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Friday, November 22, 2019

O Ecoponto da Sra Ministra


No dia 5 de Novembro, três sem abrigo encontraram um recém nascido no eco ponto dos plásticos em frente à Discoteca Lux. A história é menos romântica do que se conta. A primeira pessoa a ouvir o choro de um bebé vindo do lixo foi João Paulo, um sem abrigo que tinha acabado de voltar da dose de metadona. Disse à reportagem da SIC (14 de Novembro) que ainda pensou que podia estar a alucinar, mas o choro não lhe saíu da mente, razão pela qual foi chamar outro sem abrigo, Rui Machado. Os dois procuraram no lixo, mas não conseguiam chegar ao bebé, que parecia “um boneco”. Foram à esquadra e falaram com o agente que, vendo “sem abrigos da metadona”, os aconselhou a irem ao psiquiatra. Foram completamente desacreditados e até humilhados! A sorte do bebé é que os homens não desistiram e chamaram Manuel Xavier, o sem abrigo que o Presidente da República abraçou efusivamente. Foi Manuel Xavier que puxou o bebé do ecoponto, ajudado pelos outros. Nesse momento, os trabalhadores da Lux já estavam cá fora: um homem puxou do telemóvel para chamar o INEM e uma trabalhadora da discoteca (eventualmente alguém que também merece pouco crédito por parte de uma franja da sociedade) pegou no bebé ao colo, bebé esse que, entretanto, fora embrulhado numas calças que os sem abrigo resgataram do chão. “O bebé precisava de carinho de Mulher e de Mãe” (dixit de João Paulo, o primeiro a dar colo ao bebé) e foi assim que o menino se encontrou nos braços de alguém que lhe ofereceu um casaco e o levou para dentro da Lux, até chegar o INEM.

Já li dezenas de artigos de opinião sobre este assunto. Tornou-se social e politicamente correcto defender a progenitora, que (por também ser sem abrigo – vivia numa tenda com um namorado que ela afirma não ser o pai da criança) tem sido dada como “económica e psicologicamente incapaz”, “sem acesso aos cuidados básicos de saúde de gravidez e parto”, “sem apoios afectivos”, “quem sabe se violada”, “incapaz de se apegar emocionalmente a um filho”, “vítima da sociedade”. Claro que estas opiniões são de pessoas que nunca passaram fome, não viveram na rua, sempre tiveram dinheiro para pagar medicamentos, nunca foram violadas ou nunca pariram num passeio. Aquelas mães e mulheres de entre nós que já passaram por qualquer situação muitíssimo vulnerável – como esta ou outra – sentem-se altamente ofendidas por ler que “qualquer uma nesta situação” o que faz é matar a criança. Porque não é. Há milhões de mães em situações de fragilidade e trauma que optam por outras escolhas, desde ter o filho, entregá-lo para adopção ou mesmo abandoná-lo seja onde for, na esperança de que seja “apanhado” por melhor sorte. Mas matar a criança é, digamos, outro nível. Sobretudo, matá-la com intuito e premeditação, não fruto de nenhum desespero de desequilíbrio hormonal provocado pelo parto (como alguns nos querem fazer crer – um mito urbano conveniente). Esta progenitora já disse que escondeu a gravidez, que planeara livrar-se do bebé assim que o tivesse, recusou apoio de saúde que lhe foi oferecido (o que já foi confirmado pelas equipas médicas que apoiam os sem abrigo, que a queriam levar ao Hospital), que agradece “todo o apoio das redes sociais”(repare-se no estilo) e “pede que aguardem com serenidade o seu destino”. É um belo discurso. Não é uma senhora perturbada. É uma mulher que agiu de forma fria e planeada e que não demonstra nenhum remorso.

Estou de acordo com a Presidente do IAC, Dulce Rocha, que diz que o menino devia ser entregue a uma família. Não estou de acordo com o bando que quer entregá-lo à progenitora. Aliás, esta nunca manifestou tal desejo! Para quê? Para outra tentativa de homicídio? Algum destes ambientalistas de pacotilha já viu e sabe o destino que é dado aos plásticos do ecoponto?

Recentemente, assistimos a gente com responsabilidades em Portugal a aderir à onda de apoio a esta senhora. Há uma agenda por trás deste caso da qual nem vou falar, porque não tenho espaço. Primeiro, tivemos o candidato a Bastonário à Ordem dos Advogados a entregar um “habeas corpus” para que a “pobre mãe” fosse libertada até ao julgamento. Tem graça, visto que não podem aplicar-lhe termo de identidade e residência (ela não tem residência…) mas o Sr. acha que era uma medida possível. Enfim, agora todos sabem quem ele é – quantos sabiam antes disto? Muito mais sério é o apoio que lhe foi prestado pela Ministra da Justiça, que a foi visitar à prisão e se sentiu (cito) “confortada com a ideia que a Administração Prisional está a funcionar como devia [porque) ela está a receber todo o apoio”.

Pergunto: quantos presos comuns recebem a visita de um Ministro? Quantas vezes a Administração Prisional (ou Serviços Prisionais) é assim fiscalizada “in loco”, ademais por causa de um preso, potencial homicida de um menor (a mesma administração fiscaliza os casos de menores) e tem esta cobertura mediática, como se estivesse a ser inspecionada publicamente? Ficamos a reflectir a Quem serve tudo isto…

A Sra Ministra que agora apoia desta forma pública esta progenitora que tentou assassinar o seu filho é a mesma Sra Ministra que já recusou formalmente e frontalmente apoio a muitas mães que protegiam os seus filhos, respondendo (cito) “O Ministério não tem relação com os Tribunais”, [não deve imiscuir-se] “em casos concretos, personalizados”. Não é uma mãe que o diz. São várias, conhecem-se, estão juntas em número e força. É verdade, há muitas mais protectoras dos filhos do que assassinas, embora – lamentavelmente – não recebam apoio mas antes lhes levantem dificuldades de variada ordem. Volto a perguntar: a Quem serve tudo isto?

Falemos agora sobre nacionalidade e passaporte. A progenitora da criança é estrangeira, presumivelmente em situação irregular em Portugal, porque veio com visto turístico, não revalidou e não tem papéis de residente. Esta última questão é importante, pois até agora ninguém se debruçou sobre como atribuir papelada legal a esta criança… Eu – e outros observadores atentos - gostaríamos de saber como pensa o Governo Português resolver este assunto, isso sim, importante, pois legalmente impossível, segundo a lei actualmente em vigor. Seria mais importante resolver a situação do inocente do que a da potencial homicida. Mas isto, ao que parece, interessa pouco. Afinal, o petiz não vota e nem sequer fala.

Senhora Ministra, Senhores Ministros, demais serviços governamentais, são várias as mães e crianças que estão muito atentas e aguardam (pelo menos!) a mesma dedicação e benevolência, com muito maior rigor de Justiça.

