... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, May 11, 2006

Isso de Ser Jovem

Ser jovem é um grande quebra-cabeças. Atenção que não estou a falar do pessoal da minha idade – os jovens na ressaca, os que “ainda” são jovens e estão a gastar aqueles últimos oportunos cartuchos da casa dos vinte anos antes de entrarem nos trinta, para passarem à fase do “subsídio”, conhecida por bancos, empresas e outros, e que, etariamente, se define por “jovem até aos 35 anos”. A partir daí, já não há juventude para ninguém, a não ser a de espírito. Não, nestas linhas estou mesmo a referir-me aos desgraçados dos adolescentes.


 Toda a gente fala com saudade do tempo em que era jovem e andava no liceu, sobretudo os pais de quem lá anda a penar agora. Estarão todos doidos? Até admira como é que se conseguiu resistir a tanta dor de alma, a tanta borbulha pungente e a tanta coisa secretamente nova, que aparecia de todos os lados. Além disso, o mundo, em geral, não ajuda nada os jovens; está repleto de ditadores, vulgo pais, professores, porteiros de discotecas, gajos que não nos deixam acampar onde a gente quer, etc, etc, etc. Isto para já não falar da falta de dinheiro gritante (porque não se ganha nenhum, claro) e do incómodo que é estar sempre a pedir aos progenitores uns trocos e ter de lhes dizer “para que é” e ouvir “vê lá não gastes isso tudo”... Uma pessoa pensa que, quando for mais velho, vai desforrar-se da vida e há-de ter muito mais dinheiro. Depois cresce e percebe que continua na miséria porque tem um emprego de treta e está cheio de contas para pagar. A diferença é que antes podíamos culpar os nossos ditadores de estimação por quase tudo o que nos acontecia (excepto casos de frustação amorosa, o que já era um grande rol...). Agora, não. Já nada nos salva. Espero, ansiosamente, pelos meus filhos, para os torturar com todas estas quezílias, segundo o bom método universal de “farás como te fizeram a ti”.


Tão ou mais importante é a ideia de liberdade. O que é que quer um adolescente? Quatro em cada cinco irá responder que quer mais liberdade. “Isso é que era bom”, diz o pai (ou a mãe, ou quem quer que tenha direitos de paternidade sobre o dito, que isto, hoje em dia, não é nada linear...). “Vens é para casa cedo, não bebas mais do que deves, diz-me lá com quem é que vais estar, e quem é que é essa gente, nunca ouvi falar deles...”, enquanto levantam a sobrancelha esquerda. Os pais, no fundo, querem é que os filhos tenham juízo. Eles, pais, não têm, mas toda a gente sabe que os pais desejam que os filhos sejam melhores do que eles. É justo, por isso que estas elevadas aspirações estejam enraízadas em todos.


Há um truque que todos os adolescentes têm tendência a usar, que é o mais que batido: “Pai, mas o pai do Miguel nunca faz essas perguntas, sou só eu que tenho de passar por isto.”  Amigos, não vão por aí. Secretamente, os vossos pais estão convencidos que são melhores pais que os outros todos. Os pais do Miguel, da Luisinha e da Cristina são uns desleixados e sempre foram tansos e está-se mesmo a ver que a desgraça lhes vai bater à porta. A desgraça virá, fatalmente, na forma de uns filhos mais que terríveis. O que é isso? Uns filhos de quem toda a gente fala! O melhor, para um pai, é ter um filho quase incógnito (para um filho também convém ter um pai low profile, mas isso o pai nunca suspeita...)


Ao fazer 18 anos, um jovem está convencido que alcança a glória. Desiludam-se. Fica tudo igual. Excepto o facto de poderem tirar carta e de serem presos quando infringirem a lei, não há muitas mais mudanças. Há outro importante facto, que é o de poderem votar, de modo que, a partir desse dia, fazem parte desse grande público que os partidos políticos designam como “Jovem” (com J maiúsculo, para causar impacto), e são, por isso, atacados por todas as frentes com slogans como “Jovem, junta-te a nós” ou “Jovem, estamos a par dos teus problemas” ou ainda “Jovem, vem construir o teu futuro” e outras banalidades do estilo. Passam a ser considerados como um “importante contributo social” só porque têm mais um dia no calendário. Antes desse dia em que podiam fazer cruzes nos boletins de voto, a preocupação com os jovens (vocês) não valia um chavo.


