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Friday, December 6, 2019

Apaixonado? Olhe que não!...


Em 1962, Schachter e Singer “descobriram” o que denominaram Teoria dos Dois Factores da Emoção. Segundo estes investigadores, uma emoção é baseada em dois factores: a resposta fisiológica que sentimos aquando da emoção e a etiqueta cognitiva que lhe damos, sendo esta última baseada nas pistas ambientais que encontramos para a nossa excitação fisiológica. Traduzindo: sentimos algo que faz o nosso corpo responder imediatamente com sintomas e logo o nosso cérebro procura dar uma causa e nome a esse algo, colocando-lhe um rótulo.

O problema é que, às vezes, engana-se. Nas mais variadas experiências feitas por estes investigadores e outros que, posteriormente, retomaram o tema, concluiu-se que não é raro o cérebro não saber porque é que a excitação fisiológica acontece. Nessas ocasiões, o ser humano procura sempre compensar e dar uma razão à causa, invariavelmente. Isto não quer dizer que tenha descoberto o porquê da excitação, apenas quer dizer que diminui a sua ansiedade na procura de uma resposta para as suas sensações corporais.

Daqui nasceu o termo “atribuição errónea da causa de excitação”, que não é mais do que dizer que o bem-intencionado ser humano se enganou a colocar as legendas nas suas emoções.

Um dos exemplos mais clássicos para demonstrar esta possibilidade é a panóplia de transformações físicas que se opera no nosso corpo quando sentimos medo, desde falta de ar até alterações na pressão sanguínea. Lamentavelmente, são muito semelhantes às mudanças operadas nos organismos “atacados” de paixão romântica. Apesar desta irónica semelhança fisiológica, em princípio, um ser humano de pensamento claro e emoção organizada não terá problemas em distinguir o medo do romantismo, certo? A julgar pela experimentação científica, parece que não estamos tão seguros assim…

Um dos estudos a este respeito denominado “O Amor Apaixonado e a atribuição errónea da causa de excitação” (White, Fishbein e Rutsein, 1981) demonstra que qualquer tipo de excitação física prévia não relacionada com parceiros mas com situações absolutamente paralelas (por exemplo, exercício extenuante) faz com que uma atracção sexual/romântica tenha propensão para acontecer imediatamente a seguir. Tentativa de prolongamento da sensação? Os donos de discotecas já descobriram este truque há muitos anos…

Não vou citar aqui todas as experiências que já se fizeram sobre este conceito de atribuição errónea, mas não quero deixar de mencionar aquela que é, provavelmente, a mais famosa: trata-se da experiência da ponte suspensa feita por Dutton e Aron em 1974. Nesta experiência, os sujeitos (homens) tinham de atravessar uma ponte suspensa perigosa, sujeita a ventos e ao balanço. As sensações de medo e ansiedade eram inevitáveis. Eram recebidos por uma mulher atraente com um desenho (não sexual) que lhes pedia para escreverem uma história e lhes entregava o seu número de telefone, pois caso tivessem dúvidas poderiam contactá-la para falar da experiência. Um elevado número de participantes quis ligar, estando convencido de uma atracção considerável por esta mulher. Todas as sensações fisiológicas que os assomavam (rápido bater do coração, joelhos “fracos”, palpitações, dificuldades respiratórias, mãos transpiradas) foram por eles atribuídas a uma atracção sexual fulminante pela mulher e não ao medo que ter acabado de atravessar uma ponte suspensa lhes tinha causado – medo esse que ainda permanecia e destilava dos seus corpos. A mesma experiência colocou sujeitos diferentes frente à mulher atraente mas no início da ponte e, coisa interessante, antes de atravessar nenhum homem se sentiu atacado pela paixão. As pessoas que inventaram os filmes de terror e os parques de diversões com montanhas russas também já conhecem este truque: não é raro que pares de namorados gostem de ir ao cinema ver filmes de terror – a ciência explica.

No entanto, apesar da pimenta que se esconde atrás do jasmim, há outras conclusões menos humorísticas a retirar de tudo isto. Não será que esta confusão dos rótulos que colocamos às nossas emoções, particularmente este confundir do receio com a paixão, explica a manutenção de algumas relações tóxicas? Parece-me que aqui está a chave desses casos: N pensa que está apaixonado porque sente os sintomas que identifica como tal; mas afinal N apenas vive com medo. Parece que, fisiologicamente, a linha que os separa é ténue e confusa, sobretudo para espíritos ansiosos.  

Friday, November 22, 2019

O Ecoponto da Sra Ministra


No dia 5 de Novembro, três sem abrigo encontraram um recém nascido no eco ponto dos plásticos em frente à Discoteca Lux. A história é menos romântica do que se conta. A primeira pessoa a ouvir o choro de um bebé vindo do lixo foi João Paulo, um sem abrigo que tinha acabado de voltar da dose de metadona. Disse à reportagem da SIC (14 de Novembro) que ainda pensou que podia estar a alucinar, mas o choro não lhe saíu da mente, razão pela qual foi chamar outro sem abrigo, Rui Machado. Os dois procuraram no lixo, mas não conseguiam chegar ao bebé, que parecia “um boneco”. Foram à esquadra e falaram com o agente que, vendo “sem abrigos da metadona”, os aconselhou a irem ao psiquiatra. Foram completamente desacreditados e até humilhados! A sorte do bebé é que os homens não desistiram e chamaram Manuel Xavier, o sem abrigo que o Presidente da República abraçou efusivamente. Foi Manuel Xavier que puxou o bebé do ecoponto, ajudado pelos outros. Nesse momento, os trabalhadores da Lux já estavam cá fora: um homem puxou do telemóvel para chamar o INEM e uma trabalhadora da discoteca (eventualmente alguém que também merece pouco crédito por parte de uma franja da sociedade) pegou no bebé ao colo, bebé esse que, entretanto, fora embrulhado numas calças que os sem abrigo resgataram do chão. “O bebé precisava de carinho de Mulher e de Mãe” (dixit de João Paulo, o primeiro a dar colo ao bebé) e foi assim que o menino se encontrou nos braços de alguém que lhe ofereceu um casaco e o levou para dentro da Lux, até chegar o INEM.

Já li dezenas de artigos de opinião sobre este assunto. Tornou-se social e politicamente correcto defender a progenitora, que (por também ser sem abrigo – vivia numa tenda com um namorado que ela afirma não ser o pai da criança) tem sido dada como “económica e psicologicamente incapaz”, “sem acesso aos cuidados básicos de saúde de gravidez e parto”, “sem apoios afectivos”, “quem sabe se violada”, “incapaz de se apegar emocionalmente a um filho”, “vítima da sociedade”. Claro que estas opiniões são de pessoas que nunca passaram fome, não viveram na rua, sempre tiveram dinheiro para pagar medicamentos, nunca foram violadas ou nunca pariram num passeio. Aquelas mães e mulheres de entre nós que já passaram por qualquer situação muitíssimo vulnerável – como esta ou outra – sentem-se altamente ofendidas por ler que “qualquer uma nesta situação” o que faz é matar a criança. Porque não é. Há milhões de mães em situações de fragilidade e trauma que optam por outras escolhas, desde ter o filho, entregá-lo para adopção ou mesmo abandoná-lo seja onde for, na esperança de que seja “apanhado” por melhor sorte. Mas matar a criança é, digamos, outro nível. Sobretudo, matá-la com intuito e premeditação, não fruto de nenhum desespero de desequilíbrio hormonal provocado pelo parto (como alguns nos querem fazer crer – um mito urbano conveniente). Esta progenitora já disse que escondeu a gravidez, que planeara livrar-se do bebé assim que o tivesse, recusou apoio de saúde que lhe foi oferecido (o que já foi confirmado pelas equipas médicas que apoiam os sem abrigo, que a queriam levar ao Hospital), que agradece “todo o apoio das redes sociais”(repare-se no estilo) e “pede que aguardem com serenidade o seu destino”. É um belo discurso. Não é uma senhora perturbada. É uma mulher que agiu de forma fria e planeada e que não demonstra nenhum remorso.

Estou de acordo com a Presidente do IAC, Dulce Rocha, que diz que o menino devia ser entregue a uma família. Não estou de acordo com o bando que quer entregá-lo à progenitora. Aliás, esta nunca manifestou tal desejo! Para quê? Para outra tentativa de homicídio? Algum destes ambientalistas de pacotilha já viu e sabe o destino que é dado aos plásticos do ecoponto?

Recentemente, assistimos a gente com responsabilidades em Portugal a aderir à onda de apoio a esta senhora. Há uma agenda por trás deste caso da qual nem vou falar, porque não tenho espaço. Primeiro, tivemos o candidato a Bastonário à Ordem dos Advogados a entregar um “habeas corpus” para que a “pobre mãe” fosse libertada até ao julgamento. Tem graça, visto que não podem aplicar-lhe termo de identidade e residência (ela não tem residência…) mas o Sr. acha que era uma medida possível. Enfim, agora todos sabem quem ele é – quantos sabiam antes disto? Muito mais sério é o apoio que lhe foi prestado pela Ministra da Justiça, que a foi visitar à prisão e se sentiu (cito) “confortada com a ideia que a Administração Prisional está a funcionar como devia [porque) ela está a receber todo o apoio”.