Thursday, November 7, 2019

O professor e a violência


Li numa notícia de jornal que uma jovem numa escola secundária de Campo Maior foi agredida dentro de uma sala de aula por um colega. Em consequência dos pontapés no rosto que sofreu, a jovem partiu o nariz e ficou com ferimentos num dos olhos. O agressor tem 16 anos e, à laia de punição, fica suspenso por 12 dias, o que implicará chumbar o ano. A escola garante que, apesar da jovem agredida ser vítima de bullying desde o início do ano, trata-se de um caso isolado no cômputo da escola em questão.

Acaba aqui a notícia, começam as minhas questões.

Todos sabemos que há escolas problemáticas; alguns de nós também as frequentaram. A única figura que pode impedir ou, em caso extremo, que pode parar uma cena de pancadaria dentro de uma sala de aula sempre foi e será o professor. Bem sei que, chegados aos 16 anos, não faltam casos em que o aluno é fisicamente mais forte do que o professor/a professora - aliás, não defendo o uso da força nas escolas em nenhuma situação. É importante que desde o primeiro dia se crie um sentimento de autoridade. O professor (vou usar este género por uma questão de economia linguística) não está ao mesmo nível dos alunos, não é um amigão, embora seja amigo - o que é diferente. Sobretudo nas idades formativas, é importante sentir a autoridade dos professores: sabem mais, têm maior experiência de vida, orientam, guiam. Os miúdos esperam, intimamente, essa postura, e notam de imediato se o professor se interessa por eles e se dedica “a ser mestre” ou não. Muitos miúdos não têm outra figura de proa. Se o professor se demite da sua autoridade, ficam sem referências.

Por autoridade, não me refiro a um domínio baseado no jugo e no medo. Isso, infelizmente, já muitos conhecem e é isso que eles próprios exercem sobre outros nessa forma que agora se conhece por bullying e que não é mais que o espelho do que outro alguém sobre eles mantem. Reconheço que existe alguma dificuldade em manter firmeza e ascendência sobre miúdos difíceis, sem usar de impetuosidade, mas já o vi brilhantemente executado durante anos, sem sequer ser rude.

Em resumo: não concebo esta filosofia que hoje vejo pulular que demite o professor da sua responsabilidade, porque parece recear os alunos. Sempre existiram miúdos conflituosos, não é novidade e nem a adolescência de hoje é mais violenta do que foi a minha. Mas é mais mediática. O professor pode e deve fazer algo desde o primeiro dia de aulas, com a sua atitude, exemplo e intervenção. Se sente que não está à vontade (ou até que não quer ou não consegue ser professor…), todos ali têm um problema.

Outra questão decorrente desta é ser-se furiosamente pontapeado no rosto dentro da sala de aula e isto ser um incidente isolado. Não posso pronunciar-me sobre a escola em questão. No entanto, é curiosa a quantidade de “incidentes isolados” deste calibre que acontecem no país – basta fazerem uma busca na internet e verificam que só neste ano escolar já foram vários. Também não é credível que a primeira agressão de alguém a outro seja um pontapé no rosto, agressão que por si só já exibe um carácter de ataque muito violento e que pressupõe violências físicas menores anteriormente executadas.

Isto, infelizmente, recorda-me um caso que conheço bem em que certa personagem confessou perante a Lei pontapear X, mas era esta a única ofensa que lhe fazia (socos não, empurrões não, apenas a pontapeava com violência quando ela já estava no chão… é verosímil? falta explicar como chegou o rosto de X ao chão!)

A terminar, questiono o porquê de um jovem de 16 anos que parte o nariz a alguém não ser imputável perante a Lei. Aos 16 anos, pode-se casar, pode-se guiar uma mota, pode ir-se preso por cometer homicídio ou um crime que a Lei entenda ser de gravidade, mas não se responde sequer à Justiça por partir o nariz a alguém perante uma sala cheia de testemunhas. Não. Fica-se sem escola durante 12 dias (quiçá uma bênção!) e depois retorna-se à vida normal.

Crianças tão jovens como 3 e 4 anos são ouvidas em Tribunal em Portugal, caso tenham sido vítimas de crimes ou presenciado os mesmos. Os interrogatórios são ridículos, feitos como se estivessem a ouvir criminosos adultos, com direito a intimidação e contra-interrogatório. Mas um tipo de 16 anos, que – para todos os efeitos – cometeu uma violência gratuita, tem 12 dias de férias. Portugal seria cómico se não fosse trágico. É um país bom… para férias.


Thursday, October 17, 2019

Casal Para Sempre





Este ano, concretamente desde Abril, a Dinamarca leva a cabo um programa para reduzir o número de divórcios. Antes, um casal que se quisesse divorciar, preenchia um formulário e o processo seguia os seus trâmites. Agora, a justiça (ou o governo… o que dá no mesmo!) instaurou um compasso de espera de três meses até aceitar o pedido. Nesses 3 meses, o casal aspirante a divorciado é obrigado a frequentar sessões de terapia de casal com o objectivo de… não se divorciar! Isso mesmo. O Estado pretende (cito): “reduzir os danos humanos e financeiros do divórcio” segundo Gert Martin Hald, professor de saúde pública de Universidade de Copenhaga, um dos cérebros que concebeu estas sessões de terapia obrigatórias.

A Dinamarca considera que tem uma taxa de divórcios muito alta. As estatísticas do Eurostat dizem que 55% dos casamentos na Dinamarca acabam em divórcio. Uma ninharia, se compararmos com os 70% de Portugal. Jovens, pensem bem se querem gastar dinheiro nessa efemeridade (e não efeméride!), tendo em conta o dinheiro que vão gastar para depois se livrarem disso. Aliás, depois de ver estas estatísticas compreendi porque é que existe uma rede tão grande a complicar divórcios, fazendo a coisa arrastar em tribunais e relatórios, assistentes, psicólogos; é, simplesmente, porque a quantidade de gente que ganha dinheiro à custa disto não é brincadeira e esse pessoal também precisa de sobreviver. Sem complicação processual, não haveria rodagem de capital.

Voltando à Dinamarca, as tais sessões de terapia são obrigatórias. Querendo ou não querendo, os aspirantes a divorciados lá vão tentar reconciliar-se em 17 sessões de meia hora. Portanto, em 8 horas e meia de conversa forçada de parte a parte, se resolve um casamento. Assentai esta fórmula, casais, em caso de necessidade futura!

Trata-se de um atentado do Estado à liberdade individual dos cidadãos. As leis são feitas para promover a segurança pública e proteger a autonomia dos indivíduos. Neste contexto, não está em causa a primeira premissa e é mesmo posta em causa a segunda. A lei pode, por vezes, restringir liberdades individuais a bem da segurança do conjunto: isso é verdadeiro e natural. Mas a que propósito isso se pode aplicar neste caso? Jamais. Como tal, discordo inteiramente desta parvoíce ditatorial e paternalista que obriga homens e mulheres a escrutinarem as suas relações perante terceiros quando não tinham escolhido esse caminho e a justificarem perante estes uma decisão que, certamente, não tomaram de ânimo leve. A quem aproveita esse remexer na ferida?

