... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, June 4, 1993

Um olhar sobre "Permanências"


O Clube de Leitura da Escola Secundária Antero de Quental organizou um debate sobre o livro Permanências de Judite Jorge. A obra - que valeu à autora o Prémio Nunes da Rosa - foi lida por grande parte dos alunos do Curso Secundário que, tocados pela mensagem do livro e sensibilizados pela sua história, não resistiram a ver de perto a autora. 

Quando Judite Jorge se dispôs a com eles trocar impressões sobre o livro e responder às questões que lhes tivessem sido sugeridas pela sua leitura, a curiosidade foi, em alguns, ofuscada pelo acanhamento. Mas a primeira questão levantada e a naturalidade e franqueza da autora do livro depressa quebraram a barreira inicial. 

Tornou-se visível que muitos dos jovens presentes sentiam na pele a problemática da obra. A indecisão entre permanecer na ilha e sair dela, entre limitar-se à teia em que vivem - que, apesar de apertar e por vezes até exasperar, é também a teia que envolve e protege - ocupa também os seus pensamentos. Para alguns, a identificação espiritual com a personagem principal do livro foi uma realidade e, por isso, se tornou urgente unir o seu próprio fio de pensamento ao da autora. 

A ideologia da obra foi sentida e as perguntas colocadas pelos estudantes eram mais desejo de confirmação do que dúvidas. Judite Jorge foi concordando com impressões, desfazendo pequenos equívocos, saciando a ânsia de saber e, quando a maior parte das pessoas já tinha serenado quanto aos sentimentos que o livro deixa transparecer, surgiu a inevitável questão: teria a autora escrito para si, com o coração e a memória, ou o livro teria sido artificializado com recursos estilísticos pensados tendo em vista a aceitação do público? 
Judite Jorge revelou, então, a espontaneidade da sua obra. Não, não forçara a sua escrita, tudo tinha sido puro e genuíno. 

Esta sinceridade da obra foi, com certeza, a razão que cativou a atenção dos jovens para ela, que, de certo modo, "pagaram" a revelação que a autora fez de si com a identificação deles próprios. 

O debate teve de terminar, já que o quotidiano e as obrigações diárias apenas nos concedem pouco tempo para a partilha de ideias. Mas o seu efeito valeu decerto muito mais do que cinco ou seis aulas de Literatura, já que o amor à escrita não se ganha por formas rígidas. 

A autora de Permanências despediu-se com um conselho: "Se alguém tiver em si o bichinho da escrita, por favor não o deixe adormecer!" É possível que, no futuro, os olhos que brilharam ao ouvir esta frase estejam a partilhar um livro seu com dezenas de jovens apaixonados por ele. 


N.B.: Este artigo foi feito a pedido do Clube de Leitura da ESAQ, que necessitava de enviar um artigo para o jornal Açoriano Oriental. Encontrei-o agora, vinte anos depois, datado e tão cheio de traças-do-papel, que tive de o colocar no lixo, pelo que o transcrevo para aqui e não se perde a homenagem infantil que fiz à obra nesses tempos.