Outra fascinante mudança é terem de começar a pensar “o que é que vão fazer na vida”, como se não fosse a vida, na maior parte dos casos, a decidir o que vai fazer convosco. A maior parte das escolhas são saborosamente fruto de um acaso.


Dizer “os jovens”, no entanto, soa a tolice. É como dizer “os homens”” ou “os portugueses” – logo, uma generalização perigosíssima. Apesar de tudo, ainda acho que a juventude é capaz de ser a altura mais gira da vida. Ou então, não.

Thursday, April 20, 2006

As Palavras Embrulhadas em Papel de Prenda

Trabalho num lugar cheio de regras de “boa educação”- como todos, pensam vocês. Isso é que era doce! Há certos lugares onde se podem largar uns palavrões se, por acidente, tropeçamos no tapete e batemos com a canela na esquina da mesa; há outros ambientes onde qualquer palavra mais “solta” é encarada com um olhar ríspido e uma tossezinha seca e outros, ainda, onde a palavra proferida chega a manchete de jornal. Para além de trabalhar num sítio onde devemos ter cuidado com a língua (esta frase tem um sentido duplo, porque, de facto, temos mesmo de ter cuidado com o modo como usamos a língua, dado que todo o erro linguístico que façamos pode ser usado contra nós - “Então, a sra Prof. não  sabia que isto se dizia assim? Louvado!”  - Então?! Julgavam que o sentido duplo era o quê? Suas mentes perversas!), trabalho num país obcecado por regras. Em Portugal, as pessoas são mais libertas de preconceitos, apesar do que se pensa. Todos sabemos que um dos passatempos preferidos dos portugueses é criticar Portugal. Quantos países vocês conhecem que se auto-criticam tanto? Ah, pois é.


Todo este preâmbulo para chegar à estória das palavras. A minha colega tinha tido um dia mau. Quando chegou ao escritório, o computador não funcionava, para cúmulo. Ela soltou um:“What the f*ck is going on with this computer?!” que paralisou sete pessoas, em instantâneo. A infeliz ficou gelada, porque se deu conta que tinha lançado uma palavra proibida. Foi preciso substituir a coisa por um: “Something is wrong with our IT services today, gentlemen.” Suspiraram todos, de alívio. Bom, já se podia trabalhar em sossego. Ela dourou aquela pílula.


Claro, todos conhecemos o “dourar” da palavra. Às vezes, a mensagem fica tão críptica e cifrada que quase necessitamos de um dicionário (mais um diconário de sinónimos, excelente ferramenta que não me canso de aconselhar!) para decifrar o que quer dizer o emissor. Infelizmente, nem sempre temos tempo - para não falar do incómodo que é andar com essas coisas pesadíssimas – para estas manobras de detective, sobretudo quando o discurso é, todo ele, complexo e emaranhado, e não tem ponta de simplicidade nem do que se costuma chamar sumo. Como – e eis um exemplo inocente para que todos possamos compreender - os discursos dos candidados em época eleitoral. Neste caso, resta-nos dizer um “ah”de entendedor no fim, como se tivéssemos, efectivamente, percebido e, mais tarde, tentar compreender algo da alagaraviada apressada – porém repleta de palvaras distintas e sonantes – que nos foi martelada. Digo, enviada. Isto, claro, se ainda nos lembrarmos dela.


Há ocasiões – como nas conferências, por exemplo – em que se nos pusermos a analisar (se não nos der sono...) a verdadeira mensagem dos participantes, chegamos à triste conclusão que cerca de 70% por cento dos conferencistas tem um conteúdo muito pobre... mas um discurso cheio do que antigamente (na boa e directa linguagem dos nossos avós) se chamava “palavras de dez mil escudos!”. Não nos estão a dizer nada de particularmente inteligente, nem seguramente nada de original... mas o embrulho é furta-cores berrante, o laço de fita é colorido e, sobretudo, faz um estardalhaço a abrir. Palmas no fim.


