... "And now for something completely different" Monty Python

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Thursday, December 23, 2010

Nós e Laços



“Natal é a festa da família”, toda a gente sabe. Mas “família”, hoje em dia, é um vocábulo que não significa o mesmo que significava antigamente e negá-lo seria mais ou menos como dizer que o Menino Jesus é mais conhecido que o Pai Natal. O que faz com que tantas pessoas suspirem por estar sozinhas no Natal e outras tantas suspirem por ter de aturar (literalmente) os familiares que, por azar genético, lhes couberam em sorte, durante esta quadra? Como não sou antropóloga – e logo não sei o que, de modo transversal, culturalmente se entende por família hoje em dia – lembrei-me de ir espreitar os últimos estudos feitos sobre a dita. Sem surpresa, verifica-se que hoje andar na escola e ser filho de pais divorciados ou de famílias monoparentais não é incomum; incomum é aquele miúdo cujos pais ainda vivem juntos (note-se a utilização do advérbio “ainda”, que prevê uma fatalidade não muito distante). Cada vez mais usual, é aquele menino que tem várias famílias: a da mãe, a do padrasto, a do pai, a da madrasta, a do ex-namorado da mãe de quem ficou amigo (veja-se a acumulação de avós que vai aqui… e de prendas natalícias!).


Qual é a única coisa que vale a pena investigar aqui? Precisamente: porque é que, mesmo sabendo que a família - enquanto instituição - é aquilo que podemos chamar uma empresa falhada, porque motivo se casam hoje as pessoas? Tal como eu, também uma equipa do Pew Research Center (em Washington) colocou a mesma questão.


Aparentemente, segundo o PRC, até há algumas gerações atrás (o estudo incide apenas sobre os últimos cinquenta anos), as mulheres casavam para terem dinheiro e os homens casavam por razões sexuais. Hoje em dia, visto que a esmagadora maioria das mulheres trabalha e tem um estatuto económico independente dos homens, não precisa de casar para sobreviver; do mesmo modo, actualmente, dada a liberação sexual, ninguém espera pelo casamento para ter relações sexuais, portanto os homens não precisam de casar para garantir esse bónus. Aliás, acho esta conclusão do estudo do PRC muito curiosa: se os homens casavam pelo sexo e as mulheres por dinheiro, o que era o casamento senão a prostituição legalizada?


Mas voltemo-nos para os dias de hoje, para não ofendermos os nossos familiares mais velhos. As pessoas, actualmente, não acreditam no casamento e, o que é mais, acham que enquanto modo de vida está condenado à extinção. Mas casam. É fácil de perceber a primeira parte da premissa. São pessoas que já conhecem os casamentos desfeitos dos pais (não raro os segundos casamentos desfeitos de um lado e doutro), sendo que a maior parte também já se “descasou”. Porque raio querem voltar a dar o nó? Diz este estudo que o casamento é a medalha de mérito da nossa sociedade, a única forma de se mostrar que se é bem sucedido. Por outras palavras, um solitário é seguramente visto como um outsider e alguém que falhou. Pode ter muitos amigos e ter a mamã e cem namoradas (podem construir a frase no feminino que dá igual), mas não teve quem lhe quisesse fazer canja de galinha quando estivesse doente. Looser. Ou seja, paradoxalmente, os não-casados não são casáveis. Não são atraentes para o sexo oposto, pelo menos a longo termo. E eles sabem disso (ora não!).


Com quem (alguns cínicos dizem contra quem…) casam as pessoas? Isso também mudou. Até há pouco tempo, os homens casavam sempre com mulheres que sentissem ser intelectualmente inferiores ou que ocupassem uma posição social menos visível. Ex: Médicos ligavam-se a enfermeiras, executivos a secretárias, comandantes a hospedeiras. Hoje, as pessoas tendem a casar dentro da mesma faixa (por assim dizer), por acharem que assim há mais complementaridade na união. Também é interessante que os segundos casamentos optem mais por este modelo do que os primeiros, nos quais se verifica ainda uma grande necessidade de domínio – inclusivamente no aspecto social - de um parceiro sobre o outro. Eu diria que nas uniões seguintes também, só que a necessidade de domínio tem vergonha de se exteriorizar porque não é politicamente correcta – afinal, estamos na era da igualdade!


Claro que estou a deixar de lado questões importantes como a idade. Antes, o casamento era a entrada na idade adulta. Agora, as pessoas casam cada vez mais tarde e com um grau cada vez maior de educação. Neste drama etário entram duas questões: primeiro os filhos, depois as finanças (again!). Embora não considerem ter filhos uma razão para casar, as pessoas colocam “ser bom pai/boa mãe” como um dos primeiros items para continuar com o parceiro. Mas após o/a deixarem, consideram os próprios filhos “uma pressão” – eufemismo para “fardo” - na sua (nova) vida: ou seja, é um nó que não conseguem desembaraçar e para o qual ainda se vêem socialmente pressionados a dispensar tempo e dinheiro (os mais simpáticos ou hipócritas até dispensam uma ou outra conversa para além do “tens tido boas notas?” e “estás bem de saúde?”).