Pergunto: quantos presos comuns recebem a visita de um Ministro? Quantas vezes a Administração Prisional (ou Serviços Prisionais) é assim fiscalizada “in loco”, ademais por causa de um preso, potencial homicida de um menor (a mesma administração fiscaliza os casos de menores) e tem esta cobertura mediática, como se estivesse a ser inspecionada publicamente? Ficamos a reflectir a Quem serve tudo isto…

A Sra Ministra que agora apoia desta forma pública esta progenitora que tentou assassinar o seu filho é a mesma Sra Ministra que já recusou formalmente e frontalmente apoio a muitas mães que protegiam os seus filhos, respondendo (cito) “O Ministério não tem relação com os Tribunais”, [não deve imiscuir-se] “em casos concretos, personalizados”. Não é uma mãe que o diz. São várias, conhecem-se, estão juntas em número e força. É verdade, há muitas mais protectoras dos filhos do que assassinas, embora – lamentavelmente – não recebam apoio mas antes lhes levantem dificuldades de variada ordem. Volto a perguntar: a Quem serve tudo isto?

Falemos agora sobre nacionalidade e passaporte. A progenitora da criança é estrangeira, presumivelmente em situação irregular em Portugal, porque veio com visto turístico, não revalidou e não tem papéis de residente. Esta última questão é importante, pois até agora ninguém se debruçou sobre como atribuir papelada legal a esta criança… Eu – e outros observadores atentos - gostaríamos de saber como pensa o Governo Português resolver este assunto, isso sim, importante, pois legalmente impossível, segundo a lei actualmente em vigor. Seria mais importante resolver a situação do inocente do que a da potencial homicida. Mas isto, ao que parece, interessa pouco. Afinal, o petiz não vota e nem sequer fala.

Senhora Ministra, Senhores Ministros, demais serviços governamentais, são várias as mães e crianças que estão muito atentas e aguardam (pelo menos!) a mesma dedicação e benevolência, com muito maior rigor de Justiça.

Thursday, November 7, 2019

O professor e a violência


Li numa notícia de jornal que uma jovem numa escola secundária de Campo Maior foi agredida dentro de uma sala de aula por um colega. Em consequência dos pontapés no rosto que sofreu, a jovem partiu o nariz e ficou com ferimentos num dos olhos. O agressor tem 16 anos e, à laia de punição, fica suspenso por 12 dias, o que implicará chumbar o ano. A escola garante que, apesar da jovem agredida ser vítima de bullying desde o início do ano, trata-se de um caso isolado no cômputo da escola em questão.

Acaba aqui a notícia, começam as minhas questões.

Todos sabemos que há escolas problemáticas; alguns de nós também as frequentaram. A única figura que pode impedir ou, em caso extremo, que pode parar uma cena de pancadaria dentro de uma sala de aula sempre foi e será o professor. Bem sei que, chegados aos 16 anos, não faltam casos em que o aluno é fisicamente mais forte do que o professor/a professora - aliás, não defendo o uso da força nas escolas em nenhuma situação. É importante que desde o primeiro dia se crie um sentimento de autoridade. O professor (vou usar este género por uma questão de economia linguística) não está ao mesmo nível dos alunos, não é um amigão, embora seja amigo - o que é diferente. Sobretudo nas idades formativas, é importante sentir a autoridade dos professores: sabem mais, têm maior experiência de vida, orientam, guiam. Os miúdos esperam, intimamente, essa postura, e notam de imediato se o professor se interessa por eles e se dedica “a ser mestre” ou não. Muitos miúdos não têm outra figura de proa. Se o professor se demite da sua autoridade, ficam sem referências.

Por autoridade, não me refiro a um domínio baseado no jugo e no medo. Isso, infelizmente, já muitos conhecem e é isso que eles próprios exercem sobre outros nessa forma que agora se conhece por bullying e que não é mais que o espelho do que outro alguém sobre eles mantem. Reconheço que existe alguma dificuldade em manter firmeza e ascendência sobre miúdos difíceis, sem usar de impetuosidade, mas já o vi brilhantemente executado durante anos, sem sequer ser rude.

Em resumo: não concebo esta filosofia que hoje vejo pulular que demite o professor da sua responsabilidade, porque parece recear os alunos. Sempre existiram miúdos conflituosos, não é novidade e nem a adolescência de hoje é mais violenta do que foi a minha. Mas é mais mediática. O professor pode e deve fazer algo desde o primeiro dia de aulas, com a sua atitude, exemplo e intervenção. Se sente que não está à vontade (ou até que não quer ou não consegue ser professor…), todos ali têm um problema.

Outra questão decorrente desta é ser-se furiosamente pontapeado no rosto dentro da sala de aula e isto ser um incidente isolado. Não posso pronunciar-me sobre a escola em questão. No entanto, é curiosa a quantidade de “incidentes isolados” deste calibre que acontecem no país – basta fazerem uma busca na internet e verificam que só neste ano escolar já foram vários. Também não é credível que a primeira agressão de alguém a outro seja um pontapé no rosto, agressão que por si só já exibe um carácter de ataque muito violento e que pressupõe violências físicas menores anteriormente executadas.

Isto, infelizmente, recorda-me um caso que conheço bem em que certa personagem confessou perante a Lei pontapear X, mas era esta a única ofensa que lhe fazia (socos não, empurrões não, apenas a pontapeava com violência quando ela já estava no chão… é verosímil? falta explicar como chegou o rosto de X ao chão!)

A terminar, questiono o porquê de um jovem de 16 anos que parte o nariz a alguém não ser imputável perante a Lei. Aos 16 anos, pode-se casar, pode-se guiar uma mota, pode ir-se preso por cometer homicídio ou um crime que a Lei entenda ser de gravidade, mas não se responde sequer à Justiça por partir o nariz a alguém perante uma sala cheia de testemunhas. Não. Fica-se sem escola durante 12 dias (quiçá uma bênção!) e depois retorna-se à vida normal.

Crianças tão jovens como 3 e 4 anos são ouvidas em Tribunal em Portugal, caso tenham sido vítimas de crimes ou presenciado os mesmos. Os interrogatórios são ridículos, feitos como se estivessem a ouvir criminosos adultos, com direito a intimidação e contra-interrogatório. Mas um tipo de 16 anos, que – para todos os efeitos – cometeu uma violência gratuita, tem 12 dias de férias. Portugal seria cómico se não fosse trágico. É um país bom… para férias.


Friday, October 25, 2019

Os Jovens e os Ecrãs


Ainda sou do tempo em que se dizia “Não te sentes perto da televisão. Faz mal à vista!” Quinze anos depois, todos tínhamos telemóveis e a questão tornou-se obsoleta. Sou, portanto, da geração onde se deu um salto entre dois modos extremamente distintos de vida e que não se enquadra numa denominativa geracional. Ainda por cima, nós que vivenciámos a vida açoriana durante a infância e (parte da) adolescência, sentimos com mais particularidade o tradicional e, dos que fomos imigrantes, ainda com maior acuidade o inovador. Logo, o tempo que mediou entre “cuidado, a televisão faz mal à vista!” e os fones sem fios, lentes biónicas, bio-printing 3D e outros, foi muito pouco. Somos, possivelmente a única geração que foi avisada contra a tecnologia, mas teve de trabalhar com ela logo que iniciou os estudos a sério.

Isto para dizer que não faço parte dos pais que perde a cabeça com os miúdos “que “passam tempo com tecnologia”. Com peso e medida – fórmula que não diz respeito apenas à tecnologia, mas a tudo na vida, para miúdos e para graúdos. O equilíbrio é importante, mas é risível se diz respeito apenas ao uso da internet e afins. Porque não também em relação ao exercício, comida, descanso, etc?

A conversa “os miúdos de hoje andam agarrados ao tablet e isso só faz mal” soa-me demasiado semelhante à conversa do meu tempo de criança “os miúdos de hoje veem televisão e isso só faz mal.” Ou seja, traduzindo “os miúdos deste tempo fazem algo que no meu tempo de miúdo não havia e, consequentemente, isso não é bom!” Toda a geração olha com alguma desconfiança para a novidade e (porque não dizê-lo?) para a oportunidade que surge e que, no seu tempo, não existia. É a natureza humana. Suspeito que quando o acesso aos livros e imprensa escrita se massificou, a geração anterior também terá avisado “Não andes agarrado aos livros! Isso faz mal! Estraga a vista! Não põe comida na mesa!” e outras preciosidades no género. Aliás, como a taxa de iliteracia em Portugal no tempo de Salazar rondava os 75%, o tempo destes avisos contra a literatura no nosso país é capaz de não estar tão longe assim! Tal facto acentua mais ainda a dramática (porque extremamente rápida) convulsão alfabético-tecnológica das gerações portuguesas nos últimos anos.

