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Friday, August 3, 2018

O Imigrante Saudável



Em Julho passado, a revista científica Psychiatry Research publicou um estudo de Salas-Wright, Vaughn e outros da Universidade de Boston sobre os imigrantes e as doenças mentais nos E.U.A. que vem corroborar uma tese já existente chamada “healthy migrant”. Em síntese, esta tese sustem que existe um paradoxo na imigração: apesar de ser este um fenómeno que usualmente acarreta muito stress para o indivíduo / família e onde co-existem diversas adversidades pessoais, sociais e fenómenos de aculturação de dificuldade menor ou maior consoante os envolvidos, o certo é que os imigrantes sofrem de menores problemas comportamentais e menos doenças do foro mental quando estatisticamente comparados com a população nativa.

Esta tese não é nova. Existe, pelo menos, desde o ano 2000 (MacDonald, Universidade de New Brunswick), mas não é muito publicitada, sobretudo porque nos últimos anos a ideia de quase todo o mundo é fechar fronteiras e, como em todos os estudos, promovem-se apenas os que dão jeito à política atual.  

Voltemos à questão inicial. Como explicar esta elevada quota de imigrantes mentalmente saudáveis, mau grado as suas vidas serem mais complexas do que as dos nativos? Segundo os estudos, há mais do que uma razão. A primeira é a seleção inicial no país de origem, ou seja, só decide imigrar para longe quem tem coragem para tal. Muitos tinham as mesmas dificuldades, estavam na mesma situação, mas… preferiram não saltar. Só vai quem já tem um esquema mental de força e pragmatismo para enfrentar o novo e o risco, com o desconforto que isso exige. Desta seleção positiva inicial resulta que as famílias de imigrantes / os imigrantes reportam um baixo ou inexistente historial de problemas psíquicos. A segunda razão tem a ver com a sua vida pós-entrada no país de acolhimento. De forma geral, a situação pessoal e profissional do imigrante é mais dura do que a do nativo. Porém, a sua motivação e resiliência tem igualmente níveis muito superiores, o que faz com que uma situação causadora de ansiedade a um nativo não seja mais do que um encolher de ombros para o imigrante trabalhador.

Os estudos foram feitos em adultos e adolescentes (desde os 12 anos), demonstrando que existem menos doenças psiquiátricas, menos uso de álcool e de drogas e menos nível de criminalidade entre imigrantes do que entre nativos. Apontam, igualmente, para um estilo de vida mais saudável. Quanto às crianças, era esperado o que dizem: as crianças que imigram não demoram muito tempo para acolherem um país novo desde que imigrem com a sua figura de referência. De facto, dá-se o caso de se tornarem mais culturalmente parecidas com o país de acolhimento do que com a sua nacionalidade.

A nacionalidade do imigrante não era fator de diferenciação, pois foram analisados imigrantes da América Latina e do Sul, da Ásia, da África e da Europa. Apenas uma questão fica por saldar: os estudos não diferenciaram entre imigrantes voluntários e involuntários (i.e. refugiados e asilados), embora admitam que os últimos tenham uma (muito) elevada concentração de Stress Pós-Traumático, Depressão e Ansiedade que os primeiros, obviamente, não apresentam.

Dito isto, aquela conversa do imigrante criminoso, mal inserido e coitadinho… é tese que já foi.

Friday, July 20, 2018

Uma Escrita Assim Mais Masculina



Durante alguns meses, tive de combinar uma conferência com colegas com os quais só me correspondi por mail. Visto que o endereço da universidade não contempla o primeiro nome e a nossa assinatura formal tão pouco, o contacto realizou-se sempre nestes termos. Ao fim de vários mails, o meu interlocutor falou-me do “dia livre” e sugeriu que todos dessemos um passeio familiar, acompanhados das nossas mulheres e filhos. Respondi que era uma boa ideia, mas sendo eu heterossexual, restava-me levar o meu marido e filho. Acrescentei um sinal de “smile”. Desfazendo-se em desculpas, ele respondeu que jamais tinha pensado estar a falar com uma mulher, dado que a minha forma de escrever era “tão lógica, tão direta, tão pragmática”.

Claro que estamos a falar de missivas de trabalho, não de escrita ficcional (assim espero, embora haja casos que roçam o fantasioso, mas não vamos por aí). Seria inusitado se eu escrevesse de forma barroca, gótica, maneirista, simbolista ou romântica. Ainda assim, a situação coloca-me o velho dilema, tão discutido, da escrita feminina versus a escrita masculina.

Pessoalmente, não sou a favor da distinção.  Certa vez, assisti a uma palestra de um crítico (por respeito, não digo quem) em que ele defendia que certos géneros literários eram exclusivamente bem escritos no feminino e outros no masculino. Citou o Realismo Mágico sul americano de Isabel Allende e a Fantasia Contemporânea da autora de Harry Potter, J. K. Rowling, como géneros femininos. Mas também podia ter citado Gabriel Garcia Márquez para o primeiro caso e Tolkien e o seu Senhor dos Anéis para o segundo, o que destrói a sua teoria. Também citou o género criminal de Conan Doyle e o seu Sherlock Holmes como género masculino. Então e Agatha Christie?

Existe, claramente, um discurso masculino e um discurso feminino quando se escreve. Mas estes discursos podem ser assumidos por autores de diferentes géneros desde que sejam autores competentes para o fazer. Se “o poeta é um fingidor” então conseguirá fingir o que não é… mas para isso tem de ser exímio no que faz, o que não estará ao alcance de todos.

Outra questão prende-se com a experiência, se formos a favor da teoria que tudo aquilo sobre o que se escreve é previamente determinado (nem que seja um pouco) por experiências vividas de onde se retira um magma essencial que moldará a ficção posterior. Determinados assuntos são exclusivos da experiência feminina, como sejam a menstruação, a gravidez, o parto, o aleitamento, a menopausa, eventuais abortos e uma descarga de hormonas que os ginecologistas explicam bem. No entanto, não basta ser mulher para fazer literatura da experiência de o ser…

Concordo, sem sombra de dúvida, com uma identidade feminina diferente da masculina. Mas não com uma escrita feminina diferente da masculina. Criar divisões na Arte é menosprezá-la. A Literatura não precisa de género sexual para se definir; precisa de se definir em boa ou má. Se assim não for, como continuaremos a dizer que a Literatura que mais nos toca trata de experiências universais que dizem respeito a toda a condição humana?

Friday, July 6, 2018

Dar a Outra Face



Ultimamente, há uma ideia muito popularizada pela Psicologia de cordel (aquela que não se apoia em cientificidade, mas vende livros de autoajuda) e pelos Tribunais (basta vermos as decisões que vêm a público): é a ideia, profundamente cristã, de que a vítima deve perdoar. Por maior que tenha sido o crime, opina a corrente atual que a vítima não encontrará descanso se o perpetrador for culpado; pelo contrário, a paz advém do perdão.

Assim, todo aquele que diz que não perdoa é imediatamente considerado um indivíduo pouco avançado em termos espirituais, nestes tempos em que o Ocidente vê a espiritualidade como escada para o Nirvana – outra coisa da qual pouco percebe, porque os Orientais não concebem o perdão jamais, apenas se desligam a tal ponto que o Outro deixa de lhes interessar (ideia muito mais genial!).

A propósito, a BBC noticiou ontem um curioso episódio de uma mulher, Nancy Shore, que demonstra o ridículo destes perdões modernos. Nancy foi baleada na cabeça por um atirador contratado, negócio bem feito, em que este fingira ser um assaltante. O “assalto” vinha a ser planeado há três anos pelo marido de Nancy, que, vendo o tiro falhado (a bala foi alojar-se no pulmão) ainda fez o papel de ir acompanhar Nancy no Hospital, pesarosa e diariamente. A Polícia apanhou o atirador e chegou ao marido, descobrindo o enredo. Mas a parte interessante é a reação de Nancy.

