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Saturday, August 4, 2007

Eu Gosto é do Verão

Parece que chegou o Verão. Quase não se dá por ele, especialmente em certos dias brumosos, feios, encapotados e em que mais apetece, ilha por ilha, emigrar para a Sardenha ou para a Córsega ou - caso o desejo de sol seja muito - para S. Tomé.


A maior parte das pessoas (que não eu, escusadamente acrescento, porque “a maior parte” nunca me inclui e é com um desgosto escolar que o digo...) está de férias ou a contar os dias que faltam para as mesmas. As férias são a vingança anual do povo. Depois, já mais apaziguado, e quase “cansado da pasmaceira que é estar sem fazer nada” e dos “dias em família, torrando ao sol”, pode voltar ao trabalho.  Por esta razão, não se compreende porque é que a Natureza, geralmente cooperante, se mostra, este ano, tão antipática, a pôr a língua de fora. Isto só a nós é que nos chateia, porque os turistas (os poucos que temos, que são todos velhos e do Norte e, portanto, dispostos a pensar que estão nas Caraíbas) andam sempre de belo calção, mostrando a alva perna. Até dá jeito que o sol não seja como o sol mediterrâneo, para não queimar a frágil pele idosa e passível de tonalidades encarnadas perigosas.


Férias sem sol de jeito são especialmente cruéis para as mulheres. Anda uma mulher a preparar-se afincadamente, depila daqui e dali, compra creme anti-celulítico, faz dieta, inscreve-se no ginásio, corre a avenida toda ao fim da tarde e até sobe a estrada até à Santa, maldiz os nove meses em que comeu, bebeu, fumou quanto quis – que é o mesmo que dizer, os nove meses em que viveu normalmente - , faz pedicure por causa da sandália, compra um bikini novo, porque o bikini é melhor que o fato-de-banho já que bronzeia o estômago mas é preciso que seja um bikini que estilize a figura e aperte os papos da anca e não deixe sair os papos da barriga, e ainda, se possível, levante e/ou encha o peito ou o rabiosque de quem o tem descaído (o tempo que se perde e as viagens que se fazem para achar estas duas peças!!!). Finalmente, lá acaba por ir à praia, franzindo o nariz porque não há muito sol e o efeito não é tão espectacular como se esperava porque, enfim, não há público suficiente!  Profundamente injusto, o mundo. O mundo é a ilha, claro está. Felizmente, logo se anima, se há amigas por perto. As amigas na praia servem, fundamentalmente, para que a mulher se certifique de que a sua Operação-Verão foi bem sucedida (“Ai, querida, estás tão gira! E muito mais magra! Esse bikini fica-te mesmo bem! Onde arranjaste? Eu procurei uma coisinha assim imenso tempo!” ; “Mas tu também estás espectacular! Que segredo é o teu? Gosto imenso do teu novo corte de cabelo! Estavas a precisar de mudar! Assim estás muito melhor!”), e, não menos importante, para cortar na casaca de todas as outras mulheres. Atenção que isto não é por mal, evidentemente. Tão somente o fazem porque essas criaturas – as outras – não sendo amigas, são gordas (ou, se forem como eu, esqueléticas e desengonçadas), certamente fizeram esforços desumanos para serem assim (ou será que são doentes? “Sim, porque eu já ouvi dizer...”), e vê-se logo que estão mesmo a tentar chamar a atenção com aquele andar e aqueles olhos e aquela saia horrivelmente curta. Blargh. Devia ser proibido.


O Verão sem sol também é duro para os homens. Não há a possibilidade daqueles raios brilhantes como relâmpagos a faiscar nos carros fenomenais que se compraram, que vão dos 0 aos 250 km em poucos segundos, para impressionar os amigos, para fazer inveja aos vizinhos e para dar status. São carros completamente inúteis num sítio circular, curvadinho e centrado como é uma ilha, mas isso não interessa nada, porque o carro não foi adquirido para andar. Um carro não é para andar, eh eh eh, que noção! Um carro é para mostrar ao pessoal. Além disso, sempre se ouviu dizer que as mulheres gostam de homens com carros assim possantes (quem inventou esta estupidez gostava eu de saber?).