Ao contrário do que pede certa canção popular portuguesa, o tempo não vai voltar para trás. O tempo é sempre em frente! Temos a escolha de nos adaptarmos às novas realidades ou não. Certo é que a tecnologia veio para ficar, e será cada vez mais preponderante. Podemos nunca precisar de próteses, pacemakers ou outros; podemos ignorar que existem o SunWay TaihuLight e o Summit; mas já ninguém se imagina a viver sem computador e sem telemóvel!

Aliás, sempre que um adulto se queixa porque o filho passa muito tempo com tecnologias, logo gosto de perguntar quanto por dia gasta o progenitor nas suas andanças tecnológicas? Decerto, o “vício” não é só dos juvenis. Existe uma aprendizagem social e familiar que não é de menosprezar: porque deve o Pedrinho deixar de jogar quando come se os pais comem de telemóvel na mão? Recordo que a idade média de um “gamer” é 33 anos, não 15 nem 8…

Os jovens vivem a tecnologia. Os próprios pais lhes perguntam “como se faz”. Nas universidades mundo fora, os docentes já só leccionam com tecnologia e o investigador tem de usar mil ferramentas onde antes usava papel e lápis (hoje, obsoletos, inclusive para músicos).

Difícil é também convencer um jovem que não terá dinheiro se continuar a interessar-se por Fortnite ou outro jogo virtual quando ele sabe que Kyle Giersdorf, de 16 anos, ganhou 3 milhões num campeonato do mundo deste joguinho recentemente; ou dizer-lhe que não veja YouTube quando ele sabe que há milionários que vivem de vídeos.

Apesar da sua má reputação, a verdade é que os jogos virtuais e, sobretudo, o uso da tecnologia, incrementam várias habilidades cognitivas, como o leque de atenção, multi tasking, foco, percepção. Por outro lado, não está provado que conduzam a défices de concentração ou que incrementem violência. Estas são conclusões de neurocientistas da Universidade de Géneve e da Universidade da Califórnia, Daphne Bavelier e Benoit Bediou.

Portanto, porque não jogar? Com equilíbrio. A mesma dose de bom senso que se tem para tudo é aplicável aqui. Em si mesmos, os jogos e a tecnologia não são um inimigo nem um drama; pelo contrário.

Friday, October 11, 2019

O Efeito Lúcifer


Nos anos 70, o psicólogo americano e professor da Stanford University Philip Zimbardo realizou uma controversa experiência que ficou conhecida como a Experiência da Prisão de Stanford e que Zimbardo retrata num livro, publicado apenas em 2007, denominado “O Efeito Lúcifer: como se tornam más as boas pessoas”.

O livro foi um sucesso, ganhando o prémio 2008 da American Psychological Association. Já a Experiência de Stanford serve-nos enquanto “case study”.

Zimbardo recrutou 24 homens caucasianos de classe média, sem passado criminal, aparentemente mentalmente estáveis e fisicamente saudáveis, para o que deveria ser uma experiência de duas semanas numa prisão fictícia. O psicólogo pretendia avaliar quais os efeitos que se (de)notam em alguém que se torna um prisioneiro ou um guarda prisional. Moviam-no, igualmente, questões de estudo de poder, domínio, submissão, identidade grupal, desumanização, vandalismo, identidade ou perda da mesma. Para tal, dividiu os voluntários em prisioneiros e guardas prisionais, tendo ele mesmo assumido o papel de superintendente da prisão.

Não é anormal que os participantes num estudo psicológico sejam voluntários que recebem apenas uma pequena compensação por participarem. Ainda hoje é assim em todas as grandes universidades pelo mundo fora. No entanto, hoje em dia, as questões éticas são salvaguardadas e jamais uma experiência deste género seria levada a cabo em contexto científico. A julgar pelas experiências que lemos dos anos 70, o apreço pelas condições mentais dos sujeitos durante e após uma participação num estudo era nulo.

Feita a divisão, Zimbardo instruiu os sujeitos para assumirem o seu papel na totalidade: os prisioneiros (que viviam 24/7 como tal) eram tratados como criminosos em reclusão pelos guardas que tinham autoridade sobre eles. Zimbardo foi claro, dizendo aos guardas que fizessem sentir aos prisioneiros que eles tinham perdido todo o poder sobre as suas vidas, bem como a sua individualidade; deveriam sentir constante tédio e constante medo.

Logo ao fim do primeiro dia, notou-se que os homens encarnaram completamente uma nova persona, embora alguns em muito maior grau que outros. Esta persona bem como o grau de intensidade com que cada qual a investiu manteve-se até ao fim do estudo. Assim, um dos homens era considerado o guarda mais temido porque era, de longe, o mais abusivo e mais violento de todos (já no fim do primeiro dia), ao passo que outro guarda – que não contara ser escolhido para esse papel – era empático com os prisioneiros e tinha muita dificuldade em ser duro com eles. Os efeitos também se fizeram sentir com a mesma rapidez nos prisioneiros. Algumas horas de reclusão e abuso eram passadas quando um deles já se revoltava (e continuaria sempre a revoltar-se), outros apresentavam submissão e outro revelou sinais de loucura violenta, a tal ponto que teve de ser retirado da experiência para sua própria salvaguarda, tais eram as manifestações de raiva descontrolada.

Longe de diminuírem com a passagem dos dias, as reacções de cada qual foram-se intensificando com o passar do tempo. A generalidade dos guardas tornou-se cada vez mais violento, exibindo tendências de um sadismo considerável.

O estudo teve fim prematuro quando a namorada de Zimbardo visitou a prisão. Ficou extremamente chocada com o que presenciou e pediu-lhe que terminasse, ao que ele acedeu. No entanto, Zimbardo sublinha que 50 pessoas tinham visitado a “prisão” antes dela e ninguém o questionara sobre a ética do que por lá se passava.

O “efeito Lúcifer” fala-nos de transformações morais, usando a metáfora do anjo caído tornado demónio que todos conhecem da história bíblica. Teoriza que uma tal transformação ocorre nos indivíduos tendo em conta três variáveis que devem estar presentes: um sistema de poder, uma situação e uma pré-disposição individual. Questiona também a possibilidade das atitudes mudarem consoante a pessoa saber que está a ser (ou não) observada, de produzir dissonância cognitiva e dos que se sentem poderosos responderem apenas ao poder de uma autoridade maior mas serem insensíveis aos que julgam seus inferiores, objectificando-os por completo.

Apesar de estarmos no rescaldo eleitoral, esta crónica nada tem a ver com políticos ou com política. Ou então tem. Cada um entenderá a seu gosto e consoante a sua experiência.

Thursday, September 26, 2019

O Véu Pintado


“Não levantes esse véu pintado/ Que esses que o vivem chamam/ Vida, ainda que represente formas irreais/ Imagem enganosa de tudo aquilo em que acreditamos/ em cores dispersas. Por trás/ espreitam o Medo e a Esperança, destinos gémeos/ que entrelaçam as suas sombras no abismo escuro e secreto./ Conheci um homem de coração sensível/ Que levantou esse véu procurando algo para amar/ mas nada encontrou, nem as coisas desse mundo/ poderiam agradar-lhe./ Movendo-se por entre os desatentos; esplendor nas sombras/ponto brilhante no cenário sombrio,/ ele foi uma alma que lutou pela verdade/ e, tal como o Pregador,/ nunca a encontrou.” (P.B. Shelley; com perdão da minha tradução, muito aquém do original)

Acreditamos no que desejamos acreditar. Vemos apenas o que queremos ver. As nossas crenças têm pouca relação com o real e não precisam de nada para se apoiar, excepto a nossa ilusão. Há que reconhecer que, infelizmente, temos certa quota parte de culpa na construção das nossas ilusões, pois a confusão dos sentidos, a distorção das percepções não é apenas causada pelo exterior (por mais manhoso e manipulador que este seja) mas também pela nossa própria vontade de que o objecto do nosso desejo seja como imaginamos. O iludido é, indubitavelmente, um enganado – a própria raiz da palavra o afirma (iludo, verbo latino que significa burlar). Porém, trata-se de um enganado que contribuíu para o seu engano, ainda que inconscientemente, e talvez apenas pela muita vontade que tinha de acreditar numa realidade diversa.

Tomemos como exemplo pragmático uma ilusão de óptica. Se eu acredito que vejo o que ali não está mas afirmo a sua existência, minto ou não? Que interessa aos restantes se foram os meus olhos traídos por um processo que, afinal, só em mim mesma se operou? Isto a ninguém importa, é claro, a não ser que eu, dentro dessa ilusão, portanto iludida (burlada!) provoque irreversíveis estragos na vida dos demais. Existe sempre a atenuante de que a verdade, coberta por toda a sorte de véus por algum mágico ilusionista que a si próprio se diverte, me fosse ocultada. No entanto, até que ponto existem atenuantes para trilhos que já não podem ser apagados?