Em relação às finanças, a crise parece motivar casamentos: muitos jovens adultos consideram não ter dinheiro para fazer vida sozinhos, mas a junção de duas vidas já permite pagar uma renda e livrar-se dos pais. Mecânico e pouco romântico? É o mundo que temos.


A propósito, o motivo pelo qual os casais mais discutem são “outros familiares”, sejam filhos ou pais. Se calhar, o melhor casamento foi mesmo o de Adão e Eva, que consta só terem começado a dar-se mal quando apareceu um terceiro elemento, pois enquanto estavam só os dois viviam mesmo no Paraíso.


Há notas importantes a retirar deste estudo. Primeiro que as pessoas independentes – num sentido lato, tanto material como emocional, leia-se: os que não têm necessidade de andar na sombra de outro - têm muita dificuldade em encontrar parceiros e formar relações estáveis, sendo ironicamente as que dão melhores duplas, por serem mais confiantes e logo mais capazes de dar de si. Segundo, que a nossa sociedade deu direitos legais à união de facto… mas culturalmente não a respeita como um compromisso, nem sequer em termos de fidelidade: “Temos novas regras de intimidade, mas não sabemos bem quais são. Não se respeita uma coisa que não se aprendeu” diz o estudo do PRC “As pessoas não têm expectativas quanto à união de facto e por isso se portam como solteiros, coabitando como casados.” Complicado de entender? Imaginem se fossem vocês as criancinhas dos ditos.


Afinal, porque se casam as pessoas? Como diz um amigo: “Para se poderem divorciar com o mínimo de impacto social a seguir. Tem mais estilo do que sair de casa apenas!”

***

Leiam mais em: Pewsocialtrends.org/family: The Decline of Marriage and Rise of New Families. E não se esqueçam de comprar prendas para os irmãos dos vossos irmãos que não são vossos irmãos mas que também fazem parte da vossa família. Complicado? Muito comum até. Se vocês não têm um, já estão na prateleira dos antiquados! Vamos lá a ver se resolvem esse assunto em 2011.


Nota: Este artigo teve uma versão bem mais condensada que foi publicada dez dias antes no Açoriano Oriental e que pode ser consultada aquhttp://www.acorianooriental.pt/opinioes/readOpiniao/211698/

Monday, May 3, 2010

Ups, a minha escola mudou de nome! Manuel quê…?


À primeira vista, escrever um texto sobre a nossa Escola Secundária pode parecer fácil (para mim, nem tanto, porque andei em mais do que uma). Claro que, no caso presente, o que interessa é juntar a ideia da Escola à figura da Primeira República que foi Manuel  de Arriaga, o que me complica muito as coisas, não em termos memorialísticos, porque acabei o chamado “Liceu” na escola com esse nome, mas porque de Manuel de Arriaga sei mesmo muito pouco! Portanto, decidi fazer um exercício entre algumas pessoas desse tempo – velhos e velhas que, como eu, já são trintinhos (quando tínhamos dezassete anos, um tipo de trinta já estava um bocado gasto…) e perguntar-lhes se sabem tanto da personagem como eu. Também respondi às perguntas, sem batota. Os entrevistados estão identificados só pelo nome, porque, nessa época adolescente, no bilhete de identidade não constavam cargos nem profissões, alínea que hoje anda muito in. Obrigada a todos os que acederam responder, desde os telegraficamente sinceros aos que deram voltas sérias  à memória e áqueles a quem ameacei que ia colocar uma fotografia daqueles tempos na net caso não colaborassem (é mentira, não cheguei a ser assim tão cruel ao ponto de torturar com a possível revelação da verdadeira cor capilar de cada um…). Aqui  fica uma viagem no tempo, sendo que nem entre nós conseguimos acertar no ano em que a escola mudou de nome. Independentemente do pouco que sabíamos, a verdade é que, como alguém aqui disse, ninguém se lembrou de dar uma aula gira e apelativa sobre Arriaga às nossas mentes atarefadas de então. Eis o que pensávamos sobre o 1º Presidente da República.


Questões:
1)     Na altura que frequentavas a Escola Secundária, que sabias sobre Manuel de Arriaga?
2)     E agora? Já aprendeste mais alguma coisa?
3)     Fizeste parte da geração que estava na escola quando a Escola Secundária da Horta passou a chamar-se Escola Secundária Manuel de Arriaga. Isso teve importância na época? Manuel de Arriaga pareceu-te uma melhor escolha para o nome da escola que frequentavas?


Respostas (entrevistados por ordem alfabética):


Adolfo Fialho
1)Sabia aquilo que quase toda a gente sabe… que Manuel de Arriaga foi o primeiro presidente da República Portuguesa, aspecto que, associado ao facto de ser natural da Ilha do Faial, assumia alguma relevância na história da nossa localidade.