A Dinamarca já realizara uma experiência piloto com voluntários no ano passado e, portanto, afirma que a experiência funciona, dado que a taxa de divórcios caiu 17%. Não nos enganemos: a palavra-chave aqui é “voluntários”. Nunca alguém obrigado a realizar sessões de terapia obteve delas resultado algum, sobretudo duas pessoas que já não se querem ver nem estar juntas ou, pior cenário!, um se quer separar e outro não, aproveitando este último essas obrigações estaduais/judiciais para andar a rondar o outro e não o deixar em paz. Qualquer profissional habituado a lidar com violência doméstica sabe como um predador se aproveita destas benesses judiciais para não largar uma (potencial) vítima, com a desculpa “O Tribunal diz que temos de nos encontrar”.

Neste mundo civilizado, criaram-se tantas leis contra o “stalking” (vulgo “perseguição”, esta apenas entrou em vigor em Portugal muito recentemente e já veio tarde); contra a violência doméstica; contra a auto-determinação sexual (esta vergonhosamente mascarada, porque, se repararem, a violação é quase sempre tratada como “abuso” em Portugal, sendo que no caso de menores a lei só fala em abuso e não em violação); enfim, a lista continua… Mas depois, por oposição, criam-se parvoíces deste teor, contrariando liberdades adquiridas como a liberdade do divórcio numa sociedade civilizada.

Nos tempos que correm, os Estados laicos imbuíram-se de frementes religiosidades, considerando que o casal é um casal para sempre: se não aos olhos de Deus, aos olhos da Nação! Só falta ouvirmos o coro de velhas Ditaduras com certos slogans que pensávamos já esquecidos, e com a mulher e filhos a terem de pedir ao marido ou pai autorização para ter um passaporte (a velha ideia do passaporte familiar, que ainda consta de certos documentos da República Portuguesa). Aliás, este assunto bafiento e mórbido de pedidos de autorização para sair de onde se está vai contra a própria lei de circulação dos indivíduos, pedra de toque de Portugal na Europa – mas isso fica para outro texto que escreverei em breve.

 A ideia do casal para sempre começou a acentuar-se nos últimos tempos. Nos anos 80 e 90, as pessoas divorciavam-se e tinham direito a refazer a sua conjugalidade e a viver longe de quem se separavam – as palavras chave são “separação” e “liberdade individual”; não estou longe da Constituição. Hoje, isso é socialmente mal visto. Hoje, “serão sempre um casal” e denominam-se “casal parental”. Quiseste ter filhos? Então, serás sempre mulher parental do indivíduo X (inclusivamente se nunca foste sua mulher, isto é se nunca foram casados). Esta ideia é um conceito que atenta às liberdades individuais de ambos os sexos, mas sobretudo às femininas - pois nas nossas sociedades, o homem pode ter um harém, o que até lhe dá um certo ar de garanhão, mas se a mulher faz parte de um “casal”, teórico ou real, não poderá fazer parte de outro sob pena de ser adjectivada com os epítetos que todos conhecemos…

A quem diz que as crianças sofrem por não ter pai e mãe presente, a resposta é simples: as crianças sofrem por não ter quem as ame e por não viverem num ambiente de segurança. Sempre foi assim e sempre será. Quanto ao mais, se quem as cria ou educa é o pai e a mãe, só a mãe, só o pai, nenhum destes, dois pais, duas mães, uma tia, um avô é mais ou menos irrelevante, desde que seja a sua pessoa. A pessoa que elas (crianças) referem como porto seguro. Alguns miúdos têm mais que uma pessoa; outros apenas uma; desafortunados são os que não têm ninguém (infelizmente, são muitos). Não ter ninguém não significa que não vivam / convivam com essas pessoas. Alguns de nós podem testemunhar na primeira pessoa o que é viver com pais presentes cujo abuso fez mal em vez da presença fazer bem. Muitos de nós fomos na infância de 80 e 90 filhos de pais divorciados e sabemos que a separação em si não vaticina desgraça para as crianças; por vezes, até as liberta de casos tristes. No entanto, vive-se hoje um clima de “o divórcio é mau para os meninos” – insisto, não sei se é uma tentativa de recuperar ideais do Estado Novo sub-repticiamente.

Em 2014, quando Obama era Presidente dos E.U.A., os Republicanos aconselharam veementemente uma nova política económica que visava aconselhar as mães sozinhas (solteiras, divorciadas) a casarem-se porque, essencialmente, os seus filhos nunca poderiam almejar a ser nada se elas continuassem a criá-los em solidão, na pobreza e na “vergonha”. Esqueceram-se foi de um pormenor: o próprio Obama era filho de uma mãe sozinha, não sendo propriamente símbolo de insucesso, nem social nem académico nem económico nem afectivo…

Voltando à Europa actual: se esta ideia da Dinamarca assusta, não é preciso voar até ao Norte frio. Portugal também importa ideias peregrinas, caso existam filhos num casal separado. Chamam-se “constelações familiares”. Há muitos sites: exemplos também aqui e aqui, .Só não coloco exemplos de juízes e advogados a ordenar ou aconselhar estas terapias para não levar com processos, pois algo que tenho reparado em Portugal é que o conceito “crónica de opinião” e mesmo o conceito “tese” é entendido como se estivéssemos a desafiar alguém para um duelo do século XVIII…Não se trata disso nem fomento tal.

Recapitulando: a ideia, diz o sistema que a impõe, nasceu da terapia Zulu - cultura tribal extremamente popular em Portugal, e da qual se percebe imenso na Europa. Toda a família (pais desavindos, avós, filhos, e o mais que haja) são obrigados pelo sistema a participar em sessões de reconciliação familiar, mesmo que um deles tenha partido a coluna vertebral do outro, o que implica pouca vontade de se verem e certo perigo de se andarem a promover contactos. Nestas sessões diz-se frequentemente a frase: “a família é a nossa sina”, em resignada demonstração do fado-destino, e certo pendor astral. Basta pesquisarem um pouco para perceberem que não há aqui nada de científico. As palavras usadas são “guru”, “estrelas”, “jogo da família”, “vidas passadas”, “karma”... Para uma mente científica, mandarem-nos entrar nisto é como colocar um penso rápido para estancar uma gangrena. Gostava de ressalvar que isto é uma prática mandatada por alguns Tribunais em Portugal para resolução de acordos e transformação de um casal que se separa no tal casal para sempre.

Seria interessante os senhores que promovem esta coisa irem viajar até ao Sul da África para conhecerem um pouco desse grupo étnico que dizem ser os precursores desta “técnica”, os Zulu. Percebiam, então, este pormenor interessante: os Zulu não fazem nem nunca tiveram uma “terapia”. Isso não são manhas Bantu. São invenções de um tipo para ganhar dinheiro.

Pensar, analisar, interpretar é importante. Quanto ao mais, apetece usar uma frase, já gasta, mas muito relevante: foi mesmo para isto que se fez o 25 de Abril?


