... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, June 9, 2006

A Cultura, essa Especialidade Geral



Não se sabe bem quando é que começou a aparecer em vários senhores e senhoras a “febre da cultura”, mas suspeita-se que seja contagiosa, porque tem atacado imensa gente que até há poucos meses nem sabia (o exemplo é arbitrário) distinguir um Picasso de um Monet - com este remate ficam a perceber que este texto não é sobre a cultura dos campos, e também podia ser, que a “cultura” em si tanto nutre corpos como espíritos (a prová-lo está a etimologia da palavra).  A febre de que falo bem podia ser uma  epidemia saborosa (passem por cima do paradoxo, se fazem favor, e vamos ao que interessa!)  que isto de se remeter os assuntos culturais para meia dúzia de iluminados pensadores e ilustres artistas, curiosamente sempre dentro da mesma roda de amigos (?), ora agora apresento eu o teu livro e amanhã fazes tu o prefácio para o meu,  cansa muito, é redutora e o cidadão dito comum não é parvo (enfim, alguns são mesmo idiotas, mas já sabem que tenho de falar no geral, não é?). Dizia eu, porém,  que a tal febre, infelizmente, é uma coisa por demais aflitiva, e quase se diria anti-cultural.


Podia, agora, pretensiosamente, encher umas páginas com várias definições de “o que é a cultura”, cedendo aos hábitos de docente, mas ficam os leitores deste jornal muito mais bem servidos se forem procurar por si próprios em Edward Taylor, Ernst Cassirer, Ortega y Gasset, por exemplo (e fico por aqui, porque é quase Verão e estas leituras não combinam com cerveja).


Convencionou-se que “cultura” é “tudo”. Depreendeu-se que, já que é “o conjunto dos produtos, dos actos e processos especificamente humanos” (Francisco Romero, uma definição possível), então cabe tudo lá dentro – com perdão da frase! Ora, já que é “tudo”, “qualquer um” (eu, tu, a vizinha Maria e o gato dela, o sr. Dr. Pancrácio deputado e o sobrinho dentista mais-a-menina-que-está-tirando-um-dente-e-tem-a-boca-aberta) pode opinar sobre isso. Isso o quê? Pois, isso tudo. Chamemos a senhora que vende uvas, a mulher do deputado e um assessor de imprensa e façamos um debate.


Agora vem a parte pior. Nos debates ninguém discute ideias. Dá-se um parecer - como na função pública-, tem-se um outro olhar - expressão tão na moda que todos os utilizadores de óculos se sentem, de repente, muito mais charmosos e importantes-,  dizem-se opiniões pessoalíssimas (e, como é sabido, cada qual tem a sua, sendo a da vizinha Maria tão válida, enquanto pessoa, como a do Pancrácio e a da menina-da-boca-aberta). Se tudo o que fazem é dar opiniões enquanto cidadãos e não especialistas em determinado assunto, então podemos todos dar opinião, viva, viva, eu também quero e o menino que está ali na Praça da República também tem algo de interessante a acrescentar a este tema e à problemática da questão. As construções com que mais se começam frases são “Eu acho que... Julgo que... Há aspectos importantes a ressalvar aqui, na minha opinião... Tenho ideia que...”  Se analisarmos bem a coisa aquele “Eu acho que... “ equivale a que não se percebe nada do assunto, mas lá ter-se uma opinião sobre ele, isso não falha! Os próprios jornalistas – manhosos! – já perguntam: “O que é que o senhor ministro acha disto?”, encurralando o infeliz na opinião de trazer por casa. Apetece responder “Cheira-me que a sra. jornalista é capaz de ter razão!” No fundo, ninguém percebe nada dos assuntos de que debita, mas o importante é nunca dizer “Não sei” e, sobretudo, emitir uma opinião porque há muita gente com o receptor ligado. Além disso, sofre-se de uma grande falta de conclusões verdadeiramente pessoais, o que é muito, mas muito mais grave. Grande parte das ideias são roubadas do Reader’s Digest, do vizinho, da internet que se devora, do que se ouviu dizer no café.