2)Pouco mais… apesar de ultimamente se estar a enfatizar o seu papel na história da nossa República, passados que estão quase 100 anos da sua constituição. Sei que estudou advocacia em Coimbra e foi um dos grandes impulsionadores da causa republicana. Sei ainda que sucedeu a Teófilo Braga - outro açoriano, natural de Ponta Delgada - que então presidia um governo provisório, e que foi curiosamente sucedido por este, ainda antes da data prevista para concluir o seu mandato, que foi marcado por muitas controvérsias políticas…

3) Encontrava-me já na recta final dos meus estudos naquela instituição de ensino e lembro-me de estar concentrado noutros objectivos. Ainda assim, recordo-me vagamente de toda a agitação em volta do nome da escola e da importância histórica do seu novo patrono. Não me lembro de ter explorado muitos pormenores nas aulas, aspecto que me parecia importante, até para compreendermos a real importância de tal distinção. Lembro-me que houve uma grande movimentação em torno da estátua de Manuel de Arriaga, junto ao cais do porto da Horta, que até então me tinha passado completamente despercebida. Na altura, pareceu-me bem tal distinção e senti uma pontinha de orgulho por ter sido um faialense a tomar as rédeas da primeira república portuguesa.
Continuo a achar que foi uma escolha acertada. 



Carla Cook
1)     1)Sabia que tinha sido o Primeiro Presidente da República Portuguesa e que tinha nascido no Faial, naquela casa muito decrépita, perto da Rua do Arco.

2)    2) Sinceramente, muito pouco. Apenas soube, pouco depois, que não era linear que tivesse nascido no Faial, porque havia a hipótese de ter nascido no Pico… Não sei até que ponto isto é verídico. De qualquer modo, em duas ilhas separadas por 4.5 milhas náuticas, a movimentação dos habitantes é, desde há muito, uma constante. Quanto à personalidade e feitos de Manuel de Arriaga, lamento dizer que sei pouquíssimo.

3)     3)Não teve a importância que lhe atribuo agora. Mentiria se dissesse que sim. Sou de 77, penso que aconteceu no meu 12º ano, que foi uma época de muito estudo e muito namoro, aquela vida intensa, rápida e feliz, própria da idade. Estava ocupada e não pensava em Manuel de Arriaga. Além disso, tínhamos de escrever “Escola Secundária Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga, Horta”. Isso pareceu-me uma perda de tempo e de tinta por oposição a “Escola Secundária da Horta”, embora concordasse que era muito positivo dar à escola o nome de um homem da terra que tinha conseguido algo importante: é motivador para as gentes; logo, achei bem.



Cláudia Pereira
1)      1)Não tinha muita informação sobre Manuel de Arriaga. Lembro-me que sabia que tinha sido o primeiro Presidente da República, que era natural da Horta e que tinha nascido numa casa onde tive catequese e que se situa junto ao Ponto.com (restaurante).

2)      2)Infelizmente, não. Talvez pelo facto de nunca ter sido uma figura que me despertasse muita curiosidade, apesar de ter dado o seu nome ao nosso liceu.

3)      3)Sim, na altura foi muito falado. Pareceu-me uma boa escolha por ser faialense e pelo facto de se ter convertido num estadista. Na altura, fazia sentido.



César Lima
1)Sabia que tinha sido o 1º presidente eleito da Republica Portuguesa, que era natural de cá, e que tinha nascido na Casa do Arco.

2) Agora sei um pouco mais , sei que foi advogado, professor, escritor e politico (Partido Republicano Português),e foi deputado republicano da Madeira.
Estudou direito em Coimbra, deu aulas de Inglês em Lisboa, e mais tarde foi reitor da universidade de Coimbra.
Sei também que sentiu-se amargurado e injustiçado pelos próprios republicanos nos últimos meses do seu mandato,
que morreu 2 anos depois de ter abandonado a presidncia da Republica e que está sepultado no cemitério dos Prazeres.

 3) Sim, estudava lá na altura, aliás concorri ao concurso para escolher o logotipo da escola.
Acho que não só é um nome melhor para a escola 
como também é uma justa e honrosa homenagem a uma figura tão valorosa como ele foi.



Dália Leal
1)   1)  Pouco.
2)    2) Sim.
3)     3)Na altura, teve pouca importância. Considero ser uma importante homenagem a um ilustre faialense.



Filipe Pires
1) Na altura em que frequentei o "Liceu", já tinha noção que Manuel de Arriaga tinha sido o primeiro Presidente eleito da Républica Portuguesa e que era faialense.

2) Sim, nos dias de hoje, já adquiri mais alguns conhecimentos.

3)Sim, acho que que fiz parte desse grupo, creio que foi em 1994. Na altura, apesar de saber quem foi Manuel de Arriaga, a mudança de nome da escola nao fez grande diferença e sinceramente não atribuí grande importância, pelo menos do que me lembro.



Joana Decq Mota

1)     Sabia que foi o 1º presidente eleito da República Portuguesa, sucedendo ao Governo provisório; nasceu na Cidade da Horta, situando-se a sua casa na Rua do Arco na Matriz.

2) Soube mais tarde que estudou Direito em Coimbra.

3) Quando frequentei já se chamava ESMA há muitos anos, anteriormente Liceu Nacional da Horta. Acho adequado atendendo à importância que tem o facto de o 1º presidente da República ser açoriano, nascido no Faial. Penso também que a grande maioria dos faialenses mais jovens desconhece tal facto.




