... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, December 21, 2012

Boas aparências


Estamos na época delas, geralmente mascaradas de boas vontades: acções solidárias em praça pública, grandes campanhas de instituições que se dedicam “a aliviar o sofrimento dos mais desfavorecidos” (”pobre” é tabu), recolhas de brinquedos e roupas usadas, a generosidade em escaparate de montra, com focos de luz incidindo para que se torne ainda mais notada.

A caridade de fachada sempre existiu. Mas as novas tecnologias elevaram-na ao seu expoente máximo. Qualquer rede social, como boa ferramenta publicitária, serve também para este novo conceito que se chama “O marketing da generosidade” – se alguém duvida desta noção, basta googlar “generosity marketing strategy” e verificará que muitas empresas utilizam a generosidade como ferramenta de marketing, ensinando que parecer é muito mais importante do que ser.

Se o importante é parecer, nada melhor do que chamar a atenção para a aparência. Os que são realmente bons actores conseguem aparentar um ar bastante interessado nas misérias humanas (malgré o seu absoluto desinteresse até pelos que com eles vivem). Os “social media” são, pois, os canais perfeitos para fazer circular a ideia desta grande construção com pés de barro que é a generosidade falsa. Por cá, temos muitos exemplos, mas quase todos pecam pela óbvia natureza – portanto, deixo aqui um conselho aos nossos falsos generosos (dando-lhes do mesmo remédio): atentem no Facebook de alguns políticos nacionais.

Nestas coisas, o mestre é Paulo Portas. Apesar de Paulo Portas ser pouco amado, nenhum soube dar como ele a impressão de que é o maior e o mais querido. Posts e fotografias cuidadosamente escolhidos dão a impressão de estarmos perante um ser absurdamente dinâmico e trabalhador, porém atento ao pormenor, e ainda amigo de todos - as pessoas são “um bálsamo de força”, ele “agradece as opiniões e conselhos de todos (nós)”, dá graças pelo “apoio e comentários que ainda não li mas vou agora ler”, e outras coisas que colocam qualquer ser, por mais tolinho e longínquo do Ministro (desde que com acesso ao Facebook) um imediato seu correligionário, inchado da sua aparente importância. E isto em todo o país: Portas adora “as ilhas dos Açores”, acha “lindíssimo” o Alentejo, não consegue ficar muito tempo longe do centro – todos estamos lá, todos pertencemos a este largo coração viajante, mas concentrado no que importa. Com tanto elogio generoso e grátis que faz ao mundo, Portas facilmente consegue o que qualquer narcisista procura: que o elogiem de volta. Este senhor, essencialmente snob por todas as razões (incluindo berço mas sobretudo feitio) transmite a ideia de ser um Lula da Silva à portuguesa, fruto e filho da terra, não tardando que alguns sonhem com ele a cantar a Grândola.

As fotografias são outra maravilha. Portas sabe que podia ser mais atraente… Mas tem fotos tão bem tiradas, com um riso tão resplandecente que qualquer um esquece o seu ar habitual e nada indica aquela vida íntima tão murmurada (absolutamente contrária a todos os seus preceitos ultra-cristãos). De resto, para além de rasgados sorrisos, abraços e paisagens, Portas tem fotos “de equipa”, uma equipa que ele também não se cansa de elogiar, ou não fossem os colaboradores outra fonte de ego-trip.

Caros cultivadores da aparência, só se pescam peixes se lhes dermos isco. Mas, já agora, façam a coisa como deve ser. Por sermos pequenos, não somos palco para amadores.

Wednesday, December 19, 2012

"Açores" segundo uma menina que já não existe


Há 30 anos, eu era pequena e os Açores eram completamente diferentes do que são hoje.

De quando era criança, recordo uns Açores muito rurais, onde às vezes passavam cavalos a par dos carros, pois na época esse era o meio de transporte dos lavradores que vinham à cidade tratar de afazeres.

Para todo o lado que fossemos, encontrávamos vacas. Era impossível ir dar um passeio “ao campo” (pomposo nome com se designavam as freguesias) sem ter de parar o carro por causa das vacas no meio da estrada; passava-se ali tanto tempo como num engarrafamento.

As bolachas e rosquilhas feitas em casa eram prática semanal para muitas famílias; outras coziam massa sovada e bolo ou pão de milho e outros torciam alfenim (tudo dependia da ilha onde se tinha nascido). Esses acepipes hoje servidos aos turistas como delícias tradicionais eram coisas corriqueiras.  

O padeiro andava de porta em porta; o leiteiro também. Vinham de manhã, numas motas com caixa larga atrás, e foi assim que aprendi a fazer as primeiras contas. Era uma poluição sonora sem par, o leite era “leite do dia” em saquinhos e o pão só tinha duas variedades – não se conheciam todos estes pães com passas, cereais, sementes e ninguém se preocupava em comer pão integral.

Nas festas com arraiais, era normal comer bombons de açúcar, daqueles que se vendem na rua. Hoje, as mães dizem “credo, que nojo, isso é só porcaria!” e fazem a conta à glicémia.

Havia loicinhas de barro para as crianças, a dita loiça da Vila. Hoje, os artesãos da loiça da Vila desapareceram porque se dermos loicinha de barro às crianças somos acusados de termos fornecido brinquedos não homologados pelas normas da União Europeia. De facto, de acordo com as normas de hoje em dia, ser criança há 30 anos era tão perigoso que é um milagre termos escapado razoavelmente inteiros.

A educação era, sem dúvida, diferente. Pessoalmente, como fui criada pelos meus avós e tive a invulgar sorte de ter a mesma professora e a mesma turma nos 4 anos da Primária, tenho uma lembrança muito viva, alimentada pelas conversas que ainda hoje mantenho com estes colegas quando nos juntamos. Contrariamente aos dias correntes, podíamos não passar de classe se não soubéssemos o suficiente, a professora tinha o direito de nos bater nas mãos com régua e de nos castigar. A escola era uma instituição: trocavam-se roupas, brinquedos e alguns fugiam de famílias onde viviam vidas de fazer corar argumentistas dramáticos.

Na escola, tínhamos de cantar canções religiosas e rezar à imagem da Virgem Maria. Os que não eram católicos estavam dispensados de rezar; mas a influência das outras crianças era tão grande que todos acabávamos por rezar na mesma. Foi um truque que deu resultado pois hoje sei mais sobre o Catolicismo do que muitos católicos.

Na escola primária, decorávamos rios e distritos do nosso país, sendo que nas nossas ilhas não havia rios nem distritos, nem tão pouco zonas de “gado ovino e cavalar” (Baixo Alentejo e Santarém… ainda recordo ter falhado esta pergunta na terceira classe).

Ainda não havia whale-watching. Matar baleias não era crime e ninguém achava que o mar era um parque de diversões. A tourada ainda não era um problema, era só tradição. Ninguém precisava de guia para subir o Pico. Ninguém reciclava o lixo e as fraldas não eram descartáveis.

Os romeiros não suscitavam reportagens de TV; apenas respeito. Relembro um intercâmbio que a Primária do Nordeste de S. Miguel fez connosco e foi como se estivéssemos recebendo uma delegação estrangeira, tão longe essa terra era e tão deslocados estavam de tudo.

As Lagoas das Sete Cidades eram claramente uma verde e outra azul e eram lindíssimas. Hoje, são ambas verdes, plenas de limos, mas continua-se a vender o produto turístico como se nada tivesse mudado. A beleza desapareceu – embora todos finjam que não e até a considerem uma Maravilha de Portugal. O tempo tudo muda mas o ser humano, cegamente teimoso, vai preservando a ideia quando a realidade já morreu.

No Natal, havia laranjas e grãos que germinavam em tigelinhas. O São Nicolau bem depressa passou a Pai Natal. O bacalhau entrou na tradição não sei bem como, porque em minha casa comia-se frango…

Com 5 anos, eu tive infância nestes Açores. Hoje, são outra verdade. O Hospital onde nasci já não existe – é um grande edifício vazio e inútil. As casas onde morei são prédios de apartamentos onde vivem universitários que ignoram que ali havia árvores. Mas, certamente, reciclam o lixo. Certamente, hoje, a vida é melhor nestes Açores. Sucede que, porém, já não são a minha terra nem eu sou essa menina.

Por isso, em certos dias, apetece dizer como Nemésio quando regressou à Terceira e, olhando-a, já não a reconheceu como sua: “Começamos a ser estrangeiros onde nascemos, ou como?!”

Friday, December 7, 2012

Vendas no Templo


Não sei quando é que as Universidades começaram a fazer Open Days e outras campanhas de marketing. A primeira vez que o vi, lecionava numa Universidade da América do Norte e foi espantoso verificar a importância que tal tinha. Até então, eu só tinha estudado e trabalhado em universidades europeias, onde não se cultivava ainda o conceito de mercantilização das instituições do ensino superior.

De lá até então, sinto que o caminho foi feito neste sentido, sobretudo desde Bolonha. Nos Açores, há Professores cujo conhecimento sobre a Academia lato sensu e a experiência pedagógica constituem uma mais valia para se pronunciarem sobre o ensino, pelo que estas linhas não pretendem ser nada mais do que uma opinião (breve gizado em espaço exíguo) de quem lecionou e leciona no Ensino Superior.