Thursday, September 5, 2019

“Mulheres de Conforto”: o crime da escravidão sexual nipónica na Segunda Guerra Mundial


(Atenção: este é um artigo explícito e gráfico)




Imagem: Menina de conforto chinesa numa estação no fim da guerra em 1945,
 sendo interrogada por um soldado aliado (UK Imperial War Museum)

慰安婦 Os caracteres significam algo como “conforto-paz-mulher”. As ianfu ou jugun ianfu eram, pois, na acepção das tropas militares do Japão Imperial, as mulheres que lhes traziam tranquilidade e alívio. O eufemismo é rejeitado até hoje por estas mulheres, as poucas ainda vivas. Mulheres a quem não foi permitido viver como pessoas, tão pouco como mulheres: “nasci mulher, mas nunca vivi como uma mulher” (Kim Bok-dong, levada aos 14 anos para ser “mulher de conforto”).

Este é um dos temas mais sensíveis na Ásia quando se fala da Segunda Guerra Mundial, não só pela violência e crueza das histórias, mas porque se converteu num episódio longo tempo silenciado. Talvez porque as mulheres-vítimas tenham sentido o perigo de re-vitimização nas suas sociedades com a revelação do crime, já que, nas culturas confucianas, a violação e a perda da castidade são dois estigmas que marcam uma mulher como maculada, e que são causa para a sua ostracização. Quem diria que tínhamos, afinal, coisas em comum? (esta ironia seria pano para outra crónica…)

As “mulheres de conforto” eram escravas sexuais mantidas em estações de serviço sexual (ianjo) denominadas também “de conforto” num tempo historicamente convencionado entre 1932 e 1945, embora se saiba que a escravidão sexual exercida pelas milícias começou antes disso. Tais estações foram estabelecidas pelo governo japonês de então nos territórios ocupados pelas suas tropas em regiões tão vastas quanto China, Coreia, Filipinas, Taiwan, Singapura, Tailândia e outras. As meninas (algumas eram pouco mais que crianças) e mulheres capturadas ou seduzidas com promessas vinham de vários países, entre estes, e para além dos já mencionados, Indonésia, Timor Leste, Índias Orientais Holandesas (hoje inexistentes e parte da Indonésia actual), Burma (hoje Myanmar), Papua Nova Guiné, etc. Várias mulheres ocidentais residentes nestes países foram também escravas sexuais, nomeadamente mulheres dos E.U.A. e da Holanda que, na época, era um país colonizador de territórios locais.


Foto: Meninas e mulheres chinesas e malaias numa “estação de conforto” (Wikimedia)

A história das “mulheres de conforto” está intimamente ligada à história da guerra. O enquadramento começou a desenhar-se em 1895 quando Taiwan se tornou uma colónia japonesa. Depois, em 1910, foi a vez da Coreia se tornar uma colónia do Japão. Ambos os países permaneceram como colónias durante a Segunda Guerra Mundial. Foi desde a Coreia que o Japão fez guerra contra a China, numa tentativa de construir um Império que cobrisse Ásia-Pacífico. Nessa guerra Sino-Japonesa, deu-se um episódio que durou sensivelmente seis semanas e que teve início a 13 de Dezembro de 1937 quando os Japoneses capturaram Nanjing (na época, chamava-se Nanking e era a capital chinesa). Deu-se, então, um massacre de proporções épicas, que resultou não só na morte de centenas de milhares mas também em violações sistemáticas de crianças (meninos e meninas) e mulheres, abertas ao meio, penetradas (anal ou vaginalmente) com baionetas, com bambus, garrafas, mutiladas por violação e mortas em consequências de actos sexuais. As grávidas eram abertas na barriga. As mulheres idosas escaparam à violação de homens, mas não a serem violadas com objectos. Encontram facilmente na net fotos deste massacre, apesar da destruição maciça de documentos e provas em 1945. O caso, tristemente conhecido como “Rape of Nanking”, contabiliza a violação de cerca de 20.000 a 80.000 mulheres. Outras situações se sucederam no massacre, incluindo canibalismo e concursos de tortura dos militares sobre civis.


Foto: Mulher profanada em Nanking, segundo os arquivos do Nanjing Massacre Memorial Hall

As notícias das violações de Nanking perturbaram o Imperador japonês Hirohito, que imediatamente receou o impacto negativo que a imagem internacional do Japão iria sofrer com a notícia destas pormenorizadas atrocidades elevadas a grande escala. Consta na História que o Imperador convocou os seus Ministros e Chefes Militares para saber o que poderia ser feito para restaurar o perfil japonês. Desse conselho saíram duas resoluções: uma reforma do Código Militar e a ideia da criação das “estações de conforto sexual”.

Os objectivos destas “estações de conforto” eram vários: confinar os abusos sexuais a locais militarmente controlados (e fora dos olhos da imprensa); prevenir um sentimento anti-nipónico nos locais ocupados pelas tropas, locais esses que assim não veriam (atenção ao verbo!) as suas populações a serem brutalizadas por violação; reduzir as doenças venéreas dos soldados e as despesas médicas a ter com o exército, controlando tudo isto através das meninas (preferencialmente jovens e idealmente virgens quando capturadas) com quem o exército teria relações; reduzir o número de informação sobre os japoneses veiculado às populações. Esta última carece de explicação. De facto, havia já há largos anos uma política de prostituição legalizada, com bordeis instituídos. No entanto, os militares japoneses suspeitavam de espias nesses locais à medida que a guerra foi avançando. As “estações de conforto” eram uma ideia nova, com meninas traficadas de uns países para outros, que viviam isoladas, sem contacto com qualquer população local e sem saber a língua do local onde estavam. Assim, tais mulheres jamais constituiriam um perigo para o exército.

As meninas e mulheres era recrutadas segundo vários métodos. O primeiro era o rapto, puro e simples. O segundo era a compra, sobretudo nas colónias japonesas, Taiwan e Coreia. Nesse tempo, as colónias eram locais bastante pobres e as famílias, devastadas pela pobreza, vendiam os filhos aos militares (por mais absurdo e horrendo que nos pareça). Outro método consistia em aliciar jovens mulheres com promessas de trabalho falsas, tais como empregos de enfermagem ou de animação teatral junto das tropas. Na realidade, estas raparigas seriam todas coagidas ao mesmo papel: o da prostituição, agravado pela escravatura, e ainda por constantes espancamentos, sevícias e, nalguns casos, a morte.

Não é seguro dizer quantas “estações de conforto” e quantas “mulheres de conforto” existiram. Como sempre neste tipo de crimes, o criminoso destrói as provas e a vítima silencia-se. Ainda assim, dada a dimensão holocaustica da situação, é possível avançar com alguns números: entre 20.000 a 410.000 mulheres em 125 estações. Para uma comparação dos estudos feitos até hoje entre os vários académicos que se dedicaram a esta causa, verificar aqui. Note-se que uma só mulher podia “servir” 100 homens num dia, o que contabiliza uma impressionante matemática de horror.

Em 1993, o Tribunal das Nações Unidas Violações dos Direitos das Mulheres estimou que menos de 10 por cento das “mulheres de conforto” tinham sobrevivido à Segunda Guerra Mundial. Para além da elevada taxa de mortandade nas estações, aconteceram suicídios imediatamente após a guerra, devido à ostracização a que foram votadas ou ainda a complicações de saúde causadas pela vida nas estações. Além disso, bizarramente, algumas das meninas cometeram suicídio aquando da chegada dos Aliados por terem sido convencidas que os caucasianos eram canibais e as comeriam vivas. Também há relatos de que alguns dos Aliados americanos não terminaram com as “estações de conforto” que encontraram e continuaram a usá-las, pelo que algumas das meninas apenas mudaram de abusadores durante alguns anos. Quão tentador é para um violento continuar a abusar de um vulnerável, já acostumado à escravidão!