Luis Campos
 1)Sabia apenas que tinha nascido na Ilha do Faial e tinha-se tornado o primeiro Presidente da República Portuguesa.
2)Não.
3)Acho que não, mas sinceramente acho bem melhor, assim sempre se dá ênfase a  um grande nome das gentes do Faial.




Nuno Ribeiro

1)Que tinha sido o 1º Presidente da Republica, e que tinha nascido na Cidade da Horta.
2) Que afinal existe uma polémica se ele nasceu mesmo no Faial ou no Pico.
3)Foi na minha altura. Achei um nome muito grande (Esc. Sec. Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga), mas acho que foi um excelente forma de homenagear uma figura muito importante e mercante da História de Portugal.



Pedro Taborda

1) Sabia que Manuel de Arriaga era natural da Ilha do Faial e havia sido o primeiro presidente da Republica. Talvez por isso havia uma estátua em sua homenagem no cais da Horta.
2)  Desde então não aprendi mais nada que dissesse respeito a Manuel de Arriaga. 
3Manuel de Arriaga é um nome  ajustado para a Escola Secundária da Horta ainda mais pela importância do cargo que este açoriano  desempenhou. Só tenho pena que a casa onde nasceu Manuel de Arriaga não seja recuperada e se transforme num qualquer espaço de utilidade pública. 



Renato Silveira
1)Na altura, sabia que ele tinha sido o primeiro presidente da República
Portuguesa e que era meu conterrâneo, um faialense, e pouco mais.
2)Agora, e resumindo, sei que o mandato dele foi envolto de muita
controvérsia e que, apesar de ser considerado um homem bom e integro,
foi obrigado a renunciar ao cargo devido a algumas polémicas
relacionadas com o General Pimenta de Castro, homem que a dada altura
foi escolhido por si para governar o governo. Saiu da presidência,
como se diz na gíria, "pela porta pequena", numa altura em que se
viviam tempos agitados numa República ainda a dar os primeiros passos.
3)Quanto à alteração do nome ter tido importância,
sinceramente já não me lembro bem, mas julgo que não foi assim muito
relevante. Foi apenas uma alteração do nome do Liceu (mas a
minha memória pode estar a atraiçoar-me).
Se foi a melhor escolha? Não sei, mas foi uma escolha bastante
adequada uma vez que, dado o seu passado académico e relevância
política para o país, foi uma forma bonita de homenagear este
faialense.


Rosa Dart
1-   1) Por acaso até sabia qualquer coisa... apesar de não dar a importância que dou agora às memórias da nossa terra. 
2)Já. "Passei" por ele ao de leve no curso de Filosofia quando estudei Antero de Quental. Fiz também pesquisas sobre os honoráveis da Ilha e Manuel de Arriaga, incontornavelmente, era um deles. Claro que sempre fiquei a saber mais qualquer coisa. Aprende-se sempre.
3)Pois. Sou da fornada de 75! Não, sinceramente na altura não dei muita importância, se bem que agora acho que o nome de Manuel de Arriaga ainda dá mais dignidade ao Liceu (que é como sempre lhe chamamos, pelo menos os alunos de 75). 



Vanessa Santos

1)Anteriormente à mudança de nome da escola, nada. Depois, apenas que era Faialense e que era considerado uma figura importante.
2)Pouco. Mas este exercício despertou-me a curiosidade fazendo com que tenha pesquisado informação adicional.
3)Na altura não compreendi o porquê da mudança. De um ponto de vista mais prático, considerava que trazia complicações: por exemplo, a necessidade de decorar um novo nome, demorar mais tempo a preencher o nome da escola em fichas (por ser mais longo e por ter de me lembrar da ordem das palavras, mas penso que tinha outras coisas pelo meio, tipo “escola básica e integrada”), por vezes esquecer-me e preencher com o nome antigo (como acontece quando mudamos de ano). Agora, atribuo-lhe a importância devida. Respeito.

Friday, January 8, 2010

Pausa

Quando perguntaram ao famoso pianista Arthur Rubinstein como fazia para manobrar as notas com tanta mestria, ele respondeu: “Caríssimo, eu jogo com as notas como qualquer outro. Mas as pausas… É nas pausas que reside a arte!” Passe a modéstia de Rubinstein, a verdade é que as pausas são sub-valorizadas, na música como na vida.


Um workaholic, por exemplo, não consegue fazer pausas do trabalho o que, intimamente, significa que é um ser incapaz de relaxar em toda e qualquer situação, incluindo o tal trabalho, que ele jura ser compensador mas onde está tão obssessiva-compulsivamente envolvido. O nome clínico desta doença é ergomania, traduzido por mania de trabalhar. Para aqueles que estão a pensar que isso é bom, relembro que, em grego, mania significa loucura.


No fim dos anos 60, no Japão, começaram a aparecer os primeiros casos de que há memória de morte por excesso de trabalho. Aliás, o Japão é o único país – que eu saiba – que apresenta estatísticas para esta estranha morte, que denominam karoshi. Acontece que, nessa época, apenas operários morriam de karoshi… Quando, nos anos 80, começaram a morrer executivos, a Universidade de Tóquio – muito prestigiada e de onde já sairam mais de uma mão-cheia de Prémios Nobel - prestou atenção ao fenómeno e decidiu estudá-lo. Deixo para os sociólogos e economistas a observação da doença enquanto consequência de todo um espectro de país devastado pela Guerra e com uma brutal energia para ressurgir em grande (?) e para os analistas políticos a força da filosofia do comunitarianismo (ética dos poderosos, será?)  na influência do pensar destes viciados.