Antigamente, éramos um país de poetas. Hoje, não. Somos um país de pensantes (e não pensadores, coisa que implica que pensamos realmente quase todos e, como disse acima, isso é que era doce!) e, o que é mais, de pensantes cultos, especialistas em generalidades  - atenção ao contra-senso! - e que procuram subsidíos para a publicação de livros e a pintura de quadros (ainda não chegou a febre à música e à dança, mas o dia aproxima-se a passos larguíssimos!).  Todos conhecemos algumas destas obras sublimes: quadros que, por pudor, não confessamos serem tal e qual os desenhos que o nosso filho fazia na creche, acompanhados de títulos sonantes, do estilo “O Obscuro Impossível” ou “ Depois do Mito, o Feminino Esplendor” (estes inventei-os agora; rezo para que não sejam cartaz de nenhum pós-moderno!); livros de poem(inh)as, em que o “amor” por uma bela “flor” está sempre repleto de “dor” num tempo de “calor” (estes livros são um horror, mas o autor – perdão por tanta rima! – já se julga um Nemésio ou um Antero, porque são os dois únicos poetas açorianos que ele conhece, fora a Natália porque foi deputada).  Há ainda outro estilo, mais em voga nos auto-denominados novos intelectuais, que consiste numa página quase em branco com excepção de duas linhas de poema no fim da página, linhas essas de grande rebuscamento lexical, mas que, espremidinhas, são muito menos avassaladoras que um “ditado” da minha avó (salta a malta da cultura popular a lembrar que isso também é cultura!).


No fundo, o que  assusta é o afundamento da cultura, ao se pretender elevá-la. Seria desejável que assim fosse e que a sociedade partilhasse conhecimentos e experiências. Mas não parece que seja isso o que se procura nem o que está a acontecer. O Homem culto reflecte, tenta estabelecer relações, questiona, problematiza, mas as suas conclusões são provisórias, porque este mundo onde estamos todos - sim, todos! - não tem as certezas absolutas, as conclusões paginadas que os devoradores de enciclopédias (via net, por ser mais moderno)  e os debitadores de “a mim, parece-me que...” nos querem fazer engolir.


Thursday, May 25, 2006

Era Uma Vez...

Imbuída da maior boa vontade, decidi separar alguns dos livros que lia em criança para dar a uns miúdos que conheço e que gostam de ler. Isso de dizerem que os putos não gostam de ler é uma mentirada de todo o tamanho – a maior parte das bibliotecas infanto-juvenis têm mais adeptos do que as bibliotecas reservadas aos adultos e só isso já seria prova suficiente; claro que houve, há e sempre haverá crianças que não gostam, mas também não podemos ser todos iguais.


Os meus livros eram intemporais, coisas como a parafernália aventureira dos Cinco, dos Sete e outros em que a criançada come alarvemente grandes jantares e almoços ao ar livre, descobre, por intuição e esperteza congénitas, ladrões e contrabandistas muito mais depressa do que os totós da autoridade vigente, anseia pelas férias para ir acampar com o cão  perto de faróis e rochedos e anda de bicicleta a mil à hora. Logo, livros que contam coisas verosímeis, susceptíveis de acontecer a qualquer tipo que tem entre 10 a 12 anos. Além disso, lembro-me perfeitamente que os pais destes heróis eram pessoas muito fora da realidade, sendo um deles até um cientista que não sabia que andava neste mundo, apesar de ser invulgarmente inteligente. Tal e qual a imagem que uma criança tem dos pais.


Infelizmente, tive de pôr de parte estas extraordinárias sagas, porque os putos a quem eu ia dar os livros eram bem mais novos e não liam livros com tantas páginas. Virei-me, assim, para os contos de encantar de Grimm e de Perrault. Com honestidade, deviam ser chamados contos de terror, tal é o grau de violência que encontrei naquelas páginas ao fim de tantos anos – assassinatos (neste particular, há de tudo, de fraticídios a parricídios, passando pelas outras variantes), canibalismo, mutilações, e um não acabar de cenas que fazem arrepiar os cabelos! Não sei como podia eu ter um sono  descansadinho todas as noites, depois de ler uma historiazinha destas (“para dormir melhor”, meu Deus!).