“Tínhamos um casamento maravilhoso. O meu marido era muito gentil, gostava de mim. Muito dedicado aos meus filhos. Adora crianças.” Logo aqui, começo a suspeitar que a sra Shore sofre de negação da realidade. “Maravilhoso” será, no mínimo, hipérbole... Quanto a ser “gentil”, etc, bem sei que a bitola varia para todos nós, mas parecem-me qualidades incompatíveis com um assassinato planeado friamente ao longo de anos, com a hipocrisia de ser chorado copiosamente quando viu a tentativa lograda.

“Quando ele soube [o que acontecera], começou a chorar, descontrolado, ficou fora de si, como a minha filha o descreveu. Tentou fazer o que podia para me salvar.” A sra Shore não interiorizou que estas lágrimas do marido teriam sido perfeitamente evitáveis se… o próprio marido não a tivesse mandado matar! Mas o melhor está para vir, no modo benevolentemente patético como a sra Shore o desculpa: “Ele confessou, chorando muito [que o tinha feito] porque estava com outra mulher. E ele sabia que eu jamais me divorciaria dele! Claro que não lhe restava outra hipótese senão matar-me!”

Nancy Shore não tem dúvidas: “Ainda o amo. Não romanticamente, mas não se pode deixar de amar o pai dos nossos filhos. […] Ele sempre foi bom marido e pai até deixar de o ser.” Acrescenta Nancy, para rematar: “Tive de me divorciar porque ele foi condenado. Mas se ele sair da cadeia, poderemos voltar a casar. Eu já o perdoei. Se não o perdoasse, viveria amargurada.”

Vítimas assim são o sonho do Sistema atual. O Sistema que manda dar a outra face; que oferece “thoughts and prayers” mas não mexe um dedo para resolver situações. O problema é que pessoas desta qualidade não têm um pingo de auto preservação e instinto de sobrevivência e colocam em perigo também os outros, já que um predador raramente ataca uma presa só.



Friday, June 22, 2018

Imunidade Diplomática



Nos anos 80 e princípio de 90, Boris Becker era o campeão de ténis por excelência: ganhou 13 títulos Masters Series, medalha olímpica de ouro, foi o mais jovem jogador de sempre a ganhar Wimbledon com 17 anos.

Becker tinha um conjunto de qualidades que o fizeram entrar na bolha que o mundo reserva para as suas ilusões. Não parecia agressivo (a sociedade estava farta de tenistas como John McEnroe); chegou a aparecer em causas sociais; tinha um ar tão distante, e com tanta falta de colorido com aquelas pestanas amarelas, que apelou mesmo à publicidade e era fotografado por revistas de moda. À conta de um fenómeno que não é raro nos famosos, tornou-se atraente.

A sua fama declinou quando deixou de ganhar títulos, mas manteve-se por conta da publicidade e histórias da sua vida pessoal. Casou com uma mulher de origem africana, uma união que a sociedade não encarou bem, embora gostasse do contrastante colorido, especialmente quando ambos posaram nus em conjunto para uma revista. A polémica acentuou-se quando se divorciaram e Becker admitiu um confronto físico devido a um episódio de infidelidade. Tudo isto é só uma abertura para o que vem a seguir.

Em 2017, Boris Becker declarou falência no Reino Unido, curiosamente dois meses antes de ser declarado o Head of Men’s Tennis da Federação Alemã. Becker tinha pedido certa soma de dinheiro a um banco privado do Reino Unido, não a pagou e declarou que não tinha quaisquer condições de pagar. Premissa 1: estava falido, estava no Tribunal como réu. Premissa 2: continuava a ser uma estrela na sua terra, e no mundo. E agora Becker, como sair desta? Os advogados de Becker não tiveram dúvidas e fizeram o que qualquer advogado com dois dedos de testa faria: utilizaram a premissa 2 para que Becker se livrasse da premissa 1.

Alguns meses depois, em 2018, os advogados de Becker declararam que as questões em Tribunal estão terminadas porque Becker tem “imunidade diplomática” visto que foi nomeado adido diplomático para o desporto e cultura da República Central Africana na União Europeia.

A primeira coisa que ocorre é “conveniente”.  A segunda é ir procurar ao mapa onde fica a RCA, que, provavelmente, nunca teve na UE tanta importância como tem hoje. Mas eu ainda duvido desta realidade: a RCA serve-se de Becker para ganhar notoriedade na UE? Ou Becker serve-se da RCA para escapar ao Tribunal? Quanto a mim, é a segunda! Aguardo resultados para a RCA, porque até agora quem os obteve foi Becker.

Li o testemunho de Becker (outra coisa negativa é a necessidade de recorrer aos media para estas defesas de caráter), dizendo que tinha aceite o convite “também com intenção de pôr termo a esta farsa criada contra ele”. Por último, note-se que este posto diplomático não existia até agora… não é preciso muito para verificar que foi criado à medida para que Becker o ocupasse!

Imunidade política é conveniente para quem a usa, claro. Mas estas próprias palavras “conveniência”, “uso” e mesmo “imunidade”… não são, por si mesmas, prova de que algo está muito podre?

Thursday, June 7, 2018

Quo vadis Miss América?


O concurso Miss América anunciou que vai deixar de julgar a aparência física. Todas podem concorrer, independentemente das medidas, e não haverá mais provas reveladoras do corpo. Eu abomino concursos de Miss, mas dizer que a Miss América vai passar a valorizar o intelecto e o espírito é mais ou menos como um vegetariano que vai passar a comer bacon com sabor a alface. Temos de ter a frontalidade de não mascarar as coisas e de as assumir como são. Quem quer, participa ou vê; quem não quer, opta por outra coisa.

Estou a falar dos concursos de adultas capazes de fazerem as suas escolhas. Não de outros concursos Pageant que são os concursos infantis, com meninas maquilhadas e em fralda de folhos, bamboleando saltos altos. Este vómito devia ser proibido por lei. Essas crianças não escolheram nada e são vítimas de mães que as vendem nessas exibições. Além disso, esses concursos são uma montra para pedófilos.

Voltando ao concurso de Miss, não posso concordar com a sua existência e regras obsoletas, patriarcais, denegridoras: só podem concorrer mulheres solteiras e sem filhos porque as outras já estão estragadas (já dizia cruelmente certa familiar minha que a única espécie em que a fêmea vale mais depois de ter filhos é a vaca), exibição do corpo feminino em montra como se estivesse num talho em que os compradores escolhem o melhor bocado (continua a metáfora de gado), promoção da competição entre as mulheres e da ideia de que terá sucesso (por um efémero ano!) aquela cujo corpo mais agradar aos homens. Está tudo errado nesse concurso, até as perguntas risíveis às concorrentes em que elas, angelicais, dizem que o mais querem é a paz no mundo e o fim da fome e da guerra. Também eu, o Guterres, e até a claque do Sporting desejamos o mesmo – cada um com a modesta contribuição que se verifica, mutatis mutandis.

Mas não sou hipócrita ao ponto de dizer que estes concursos devem continuar a existir, só que mudando de regras – é isto que se vai fazer. Pretende-se uma Miss América, versão Einstein/ Madre Teresa. Acabam com os desfiles de bikini e vestido aberto, porque “abaixo o corpo”. No entanto, visto que também somos contra a opressão de burkas e afins, interrogo-me como irão as candidatas desfilar? Terão liberdade de escolha? Penso que não. Sem liberdade lá se vão o feminismo e o humanismo.

Pretende-se uma exibição das qualidades intelectuais das candidatas (provas de raciocínio, interpretação? A dúvida consome-me!)  e espirituais (qual a medida da espiritualidade?!). As pessoas menos dotadas fisicamente podem concorrer (quanto mais não seja para sofrerem bullying na internet o resto da vida com memes deste acontecimento).