Com tanto douramento de palavras, imagino já que no futuro isto se estenda a toda a população. Afinal, para alguma coisa havemos de educar os nossos “piquenos”. Eia, lá vamos! Não mais se dirão palavrões, vivam as palavras douradinhas (isto quase se aproxima a uma publicidade da Igloo; arrisco-me a ser processada por plágio!).


Certas coisas perderão, de todo, a sua essência, a sua pureza. Os jogos de futebol, por exemplo, não mais serão os mesmos. Eu cá tenho certa dificuldade em visualizar diálogos como este, que nos esperam no futuro caso insistamos em banir os palavrões:
- Membro sexual masculino! Este filho de uma senhora que se dedica a actividades sexuais  a troco de dinheiro está a roubar a nossa equipa! Macho da cabra em versão aumentativa! Aperto-lhe os tomates!
(porque tomates ainda não é palavrão... mas concordo que não fica bem; vá lá, banir por banir, que se substituam por uma leguminosa menos sanguinolenta, tipo insultuosas ervilhinhas, ou, se se quiser fazer a coisa em grande, uns elegantes repolhos.)


Perante esta nova linguagem, que confundirá os mais velhos e levará tempo a entrar no ritmo de todos, poucos ficarão contentes. Suspeito que apenas – para além dos já citados senhores que já andam a treinar-se nisto há anos – só as mães dos árbitros ficarão satisfeitas com esta nova nomenclatura. Além disso, certos nomes sonantes não mais poderão abrir a boca – a não ser com intérpretes. Casos do Pinto da Costa, do Alberto João e do Valentim Loureiro, que terão de reformular todo o seu vocabulário, de A a Z.


Thursday, April 6, 2006

A Vida Sob Outro Prisma



Nós, os que nascemos perfeitinhos (os que me conhecem estão a rir-se às fortes gargalhadas!) nunca pensamos como será ter uma deficiência, mais ou menos incapacitante. Incapacitante sobretudo porque o mundo onde vivemos não está estruturado para responder às necessidades de quem não tem a absoluta posse de todas as suas capacidades físicas ou mentais, nem a sociedade (palavra que geralmente usamos para nos referir a um mar de gente do qual nos excluímos elegantemente, sempre que nos é conveniente, mas na qual estamos incluídos de modo fatal) vê com olhos despidos de preconceitos os deficientes, os velhinhos esclerosados, os loucos – e agora, vejam lá, não façam a tolice de pensar que meto esta gente toda no mesmo pacote, como se fossem rebuçados de fruta.


Já sei que estou a usar uma data de palavras neste texto que ninguém gosta de mencionar... Já há alguns anos que vem sendo hábito não se chamarem as coisas pelos nomes (e só isto dava uma crónica completamente diferente que fica para a próxima) por um medo extraordinário das palavras. Quase tanto como o medo de olhar para as pessoas de frente que muita gente tem.


Há algumas deficências com que me deparei mais ou menos tarde na vida.


Só pensei como seria ser surdo – é quase indesculpável que me tenha ocorrido tão tarde - quando tive uma aluna surda. Nessa altura, dei-me conta de que era preciso articular muito bem as palavras (ela sabia ler nos lábios) e nunca falar quando estava de costas ou de lado, mas sempre olhando bem de frente para a minha turma. Para a minha turma, porque ela era parte da turma, não era uma alienígena que estava ali com a qual eu me tinha de me comportar como se ela fosse de Marte. Ocasionalmente, convinha repetir as coisas, sobretudo se a via franzir o nariz e os olhos, sinal de que estava com dificuldades. Era uma aula muito bem-disposta, como todas, mas foi uma aula para a qual nunca levei música porque confesso que não sei como ela iria reagir. Claro, talvez pudesse sentir as vibrações mas achei que era insistir numa diferença entre ela e os outros alunos, puxar por uma corda provavelmente sensível.