Facto é que centenas de pessoas, nos dias de hoje, morrem de estafa, sem sinais anteriores de doença. O perfil típico é o de um homem com boa posição, que trabalha mais de doze horas por dia e sete dias por semana. Pois, mesmo que vá para casa, verifica-se que não consegue deixar de trabalhar… E muitos só vão porque a família os foi buscar aos empregos.


Nem todos os viciados no trabalho morrem. Aparentemente, muitos ficam apenas com severos problemas mentais e de memória (escusado é dizer que todos apresentam graves questões a nível de relacionamentos pessoais). O terrível paradoxo é que estas consequências individuais acabam por afectar o seu rendimento e fazê-los ter de trabalhar cada vez mais, dando origem a um ciclo de quanto mais trabalho, menos produção.
Hoje, no Japão, já inventaram um jogo de computador em que o propósito final não é sobreviver. É matar-se… de cansaço. Chama-se Suicide Salaryman. É precisamente a pergunta que me ocorre: qual é a diferença entre este karoshi e o suicidio a fogo lento?


Nota: Este artigo foi re-publicado a 30 de Julho de 2010 no A.Marginal.

Wednesday, December 9, 2009

Poderosas Burkas Invísiveis

Este Verão, fomos – eu e a minha família - a Istambul. Teria sido uma viagem como outras se não nos tivesse marcado tanto. Em artigos que escrevi para o AO, onde mantenho uma coluna, falei, na época, dessa viagem - de como foi poderoso estar nos sítios das mesquitas reservados apenas às mulheres, de como o meu filho me ensinou mais sobre como comunicação com outros povos do que quaisquer academias (e até da barbaridade que é os fraldários do aeroporto de Lisboa estarem dentro dos wc femininos porque não tenho de ser obrigatoriamente eu a limpar o rabinho da criança, perdoem-me este aparte).


Mas, na verdade, quando regressei, lembrei-me de Sarah Mousavi, uma ex-aluna minha que usava um véu na cabeça. Era muito comum no Canadá haver uma enorme diversidade cultural, mas a Sarah foi a única muçulmana que ensinei que fazia questão de tapar os cabelos com um véu e as coxas com roupas largas. Embora a Sarah fosse bem aceite por todos, havia, ocasionalmente, algumas piadas menos simpáticas e imagino que, fora das aulas, a coisa se incendiava muito mais. A certa altura, por obrigatoriedade disciplinar, os alunos tiveram de escrever um texto sobre tradições culturais e este foi o texto da Sarah que - corrigido por mim é certo - segue aqui, para vossa reflexão. Acredito que toda a literatura deve acordar-nos e abrir-nos os olhos para o real, como se nos desse uma marretada na cabeça. Portanto, o que a Sarah escreveu, nesta óptica, é literatura.


Antes de o transcrever, tenho de agradecer às centenas de alunos de tantos países que tive ao longo dos anos. Não sei quem mais aprendeu, se eu, se eles…



“Uso um véu nos cabelos e interrogo-me porque é que os meus colegas pensam que isso me faz estar presa a seja o que for. Este uso é uma escolha minha, pessoal, ainda que condicionada pela minha cultura. Mas não é verdade que todos eles estão condicionados pelas suas culturas? Não é verdade que todos eles estão agarrados a conceitos que trazem do que lhes ensinaram os pais, os avós e até do que lhes disseram os amigos e vizinhos? Os meus pais não me obrigaram a usar hijab. Educaram-me dentro da filosofia da religião islâmica, é certo, mas eu podia ser islâmica e não usar nenhuma espécie de véus, se quisesse. Sinto-me bem como estou e, sobretudo, como sou.


O que sabem vocês do Islão? Provavelmente tanto ou menos do que eu sei do Cristianismo, do Judaísmo, do Hinduísmo. É fácil criticar quando somos ignorantes acerca de algo. Dizem-me “oh Sarah, como podes andar de burka?!” Mas eu não uso uma burka, uso um hijab. Há muitas formas de véus, desde a abaya (aqueles véus negros que tapam as mulheres completamente, só lhes deixando os olhos à vista) e muitas tradições de os usar. Aliás, hijab é também a palavra que usamos para definir a forma de vestir das mulheres muçulmanas.
O meu propósito ao escrever este texto, porém, é outro. Gostava de fazer uma observação: todas vocês, minhas colegas e algumas até minhas amigas, usam burkas e não sabem. São burkas invísiveis e, por isso, são mais poderosas ainda. Algumas até usam abayas: estão tão tapadas que apenas os vossos olhos se vêem e, quando olhamos para vocês, baixam-nos, envergonhadas de terem abdicado da vossa liberdade. Não têm mãos livres e a vossa cara está presa em negros véus. Eu sou um passarinho que voa em eterna Primavera perto das vossas gaiolas de grades douradas, por comparação. E sabem porquê?