De qualquer modo, com sol ou sem sol, sempre há a possibilidade de dar largas ao tuning: faróis de cores, autocolantes, verificação das molas dos estofos (porque nunca se sabe se, em dias de sorte, o carro vai ser mais útil parado do que a andar...) Sobretudo,  pôr a música em altíssimos decibéis para chamar a atenção das miúdas, enquanto se ajeitam os óculos de sol -comprados nas barracas das festas- com a ponta do dedo indicador, e se baixa o vidro da janela do carro, devagarinho. Bonito.
Outro espécime é o surfista de Verão. Surfista que é surfista é-o todo o ano, e com maior razão no Inverno, porque ondas ferozes e boas é com mau tempo que se apanham. Mas nós temos essa especialidade gira que é o surfista estival. Cabelo todo wax, vocabulário cool, bronzeado e (quando calha) giro. Pena é que confunda surf com bodyboard e  não apanhe uma onda que seja sem se espetar. Podia ser interessante se fosse genuíno e, logo, não-sazonal.


Eu gosto do Verão, sinceramente. Adoro o sol. Tenho verdadeiro prazer em comer gelados (embora aí seja um pouco como a publicidade da OLÁ, passe a pub, gosto sempre). Agora, assusta-me é essa coisa de andarem por aí com campanhas de promoção da natalidade no país e no mundo. A natalidade sobe imenso no Verão, como se sabe, com as feromonas em alta e tudo o mais. Mas a mim parece-me que, com gente assim, já temos é pessoas a mais. 


Wednesday, July 4, 2007

O Choque Tecnológico


Vivemos numa época em que é (quase) tudo absurdamente fácil. Não nos damos conta disso porque estamos automaticamente programados para viver assim. As invenções e  esquemas novos que nos facilitam a vida entram depressa no nosso sistema e, passados uns meses, já nem nos lembramos como foi possível viver sem aquela tecnologia ou mecanismo.


Isto vem a propósito de um momento insólito que vivi recentemente. Vivo num condomínio, cujo portão nos permite a todos entrar para dentro do chão comum que nos leva aos nossos apartamentos, e esse portão funciona electricamente – carrega-se num botão e abre-se o portão; nada mais simples (e rima!). Acontece que a electricidade falhou. Algo que para os nossos pais (nem digo avós...) seria encarado como quase comum, mas nós maldizemos logo a EDA, as obras da Câmara, o Governo e a Assembleia (de notar que algumas destas entidades não têm absolutamente nada a ver com a falta temporária de electricidade, mas é extraordinário ver como são sempre metidas ao barulho sempre e quando falta qualquer coisa na vida de um cidadão).


Chegámos nós ao portão para sair de casa e, gesto automático, carregámos no botão. Não abriu. O pânico instalou-se. As vozes levantaram-se: “Não podemos sair; estamos presos em casa!”. A minha amiga lembrou: “Vamos saltar o portão!”, mas a vontade não era muita, porque é alto, complexo, e – obviamente - foi feito para que ninguém o saltasse… Só depois de analisadas várias hipóteses,  incluindo a solução Tarzan - saltar a varanda das traseiras (um risco físico muito pior do que saltar o portão, e susceptível de causar um ataque de coração à vizinha do prédio ao lado) e a solução Calimero – esperar, calmos e conformados, que voltasse a luz… - é que alguém (pronto, fui eu, podem bater palmas) se lembrou que devia haver uma chave do portão.


Primeiro, fomos ao portão confirmar que sim senhor, havia lugar a uma chave, não era de todo um portão ultra-hiper-extra-moderno, sem lugar para uma coisa tão corriqueira como um buraco de fechadura. Depois, ficámos com cara de palhaços (é o que somos…), porque não nos tínhamos lembrado do bom e velho método da chavinha na porta antes. Contemporâneos extravagantes! E agora, onde está a chave do portão?! Porque, evidentemente, nunca a tínhamos usado nem sequer dado conta da sua existência…


Este pequeno episódio doméstico não serve só para ilustrar que somos um pouco disfuncionais, coisa que, evidentemente, só interessa aos próprios. Serve, sobretudo, para dizer que neste mundo Moderno já ninguém se lembra do mais evidente. A tecnologia devia ser apelativa, sobretudo por poupar tempo para depois se aproveitar melhor a vida, mas, muitas vezes, impede as pessoas de pensar – não estaremos a ficar um bocadinho mais ignorantes com tanta facilitação? As criancinhas, agora, usam todas calculadora antes de saberem a tabuada, pelo que nunca a saberão; está fora de moda ensinar a gramática como deve ser, porque as regras gramaticais limitam a livre expressão (aliás, o erro, dependendo de quem vem, passou a ser considerado figura de estilo…).