  

Foto: Mulheres coreanas numa estação de conforto em 1944 (Exibição do Seoul Center for Architecture and Urbanism)

No pós-guerra, a partir dos anos 50, o Japão emitiu declarações de desculpa e encetou negociações, sobretudo com a Coreia, para compensações monetárias aos sobreviventes da guerra. De forma paradoxal, muitos oficiais negaram continuamente a existência das estações e das escravas sexuais. Foi apenas nos anos 90 que explodiu a memória das sobreviventes, certamente auxiliadas pelo facto da democratização da Coreia do Sul em 1987 e por um artigo de jornal de Yun Chon-Ok em Janeiro de1990. Este artigo denunciador foi refutado pelo Japão, levando a que 37 organizações de mulheres se juntassem na Coreia do Sul exigindo do governo japonês: o reconhecimento de que as mulheres tinham sido levadas à força; uma desculpa pública; uma investigação sobre o que se passara e os resultados divulgados publicamente; a construção de um monumento para comemorar as vítimas; pagamento de compensação às vítimas ou seus herdeiros; o estabelecimento de programas educacionais que consciencializassem sobre essa realidade histórica. O governo japonês só reagiu quando uma das vítimas, Kim Hak-sun, veio a público contar a sua história no ano seguinte. Foi também ela a única a encetar um procedimento legal contra o governo do Japão. Do trauma colectivo, subsistem pois histórias individuais que funcionam como alavancas para que a História seja reconhecida: a partir da revelação de Kim, o governo japonês estabeleceu o Asian Women’s Fund for Comfort Women e pediu publicamente desculpa às mulheres.

A situação de tensão diplomática sobre este aspecto agudizou-se, tendo-se sucedido descobertas de documentação, vindas a público de sobreviventes, desculpas formais do Primeiro Ministro japonês (Miyazawa em 1992) e resultados dos inquéritos seguidas de uma batalha entre a Coreia do Sul e o Japão sobre a compensação económica. Embora a Coreia tenha dado a situação por satisfatoriamente resolvida, as vítimas coreanas sobreviventes acabaram por levantar um processo judicial contra o seu próprio país, por considerarem que o seu governo tinha anulado os direitos individuais das vítimas de obter compensação do Japão ao assinar um acordo entre governos sem as consultar. Não pode dizer-se que o tema esteja ultrapassado. Mesmo a nível governamental, continuam a existir situações de diplomacia sensível.

Porém, nem só da Coreia reza a História, embora seja coreano o esmagador número de sobreviventes a manifestar-se. Existem testemunhos da China, de Taiwan, das Filipinas, e até da Holanda, cuja sobrevivente JanRuff- O’Herne ficou famosa, entre outras coisas por admitir que a sua visibilidade caucasiana tinha levado a que este tema fosse mais falado e ainda pela triste recusa da Igreja em permitir que se tornasse freira devido ao seu passado “de conforto”, um sonho conventual que acalentava desde criança.

Hoje, existem vídeos a circular sobre o assunto, monografias académicas, reconstituições históricas , memoriais em honra das “mulheres-conforto”, romances e continuam a haver manifestações para que não sejam esquecidos os seus sofrimentos.


Foto: Sobrevivente coreana relembrando os tempos da escravidão sexual numa conferência
(foto de Kazuhiro Nogi)

Termino com o testemunho, um entre tantos, de uma mulher coreana que era uma criança de 13 anos quando foi raptada e feita escrava sexual. Este testemunho foi retirado do relatório de 1996 das Nações Unidas sobre as “mulheres de conforto”. Nada como as palavras desta menina para sermos co-testemunhas do trauma. O seu testemunho em idosa jamais esqueceu o horror, embora ela tivesse esquecido a sua própria língua (atenção, conteúdo gráfico e sensível)

Chong Ok-sun, nascida em1920:

“Um dia de Junho, eu tinha 13 anos, e tinha de preparar o almoço para os meus pais que estavam a trabalhar no campo, por isso fui até à vila buscar água. Um soldado japonês apanhou-me de surpresa e levou-me. Os meus pais nunca souberam o que tinha acontecido à sua filha. Primeiro, fui levada para a esquadra da polícia num camião onde fui violada por vários polícias. Sempre que eu gritava, punham-me meias dentro da boca e continuavam a violar-me. O chefe da esquadra bateu-me no olho esquerdo porque eu chorava. Nesse dia, fiquei cega do olho esquerdo.

Dez dias depois (não estou certa de quantos dias exactamente), fui levada para as barracas de guarnição japonesas na cidade de Heysan. Havia cerca de 400 outras meninas coreanas comigo e tínhamos de servir mais de 5.000 soldados japoneses como escravas sexuais diariamente: mais de 40 homens cada uma. Cada vez que eu protestava, batiam-me ou enfiavam-me trapos dentro da boca. Um deles colocou um fósforo aceso junto das minhas “partes privadas” até eu lhe obedecer. Nesse momento, já estas estavam a escorrer sangue.

Uma das meninas coreanas que estavam ali quis saber porque tínhamos de servir tantos homens por dia. Para a castigar pela sua pergunta, o comandante da companhia, Yamamoto, ordenou que ela fosse espancada com uma espada. Enquanto nós víamos, os soldados tiraram-lhe a roupa, amarram-lhe as pernas e as mãos e fizeram-na rolar sobre uma tábua com pregos até os pregos ficarem cobertos de sangue e de pedaços de carne. No fim, cortaram-lhe a cabeça. Yamamoto disse-nos: “É fácil matar-vos a todas, é mais fácil do que matar cães.” Também nos disse “já que as meninas coreanas estão a chorar porque não comeram, cozam esta carne humana e façam-nas comê-la.”

Uma das meninas coreanas apanhou uma doença venérea como consequência das violações constantes e, em resultado, 50 soldados japoneses foram infectados. Para impedir a doença de se espalhar e também para esterilizar a menina coreana, enfiaram-lhe uma barra de ferro quente na vagina.

Certa vez, levaram 40 de nós num camião para longe, até uma piscina cheia de água e de cobras. Os soldados espancaram várias das raparigas e depois mandaram-nas para dentro de água, cobriram-nas com terra e, assim, enterraram-nas vivas.

Penso que mais de metade das meninas das barracas de guarnição foram mortas. Tentei fugir por duas vezes, e em ambas fui apanhada após um par de dias. Depois, era duplamente torturada. Bateram-me tanto na cabeça; ainda tenho todas as cicatrizes. Também me tatuaram: dentro dos lábios, no peito, no estômago, noutros lugares. Desmaiei nesse momento. Quando acordei, estava no alto da montanha, supostamente ali deixada para morrer. Éramos 3 que ali estávamos, sobrevivemos 2: eu e Kuk Hae. Fomos encontradas por um homem de 50 anos que vivia nas montanhas e que nos deu roupa e algo para comer. Ele ajudou-nos a viajar de volta para a Coreia, para onde regressámos. Voltámos para o nosso país com cicatrizes, estéreis, e já não sabíamos falar bem. Tínhamos 18 anos, tinham passado cinco anos em que tínhamos servido de escravas sexuais para os japoneses.”