Vocês dizem-se livres e emancipadas, por serem mulheres estudantes. Isso também eu sou. A minha liberdade é a mesma – participo em todas as actividades, desportivas e culturais. Mas, ao contrário de vocês, eu não sofro de dupla personalidade. Não tenho de fazer o papel de leoa que dá nas vistas quando está na Universidade e no café, soltando urros para se fazer mais notada e caçando para alimentar o leão (sim, o leão, e não vocês próprias… pois vocês passam o tempo a satisfazer o macho egocêntrico e dizem-se mulheres livres). Tanta pintura, tanto creme e tanto gritinho não é para que se sintam bem… mas pura competição para que o preguiçoso e aborrecido leão – que pouco vos liga – vos dê um pouco mais de atenção do que tem dado ultimamente. Ou do que dá à leoa do lado. Eu não preciso disso.


Ah, mas desculpem. Eu falava de dupla personalidade. Sim, porque ao pé do leão e dos vossos pais, vocês são uns cordeiros. Enfiam a burka por completo. Fazem tudo o que lhes mandam. Sim, meu senhor, que mais quereis? Já estais satisfeito? Julgam que assim ele vos dará mais. Mais do quê? Mais ordens? Que prazer ou vantagens retiram vocês da vida, para além de uma minúscula prenda no Valentines Day, dada, com certeza, para que vocês continuem a obedecer? Ah sim, um sorriso… Pois, tenho notícias: todo o tirano, para ser bem obedecido, ordena com ar simpático. Não deixa de ser uma ordem categórica isso que ele vos dá. Já experimentaram ser rebeldes? Então porque me aconselham rebeldia?! Vocês não conhecem o significado da palavra. Fazem-me rir com os vossos conselhos sem sentido.


Sou Sarah Mousavi. Consciente das minhas escolhas. Sempre a mesma, em qualquer situação. Feliz e confiante no meu Deus, na minha família, em mim própria. Não me minto. Não acredito em culturas perfeitas e não sou extremista em nada. Apenas quero sublinhar que eu vivo num mundo que conheço, do qual vocês pouco sabem (e inventam tolices como circuncisão feminina, que parvoíce!), e não tenho vergonha de ser como sou. Vocês dizem-se livres mas vivem na hipocrisia: vendem-se quase diariamente por dinheiro, por status e até algumas por uma cama quente ou por um bocadinho de atenção a que chamam amor. Amor é companheirismo, viver para um fim comum. Vocês vivem na obediência cega em vez de viverem na comunhão que prega o vosso Deus. Mas eu é que uso burka, segundo me dizem...”


Friday, July 31, 2009

Manual de bolso para cativar turistas


Fui a um encontro sobre Turismo. Saí muito desiludida. Há anos, ao visitar Naxos pela primeira vez, aprendi mais do que aqui sobre como cativar gente. Naxos é uma ilha grega, sensivelmente do perímetro do Pico, que vive do turismo todo o ano até porque a erva para as cabras está a desaparecer. Ali, era tudo grego, pois quase ninguém falava outras línguas, apesar da mentira que nos vendia o guia. Naxos não tem muito para ver, para além da Portara dita de Apolo e dos Kouros. Dado ser Inverno, não havia praia para ninguém. Então, como raio estava a ilha a abarrotar de turistas?


Entrei numa loja de esquina ao acaso, pequena e não muito limpa. “Oh, Thea, Thea” exclamou o comerciante, e logo deixou que estava a fazer para se colar a mim, dizendo-me que a Thea (deusa) era eu. Eu, na altura tonta de juventude e alheia às tácticas do marketing, disse-lhe não, não, muito ruborizada, sou só estrangeira. Näive que era, até apontei no mapa de onde vinha. Não, disse ele, és a encarnação desta deusa. E pôs-me na mão uma estatueta simples de uma mulher com uma bilha de água. Que deusa é esta?, perguntei eu, inocente. Grande deusa da água. Eu, muito menina de biblioteca, argumentei que não conhecia deusa nenhuma da água, apenas Neptuno como senhor dos Mares. Ah, não, deusa da água, fonte de vida, maior que Neptuno, ela é a origem. E é a tua cara, corpo, tudo.


Achas que sou parecida com esta deusa? perguntei ao meu namorado de então, que me acompanhava. E o pobre, apanhado nesta perfídia feminina, que havia de fazer? Não podia responder que efectivamente não era! Disse que havia semelhanças… E logo o indignado comerciante protestou: “O senhor dá a mão a uma deusa, uma deusa!”
Como se chama a deusa da água? perguntou o meu namorado, mais vivido que eu, e muito mais habituado a topar os truques alheios. Sobretudo, no caso, irritado numa luta de galos.
Hum… Efhy. Jamais ouvíramos tal nome. Anos mais tarde, estávamos ambos a trabalhar na Grécia, descobriríamos que Efhy é um nome tão vulgar lá como Maria em Portugal.
Leve Efhy, é o seu retrato imperfeito em mármore, dizia o comerciante. Trouxe-a comigo. Até hoje está na minha sala, com a sua bilha de água. Pesquisei. Não há, que eu saiba, nenhuma deusa da água. E a estatueta nada tem a ver com a rapariga ossuda que sou.


