... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, April 6, 2006

A Vida Sob Outro Prisma



Nós, os que nascemos perfeitinhos (os que me conhecem estão a rir-se às fortes gargalhadas!) nunca pensamos como será ter uma deficiência, mais ou menos incapacitante. Incapacitante sobretudo porque o mundo onde vivemos não está estruturado para responder às necessidades de quem não tem a absoluta posse de todas as suas capacidades físicas ou mentais, nem a sociedade (palavra que geralmente usamos para nos referir a um mar de gente do qual nos excluímos elegantemente, sempre que nos é conveniente, mas na qual estamos incluídos de modo fatal) vê com olhos despidos de preconceitos os deficientes, os velhinhos esclerosados, os loucos – e agora, vejam lá, não façam a tolice de pensar que meto esta gente toda no mesmo pacote, como se fossem rebuçados de fruta.


Já sei que estou a usar uma data de palavras neste texto que ninguém gosta de mencionar... Já há alguns anos que vem sendo hábito não se chamarem as coisas pelos nomes (e só isto dava uma crónica completamente diferente que fica para a próxima) por um medo extraordinário das palavras. Quase tanto como o medo de olhar para as pessoas de frente que muita gente tem.


Há algumas deficências com que me deparei mais ou menos tarde na vida.


Só pensei como seria ser surdo – é quase indesculpável que me tenha ocorrido tão tarde - quando tive uma aluna surda. Nessa altura, dei-me conta de que era preciso articular muito bem as palavras (ela sabia ler nos lábios) e nunca falar quando estava de costas ou de lado, mas sempre olhando bem de frente para a minha turma. Para a minha turma, porque ela era parte da turma, não era uma alienígena que estava ali com a qual eu me tinha de me comportar como se ela fosse de Marte. Ocasionalmente, convinha repetir as coisas, sobretudo se a via franzir o nariz e os olhos, sinal de que estava com dificuldades. Era uma aula muito bem-disposta, como todas, mas foi uma aula para a qual nunca levei música porque confesso que não sei como ela iria reagir. Claro, talvez pudesse sentir as vibrações mas achei que era insistir numa diferença entre ela e os outros alunos, puxar por uma corda provavelmente sensível.


Igualmente, nunca pensei muito na cegueira. Havia um colega cego numa das escolas onde andei. Escrevia numa máquina especial, demorava mais tempo a andar pelas escadas com a bengala, tinha livros com sinais esquisitos – Braille, obviamente, mas quem se preocupava com detalhes desses na pré-adolescência? Fora isso, era um rapaz normal e entrava em muitas actividades. Às vezes, dizíamos disparates à sua frente. Coisas de miúdos que não pensam, como: “A Ana está ali, não vês?” Ele ria-se e dizia: “Por acaso, não vejo!”  ou “Dá-me a caneta vermelha”, sendo que lhe seria impossível distinguir a vermelha da azul, como é evidente. Mas tudo era feito entre risos e nunca houve uma ocasião de atrito ou de má-fé de que me lembre.


Podia continuar a enumerar situações. Isto a propósito de um artigo que li, em que uma escritora (Nancy Mairs), que sofre de esclerose múltipla, conta como vê o seu corpo degradar-se pouco a pouco. Vai perdendo as suas capacidades físicas num processo terrivelmente rápido; é ainda jovem mas o seu corpo está a tornar-se o de uma velhinha incapacitada. Diz ela que, ainda há poucas semanas, era uma mulher de saltos altos que dava conferências. Agora, anda de cadeira de rodas (e ainda bem que estas existem, caso contrário a sua locomoção era impossível) e a primeira coisa que vê do mundo, quando está numa multidão, são rabos. Juro que, depois de ler isto, passei a ter mais cuidado com os jeans que enfio.


Há uma passagem em que ela fala da sua sexualidade. Eis uma coisa da qual ninguém fala: a sexualidade de alguém que, por um motivo ou outro, está numa cadeira de rodas, é anão ou tem sete dedos numa mão e uma giga nas costas. Como ela diz: “Não é suposto os aleijados quererem sexo, muito menos fazê-lo.” São obrigados a uma castidade que não escolheram e que é, na maior parte destas situações, contra-natura. Estas pessoas não têm as hormonas em declínio. Nem sequer estão na menopausa/andropausa. Têm um corpo um bocadinho diferente e é tudo. 


Á conta disto, dei por mim a pensar nos variadíssimos adolescentes e adultos que há à minha volta de cadeira de rodas. Ou outra incapacidade física qualquer. Será que são inevitavelmente postos de parte do ponto de vista amoroso e sexual à conta disso? Se calhar, a maior parte das vezes são. Será que mais de metade disso não é mesmo preconceito nosso? Se calhar, é. Pois é.


Thursday, March 16, 2006

O Amor via Messenger



Confesso que, até há poucos anos atrás, não percebia nada do mundo virtual, vulgo internet, e do que se passa nele. Essas coisas de sites, blogs, conversas pelo messenger, chats, fóruns, buscas, e o diabo a fazer o pino (virtualmente, claro) eram-me de todo desconhecidas. Eu era uma info-excluída, que só sabia mandar e receber e-mails... Sim, porque isso de falar por messenger é recentíssimo (sobretudo para mim) e provocaria um ataque à minha bisavó, que nunca sequer entendeu como é que as pessoas da telenovela não conheciam as pessoas que apresentavam o telejornal (“Mas vocês não são amigos?”,  perguntava ela aos jornalistas, que tinham de lhe explicar que não, as telenovelas vinham de fora... “De fora? Mas não trabalham todos na televisão?” Enfim... Coisas modernas.). 