Igualmente, nunca pensei muito na cegueira. Havia um colega cego numa das escolas onde andei. Escrevia numa máquina especial, demorava mais tempo a andar pelas escadas com a bengala, tinha livros com sinais esquisitos – Braille, obviamente, mas quem se preocupava com detalhes desses na pré-adolescência? Fora isso, era um rapaz normal e entrava em muitas actividades. Às vezes, dizíamos disparates à sua frente. Coisas de miúdos que não pensam, como: “A Ana está ali, não vês?” Ele ria-se e dizia: “Por acaso, não vejo!”  ou “Dá-me a caneta vermelha”, sendo que lhe seria impossível distinguir a vermelha da azul, como é evidente. Mas tudo era feito entre risos e nunca houve uma ocasião de atrito ou de má-fé de que me lembre.


Podia continuar a enumerar situações. Isto a propósito de um artigo que li, em que uma escritora (Nancy Mairs), que sofre de esclerose múltipla, conta como vê o seu corpo degradar-se pouco a pouco. Vai perdendo as suas capacidades físicas num processo terrivelmente rápido; é ainda jovem mas o seu corpo está a tornar-se o de uma velhinha incapacitada. Diz ela que, ainda há poucas semanas, era uma mulher de saltos altos que dava conferências. Agora, anda de cadeira de rodas (e ainda bem que estas existem, caso contrário a sua locomoção era impossível) e a primeira coisa que vê do mundo, quando está numa multidão, são rabos. Juro que, depois de ler isto, passei a ter mais cuidado com os jeans que enfio.


Há uma passagem em que ela fala da sua sexualidade. Eis uma coisa da qual ninguém fala: a sexualidade de alguém que, por um motivo ou outro, está numa cadeira de rodas, é anão ou tem sete dedos numa mão e uma giga nas costas. Como ela diz: “Não é suposto os aleijados quererem sexo, muito menos fazê-lo.” São obrigados a uma castidade que não escolheram e que é, na maior parte destas situações, contra-natura. Estas pessoas não têm as hormonas em declínio. Nem sequer estão na menopausa/andropausa. Têm um corpo um bocadinho diferente e é tudo. 


Á conta disto, dei por mim a pensar nos variadíssimos adolescentes e adultos que há à minha volta de cadeira de rodas. Ou outra incapacidade física qualquer. Será que são inevitavelmente postos de parte do ponto de vista amoroso e sexual à conta disso? Se calhar, a maior parte das vezes são. Será que mais de metade disso não é mesmo preconceito nosso? Se calhar, é. Pois é.


Thursday, March 16, 2006

O Amor via Messenger



Confesso que, até há poucos anos atrás, não percebia nada do mundo virtual, vulgo internet, e do que se passa nele. Essas coisas de sites, blogs, conversas pelo messenger, chats, fóruns, buscas, e o diabo a fazer o pino (virtualmente, claro) eram-me de todo desconhecidas. Eu era uma info-excluída, que só sabia mandar e receber e-mails... Sim, porque isso de falar por messenger é recentíssimo (sobretudo para mim) e provocaria um ataque à minha bisavó, que nunca sequer entendeu como é que as pessoas da telenovela não conheciam as pessoas que apresentavam o telejornal (“Mas vocês não são amigos?”,  perguntava ela aos jornalistas, que tinham de lhe explicar que não, as telenovelas vinham de fora... “De fora? Mas não trabalham todos na televisão?” Enfim... Coisas modernas.). 


Agora, uma pessoa que está longe dos amigos, da família, do namorado tem o messenger. Acautelem-se, empresas telefónicas, a vida nao mais será a mesma! Agora, tecatecateca... e uma pessoa, em dois segundos, tem uma conversa amorosa ali à mão de semear. E custa menos (falo de dinheiro, e não de esforço, porque todos sabemos que a maior parte dos homens gosta tanto de escrever como de ir ao dentista... mas enfim, também lhes custa falar, pelo que não nos vamos meter por aí, que não adiantamos muito!)


Este messenger é um achado. Tem uma data de possibilidades. Quando uma pessoa não sabe mais o que dizer (ou quer dar mais emoção à coisa), junta-lhe um smile. Explico aqui aos pouco versados nestas coisas que um smile são aqueles bonequinhos todos giros que lá estão a fazer caretas, e sorrisos e caras de desenho animado tipo “gosto tanto de ti” ou “que raio queres tu dizer com isso?” ou ainda” estou triste hoje”. Dá imenso jeito! As mulheres, por natureza mais dadas a enfeitar as conversas, adoram enviar smiles. Os homens, não. De facto, os homens detestam smiles. É frequente os homens dizerem “não me mandes smiles, amor, que estou a fazer um download e isso faz crash ao sistema.”  Qualquer mulher sabe que ele não quer ser incomodado por umas horas quando lhe manda esta conversa. Um download pode levar toda a noite... Um homem esperto envia logo aquela bem pensada história do download. Uma mulher compreensiva (e ainda mais esperta) finge que não percebe.