Esta elevação intelectual a par de uma orientação inclusiva do concurso de Miss não é de louvar… é de rir. Não sejamos politicamente corretos, mas sim verticais e acabemos com os concursos em vez de os transformar numa palhaçada diferente, sem sentido. Entra nesta moda atual de tudo poder ser outra coisa, uma moda perigosa porque vai acabar, em última instância, com o método científico, a lógica, a racionalidade do ser humano. Dou um máximo de dois anos para o concurso Miss América aceitar também homens concorrentes. Afinal, a palavra Miss pode ser tanta coisa se tivermos a mente aberta - e o dicionário fechado.


Thursday, May 24, 2018

A aldeia global versus o pé da Luisinha



“A mesma dura lei física rege a acústica e a sensibilidade” dizia Eça de Queiroz, para expressar que quanto mais distantes as coisas se encontram de nós no espaço menos nos impressionam.

A este propósito, Eça escreveu um delicioso texto que bem o demonstra, em que numa sala portuguesa um grupo de amigos, ao serão, ouve distraidamente uma dama que folheia o jornal e vai lendo alto as notícias. As notícias são desastres que a loira e serena narradora desfia com mansidão.

 Na ilha de Java, um terramoto matara duas mil pessoas – o que a ninguém da sala interessou, mau grado o supremo infortúnio que caíra sob esse obscuro formigueiro de gente indonésia. Continua a narradora loira, desta vez falando de um rio que transbordara na Hungria, destruindo vilas e homens. Aqui, já alguém reage, bocejando com preguiça “Que desgraça!”. De facto, da remota e vaga Java (sabe-se lá onde seja ao certo) para a europeia Hungria, a diferença faz-se sentir. A delicada senhora prossegue, e a desgraça aproxima-se no mapa: na Bélgica, tropas tinham atacado uma greve operária, matando crianças e mulheres. Já um maior número de interlocutores se anima: “Que horror, pobre gente!”  Continua a descrição: na fronteira do sul da França, um comboio descarrilara, três mortos, alguns feridos. Desta vez, a comoção é sentida. Um comboio, onde muito possivelmente viajavam portugueses! Quem sabe se se destinava mesmo a Portugal! O lamento, geral ainda que breve, partiu de todas as poltronas onde os convivas gozavam a sua segurança.

É aqui que a delicada senhora vira a página e se emociona, dolorida, ao dar de caras com a notícia de uma desgraça local: “A Luisinha Carneiro da Bela-Vista… esta manhã… desmanchou um pé!” Toda a sala vibra em desgosto e comoção. Eça descreve, com muita verve, “a sombra ligeira e remota” dos “dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes, guerras… tudo desaparecera. Mas o pé da Luisinha esmagava os nossos corações! Pudera! Todos a conhecíamos!”

Passados dois séculos sobre este texto, o que mudou? A aldeia global trazida pelos media, o conhecimento à distância de um click proporcionado pela internet, que efeito tiveram no nosso afecto? É verdade que, mesmo quem nunca viajou, pode hoje sentir-se mais próximo de Java e da Hungria e talvez já lá tenha “estado” de certo modo, vendo fotos e filmes. Mas dificilmente isso fará com que tenha maior comiseração por esse povo, cuja distância sentimental continua a ser enorme, sem um conhecimento quotidiano de trocas e vivências. Foi também Eça quem falou sobre a “abominável influência da distância sobre o nosso imperfeito coração”, exatamente para referir que “a distância e o tempo fazem das mais grossas tragédias ligeiras notícias – onde nenhum espírito são, bem equilibrado, encontra motivo de angústia.”

A sabedoria popular diz “olhos que não vêem, coração que não sente”. Este adágio explica o porquê de não sentir com arrepio, não entender com empatia povos distantes. As pessoas e os acontecimentos interessam-nos na medida em que nos são próximos. Assim, a guerra na Síria ou o drama dos milhões de refugiados interessam-nos menos do que o pé torcido de alguma Luisinha amiga durante a procissão do Senhor Santo Cristo.


Friday, May 11, 2018

Síndroma de Resignação



Não sei o que tem a Suécia, mas há síndromas peculiares que por lá nascem e se tornam famosos no mundo inteiro (vide o de Estocolmo). Este é mais um deles.

Os primeiros casos apareceram nos anos 90, mas só na década seguinte se começou a dar importância médica às centenas de casos que afetam apenas crianças e adolescentes de famílias de refugiados ameaçados de deportação. Na primeira década de 2000, havia tantos casos que os refugiados foram acusados de estarem a drogar os filhos bem como as crianças e adolescentes afetados foram sistematicamente acusados de estar a fingir. Mas nenhuma destas teses foi provada. Pelo contrário. Testando os pacientes com toda a sorte de estímulos, os observadores não conseguiram nunca obter deles nenhuma reação e renderam-se às evidências: os pacientes estavam resignados a não viver, como se tivessem escolhido um coma voluntário.

O que é o Síndroma da Resignação? É uma espécie de apatia que vai evoluindo até à catatonia absoluta, de tal forma que a criança/adolescente afetado passa a ter de ser alimentado por tubo. Não fala, não abre os olhos, não demonstra sede, fome ou outra necessidade básica.  Não responde à dor, ao toque, ou à luz, perde os reflexos. Vive como um comatoso, completamente desligado do mundo, não fosse o cuidado da família que o mantém em casa.

Todos os afetados mantêm um pulso normal, condições cerebrais e cardíacas normais e eram crianças/jovens fisicamente saudáveis antes do episódio. Em comum, têm todos também o facto de terem passado por situações muito violentas e terem vivido em ambientes extremamente inseguros, situações das quais ambicionavam poder escapar através do pedido de asilo das famílias na Suécia. A todas estas famílias o pedido foi negado, o que só ocorre um par de anos após o pedido ser feito, e é depois desta negação que o paciente começa a sofrer do Síndroma, rapidamente evolutivo.

Não é preciso ser génio para perceber a ligação entre a expectativa gorada de uma vida nova, livre do trauma, e o início desta misteriosa “morte em vida” que só afeta juvenis. De facto, há casos reportados de jovens cujas famílias conseguiram ganhar o caso de asilo posteriormente, através de apelação, e assim que estes comatosos souberam que não iriam voltar à vida anterior mas iriam, sim, ficar na Suécia, o Síndroma entrou progressivamente em remissão e a recuperação foi completa!

Os céticos dirão já que os miúdos estão a tentar compadecer o próximo. Mas os médicos afirmam o contrário. Quem conseguiria ficar sem reação à dor, sobretudo uma criança? E qual a criança consegue ficar anos sem se mexer e sem abrir os olhos?

Os estudos são ainda poucos sobre este Síndroma da Resignação, mas diz-se que não é novidade no mundo. Já nos campos nazis havia algo semelhante e entre os refugiados no Reino Unido há algo com os mesmos sintomas a que os ingleses chamam Síndroma de Recusa Generalizada. Pessoalmente, porque acredito que estes meninos não estão esquecidos de viver, mas sim a lutar pela vida com as armas que possuem, prefiro a designação inglesa.


Thursday, April 26, 2018

A falsa liberdade do Diploma dos 16


Foi aprovado na Assembleia da República o diploma que permite no Registo Civil a mudança de nome e de sexo aos 16 anos, sem necessidade de relatório médico (mas não de outras autorizações).

Antes de esclarecer, reflito sobre contradições legais portuguesas relativamente à maturidade e poder de decisão que é conferido às pessoas jovens – não gosto do termo “menor” porque parece que estamos a falar de lilliputianos ou de seres efetivamente menores que os outros (em quê?).