Neste tempo de notícias, contra-informação, notícias falsas, volta-atrás e vai à frente, sem consequência e sem compromisso, é importante não esquecer o seguinte: para acreditar é necessário, primeiro e sobretudo, intencionalidade. Obviamente, a intenção do ilusionista de nos enganar; mas também a nossa intenção (ingénua? simplista? por vezes, pouco inteligente?) de sermos enganados. Racionalmente, pensar dá trabalho. Analisar algo de um ponto de vista diferente do seu é impensável para os dogmáticos. Se entramos no campo emocional, mais difícil ainda é ver destruída uma ilusão: pois como não acreditar que a pessoa que endeusámos não é, afinal, um deus? Ou, pior, que é apenas menos que um verme?

Que dizer, então, desse mágico caído em desgraça, dir-se-ia ídolo com pés de barro se pés tivesse, mas os ídolos são seres volantes e efémeros, na verdade ninguém sabendo muito bem com que linhas se cosem mas todos aparentando ser seus íntimos, por via da tal ilusão. Como mágico que é, continuará a iludir… e a magicar, cuidado! Já não surpreende, mas o truque continua.

Por mim, optarei sempre por levantar o véu pintado, ainda que ele constitua o falso conjunto de formas a que outros chamam vida. Não por arrogância, entenda-se. Mas porque não consigo viver com imagens enganosas e formas irreais. Aliás, reformulo: não consegui. Hoje em dia, o verbo é outro: já nem sobreviver consigo sem que haja verdade; se não para os outros, que ela exista no meu interior e nos de quem amo.

Friday, September 13, 2019

Antolhos


Aconteceu-me algo caricato que, para alguns, pode constituir um elogio, mas que, para mim, sempre foi fonte de muitas dores de cabeça. O contexto pouco interessa, interessa o facto: pediram-me prova de maioridade.

Quase incrédula, respondi que não tinha comigo os meus documentos, mas tinha o meu telemóvel onde, por sorte, está uma foto do cartão da “Middle School” do meu filho onde consta a idade dele e, portanto, fácil é deduzir que eu, sua mãe, serei maior de idade, porquanto não teria tido um filho aos 7 ou 6 anos de vida. Impávida, sem pestanejar, a requisitante respondeu-me “Não seria a primeira…” Fiquei gelada, mas admiti esta crua realidade. Usei, então, a internet para ver o email no telemóvel pois recordei-me que tinha, numa mensagem eletrónica, a minha certidão de casamento em anexo. A senhora não se deu por convencida, dizendo-me que isso não era prova. Embora eu argumentasse (de facto, os menores de idade podem casar, mas o menor fica emancipado pelo casamento, logo eu seria maior porque já casada, independentemente da idade), a senhora cortou a conversa dizendo que a certidão de casamento não tem fotografia, pelo que não podia comprovar a minha identidade. Discutível, já que também a certidão de nascimento (obviamente) não tem fotografia; porém, é usada como o documento identitário para podermos casar.

Perguntei como agir, e a resposta foi “impossível, nada a fazer”. Seguiu-se uma acesa argumentação em que procurei convencer a senhora da flagrante estupidez que era atribuir-me menoridade, para mais perante os factos à sua frente. A sua resposta foi sempre a mesma: “Eu não fiz a Lei, só sigo a Lei. Sigo o que está escrito. Eu cumpro. Temos de respeitar as convenções.” Mais adiante, já consternada e avermelhada, dizia “Onde iria parar o país e o mundo se não fizéssemos todos o que a Lei manda fazer?”

Neste momento, tive muita pena daquele ser humano, que voluntariamente abdicava da sua condição de ser pensante diariamente – pelos vistos, como hábito, fazendo disso sua segunda pele e natureza. É, decerto, extremamente confortável seguir à risca um caderno pautado, onde a mão pesada de outrem ditou qualquer coisa. Existe, em qualquer regime, a possibilidade de pensarmos e agirmos com a racionalidade e contextualização que cada caso individual exige. Mas concordo que é mecânico e mais fácil desresponsabilizarmo-nos e dizer “faço o que me mandam, está aqui no parágrafo tal e picos. A culpa é do gajo que fez isto, não é minha. Eu sou um bom funcionário; cumpro. Sou, até, um funcionário exemplar porque cumpro sem olhar para mais nada.”

Não me debruço sobre a circunstância filosófica que está por detrás disto já que qualquer um pode ir ler sobre “a banalidade do mal”, conceito de Hannah Arendt que popularizou exatamente esta mentalidade. Existem indivíduos perfeitamente vulgares, sem carácter distorcido, que dentro da mais perfeita bu(r)rocracia, cumprem a Lei à risca, com o único objetivo de ascender na carreira, e que, ao cumprir ordens sem questionar, fazem o Mal sem por uma só vez refletir nele.

O exemplo de Arendt era Adolf Eichmann, funcionário nazi. Temos hoje muitos mais exemplos, e a História há de falar neles a seu tempo. Obviamente, não estou a falar da senhora para quem a minha idade era tão importante, cujo caso é absolutamente irrelevante e mesquinho, mas da sua mentalidade, rasteira e inflexível.

Nenhum ser com este modus operandi mental é um ser livre. Ele próprio se encapsulou em Ditadura, seja qual for o regime de governo em que viva. É um humano-rebuçado para os dentinhos de um superior em ascensão... e queda.

Friday, August 30, 2019

Descobriram que eram europeus


“Descobri então, com deslumbramento, a minha posição no mundo: era europeia.” Disse-o Natália Correia em 1949, após uma viagem aos E.U.A. quando as viagens entre Lisboa e a América demoravam vinte horas. Em 2019, os tempos são outros. Ainda que não fossem, há que assumir que não abundam Natálias, nem intelectualmente nem em frontalidade.

Ultimamente, imensos vultos da nossa localidade se descobriram europeus, sem que antes se tivessem dado conta disso. É de louvar esta descoberta, não sei se étnica, se cultural ou se motivada por uma questão de (des)afogamento económico e jogo político. No(s) primeiro(s) caso(s), teríamos o encontrar da sua própria identidade pessoal e colectiva (já tarde, mesmo não comparando com Natália); no segundo, estamos perante uma moda, que permite agradar às massas, ganhar uns trocos valentes, e fazer o nosso pobre país sobreviver na onda dos subsídios.

Claro que há indivíduos que, desde há muito, assumiram a sua persona europeia, não estando abrangidos por este recente deslumbramento aldeão, totalmente alheio à curvatura geral do resto da Europa. Sei que as modas demoram tempo a chegar às periferias, mas hoje, já não nos podemos desculpar com a geografia do extremo oeste. O discurso já não cola, desde que o país se apressou a entrar na UE em 1986, ainda com feridas mal curadas de um passado resolvido com cuspo e sem saber muito bem o que fazer portas adentro com as suas crises.

Todos sabemos que a união de estados europeus foi criada com um propósito claro após a devastação que a Grande Guerra deixou na Europa. A ideia era não tornar a passar por outra situação de confronto interno, unindo-se num ideal comum de fraternidade – e, já agora, numa potência económica. Mas esses ideais federativos nunca foram cumpridos na totalidade. Aliás, onde é que esses ideais já vão! De facto, cada vez mais se nota um desfazer do tecido europeu.

Nem é preciso falar do Brexit, para onde nos mandam olhar para que pensemos que é a única fractura. Foi ridículo o Reino Unido ter saída marcada da U.E. para 31 de Março, o Parlamento não chegar a acordo e, embora todos soubessem que iam sair, os britânicos ainda terem ido votar nestas eleições. Caricato. De que terá servido a campanha e a escolha desses deputados europeus britânicos? A quem beneficiou? O surrealismo encontrou nova expressão! Ouvimos imensos “distintos” a dizer “O Reino Unido vai ver o que lhe vai acontecer”. Na verdade: “nada”. O Reino Unido continuará a sua vida, sem pertencer à UE. Não sou a favor da saída por muitos motivos, mas pragmaticamente não vejo que isso traga dano aos próprios (já aos restantes europeus é outra conversa…)

Sejamos sérios. O “ideal Europa” está em crise, mesmo nos pilares fortes da UE: as sondagens feitas em França antes das eleições para o Parlamento Europeu resultaram em 70% dos franceses a opinar que a UE já não era um sistema no qual se reviam; na Alemanha, as mesmas sondagens resultaram em 45% dos eleitores com a mesma opinião. Se formos a países fracturantes como a Hungria, o descalabro é total. A realidade é que a generalidade dos eleitores manifesta que “esta Europa” não responde às necessidades dos seus países, ou porque se sentem à beira (ou em plena) recessão económica ou porque lutam com um problema de imigração ao qual a Europa não tem conseguido responder ou até por questões de etno-nacionalismo (cada vez mais forte e mais exacerbado em todos os países - este sim, constitui um problema muito grave!). Mas tornou-se moda não falar nestes assuntos incomodativos…

…E noutros. Há quanto tempo não ouvimos falar da integração da Turquia? Há quanto tempo as vagas de imigrantes em barcos no Mediterrâneo continuam? Há quanto tempo não se discute o salário mínimo europeu, essa ideia peregrina que desapareceu de vista? Agora fala-se apenas de relações com países não europeus (que não mandem barcos…) e de ambiente - com Grete a distrair as massas, como se os políticos, caso quisessem, já não pudessem ter feito tudo o que esta jovem de imagem infantilizada lhes grita no parlamento: apenas uma manobra de circo.