As razões pelas quais uma Universidade se torna apetecível podem ser de vária ordem. Mas essas não são, necessariamente, as mesmas razões que fazem dela uma Universidade de qualidade…

Atualmente, há uma tentação para “vender” as Universidades, o que advém do panorama financeiro que atravessamos. Para tal, utilizam-se os mais diversos atrativos, passando a Instituição a ser um produto, em concorrência com outros tantos, que pretende cativar público, ao invés de ser aquilo para que foi criada: um templo de busca do conhecimento (e não “um templo do saber” que seria uma perspetiva estática e arrogantemente fechada a um grupo de – quiçá auto-denominados – escolhidos). Na ideal tentativa de tentar alcançar sempre um patamar científico mais elevado, não se pretenderia que a Universidade fosse impenetrável à comunidade e muito menos murada a qualquer tipo de conhecimento. Mas esses bons propósitos sobre a abertura da Academia ao mundo e aos mundos – magistralmente ficcionalizados numa obra literária de Herman Hesse – acabaram por ser mal interpretados por quem de direito e aí temos que não só se abriram as portas a toda a gente, quase deixando de haver critérios de seleção, como estão as Universidades famintas por alunos, a quem tentam agradar o mais possível.

De local de eleição, a Universidade passou a local vulgarizado. De que vale hoje uma licenciatura? Tirando a óbvia conjuntura da fraca empregabilidade – que, aliás, não tem relação direta com os estudos desde há anos -, a licenciatura não só deixou de ter valor enquanto título académico como passou também a ser um motivo de troça. Todos conhecemos as piadas que se fazem sobre licenciaturas, nomeadamente sobre as que são conseguidas em determinadas Universidades e sobre as de certos dirigentes políticos…

Os mestrados vão pelo mesmo caminho. Desde que o Mestrado de Bolonha passou a ser equivalente à antiga Licenciatura que o Mestrado pré-Bolonha vem perdendo todo o crédito e hoje só o Doutoramento vale algo. Porém, tendo em conta que se podem comprar teses de Doutoramento a professores que, devido à crise nas Universidades, entraram no desemprego precoce, também o Doutoramento é pouco reconhecido.

Perante tudo isto, quo vadis? Não sei, mas como dizia o poeta, “sei que não vou por aí”. 

Friday, November 23, 2012

Varandas de Pilatos


O que se segue é uma história verídica. Não revelo nomes, pelo que não cometo indiscrições. Mas não podia deixar de a contar, já que uma das principais razões pelas quais o mundo não avança é a tendência que todos temos de olhar apenas para os nossos problemas. 

Uma jovem ficou com uma equimose no olho em resultado de uma briga com o namorado. Não se pode dizer que foi surpreendente; afinal, o rapaz mudava de temperamento com frequência e ora era muito romântico ora se exaltava ao ponto de pontapés. De qualquer forma, o ponto desta história não é julgar este relacionamento; para isso, não faltam alguns teorizadores da violência que até garantem transformar um abusador num companheiro em 15 epifânicas sessões de mudança comportamental.

O ponto desta história é que, no dia do “olho negro”, esta jovem disse “basta” e foi ao hospital. Teve sorte – ou não – e “apanhou” a sua médica habitual, a quem contou o sucedido. Quando uma vítima de violência decide contar o que se passa podemos não só admitir que os factos já acontecem há algum tempo como também temos de ter em conta que foi preciso ultrapassar muitos sentimentos íntimos para fazer a revelação, entre eles medo e vergonha. É à conta do pudor que se sente em contar coisas tão humilhantes e do receio de que possa acontecer algo pior caso o abusador venha a saber da revelação que a indecisão em contar se mantém por tanto tempo. É neste silêncio que confiam todos os que violentam outras pessoas. É neste mesmo tipo de silêncio que confiam os que abusam de crianças (mas esses inventam ainda a desculpa adicional da “imaginação influenciável do menor”, muito na moda nos tribunais e com uma espantosa aceitação por parte dos decisores).

Não é preciso um doutoramento em Psicologia para chegar à conclusão de que a jovem necessitou de muita força de vontade para falar com a sua médica nesse dia. A Sra Dra, porém, respondeu que tudo o que diziam entre aquelas quatro paredes estava abrangido pelo segredo médico e que não se metia em confusões de namorados, pelo que não podia revelar nada do que lhe estava a ser confiado: “Mas desejo que as coisas se resolvam pelo melhor!” Na cabeça da jovem, a conversa das quatro paredes recordou-lhe um episódio em que também o namorado lhe tinha dito, numa das suas fúrias, “Tudo o que fazemos aqui ninguém sabe lá fora!” e a Sra Dra pareceu-lhe tão ambígua e, de certo modo, tão violenta como ele.

Vejamos: se a menina apenas quisesse falar sobre o pesado assunto mas pedisse à médica que não revelasse nada judicialmente (o que, nestes casos, acontece às vezes, embora isso vos possa parecer paradoxal e até pudesse dividir a médica entre estar ao corrente de um crime público e ter um pedido de segredo) eu entendia perfeitamente que a Sra Dra não falasse, por respeito ao pedido. Mas, neste caso, a menina pediu socorro, pediu que fosse relatado o acto. É um chocante conveniente lavar de mãos desta médica, que, ademais, não põe em causa a veracidade do testemunho.

O que eu espero, por mero acaso, é que a Sra Dra esteja agora a ler o jornal, talvez à mesa do pequeno almoço, confortavelmente. E agora, páre, se faz favor. Repare nos seus filhos, moldados pelas suas acções. Olhe para a sua filha adolescente. Imagine-a com um olho negro. E agora, levante-se, vá para o Hospital, vista a bata e faça a sua vida… como habitualmente. Lave as mãos como se nada fosse. 

Sunday, November 11, 2012

What Makes Açores Look Like Açores?



Na última edição do Fazendo, o Tomás Melo escreveu um texto chamado What makes Açores look like Açores? A pergunta é mais provocatória do que parece! Foi assim que nos surgiu a ideia de tentar saber o que torna os Açores únicos. A busca há-de continuar nas próximas edições do Fazendo. Para já, aqui ficam as respostas a essa pergunta de alguns estrangeiros que moraram ou moram nos Açores. Iniciámos a “busca” com estrangeiros porque nada mais claro do que o olhar de quem aqui chega e se encanta (ou não…) De propósito, escolhemos pessoas muito diferentes umas das outras. E, afinal, o que torna os Açores especiais não é tão óbvio como se possa pensar!



Eleni Kouris (grega, empresária, vive nos Açores)
O oceano que rodeia os Açores dá-nos uma mensagem de tranquilidade mesmo no Inverno; é selvagem e encantador! Quando, de manhã, passamos pela via rápida e vemos os pastos e colinas verdes cheios de vacas, lembramo-nos que há um Deus e que existe mais vida para além dos nossos dramas diários. O problema é que os estrangeiros não são muito bem aceites porque a sociedade é muito fechada, e isso faz com que a ilha se torne um pouco triste e melancólica!



Tom Quilty (inglês, consultor, viveu nos Açores)
É um sítio tão absolutamente diferente. A simpatia das pessoas, a topografia da terra, a geografia das nove ilhas e a possibilidade de poder escapar totalmente da vida citadina. Além disso, penso que o facto de sabermos que estamos tão longe de uma plataforma continental tanto a este como a oeste faz com que nos sintamos mais separados de tudo, e torna tudo mais remoto e mais excitante.



Cátia Benedetti (italiana, professora e tradutora, vive nos Açores)
Os Açores têm para mim a dimensão social certa: uma comunidade humana em que nem todos se conhecem, mas uma proximidade que nos protege das solidões metropolitanas. Nem o sufoco dos grupos fechados, nem o anonimato que nos nega o ser. Aqui todos, afinal, viemos de outro sítio qualquer, e longamente descobrimos as nossas histórias, partilhando os destinos, as memórias e o esquecimento. E depois: o mar, obviamente, a luz instável, a vegetação que logo toma conta de qualquer espaço que o homem abandona. Os vulcões, os ventos, os dias serenos e as chuvas torrenciais. Outras tantas lições de relatividade: a noção da impermanência que realça o valor das existências individuais.




François Dalaine (francês, professor, viveu nos Açores)
Paisagens… Pouca gente mas boa gente que nos dá comida e boleia… Estar fechado… O mar, baleias… Fajãs e caminhos… E uma amizade que não se esquece.


Irene Sempere (espanhola, bióloga marinha, viveu nos Açores)
O mar, a vida selvagem, as paisagens, a geotermia, o clima com quatro estações num dia, a vida dos marinheiros que passam e as suas histórias. Os Açores estão longe de ser as únicas ilhas que estão no meio do Atlântico, mas há qualquer coisa de muito diferente num sítio onde há mais vacas do que pessoas.