O ponto, porém, é que tal como eu fui encantada pela adulação simpática, no meio de uma ilhota desconhecida, que pouco mais oferece do que bom sumo de kitron fresco, muitos outros também terão sido. Mais que seminários e campanhas, parece-me necessário espírito. Vender um local é (re)inventá-lo. E fazer, sobretudo, com que cada visitante se sinta digno do Olimpo. Eu própria paguei 50 euros para me ter como deusa na minha sala de estar. 


Friday, May 29, 2009

Longa Vida aos Sapatos do Morto


Na terra da minha avó, dizia-se que era de muito mau agouro enterrar um homem descalço. Perdem-se no tempo as origens desta superstição – seria ele mal recebido no Céu caso aparecesse sem botas? Certo é que se fazia mesmo o possível por enterrar as pessoas bem calçadas, com sapato engraxado e atacadores novos.
Ora quando morreu o Zé Latas levantou-se um problema muito sério. O Zé Latas era o vagabundo oficial da terra. Isto não é de espantar, toda a terra pequenina tem o seu, um pobre coitado que caíra em desgraça há já muitos anos e nunca mais se conseguira levantar. Talvez por falta de sapatos, quem sabe…


Fora de ironias, o Zé Latas vivia das esmolas de uns e de outros, vestia sempre os mesmos trapos e claro que sapatos não tinha. Também não tinha família, e, portanto, não se lhes podia ir pedir uma vestimenta condigna para enterrar o homem. Caixão arranjou-se, o Padre tomou conta do assunto. Deu-se então na terrinha uma onda de solidariedade pelo morto Zé Latas como nunca se vira pelo homem Zé Latas enquanto vivo – choveram camisas interiores e das outras, calças e casacos, peúgas novas em folha, houve mesmo quem desse um fato e uma gravata! E os sapatos, lustrosos, como devem ser, não ficaram atrás.


Acontece que o morto não colaborou. Era mesmo de esperar que o patife do Zé Latas, preguiçoso e bêbado, não quisesse fazer a sua parte… Pois por um não raro fenómeno nos mortos, o Zé Latas inchou. Aparentemente, e segundo o médico da terrinha “eram gases”. Credo, Sr. Dr., o homem não está morto? perguntavam as beatas. “Confirmo o Rigor Mortis. Mas os gases dentro do estômago e intestinos dos mortos, muitas vezes, acabam por sair e depois eles incham assim… Não se preocupem, o tipo não ressuscita!” dizia o médico, muito senhor da sua ciência em terra de cegos. Senhor, benzei-nos.


Morto mas muito mais gordo, não havia roupa que servisse ao Zé. E a caridade alheia que lhe dera um fato não dava dois para o bêbado maltrapilho oficial do vilarejo.


Felizmente, estava-se na altura em que começava a aparecer a mosca de Verão, quer-se dizer, a emigrantada, essa mosca um bocado mais gorda que aquilo que o Zé Latas estava. E logo sempre prontos a auxiliar os da sua terra, porque os viam muito pouco e estavam saudosos daquela miséria quentinha tão diferente do frio impessoal e endinheirado que tinham no dia a dia, disseram “Vamos vestir este morto, este pobre de Cristo!” E assim o fizeram.


No dia do enterro, toda a terrinha compareceu. O caixão estava aberto durante a missa para melhor se ver a roupa que calhava bem com o ar cheio e perfeito do morto, que nunca em vida parecera tão saudável. Tivera de ser uma roupa que lhe servisse, umas coisas americanas, largas, grandes. O Zé Latas estava de escuro e tivera de se vestir com roupa desportiva, mas tudo de marca boa! E cara. Mas o importante era nos pés balofos a ostentação de uns ténis, novos e sem um risco! O pé do morto muito virado para fora deixava mostrar na sola dos ténis, por debaixo da marca, em grandes letras, esta frase apropriada à ocasião:


“Nike - Long life tennis shoes”…


Friday, July 4, 2008

Um Certo Ar de Português

Quando era miúda, sofria de um terrível problema: não parecia portuguesa. Tão pouco parecia outra coisa, a julgar pelo que as vizinhas diziam à minha avó: "A sua neta parece estrangeira... Mas não sei bem definir de onde" ao que a minha avó, sempre mordazmente sarcástica, respondia que "de outro planeta" era a hipótese mais provável.

Depois, mais crescidinha - se bem que não muito, admito - tive várias vezes discussões sobre o que fisicamente define o povo português. Há até uma canção, desse género a que o povo português tão carinhosa e sinceramente apelida de pimba, que se chama "A bela portuguesa". Por mais voltas que dê ao miolo, não faço ideia do que seja uma bela portuguesa. Consigo, sem dificuldade, imaginar uma bela angolana, uma bela brasileira, uma bela dinamarquesa, uma bela nipónica mas criar um estereótipo de bela portuguesa é-me impossível.

Que têm os portugueses de tão diferente dos gregos, por exemplo?