Agora, uma pessoa que está longe dos amigos, da família, do namorado tem o messenger. Acautelem-se, empresas telefónicas, a vida nao mais será a mesma! Agora, tecatecateca... e uma pessoa, em dois segundos, tem uma conversa amorosa ali à mão de semear. E custa menos (falo de dinheiro, e não de esforço, porque todos sabemos que a maior parte dos homens gosta tanto de escrever como de ir ao dentista... mas enfim, também lhes custa falar, pelo que não nos vamos meter por aí, que não adiantamos muito!)


Este messenger é um achado. Tem uma data de possibilidades. Quando uma pessoa não sabe mais o que dizer (ou quer dar mais emoção à coisa), junta-lhe um smile. Explico aqui aos pouco versados nestas coisas que um smile são aqueles bonequinhos todos giros que lá estão a fazer caretas, e sorrisos e caras de desenho animado tipo “gosto tanto de ti” ou “que raio queres tu dizer com isso?” ou ainda” estou triste hoje”. Dá imenso jeito! As mulheres, por natureza mais dadas a enfeitar as conversas, adoram enviar smiles. Os homens, não. De facto, os homens detestam smiles. É frequente os homens dizerem “não me mandes smiles, amor, que estou a fazer um download e isso faz crash ao sistema.”  Qualquer mulher sabe que ele não quer ser incomodado por umas horas quando lhe manda esta conversa. Um download pode levar toda a noite... Um homem esperto envia logo aquela bem pensada história do download. Uma mulher compreensiva (e ainda mais esperta) finge que não percebe.


O messenger tambem dá para usar microfone. Confesso que nunca usei. Parece-me um bocado ridículo, porque podíamos usar o telefone, se quisessemos ouvir a voz  do nosso amado (este palavreado do “amado” já é um bocado poético para conversas internautas, e ademais, pouco  moderno!...), mas admito que não seria tão barato. Todos sabemos que misturar amor e dinheiro é ainda menos poético do que misturar amor e internet... Na verdade, é, mais ou menos, como matar o amor à machadada. Por isso, vou passar de fininho para outro pormenor.


O que mais gosto no messenger é a possibilidade da webcam. Traduzo outra vez para os não utilizadores. É uma camerazita minúscula que passa a ser o objecto da nossa alegria porque mostra a cara de quem está a falar connosco, lá do outro lado do mundo (no outro computador, pois claro). Ás vezes, deixamos a webcam ligada. Verdadeiras e incontornáveis catástrofes podem acontecer nestes casos: o nosso interlocutor vê-nos com creme para as borbulhas, a lamber chocolate com os dedos ou a roer as unhas. É chato se o interlocutor for o nosso patrão. Sim, o messenger também serve para conversas de trabalho, por vezes. Pelo menos, eu utilizo. Isto para não falar daqueles momentos familiares em que temos o gato a saltar para cima de nós, o filho pendurado no nosso pescoço e o marido a passar de toalha enrolada (vá lá que estava de toalha!). E a webcam ligada, por azar. Por delicadeza, nem nos mencionam o facto.


A webcam, porém, pode ser gloriosamente venerada, sobretudo se estamos separados do nosso mais que tudo durante longo tempo. Vemos aquela carinha (o quadrado de felicidade proporcionado pelo messenger é ridiculamente minúsculo) e oh, que maravilha! Ficamos logo todos melados, sem descolar do pc.


Claro que também há os amores que começam e acabam na net. Esses são mais estranhos. Porque são amores sem aroma (o que seria essencial para mim,e calculo que para muitos... Como se pode saber se se gosta de alguém que nunca tivemos oportunidade de cheirar?!) e sem voz (aquela voz toda distorcida do micro nao conta!). Sem tacto, também. Sem gosto sequer. É um amor feito de palavras escritas e de uma visão distorcida pelos pixels. Mas, neste mundo, há tanta variante de amor como há pessoas. E eu também nunca afirmei que percebia nada de amores... e menos ainda da internet.

Thursday, March 2, 2006

Os Países "Desenvolvidos"


Estavam à espera que vos falasse do Carnaval, mas tenham paciência... É que no país onde, actualmente, estou a viver não se celebra o Carnaval e a coisa passou-me ao lado como se nem existissem balões de água e serpentinas. Isto não é inteiramente verdade, dado que há uma coisa vagamente carnavalesca na parte francófona do Canadá, a que chamam Mardi Gras. Portanto, até pelo nome, podem ver que o Carnaval do Canadá resume-se a uma Terça-feira Gorda.  E só existe no Quebéc, que nem é onde estou.


Carnavais à parte (e a minha vida à parte, que também não vos interessa), já acabou esse rito de fantasia e já podem deixar cair as máscaras. Foi a propósito de máscaras e fantasias que me ocorreu esta ideia sobre os países desenvolvidos.


Todos nós – vá lá, a maior parte, porque de certeza há-de aparecer um iluminado a dizer que nunca teve este conceito entranhado... – pensamos no mapa e, pelo que ouvimos veiculado nas notícias, pelo que aprendemos na escola, pelo que fomos adquirindo no convívio social ao longo dos anos, criamos esta imagem de um certo número de países que chamamos desenvolvidos por oposição áqueles que não o são (ou que o são em menor grau). Claro que há aqui uma interessante escadinha: um português, por exemplo, dirá que a França é um país desenvolvido (ou que os E.U.A. são um país desenvolvido, dependendo da conotação que cada qual entender dar à palavra). Já um cingalês, por exemplo, pode achar que Portugal é um país desenvolvido (escolho esta nacionalidade à sorte, porque na minha profissão deparo-me com muitas e esta situação já me aconteceu; eu cá nunca fui ao Sri Lanka e não sei como se vive por lá!).


Note-se que o “desenvolvido” pode vir seguido de uma adversativa “mas...” se não concordarmos com as posições político-humanitárias dos países em questão. O desenvolvimento não está só patente na economia, que se reflecte imediatamente na qualidade de vida da maior parte dos cidadãos – da maior parte, sim... porque não têm todos carros e não falta gente a dormir na rua – mas também no grau de liberdade de pensamento dos mesmos, na igualdade de oportunidades, etc, e na tolerância que se manifesta para com outras culturas. Isto posto assim, não sei se estes países que “admiramos” serão tão desenvolvidos, com o maior respeito que tenho por todas as culturas... E apontando o dedinho acusador para nós próprios também.


