vez de os transformar numa palhaçada diferente, sem sentido. Entra nesta moda atual de tudo poder ser outra coisa, uma moda perigosa porque vai acabar, em última instância, com o método científico, a lógica, a racionalidade do ser humano. Dou um máximo de dois anos para o concurso Miss América aceitar também homens concorrentes. Afinal, a palavra Miss pode ser tanta coisa se tivermos a mente aberta - e o dicionário fechado.


Thursday, May 24, 2018

A aldeia global versus o pé da Luisinha



“A mesma dura lei física rege a acústica e a sensibilidade” dizia Eça de Queiroz, para expressar que quanto mais distantes as coisas se encontram de nós no espaço menos nos impressionam.

A este propósito, Eça escreveu um delicioso texto que bem o demonstra, em que numa sala portuguesa um grupo de amigos, ao serão, ouve distraidamente uma dama que folheia o jornal e vai lendo alto as notícias. As notícias são desastres que a loira e serena narradora desfia com mansidão.

 Na ilha de Java, um terramoto matara duas mil pessoas – o que a ninguém da sala interessou, mau grado o supremo infortúnio que caíra sob esse obscuro formigueiro de gente indonésia. Continua a narradora loira, desta vez falando de um rio que transbordara na Hungria, destruindo vilas e homens. Aqui, já alguém reage, bocejando com preguiça “Que desgraça!”. De facto, da remota e vaga Java (sabe-se lá onde seja ao certo) para a europeia Hungria, a diferença faz-se sentir. A delicada senhora prossegue, e a desgraça aproxima-se no mapa: na Bélgica, tropas tinham atacado uma greve operária, matando crianças e mulheres. Já um maior número de interlocutores se anima: “Que horror, pobre gente!”  Continua a descrição: na fronteira do sul da França, um comboio descarrilara, três mortos, alguns feridos. Desta vez, a comoção é sentida. Um comboio, onde muito possivelmente viajavam portugueses! Quem sabe se se destinava mesmo a Portugal! O lamento, geral ainda que breve, partiu de todas as poltronas onde os convivas gozavam a sua segurança.

É aqui que a delicada senhora vira a página e se emociona, dolorida, ao dar de caras com a notícia de uma desgraça local: “A Luisinha Carneiro da Bela-Vista… esta manhã… desmanchou um pé!” Toda a sala vibra em desgosto e comoção. Eça descreve, com muita verve, “a sombra ligeira e remota” dos “dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes, guerras… tudo desaparecera. Mas o pé da Luisinha esmagava os nossos corações! Pudera! Todos a conhecíamos!”

Passados dois séculos sobre este texto, o que mudou? A aldeia global trazida pelos media, o conhecimento à distância de um click proporcionado pela internet, que efeito tiveram no nosso afecto? É verdade que, mesmo quem nunca viajou, pode hoje sentir-se mais próximo de Java e da Hungria e talvez já lá tenha “estado” de certo modo, vendo fotos e filmes. Mas dificilmente isso fará com que tenha maior comiseração por esse povo, cuja distância sentimental continua a ser enorme, sem um conhecimento quotidiano de trocas e vivências. Foi também Eça quem falou sobre a “abominável influência da distância sobre o nosso imperfeito coração”, exatamente para referir que “a distância e o tempo fazem das mais grossas tragédias ligeiras notícias – onde nenhum espírito são, bem equilibrado, encontra motivo de angústia.”

A sabedoria popular diz “olhos que não vêem, coração que não sente”. Este adágio explica o porquê de não sentir com arrepio, não entender com empatia povos distantes. As pessoas e os acontecimentos interessam-nos na medida em que nos são próximos. Assim, a guerra na Síria ou o drama dos milhões de refugiados interessam-nos menos do que o pé torcido de alguma Luisinha amiga durante a procissão do Senhor Santo Cristo.


Friday, May 11, 2018

Síndroma de Resignação



Não sei o que tem a Suécia, mas há síndromas peculiares que por lá nascem e se tornam famosos no mundo inteiro (vide o de Estocolmo). Este é mais um deles.

Os primeiros casos apareceram nos anos 90, mas só na década seguinte se começou a dar importância médica às centenas de casos que afetam apenas crianças e adolescentes de famílias de refugiados ameaçados de deportação. Na primeira década de 2000, havia tantos casos que os refugiados foram acusados de estarem a drogar os filhos bem como as crianças e adolescentes afetados foram sistematicamente acusados de estar a fingir. Mas nenhuma destas teses foi provada. Pelo contrário. Testando os pacientes com toda a sorte de estímulos, os observadores não conseguiram nunca obter deles nenhuma reação e renderam-se às evidências: os pacientes estavam resignados a não viver, como se tivessem escolhido um coma voluntário.

O que é o Síndroma da Resignação? É uma espécie de apatia que vai evoluindo até à catatonia absoluta, de tal forma que a criança/adolescente afetado passa a ter de ser alimentado por tubo. Não fala, não abre os olhos, não demonstra sede, fome ou outra necessidade básica.  Não responde à dor, ao toque, ou à luz, perde os reflexos. Vive como um comatoso, completamente desligado do mundo, não fosse o cuidado da família que o mantém em casa.

Todos os afetados mantêm um pulso normal, condições cerebrais e cardíacas normais e eram crianças/jovens fisicamente saudáveis antes do episódio. Em comum, têm todos também o facto de terem passado por situações muito violentas e terem vivido em ambientes extremamente inseguros, situações das quais ambicionavam poder escapar através do pedido de asilo das famílias na Suécia. A todas estas famílias o pedido foi negado, o que só ocorre um par de anos após o pedido ser feito, e é depois desta negação que o paciente começa a sofrer do Síndroma, rapidamente evolutivo.

Não é preciso ser génio para perceber a ligação entre a expectativa gorada de uma vida nova, livre do trauma, e o início desta misteriosa “morte em vida” que só afeta juvenis. De facto, há casos reportados de jovens cujas famílias conseguiram ganhar o caso de asilo posteriormente, através de apelação, e assim que estes comatosos souberam que não iriam voltar à vida anterior mas iriam, sim, ficar na Suécia, o Síndroma entrou progressivamente em remissão e a recuperação foi completa!

Os céticos dirão já que os miúdos estão a tentar compadecer o próximo. Mas os médicos afirmam o contrário. Quem conseguiria ficar sem reação à dor, sobretudo uma criança? E qual a criança consegue ficar anos sem se mexer e sem abrir os olhos?

Os estudos são ainda poucos sobre este Síndroma da Resignação, mas diz-se que não é novidade no mundo. Já nos campos nazis havia algo semelhante e entre os refugiados no Reino Unido há algo com os mesmos sintomas a que os ingleses chamam Síndroma de Recusa Generalizada. Pessoalmente, porque acredito que estes meninos não estão esquecidos de viver, mas sim a lutar pela vida com as armas que possuem, prefiro a designação inglesa.