Eduardo Bettencourt Pinto (angolano, escritor, viveu nos Açores)
Em 2012, já não entro em Ponta Delgada como antigamente: pela Avenida Mónaco abaixo sob uma dança de nuvens, até desembocar emocionado na Rua de Lisboa. Logo a seguir, e voltando à esquerda na Rua da Vila Nova, subir devagar, como quem bebe o passado, até à casa da minha mãe. Agora quando saio do aeroporto, estou numa autoestrada europeia. No entanto, mesmo que perdidas algumas referências, reconheço que estou na ilha e rente aos braços do mar. Não sou objetivo, eu sei. Sou emocional. O amor, um grande amor, tem destas coisas. A verdade, porém, é que os Açores não são apenas as inúmeras vozes dos meus parentes e dos meus mortos. São também esta aliança de luz e sombra, esta catarse, estas lágrimas de pedra que acaricio com o olhar na viagem apaixonada pela cidade, passo a passo, redescobrindo em mim as mais inextricáveis raízes.



Elena Brindani (italiana, pintora, viveu nos Açores)
Os Açores são uma terra de passagem para muitos. Para mim, representam o período em que ganhei a independência verdadeira e só ficando tão longe do meu mundo o podia conseguir. As ilhas ficam impressas na história da minha vida.



Gerbrand Michielsen (holandês, guia de birdwatching, vive nos Açores)
Sempre sonhei viver perto do mar e num sítio onde pudesse apanhar o maior peixe do mundo. Depois fiquei mais velho e o desejo do peixe mudou para o sonho de encontrar o mais raro pássaro vindo do continente americano. As paixões fazem-nos ficar amarrados a um lugar e nem mesmo o maior temporal me podia agora arrancar destes rochedos verdes. A única razão que me permite conseguir viver no meio do oceano é que vivo em nove pequenos mundos e saltar de um deles para os outros permite-me escapar da claustrofobia de cada um.  



Anónima identificada (cidadã de Leste, professora, vive nos Açores)
É um povo com bom coração, caloroso e simpático. Mas, ao mesmo tempo, percebes que afinal é obrigado a ser simpático para sobreviver, é uma questão hipócrita. A “simpatia” alimenta a vida social num meio muito fechado e as pessoas usam isso para nunca serem odiadas pelos outros – é uma forma conveniente de existir. A nível profissional, a vida torna-se muito fácil, porque as pessoas são pouco exigentes, têm poucos objectivos de vida e dão muita “graxa”. Quanto mais vives assim, mais percebes que não é aceitável mas por outro lado já estás adaptado porque se não fizeres o mesmo não sobrevives.
A natureza é óptima.  Mas, culturalmente, faltam um teatro de ópera, um ballet e admiro-me como é possível viver assim… Para mim, este choque cultural foi e é enorme.
Ninguém cumpre prazos nem horários; as reuniões de trabalho não servem para resolver nada, servem para dizer mal de quem não está e concluir que não podemos modificar o estado geral. Mas o lado positivo é que as pessoas têm um grande sentido de humor e divertem-se com tudo.
Resumindo, a característica principal é o isolamento: Açores estão à parte do mundo, separados. Vivemos como que “a fingir”. O que quer que seja que se consiga, o comentário é “está muito bom, assim já é muito bom!” e nada avança para realmente bom. Os Açores são um paradoxo: um paraíso que te permite desligares-te do mundo, mas vivendo sempre dependente dele!



Jorge Bonet (espanhol, biólogo, viveu nos Açores)
São um lugar onde o ritmo de vida é mais lento para que se possa aproveitar a natureza que nos rodeia. Podes aí dar-te conta da imensidade do oceano e das maravilhas que o habitam. Outra coisa interessante destas ilhas é o modo como as tradições e costumes variam de umas para as outras, mesmo no que diz respeito à personalidade – base dos habitantes de cada ilha. Cada ilha é muito singular, embora pertença ao conjunto Açores.
A riqueza dos Açores também se mede pela gastronomia e aí os Açores estão em muito boa posição, porque têm uma excelente variedade culinária.
A nível pessoal, conheci gente incrível. Não os vejo muito, mas continuam a fazer parte da minha vida. Quem vai aos Açores, enamora-se das ilhas e não as pode esquecer.



Emilie Speleman Smith (sueca, empresária, vive nos Açores)
A maneira como o sol torna as casas amarelas durante o amanhecer; as colinas e os picos  verde-profundo; o Ilhéu da Vila; as hortênsias que cobrem a ilha e a fazem tão bonita no Verão… à distância parecem minhocas que se alongam, criando túneis pelas estradas; a cor do oceano.



Davide Alfano (italiano, músico, viveu nos Açores)
O cheiro do mar… a solidão e a imensidade no mesmo instante. Um dia, andando nas ruas de S. Miguel, sentei-me frente ao mar e um senhor começou a falar comigo e disse-me que cada pessoa que de alguma forma na sua vida compartilhou aí um olhar, uma emoção durante um dia ou um ano, ficará para sempre nos Açores. Mas também me disse que nascer e viver nos Açores pode, para muitas pessoas, ser uma limitação… mas na verdade é um privilégio para poucos. O que torna os Açores únicos para mim é que me deram esse privilégio e mudaram a minha vida para sempre.



Sabrina Steinmuller (belga, fotógrafa, viveu nos Açores)
Um pequeno paraíso em pleno oceano Atlântico, onde cada das 9 ilhas é um caleidoscópio de paisagens e gentes com tradições, vivendo em equilibro com uma Natureza muito bela e tão diversa!  

(as fotos que acompanham estas entrevistas são da autoria da própria Sabrina aquando do tempo em que morava nos Açores) 

Friday, November 9, 2012

Quotas e outras coisas do género



Porque trabalho para uma instituição profundamente conectada com os EUA, nas últimas semanas levei um “banho” de eleições presidenciais desse país. À primeira vista, é irrelevante, mas, na verdade, é muito mais importante Obama ser re-eleito do que foi importante ter sido eleito a primeira vez.

Quando Obama foi eleito, ficou sempre no ar a possibilidade de ele ter sido votado não porque trazia melhores políticas, mas sim porque era negro. Por muito que não seja politicamente correcto dizê-lo, a verdade é que todos os grupos que um dia já foram minorias – ou melhor, que um dia já ocuparam posições desfavoráveis na sociedade  e que se encontram, ainda hoje, a tentar justificadamente ganhar a sua posição igualitária – sofrem deste estigma que os anglo-saxões e o seu humor sardónico chamam “discriminação positiva”.  Ou seja, há uma espécie de tratamento preferencial dado àqueles que pertencem a minorias, precisamente porque durante tantos anos foram alvo de uma injusta posição contrária. Esta discriminação positiva existe nalguns empregos, por exemplo – aliás, legalmente, é para isso que servem as perguntas (facultativas) sobre género, etnia e religião que são feitas aquando das candidaturas. O tema é controverso, mas não deixa de ter apoiantes: se há quem advogue que todo o tipo de discriminação é errado, também há quem diga que esta é a única forma de as minorias chegarem ao poder e à igualdade no mundo de hoje, que continua a ser discriminatório. O ponto é que, aquando da primeira candidatura de Obama, não faltou quem dissesse que ele fora eleito devido à vontade de uma larga fatia de americanos quererem um “minoritário” no poder (ou porque eram minorias eles próprios ou porque se sentiam culpados de serem WASP…) É discutível. Indiscutível é que não se pode dizer o mesmo quando esse homem é re-eleito. Uma re-eleição significa sempre o premiar de um trabalho, o renovar de uma confiança.

A dita discrimininação positiva, porém, acontece em quase todo o mundo ocidental. Os inuits canadianos e os aborígenes da Nova Zelândia – ambos casos típicos de minorias severamente maltratadas pelos povos colonizadores – têm uma quota reservada, isto é, um número reservado de lugares no Parlamento. É uma espécie de pagamento pelos males passados – que, aliás, pouco compensa em termos de factuais bens presentes, ao que sei…

Mas não vamos tão longe. A Lei da Paridade em Portugal estabelece que as listas para o Parlamento (Europeu ou da República) e para as Autarquias “são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos.” Ora, isto, supostamente, vem favorecer a entrada de mulheres na política. Na prática, os partidos procuram incluir nem que seja uma mulher em lugar de destaque, não só por uma questão de agradar ao eleitorado feminino mas até porque já houve multas por não se cumprir esta lei. Mas a questão, quanto a mim e como mulher, é perigosamente discriminatória – ocuparemos lugares de destaque por sermos competentes… ou por sermos mulheres e se verem obrigados a preencher a quota?

Como mulher, continuo a achar que é bem mais fácil triunfar profissionalmente sendo homem. Não tenho dúvidas. Mas recuso uma discriminação positiva pelo facto de ser mulher… Parece-me limitativo da afirmação das minhas qualidades e competências reais.

Aliás, isto recorda-me um episódio da série Yes, Prime Minister em que membros do Governo falavam sobre a tal discriminação positiva e terminavam “Todos concordamos com este princípio fantástico que é ter mulheres a governar! Mas onde as colocamos, Sr. Ministro? Não há nenhum Ministério adequado para um toque feminino…”

A quota não acaba com o preconceito e não será a quota a mudar mentalidades.

Friday, October 26, 2012

Neutros



Quantas vezes já ouviram dizer: “Sobre isso não me pronuncio porque tenho amigos dos dois lados da barricada…” ou “Não tenho opinião porque vejo vantagens e desvantagens nas posições de ambos” ? Muitas. De facto, cada vez está mais na moda ser neutro.