O messenger tambem dá para usar microfone. Confesso que nunca usei. Parece-me um bocado ridículo, porque podíamos usar o telefone, se quisessemos ouvir a voz  do nosso amado (este palavreado do “amado” já é um bocado poético para conversas internautas, e ademais, pouco  moderno!...), mas admito que não seria tão barato. Todos sabemos que misturar amor e dinheiro é ainda menos poético do que misturar amor e internet... Na verdade, é, mais ou menos, como matar o amor à machadada. Por isso, vou passar de fininho para outro pormenor.


O que mais gosto no messenger é a possibilidade da webcam. Traduzo outra vez para os não utilizadores. É uma camerazita minúscula que passa a ser o objecto da nossa alegria porque mostra a cara de quem está a falar connosco, lá do outro lado do mundo (no outro computador, pois claro). Ás vezes, deixamos a webcam ligada. Verdadeiras e incontornáveis catástrofes podem acontecer nestes casos: o nosso interlocutor vê-nos com creme para as borbulhas, a lamber chocolate com os dedos ou a roer as unhas. É chato se o interlocutor for o nosso patrão. Sim, o messenger também serve para conversas de trabalho, por vezes. Pelo menos, eu utilizo. Isto para não falar daqueles momentos familiares em que temos o gato a saltar para cima de nós, o filho pendurado no nosso pescoço e o marido a passar de toalha enrolada (vá lá que estava de toalha!). E a webcam ligada, por azar. Por delicadeza, nem nos mencionam o facto.


A webcam, porém, pode ser gloriosamente venerada, sobretudo se estamos separados do nosso mais que tudo durante longo tempo. Vemos aquela carinha (o quadrado de felicidade proporcionado pelo messenger é ridiculamente minúsculo) e oh, que maravilha! Ficamos logo todos melados, sem descolar do pc.


Claro que também há os amores que começam e acabam na net. Esses são mais estranhos. Porque são amores sem aroma (o que seria essencial para mim,e calculo que para muitos... Como se pode saber se se gosta de alguém que nunca tivemos oportunidade de cheirar?!) e sem voz (aquela voz toda distorcida do micro nao conta!). Sem tacto, também. Sem gosto sequer. É um amor feito de palavras escritas e de uma visão distorcida pelos pixels. Mas, neste mundo, há tanta variante de amor como há pessoas. E eu também nunca afirmei que percebia nada de amores... e menos ainda da internet.

Thursday, March 2, 2006

Os Países "Desenvolvidos"


Estavam à espera que vos falasse do Carnaval, mas tenham paciência... É que no país onde, actualmente, estou a viver não se celebra o Carnaval e a coisa passou-me ao lado como se nem existissem balões de água e serpentinas. Isto não é inteiramente verdade, dado que há uma coisa vagamente carnavalesca na parte francófona do Canadá, a que chamam Mardi Gras. Portanto, até pelo nome, podem ver que o Carnaval do Canadá resume-se a uma Terça-feira Gorda.  E só existe no Quebéc, que nem é onde estou.


Carnavais à parte (e a minha vida à parte, que também não vos interessa), já acabou esse rito de fantasia e já podem deixar cair as máscaras. Foi a propósito de máscaras e fantasias que me ocorreu esta ideia sobre os países desenvolvidos.