Se o diploma aprovado for em frente, um jovem de 16 anos que não se sinta bem na sua pele masculina ou feminina pode, sem necessidade de aprovação médica, dirigir-se ao registo e mudar de sexo e de nome. É uma questão civil, pois mudanças cirúrgicas não serão efetuadas.  

Em Portugal, o mesmo jovem de 16 anos se for violado ou maltratado não pode apresentar queixa do crime. Visto que é “menor”, têm de ser os seus guardiões legais ou o médico que o viu a apresentar queixa. Só a partir dos 18 é que o jovem pode apresentar queixa de qualquer crime que lhe tenha acontecido. Antes, não tem autonomia sequer para dizer “ai”.

O mesmo jovem de 16 anos pode ser institucionalizado (como qualquer menor sujeito à lei de proteção de crianças e jovens - é discutível o quanto e de quê realmente protege). Logo, o jovem pode ser afastado da família e fechado numa instituição até alcançar a dourada idade de 18, desde que um Tribunal assim o entenda – e não, não é necessário o jovem ter cometido um crime; basta que o Estado o queira proteger, ainda que o jovem recuse ser protegido.

Esse tal jovem de 16 anos nem tão pouco tem capacidade na conjuntura legal atual para dizer com quem quer ou não estar/falar dentro da sua constelação familiar. Os jovens, como as crianças, são obrigados a manter contacto com todos os seus familiares (mesmo aqueles que os maltrataram) até aos 18 anos. Dão-se casos absurdamente caricatos, como o da jovem A.L. que, forçada a manter contato com o pai, instaurou um processo de abuso contra este assim que atingiu a maioridade (pois o abuso não prescreve e a obrigação da manutenção do contacto “incendiou” a revolta).

Voltemos ao diploma aprovado. Segundo o diploma, continua a ser necessária autorização parental para esta mudança de sexo e de nome no cartão de cidadão por parte de um jovem de 16 anos; só não é necessária autorização médica.

Jovens, vocês costumam discutir com os vossos médicos ou com os vossos pais?  Não vejo em que reside a apregoada autonomia do jovem de 16 anos prometida pela Assembleia. Se os pais não quiserem, não muda de sexo nem de nome e pronto! Que liberdade de fachada é esta? Com a agravante que a Assembleia não explicou isto a ninguém e passou a todos um atestado de ignorância.

Portugal vive em dissonância cognitiva. Por um lado, quer ser pioneiro, moderno, pró LGBTI. Por outro, não reconhece nem autonomia nem maturidade aos jovens se os progenitores não disserem ámen. Dá-lhes aqui um falso rebuçado, numa operação de cosmética partidária e pôs o país todo a discutir sem saber o que discute.

Thursday, April 12, 2018

O Efeito Dunning-Kruger


Ninguém é bom avaliador das suas capacidades, sejam quais forem. As palavras de Confúcio “O verdadeiro conhecimento é conhecer a extensão da nossa ignorância” encontram eco em Sócrates “Só sei que nada sei” mas, tirando os realmente dotados, os restantes não conseguem aceitar e nem sequer capacitar-se de que sabem, efetivamente, pouco.

Este aparente paradoxo não é constatação minha; é antes uma teoria comprovada por Dunning e Kruger, investigadores da Universidade de Cornell, no ano 2000. Os cientistas inspiraram-se em McArthur Wheeler que, em 1995, roubou um banco sem qualquer tipo de disfarce, convencido de que por se ter vaporizado abundantemente com sumo de limão seria invisível para as câmaras de segurança. Após ser apanhado e confrontado com as imagens, Wheeler continuou a negar ser o ladrão e afirmou que tudo se tratava de uma montagem. Este absurdo, que roça o ridículo, levou a que Dunning e Kruger se interrogassem sobre excesso de confiança e realizassem uma série de experiências nas quais pediram que os sujeitos avaliassem as suas capacidades de sentido de humor, conhecimento gramatical e raciocínio lógico. Na tentativa de estudar a metacognição dos indivíduos, pediram-lhes que pré-avaliassem os seus resultados. Conclusão: os que obtiveram piores resultados foram os que mais se sobre-estimaram (em proporção estatística) – por exemplo, para uma taxa de sucesso de 12%, os participantes avaliavam o seu sucesso em 62%. Em oposto a esta tendência, os que melhores resultados obtinham sub-estimavam as suas auto-avaliações, embora não de modo tão drástico.

Posteriormente, os participantes eram confrontados com o resultado real. Os incompetentes eram absolutamente incapazes de reconhecer a sua incompetência. Esta característica era tão mais relevante quanto sobressaía relativamente ao grau, isto é quanto mais incompetente o sujeito era menos capaz era de o reconhecer, mesmo confrontado com factos. Por outro lado, quanto mais competente mais capaz era de receber feedback negativo em relação às suas falhas e de as modificar, incorporando mecanismos e ações necessários para tal.  Relativamente aos que obtinham os melhores resultados, era curioso verificar que o feedback positivo era benéfico para o intelectualmente mais dotado, que, de forma geral, tem tendência a menosprezar-se. Conclusão importante: a pessoa estúpida realmente não tem consciência da sua estupidez.

Muitas experiências posteriores foram feitas com o mesmo objetivo teórico (Ehrlinger, 2008; Ferraro, 2010; Schloesser, 2013; Sheldon, 2014). Verificou-se sempre o mesmo resultado, sendo que inclusivamente se notou que a pessoa pouco dotada reage de forma agreste quando confrontada com as suas limitações, colocando a “culpa” na própria questão ou questionando a validade do teste que lhe fazem.

O inteligente reconhece que é inteligente, mas coloca sempre muita ênfase em tudo aquilo que não sabe; por sua vez, o tolo sofre de uma ilusão de competência em tudo paralela ao seu grau de tolice.

Mas se o tolo comete o erro de se propagandear especialista, já o mais dotado comete também um erro: não raro quanto mais inteligente é mais inteligentes julga os seus pares, daí resultando que tem muita dificuldade em relacionar-se com a falta de lógica que depois encontra neles por pensar que advém de uma brincadeira ou má fé e não de verdadeira estupidez.

Segundo os estudos, a parte menos inteligente da população constitui a parte esmagadora. Mas haja esperança: é possível combater (alguma) tolice por meio da educação, mas só desde que haja abertura de espírito para receber informação porque quem acredita já saber tudo nunca aprende. Assim, agradeço ao meu colega Brian que me explicou o que é o efeito Dunning-Kruger - até ontem eu não sabia!



Thursday, March 29, 2018

Embriões crio preservados


Há semanas, estava com um grupo de pessoas por ocasião do meu aniversário e surgiu a questão do ser-se já velho ou ainda novo para fazer algo pela primeira vez. Uma das mulheres com 40 anos estava grávida do primeiro filho, razão pela qual outra lhe perguntou se ela se sentia confortável com isso. “Ainda terei mais uma!” respondeu a grávida. Acrescentou: “Se tudo correr bem neste parto, terei também uma menina daqui a 3 anos.” Eu ri-me: “Mas que boa Matemática! Com certeza do sexo do bebé e tudo!” Ela respondeu, muito natural: “Nós optámos por fertilização in vitro e congelamento posterior do embrião. Por isso, sei que terei mais uma menina e sei quando a vou ter. Está congelada. Vou esperar 3 anos até a colocar cá dentro… Já escolhemos o nome, é Miriam!”

O meu filho (de 9 anos e quase meio) perguntou: “O que é isso de congelar os bebés até os querermos?” Expliquei-lhe. “É preciso ter cuidado a abrir esse frigorífico” disse ele, com muita seriedade, mas a senhora grávida achou uma “piada muito gira!” e imediatamente o informou que iam ficar a dever-lhe imenso dinheiro se partissem o vitro (o que, novamente, me leva à discussão da ideia de que muita gente tem de que filho equivale a propriedade, mas isso é outro assunto).