As pessoas neutras não gostam que lhes chamem neutras, isso não, porque a própria palavra é insonsa, incolor e atípica. Preferem ser denominadas diplomáticas, palavra sonora e de conotação sensata, racional, equilibrada, com um certo travo refinado e elegante. Porém, essa tentativa esconde em si mesma um desconhecimento da diplomacia. A diplomacia não é só representação; implica negociação e, dentro desta, um papel necessariamente duplo (como, aliás, a palavra “diplomacia” indica).

Mas um papel duplo está longe de ser neutro… Aliás, a duplicidade é uma faculdade que implica certa desonestidade à mistura – feita de modo tão requintado, no caso dos diplomatas, que parece ser mais desejável do que a honestidade pura e crua. Henry Wotton, um diplomata inglês do século XVII, deu uma definição célebre da diplomacia aquando de uma missão sua: “Um embaixador é um homem honesto que é enviado para o estrangeiro para mentir para o bem do seu país.” Logo, a neutralidade tem pouco a ver com esta postura tão delicada quanto perigosa. A diplomacia é a postura assumida pelo negociador astuto, cujos interesses em jogo ninguém ignora. É tão complexo ser um verdadeiro diplomata que a espécie entrou em extinção, sendo correntemente substituída pela hipocrisia simpática, que faz imenso furor mas não traz nenhuma consequência positiva porque, ao contrário da diplomacia, não resolve nenhuma questão.

A neutralidade é uma postura essencialmente egoísta. Por excelência, é o lugar que alguns ocupam quando deflagram conflitos entre dois outros partidos. Deste modo, asseguram que nenhum desses partidos os atacam, na eventualidade do conflito se agravar. É um direito, sem dúvida, mas não revela grande coluna vertebral porque se depreende um receio expresso em afirmar as suas convicções (independentemente das razões que estejam na base do medo).

Enquanto direito bélico, a neutralidade é um conceito com regras muito específicas. Quem escolhe ser neutro, não pode fazer concessões nem tão pouco passar informações a nenhum dos oponentes em causa. É por isso que hoje se questiona tanto a alegada neutralidade da Irlanda na Segunda Grande Guerra, sendo certo que passou preciosas informações aos Aliados, e da Suiça, que não deixou de conceder certos benefícios aos nazis.

Pessoalmente, o que mais me surpreende num indivíduo que se diz neutro é a facilidade e rapidez com que assume sempre a opinião do vencedor de uma contenda quando ela termina. Segundo os neutros, nunca tiveram outra facção e apenas por pudor é que antes não se revelaram.

Mas a convicção não tem pudores nem é independente de valores. Não se veste e despe consoante a estação. A convicção não é camaleónica. Uma “convicção” que age assim é um vira-casaquismo, dando origem a um vulgar “tacho”. E consta que foi o “tacho” que afundou o país.

Friday, October 12, 2012

Reflexão


Enquanto preceptor do adolescente que viria a ser Alexandre, o Grande, Aristóteles escreveu um conjunto de oito livros a que chamou “Política”. Aristóteles acreditava na política enquanto ciência cujo objectivo mais não era que contribuir para a felicidade humana. Assim, podia dividir-se a política em duas vertentes essenciais: a ética, que tratava da felicidade individual do cidadão, e a política efectiva, que tratava da felicidade colectiva da cidade (importa recordar que os gregos se organizavam em cidades-estado). Como se deduz, nesta visão filosófica, a política é indissociável dos costumes, e é apenas através da política que se pode conquistar o bem-estar.

Na sua “Política”, Aristóteles dissertou acerca da estratificação da sociedade grega da época – naturalmente diferente daquilo que hoje em dia a nossa sociedade apresenta, e mesmo eventualmente chocante aos olhos actuais no que ao papel da mulher diz respeito bem como à existência de escravos, embora neste ponto seja interessante notar a afirmação aristotélica de que escravos são, na verdade, todos os homens sem ideal próprio cuja finalidade é servir o ideal de outro homem, ou seja, há homens que são escravos pela sua própria natureza…

Porém, as grandes reflexões de Aristóteles acabam por recair na natureza constitucional, nomeadamente nas formas de governo que melhor serviriam o propósito do homem, propósito esse que é o “bem viver em conjunto”. “Viver em conjunto” sem que se viva “bem” de nada serve na concepção aristotélica.

Ora, se já na Macedónia Antiga se considerava que o Homem era um animal cívico, sendo essencial que se revisse no Estado que melhor o representasse, parece-me que é essencial que votemos hoje em dia. Sobretudo, porque é hoje muito claro que o Estado não se constitui na nobre base de claridade que Aristóteles previa, que não estamos piramidalmente organizados sendo governados por aqueles que são claramente os melhores de entre nós, que as acções tomadas não se dividem em “necessárias, úteis e honestas” nem os legisladores são os mais sábios e sensatos. Se a política não chegou a concretizar-se - e cada vez menos se concretiza - como a arte de bem viver em conjunto contribuindo para a felicidade do ser humano enquanto animal gregário, então é nosso dever dar-lhe a volta. E, para tal, temos no voto (mesmo no voto branco) um instrumento pacífico mas revelador do futuro que desejamos para nós e para os nossos filhos.

Por falar em futuro, a grande preocupação aristotélica dentro de um Estado de bem é a educação. Aristóteles não era apenas um preceptor de excelência, o que já seria dizer muito; foi a grande influência da vida de Alexandre, cuja personalidade – embora longe de ser unanimemente aclamada – criou um Império que uniu o Oriente ao Ocidente. Se é verdade que nos parece hoje criticável a eugenia patente nas ideias de Aristóteles e o seu excessivo pendor para a importância de pormenores físicos (talvez usuais em quem era filho de médico como ele era), a verdade é que é de louvar o modo como a formação deve, quanto a ele, ser soberana.  

Os governantes devem ser os mais admiráveis e, por conseguinte, os mais admirados; os mais justos; os mais honestos; os mais preocupados com o bem comum; os melhores de entre os cidadãos.  … E hoje em dia? Tenha uma palavra a dizer.

Friday, September 28, 2012

Literatura



Esta semana, Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu, afirmou que o problema dos países europeus que se encontram em crise é resultado “das más políticas dos últimos anos e da total ausência de uma política económica.”

Pouco depois de ouvir estas palavras, andava eu por um Centro Comercial e deparei-me com uma vulgar montra de uma casa comercial sem grande nome, com malinhas de senhora ao módico preço de mil euros cada. Como é que num país em crise como o nosso, em que o ordenado mínimo baixa para menos de 400 euros, em que centenas de pais retiram os filhos dos infantários porque não têm como os pagar, em que centenas de pessoas perdem os empregos… encontramos malas de prêt-à-porter a este preço? Foi então que me ocorreu uma frase de um colega de Economia: quando um país está em crise, há sempre uma pequena franja da população que enriquece muito.

Em Portugal, todos sabemos quem é a “franja”. É aquela a quem apontamos o dedo e, simultaneamente, baixamos a cabeça. Não tem só uma cor política – e nisto Mario Draghi tem razão. Pode Portugal mudar de governo, mas de política de fundo não tem mudado. O cidadão comum faz piadas acerca disto, pondo na internet as frases que Passos Coelho dizia na sua campanha eleitoral e as frases contraditórias que diz agora que é Primeiro Ministro; as promessas de jamais aceitar os pacotes de austeridade negociados entre Sócrates e a troika versus o país retalhado aos bocadinhos e a austeridade cada vez mais apertada. Este é o cidadão comum com sorte, que tem internet e riso para fazer piadas, é aquele que tem força. Há os que já não riem e acham que manifestar-se é utopia; ao falarem de revolução dizem que “o 25 de Abril foi bem sucedido mas foi porque estávamos fartos da Guerra, da Guerra a sério e ninguém gosta de matar e morrer.”

Os espanhóis, tradicionalmente mais ferventes, começaram a manifestar-se com violência antes que Espanha peça qualquer resgate, imputando ao seu também recente governo falta de legitimidade democrática porque “foram enganados” enquanto eleitores.

A Grécia também mudou de Papandreou para Samaras e continuou na escala de cortes económicos e violência nas ruas.

Reconheço razão ao BCE: todos nós enquanto países andamos de salvador em salvador da pátria… para continuarmos nas mesmas políticas de afogamento de nações.

Hoje, ninguém acredita em Portugal. As pessoas têm vergonha de serem portugueses. Dizem “sou português” ao pé de um estrangeiro como se fosse uma fatalidade. Só a já longínqua história dos Descobrimentos os anima, essa lembrança antiga de que já foram grandes. Parece impossível que Portugal tenha começado porque um rapaz chamado Afonso Henriques tenha decidido levantar espada contra a sua poderosa mãe. Hoje, nem a voz se levanta. Toda a gente tem medo e falta de ânimo. Poucos se lembram que todos os poderes são efémeros e que maiores impérios neste mundo já caíram.

Nada melhor, porém, do que ouvir hoje Passos Coelho citando Os Lusíadas como metáfora para o tempo que atravessamos, pois “por pior que seja a tormenta que nos arrasta para trás, temos sempre ventos favoráveis a soprar nas nossas velas.” O Sr. PM esquece o que qualquer professor sabe: que não se pode falar nunca de Literatura a quem não pôde tomar o pequeno-almoço em sua casa. 