Todos nós – vá lá, a maior parte, porque de certeza há-de aparecer um iluminado a dizer que nunca teve este conceito entranhado... – pensamos no mapa e, pelo que ouvimos veiculado nas notícias, pelo que aprendemos na escola, pelo que fomos adquirindo no convívio social ao longo dos anos, criamos esta imagem de um certo número de países que chamamos desenvolvidos por oposição áqueles que não o são (ou que o são em menor grau). Claro que há aqui uma interessante escadinha: um português, por exemplo, dirá que a França é um país desenvolvido (ou que os E.U.A. são um país desenvolvido, dependendo da conotação que cada qual entender dar à palavra). Já um cingalês, por exemplo, pode achar que Portugal é um país desenvolvido (escolho esta nacionalidade à sorte, porque na minha profissão deparo-me com muitas e esta situação já me aconteceu; eu cá nunca fui ao Sri Lanka e não sei como se vive por lá!).


Note-se que o “desenvolvido” pode vir seguido de uma adversativa “mas...” se não concordarmos com as posições político-humanitárias dos países em questão. O desenvolvimento não está só patente na economia, que se reflecte imediatamente na qualidade de vida da maior parte dos cidadãos – da maior parte, sim... porque não têm todos carros e não falta gente a dormir na rua – mas também no grau de liberdade de pensamento dos mesmos, na igualdade de oportunidades, etc, e na tolerância que se manifesta para com outras culturas. Isto posto assim, não sei se estes países que “admiramos” serão tão desenvolvidos, com o maior respeito que tenho por todas as culturas... E apontando o dedinho acusador para nós próprios também.


O que mais me faz impressão nos países desenvolvidos é a falta de conhecimento que têm acerca das culturas que eles julgam ser inferiores à sua – a não ser que as achem “giras e muito típicas” para umas feriazitas a contar aos amigos. Assim, o Canadá desconhece  completamente o que será isso de Portugal (Açores então, nem falemos nisso!) e frequentemente pessoas bem intencionadas me perguntam se posso tirar-lhes dúvidas acerca da gramática espanhola. É preciso explicar que Portugal é um país, com língua própria e tudo, ahn? Obrigada. Já sei, os senhores vão dizer-me que a vossa família no Canadá conhece muita gente que sabe tudo sobre Portugal. Como sabem, as comunidades emigrantes, seja de que país forem, vivem em bairros todas juntinhas... Se sairem daquelas zonas, entram num mundo onde Portugal, a Ucrânia, o Paquistão já não existem. Eu vivo onde Portugal não existe.


Outro dia, na zona internacional do aeroporto de Toronto, uma senhora hispânica perguntava ao funcionário se era ali que saíam os passageiros do voo de Cuba. “Isso depende”- diz ele -“Cuba... isso é no Canadá?”. “Não, não! Cuba... a ilha. Sabe, o país!”, responde a senhora, cheia de paciência. “Sei lá, minha senhora, nunca ouvi falar.” “É um país.” “Tem a certeza? Se é um país qualquer, a senhora está no sítio certo; se é um sítio remoto do Canadá, tem de ir para outro terminal.”


A ignorância pelo que consideram, seja de que modo for, inferior... Lamentável. Não vejo como a ignorância corresponde a desenvolvimento. Devia estar a dormir quando passaram a ser sinónimos.


Em Portugal, agora que somos, em tanta coisa desenvolvidos, começamos a comportar-nos assim... para com quem achamos inferior, claro. Porque para com os que nem sabem o nosso nome e onde ficamos no mapa, temos uma reverência canina. Só falta abanarmos o rabo e fazermos ão ão. Nem sei bem qual o respeito que perdemos mais: se aquele que tínhamos por nós mesmos ou que devíamos ter pelo próximo. 


Thursday, February 16, 2006

A Fúria do Dia dos Namorados


Deve haver poucas coisas mais enervantes e meladas do que o Dia dos Namorados para alguém que está sozinho. Eu, quando era miúda (pausa para aqueles que me conhecem se rirem porque só tenho 1,60 m e peso a condizer) nunca se ouvia falar neste dia. Depois, os profes de inglês começaram a envenar-nos na escola com o Valentine’s Day e outras tolices anglo-saxónicas, como se S. Valentim fosse inglês! Mais tarde, vim a descobrir que era um  romano que desafiou um Imperador cuja lei ditava que os soldados fossem todos solteirinhos (e não tivessem amantes) para melhor desempenharem as suas funções. Enfim, não nos alarguemos. O certo é que, subitamente, deu-se uma avalanche comercial e não passou a haver ano em que não florescessem coraçõezinhos, florzinhas, cupidozinhos, bombonzinhos, peluchezinhos, cartõezinhos e iloveyouzinhos em todas as montras. E nós, paspalhos consumistas, lá vamos.