A escravidão sexual, o crime, pode acabar… mas a sua marca, o trauma, perdura para sempre.


Friday, July 26, 2019

Taiwan: Um Destino Diferente

“-Estás onde? Tailândia?
-Não! Taiwan.”
Invariavelmente, é este o diálogo que me dirigem.
Taiwan é, ainda hoje, um destino pouco conhecido dos europeus, se exceptuarmos uma recordação ferrugenta no fundo da memória de aqueles cuja infância se passou nos anos 80 e, portanto, lembram-se que toda a parafernália utilizada pelo público infantil tinha, na época, um pequeno selinho que dizia “Made in Taiwan.” De facto, a ilha teve um período de crescimento económico exponencial devido à sua industrialização maciça na segunda metade do século XX, aquilo a que ainda hoje se chama 臺灣奇蹟: Milagre de Taiwan. Mas depois (e antes disso) muita coisa aconteceu nesta não tão pequena ilha com menos de 37.000 km2 de área, onde vivem quase 24 milhões de pessoas (segundo o censo de 2018). Só em Taipei, a capital, vivem quase 3 milhões, um número que sobe para 7, se incluirmos os subúrbios.
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                             Foto: as icónicas scooters da vida comunitária de Taipei
Começo, por isso, por falar das pessoas. Taipei é densamente povoado e não é um sítio a ser visitado se não se for capaz de lidar com multidão. Por outro lado, a ordem e a capacidade de gerir a vida com muita gente estão presentes em tudo na vida dos taiwaneses, desde os transportes às escolas, desde as lojas às instituições. “Fazer fila” é um hábito tão natural como respirar e ninguém pensa em “passar à frente” ou desrespeitar espaços. Não são precisas palavras; as pessoas estão habituadas a uma correcta gestão do tempo e do espaço. De resto, esperar é algo que lhes parece natural na vida. A impaciência não existe na Ásia, de forma geral, nem tão pouco se mede o tempo com a sofreguidão e a ânsia do Ocidente.
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Foto: Sun Moon Lake 
Em Taiwan fala-se, sobretudo, Mandarim, Taiwanês (uma variante dialectal do “Chinês”) e Hakka. Mas o passado histórico da ilha, que pertenceu ao Japão durante quase um século (até ao fim da Segunda Guerra Mundial) faz com que, pelo menos em Taipei, muita gente fale japonês. Além disso, o elevado número de imigrantes estrangeiros, nomeadamente dos EUA e da África do Sul, leva a que se possa, confortavelmente, estar em Taipei falando inglês. As pessoas nativas são de temperamento afável e procuram ajudar, mesmo quando não falam a mesma língua: puxam logo de um tradutor simultâneo, gadget que toda a gente incorporou nos telemóveis.
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Foto: AliShan Mountain
O relacionamento este-oeste não é, porém, todo maravilhas. Uma das zonas de diferença cultural que se faz sentir é a maneira de lidar com o negativo. Por norma, o europeu não se furta ao confronto, à explicação do que é e do que não é, procurando a resolução de uma crise numa discussão aberta e com data aprazada; o asiático de tudo fará para evitar discussões, pois até dizer abertamente a palavra “não” lhe parece indelicado! Prefere sorrir um pouco misteriosamente e dizer “talvez” (demorei bastante tempo a perceber que isto significa “não, mas também não vamos entrar em luta”, sobretudo quando não há prazos para resolver algo que se arrasta sem definição). No entanto, existem vantagens nesta forma de ser, pois, embora inconclusiva, permite certa manutenção da paz – um valor que aqui, em Taiwan, se aprende a apreciar, seja nos templos, seja na natureza, longe do bulício e do barulho que caracterizam a vida de uma capital que nunca pára.
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Não foi por acaso que no século XVI os marinheiros portugueses denominaram esta ilha de “Formosa”. Esse é o nome com que aparece nas cartografias de 1500s. A humidade e o calor de um clima sub-tropical – a ilha é atravessada pelo Trópico de Câncer – dão-lhe um aspecto luxuriante. Montanhas recortam a paisagem verde, vales profundos são atravessados por ribeiros que podemos passar em pontes que parecem saídas de filmes de aventuras, dos altos caem cascatas em despique, há lagos plenos de lendas e também águas quentes sulfúricas – não tão ferrosas nem tão borbulhantes como as dos Açores, portanto ideais para pensar em histórias de encantar e mistérios brumosos. Também há praias em Taiwan. Na minha opinião, Baisha Beach é a melhor: fica no sul da ilha e, tal como o nome indica, é de areia branca. Quem gosta de corais, encontra-os por aqui. Além disso, para os maluquinhos do cinema, filmou-se nesta praia “A Vida de Pi”. Quem prefere areia negra e vulcânica, pode sempre escolher uma praia como Dulan, no este da ilha… mas arrisca-se a apanhar ondas que são só para surfistas.
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                Foto: Baisha Beach 
Lugares impressionantes a não perder pelos amantes da natureza são Taroko Gorge, um magnífico canyon de 19 km escavado pelo Rio Liwu; a Jade Mountain, 3952m, difíceis de subir!; Sun Moon Lake, lugar de fascinante tranquilidade e beleza; a floresta de WangYou, no centro da ilha, um mistério que parece saído de um livro de encantar; a Cascata de Shifen, conhecida como “Pequena Niagara”, o que explica bem a sua forma e espectacularidade, indo a água morrer numa piscina de esmeraldas; as Termas de Beitou, com uma lagoa sulfúrica de cor tão bonita e cheiro tão leve que mal se acredita estarmos perante um fenómeno desta natureza; LongDong (Dragon Cave), bom para quem gosta de fazer escalada ou mergulhar;o  Geo Park de YehLiu, casa das formações rochosas mais estranhas que já vi, onde o calcário se transforma em formas frágeis de nomes bizarros como Kissing Rock ou Queen’s Head; a AliShan Mountain para ver o nascer do sol!; a Cascata de Xiao Wulai, uma espetacular cascata única de 50 mts; o fenomenal cenário dos penhascos de Qingshui; a encantadora floresta de bambu, cedros e ciprestes de Xitou, só comparável a algo imaginado.
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               Foto: Taroko Gorge
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        Foto: Shifen
Depois, há as ilhas, isto é as ilhas pequeninas que pertencem a Taiwan. Destas, aconselho a visitar as Pescadores (isso mesmo!) também chamadas Penghu, com a sua espectacular Caverna Azul; e as ilhas Matsu, com as suas fantásticas casinhas tradicionais. Para quem quer ver veados, morcegos, pássaros, camaleões, insectos e moluscos do tamanho da minha mão (sem exagero… a tropicalidade origina caracóis assustadores), o melhor é a Green Island, uma antiga colónia penal.
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               Foto: O fenómeno das algas azuis nas Ilhas Matsu
Tenho consciência de estar a deixar de fora muitas coisas (Taiwan tem 9 parques nacionais e várias “áreas cénicas”), mas é impossível referir tudo. É, realmente, um lugar onde a urbanidade e a natureza estão combinadas – cada um retira o que quiser.
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             Foto: XiTou
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          Foto: Águas termais de BeiTou
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               Foto: Geopark de YehLiu 