Friday, September 14, 2012

Marido Com Sorte



Esta semana, assaltou-me a dúvida: se a mulher de um Presidente tem direito ao título de Primeira Dama, que título terá o marido de uma Presidente?

A minha questão não é sarcástica nem pretende criar polémica. É uma dúvida de cariz linguístico e verifiquei que é dúvida para muitos. A verdade é que não está consignado na língua portuguesa o título a atribuir ao marido de uma Presidente.

Verdade basilar é que as línguas expressam as culturas que as geram, portanto o natural é tirarmos daqui a ilação que Portugal não está culturalmente muito à vontade com senhoras em cargos de poder, embora as ache adoráveis (veja-se a doçura medieval de “dama”) enquanto acompanhantes de um homem poderoso. Podemos até arranjar mais exemplos, no campo da Monarquia: a esposa do Rei tem direito a ser Rainha, mas o esposo da Rainha não passa de Príncipe Consorte enquanto a esposa do Príncipe é automaticamente Princesa, mas o marido da Princesa não tem direito a título. No campo diplomático, sofremos do mesmo: a mulher do Embaixador, é Embaixadora; já o marido da Embaixatriz não passa de marido da Embaixatriz; a mulher do Cônsul é Consulesa e o marido da Consul é apenas isso, sem título. A este propósito, não resisto a recordar um episódio em que em certa cerimónia se lembraram de chamar a Sra Consolada para lhe oferecer um ramo de rosas (há lapsus linguae maravilhosos!).

Dir-me-ão que à medida que mais mulheres forem alcançando cargos de poder, o assunto fica arrumado! Mas talvez demore décadas.

Uma pequena prospecção por outras línguas e culturas fez-me ver que o assunto não deixou de ser polémico. Nos EUA, a questão da Sra Clinton poder alcançar o título de Presidente fez pensar bastante neste assunto denominativo porque a Sra Clinton era casada com um ex-Presidente, o que levantava a estranha questão da Casa Branca vir a ser habitada por uma Presidente e um ex-Presidente. Ora, nos EUA os ex-Presidentes não perdem título e seria realmente muito invulgar vir a dizer “Here we can see now President Clinton and former President Clinton waving at the crowd”. A dificuldade desta frase… Até que se lembraram que as Primeiras Damas ostentam o título de anfitriãs da Casa Branca para além de Primeiras Damas!... Mas seria demasiado pedir ao ex-Presidente que fosse anfitrião da Casa Branca, porque a ideia sugeria Bill Clinton de aventalinho. Parecendo que não, esta questão aparentemente pouco importante foi amplamente discutida.

Os franceses também não sabem como designar o marido da Presidente, pelo que foi uma sorte a Sra Ségolene Royal não chegar lá. Porém, agora temos o ex-marido da Sra Royal na cadeira e, portanto, o problema ficou resolvido.

Informaram-me que, na Austrália, a Primeira Ministra Julia Gillard (que não é casada, mas tem um companheiro) resolveu a questão. O senhor tem o título de First Man, o que sugere uma coisa bastante mais impositiva do que First Lady.

A religião não vem ao caso. Não me recordo de título atribuído aos maridos de Margaret Thatcher (Primeira Ministra protestante), Benazir Bhutto (muçulmana), Indira Gandhi (hindu) ou Golda Meir (judia).

Portugal teve uma Sra Primeira Ministra, mas não lhe recordo companheiro. Talvez o problema linguístico espelhe uma certa incapacidade do homem (e do homem luso em particular) de estar à vontade com mulheres de ideias firmes. Porém, será preciso que se recordem que só há “damas” onde há cavalheiros… 

Friday, August 31, 2012

"Deixai Vir a Mim as Criancinhas"



As campanhas eleitorais não trazem nunca à tona o que há de melhor nas pessoas. Trazem os melhores sorrisos e as palavras mais cândidas, seguramente, mas há que ter sempre presente que a intenção dos candidatos é levar o povo a dar-lhes o seu voto, pelo que – passe a dureza da expressão – o que cada candidato está a fazer é a vender-se e, consequentemente, tem de apresentar o seu lado mais atraente, a sua melhor promessa, o seu melhor discurso regado a Colgate. Ninguém nos vende uma casa sem pintar as manchas de bolor que daqui a 5 meses nos vão, fatalmente, voltar a aparecer nas paredes.
Mas isto é óbvio, expectável e compreensível. Faz parte.

O que não devia fazer parte dessa auto-promoção fatal é a utilização de menores. Falo, concretamente, do uso de crianças nas campanhas eleitorais. Poucas coisas me revoltam tanto como o abuso de criancinhas, e esta é, quer queiramos quer não, uma forma de abuso. Se não, vejamos: está-se a usar a imagem e / ou a presença de um menor, que não faz ideia daquilo para o qual está a contribuir (pois ainda que grite o nome do partido porque lho mandaram fazer é mais do que claro que o menor não tem qualquer noção nem do ideal nem do que um voto acarreta, se é que compreende o sistema tão pouco). Não raras são as campanhas que o fazem. De facto, existem mesmo aquelas que pedem a crianças para se juntarem para tirar fotografias para a página do partido ou para distribuição nas redes sociais, que se juntem a gritar o nome do partido quando a televisão aparecer, enfim… Se se portarem bem, ganham um boné. Mal comparado, e desde já me perdoem o extenso exagero, a prostituição funciona um bocado assim – mas as consequências são, obviamente, bastante mais gravosas, tanto física como psicologicamente.

Isto é negócio antigo e vezeiro. Na campanha para as presidenciais dos E.U.A., a Sra Sarah Palin, experiente na política, não ignorava que a utilização de crianças e de desprotegidos é uma arma eficaz de campanha. Não se coibiu de usar a própria filha, que tem Síndroma de Down, e de andar com ela, acima e abaixo (nunca, nem antes nem depois, se viu a Sra Palin tantas vezes com a dita menina!), provando ser uma mãe extremosa e demonstrando que sentia na pele os problemas não só das mamãs mas das mamãs com filhos deficientes. Politicamente, não resultou porque a sra levou o embuste um bocado longe e o povo fartou-se de tanta aparição com a filha debaixo do braço… mas podia bem ter dado certo. Aliás, várias estações de TV fizeram piadas sardónicas (pós-campanha, naturalmente) ao ataque súbito de maternidade da Sra Palin, e a série Family Guy dedicou um episódio à filha, criando-lhe uma personagem, sendo imediatamente processada pela ex-governadora (que perdeu o processo, pois não tinha sido ela a primeira a usar e a ridicularizar a imagem do seu rebento para fins auto-promocionais?)

Sou totalmente contra o uso de crianças em comícios, campanhas, reuniões partidárias, festas de apoio, e tudo o que se relacione, sejam de que partido forem. “Uso” é a palavra certa. Tem sido esta uma grande batalha minha – infelizmente, pouco conseguida, lamento dizer. Avós, pais, tios, todos têm direito a proclamarem a sua visão e a promoverem-se, mas deixem de parte os meninos. Deixem-lhes o direito a ter infância. 

Friday, August 17, 2012

Silly season


Nunca tive grandes ilusões sobre as chamadas “crónicas de opinião”. As opiniões são como as cabeças, o mesmo é dizer que cada um tem a sua. Ler uma opinião é ser ouvinte numa conversa breve; o interesse é o assunto que se levanta e não a opinião em si. É por isso que a escolha do assunto se revela tão importante – o essencial é pôr as pessoas a cogitar sobre uma determinada realidade.

Por isso mesmo, muito me admiro quando alguém se sente perturbado com uma crónica de opinião. A não ser que essa crónica tenha sido escrita com o intuito de abalar um indivíduo – e leio algumas que são, mas não escrevo nesse sentido, até por uma questão de elegância irónica -, não vejo porque haja razão para lesões (emocionais ou de outra ordem).

Há algum tempo, escreveram-me uma carta, assinada com pseudónimo, onde a autora se revelava extremamente perturbada pelo conteúdo das minhas croniquetas. Aparentemente, é uma leitora atenta e, como tal, eu devia até prestar-lhe uma vénia pois parece que não há assunto que eu tenha abordado que a senhora não tenha lido. Eu própria já não recordava ter escrito sobre alguns temas, mas eis que a dita leitora mos trouxe à mente. A senhora, quiçá artista, abordou o assunto em verso livre. Confesso que foi a primeira carta em verso que recebi em muitos anos. Embora insultuosa e veladamente ameaçadora com aquele jeito de conselho paternalista que vai dizendo que seria melhor eu não escrever mais, o facto é que a senhora me dedicou tinta e tempo. Isso sempre honra uma pessoa. Desde a adolescência que não me faziam quadras - de boa ou de má qualidade, não interessa. Aliás, quem sou eu para atestar da qualidade de escrita dos outros?

Para além disso, fiquei sinceramente surpreendida pelo facto da senhora ter gasto tanta energia para me dedicar um ódio de estimação. Convenhamos: com tanto político, economista, artista, e, enfim resumindo, figura pública que escreve para o jornal, a senhora foi escolher aquela que é uma das poucas pessoas que escreve crónicas e é uma cidadã comum. Não é necessário “tanto estrondo de armas e cavaleiros” para derrubar uma pessoa do vulgo. O melhor seria talvez dedicar essa força a alguém importante que pudesse fazer a diferença. Dificilmente eu, “que nem sou deste planeta” (como amavelmente me foi explicado), poderei melhorar a vida da senhora a curto ou a longo prazo, deixe ou não de escrever. Aliás, estas opiniões de papel não mudam nem pretendem mudar a vida de ninguém. Jamais me tinham dado tanto pseudo crédito, com a expressão de tanto incómodo.