Este foi o primeiro momento da vida em que me senti ultrapassada. Ou melhor: estou derrotada pela atualidade.  Convém dizer que não estou em Portugal e não sei se esta técnica de congelamento de embriões durante anos se pratica em todos os países. Claro que conheço quem tenha tido filhos por fertilização assistida, método nobre da ciência ao serviço de quem deseja ter filhos e não consegue. Mas a criopreservação de embriões como algo acessível a toda a população era desconhecida para mim. Ocorrem-me, de imediato, várias questões discutíveis, nas quais nunca tinha pensado e que gostava de esclarecer com quem percebesse do assunto.

Questões práticas: os embriões, frutos deste casal, são congelados para posterior uso daqui a 3, 5 ou 14 anos; entretanto, se a mãe morrer (é irrelevante o pai, porque ele não vai ser necessário para gravidez e parto), o que acontece? Coloca-se o embrião numa mãe de empréstimo? É possível, em certos países, fazê-lo (barrigas de aluguer são legais em 5 países apenas - felizmente, porque é uma brutalidade). Destrói-se o embrião? Imagino que não será possível, se o pai afirmar que quer o embrião, mas como vai ele fazê-lo viver já me parece ficção científica.  Um cenário menos catastrófico é a mulher decidir mais tarde que já não quer ter um filho (vá lá, um embrião) que está crio preservado. Paga parte do filho ao ex-marido? Sou só eu que acho isto mesquinho, senão surreal?

Questão bioquímica: as células não se desgastam na criopreservação, ao menos um pouco? Lamento a comparação, mas se comer comida pós congelada é mau porque as células da mesma se modificaram, o que acontecerá às células de um embrião congelado durante anos à espera de um útero onde possa desenvolver-se?  

Questão filosófica: o que significa, então, a idade? Quando começamos a existir? Acredito no direito pleno ao aborto. Mas um embrião crio preservado com nome próprio e data planeada para o ano X coloca-me certas questões novas. Os asiáticos, que dizem que os bebés nascem com um ano porque contam o tempo dentro da mãe, vão dar quantos anos à Miriam quando ela nascer? Cinco, porque vão contar com os anos do frigorífico? É culturalmente confuso.

Questões pessoais: isto será prática comum quando o meu filho for adulto? Eu serei, então, completamente desatualizada do mundo que me rodeia, porque o fosso entre as nossas gerações e vivências será enorme. Estarei eu já hoje a colocar questões absurdas e parvas, como a minha bisavó que um dia viu um Multibanco e não percebeu como podia a parede vomitar dinheiro?...


Friday, March 16, 2018

Ensino (mais ou menos) Superior


Muita tinta tem corrido desde que Passos Coelho anunciou a sua saída da política e a sua entrada na vida universitária. Não é para menos. Vamos fazer uma pequena analepse do CV académico do Sr. Ex Primeiro Ministro e (até há pouco) atual parlamentar: Licenciatura em Economia, pela Universidade Lusíada de Lisboa em 2001. Não constam outros graus académicos. Experiência docente no ensino superior: não consta. Atual situação: o Dr. Passos Coelho foi convidado a ensinar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, concretamente aulas de Economia no Mestrado e Doutoramento em Administração Pública. Existem convites de mais universidades. Igualmente se diz que o Dr. Passos Coelho estará na categoria de professor convidado (não podia deixar de ser) mas… professor convidado catedrático! Falamos, claro, de equiparação salarial. Espero que seja gralha.

Não tenho nada contra o Dr. Passos Coelho. Ou seja, tenho as mesmas reclamações que todos os portugueses têm. Mas, para além disso, que estendo a todos que se sentam na cadeira de Primeiro Ministro em momentos críticos, é-me irrelevante a sua existência. Não me é irrelevante esta situação, sendo eu docente do ensino superior.

A qualidade do Ensino Superior deve preocupar os portugueses. Qual a qualidade dos estabelecimentos? Que instituições têm legitimidade para lecionar o quê? Que qualidade apresenta o ensino à distância? Que cuidados devemos ter nas equivalências? De entre as muitas questões prementes que se colocam, uma das mais importantes é a qualidade do pessoal docente.  É esta que dita em boa parte a qualidade do ensino. Com a queda deste fator, muito se explica(ria) a tão falada “pouca cultura geral” de que certos profetas da desgraça gostam de acusar a geração mais jovem (e na qual nem sequer acredito).

De um modo geral, os professores que lecionam no Ensino Superior têm um percurso, enfim, uma carreira que, como outra qualquer, tem as suas marcas de exigência e experiência acumulada. Dedicaram a vida a dar aulas a esse grau de ensino, passaram por provas académicas, pesquisaram, escreveram, fizeram o necessário. Alguns não fizeram, é certo, tiveram oportunidades especiais - por isso existe a piada “não somos todos colegas.” No entanto, a maioria dos professores sabe o que é ser professor e sabe do que ensina.

Sempre que a um político lhe apetece sair da política (porque não terá mais cargos de relevo e despreza vegetar na Assembleia), não é raro pensar “vou para uma Universidade!” Tem prestígio social, convenhamos. Por uma espécie de dissonância cognitivo-social, todo o político tem equivalência “por experiência empírica e percurso profissional realizado” aos graus académicos que entender, recebe, enfim, aquilo que os restantes de nós levaram anos a preparar e muitas pesquisas a fazer. Já para não falar dos que, mais prezados, dizem que “estão a fazer tese”. Lá andam durante dezenas de anos, porque, pasme-se!, a política oferece dilatação de tempo infinita a quem quiser fazer a tal tese, coisa à qual os académicos não têm direito, vendo-se na obrigação de deixar a universidade se não entregam o trabalho no dia previsto.

Não conheço outra carreira que ofereça tais benesses a quem nela se quiser infiltrar. Se eu, amanhã, quiser ser padeira, com muita razão me dirão que eu não tenho experiência nem saber. Mas basta um político querer ser académico que o recebem de braços abertos e passa à frente de todos os que lá estão a picar pedra há anos.

A culpa não é de Passos Coelho. Não é o primeiro e não será o último. A culpa é das Universidades que (des)nivelam o ensino e nos reduzem a uma condição que, por boa educação, não defino aqui.


Thursday, March 1, 2018

O Direito do Anzol É Ser Torto



Confesso: nunca tive paciência para os livros, artigos e filosofia dessa onda neo-psico-positivista de pacote. É o género “Hey, tu aí!” que ostenta um sorriso Colgate e nos tenta convencer que sorrindo e gritando “Hey!” ficamos automaticamente felizes também. É a malta que acredita que não há pessoas negativas; somos todos positivos se acendermos umas velas perfumadas e massajarmos os pontos certos. É também aquela malta que acha que as pessoas positivas nunca têm pólo negativo, estão sempre num carrocel de gozo, prontas a almoçar (saudavelmente!), subir montanhas, colorir a vida e fazer prova no Instagram.  

Por causa da ideia de que temos todos de estar sempre 100% ativos e 100% positivos, as pessoas não aguentam o silêncio e a tranquilidade. Menos ainda se aguenta a ideia de sentir uma emoção negativa, qualquer que ela seja. “O que é que se passa? Estarei doente? Será que me vão levar ao psiquiatra e diagnosticar como anormal? Pelo sim, pelo não, o melhor é não dizer nada a ninguém.” E não dizem. Vão roendo aquilo, o mais disfarçadamente possível, no meio de muitos “ahahaha”, ditos o mais alto possível.

À conta disso, vendem-se centenas de livros denominados de auto-ajuda que ensinam as pessoas a serem felizes (agora sim, ahahaha!). Mas há aquelas raras pessoas que falam com os amigos. Esse método antigo (e pasme-se, sempre eficaz!) ainda se usa. Mas também há aqueles “amigos” que nos mandam logo ao médico. Desses, há que desconfiar e mandá-los ler um livro muito engraçado que se opõe à onda de auto-ajuda – chama-se “Stand Firm: Resist the Self Improvement Craze” de Svend Brinkmann, psicólogo dinamarquês, que se traduz mais ou menos assim “Mantem-te Firme: Resiste à Maluqueira do Auto-Aperfeiçoamento”.