A UE é um projecto difícil porque é um caldo de culturas nacionais (já nem falo das regionais), procurando ligá-las através de um sonho comum (fundamentalmente) económico – mas há irmãos ricos e irmãos pobres nesta família cuja solidariedade tem limites. É curioso que só agora, nos lugares pequeninos e recônditos da Europa, se tenha “descoberto a identidade europeia” que, caramba, sempre ali esteve! Ou isto significa que há uma falta de fluidez económica preocupante nesses lugares; ou significa que estão muito atrasados na descoberta da sua identidade. Qualquer uma destas hipóteses é má mas, sobretudo, chega tarde, como um tipo cuja banda sonora preferida de 2019 é Elvis Presley, remasterizado.

Friday, August 16, 2019

Antes morrer livres que em paz sujeitos


Desde Junho que me perguntam o que se passa em Hong Kong. Vou explicar, sem pretensões, ou, como por cá se diz, “atiro tijolos para atrair jade.” 

O ano passado, um cidadão de Hong Kong viajou até Taiwan (estado que se considera independente, mas é reivindicado pela China, situação já de si complexa). Este cidadão assassinou a sua namorada em Taiwan, confessando-o já depois de regressado a Hong Kong. Foi acusado em Taiwan pelo crime; mas como não existe acordo judicial entre Hong Kong e Taiwan, o cidadão não pode nem ser extraditado para Taiwan nem ser julgado pelo crime em Hong Kong, onde foi preso apenas por evasão fiscal. 

Se Taiwan tem o complexo estatuto que acima expliquei, o de Hong Kong está definido, sendo uma região administrativa com estatuto especial na China. Assim, HK tem um estatuto autonómico sério, com moeda e sistema político próprios, finanças e justiça independentes, administração territorial e fronteiriça (emissão de passaportes, vistos, etc). Taiwan pretende mais: quer ser considerado um país. Apesar da proximidade de HK, não se fala a mesma língua. Porque HK e Macau são regiões administrativas especiais e Taiwan é um estado que luta por independência, a China chama-lhe “província rebelde”.   

Para extraditar o tal prisioneiro de HK para Taiwan, teria de entrar em vigor uma lei de extradição que o governo de Carrie Lam pensou implementar em Hong Kong. Isto permitiria que, no futuro, fosse extraditado de HK um cidadão arguido de crime para qualquer país (incluindo a China, pois, de momento, não existe acordo judicial entre a China e os seus “territórios especiais”). Não seria qualquer crime: foi elaborada uma lista de menos de 40 crimes, nenhum deles de índole política.  

A quantidade de povo que, imediatamente, se manifestou nas ruas (1.030.000 num dia) exigindo a demissão de Carrie Lam demonstrou que esta ideia era um grande tiro no pé. De facto, tudo o que ameace a autonomia dos territórios é visto não só como submissão à China continental mas também como ataque aos direitos humanos, algo que os territórios sentem na pele, pois ainda se recordam de tristes momentos nada longínquos na História. De imediato, temendo a mesma futura subordinação a Pequim, Taiwan logo afirmou que não pedia a extradição do criminoso ainda que a lei fosse aprovada, numa clara posição de desagrado com as possibilidades que tal lei pode abrir no futuro. Extradições? Jamais. Pois Hong Kong e, sobretudo, Taiwan foram o refúgio dos dissidentes que se demarcaram da política chinesa, e, numa atitude de auto-exílio, fugiram da perseguição que lhes foi movida.  

Vendo-se cada vez mais pressionada pelo seu povo, Carrie Lam retirou o projecto-lei. Mas, como dizem os protestantes, “aprendemos que não podemos confiar nos políticos”. Há 10 semanas que os protestos crescem cada vez mais, exigindo democracia, não extradição, sufrágio universal e liberdade em relação à China. Durante dois dias, o aeroporto de HK (o 8º mais movimentado do mundo) esteve fechado à navegação, sendo que dias antes alguns protestantes aterraram em Taiwan (apoiante do seu movimento). As tropas chinesas já colocaram os seus tanques na fronteira com Hong Kong, numa clara mensagem bélica, quando até aqui tinham confiado num sistema de “atrito”. 

Os protestantes de HK sabem que necessitam de apoio. Ninguém em HK esqueceu a revolução de 2014. Menos ainda ignoram que se a China entrar militarmente num território, nomeadamente este pequeno território, o resultado será desfavorável para o opositor. Quer a China fazê-lo? A China não teme ninguém. Se não o fez, é porque tenta internacionalmente ter uma imagem diplomata, nos últimos anos, diferente da reputação que granjeou com o massacre de Tiananmen em 1989. Para já, a economia entrou em colapso: a de HK por razão óbvia; a de Taiwan enfrenta um boicote chinês relativamente ao turismo desde 1 de Agosto.

Se é certo que o poder da grande China é indiscutível, também é certo que os territórios são de gente de fibra para quem o domínio é a morte. Resta saber que evolução terá tudo isto, em mais um episódio da história em que os tigres incomodam o dragão.

Friday, August 2, 2019

Ceifa


Subitamente, não mais do que de repente, afogou-se na própria respiração e perdeu-a. Os olhos abriram-se por uns segundos, mais do que o normal, como que ansiosos, mais que isso, aflitos, exasperados e depois eram vácuo, perderam-se num vazio, rendidos à evidência de não existir. Os dedos abriram-se ao extremo e logo a seguir se curvaram como garras, mas ninguém percebeu o que ele queria agarrar, se a manta, se algum humano, se o sopro de ar que lhe fugia, se a vida. Os dedos permaneceram assim, em gancho, e foi difícil colocá-los, mais tarde, naquela posição serena e bonita com que teimaram em apresentá-lo a toda a gente para que lhe dissessem adeus. Para poupar a família a traumas desnecessários, as costuras cirúrgicas da autópsia foram maquilhadas e depois tapadas com aquela roupa alva, tão contrastante com a desordem dos órgãos enfiados à pressa de volta ao corpo costurado depois com primor que estava ali por baixo.
“Sabe o que é o trauma? É a ferida aberta. As pessoas quando passam por algo inesperado não estão preparadas e, portanto, não sabem reagir, não agem. Mas depois o trauma é reviverem a mesma coisa, tantas e tantas vezes, porque vão ter a necessidade de reagir, mais tarde… até conseguirem conviver com o real e cicatrizar o assunto.”
“Fala do falecido, Dr.?”
“Eu, não. Eu falo dos que ficam a pensar em quem se foi. O médico fala da vida, não fala da morte. Não é essa a sua função. Prolongamos a vida tanto quanto podemos, mas não mais do que isso. Se quer falar sobre a morte, o melhor é ver um padre. Eu posso dar-lhe razões, gnoseologias científicas… mas, neste caso, nem isso! A causa foi idiopática.”
O padre disse pouco que acrescentasse ao apaziguar do súbito vazio onde antes havia pulso, voz, temperatura. Do discurso, guardou palavras soltas: “Um dia… todos reunidos… na Eternidade… uma felicidade que não terá fim… aguardar com paciência… pois que todas as tormentas terrenas terminaram… repousa no amor de Deus, que é o amor maior que existe.”
Todos reunidos, quem? E se aparecessem pessoas que eles não gostavam? Ou que apenas um deles gostava e o outro não? Não poucas foram as vezes que tinham discutido por pessoas com quem um queria estar e o outro não! Então aquelas discussões picuinhas e (agora definitivamente) estúpidas iriam continuar na tal Eternidade? Ah, definitivamente não era um conceito bem pensado! Por outro lado, se era verdade que as tormentas tinham acabado, também não se podia negar que tinham terminado as alegrias – mas quem perguntou se ele queria terminar agora as alegrias, se estava assim tão angustiado pelas tormentas? E quem disse que Deus era quem lhe dedicava maior amor? Pois se era, ficasse Deus a saber, talvez não tivesse sido correspondido na mesma moeda! Mas não era o seu maior amor, está visto que não era, ou não se teria portado desta maneira imatura e ridícula, roubando-lhe o ar de forma sorrateira e cerce, sem aviso, esse trapaceiro!
Enquanto arrumava os pertences de quem assim se fora, sem suspeitar que aquela seria a última noite que descansava, o último copo de água que beberia, ela encontrou discos de vinil e livros, no meio de camisolas (ainda com cheiro) e papeis antigos que melhor fora não ter lido. No meio de um livro, um marcador com esta inscrição de Fernando Pessoa:
“A morte chega cedo/Pois breve é toda a vida/O instante é o arremedo/De uma coisa perdida.// O amor foi começado/O ideal não acabou,/E quem tenha alcançado/Não sabe o que alcançou.//E tudo isto, a morte/Risca, por não estar certo/No caderno da sorte/Que Deus deixou aberto.”
Tudo se resumia, então, a sorte. Seremos um conjunto inexplicável de acidentes? Tornar-nos-emos numa memória que o tempo desconstrói. O que é, afinal, o sucesso se a derrota final é sempre certa? Foi com estes pensamentos que escreveu o epitáfio dele, parafraseando Camus:
“Viveu sempre em busca do amanhã, de um melhor amanhã; desconsiderando que o amanhã o aproximava do seu último inimigo.”