Se é verdade que o Verão é uma estação tonta no que aos jornais diz respeito, não é menos verdade que este Verão é tudo menos tonto no que diz respeito ao futuro dos Açores. Eu, cidadã comum, muito humildemente sugiro que se focalizem no que realmente interessa. Diversões adjacentes e “alvos” fictícios não contribuem para mudar a existência. Claro que é só a minha opinião. Não merece umas quantas páginas de refutação, pondo em causa a minha capacidade mental. Não vale a pena tanto trabalho (que, apesar de tudo, agradeço respeitosamente e até um pouco comovida).

Friday, August 3, 2012

"Foi um ar que lhe deu... "


Dizem os mais antigos que, numa das “ilhas de baixo” (hoje promovidas a “ilhas de coesão”), havia, há gerações atrás, um famoso bêbedo, que passava muito do seu tempo caído nas bermas dos caminhos devido à forte influência do álcool. Chamavam-lhe Manuel Azoria, uma alcunha que já ninguém se lembra de onde veio.

O Manuel Azoria era bêbedo mas não era tolo. Simplesmente, por via do vício, ninguém lhe prestava atenção e todos o marginalizavam com aquele paternalismo altivo que é típico das sociedades burguesas.

Sucede que nessa mesma cidade, uma figura ilustre porque representativa do poder local, foi encontrado certa manhã na berma da estrada, sem sentidos e com um cheiro a álcool capaz de afrontar taberneiros. O caso foi imediatamente abafado e, se porventura aflorava os lábios de alguém, logo se desculpava a dita figura com as mais refinadas e ilógicas tolices. O Manuel Azoria passou a ter, então, este dito sempre pronto na boca: “Pois é, senhores, a balança não é igual para todos… O Manuel é encontrado no passeio: é um vadio e um bêbedo! O Sr. Comandante é encontrado no mesmo passeio: o Sr. Comandante teve uma vertigem!”

Esta história verídica só serve para demonstrar como o tribunal da opinião pública não condena acções mas condena, isso sim, indivíduos. Tudo depende não do que foi feito, mas sim do que se quer ver. De facto, quando se representa a justiça como cega, incorre-se num erro; regra geral, a justiça tem um par de óculos – a questão está nas lentes.

Veja-se o caso bem recente de dois músicos. Kit, músico açoriano, está preso, cumprindo uma sentença de um mês por ter passado um CD pirata no seu bar. Não sei quantas pessoas já terão cometido o crime de pirataria musical mas não conheço mais ninguém que tenha cumprido pena de prisão, pelo que me atrevo a dizer que este senhor deve ter incomodado muita gente na sua ilha natal para lhe terem dado um aviso tão brutal. É que custa muito a crer que se vá preso por causa de um CD pirata…

Sobretudo olhando para Paco Bandeira. Esta figura pública tem 3 anos de pena suspensa (suspensa, reparem!) por ter ameaçado a mulher com um revólver enquanto ela segurava a filha de 3 anos no colo. Ficaram provadas várias ameaças à senhora, mas não ficou provado que este acto de violência causasse trauma à filha – não sei o que seria preciso para que as autoridades e técnicos (supostamente especialistas) considerassem o acto traumatizante para a filha… De qualquer modo, foi ilibado de tal, e é um bom papá (visto que não chegou a matar a mamã!). Assim segue o carrocel. A propósito, a primeira mulher de Paco Bandeira morreu com um tiro na cabeça, supostamente um suicídio que nunca ficou muito claro… E, claro, ninguém se lembrou de relacionar ou recordar tal facto agora.

Se fosse um cidadão comum, estávamos perante um criminoso; como é Paco Bandeira, teve uma crise de nervos… ou é (ligeiramente) desequilibrado… foi, enfim, um ar que lhe deu. O crime do cidadão comum seria igual; mas a visão perante ele, diferente; e, logo, a pena atribuída também. Compreensível? Para a família de Paco Bandeira, talvez não. Talvez seja apenas mais injusto ser casada com ele do que com… o Manuel Azoria, por exemplo. 

Friday, July 20, 2012

Conforme (se)


Recentemente, assisti a um documentário sobre “criatividade”. Esta característica, a que não é exagero apelidar de motor da evolução, está na base de toda a criação, seja ela artística ou científica – pois mesmo um matemático terá de ter tido curiosidade para procurar a determinação das regras x e y. Não existem dúvidas, pois, de que é a criatividade que permite o avançar do Homem.


Porém, ser criativo implica romper com o estabelecido. O conformismo, oposto da criatividade por natureza própria e, logo, motor da estagnação, é uma força igualmente poderosa. Não é totalmente maléfico visto que sem determinadas normas de encaixe, haveria um colapso estrutural e social muito perturbador. Por isso, temos governos, finanças, transportes, direito penal. O problema é quando as instituições se tornam absolutas e, ao invés de servir o Homem, ditam a vida do mesmo – afogando o seu próprio criador. Mal comparado, é como um vício: a princípio, é bom porque temos controlo sobre o mesmo; mas quando é o “prazer” que controla quem dele usufrui, onde está o ganho?

Somos bombardeados com a ideia de que devemos motivar a imaginação dos nossos filhos e de que devemos ter mais iniciativa e empreendedorismo nas nossas profissões, mas a verdade é que qualquer tentativa de um estudante para expressar a sua opinião ou de um professor para ser mais criativo na exposição da matéria (ou mesmo de incluir outro tema para pôr os alunos a discutir e pensar) é olhada de lado e vista como “esquisita, desregrada, invulgar”. O coro geral é de que “se deve pôr cobro a isso.”

Porque terá a sociedade tanto medo do que, ao mesmo tempo, apregoa como mais desejável? Palpita-me que esta pergunta nos leva direitinhos ao âmago do problema do conhecimento e da maçã roubada do Jardim do Éden. Lamentavelmente, não temos tempo nem espaço para explorar esse receio profundo que sempre faz com que as mentes mais inovadoras e brilhantes sejam castradas no seu tempo de vida para serem louvadas alguns séculos depois.

Mas gostava de deixar aqui alguns pontinhos sobre a necessidade de conformismo que assola o Homem enquanto ser grupal e apaga no indivíduo (às vezes por decreto) a chama evolutiva. Para além das normas socio-culturais a que involuntariamente obedecemos em larga escala mesmo quando afastados da nossa sociedade, existem diversos factores que estão ligados ao conformismo, entre eles a nossa “natural” obediência a figuras de autoridade, necessidade de segurança estrutural, tendência para fazer parte de um grupo, necessidade de aprovação e de reciprocidade. Tudo muito humano, básico e compreensível. Talvez por isso seja mais difícil entender os indivíduos “dissidentes” – a expressão de opiniões próprias traz desconforto à organização social porque, afinal, aí está alguém que luta por si próprio. E o que seria de toda a estrutura se, subitamente, se percebesse que todos os homens têm a capacidade inata de se valerem por si? Consequentemente, ninguém balança o barco. E aquele que se levantar, recebe logo um empurrãozinho acidental: ou entra na forma ou cai ao mar.

Se sabemos que “Existem muitas maravilhas, mas a maior de todas elas é o Homem” desde Sófocles, é porque, precisamente, já os Antigos Gregos reconheciam que a capacidade de criar é o milagre maior de toda a Terra. E não é verdade que estamos muito precisados de mudanças, e talvez mesmo de milagres?

Friday, July 6, 2012

Mãe o Suficiente?



A revista Time de Maio provocou um curto-circuito de comentários por causa da sua capa, cuja foto era uma americana de 26 anos a amamentar o filho de 4. A fotografia é intencionalmente provocatória: a pose está longe de representar intercâmbio materno-filial entre ambos, dado o olhar frontal que mãe e filho lançam à câmara e a posição mão-na-anca da mãe enquanto o filho (muito corpulento para os 4 anos que dizem ter) está em pé para poder chegar ao seio descoberto. A legenda da foto atiça ainda mais: “Are you mom enough?” (“Você é mãe o suficiente?”). Um comentário abaixo explica que algumas mães se extremam em cuidados devido à sua crença na teoria do apego, hoje na moda.

Convenhamos: uma boa capa de revista é a que chama a atenção e, para tal, nada melhor do que desafiar o status quo e normas estabelecidas, pondo as pessoas a interrogarem convicções. Claro que existe uma linha frágil de elegância editorial que se tem de conseguir equilibrar, um meio-termo entre o desafio inteligente e a recusa de ofender o público, lato sensu. É provável que a Time o tenha conseguido com esta capa, chocante para muitos. Mas pergunto-me qual será a reacção do miúdo quando crescer e vir a revista…

Pessoalmente, não creio que, na nossa cultura e estilo de vida (importante sublinhar que outras culturas têm diferentes padrões), haja razões para amamentar miúdos cuja dentição completa permite que ingiram outro tipo de alimentos, que não causam danos no desenvolvimento físico posterior dos meninos e estão amplamente disponíveis no mercado… mais disponíveis do que a mama de uma mãe trabalhadora. Para além disso, uma amamentação tão extensa como esta - ou mais, porque há mães que, tendo bebés, ainda amamentam o filho de 6 anos “antes de dormir porque ele gosta” - não me parece propiciadora da autonomia da criança. Posto claramente, eu não quereria ser mulher de um homem que tivesse sido amamentado até à Primária pela mãe. Imagino as dificuldades relacionais de intimidade daí decorrentes… Penso que, como mães, temos também obrigação de saber que os filhos serão adultos, com vidas independentes, e, se tudo correr bem em termos evolutivos, desligados em grande parte da nossa afectividade física que deve ser premente, estável e constante enquanto eles são pequeninos.