 É fácil desculpabilizarmo-nos no mundo tecnológico – a culpa não é nossa, foi qualquer coisa na porcaria do sistema que falhou. E também posso culpar o computador porque, como diz um senhor que conheço, ele nunca há-de gritar a defender-se.


Pessoalmente, apesar de viver numa casa sem televisão, e de só muito tarde ter aderido ao telemóvel (e hoje não vivo sem ele, e tenho a firme convicção que me bastava mudar de número para mudar de vida… experimentem!), não posso conceber voltar atrás no tempo para aqueles dias sem as paredes que vomitam dinheiro chamadas Multibanco, sem máquinas digitais que fazem de toda a gente um grande fotógrafo e sem internet em casa que nos permite ser escritores ou músicos em potência, sem jogos virtuais, nos quais somos o Indiana Jones descobrindo templos e matando crocodilos, preguiçosamente sentados no sofá.


Às vezes, não há electricidade e uma pessoa pára. É obrigada a pensar de modo diferente. Até parece que usa uma zona adormecida do cérebro outra vez. 

Wednesday, February 14, 2007

O Planeta Azul e o Mundo Dentro Dele

O planeta Terra esteve sempre, constantemente, em mudança ambiental. Essa mudança faz parte do fenómeno que é a Vida – o que está vivo muda, transforma-se, ajusta-se, adapta-se como pode ou segundo o que as circunstâncias fizerem dele.


As provas dessa mudança estão presentes em mil e uma descobertas científicas, em achados arqueológicos que nos mostram um Ser Humano muito diferente de nós (já para não falar de tantas outras espécies; reparem como o ser humano é bem egoísta, puxa tudo para si!), em teorias evolucionistas e de selecção natural – enfatizando natural, nada de misturar Darwin com ideias sociais de superioridade racial – e noutras semi catastróficas.



Nestas últimas, encontramos quedas de meteoritos, épocas glaciais e outras de degelo – no fundo, brutais alterações climáticas ou choques com outros astros que levam a uma alteração demasiado rápida da Vida no planeta e, consequentemente, à extinção de várias espécies, algumas dominantes (como na época dos dinossauros).



Estou a dizer alguma coisa de novo? Não. Debito o que aprendi em Biologia.

O problema actual é que a espécie dominante é a nossa, a humana, e estamos a ver a vidinha a andar para trás... O outro problema é que o Homem pensa (enfim, nem todos, mas a espécie, que é o que pretendo referir aqui, pensa!), logo duvida. Descartes errou na frase.



A dúvida humana dos dias que passam consiste nisto: continuar a aproveitar hedonisticamente o planeta que tem, gastando-o enquanto pode, o mais que pode, sem se importar com o que aí vem ou com as gerações futuras (afinal, sabe-se lá se as haverá dado que até pode cair um meteoro na nossa rota de colisão ou haver uma terceira guerra mundial e algum world leaderfazer cabummmm nisto tudo...) ou, pelo contrário, ser generoso com os seus bisnetos e os bisnetos dos americanos, dos chineses, dos iranianos e da vizinha Miquelina, e começar já amanhã a fazer reciclagem de plástico, papel, pilhas e vidro, aderir ao Greenpeace, poupar água e propangadear as energias renováveis.



O Homem divide-se, assim, entre o egoísmo e a dádiva para com futuros seres que nunca chegará a conhecer... Está-se mesmo a ver o que é que a maior parte dos seres humanos faz! Claro que há honrosas excepções, perante as quais me curvo. Mas mesmo esses hesitam entre viver o momento e ser previdentes em relação a um futuro que lhes parece hipotético, mau grado a comunidade científica bradar aos céus que não é hipótese, é fato consumado se a malta persistir nesta trilha de autodestruição. Ah, mas nós, Édipos e Electras, bem sabemos que nada apela mais ao ser humano que a autodestruição, um pouquinho encapotada e infalivelmente trágica!

Claro que alguns cientistas também mudam de opinião como quem muda de camisa (não direi de cuecas, porque espero, sinceramente, que não seja o caso). Portugal quando entrou para a Comunidade Europeia achou que era muito feio ter baleeiros e caçar baleias nas ilhas dos Açores, porque a CE assim o dizia. Vai daí, em 1986 (no mesmo ano, portanto) passou a ser proibida a caça de cachalotes. Todos sabemos que os meios de caça eram ruralmente artesanais (botes a remos de sete homens, arpão manual, etc) e o número de animais caçados por ano tão ínfimo que não causava qualquer distúrbio ao equilíbrio ecológico. Nada que se compare à indústria norueguesa, muito menos à mega-caça japonesa. Ninguém morreu de fome por cá à conta desta proibição. Mas muita gente perdeu o espírito. Um homem do mar é um homem do mar e não é feliz em aventuras terrestres.