O que mais me faz impressão nos países desenvolvidos é a falta de conhecimento que têm acerca das culturas que eles julgam ser inferiores à sua – a não ser que as achem “giras e muito típicas” para umas feriazitas a contar aos amigos. Assim, o Canadá desconhece  completamente o que será isso de Portugal (Açores então, nem falemos nisso!) e frequentemente pessoas bem intencionadas me perguntam se posso tirar-lhes dúvidas acerca da gramática espanhola. É preciso explicar que Portugal é um país, com língua própria e tudo, ahn? Obrigada. Já sei, os senhores vão dizer-me que a vossa família no Canadá conhece muita gente que sabe tudo sobre Portugal. Como sabem, as comunidades emigrantes, seja de que país forem, vivem em bairros todas juntinhas... Se sairem daquelas zonas, entram num mundo onde Portugal, a Ucrânia, o Paquistão já não existem. Eu vivo onde Portugal não existe.


Outro dia, na zona internacional do aeroporto de Toronto, uma senhora hispânica perguntava ao funcionário se era ali que saíam os passageiros do voo de Cuba. “Isso depende”- diz ele -“Cuba... isso é no Canadá?”. “Não, não! Cuba... a ilha. Sabe, o país!”, responde a senhora, cheia de paciência. “Sei lá, minha senhora, nunca ouvi falar.” “É um país.” “Tem a certeza? Se é um país qualquer, a senhora está no sítio certo; se é um sítio remoto do Canadá, tem de ir para outro terminal.”


A ignorância pelo que consideram, seja de que modo for, inferior... Lamentável. Não vejo como a ignorância corresponde a desenvolvimento. Devia estar a dormir quando passaram a ser sinónimos.


Em Portugal, agora que somos, em tanta coisa desenvolvidos, começamos a comportar-nos assim... para com quem achamos inferior, claro. Porque para com os que nem sabem o nosso nome e onde ficamos no mapa, temos uma reverência canina. Só falta abanarmos o rabo e fazermos ão ão. Nem sei bem qual o respeito que perdemos mais: se aquele que tínhamos por nós mesmos ou que devíamos ter pelo próximo. 


Thursday, February 16, 2006

A Fúria do Dia dos Namorados


Deve haver poucas coisas mais enervantes e meladas do que o Dia dos Namorados para alguém que está sozinho. Eu, quando era miúda (pausa para aqueles que me conhecem se rirem porque só tenho 1,60 m e peso a condizer) nunca se ouvia falar neste dia. Depois, os profes de inglês começaram a envenar-nos na escola com o Valentine’s Day e outras tolices anglo-saxónicas, como se S. Valentim fosse inglês! Mais tarde, vim a descobrir que era um  romano que desafiou um Imperador cuja lei ditava que os soldados fossem todos solteirinhos (e não tivessem amantes) para melhor desempenharem as suas funções. Enfim, não nos alarguemos. O certo é que, subitamente, deu-se uma avalanche comercial e não passou a haver ano em que não florescessem coraçõezinhos, florzinhas, cupidozinhos, bombonzinhos, peluchezinhos, cartõezinhos e iloveyouzinhos em todas as montras. E nós, paspalhos consumistas, lá vamos.


Uma pessoa sem par sofre imenso neste dia. Uma pessoa com par também.


O “sem par” não consegue fugir. De todo o lado saltam coisas cor de rosa. O mundo inteiro, que ainda ontem se odiava, hoje é vermelho de paixão. Uma pessoa sente-se até infeliz! Sempre conviveu tão bem com a sua solidão voluntária, e, de repente, neste dia malfadado, sente-se culpado por não ter uma boca a quem dar um beijo obrigatório. Se vai comprar o jornal, é logo atacado com a pergunta:“Então, não quer levar uma prendinha para aquela pessoa especial?”; “Não, eu sou ímpar.” É logo olhado com estranheza, talvez até piedade. Ímpar a 14 de Fevereiro é quase doença terminal. Na rua, os casalinhos são como cogumelos: aparecem às centenas! Onde andava esta gente escondida nos outros 364 dias do ano?! Se vamos aos restaurantes, querem acender-nos velinhas! Velinhas, santo Deus! Para alumiar a nossa miséria, certamente. E a rosa vermelha na jarra em frente, e a musiqueta que perguntam se queremos ouvir. E o desconto era só para casais! Vamos, então, ao cinema para fugir de toda essa casta conspiradora. Piorou. Somos os únicos que foram ali ver o filme. O resto são parzinhos que podiam ter ficado em casa –qual é a graça de tanto apalpanço em público? Ainda não percebi, mas também compreendo que quando não se tem casa nem carro, uma pessoa tem de dar largas à imaginação toponímica – e mal vão as luzes abaixo, temos dois filmes à escolha. Uma pessoa acaba o 14 de Fevereiro com vontade de atirar setas ao Cupido.


E o ser “com par”? Não pensem que está melhor. O “com par” sofre da obrigação social de comprar uma prenda. É tradição. Definitivamente, começou há coisa de 10 anos. Está profundamente enraízada na nossa cultura, como se pode verificar. Se se esquecem as prendas, há verdadeiras catástrofes no seio de certos casais: “O quê?! O Miguel não te ofereceu nada?! O Filipe ofereceu-me flores, 5 rosas! Ah, eu, se fosse a ti, mostrava-lhe como é! Ai, eu castigava-o bem!” Ora, todo o homem sabe como uma mulher insatisfeita é mestra em perfídias.