Claro que a autonomização progressiva dos filhos, sem deixar de proporcionar segurança e carinho, não é fácil. Apesar de, como todas as mães, ouvir “x” opiniões sobre educação, é claro que faço o que eu considero ser mais adequado – pois, afinal, ninguém conhece melhor a especificidade do meu rebento do que eu. Outras mães haverá com outros filhos que tomam opções diferentes, válidas para os ditos.
É correcto? Só no futuro saberei. Não há receituário sobre como educar um filho (menos ainda sobre como educar os filhos dos outros).

Estou convicta de que a maioria das mães sabe por instinto o que fazer melhor, mesmo que seja diferente do que faz a mãe do lado. E sublinho que falo de Mães. Porque existem as que são progenitoras apenas. E dessas senhoras que apenas são progenitoras por direito comum de procriação da espécie… só a lei lhes reconhece o estatuto; mas para ser Mãe é preciso sentimento e isso não se compra em pacotes nem tão pouco vem das hormonas - só o filho ajuiza se é (ou foi) “suficiente”. 

Friday, June 22, 2012

Bichinhos não votam



Todos os que já viram uma campanha eleitoral ou, para tornar a coisa ainda mais corriqueira, já observaram uma “cena de engate”, sabem que não há nada que encante tanto o público como uma máscara de protector face a um desprotegido. Trocando em miúdos: aquele que procura seduzir (seja ele uma empresa, um político ou um simples cidadão) sabe perfeitamente que, se estiver acompanhado de um velhote, de um bebé ou de um bicho, tem muito mais hipóteses de se tornar apelativo. É ou não é verdade que os políticos se esforçam por tirar fotografias dando beijos em velhas e crianças? É ou não é verdade que os homens sem compromisso adoram passear cães e sobrinhos? É ou não é verdade que publicidade com seres fofos e carentes é meio caminho andado para prender corações? É verdade, sim senhor. E, o que é mais, os calculistas que procuram ser atraentes não o ignoram.

Dar uma imagem de carinhoso e responsável apela aos mais básicos instintos que nos observam. Ter fotos dos filhos no escritório e pagar quotas às mais variadas entidades de solidariedade social é coisa de quem trabalha muito para a sua imagem. Desconfiem sempre de quem fala muito de ética; não é necessário falar do que se pratica diariamente.

A propósito de bichinhos, uma história recente impressionou-me. Não recordo nenhum momento da minha vida que não tivesse sido acompanhado por animais ditos irracionais. É difícil expressar o companheirismo que se tem com eles e igualmente falar da revolta que se sente em relação à crueldade que é apenas (mais) um sintoma da insensibilidade daqueles que a perpetram. E digo “mais um” com justeza, porquanto todos sabemos que raro é o serial killer que não se entretivesse, anteriormente, na tortura de animais…

Avançando: a notícia dá conta de que a Câmara Municipal da Horta abateu cães, “por engano de leitura de um e-mail”. A história é esta: enquanto decorria o evento Feira do Mundo Rural, a CMH – que partilha um canil com a Associação Faialense de Amigos dos Animais (AFAMA) – abateu 7 cães, 3 dos quais pertencentes à dita associação e ainda cães que se encontravam à guarda provisória da CMH a pedido da dona, que se encontrava temporariamente impossibilitada de os ter em casa. 

Já sabemos: as Câmaras abatem animais, não é bonito, tem de ser feito com métodos próprios e na presença de um veterinário, mas está previsto na lei para prevenir animais errantes e eventualmente agressivos nas cidades. A AFAMA – que funciona unicamente com voluntários e posso atestar que trabalham como cães, passe a piada, para tratar dos seus bichos e ainda dos bichos que a CMH recolhe… - enviou um e-mail à edilidade, notificando-a de quais eram os animais recolhidos pela CMH demasiadamente agressivos e, no dizer da AFAMA, “irrecuperáveis”. A CMH não os identificava, porque não trata dos ditos e, logo, não os conhece. Pese embora o facto de nos dirigentes da CMH nesta área, haver quem tenha cartão de sócia da AFAMA e não deixe de utilizar o facto de defender os animais para atestar da sua enorme sensibilidade às causas…

À conta do e-mail ser mal interpretado, Goldie, Lobo e Laika (cães da AFAMA) foram abatidos. Abatidos foram também os cães de quem tinha lá deixado os seus animais temporariamente. Os animais a serem abatidos, afinal, não o foram… porque foram confundidos com outros. A AFAMA refere que os procedimentos legais pré-abate nem sequer foram seguidos pela CMH, que não publicou edital nem contactou a associação; por seu lado, a CMH diz que seguiu tudo direitinho (apenas ainda não consegue ler e-mails, apesar de ter gente pós-graduada sentada na instituição…)

Embora a custo, vou abster-me de opinar sobre a conduta da CMH. O que sei é que um canil municipal e um canil de protecção aos animais não podem nunca dar as mãos (coisa que, de momento, é da conveniência da edilidade); que mulheres grávidas esfregaram canis voluntariamente e não fizeram gala disso nem o usaram para aparecer nos jornais; que merecíamos políticos que, ao menos, soubessem ler; e que de boa política só para (a)parecer já estou um bocado enjoada.

Friday, June 8, 2012

Paizinho


Há menos de um mês, o Sr. Primeiro Ministro fez reconfortantes declarações ao país na tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e Inovação. De facto, nada melhor do que aproveitar a ocasião de um Conselho para a Inovação para nos trazer ar fresco. Nesse sentido, o Sr. Primeiro Ministro dirigiu-se, sábia e calorosamente, aos que mais sufocados se encontram: os desempregados, naturalmente em dificuldades. Cito: “Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade”.

É a esperança e o optimismo em todo o seu esplendor. Estar sem emprego (e o que é mais, ser demitido!) não é mau, não. É uma oportunidade. É o Novas Oportunidades II - e todos aqueles ligados à Educação conhecem os efeitos do I… É incrível como o povo português cuja “cultura média […] tem aversão ao risco” (estou a citar novamente) ainda não se tinha apercebido da chance que é levar um chuto da entidade patronal e ficar sem dinheiro ao fim do mês. Felizmente, temos um PM que nos abre os olhos para um novo caminho a desbravar. É como um pai que mostra aos filhos perdidos no mundo, queixinhas, pessimistas, ou – no dizer do próprio – uns “piegas”, que existem imensas possibilidades. Enquanto povo, podemos não ter uma vida fácil, mas lá que temos um dirigente superior que nos ajuda a ver a razão, disso não haja dúvidas.

O Sr. Primeiro Ministro defende uma “alteração da nossa cultura” por “um maior dinamismo e uma cultura de risco e de maior responsabilidade, seja nos jovens, seja na população em geral”. O problema, convenhamos, está em sermos uns amorfas. Como andávamos há imenso tempo na boa vida, com comida na mesa, dinheiro para medicamentos quando necessário e até houve alguns de nós que decidiram ter filhos, o PM – como qualquer pai preocupado e honesto – fez o que se impunha: cortou benefícios à criançada para que aprendam o que é a vida dura. Sem empregos e sem dinheiro, vamos lá a ver como se aguentam. Vamos lá a ver se é agora que arriscam e me desamparam a casa, que é como quem diz o País, e emigram lá para fora que aqui há mais bocas que ele necessita de alimentar.

Só tive dificuldades em perceber a parte em que se falou de “responsabilidade”. Afinal, todos nós, filhotes pertencentes ao povo, sabemos que a nossa admiração filial repousa, em última análise, no reconhecimento das qualidades dos nossos pais / governantes. Não creio que falar numa qualidade que eles próprios não tenham demonstrado ter até à data seja benéfico ou instaurador desta mesma qualidade no seu rebanho… Afinal, fazer mais um Conselho Nacional (de Inovação), cujos objectivos e existência são discutíveis em tempo de crise, leva, por si só, a pensar…

Quanto ao mais, todos conhecemos a técnica: submeter-nos o mais possível porque povo com fome é povo obediente. Dizem. Mas existe aí um pequeno senão: é que povo com fome revolta-se. Nunca se deve subestimar um adversário que foi levado até às últimas consequências.

Friday, June 1, 2012

"The Meaning of Life"



O Fazendo convidou os seus colaboradores a enviarem os artigos deste mês subordinados ao tema “O Sentido da Vida”. Como a mim me cabe cingir-me à Literatura, fiquei com este novelo: O sentido da Vida expresso na Literatura. Convenhamos que é um tema porreiro... Alguém aí tirou Doutoramento no assunto? Melhor: alguém chegou a acabar a Instrução Primária? Eu cá confesso as minhas limitações, mas farei o meu melhor (até porque estamos em colaboração com o Arauto e vamos chegar às jovens mentes da ESMA… quanta responsabilidade).