Friday, July 19, 2019

A popularidade dos arguidos


Recentemente, li crónicas preocupadas com homens “públicos” constituídos arguidos, opinando como isso os poderia prejudicar. Nada mais errado! Noutra cultura, seria expectável que suspeitas legais fundadas em provas suficientes para julgamento beliscassem a imagem dos ditos. Mas em Portugal passa-se o oposto. Um homem arguido é envolvido por uma aura de compaixão, como se não fosse suspeito de crime mas sim vítima de armadilha social ou de desgraça do destino, trapaças que merecem a identificação do próximo que logo se solidariza com fervor.

Exemplos? Começo por Isaltino Morais. Todos conhecem o Presidente da Câmara de Oeiras que se tornou Ministro do Ambiente e se demitiu do Governo por suspeitas de rendimentos não declarados. “Calúnias!” Voltou à CM de Oeiras e seguiram-se processos de branqueamento de capitais, fraude fiscal, corrupção e abuso de poder. Isaltino saíu do PSD e foi constituído arguido. Que lhe aconteceu? Ficou mal visto aos olhos do povo? Pelo contrário! “Isaltino, o melhor presidente que a câmara já teve, digam o que disserem!”; “Este homem ficou órfão de pai e mãe antes dos 18 anos e soube fazer-se à vida!”; “É um ex combatente da Guerra, merece respeito!” e outras coisas que pouco tinham a ver com o caso em apreço mas tudo desculpavam segundo o vulgo. Isaltino perdeu a carreira política? Não só concorreu como ganhou, ironicamente tornando-se Presidente da Câmara quando estava detido. As figuras públicas desistiram de o apoiar? Não; mesmo o venerado Mário Soares, não obstante ser de “outra cor”, afirmou que “Isaltino foi um grande presidente e um homem muito injustiçado.” Conclusão: Isaltino arguido mais viu disparar o apreço que lhe manifestavam do que Isaltino a quem nada se apontava!

José Sócrates. Só há pouco se tornou persona non grata junto dos seus correligionários e, consequentemente, caíu no esquecimento. Actualmente, já não se vê um socialista seu apoiante depois de anos e anos de processos mediáticos (Marquês, Independente, Freeport) e de outras questões que, não sendo ilegais, demonstraram ética discutível, como as obras por si assinadas serem, afinal, escritas por outrem a quem pagou para abdicar dos direitos intelectuais. Porém, durante os anos de tempestade, foi fervorosamente defendido quando estava detido em Évora - havia uma comissão de centenas de pessoas para sua defesa e até “um hino socrático” escrito para o efeito. Deram-se “n” entrevistas de figuras do partido em sua defesa. Quando mudou para prisão domiciliária tornou-se meu vizinho, pelo que posso testemunhar que nunca o bairro foi tão movimentado numa romaria de suporte, havendo mesmo povo que lá ia na esperança de o ver à janela: “Coitado…é um homem muito bonito!” Esta simpatia hormonal mexia com imensas senhoras (e senhores). A verdade é que o Sr. Engenheiro, mesmo sem ter completado a Licenciatura em Portugal, conseguiu fazer um Mestrado no Institut d'Études Politiques de Paris após ser arguido e ter de ir para França! Há que admitir que, ao menos academicamente, a condição de arguido permitiu que subisse muito na vida!

Carlos Cruz, o conhecido apresentador condenado a sete anos de prisão por abusos sexuais de menores. Fizeram-se mil entrevistas ao próprio e seus familiares, onde se falava da “tristeza da filha” (das crianças vitimadas não rezavam estas entrevistas lacrimosas), “da dificuldade da vida prisional” e da “infância de Carlos Cruz”, tudo numa clara tentativa de vitimizar o criminoso, e fazer esquecer as reais vítimas da história, o que resulta muito bem. Não só Carlos Cruz escreveu 4 best-sellers, mas muitos “alguéns”(a julgar pelo estilo de escrita) se encarregaram de manter sites na internet sobre o seu “drama” com reflexões de apoiantes famosos deste país, que não deixaram de se manifestar. Em casos desta natureza, interrogo-me o que ganham com tal fervoroso apoio pois só me ocorre que seja um silêncio vantajoso do arguido/condenado.

Ronaldo. Quando foi constituído arguido, li que isso “acabaria com a sua carreira!” Oh tristes cidadãos, que cegueira do mundo onde habitais! A carreira do abusador é impulsionada quando não condenado, porque fica automaticamente conotado como mais viril e mais poderoso do que antes era – sobretudo se não tinha antes uma imagem que primava por estes adjectivos Reparem que apesar da admissão do email em que CR diz que, efectivamente, a senhora não consentiu (perfazendo, assim, o crime!), nem a justiça avança nem as pessoas se convencem. Pelo contrário, defende-se que “ela só queria ser conhecida”. É sabido que uma mulher não tem talento próprio e, para ser conhecida, apela logo para histórias destas que, aliás, é o que dá mais gosto contar.

Assim, não há que temer. Um homem arguido, mormente na cultura portuguesa, não cai em desgraça. O português tem um gosto faducho e popular que “guarda no coração o lugar do vilão.”

Thursday, June 20, 2019

Meninos à Venda... Mas com Glamour



Há dias recebi uma petição de protesto contra uma notícia do Diário de Notícias que saiu na última semana de Maio e que se intitulava “Crianças para adopção desfilam em passerelle para eventuais interessados”.

O evento era isto: crianças e jovens, entre os 4 e os 17 anos, a desfilarem numa passerelle, maquilhados, bem vestidos, à moda, para que o público interessado no “produto humano” se manifestasse e os adoptasse. O desfile aconteceu em Mato Grosso e foi organizado pela Ordem dos Advogados do Brasil.

Já vai na terceira edição mas só este ano é que choveram as críticas, pelo menos internacionalmente, acusando o evento do que realmente é: espécie de cruel feira de gado humana, mercantilização perversa de crianças. Note-se que, tendo em atenção quem são os organizadores, o evento não podia estar mais dentro da legalidade! Isto não impede que a ética do mesmo seja inteiramente discutível.

Acontece que a “adopção” de crianças por meio de espectáculos de moda a pretendentes que as avaliam não é exclusiva do Brasil que, aliás, se limitou a copiar a ideia dos Estados Unidos, onde a prática já existe há muito. Um documentário feito em 2011, denominado Catwalk Kids, já registava esta prática como comum há vários anos nos E.U.A. (desde os tempos de Bill Clinton, pelo menos).
O documentário demonstra uns E.U.A. orgulhosos desse seu “marketing das crianças que estão em foster care ou ao cuidado do Estado” e que, caso contrário, nunca de lá sairiam e críticos “desses países que não fazem nada para que mais crianças sejam adoptadas.” Não traz nada de novo ao dizer que quanto mais velha uma criança mais difícil é de ser reintegrada numa família, e que se existirem irmãos mais complexa se torna a realidade da adopção.

O documentário é chocante, porque vemos crianças pequenas a tentarem vender-se, literalmente, ao desfilarem demonstrando toda a sua estrutura corporal na passerelle. Já para não falar dos adolescentes, quase desesperados, cuja forma de vestir e desempenho ao qual são obrigados no evento quase nos faz duvidar de qual vai ser o seu real papel e função nas famílias para onde vão viver.

Em qualquer país do mundo, as crianças são um negócio há muitos anos. Basta ler os artigos de David Akynsaya no inglês The Guardian, um (hoje) mediático que teve a sorte de sobreviver ao sistema do Estado para crianças-vulneráveis (ou crianças-problema, depende da denominação em voga),que põe a nu a realidade de um passado onde “sobreviver” é realmente um feito. São perguntas inquietantes: “se se retiram as crianças a pais inadequados, o objectivo seria dar-lhes cuidadores adequados. Então, porque é que isso não costuma acontecer?”