Portugal, no entanto, faz Aquacultura (fishfarming) em variadíssimos locais, empregando biólogos e até arquitectos, nessas redes onde tanto barco vai dar. É “o futuro da indústria”, pesqueira e de mariscos. É pena que seja também altamente condenável pelas associações ambientais internacionais, onde estão outros tantos biólogos marinhos, que consideram estas redes “aspiradores dos oceanos”, perturbadoras dos ecossistemas marinhos, focos de bactérias, redes assassinas de baleias e golfinhos, um perigo para a navegação, em suma, uma mentira global. Veja-se, por exemplo:http://oceans.greenpeace.org/en/our-oceans/fish-farming. Porém, enquanto a CE achar bem, fazemo-lo e com muito orgulho.



É que o mundo é uma construção política e o ambiente depende, também, do que nos fizerem acreditar que é bom para nós.



Aqui o nosso editor-mor da Reacção Cultural pediu-me para eu fazer o meu Perfil. Eu disse: "Claro que eu faço! Eu sou mulher-camaleão, adapto-me a tudo..." Mas depois pensei: "Ai, perfil, perfil... Não pode ser antes frente-a-frente?"

Friday, February 9, 2007

Os Generosos Avisos da Santa Madre



Sou contra proselitismos. Sou contra marketing disfarçado. Detesto que me inculquem coisas, sejam essas coisas ideias, conselhos (oh, as generosas pessoas que dão conselhos de graça!...), a margarina ou o detergente em promoção do hiper, a roupinha da moda ou qualquer política de opressão. Deixem-me pensar e agir por mim. Obrigada pela mãozinha, mas já sei que vem aí um braço agarrado.



Há semanas (repito, semanas!) que venho recebendo no correio uns papelinhos que me avisam - e este é o termo certo! - para votar "não" a 11 de Fevereiro, na questão da despenalização da IVG.


Apelam ao catolicismo (sabem lá se sou católica ou não...), ao desrespeito que é terem marcado o referendo para o dia de Nossa Senhora de Lourdes (sempre muito comemorado em Portugal, como sabemos; quem não vai em peregrinação daqui até Lourdes, França, ponha a mão no ar... bem me parecia!), aos 90 anos da aparição da Virgem que é a nossa mãe celestial e chora verdadeiramente por estes abortos que estas senhoras vão todas fazer quando as famílias fizerem este atentado brutal e cobarde contra os inocentes, relembram que a Virgem disse que "em Portugal conservar-se-á sempre o Dogma da Fé" (lá que os outros países  e outras fés caiam no Inferno não interessa aos santos... Portugal católico, sublinho católico porque há outras realidades dentro de Portugal que são esquecidas, está a salvo e sob a protecção da Virgem, enquanto não abortar indefesos!).


Este papel avisa-me que, para não decepcionar a minha "Mãe do Céu", devo também comprar um terçozinho, o Terço da Vida, para rezar ao menos uma vez antes do referendo e participar na grande súplica nacional a Nssa. Sra. de Fátima (de repente, já não é a de Lourdes, dando-se aqui uma elegante metamorfose para o produto nacional).


Muito me surpreendia se não se fizessem uns dinheiritos à custa disto... Realmente, a compra do Terçozinho da Vida vem a calhar. E, ainda, o livrinho ilustrado "O Rosário da Vida", tudo para que não mais se ouçam os gemidos dos inocentes por nascer e não mais corram as lágrimas da Virgem.


Claro que todos temos direito à nossa opinião. Martelá-la na cabeça dos outros é que já me parece absolutamente desnecessário. Ameaçá-los com o fogo eterno, dizendo-lhes que serão excomungados se votarem "sim", é abusar do poder eclesiástico e aproveitar-se do medo de alguns. Já nem falo da restrição de liberdade que tudo isto é.


Quanto à venda final, expressa no papelinho, não é de espantar... A partir do momento em que as Igrejas mais bonitas deste mundo passaram a vender postaizinhos, cruzes e imagens dentro do próprio local de culto, incomodando  a genuína fé de quem reza com a seringada de turistas a tilintar o dinheiro, passámos a um curioso espectáculo: nenhum(a) catequista pode explicar, hoje em dia, a uma criança o episódio de expulsão dos vendilhões do Templo por Jesus Cristo, já que a Igreja Católica chamou para dentro de portas os vendilhões e abençoou-os.