É indispensável dizer que é muito fácil chegar a todo o sítio em Taiwan, nomeadamente em Taipei porque existe uma rede de transportes muito moderna. Na cidade, é comum usar o Metro. Os taiwaneses orgulham-se dele. Há regras muito específicas no uso do Metro e convém aprendê-las de imediato. Andar pela esquerda, parar à direita. Não comer, não beber (nem sequer água), não fumar, não mascar pastilhas ou seja o que for, não encostar a nenhuma porta, não passar das linhas, não sentar nos lugares destinados a pessoas necessitadas. As multas são pesadas mas, mesmo caso não haja multa, o olhar desaprovador do taiwanês não deixará de lhe dizer que a sua atitude não é “metro-friendly”. Embora Taiwan seja um local muito ruidoso, nos transportes o silêncio é apreciado. De facto, falar ao telefone em voz alta é considerado péssima educação (o ideal é usar mensagens escritas, à semelhança do conceito japonês). Convém também dizer que não apreciam o contacto físico, apesar das multidões: é de bom tom fazer de tudo para não tocar nas pessoas.
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                              Foto: Formosa Blvd MRT Station 
Quanto a cidade, falarei apenas da capital. Taipei é uma capital muito completa, uma “alpha city” tal como é designada pela economia mundial. As suas problemáticas com o lixo resultaram em vigorosas campanhas de reciclagem. Não se enganem os visitantes quando ouvirem a “Für Elise” sincopada como se fora uma caixinha de música… Não se trata de um carro de gelados, como pensam sempre os ingénuos. É mesmo o carro do lixo quem assim avisa a sua passagem! Embora Taipei seja declaradamente uma cidade do “Far East”, com os seus templos, stalls de comida, e a sua configuração quase inesgotável de becos e ruazinhas onde mesmo os nativos se perdem com frequência, é possível encontrar aqui traços ocidentais inegáveis: arranha-céus (de entre os quais o famoso Taipei 101, com 508 m está entre os mais altos do mundo), a paixão pela prática de desportos tradicionalmente americanos como o baseball; lojas de franchise ocidental, desde MacDonalds à Zara. Mas para uma experiência verdadeiramente local, nada como visitar um dos famosos e típicos “Night Markets”, que já tiveram a visita gastronómica de Anthony Bourdain. Explicar um night market é complexo… digamos que é uma mistura de feira onde se vende tudo, incluindo todas as possibilidades de comida. Como sempre em Taiwan, existem fotos da comida mesmo na barraca mais modesta, pelo que a selecção pode ser feita apontando para a foto desejada, caso só se fale inglês. O night market mais popular entre os estrangeiros é o de Shilin (pronuncia-se Zhelin), devido à sua localização conveniente, mas, pessoalmente, prefiro o de Raohe, mais tradicional e com mais artesanato.
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Foto: Rahoe Night Market 
O que comer? Quem não gosta de comida chinesa, encontra aqui de tudo, desde que tenha bolsa para tal. No entanto, para uma experiência tradicional taiwanesa há muito a experimentar. Para as crianças, nada melhor do que beber bubble tea (pearl milk tea) e saborear dumplings. As sobremesas tradicionais incluem pinneaple cake e uma parafernália de estranhos gelados, mas também se pode pedir apenas shaved ice, com invariável sabor a manga (uma herança claramente japonesa). Um adulto aventureiro tem muitos paladares, desde o mais clássico beef noodles ou pork rice ao mais ousado intestine vermicelli e stinky tofu (os nomes não mentem; é necessário conter alguns engulhos!) Há fruta classicamente asiática, com dezenas de dragon fruit, durian, wax apples, e outros (de notar que coloquei os nomes todos em inglês, claro).
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                                   Foto: Bubble Tea 
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                    Foto: Stinky Tofu 
Em Taipei não faltam lugares para ser vistos, quanto a monumentos interessantes. Dos museus, destaco o National Palace, essencial para quem aprecia arte oriental, caligrafia e trabalhos em jade. Além disso, só o edifício em si é digno de visita. Quem tiver tempo, também pode visitar o National Taiwan Museum e ficará a saber da história local.
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               Foto: National Palace Museum
Para quem quer experienciar a vivência religiosa, que é muito forte em Taipei mas também muito aberta à pluralidade e até, de certa forma, a mais sincretista que já me foi dado ver, uma visita a um templo é indispensável. Dos milhares que há, o de Longshan é icónico, até pela sua sobrevivência à guerra. Do tradicional, dá-se um salto para o futurismo: indispensável ver a Torre de Tao Zu Yin Yuan, obra prima de arquitectura e ambiente.
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Foto: Templo de LongShan
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             Foto: Torre de Tao Zu Yin Yuan
A maior parte dos monumentos são construídos em grande escala, fazendo-nos reflectir na nossa pequenez enquanto seres humanos e mesmo na pequenez das situações que nos afligem no grande contexto das coisas. Cito apenas alguns, que acredito serem imperdíveis. Chiang Kai-Shek Memorial Hall, uma estrutura de mármore e cimento com vários pavilhões e arcadas (aqui chamadas “gates”), com uma altura de 76 mts, construída em honra de um antigo general e presidente. A beleza e grandiosidade desta estrutura está carregada de simbolismos e detalhes. Em volta, há jardins que merecem uma visita. Bem perto, estão o Teatro Nacional e a Ópera, imperdíveis não só pela arquitectura (vale bem a pena ver como ficam iluminados à noite) mas também pelos programas – a técnica que dedicam à música faz com que existam virtuosos por cá desde tenra idade.
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Foto: Chiang Kai-Shek Memorial Hall 
 Ainda dentro dos Memoriais, vale a pena ir a Sun Yat-Sen. Embora menos belo, fica-se com uma noção grande sobre a história e a mudança da guarda é um espectáculo de rigor que vale bem a pena observar. Quem não fica no Grand Hotel, deve pelo menos ir lá fazer uma refeição ou simplesmente observar esse grandioso edifício, representativo da estética do oriente e do seu colorido vermelho – sinal de alegria e de sorte. Saindo agora dos locais que qualquer guia de turismo pode revelar, deixo um pequeno segredo que não se encontra facilmente e que está na periferia (em Banqiao, New Taipei City): os impressionantes Lin Ben Yuan Family Mansion and Garden, uma jóia sobrevivente dos tradicionais jardins chineses. Trata-se de uma residência que data de 1847, com jardins de 20.000 m2, pertencente na época a uma abastada família chinesa. É impossível explicar a delicada beleza Ming do que resta da casa e a serenidade dos jardins, onde raramente se vêm turistas.
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                 Foto: lobby do Grande Hotel, Taipei
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                Foto: Lin Family Mansion