 Por outro lado, as prendas nunca são do agrado de quem as recebe, a julgar pelos comentários pós-prenda com os/as amigos/as: “Pá, não gostei nada dos boxers com diabinhos que a Maria me ofereceu. Nem sei se ela espera que os use? Achas que espera?”, diz o Manel com uns boxers na mão que envergonhariam o avô dele, que são para ele do maior desconforto, e que a Maria está convencida que ele adora (porque a dona da loja disse que todos os homens adoram, que o marido e o filho dela – que nunca os vestiriam- adoram) . O Manel só os há-de usar, se achar que isso convence mais depressa a Maria a tirá-los – isto, se por acaso, ainda estiverem na fase em que precisam de estar com esta jogatana toda...


E eu, que sou firmemente contra datas que nos fazem gastar dinheiro à toa, que sou ainda mais obtusamente contra dias para demonstrar o nosso carinho por alguém, que sempre achei uma denguice melada e espalhafatosa este dia, que não preciso que me ofereçam presentes, antes quero abraços, obrigada, guarda lá isso, esquece essa treta, a quem irritam as beijoquices excessivas, e que fico, sobretudo, irritada, com o aproveitamento comercial que se faz de tudo... até eu, confesso, culpada, que me lembro ainda de um cartão piroso  que me deram neste dia, na escola, há imensos anos atrás.   


Wednesday, February 1, 2006

250 anos de mistério – Mozart

É ridículo escrever sobre música. Podemos escrever sobre quase tudo, mas escrever sobre música é como escrever sobre cheiros ou sobre sensações tactéis. Parece-nos uma troca de sentidos inútil, porque as palavras nunca poderão, por mais transportadoras, transmitir o que transmitem os sons. Que desperdício estou eu aqui a fazer? Posso, porém, escrever sobre um músico, especialmente se hoje (27 de Janeiro) se celebram 250 anos do seu nascimento e se esse mesmo homem e esse mesmo músico – porque entre um homem e o artista que ele é ou foi há geralmente uma diferença abissal – continua a ser um mistério muito atraente para a Humanidade.


Quando, na década de 80, surgiu o filme Amadeus, o mundo pensou que tinha achado uma resposta confortável para o mistério de Mozart. Deu-se uma popularização - passou-se a falar de Mozart em todos os lugares, fora dos círculos operáticos e sinfónicos, fez-se uma música pop com o seu nome que teve um sucesso estrondoso. O filme de Milos Forman – e a peça de Peter Scheffer, que esteve em cena em muitos países – mostravam um Mozart genial...e também infantil, caprichoso, sem respeito pelas leis, com um gosto excessivo pela materialidade, sexualmente irreverente ou mesmo invulgar (se é possível atribuir julgamento), encantado por tudo o que fosse novo e brilhante e facilmente desencantado com a mesma facilidade, cheio de pequenos artifícios para fugir às suas obrigações. Um homem (ou um rapazinho crescido?) com quem provavelmente não simpatizariamos muito, e por quem todos, sem excepção, mesmo os seus rivais, se quedavam fascinados, quando ele mostrava as suas criações, que pareciam fluir dele, como de uma torrente fácil e inesgotável. Simples e encantadora. Um jogo de crianças. Um riso.


No entanto, poucos anos depois, já fomos inundados com variadíssimos estudos sobre Mozart – biografias reactualizadas, ensaios, a nova edição do catálogo Köchel (que cataloga as obras de Mozart, ainda que tenha sido, como hoje sabemos, fundado sobre premissas erradas), fundações Mozart, e mil e uma parafernálias... Fá-lo-iam rir ou orgulhar-se?


O certo é que a maior parte destas novas ideias sobre Mozart tendem a desfazer um pouco o mito de menino leviano criado anteriormente. Focalizam-se nas figuras do pai – na sua intensa disciplina, que Mozart respeitava e a quem obedecia... e no modo como, subtilmente, se desviou deste, criando a sua autonomia firme, e dando-lhe mil e uma razões para as suas escolhas, sem, porém,  admitir contrariedade; também na figura de Constanze Weber, essa mulher anónima, que Mozart descreveu como a Cinderela dos Weber e que, em toda a História, sempre foi tida como a calculista que soube enganar o rapazinho genial. Tudo parece indicar, afinal, que Constanze, tal como a mãe de Mozart com o seu pai (e aqui tínhamos pano para muitas camisas, porque é certo, talvez, que cada qual procura o berço que deixou) soube ser a sombra que se adapta a esse marido tão ofuscadoramente brilhante. Uma sombra tão necessária que Mozart parecia necessitar dela como da luz vital. Já quanto ao “rival” Salieri – expressão estranha, hoje, por nos parecer, ouvindo as composições de um e de outro, que não poderiam ser rivais - , o mito da sua conspiração contra Mozart já caíu ... em duas décadas.


Em boa verdade, muitos mitos já caíram. O seu Requiem final não foi feito de modo tão misterioso como se disse, mas por uma encomenda de um viúvo, perfeitamente identificado; uma infeliz coincidência. A Cosí Fan Tutte era um recadinho à irmã de Constanze, por quem Mozart teve uma paixão prévia, antes do amor pela Cinderela dos Weber.


 Mas o mito maior, o único verdadeiramente digno de ser assim chamado (tristemente, vivemos numa época em que é necessário destrinçar o Mito da coscuvilhice) esse, ainda prevalece. Podemos conjunturar o que quisermos sobre a vida e a personagem de Wolfgang Amadeus e encontrar mil explicações. Tudo é inútil. São apenas palavras. A verdade, essa nunca a saberemos. Mas a sua música, essa continua sempre viva, inexplicável, mágica, intensa e poderosa. Simples, também. Como o riso das crianças. O único mistério de Mozart em que vale a pena mergulhar. 

Sunday, January 15, 2006

Eça de Queirós: Uma perspectiva tradicional da mulher num homem moderno

Intro: O texto seguinte foi, antes de ser publicado no Site "A Diáspora", apresentado por ocasião do seu IV Aniversário em Janeiro de 2006 em Ontario, Canadá, onde eu leccionava e vivia na época.