Quanto aos desfiles de “moda” para estratégica adopção: que efeito têm nas crianças – as tais cujo “superior interesse” está em causa? Que aprenderá uma criança que foi a) abandonada, b) retirada a uma família ou c) já anteriormente maltratada pelos pais quando lhe dizem “Agora vamos maquilhar-te e pôr-te esta roupinha e vais andar de forma dançante perante um grupo de avaliadores. Se algum te achar suficientemente interessante, leva-te para casa. Passas a ser o filho dessa família. Vê lá se fazes um bom trabalho.”

Sendo escolhidas, na melhor das hipóteses (?), nunca terão liberdade para serem crianças, jovens e pessoas. Estarão sempre a fazer um papel, o papel de entretenimento perfeito, esse papel de teatro-diversão para o qual foram adquiridas por estes (agora) pais. Já para não falar das que, não sendo escolhidas, se culpam pela sua falta de “qualidade”.

As verdadeiras perguntas são: que espécie de pais escolhem um filho de entre um desfile de crianças para encher a boca (ou as redes sociais) com o amor incondicional da paternidade/maternidade? Que espécie de leis temos onde esta situação é organizada pelos próprios actores legais? Não menos importante: que sociedade temos, que apenas entra na moda de protestar contra o Brasil e os E.U.A. em relação a esta prática, quando decide que não gosta do Bolsonaro e do Trump, líderes completamente alheios a estas decisões  que já há tanto tempo estão em voga?

Thursday, June 6, 2019

O Absurdo Caso do Esperma Congelado



Peter Zhu, um cadete da Academia Militar de West Point, nos E.U.A., sofreu um acidente de esqui há 3 meses atrás que o deixou com a coluna severamente fraturada. Cinco dias depois, foi pronunciada a sua morte cerebral. O jovem de 21 anos foi mantido vivo ainda durante dois dias mais, altura em que os seus pais obtiveram uma ordem do Tribunal para preservar o esperma do jovem, a fim de “obter descendência a partir deste”. A ordem acaba de ser confirmada na passada semana.

No seu pedido, os pais de Peter Zhu alegaram várias coisas.

A primeira foram as excelentes qualidades do filho, razões pelas quais “queriam preservar o seu material reprodutivo e genético.” Este motivo, que pareceu ao decisor retratar uns pais elogiosos do seu filho, parece-me a mim assustadoramente hitleriano, na onda da preservação da raça. Além de que, no elogio feito ao filho, nada mais encontro do que a extensão de um elogio aos próprios – pois o material genético do filho é o dos pais, aqui pretensos futuros avós.  

Alegaram, também, que o filho, “generoso e humanitário”, era um dador de órgãos consignado, razão pela qual, se iam retirar-lhe os órgãos para serem doados a outras pessoas, sentiam que seria igualmente possível e dentro da mesma bitola avaliativa legal, ser-lhe retirado o esperma (obviamente antes dos órgãos) e ser este entregue aos pais, para que estes pudessem utilizá-lo para fins reprodutivos. Ora, também com isto não concordo por não me parecer o mesmo, pois se Peter Zhu assinou um papel concordando em ser dador de órgãos, isso não é o mesmo que ser dador de esperma, nem daí se pode concluir a sua anuência em tal. Aliás, incorre-se aqui num erro de forma e de matéria, pois que o esperma não é um órgão. Seria necessário que Peter Zhu tivesse incluído na doação post mortem esta cláusula específica, a doação de fluídos reprodutivos – o que, aliás, nem sei se é possível, de tal forma me parece absurdo.

Finalmente, os pais de Peter alegaram que tinham a certeza de que o “desejo de Peter seria ter filhos, desejo esse que não lhe foi possível realizar […] pelo que tendo perdido o nosso precioso filho, rogamos ao Tribunal a possibilidade de preservar uma parte dele numa criança que venha a existir.” Claro que a dor de perder um filho é inconcebível para a generalidade dos pais e não se pode julgar a forma como cada um reage a essa dor. Mas outra coisa, bem diferente deste quadro, são as últimas linhas que aqui transcrevi, com as quais me arrepiei. Passando por cima do facto de ser impossível saber os desejos de Peter quanto à paternidade (estava cerebralmente morto e não deixou nada escrito neste sentido), é assustador a admissão de que a razão pela qual querem um neto é para ver Peter vivo outra vez, descobrir Peter noutra criança, enfim ter Peter de novo. O futuro neto (cuja mãe será, provavelmente, apenas um “vaso reprodutivo”) não passará de um espelho do filho perdido, não indivíduo por direito, servindo para compensar a solidão destes avós. Um fardo muito pesado e muito injusto para uma nova vida.

Ficam-me, ainda, outras interrogações éticas sobre este pedido tão rapidamente autorizado pelo Juiz Colangelo. Nesta época em que a sociedade despertou para a noção de “consentimento” nos atos sexuais e tendo em conta que profanar um corpo morto é crime, como se encara a manipulação masculina para obter esperma, tendo em conta que Peter Zhu nunca expressou o seu consentimento? Quanto a mim, não é claro seja lícito, pois mesmo a doação de órgãos (e insisto que esperma não é órgão) tem de ser autorizada pelo próprio, expressamente e em vida.

Para já, os futuros avós congelaram o esperma e ainda não revelaram o que se segue, visto que a ordem do Tribunal os autoriza a ficar com o esperma mas não os obriga a nenhum tipo de utilização consequente. Abriu-se uma caixa de Pandora, cujas respostas éticas não são claras e levantam muito desgosto.





Friday, May 24, 2019

Hey Joe, que fazes com esses tipos na mão?



Tenho lido, sem surpresa, esta novela mediática à volta do inquérito de Joe Berardo, clássico português em que toda a gente se finge extraordinariamente surpreendida com tudo. “Que inacreditável vergonha!” dizem da forma como Joe riu perante a comissão de inquérito. “Que lata!” dizem do jeito entre o paternalista e o trocista como Joe afirmou “Eu tentei ajudar”.

Que dizer da enorme fortuna do Sr. Comendador (não esquecer que é um homem condecorado pela nação), da fantástica Coleção Berardo, dos vinhos da Bacalhoa, etc.? Nada, porque Joe afirmou “Não possuo nada, não tenho nada!” Os bens não estão no seu nome, foram passados para a Metalgest (uma holding que salvaguarda os interesses do próprio) e para algo chamado Associação de Coleções (eu não percebi o objeto e fundamento desta porque não sou jurista, mas estou em crer que ninguém na sala conseguiu perceber bem).

A lógica é simples: Joe já não tem os bens… mas detém as associações e empresas que detém os bens. Nem todos os parlamentares demonstraram entender, ad pedem litterae, esta lógica. É por isso que eu sou uma miserável proscrita, por pouco sem direito a identidade, e os parlamentares e afins são abastados, embora (é certo) bem menos ricos que Joe – sendo também por isso que podem fingir-se enganados por ele.

Portanto, como afirma Joe, em resposta às alegadas dívidas de milhões, “pessoalmente, não tenho dividas.” Está correto. A chave está no advérbio “pessoalmente”, muito bem colocado.

Note-se: a CGD emprestou 50 milhões de euros ao mutuário de Joe. Joe explicou que o empréstimo até foi sugerido pela própria CGD; de momento já não era possível recordar bem o autor da sugestão, compreensível esvaimento da memória. O propósito deste empréstimo era investir em ações do BCP. Porquê? A julgar pelos depoimentos até agora colhidos (Joe incluído), havia a ideia de colocar no BCP uma nova administração, quiçá alguém da administração da CGD. Enfim, tudo tão português e natural. Acresce que os nomes citados implicam aquela situação tentacular da verdadeira “família” política.

É possível que o Banco de Portugal não soubesse de tal? Quem lá estava? Ah, a sólida questão dos poderes instaurados. Isto constitui burla ao património público? Bem, é um empréstimo de um banco público, cujas garantias foram defraudadas… Que lhe haveremos de chamar?

O Sr. Primeiro Ministro afirmou e cito “O País está chocado com o desplante de Joe Berardo”. Mais uma vez, uma excelente utilização das palavras. Quem está chocado? O País. Eu aplaudo a utilização de gramática dos intervenientes nesta sessão. Não entendo os comentários raivosos que li acerca da pobreza linguística da mesma. Pelo contrário; na minha opinião, falaram de forma certeira. O Sr. Primeiro Ministro disse ainda “Espero que a Justiça portuguesa funcione”. É outra brilhante e pequena frase, riquíssima em semântica.

Por curiosidade, fui ver quem é o advogado de Joe (porque na verdade, foi ele quem lhe “deu as indicações”). Li que é um “amigo do Sr. Comendador”, foi administrador nas suas empresas e detinha cargos no BCP. Além disso, tem ligações a famílias nobres em Portugal. Como diz um comentador conhecido “o pobre procura um advogado quando é acusado de um crime; o rico já tem um advogado informado na perspetiva de vir a ser acusado do crime”. Daqui resulta que ao rico nunca falta uma boa defesa.