Tens crises existenciais? Parabéns, és um tipo normal. A tua vida é difícil? Bem-vindo ao mundo. Não te achas especial? Ninguém é tão especial como a sua mãezinha lhe disse nem tão pouco especial como o seu patrão o julga. Aceita as tuas limitações e, ao mesmo tempo, vê bem a quantidade de coisas boas que te envolvem.

Não é normal não ter emoções negativas. É tão anormal como tê-las sempre.  De facto, seria irreal esperar que as pessoas não reagissem com emoções negativas quando confrontadas com acontecimentos muito negativos na vida. Lembro-me de ver uma entrevista do ator Keanu Reeves, após morrerem a sua namorada e a sua filha, a quem perguntaram se tinha ficado deprimido. Ele respondeu “As pessoas não “ficam” deprimidas. Reagem ao que lhes acontece.” De facto, assim é. Por essa razão, desconfio dos que nunca reagem: a insensibilidade só pode significar um trauma demasiado profundo para ser expresso ou então uma real incapacidade de sentir emoções. Esta última é a mais assustadora. Mas existe.

Sentimentos negativos fazem parte da roda. Têm de ser “abraçados” para ser ultrapassados, ou, pelo menos, para convivermos com eles. Há uma TedTalk interessante de Susan David, psicóloga de Harvard, que nos fala dessa coragem emocional. Enfrentar o que se sente, seja amor, tristeza ou raiva é um ato de coragem, nem sempre fácil, mas caminho único para o sossego interior.

Pensem também nesta citação de Mark Manson (com perdão do título do livro, que nunca li): “O desejo de ter experiências mais positivas é, em si mesmo, uma experiência negativa. Paradoxalmente, a aceitação de uma experiência negativa é, em si mesma, uma experiência positiva.” (The Subtle Art of Not Giving a F*ck)


Thursday, February 15, 2018

Honrarás Pai e Mãe

O quarto mandamento (o quinto nalgumas edições) das tábuas dadas a Moisés segundo a tradição judaico-cristã só tem predecessores no amor a Deus sobre tudo, amor ao próximo e manutenção de dias santos, o que significa que ações condenáveis como roubar, matar, cobiçar, são todas mandamentos inferiores na ótica religiosa.

Repare-se que o mandamento não é “honrarás pai e mãe se forem boas pessoas” ou “bons progenitores”, mas sim “honrarás pai e mãe”, o que pressupõe que, independentemente de terem razão, tratarem bem os filhos ou não, mantem-se a obrigação filial suprema. A Bíblia dá-nos exemplos. Não consta que Isaac se tenha tornado inimigo de seu pai Abraão, mesmo tendo-se este prontificado a sacrificá-lo “como um cordeiro, para o Senhor”. Também Cristo obedeceu a seu pai, passando por todas as torturas, humilhações e morte na cruz.

Em contraponto, não há nenhum mandamento que ordene “honrarás a teus filhos”. Nem mesmo uma referência que a isso incite. Os filhos sempre foram considerados como propriedade dos seus genitores, um bem valorativo tão mais importante quanto carregava em si o prolongamento do ADN e do nome familiar, assegurando a perpetuação da espécie e imagem social. Apesar dos totais direitos de dispor dos filhos, a revolta da prole não era tolerada: a pena de morte por apedrejamento coletivo da comunidade era o que esperava um filho que desrespeitasse seu pai, segundo o Deuterónimo.

Também na Roma Antiga, encontramos um modelo em que o pater famílias era senhor absoluto, exercendo autoridade autocrática sobre a sua propriedade, onde se incluíam escravos, mulher e filhos.  Este pai tinha direito de dispor das suas crianças enjeitando filhos, matando deformados, vendendo outros e exercendo disciplina à vontade. Um filho homem seria paterfamílias só depois do falecimento do seu genitor visto que a gens era única.

Logo, não é difícil saber de onde nos vem a ideia de que pai e mãe são os nossos deuses particulares na Terra – conceito mais do que enraizado na sociedade há milhares de anos.

Só no século XX apareceram noções de direitos da criança a nível mundial e foi apenas nos anos 90 que se assinou a Convenção dos Direitos da Criança. Mas como uma criança pertence a seus pais, tudo necessita da autorização de ambos os progenitores. Assim, quando um dos progenitores foi o autor da violência basta não autorizar a recolha de provas da mesma para que esta não exista. Pode a Lei exigi-lo mais tarde, mas há provas que desaparecem com o tempo.

Ficamos muito chocados quando vemos casos como o das 13 crianças em cativeiro e violentadas pelos pais durante anos, descobertas o mês passado na Califórnia. “Isto só na América!” diz-se. Fracas memórias. Pois eu recordo bem na minha infância dos anos 80 de ver uma foto da “Menina Galinha”, dez anos mais velha que eu. Uma menina, absolutamente normal, que desde bebé até aos 9 anos os pais tinham criado num galinheiro, como um animal, perante a comunidade “muda” de uma vila portuguesa. Não há nada pior que sítios onde todos se protegem.

Não é difícil amar progenitores que nos amam. Impossível é amar progenitores que nos maltratam. Como agir? Em resposta, o Talmude conta a história de um homem grandioso cuja mãe destruiu todos os seus pertences e lhe cuspia incessantemente na cara, enquanto ele manteve a sua compostura. Fica a questão: foi ele capaz de agir assim porque era um homem excecional? Ou tornou-se excecional em face desta adversidade?


Thursday, February 1, 2018

Plágio

“O plágio é a mais alta forma de admiração.” Quem aspira a provar que é melhor do que nós tenta ser, pelo menos, original… mas quem faz uma cópia do que fazemos só nos comprova uma inveja nada secreta e até um certo stalking, sem outro objetivo que não seja o de nos mimetizar.

O plágio (académico ou de identidade) é crime.

Quanto ao primeiro, existem, hoje em dia, ferramentas que auxiliam os professores a detetar se os exames ou trabalhos contêm elementos de textos já publicados. Funcionam extremamente bem no caso de plagio verbatim e mesmo no caso de paráfrases, mas são menos úteis em relação a plágio de textos não académicos ou no caso de se tratar de uma tradução do trabalho de outrem.

Recordo dois casos que fizeram furor mediático em Portugal: o célebre caso de Clara Pinto Correia, que, em 2003, admitiu ter traduzido um artigo de opinião que escreveu para a Revista Visão de um artigo que tinha lido na revista New Yorker; o caso (bastante mais grave) da professora adjunta da Escola de Estudos Industriais e Gestão, Ana Luísa Soares, que, em 2010, se doutorou pela Universidade do Minho com uma tese de doutoramento plagiada de uma tese apresentada seis anos antes na Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil. As teses tinham títulos diferentes, mas o resumo já ditava que a versão portuguesa era uma adaptação da sua “inspiradora” brasileira. Embora o caso tenha sido noticiado, ao que se saiba, a professora não perdeu o grau nem o posto… No entanto, perdeu crédito académico ao passo que o autor brasileiro do original terá, certamente, sentido um certo afago no ego. Afinal, quem nos copia tão minuciosamente só pode admirar-nos muito!

O plágio é cada vez mais difícil de controlar: por um lado, a globalização e a internet facilitam-no; por outro, a pobreza. Explico melhor para quem não conheça esta realidade: os estudantes do ensino superior sabem onde encontrar as redes de pessoas que fazem teses e trabalhos por encomenda. Existem mesmo anúncios nas paragens do Metro. O preço é módico tendo em conta o trabalho que executam – trabalho escrito na data prevista, incluindo notas para apresentação oral.