Dado que o tema escolhido pela adiaspora.com é “Tradição e Progresso”, tentei escolher algo para vos falar que dentro, da minha área – as literaturas, línguas e culturas -, se integrasse neste tema. A escolha recaiu, assim, em algo que me pareceu um pouco mais polémico e, por isso mesmo, de maior interesse.
Habituámo-nos todos a pensar em Eça de Queirós como um homem progressista porque Moderno. Moderno, entenda-se inserido dentro da Modernidade que se define, sobretudo, como processo de ruptura em relação aos valores tradicionais. Claro que a Modernidade é um conceito por demais discutido e complexo para o analisarmos aqui e envolve em si mesma diversos períodos, sendo o último deles o pós-modernismo.


Definindo-se a si mesma como ruptura, a Modernidade tem também de considerar os valores-modelo com os quais procura romper. Esse modelo – dito tradicional, por oposição ao moderno progressista - subsiste ainda, de algum modo. A longo prazo, será o modelo moderno que se tornará tradicional, visto que ele contém em si, inevitavelmente, o gérmen da sua própria neutralização em processo cíclico.


Assim, o romper com a Tradição não é nem completo nem desejável. A Modernidade vaporizar-se-ia sem o suporte do modelo anterior. Há uma ponte entre a Modernidade e a Tradição – deste modo, se constrói o progresso, sem estagnação, a Modernidade nascendo da revolta contra a Tradição e respirando ainda do seu perfume e a Tradição vivendo ainda como o fundo do quadro onde está a Modernidade em primeiro plano.


Como homem Moderno e ainda como introdutor e expoente máximo do Realismo em Portugal, Eça surge-nos como um dos baluartes progressistas no Portugal do século XXI. Rompendo com o predomínio sentimental romântico, os seus escritos pretendiam não ser apenas uma representação do real da nação mas alertar para os seus aspectos mais problemáticos e apresentar-lhe um novo caminho por onde seguir. A sua veia de censura era uma atitude essencial, visando a regeneração. Este espírito estendia-se, aliás, a boa parte da chamada Geração de 70 da qual ele fazia parte.


Foi com outro companheiro da Geração de 70 – Ramalho Ortigão – que Eça escreveu As Farpas, com o mesmo propósito pedagógico e reformista. De entre os temas mais relevantes que podemos encontrar nestes textos teóricos de intervenção estão as questões, frequentemente interligadas, da educação e do sexo feminino. De salientar que a crítica à formação das jovens meninas, futuras mulheres portanto, era exclusiva às classes burguesas e aristocratas (as únicas a receber instrução na época) e exclusiva também às jovens da capital.


Esta educação era deficiente, segundo Eça (veremos em que termos), e causadora de muitos males e doenças futuros, tornando as jovenzinhas mulheres “vocacionadas” para a fatalidade (a fatalidade deve ler-se aqui sob a forma de adultério – outro tema caro a Eça – prenúncio de degradação pessoal, social e familiar).


Vamos, pois, debruçar-nos brevemente sobre alguns aspectos deste farpeamento social levado a cabo por Eça – podem encontrar as Farpas de sua autoria coligidas na obra Uma Campanha Alegre – e igualmente procurar correspondências no seu universo ficcional, nomeadamente n’O Primo Bazílio, e na sua personagem feminina principal, Luíza. Vão dar-se conta, comigo, que a visão queirosiana é um pouco misógina, tradicionalista em relação ao modo como a mulher devia ser educada e em relação às suas responsabilidades perante a sociedade, a família (todos esses círculos supra-individuais que a rodeavam no século XXI).


Eça acreditava ser vital debruçar-se sobre o problema da educação feminina, não só pela problemática que ela em si mesma representava mas sobretudo porque “a valia de uma geração depende da educação que recebeu das mães” (Uma Campanha Alegre, 322). Ora, se “a acção de uma geração é a expansão pública do temperamento das mães” (ibidem, 322), preocupava-o superiormente a formação das jovens do século XIX, mães e educadoras da geração seguinte.


A menina lisboeta de 1870 sofre de numerosos males, tanto de ordem física como psicológica e moral, segundo a acutilante pena queirosiana. Aliás, o seu próprio aspecto é enfermo (olheiras fundas, uma palidez de cera, uma magreza de tísica romântica) e lhes revela o sentir mórbido, devorado por apetites romanescos e sem força vital, decisiva. Por outro lado, é esse mesmo sentir que contribui para a sua própria condição física, pelo que podemos afirmar que estamos perante uma simbiose maligna, muito comum nos estados psicossomáticos.
São, regra geral, jovenzinhas anémicas, o que se deve, sobretudo, à sua pobre alimentação, pouco racional, rica apenas em sobremesas. Ao invés de peixe, hidratos de carbono e carne, nutrem-se de açúcar continuamente... ou antes, desnutrem-se, visto o açúcar e as natas não constituírem verdadeira fonte alimentícia.
Esta deterioração sanguínea tem como resultado um corpo débil, padecendo de cáries e dispepsia, mas também, segundo Eça, uma “alma amolecida”, pouco enérgica, de onde se conclui que a gulodice tem uma influência nefasta no carácter. Ramalho Ortigão, que amiúde partilhava das opiniões queirosianas, concordaria com ele neste aspecto na sua Farpa sobre “Alimentação”, acreditando que, se as jovens meninas se alimentassem racionalmente de carne, deixariam de sonhar com os poetas românticos e adquiririam o vigor que as prepararia para a futura maternidade.