Mas a defesa do rico não é o seu advogado. Passa antes por aquilo que o acusado detém: monetariamente, em termos de informação e de projeção. Passa pela rede que construiu. O rico é um amicus curiae.  Os seus julgadores acabam por fazer parte dessa rede, fatalmente. Logo, os julgadores do rico, sobretudo num país pequeno, fazem parte da defesa do rico.

 Aliás, não fosse Joe quem é, teria ido ao Tribunal em vez de se sentar num “inquérito parlamentar” (estava em causa a Constituição ou o Governo?!), e responderia a um juiz em vez de responder a políticos. Mas, com palermadas destas, Portugal enche a boca a dizer que existe separação de poderes neste país.

Hey Joe, eu felicito-te. No inquérito, só mostraste, como dizem os italianos, que “li hai preso per i coglioni”.

Thursday, May 9, 2019

Racismo à Portuguesa


Todos conhecemos o conceito muito propagado “Portugal não é racista”. Portugal, um país onde todos, mais ou menos coloridos, e vindos de todos os quadrantes, se sentem bem! Os outros países enfermam todos de racismo, mas Portugal não. A esta ideia não é alheia a História já que, contam os livros, o povo português sempre adorou a ideia de miscigenação, tendo criado novos povos através da mistura de etnias, daí nascendo o mulato, o mestiço, o cabrito, o crioulo, o caboclo, o cafuzo, o mameluco, o pardo, o mazomba e sei lá que mais. Uma epifania neuronal levaria à conclusão de que só a existência de nomenclaturas várias para designar pessoas conforme a cor ou a origem étnica dos progenitores é demonstrativa de racismo mas, como sempre, uma História escrita com tinta cor de rosa, chama a esta miscigenação “amor entre as raças” (como se houvesse mais do que uma raça quando só existe a raça humana!).

Esta abertura vem a propósito de incidentes recentes entre a juventude universitária portuguesa. O primeiro na Queima das Fitas da Universidade de Coimbra onde os “doutores” de, precisamente, o curso de História queriam fazer desfilar um carro chamado “Alcoholocausto” com o símbolo de um comboio a lembrar o transporte dos judeus para os campos de extermínio. A ideia foi alimentada desde a Latada, onde uns caloiros foram vestidos de judeus e outros de nazis no Cortejo das Latas. Aquilo que “não passa de uma celeuma sobre o que é uma piada” (segundo o responsável, que declinou mais comentários) é grave. Grave pela insensibilidade, grave pela falta de empatia, de bom senso e bom gosto, de respeito e de justiça, e grave por se tratar de alunos que dentro de um mês são licenciados em História e que, assim, demonstram total falhanço de conhecimento da História do seu continente no século XX naquilo que teve de mais aterrorizante e abominável como foi a Shoah.

O caso torna-se mais flagrante nas declarações de professores da FLUC, que falam em “discurso antissemita” dos seus alunos, razão pela qual fizeram pressão para que o cortejo com referência ao extermínio judaico não se realizasse. A petição que levou à mudança incluía nomes de docentes e de alunos, mas a FLUC, enquanto órgão institucional, não se pronunciou.

O segundo caso deu-se na Universidade de Lisboa, na Faculdade de Direito, onde seria de esperar que existisse mais noção de igualdade, ética e justiça por parte de futuros atores do sistema. Os alunos de Mestrado (longe de qualquer infantilidade) colocaram uma caixa no corredor com pedras para serem atiradas em “zucas”, termo calão para referir brasileiros. A explicação (como se pudesse existir explicação ou razão para apedrejamento, senhores juristas!), foi dada: os alunos brasileiros tinham passado à frente nas colocações para o Mestrado. Ao que parece, no ano anterior, a seleção para o Mestrado foi aberta antes dos alunos da UL concluírem a licenciatura, razão pela qual a maioria dos inscritos no Mestrado é de nacionalidade brasileira. Agora pergunto: foram os alunos brasileiros quem determinou a data de abertura do concurso? Mal estamos com estas cabeças jurídico-pensantes, que nem avaliar sabem da causa e desatam à violência contra o beneficiado, por dor de cotovelo! Que se sintam injustiçados é um assunto; que não saibam reagir nem avaliar da culpa é outro bem diverso!

Neste caso, a FD veio dizer que estavam em causa eleições para a Associação Académica, desculpando a atitude com política. Pior a emenda: em política, xenofobia, aceita-se?! Já a UL foi severa e, através do seu Reitor, afirmou a abertura de processo disciplinar aos alunos em causa.

O futuro de Portugal – que ainda é um dos quatro países europeus, a par da Irlanda, Malta e Luxemburgo, que não tem a extrema-direita no Parlamento – é sombrio. Quanto mais tempo poderá Portugal mascarar o real sobre o racismo e a xenofobia no país? 

Friday, April 26, 2019

Fugas (d)e informação



É irónico que Julian Assange tenha feito uma base de dados denominada “Wikileaks” (“leak” traduz-se por “fuga”) e depois tenha tido de fugir por causa disso. A história ainda não terminou, nem deve ter um fim próximo, porque os caminhos do Direito Internacional são sempre complexos, longos e, não raro, atropelam-se em contradições pelas leis dos países envolvidos.

Um dos artigos mais interessantes escritos após a prisão de Assange é “Um homem sem pátria”, publicado no New Yorker. Combinando este com outros artigos de quem conviveu com Assange, percebemos dezenas de histórias por detrás da narrativa do site que deu a conhecer ao mundo documentos secretos governamentais, fazendo dos seus fornecedores e jornalistas algumas das pessoas mais procuradas do planeta.

Os apoios de Assange são frágeis. Ele personifica o “cavaleiro solitário” e nómada. As suas duas nacionalidades (Austrália e Equador, a primeira por nascimento e a segunda obtida) lavaram as mãos da questão; os seus filhos espalhados pelo mundo, e de várias nacionalidades, nem sequer têm contacto com o pai, desde o mais velho (um australiano adulto) até ao mais novo (uma criança francesa); dos seus amigos faziam parte várias figuras conhecidas, que, entretanto, foram deixando de levantar a voz em sua defesa fosse por receio, exaustão ou descrédito, restando hoje poucos para além da actriz Pamela Andersson, e da sempre resistente e fiel à sua causa Chelsea Manning, que se encontra presa por ter fornecido a Assange vários dos documentos secretos que este publicou e deu a conhecer ao mundo.

Mas Assange nunca precisou muito de ninguém. A sua história pessoal demonstra um talento inato para a sobrevivência e para a rebeldia. Já fechado na Embaixada do Equador, onde viveu sem de lá sair durante os últimos sete anos e onde entrou usando um disfarce que incluía movimentar-se como se fora uma pessoa portadora de deficiência motora, afirmou que privarem-no de liberdade não era inteligente porque um homem encerrado com a mente em  atividade pode ser mais poderoso que um homem livre. Quem o procurava deve ter intimamente concordado porque só o Reino Unido gastou, diariamente, nos últimos sete anos, 10.000 libras por dia para policiar a Embaixada 24 sobre 24 horas.

A acusação que leva à extradição de Assange do Reino Unido para os E.U.A. não se trata da acusação de violação que foi levantada na Suécia após os E.U.A. iniciarem a caça ao homem, já que a vítima sueca retirou essa queixa. Aliás, se assim fora, Assange seria extraditado para a Suécia e não para os E.U.A. Porém, para complicar, a Suécia afirma agora que “talvez reabra o seu processo”, o que pode significar um mandato de detenção europeu em cima da ordem de extradição para responder a uma questão criminal nos E.U.A., implicando apenas prolongamento para discussão. Enquanto isso, Assange está na prisão de alta segurança de Belmarsh no Reino Unido – terra da sua última namorada conhecida, a britânica Sarah Harrison, também ela uma “wikileaker” e acompanhante do “wikileaker” americano Edward Snowden na viagem-fuga que o levou de Hong-Kong até ao exílio na Rússia.

O que preocupa muitos é a natureza da acusação criminal dos E.U.A. Afinal, poder-se-á colocar um processo à liberdade de expressão e ao direito à informação? Que significa tal e que implicações para aquilo a que ainda se chama democracia?…

Mas os E.U.A. são mais espertos que isso. Até ver, não é disso que Assange está a ser acusado e sim de ser coadjuvante de espionagem (o crime pelo qual Manning responde) e ainda hacking (por, supostamente, ter tentado entrar dentro de computadores governamentais). Seja como for, é de esperar que o processo de extradição demore anos e, em sua defesa, Assange tem argumentos vigorosos.

Entretanto, outra ironia é o Parlamento Europeu ter aprovado na mesma semana em que Assange foi preso, uma lei que protege os “whistleblowers”, isto é, os que dão a conhecer actividades imorais ou ilegais. Esta lei passou com o apoio de 591 MEPs contra 29. A juntar a isto, também na mesma semana, na poderosa Berlim, inaugurou-se uma estátua tripla de Assange, Manning e Snowden como novos heróis da cidade. O que dizer disto? Afinal, aparecem amigos em lugares inesperados mesmo para um controverso e solitário escapista.