  A minha tia, que é loiríssima, alva de neve e com olhos aquáticos, podia ser norueguesa e, se tivesse sardas e fosse um bocado mais dura de rosto e bem mais de formas, seria bretã francesa. O meu primo tem claramente a cor de pele e as feições reservadas e profundas do Médio Oriente (tal como uma boa parte dos portugueses, aliás...) e é costume olharem para ele de lado nos aeroportos dos Estados Unidos. Tenho outro primo que é mulato. A minha irmã tem os olhos rasgadíssimos como as orientais mas a figurinha um pouco esquiva de uma cigana húngara na juventude... E por aí fora.


Entre as personalidades públicas portuguesas, também há algumas que, definitivamente, não têm ar de portugueses, começando pelo Primeiro Ministro que é o político com menos cara de português que alguma vez tivemos. Tanto Durão Barroso como António Guterres eram infinitamente mais portugueses. Consigo imaginá-los saindo da praia, abrindo os porta-bagagens do carro, onde estão lancheiras de vime de onde retiram rissóis de bacalhau (e respectivos palitos para o after-meal) que distribuem pela família. Consigo pensar neles a distribuir amigáveis piparotes pela criançada e a discutir com as bem-amadas mulheres nos passeios dominicais de carro. Consigo vê-los de bandeirinha futebolística em riste. Têm, enfim, um certo ar de português.

Foi o rosto do Primeiro Ministro actual que me levou a equacionar o problema sobre outra luz. Porque é que o PM não parece português? Tendo em conta que o símbolo do Homem Tuga é o Zé Povinho, não se pode dizer que o Engº Sócrates possa ser considerado um seu descendente simbólico...  Atenção que não estou a falar das roupagens, nem pensar, até pelos anteriores exemplos dados. O que distingue o PM, para além de um bom aspecto congénito que, quer se goste dele ou não, é inegável e desconfio que foi o que lhe deu metade dos votos, é o seu ar ad aeternum optimista. Quando se pensa no português, pensa-se em alguém cinzentão, saudoso, e, sobretudo, aflito. Quando perguntaram a um empresário muito viajado com negócios em Portugal (vide aquelas revistas de avião) o que caracterizava os portugueses, ele respondeu "um certo olhar triste", o que, embora poético, não deixa de apontar para o eterno fado nostálgico da melancolia.

Outro homem que não tem ar de ser português é o Miguel Sousa Tavares. Primeiro, tem tão bom aspecto que não tem medo nenhum de ser negligée e daquele olhar "estou-me nas tintas para vocês todos e ficando de saúde" ao contrário daquela absurda necessidade de aprovação submissa tão cauda da UE; depois, porque tem uma herança genética materna que arrasa qualquer um, abençoada sejas Sophia. Como corolário, escreve umas opiniões que demonstram que também não tem medo de dizer o que pensa (vide crónicas do Expresso). Só Deus sabe como foi casado tanto tempo com uma senhora moralmente tão conservadora e exteriormente tão pãozinho sem sal como a Laurinda Alves, mas, enfim, errar é humano, arrepender-se e arrepiar caminho também.

Voltando à vaca fria - aproveito para dizer que ainda ninguém me soube explicar esta expressão! - é muito complexo caracterizar fisicamente um português. Naqueles postalinhos da Unicef, onde há crianças de mão dada a dar a volta ao Globo, facilmente se percebe que a criança alta e de socas de madeira é a holandesa, que o miúdo de pele café com leite e de sombrero é o mexicano, mas o português é quem? Mesmo os judeus, tradicionalmente apátridas, arranjaram maneira de se distinguir, sobretudo se forem ortodoxos. Os portugueses devem ser o único povo que bem podia ser outra coisa qualquer. Embora Gabriel garcia Márquez fale de "pestanas portuguesas" que suspeito serem aquelas longas... longas...

E, no entanto, quando estamos noutro país, qualquer português reconhece outro só de olhar para ele. Ou não é? Mas eu diria que isso não advém tanto de características morfológicas, nas quais está mais que provado que somos um imenso caldinho de raças (uns mais que outros, conforme elas estão mais ou menos geracionalmente longe) e ainda bem que assim é!, mas da tal expressão no olhar. Subjectivo? Claro que sim. Outra coisa não se esperaria de gente multiracial.

Nos anos 50, um dos nossos antropólogos - Jorge Dias - debruçou-se sobre as " Características do Ser Português", um texto que, apesar de polémico e discutível nunca foi, até hoje, rebatido nem actualizado por outro estudioso. São uma data de páginas interessantíssimas, todas elas sobre o fundo temperamental, o que, enfim, constitui a persona portuguesa. Nem uma só palavra sobre características físicas. Como as podia ele fraccionar de modo comum?

Décadas antes, outro estudioso - Filinto de Figueiredo - compilou as "Características da Literatura Portuguesa". Mas que me conste, ninguém achou, ainda, um denominador comum para o look português. Não vale dizer que as senhoras têm anca larga e os senhores têm bigode farto, porque o último foi mais apanágio de uma geração que outra coisa e a primeira pode acontecer em todo o mundo (ide à Martinica, ide e espantai-vos!).

Portanto, não me parece grave dizerem-me que não pareço portuguesa. Na verdade, ninguém descobriu ainda o que isso é!