Os papelinhos que me metem no Correio têm, em mim, o efeito contrário. Se eu já era pelo "sim", por todas as razões e mais alguma, hoje sou-o ainda mais.

Friday, December 29, 2006

Trezentos e Sessenta e Cinco Dias por Estrear


Nunca fui daquelas pessoas que fazem resoluções de Ano Novo; aquelas pessoas que têm listas com objectivos a alcançar e dois meses depois já estão muito desiludidas porque as metas que impuseram a si mesmas já foram destruídas por uma mudança de rumo, pelas circunstâncias, por mil e um imprevistos que se atravessaram ou por pura falta de força de vontade delas próprias. Eu penso, à partida, que trezentos e sessenta e cinco dias são muitos dias novos à minha frente para eu decidir já hoje o que quero fazer em todos eles ou de mim mesma neles. Eu nem sei se amanhã vou continuar a querer o que quero hoje… E se quiser (fenómeno raro nos seres humanos, inconstantes por natureza!) é muito provável que tudo não dependa só de mim. Assim, com tanto dia em branco à minha frente, o que há a fazer é esperar o melhor e trabalhar para o resto (provérbio que fica melhor em inglês, porque rima: «hope for the best and work for the rest»). A verdade é que dias novos em folha temos todos os dias e não só o 1 de Janeiro. Ainda bem. 


Quando andava a tirar a Licenciatura, tive uma colega a quem os pais tiraram da Universidade durante dois anos porque, segundo as crenças deles, o mundo ia acabar antes do ano 2000, portanto era inútil as filhas continuarem a estudar, a aprender, a conviver, a sair de casa. Bem vistas as coisas, nem sei porque continuaram a alimentar-se. Mas isso fizeram. Fecharam-se em casa dois anos a fio. Quando chegaram à conclusão que o mundo não dava mostras de acabar, recomeçaram a viver, no verdadeiro sentido da palavra. Esta rapariga tinha dois anos de vida em atraso. E não estou a falar de estudos. Um dia perguntei-lhe (ela tinha muito bom humor, ao contrário do que se possa imaginar por este perfil de clausura) como é que as pessoas iam ser aniquiladas, segundo as ideias dos pais dela – se pensarmos um bocadinho, quando o Novo Ano chega a Lisboa (onde estudávamos) já chegou à Nova Zelândia há cerca de 12 horas, o que implicaria um processo divino muito lento e vingativo de destruição mundial, a meu ver… Ela disse que eles nunca se tinham questionado acerca disso.


Contrariamente a esta minha colega, o que mais faço é questionar-me. Isto não significa que sou nem melhor nem pior do que ela, mas sou, seguramente, diferente.


Não olho para o dia 1 de Janeiro como um dia especial; é tão importante como o 31 de Dezembro, porque estou viva e alerta em ambos. No entanto, é verdade que, se não faço resoluções de Ano Novo, páro sempre um bocadinho para pensar, não naquilo que gostaria de ter ou de fazer (isso ia parecer-me uma infantilidade sem nexo…) mas naquilo que fiz no ano anterior. Entro em balanço, como as lojas. Sobretudo, penso naquilo que aprendi pela experiência, no que interiorizei depois, nos erros que fiz também. Os erros são, afinal, rotas mal escolhidas. Felizmente, o bom das rotas é que podemos sempre virar de rumo; podemos é já não ir a tempo de ganhar a corrida… Mas também quem é que quer um troféu ? Era coisa para ficar a encher-se de pó e mais nada...


Agora é que este texto ia entrar na parte interessante e dramática – todos sabemos que as pessoas adoram um bocadinho de drama; o que não suportam é o tédio!... – em que eu vos contava o que tinha «aprendido» este ano. Mas não. Isto não é uma novela e eu tenho muito pouco jeito para contar histórias que não sejam sobre os outros. São os outros que observo (absorvo?) para depois os re-contar.


Como não me julgo tão generosa que dê opiniões sem que mas peçam nem tão sábia que conheça a melhor maneira de viver o próximo ano, posso só desejar-vos que se surpreendam com as coisas, que gostem de vocês e de quem vos rodeia e que o vosso tempo não se perca em inutilidades sejam elas de que espécie for, porque é o tempo o mais precioso que todos temos (e nem damos conta...). 