Quem faz estes serviços? Na generalidade, reformados, recém-licenciados sem emprego e até professores. A pergunta que se impõe é: quem, sem escrúpulos, compra?

Já um plagiador de identidade é alguém que inveja profundamente outrem, não raro quem está ao seu lado. No filme “Big Eyes” de Tim Burton, baseado numa história verídica, o marido da artista Margaret Keane finge ser o autor dos quadros que a própria pinta. Keane vive com uma sanguessuga da sua autonomia, artística e pessoal. Também no filme “Single White Female” uma estudante encontra uma companheira de casa que decide copiá-la de forma sinistra e completa, procurando a sua anulação total. Finalmente, em “A Mão que Embala o Berço”, encontramos uma ama, falsamente cândida, que pretende matar a mãe de uma família para tomar o seu lugar, em todos os aspetos.

Este plagiador tem uma existência muito mais triste. Trata-se de um ser oco, vazio como as cascas, que precisa de ocupar uma outra vida para poder ser, finalmente, alguém. Mesmo quando consegue, não “existe”: apenas decalca e prolonga a vida de outro ser.  

O plágio não tem voz. É um eco. Os plagiadores sabem-no bem.


Friday, January 19, 2018

Tempo


Desde sempre, o Homem se tem interrogado sobre o Tempo. Para além de teorizar sobre o que é em abstrato - desde os variados conceitos filosóficos até às questões físicas que debatem a sua linearidade ou a circularidade - preocupa-se o Homem em dividir o Tempo, para efeitos de gestão prática da sua vida concreta. 

Ninguém vive sem datas. O paradoxo desta realidade é que, embora a passagem do calendário nos possa trazer algumas emoções mais agrestes nalguns dias que (re)lembram melancolia ou mesmo dor aguda (“Tempo, ladrão, dá-me conta do fardo”) também se encontra conforto nessa divisão semanal e anual com que podemos jogar estas “sérias […] coisinhas” que são os nossos dias.

Para melhor acentuar a passagem do Tempo (outros dirão que é para melhor a esquecer!), o Homem gosta de celebrar certas datas e, nelas, vivenciar tradições. Nesses momentos, é bem mais frequente que se lembre do que já passou do que daquilo que poderá vir adiante – sobretudo se for português, povo cuja multiplicidade linguística de tempos verbais no pretérito é bem demonstrativa de um saudosismo que noutras culturas não se sente nem se cultiva. “O Tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão. / É ele, é ele o que tem tudo escondido.” Existe, porém, a excepção do Ano Novo em que mesmo os portugueses parecem, ainda que momentaneamente, convencer-se de que o futuro é uma realidade com tanta ou mais importância do que o passado.

Nem todo o mundo se rege pelo calendário gregoriano, em voga em Portugal desde 1582, embora este seja, atualmente, o calendário civil adotado pela esmagadora maioria dos países. Já os ortodoxos têm um calendário ligeiramente diferente do gregoriano. Da mesma forma, no Médio Oriente, há outros calendários: o ano persa começa na Primavera, o ano hebraico (que depende da lua) começa num dia variável em Setembro bem como o islâmico. Na África, existem vários calendários e na Ásia também.

A própria contagem do tempo não se faz da mesma forma em todo o mundo. Um português de 20 anos tem 21 anos na China, já que os Chineses contam com o tempo intrauterino como tempo de vida e dão ao bebé 1 ano quando ele nasce. Mas este bebé pode ter 2 anos muito rapidamente já que, em vários países do Sudeste Asiático, a pessoa “não faz anos”, mas sim todos fazem anos ao mesmo tempo quando se dá a passagem de ano, momento em que toda a nação fica automaticamente um ano mais velha. Nada como o despertar para esta realidade nos mostra como o Tempo é absolutamente relativo (obrigada, Einstein!) e, até certo ponto, uma construção do Homem.  “Ele [o Tempo] pede-nos as coisas emprestadas e some-as.”

Desejo-vos, assim, um Feliz 2018. Mas com esta moda da inclusão que cada vez mais é regra no mundo de hoje (embora, na maior parte das vezes, seja apenas conversa politicamente correta para ganhar adeptos), quase me sinto obrigada a também desejar um Feliz ano 1939 para a Índia e o Camboja, um Feliz 2011 para a Etiópia, um Feliz 2561 para a Tailândia, e por aí fora.


O que ninguém impede é esta realidade, hoje como em 1938: “Tempo, molde de todos os lugares, / Pegada de quem desaparece, / Esquema de bocejos e de esgares, / Frio de tudo o que arrefece.” 

Friday, February 10, 2017

Viver é Escolher


Quando eu tinha 16 anos, mudei de terra, de casa, de escola, de amigos (“se são amigos, não mudam, acumulam-se!”). Era o dia 4 de janeiro quando embarquei no avião para ir fazer o 2º período noutra escola secundária. Ainda não estava matriculada. Era uma situação confusa porque nessa escola não tinham as mesmas disciplinas e era o meio do ano. Aconteceu, assim, que deixei de ter Latim e passei a ter Psicologia, deixei de ter Tradução e passei a Jornalismo, etc, etc… Não escolhi; era o que estava  disponível.

Quando cheguei, fui dormir para casa de uma tia, cujo cheiro a perfume americano e a tangerinas era flagrante. Na primeira noite, tive saudades da minha cama – não da minha casa, diferença que me pareceu de bom prenúncio. Para ir para a escola, caminhava-se um bom bocado. Eu fazia o caminho sozinha, mas determinada. Como diz Pepe Mujica, quando se está só, tem-se muito tempo para pensar: é por isso que estar só não é de todo negativo para uma pessoa dada à racionalidade.

Adaptei-me bem. Tinha certo bom humor para encontrar o melhor de cada situação. “No meio do caos e do dilúvio, eis que ela vive e sorri ainda!” foi uma frase que, por piada, um dos colegas do grupo de Teatro decalcou de uma opereta para exprimir essa capacidade de metamorfose nas catástrofes.

Mas… tinha saudades de voltar. Conversei, na época, com uma professora que me disse “Viver é escolher”, conversa acerca da qual muito reclamei porque eu não tinha feito escolha nenhuma nem considerava ter tido hipóteses de escolher. Mas vendo bem, existe sempre uma escolha no meio de qualquer desespero, por mais profundo que este seja, mesmo que abissal. Claro que o exemplo que dei aqui de uma mudança é banal, ainda que possa ser importante aos 16 anos, se considerarmos a solidão que daí advém. Mas se pensarmos em exemplos realmente vitais ou devastadores, que possam conduzir o ser humano a situações de dor ou perda insuportável, compreendemos melhor.

A escolha fundamental do ser humano em tais momentos é esta: continuar ou desistir.

É legítimo desistir e não condeno os que o fazem. De facto, nem eu mesma sei qual é a melhor opção já que na vida não há segundas hipóteses ou – voltando às aulas de Teatro – “na vida, o ensaio final e a estreia são uma e a mesma coisa!” Nunca é possível voltar atrás para verificar como teria sido se tivéssemos agido de outra forma, razão pela qual também não vale a pena perdermos muito tempo a remoer nisso.

Porém, desistir oferece um grande perigo: não há mais retas nem curvas, chegou o ponto final. Pode ser tentador, se já estamos muito cansados de lutar e tentar, mas é demasiado (de)terminante.

Continuar é sempre optar pela Vida, que mesmo sendo hoje amarga pode amanhã vir a ter outro sabor. É o não-estático, o devir, o aceitar das mudanças como das estações. Na Vida nada se apaga, mas um caminho faz-se andando – de preferência por nós mesmos - e não parando, esperando que nos venham ceifar os pés.