Viajar com crianças para Taipei é agradável. Os taiwaneses apreciam crianças, e há dezenas de atracções feitas só para elas, desde parques de diversões (Children’s Amusement Park) ao Taipei Zoo, onde a maior atracção são os pachorrentos pandas, claro. No Zoo, há também a Gôndola Maokong, que atravessa uma cordilheira montanhosa. Quase todos os restaurantes têm um menu infantil. Em Taiwan, a taxa de natalidade é muito baixa, havendo uma sensação implícita que uma criança traz boa sorte. Como já perceberam, os taiwaneses são sensíveis a presságios.
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             Foto: Pandas, Taipei Zoo
Para quem gosta de experiências, Taiwan oferece vários desportos radicais ao longo da ilha, e outros mais tradicionais como seja a pesca de camarões à noite ou a experiência de aprender a fazer chá (ah sim, isto tem toda uma ciência!). Mas muito mais se pode fazer, e agora vou também desvendar algumas que não vem nos manuais de turismo. Observar um autêntico festival de pirilampos em Rueili (um must para quem quer pensar que está num filme da Disney, vendo voar mais de 2.000 espécies destes bichinhos entre Abril e Junho); Butterfly Beauty Festival (em Maolin, experiência semelhante com milhares de borboletas); simplesmente observar o maravilhoso espectáculo de arte e luz no Pingxi Lantern Art Festival no início do ano lunar em Taipei; Taiwan International Ballon Festival (em Taitung, para uma verdadeira experiência mágica e colorida de centenas de balões de ar quente onde até se celebram casamentos); Song Jiang Battle Parade (em Kaohshiung, para ver uma tradicional performance marcial); Jinshan Fire Fishing Festival (para observar a arte de pescar com fogo, algo em desuso, mas impressionante e de perder o fôlego). Não aconselho visitar Taiwan no mês de Agosto, não só porque o Verão tem um clima infernal, mas porque é o mês dos “fantasmas” e existem mesmo festivais dedicados ao efeito que são demasiado típicos para um desprevenido cultural.
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Foto: Os pirilampos em Rueili
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Foto: PingXi Lantern Festival 
O lado desagradável de Taiwan são os possíveis desastres naturais. A sua localização coloca a ilha na rota dos tufões, sendo muito comuns no pico do Verão, trazendo uma chuva verdadeiramente monsónica – sem exagero, pode chover copiosamente durante dias. De resto, as falhas sísmicas também lhe causam sismos muito fortes e frequentes, com os quais toda a gente lida com muita tranquilidade e ordem. A isto, junta-se um clima quente e húmido.
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Foto: International Hot Air Balloon Festival 
Os taiwaneses não são conhecidos por ligarem à moda, pelo que qualquer roupa é aceite, sendo que o comum é as pessoas vestirem mais roupa do que o clima necessita. Tradicionalmente não apreciam muito piercings porque os associam a gangs e problemas com a lei. Por outro lado, um facto curioso é a pluralidade de “make overs”: há mil e uma lojas de perucas, de lentes de contacto de outra cor, de pestanas e sobrancelhas falsas, etc. Portanto, se quer mudar de rosto sem fazer uma plástica, bem vindo! Aqui, é perfeitamente possível.
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                 Foto: Song Jian Battle Parade 
Todos sabem que a situação política de Taiwan é complexa. Sendo um Estado que se auto denomina ROC (República da China) e proclama a sua independência, é reclamado pela China Continental como sendo sua província (Chinese Taipei), questão que não está internacionalmente resolvida. No entanto, para um viajante, basta-lhe saber que no local se utiliza a moeda NTD (New Taiwan Dollar) e que, para todos os efeitos, entrar em Taiwan não é o mesmo que entrar na China – embora a China esteja aqui ao lado e, de certa forma, em todo o lado, questão na qual não vou entrar agora. Raramente um taiwanês discute política com um estrangeiro, para evitar desagradáveis momentos.
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       Foto: Jin Shan Fire Fishing
Existe crime, como em todos os lugares do mundo. No entanto, de forma geral, Taiwan (nomeadamente Taipei) é bastante seguro. É comum as crianças andarem sós pela rua, bem como ver mulheres à noite sem acompanhantes. De forma geral, os taiwaneses não têm propensão para o assédio (aliás, nos transportes existem sinais a relembrar que é crime). Além disso, a sua personalidade reservada e o conceito herdado dos nipónicos de “never lose face” inibe-os de cometer crimes desonrosos que lhes tragam vergonha pública.
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          Foto: Pequena Cascata no Maolin Park 
De resto, procuram ser o mais progressistas possível, embora seja uma sociedade claramente estratificada, hierarquizada e patriarcal. As mulheres, em regra, trabalham e algumas conseguem atingir posições de chefia (não tão fácil assim na Ásia… ou até em todo o mundo!); admitem o conceito de mãe solteira, embora isso não lhes seja agradável; são o único estado asiático que permite casamentos LGBTI. Tendo isto em conta, viajar para Taiwan não é o mesmo que viajar para outros locais onde, ostensivamente, se vêm casais de todos os tipos aos beijos em público. Os taiwaneses são reservados no afecto e nas demonstrações públicas; não obstante sejam muito tolerantes (até displicentes) na desculpa de comportamentos em estrangeiros que não tolerariam em cidadãos locais, não apreciam que ninguém seja declaradamente contrário à sua maneira de ser – regra que vale para tudo. Viajar para Taiwan significa encontrar um povo aberto ao estrangeiro, mas que espera dele muito respeito a Taiwan (aliás, com razão).
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                         Foto: Penhascos de QingShui
Importantes conselhos aos viajantes sobre certos mitos e tabus dos taiwaneses, a respeitar: não falar sobre a morte ou os mortos; não chamar fantasmas (eles acreditam que existem espíritos que nos assombram); evitar o número 4 (porque a sua sonoridade fonética é semelhante à da palavra “morte”, arrastando má sorte); não cruzar os pauzinhos com que se come, porque isso lembra incenso; não oferecer relógios, tesouras ou facas a ninguém para “não lhe cortar o tempo”; não oferecer flores brancas; evitar ainda certos presentes referentes a separações (exemplo: frutas cortadas), já que acreditam que quando duas pessoas se separam por corte intencional raramente se voltarão a encontrar. Por outro lado, tudo o que apontar para o número 8 é bom: símbolo de eternidade e abundância. Os presentes são abertos em privado e não em frente de quem os ofereceu, por respeito e contenção emotiva.
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Foto: National Concert Hall 
Eis aqui um cheirinho de Taipei e de Taiwan, um local que não agrada a todos, declaradamente, mas ao qual ninguém fica indiferente. Ou se gosta ou se detesta, raramente havendo meio termo na emoção. Como costumam dizer amigos que me visitam, é, sem dúvida, “como chegar a outro mundo.” Depois de chegar, talvez seja como o tal anúncio que Pessoa fez para a Coca-Cola, recordam-se? “Primeiro estranha-se… depois entranha-se.”
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             Foto: Taipei 101
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