Logo, a concepção da mulher começa por ser a de ser especificamente talhado para o fim último da maternidade. A maternidade não se apresenta à mulher como um dos seus muitos papéis, mas como o único a desempenhar na sua vida, para além, é claro, do de companheira do homem.
Na crítica à alimentação, Eça aproveita para criticar o ambiente da capital portuguesa, que as predispõe ao pecado da gula: “Lisboa é uma cidade doceira como Paris é uma cidade intelectual. Paris cria a ideia e Lisboa cria o pastel.” (Uma Campanha Alegre, 325)
Salvaguardando esta ironia, tão própria do autor, não há que negar a profusão de confeitarias que abundavam e abundam na capital.... e nas páginas dos seus romances (Baltrechi, Confeitaria Lisbonense, Ferrari ) e a importância dada aos bolos (relembremos a cena dos Maias, do passeio a Sintra, em que era forçadamente necessário levar queijadas... a maneira como o capítulo acaba , no bucolismo do local “no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbindo, exclamou: Esqueceram-me as queijadas!” (Os Maias)


De resto, Luíza, d’ O Primo Bazílio – a personagem ficcional que escolhemos por o próprio Eça considerar que essa “burguesinha da Baixa” representava todos os erros educacionais que uma mulher podia sofrer e, por isso, caiu na fatalidade do adultério e de um casamento falhado (afinal, toda a desgraça que podia cair sobre uma mulher, na perspectiva queirosiana) – é o protótipo da senhora que pede ao marido que não esqueça de lhe trazer bolos do Baltrechi, romances do livreiro e um chapéu que ficara na modista. (O Primo Bazílio, 18). Isto para além de dar os seus famosos chás ao domingo, a que não faltam os bolinhos de ovos. Porém, tal conduta já é aceitável e verdadeiramente faz parte dos deveres de uma senhora burguesa para com os amigos de seu marido. Isto é: parte dos deveres da “fada do lar”. Diz-nos o Conselheiro, bom amigo da família e frequentador dos seus chás, que a Luizinha era um “anjo louro”, pela sua submissão e delicadeza e pela sua atitude em relação ao marido: “Quem melhor [...] bom amigo que o marido que a alma [me] escolheu?”
Como burguesa lisboeta, Luíza passava os dias em casa. Já na sua crítica à educação da jovem, Eça apontava a falta de exercício, de sol e de oxigénio (em casas que nem possuíam quintal e que dependiam das janelinhas para alargar horizontes) como uma causa de sobreexcitações nervosas, de melancolias profundas e de cloroses físicas (as “bonecas de cera” do século XIX).


Aqui, há dois aspectos importantes a considerar – se é verdade, por um lado, que a falta de todos estes factores leva a problemas tanto físicos como emocionais, não é menos verdadeiro que este tipo de problemas não é exclusivo do sexo feminino. Um erro longo tempo perpetrado, mesmo no ec. XX, quando, nos primeiros tempos da Psicanálise, Freud julgava serem as mulheres as únicas a padecer desse mal. O que está em jogo é o tipo de vida a que as mulheres podiam entregar-se, visto a maior parte das actividades lhes estarem vedadas... Essa mesma vivência podia conduzir a maior incidência de patologias.


As meninas criadas em quintas, segundo Eça, tinham, por outro lado, outras condições, naturalmente. E, junto com o florescimento corporal, o marido destas meninas teria a garantia da inocência... As meninas burguesas, fechadas em casa, passavam o tempo lendo os jornais e metendo-se nas conversas dos adultos, pelo que aos quinze anos diziam “com um desdém que espantava e fazia recuar, que estavam cheias de experiência” (Uma Campanha Alegre, 336).
O próprio passo de uma menina burguesa (habituada às pequenas voltas das lojas e das igrejas) é incerto, diz Eça. O hábito do sofá dá-lhe as detestáveis posições lânguidas, que não devem admitir-se numa senhora.
Já a miss inglesa (Eça admira muito a educação e a formação britânicas) tem uma firmeza no caminhar recto, dado pelas suas duas horas de marcha diárias, questão de higiene e constante disciplina. As misses sentam-se sempre direitas; as meninas da capital adoptam posições de rola, acostumadas às almofadas, posições despudoradas que uma protestante, envergonhada, nunca adoptaria.


A falta de exercício leva à idealização, a um excesso de inquietação interior, a romanescas enfermidades quase sempre inexplicáveis. Eça estava convicto que o casamento era um bom remédio para acabar com estes problemas, visto que, segundo ele “ Toda a mulher que não se casa, idealiza” (Uma Campanha Alegre, 397). Eis o outro ponto da função última da mulher enquanto elemento social: o casamento.


No entanto, o casamento acabava por nada trazer de novo à vida destas mulheres, visto que a vida que levavam em casa dos maridos era uma cópia arrastada da que tinham levado em casa dos pais. Todas as questões sociais lhes estavam vedadas, e, segundo Eça, muito naturalmente, dado que as mulheres não tinham capacidade nem intelectual nem emocional para lidar com estas. Deviam dedicar-se, pois, ao mundo doméstico. Mas, as burguesas até nisso falhavam...


Eça referia-se-lhes como desconhecedoras de tudo o que dissesse respeito à ciência doméstica (dado que a cozinha e as limpezas não faziam parte das obrigações das burguesas, tão pouco das aristocratas). No entanto, tanto ele como Ramalho Ortigão eram da opinião que os conhecimentos indispensáveis à mulher eram o asseio da casa e o governo da cozinha, pois por aí governava a mulher a casa, apoio e sustentáculo do... homem, claro. Assim, no ec. XIX, antes aprender a fazer o caldo do que aprender o que é um substantivo, até porque “o aperfeiçoamento intelectual das mulheres (...) é incompatível com a perfeita direcção do ménage.” (Ramalho Ortigão, Farpas, 163)