Portanto, mesmo quando nos dizem “não tens escolha” - essa frase ameaçadora e dominante que soa a gume de espada, a frio de gelo autocrático -, não acreditem. Há sempre uma escolha. Pode não ser a melhor. Pode ser muito difícil e dura, por ter de se pagar um alto preço (“o preço de algo é a vida que trocamos por ele”) mas uma escolha…  existe.


Friday, January 27, 2017

Estados serão, Unidos não mais


O título resume o que penso acerca dos E.U.A. atualmente. O maior problema da eleição de Trump nem é tanto o que o Presidente possa vir a fazer, a ameaça que poderá constituir, as alianças ou as guerras, (des)acordos e loucuras que possam vir a ter lugar. Tudo isto são hipóteses e apenas têm para já lugar no campo do nosso receio, ainda que este tenha fundamento real e siga a cadência lógica de atos e discursos feitos pelo próprio. O maior problema reside, hoje, dentro da própria nação. 

Como é óbvio, uma eleição nunca agrada a todos. Há sempre uma fação do povo que se sente injustamente representada pelo eleito. Porém, nunca como agora se viu um levantamento popular contra um Presidente como o que se verifica contra Trump. Há centenas de websites dedicados a “Trump is not my President”. Vários órgãos de comunicação social são abertamente contra Trump e não se coíbem de o demonstrar com notícias em que colocam a nu as suas incoerências. Por sua vez, Trump - como todo aquele que é apanhado em falta - acusa-os de volta, chamando-os portadores de “fake news”.

O Wall Street Journal, menos corajoso, tem chegado a apresentar duas versões da mesma notícia na mesma edição de jornal, numa apresentando o título “Trump softens his tone” e na outra “Trump talks tough on Wall”. Falta dizer que a primeira era para ser distribuída no Texas e a segunda em New York… Ou seja, para diferentes mercados dos E.U.A., constrói-se uma notícia diversa, consoante o público seja apoiante de Trump ou não. Porque é que isto é feito por alguns OCS, que não tomam posição definida? Porque precisam de vender, claro. Mas a questão de fundo não é esta. A questão é: os E.U.A. estão profundamente divididos, cortados como nunca.

Nunca se tinham visto populares a protestar na rua no dia da tomada de posse de um Presidente dos E.U.A. Discordar de uma eleição é uma coisa; protestar a ponto de não considerar sequer o Presidente como tal é outra, absolutamente muito mais radical.

Trump não conseguirá ultrapassar esta barreira psicológica que mais de metade de povo americano tem contra ele: não o respeitam o suficiente e, como tal, não lhe reconhecem autoridade (moral, intelectual, qualquer que seja) para o assumir como seu Presidente. A partir do momento em que Trump começou a ser olhado com desprezo, perdeu a hipótese de ser “o” Presidente. A Lei dá-lhe a autoridade, mas o indivíduo comum vê nele o ridículo, o narcisista, aquele que precisa de recorrer ao Direito de ser Presidente porque não tem o perfil. Como disse um advogado da minha faculdade: “Mal está quem tem de recorrer a Decretos para promover sentimentos que só por si são Lei… ou então não existem!”


Creio que foi Chateaubriand que disse que a História nunca é imparcial, pois limita-se a ter a perspetiva do vencedor. Esta frase é tanto mais séria se pensarmos que nunca teríamos tido conhecimento da existência do Holocausto e seus horrores caso os nazis tivessem ganho a Segunda Guerra. Tudo teria, então, “não existido”, sido uma fantasia dos oprimidos. Hoje existe o vídeo, a internet… mas a verdadeira opressão é sempre feita em segredo, é recatada. Que sabemos nós do que realmente acontece?

Se é verdade que Trump venceu, não é menos verdade que venceu apenas no papel pois que não ganhou nem o respeito nem a afeição daqueles que pretende sejam o seu povo. Para além disso, a perspetiva histórica do vencedor é, no caso de Trump, muito pobre pois ele não é um indivíduo brilhante e palpita-me que as obras (livros, filmes) que vão retratar esta época no futuro lhe farão justiça. A palavra tem, eu sei, falta de uso nos tempos que correm. São tempos de Trump.




Friday, January 13, 2017

Chuva Ácida


Uma semana depois da entrada no Ano Novo, já todos se esqueceram das resoluções de boa vontade do dia 1. Encolhe-se os ombros e até a memória ao que em 2016 provocava espanto. Lá nos vamos habituando a Trump e ninguém estranha que Dylan seja Nobel da Literatura – embora ainda se façam piadas com “Os Lusíadas” em versão rap sugerindo “um Grammy póstumo de Carreira para o Luíz Vaz”.

Como dou aulas em duas universidades, não tenho tempo para ler o que gostaria (reparem que isto devia ser um paradoxo mas adiante… ), pelo que raramente leio artigos de opinião. Porém, tenho um colega que deixa na secretária crónicas interessantes, e assim vi o excerto de uma opinião de Emma Lindsay, onde ela fala do que “decidiu deixar de fazer este ano”. Em vez da típica lista de coisas a começar em 2017, esta era a lista de coisas a cortar pela raíz.

Lindsay diz que deixou de ter paciência para todos os que negam a sua realidade, dizendo-lhe “Estás a exagerar”, “isso não pode ter acontecido” ou “vê lá se deixas de ser piegas.”  Bem sei: isto recorda a infeliz frase de Passos Coelho, mas aqui Lindsay falava mesmo de quem, supostamente, passa por ser amigo dela.

Sejamos práticos: em última análise, não há maneira de uma pessoa saber como é que outro ser humano se está a sentir. Ainda não foi inventada a forma de nos metermos na pele de outrem. Logo, podemos sempre dizer “não tenho tempo para lidar com os teus sentimentos/visão das coisas agora” (isso é válido e aceitável) mas não podemos nunca dizer “Na verdade, não sentes isso. Eu não me sentiria assim, portanto também não te sentes assim. Estás só confuso” ou outras nhanhas do género.

Concordo e vou mais longe.  Colocamos tanto ênfase em fazer uma boa alimentação, praticar exercício, deixar vícios, enfim, não fazer o que nos faz mal, mas esquecemos este ponto fundamental que é cortar as presenças tóxicas da nossa vida. Deixar de manter relações com quem nos oxida ou até nos maltratou não é ser estranho, é ser humano e é ser, sobretudo, amigo de nós mesmos. Quem não entende ou nos nega esse direito, talvez devesse repensar a sua postura mas nunca obrigar-nos a ser "bonzinho" ou "esquecer"... como não nos obrigaria a tomar cocaína - dizendo que é para nosso bem! “Para nosso bem” é sempre paternalista quando não pedimos conselho.

"Perdoar e oferecer a outra face" é um conceito mal traduzido. Aliás, a Bíblia também diz “olho por olho e dente por dente”, portanto convém não exagerar. Não há nada de errado em criar autoestima suficiente para dizer "chega"… ou corremos o risco da tal outra face ficar toda vermelha de bofetadas. Negar sentimentos de amargura e de recusa em relação a quem nos fez mal é muito negativo. Temos direito a tê-los perante quem nos agride. Perdoe quem acha que deve, mas ninguém deve obrigar outro a sentir como ele. Além disso, perdoar é diferente de aproximar. Criar distância  em tais casos é sinal de inteligência emocional.

Uma personalidade obrigada a calar-se durante anos perante injustiças, explodirá um dia, seguramente de modo pouco saudável. Isto serve perante progenitores, filhos, casais, amigos, patrões, qualquer pessoa que nos cause mal estar, muito mais as que são fonte de tortura. A vida é curta para viver em regime de escravidão.


Como dizia Jacques Brel, "Amemos quem devemos amar e esqueçamos quem devemos esquecer".  Ou, mais prosaicamente, como dizem os brasileiros “Cancela essa intimidade que você acha que tem comigo”, sendo “achar” aqui um verbo de compreensão fundamental.