Uma pessoa sem par sofre imenso neste dia. Uma pessoa com par também.


O “sem par” não consegue fugir. De todo o lado saltam coisas cor de rosa. O mundo inteiro, que ainda ontem se odiava, hoje é vermelho de paixão. Uma pessoa sente-se até infeliz! Sempre conviveu tão bem com a sua solidão voluntária, e, de repente, neste dia malfadado, sente-se culpado por não ter uma boca a quem dar um beijo obrigatório. Se vai comprar o jornal, é logo atacado com a pergunta:“Então, não quer levar uma prendinha para aquela pessoa especial?”; “Não, eu sou ímpar.” É logo olhado com estranheza, talvez até piedade. Ímpar a 14 de Fevereiro é quase doença terminal. Na rua, os casalinhos são como cogumelos: aparecem às centenas! Onde andava esta gente escondida nos outros 364 dias do ano?! Se vamos aos restaurantes, querem acender-nos velinhas! Velinhas, santo Deus! Para alumiar a nossa miséria, certamente. E a rosa vermelha na jarra em frente, e a musiqueta que perguntam se queremos ouvir. E o desconto era só para casais! Vamos, então, ao cinema para fugir de toda essa casta conspiradora. Piorou. Somos os únicos que foram ali ver o filme. O resto são parzinhos que podiam ter ficado em casa –qual é a graça de tanto apalpanço em público? Ainda não percebi, mas também compreendo que quando não se tem casa nem carro, uma pessoa tem de dar largas à imaginação toponímica – e mal vão as luzes abaixo, temos dois filmes à escolha. Uma pessoa acaba o 14 de Fevereiro com vontade de atirar setas ao Cupido.


E o ser “com par”? Não pensem que está melhor. O “com par” sofre da obrigação social de comprar uma prenda. É tradição. Definitivamente, começou há coisa de 10 anos. Está profundamente enraízada na nossa cultura, como se pode verificar. Se se esquecem as prendas, há verdadeiras catástrofes no seio de certos casais: “O quê?! O Miguel não te ofereceu nada?! O Filipe ofereceu-me flores, 5 rosas! Ah, eu, se fosse a ti, mostrava-lhe como é! Ai, eu castigava-o bem!” Ora, todo o homem sabe como uma mulher insatisfeita é mestra em perfídias.


 Por outro lado, as prendas nunca são do agrado de quem as recebe, a julgar pelos comentários pós-prenda com os/as amigos/as: “Pá, não gostei nada dos boxers com diabinhos que a Maria me ofereceu. Nem sei se ela espera que os use? Achas que espera?”, diz o Manel com uns boxers na mão que envergonhariam o avô dele, que são para ele do maior desconforto, e que a Maria está convencida que ele adora (porque a dona da loja disse que todos os homens adoram, que o marido e o filho dela – que nunca os vestiriam- adoram) . O Manel só os há-de usar, se achar que isso convence mais depressa a Maria a tirá-los – isto, se por acaso, ainda estiverem na fase em que precisam de estar com esta jogatana toda...


E eu, que sou firmemente contra datas que nos fazem gastar dinheiro à toa, que sou ainda mais obtusamente contra dias para demonstrar o nosso carinho por alguém, que sempre achei uma denguice melada e espalhafatosa este dia, que não preciso que me ofereçam presentes, antes quero abraços, obrigada, guarda lá isso, esquece essa treta, a quem irritam as beijoquices excessivas, e que fico, sobretudo, irritada, com o aproveitamento comercial que se faz de tudo... até eu, confesso, culpada, que me lembro ainda de um cartão piroso  que me deram neste dia, na escola, há imensos anos atrás.   