Verificamos aqui a concepção da mulher como ser intelectualmente inferior que era partilhada por grande parte da Geração de 70; a mulher como ser que nem devia desenvolver as suas capacidades intelectuais (até porque não as possuía como o seu congénere masculino), mantendo-se, ao invés, apenas como suporte do marido. Eça demonstra bem a sua opinião nesta frase: “ A mulher, pela simples constituição do seu cérebro, é adversa ao estudo e à ciência.” (Uma Campanha Alegre, 336)
Esta ideia era, possivelmente, compartilhada por quem dirigia os colégios femininos. Pouco de ciência se ensinava, e os métodos para a aprendizagem da história e da geografia (as ciências dignas de serem estudadas pelas meninas) eram fatigantes. Estudava-se à força de decorar, e não com cientificidade. Estudavam-se também as línguas, para uso doméstico, para abrilhantar os chás a que nos referimos, como se estudava a música, o bem tocar piano. As curiosidades da biologia, da medicina e outras ciências naturais estavam vedadas às mulheres, por serem consideradas impróprias à sua constituição débil. O próprio Jorge, marido de Luíza (O Primo Bazílio) diz ao seu melhor amigo Sebastião (falando acerca da sua Luizinha): “é mulher, é muito mulher... não tem coragem para nada!” (O Primo Bazílio, p.36) A falta de coragem era, aliás, estimulada por uma religiosidade de catástrofe e de luxo.


O colégio provoca, pois, um tédio enfraquecedor da vontade feminina, deixando apenas viva a curiosidade pelo mundo social e alimentando o sonho do casamento. Nele (colégio) surgia uma vida sentimental confusa e apaixonada, em que as meninas escreviam já cartas umas às outras cartas, assinando com nomes de heróis de romances.
A maior diversão de uma menina (e posterior ocupação de uma mulher burguesa) consiste na leitura de romances. Todos os romances da época, destinados às senhoras, lhes falam de amor, um amor dramático e romântico, e é esse romantismo que faz com que Eça também os reprove.
De facto, segundo Eça, “o romance é a apoteose do adultério. Nada estuda, nada explica: não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia nem acção.” (Uma Campanha Alegre, pág. 22). Isto, como vemos, é diverso da escola realista que Eça professava (contrária aos excessos líricos e fiel à reprodução objectiva do mundo).
Mas a maior crítica de Eça aos romances acontece pela sua condução certa à dissolução do casamento, já que o espírito feminino era fraco e influenciável... Vejamos: nos romances que a mulher estava habituada a ler, era sempre a paixão que conduzia e por ela tudo era desculpado; ela dava a felicidade suprema, que se encontrava sempre num amor ilícito. Suspirando por entre as páginas da Dama Das Camélias de Dumas, as mulheres julgavam-se Margarida Gautier e ansiavam por um amor igualmente devastador. O drama não as assustava; pelo contrário, exaltava-as como fuga à sua vida entediante pelo ócio. Nasce assim o que se poderia chamar o encanto da catástrofe e a idealização da paixão (outro tema muito caro a Eça, que ele começara já a analisar n’ O Mistério da Estrada de Sintra), que conduzirão a resultados desastrosos.


A música romântica ajuda ao incremento da situação. De entre os passatempos de uma senhora, consistia também a ida ao S. Carlos com a família para escutar ópera – as óperas italianas, Norma, Traviata, Il Trovatore, plenas de sensualidade e sentimento. Nelas, o amor aparece como a finalidade última da existência, mas não o amor conjugal, o amor consagrado pelo dever. A opinião queirosiana sobre estas óperas é feroz, visto destruírem o lugar sagrado da mulher como mãe e esposa – o único que lhe competia preencher com aprumo: “uma ópera é um lupanar. Cada dueto, cada allegro, uma excitação erótica. Imagine-se uma menina ouvindo durante um ano aquela ladainha de sensualidades (...) e toda aquela moral suspirada, gemida, arrastada na dilacerante agonia da rabeca, assobiada irritantemente na flauta, modulada aereamente na harpa, soluçada de um soluço inteiro pelo demónio invisível que habita o violoncelo (...) Ah! Nós não somos bárbaros. Estimamos a música. Meyerbeer, Gluck, Mozart, Beethoven são verdadeiros pensadores... Mas S Carlos canta-os? De modo nenhum, a não ser de dois em dois anos, a fugir. De resto, Donizetti, Bellini, todos os sensualistas. Ora, aqueles respeitamo-los como ideias que cantam – estes, detestamo-los como erotismos que arrulham!”


Luíza (O Primo Bazílio) é o perfeito exemplo da jovem casada, “mulher, muito mulher”, e logo, fraca e permeável às más influências – os romances que lê constantemente e as óperas (recordemos como canta constantemente trechos de La Traviata, sua ópera de eleição, onde se conta o sacrifício de uma mulher por amor e se condena a moral hipócrita).


Eça quer demonstrar, com o seu romance de tese O Primo Bazílio, que a ociosidade feminina (esta mulher que “todo o dia vai puxando o tempo pelas orelhas” e mesmo desse esforço se ressente), o carácter passivo da mulher, influenciável e pouco resistente e racional, medrosa (com terrores de tudo, das trovoadas, de Deus, dos insectos, dos fantasmas...), curiosa apenas acerca de um mundo generoso de bailes que nunca viveu e viu no teatro, aliado a uma educação deficitária e romântica, levam-na a ser incapaz de resistir ao sedutor tornado fascinante, tanto pela elegância exterior como pela experiência do exótico das suas viagens.
Além disso, o amor de alguém como Bazílio que Luíza idealizara enchia-lhe o ego de burguesa: “ As qualidades de Bazílio apareciam-lhe então como as de um deus! E estava apaixonado por ela! E queria viver junto dela!”
Nesta paixão adúltera, vemos a cada passo, a idealização livresca – um traço de bovarismo, à maneira de Flaubert. A Madame Bovary apresenta, de resto, o mesmo tipo de educação romanesca, construindo um mundo imaginário e sedutor a partir das suas leituras, que são a antítese do mundo prosaico e trivial onde vive. “Ia ter, enfim, aquela aventura que tantas vezes lera nos romances amorosos! Era uma nova forma de amor que ia experimentar, sensações excepcionais! (O Primo Bazílio, 195)
A mesma palpitação amorosa julgou ter Luíza quando se casou.