A primeira coisa que me ocorre são os Monty Python que têm, precisamente, um filme com este título de onde se conclui que o melhor é encarar a vida com muito humor, porque se formos dedicar-nos a teorizações fazemos perigar a nossa sanidade (e não chegamos a conclusão nenhuma!) Humor é a chave. Seguindo esta lógica, em todas as situações da minha vida adulta nas quais me interroguei filosoficamente sobre o sentido da vida, optei por olhar para o lado mais luminoso do mundo. Não acreditem nas pessoas que vos dizem que só há trevas e desgraças – primeiro porque não é verdade; segundo porque mesmo que vivamos situações de tortura (e ela pode acontecer a qualquer um) temos sempre a capacidade de criar um espaço interior equilibrado e bom, pois por muito que façam da nossa existência um inferno ninguém nos pode tirar a capacidade de pensarmos o que quisermos.

Mas encomendaram-me um texto sobre Literatura e vou tentar ser obediente. Existem muitos livros sobre o sentido da vida. Alguns declaradamente bem dispostos, como “Hitchhiker’s Guide to the Galaxy” de Douglas Adams, onde o planeta Terra acaba e um grupo de gente pouco ortodoxa vai viajar pelo espaço. Prova-se que pouco é preciso para viver e que o essencial é manter a calma, o humor e o espírito de entre-ajuda. Porque o humor tem uma ética subjacente, é claro que os egoístas se dão mal…

Outros livros são sobre o modo como se lida com o sofrimento. Todos nós passamos por momentos de sofrimento extremo (uns mais do que outros, porque nisto, como em tudo na vida, não existe uma balança equitativa). Em livros como “The End of the Affair” do incontornável Graham Greene (uma história de amores e Amores passada na II Grande Guerra) ou “The People of the Lie” do médico Scott Peck (sobre pessoas perturbadas, nomeadamente pais que maltratam filhos sub-reptícia e constantemente, mesmo na idade adulta), é-nos dada a percepção de que fugir das más sensações nunca é a resposta para terminar com elas. Temos mesmo de enfrentar a realidade e o sofrimento que tal traz. Só admitindo as nossas dores é que nos damos conta que temos força para as ultrapassar. Além disso, ficamos a conhecer mais de nós, dos outros e dessa coisa que se convencionou chamar vida. Criamos defesas, mas daquelas a sério, feitas de coragem e não de fugas.

Há ainda livros sobre viagens e epifanias. Pessoalmente, poucos encontrei sobre o sentido da vida que fossem tão reveladores como os de Herman Hesse. Desde “O Lobo das Estepes” ao “Jogo das Contas de Vidro”, passando pelo “Siddharta” e pelos “Contos”, todos eles são um hino aos vários estímulos da vida, a tentar colher o máximo possível de sensações e emoções, a não abdicar da nossa condição de seres pensantes e do nosso direito à diferença, a caminharmos sempre no sentido de uma evolução enquanto seres humanos. Pessoalmente, creio nestas duas coisas: no direito à diferença e na evolução. Incomodam-me aqueles que ao longo da vida pensam e agem sempre do mesmo modo, porque acredito que, idealmente, o ser humano se vai modificando num sentido ascendente. No entanto, e porque também acredito que cada um tem direito a ser como quer – desde que não magoe o próximo, o que me parece premissa essencial - guardo o incómodo para mim, porque não tenho de emitir juízos sobre o sentido da vida de ninguém… a não ser sobre o meu e sobre o do meu filho, visto que escolhi conscientemente ser responsável por ele enquanto ele necessitar.

Os judeus expressam-no com os seus ditados. A Ética dos Pais, velho livro judaico, tem esta frase que explica o que estou a tentar transmitir “Se eu não for para mim, quem será para mim? E se eu for só para mim, quem sou eu? E se não agora, quando?”   

Claro que livros são palavras e as pessoas valem bem mais do que palavras. O sentido da vida é viver e, para além disso, viver o melhor possível - aqui incluindo, por laço, as vidas daqueles que nos dizem directamente respeito pelo amor que lhes temos e, logo, como dizia Saint-Exupéry n’O Principezinho, “quem cativamos”. Cada um de nós é a própria resposta à pergunta filosófica do sentido da vida. Sentido e não ciência. Pois toda a gente sabe que essa coisa de ciência da vida (Bios e Logos segundo os étimos gregos que deram em “Biologia”) é, como diria o poeta Alberto Caeiro, uma falta de nitidez. A vida não tem ciência nenhuma e o melhor deste mundo que muda a toda a hora é acordarmos dia a dia. O primeiro que conseguir escrever um livro de instruções e regras para a vida andou a perder tempo… e sentido na vida!

Por isso, o sentido da vida somos nós. Viver é, essencialmente, escolher: não há volta a dar a esta necessidade que é, também, um inegável direito. Quem tem 15 (ou mesmo, vá lá 65) anos e procura um sentido para a vida através da Literatura, experimente ler “Ética para um Jovem” que Fernando Savater escreveu para o seu filho adolescente. Termina assim: “Tenta gastar a tua vida a não odiar e a não ter medo.”

Para bem escrever e bem ler, é preciso antes viver muito. Viver e viver com gosto é o sentido da vida. Acho eu, mas deve haver opiniões de gente mais habilitada.

Entretanto, assim no fim da folha, lembrei-me de um poema de Clarice Lispector que uma amiga (daquelas amizades de há 20 anos, que estão lá nos momentos em que tudo cai, apesar de nem sempre concordarmos e é isto, também, o sentido comovente e grande da vida) me ofereceu recentemente e que diz assim:

“A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre."

Friday, May 25, 2012

Guilhotinas Modernas



“Somos a democracia mais apurada do mundo. E, por isso mesmo, não usamos guilhotinas. Mas temos outros métodos, menos sanguinários, de humilhação, destinados a assegurar a população que a nossa ordem será restaurada e que a República será limpa” diz William Greider, jornalista americano e autor de vários livros sobre economia e identidade, nomeadamente “Volta para Casa, América: Ascensão, Queda e Promessa Redentora de um País”.

É interessante a perspectiva de um homem que a sociedade considera bem sucedido e que não teme dizer que o sistema constituinte dessa própria sociedade “não está apenas ferido, não está apenas partido; colapsou. E visto que o governo continua a brincar, colocando os pedacinhos que restam em cima de um muro periclitante, voltará a cair. Esta não é uma posição ideológica; é a realidade.”

Também é gratificante saber que Greider é, apesar da sua visão descomplexada e cirúrgica em relação ao seu meio, um optimista: “Tenho fé na juventude, que ainda não conhece impossibilidades. Está menos carregada de passado e tentará o novo sem se incomodar se já foi tentado antes. Assim ocorrerão mudanças. Quando as pessoas imaginam um futuro diferente, desaparece o poder instituído.”

Mas são as questões dos métodos de humilhação da democracia apurada que me interessaram sobremaneira. De facto, mesmo por cá, sabemos que existem métodos não-guilhotinescos de humilhação e de tortura, que um amigo – muito mais experiente e inteligente do que eu – denomina sabiamente de “fuzilamento psíquico” dos adversários. Este fuzilamento admite imensas variantes, desde a destruição da vida privada à destruição da vida profissional ou ao lançar de boatos sobre a sanidade mental dos visados (uma arma em moda desde o escândalo Watergate, quando a mulher do Procurador-Geral  dos E.U.A. era a “louca” de serviço, segundo o governo de Nixon… até que foi impossível esconder a verdade e ruiu um Império – sadismo patriótico? Ou medo, muito medo de que o povo viesse a saber que, debaixo das gravatas e dos saltos altos, estavam pessoas muito pouco recomendáveis, como dizia Martha Mitchell, a dita “louca”?)

Se várias destas variantes forem alcançadas, chegamos áquilo que também aprendi ser “a política da terra queimada”. Esta ideia da “terra queimada” significa tão só, na nossa aldeia, que se admite ser possível derrubar alguém completamente, a partir de pura conjugação de forças de poder e por razões pouco nobres, como sejam mal-querenças. Ora, isto não é novo… Na História, sempre se fizeram coisas semelhantes, desde a Inquisição que queimou pessoas por alegadas práticas nunca provadas (mas murmuradas por “gente de bem”) até à Caça às Bruxas de séculos passados em que bastava uma vizinha ter inveja de outra para a acusar de bruxaria e aí estava a pobre acusada reduzida a cinzas ou, no mínimo, a açoitamentos públicos.

Podemos mascarar a realidade. Podemos até nomear técnicos que nos apoiem nesse serviço – a CIA tem psicólogos e médicos que, alegadamente, impedem a tortura feita em interrogatórios de “ir longe demais…” (e todos já vimos, no Youtube, o quanto é possível ir longe demais). Podemos atirar areia para os olhos públicos para defender uma imagem. Mas, para quem o faz, deve persistir uma dúvida identitária que Gandhi colocou: “É um mistério para mim porque se sentem os homens honrados com a humilhação de outros seres humanos.” Não deixa de ser, no mínimo, estranho que há quem retire prazer ou (vã) glória disso.