Wednesday, February 1, 2006

250 anos de mistério – Mozart

É ridículo escrever sobre música. Podemos escrever sobre quase tudo, mas escrever sobre música é como escrever sobre cheiros ou sobre sensações tactéis. Parece-nos uma troca de sentidos inútil, porque as palavras nunca poderão, por mais transportadoras, transmitir o que transmitem os sons. Que desperdício estou eu aqui a fazer? Posso, porém, escrever sobre um músico, especialmente se hoje (27 de Janeiro) se celebram 250 anos do seu nascimento e se esse mesmo homem e esse mesmo músico – porque entre um homem e o artista que ele é ou foi há geralmente uma diferença abissal – continua a ser um mistério muito atraente para a Humanidade.


Quando, na década de 80, surgiu o filme Amadeus, o mundo pensou que tinha achado uma resposta confortável para o mistério de Mozart. Deu-se uma popularização - passou-se a falar de Mozart em todos os lugares, fora dos círculos operáticos e sinfónicos, fez-se uma música pop com o seu nome que teve um sucesso estrondoso. O filme de Milos Forman – e a peça de Peter Scheffer, que esteve em cena em muitos países – mostravam um Mozart genial...e também infantil, caprichoso, sem respeito pelas leis, com um gosto excessivo pela materialidade, sexualmente irreverente ou mesmo invulgar (se é possível atribuir julgamento), encantado por tudo o que fosse novo e brilhante e facilmente desencantado com a mesma facilidade, cheio de pequenos artifícios para fugir às suas obrigações. Um homem (ou um rapazinho crescido?) com quem provavelmente não simpatizariamos muito, e por quem todos, sem excepção, mesmo os seus rivais, se quedavam fascinados, quando ele mostrava as suas criações, que pareciam fluir dele, como de uma torrente fácil e inesgotável. Simples e encantadora. Um jogo de crianças. Um riso.


No entanto, poucos anos depois, já fomos inundados com variadíssimos estudos sobre Mozart – biografias reactualizadas, ensaios, a nova edição do catálogo Köchel (que cataloga as obras de Mozart, ainda que tenha sido, como hoje sabemos, fundado sobre premissas erradas), fundações Mozart, e mil e uma parafernálias... Fá-lo-iam rir ou orgulhar-se?


O certo é que a maior parte destas novas ideias sobre Mozart tendem a desfazer um pouco o mito de menino leviano criado anteriormente. Focalizam-se nas figuras do pai – na sua intensa disciplina, que Mozart respeitava e a quem obedecia... e no modo como, subtilmente, se desviou deste, criando a sua autonomia firme, e dando-lhe mil e uma razões para as suas escolhas, sem, porém,  admitir contrariedade; também na figura de Constanze Weber, essa mulher anónima, que Mozart descreveu como a Cinderela dos Weber e que, em toda a História, sempre foi tida como a calculista que soube enganar o rapazinho genial. Tudo parece indicar, afinal, que Constanze, tal como a mãe de Mozart com o seu pai (e aqui tínhamos pano para muitas camisas, porque é certo, talvez, que cada qual procura o berço que deixou) soube ser a sombra que se adapta a esse marido tão ofuscadoramente brilhante. Uma sombra tão necessária que Mozart parecia necessitar dela como da luz vital. Já quanto ao “rival” Salieri – expressão estranha, hoje, por nos parecer, ouvindo as composições de um e de outro, que não poderiam ser rivais - , o mito da sua conspiração contra Mozart já caíu ... em duas décadas.


Em boa verdade, muitos mitos já caíram. O seu Requiem final não foi feito de modo tão misterioso como se disse, mas por uma encomenda de um viúvo, perfeitamente identificado; uma infeliz coincidência. A Cosí Fan Tutte era um recadinho à irmã de Constanze, por quem Mozart teve uma paixão prévia, antes do amor pela Cinderela dos Weber.


 Mas o mito maior, o único verdadeiramente digno de ser assim chamado (tristemente, vivemos numa época em que é necessário destrinçar o Mito da coscuvilhice) esse, ainda prevalece. Podemos conjunturar o que quisermos sobre a vida e a personagem de Wolfgang Amadeus e encontrar mil explicações. Tudo é inútil. São apenas palavras. A verdade, essa nunca a saberemos. Mas a sua música, essa continua sempre viva, inexplicável, mágica, intensa e poderosa. Simples, também. Como o riso das crianças. O único mistério de Mozart em que vale a pena mergulhar.