Eça também é duro com as mulheres quanto aos seus propósitos em relação ao casamento: segundo ele, a mulher tem dois fins, ao casar-se – não ficar economicamente desamparada (dado que nada podia nem sabia fazer) e mudar de vida (visto que a vida com os pais a entediava). Deste modo, a economia tem também um alto valor dentro das expectativas de uma jovem mulher.
Depois do casamento, a mulher está (ou continua) “excluída da vida pública, da indústria, do comércio, da literatura, de quase tudo enfim, pelos hábitos ou pelas leis, fica apenas da posse de um pequeno mundo, seu elemento natural – a família.” (Uma Campanha Alegre, 334).
Confinada à sua prisão caseira, esta mulher, em breve, se desgostará desta vida monótona e também do marido, que imaginara um galã de romance e que não é mais do que um prático homem, sem nada de misterioso nem aventureiro. Esta mulher cairá no abismo quando o amante (neste caso particular, Bazílio) lhe disser “Mas queres que te ame como no teatro? (...) isso são tolices! Já nos conhecemos muito para isso, minha rica!” Então, Luíza olhará para dentro de si para constatar apenas: “O que a levara para ele? Nem ela sabia: não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e mórbida de ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico... e sentira-a, porventura, essa felicidade que dão os amores ilegítimos de que tanto se fala? Nunca! Todo o prazer que sentira ao princípio, que lhe parecera ser o amor, vinha da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã proibida!” (PB, 224)
O que Luíza ganha com a relação extraconjugal é a sua própria destruição (Eça reserva-lhe um curioso destino romântico – a morte febril por remorso). Já o sedutor Bazílio continua a sua vida galante – ele “parte, levando as recordações romanescas da aventura; ela fica nas amarguras permanentes do erro” como nos diz Eça. O castigo social para o homem que tem relações socialmente não legalizadas nunca é grave – veja-se o conselheiro Acácio, amigo da casa, que vive em uma situação amorosa com a criada, que todos fingem ignorar... Já a amiga de Luíza, Leopoldina, é criticada por todos e mesmo proibida de frequentar as casas das “boas famílias” por ter numerosos amantes.


Assim, esta breve panorâmica queirosiana (baseada nos textos teóricos d’ As Farpas e no romance de tese sobre os efeitos catastróficos da educação romântica que é O Primo Bazílio) vem mostrar-nos um outro lado de Eça, desse homem tão moderno e tão amante do progresso, porta-voz da geração revolucionária e culta de 70: um lado tradicionalista, misógino, parcial, verdadeiramente diverso e oposto ao Eça que conhecemos e que tanto admiramos.


Tuesday, September 27, 2005

O Silêncio e a Palavra

“Aprende a estar em silêncio” disse Elie Wiesel que desejava gritar a sua história, a história de seis milhões, ao mundo. Este judeu romeno  nascido a 30 de Setembro de 28, Prémio Nobel da Paz  em 86, escritor aclamado e premiado por várias obras, entre elas a célebre Noite, sobrevivente de Auschwitz,  fala-nos constantemente do poder da palavra e da força do silêncio.


Parece-nos, hoje, muito distante esta realidade da Shoah. Na verdade, foi há 60 anos. Não é uma página amarela do livro de História, nem uma atrocidade que se deu quando a Civilização gatinhava.
Quando a palavra Holocausto ainda não era moda, era seguro usá-la. Fazia sentido. De repente, começaram a surgir os filmes de Hollywood em vez dos documentários, as colunas de opinião disparatadas em vez dos testemunhos de sobreviventes, a criação de um Estado que não  se aproxima da Terra Prometida.


De facto, todas as palavras se tornaram perigosas, quase vazias de sentido, porque se apropriaram delas os mestres da retórica de bancada. “Então, aprende a estar em silêncio” diz Wiesel. “Eu queria contar a história... mas como fazê-lo? Todas as palavras me pareciam inadequadas. Onde ia eu inventar um novo vocabulário, uma linguagem primordial? A linguagem da noite não era humana.” (Como Escrevo, 1978).


Que noite é esta? “Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo que transformou a minha vida numa longa noite.[...] Nunca esquecerei as chamas, que consumiram a minha fé, para sempre.[...] Nunca esquecerei os momentos que assassinaram a minha alma e o meu D-us.” (Noite, 1958)


Depois da Guerra, Wiesel manteve-se em silêncio por 10 anos. “Há uma arqueologia no silêncio. Há uma geografia do silêncio. Há uma teologia do silêncio. Há uma história do silêncio. O silêncio é universal e podes trabalhar nele […] e fazer dele uma testemunha. […] Eu esperei 10 anos, porque queria ter a certeza de usar as palavras certas. Eu temia a linguagem.” ( Entrevista, 1996)


 É necessário não confundir esta preparação interior com indiferença. O silêncio pesado e brilhante de sentido não é o virar as costas ao Mundo, não é a negação da Vida. Mas Wiesel decidiu contar a historia do Holocausto porque não a contar seria envenenar a sua alma.


“Manter-me em silêncio ajudava-me, talvez, mas não ajudava mais ninguém. O silêncio nunca ajuda a vitima; abre espaço para o vitimador. […] Apercebi-me também que a indiferença faz de nós mortos antes da morte.” Como os Muselmanner, os que nos campos já nada sentiam, tinham perdido a sensibilidade antes de morrer…


Curioso é que a esperança se mantenha sempre, essa indescritível artífice que mantém os homens vivos. Para Wiesel, depois dos campos de concentração, depois da família morta, depois de perder a Fé aos 15 anos  (que é a Vida e o Amor de um judeu) “há mais para  celebrar que para denegrir no Homem”, como nos dizia Camus.