Monday, December 11, 2006

O Aniversário


Estamos perto do aniversário dele outra vez. Na verdade, no momento em que escrevo isto, ainda faltam umas semanas, mas - a avaliar pelo comportamento das pessoas - podia ser já amanhã. Já se vendem os bolos de Natal, há quem já tenha feito a árvore e o presépio, compram-se prendas e prendas e prendas (podia encher o resto da página com a palavra «prendas» que não fugia ao  tão falado espírito de Natal, não era?).


Uma vez, um padre católico explicou-me que estava provado que o homem Jesus tinha nascido em Março, mas que, por uma convenção eclesiástica, se tinha decidido celebrar o seu aniversário a 25 de Dezembro. Não acho mal. Muita gente nasceu num dia, foi registada noutro e celebra quando quer. Além disso, todos sabemos que as datas são convenções, e as tradições mais não fazem que assegurar à Humanidade a sua coesão. Com a continuidade de uma celebração, parece-nos que a nossa estabilidade continua, sentimo-nos mais seguros. Se, de repente, viesse agora um tipo dizer que o Natal era em Março, mandavamo-lo passear. Em Março, já temos a Primavera a despontar, obrigada. Não precisamos de um motivo extra de alegria.


Tenho a certeza que ele nunca pensou que isto ia chegar tão longe… «Isto» é a celebração do seu aniversário, naturalmente. Há 2006 anos atrás, a pregar no Médio Oriente sobre a paz e o amor universais e a possibilidade de redenção divina e de recomeçar a vida (não importava a sujidade que se tivesse feito, aos olhos da Humanidade), aposto todo o meu sangue em como nunca pensou que milhares de anos depois – ena, tanto tempo ! - iam celebrá-lo com um circo de luzinhas, fitas e bolas, peditórios para se dar aos mais pobrezinhos em nome dele (um pobre que era Rei… ou um Rei que era pobre… algo assim, a metáfora funciona, mas não quando quem a diz tem a barriga demasiado cheia, como costuma ser o caso), e prendas, prendas, prendas.


Atenção! Eu não sou contra o facto de darmos prendas. Acho uma ideia muito bonita ter-se escolhido uma época no ano em que toda a gente dá uma prenda a alguém que lhe é mais querido. É uma maneira (entre tantas outras possíveis) de se dizer  que se aprecia alguém. Mas, mais uma vez, levou-se a coisa longe demais e hoje são precisas variadíssimas prendas… Já ninguém se satisfaz com menos. Menos seria pouco. Menos seria depois ter de explicar à vizinha, aos amigos, no emprego que as coisas em nossa casa não andam bem… Que celebramos o aniversário dele com menos festa. Que, se calhar, nos apreciamos menos. Isto tudo, não sendo verdade (porque a alegria faz-se de risos e  a estima não se faz de dádivas materiais) passou a ser, porque se convencionou assim. Destrói a mensagem inicial de redenção e amor universal  - mas não faz mal, porque raramente nos lembramos dela; só serve de letra aos cânticos natalícios.


Outra coisa extraordinária são os enfeites da nossa celebração. Estamos atarefados a enfeitar a casa com neve artificial, com bonecos de neve, com a rena Rudolph, «the red-nosed reindeer» como diz a canção (!!!). Alguém, sinceramente, tem alguma memória infantil desta treta de rena americana? Fomos invadidos pela ideia do «White Christmas» e nem demos conta disso.


Há quatro anos atrás, o meu marido sugeriu-me que puséssemos um enfeite do Pai Natal a fazer surf. Eu disse que nem pensar, não era tradicional! «Para ti, não é, mas eu sou do Hemisfério Sul… Para mim, o Natal é na praia.»  Foi a primeira vez que pensei que o S. Nicolau também podia ser surfista. E é, para metade do mundo – uma metade na qual nós, Hemisfério Norte com a mania de todo poderoso, nunca pensamos.


Uma metade, não… Porque os judeus, os muçulmanos, os hindus, os budistas, e outros não celebram o Natal. Não é «a celebração universal». É uma celebração cristã. É ou começou por ser…? Penso que ainda é. O que o aniversário dele tem de bonito é que as pessoas sentem uma predisposição para serem mais generosas com todos os outros, pelo menos uma vez no ano, não importa porquê; e só por isso vale a pena celebrá-lo. Só por isso valeu a pena nascer um menino.


PS- Não escrevo os pronomes ou possessivos referentes a Jesus com letra maiúscula, porque não vejo porque havia um homem tão humilde de querer que se elevasse o nome dele num texto dessa forma. Assim, peço desculpa das eventuais ofensas que isso possa causar à Igreja Cristã, seja ela Católica ou Protestante (com letra maiúscula, evidentemente).