Hansel e Gretel, por exemplo. Todos sabemos do que se trata: os pais  vêem-se na penúria  e decidem abandonar os filhos na floresta; eles, espertos, ouvem a conversa por acaso e tentam marcar o caminho com migalhas de pão que os passarinhos acabam por comer. Imaginem o sufoco que não terei tido, depois de ler este conto, quando ouvi discutir os problemas económicos lá de casa. Decerto nunca mais me senti confortável ao visitar o parque florestal do Capelo, intimamente pensando “é desta que fico atrás e não tenho irmãos mais velhos nem trouxe pão”. Felizmente, do Capelo até à Horta, seria fácil descobrir o caminho...


Polegarzinha, outro conto arrepiante. Nasceu de uma flor, sendo filha de uma senhora que desejava muito ter um filho. “Toma lá esta”, diz-lhe a fada. E a pobre da senhora tem de agradecer e tratar de uma filha do tamanho de um polegar! Não há direito! Isso é que há, segundo a moral da história, porque a senhora devia aprender a não desejar coisas para além do que a natureza lhe pode dar... A pobre da Polegarzinha ainda sofre mais do que a mãe; a certa altura, arranjam-lhe casamento com uma toupeira. Felizmente, tudo acaba como deve ser, claro. Isto dos humanos casarem com animais não é único deste conto, aliás, embora nunca seja explicado como é que as núpcias se processavam: A Bela e o Monstro, A Princesa e o Sapo, entre outros. Aliás, provavelmente, são as núpcias o único aspecto não explorado dos contos de fadas. Depois de viverem felizes para sempre, não há mais nada a acrescentar.


Porém, se não se pode falar de sexo, a violência não é um problema. Há uma carnificina quase constante e grandes chantagens psicológicas: bichos ardilosos atacam, como n’O Capuchinho Vermelho, perfídias angustiantes duram toda uma vida, como a miserável existência da Cinderela, famílias que nos odeiam e o mundo todo contra nós como o pobre Patinho Feio, gigantes que comem crianças e por aí fora. Acresce que nenhuma menina olhará com bons olhos uma madrasta depois de ler - e isto é só um exemplo - Branca de Neve, onde a malvada até o coração da enteada quis ter!... E já nem vou falar da fatal injecção que é para uma menina a ideia do Príncipe que nos há-de livrar dessas desgraças todas e que aparece em (quase) todas as histórias – compiladas por homens, claro!


Em todo o caso, como bem sabemos, os miúdos percepcionam o mundo de um modo completamente diferente dos adultos.Assim, “num primeiro nível, os contos de fadas ensinam pouco sobre a sociedade” tal como ela é hoje; mas ensinam muito “àcerca dos nossos conflitos interiores e soluções acertadas para estes” (Bettelheim). É por isso que continuam a ser tão populares – são terapêuticos e contêm a promessa de que o melhor ainda está para chegar: vamos ter todos um final feliz, mesmo que passemos muitas desventuras. Ou, por outras palavras, acaba tudo bem – se não estamos bem, é porque ainda não chegámos ao fim. 


Thursday, May 11, 2006

Isso de Ser Jovem

Ser jovem é um grande quebra-cabeças. Atenção que não estou a falar do pessoal da minha idade – os jovens na ressaca, os que “ainda” são jovens e estão a gastar aqueles últimos oportunos cartuchos da casa dos vinte anos antes de entrarem nos trinta, para passarem à fase do “subsídio”, conhecida por bancos, empresas e outros, e que, etariamente, se define por “jovem até aos 35 anos”. A partir daí, já não há juventude para ninguém, a não ser a de espírito. Não, nestas linhas estou mesmo a referir-me aos desgraçados dos adolescentes.


 Toda a gente fala com saudade do tempo em que era jovem e andava no liceu, sobretudo os pais de quem lá anda a penar agora. Estarão todos doidos? Até admira como é que se conseguiu resistir a tanta dor de alma, a tanta borbulha pungente e a tanta coisa secretamente nova, que aparecia de todos os lados. Além disso, o mundo, em geral, não ajuda nada os jovens; está repleto de ditadores, vulgo pais, professores, porteiros de discotecas, gajos que não nos deixam acampar onde a gente quer, etc, etc, etc. Isto para já não falar da falta de dinheiro gritante (porque não se ganha nenhum, claro) e do incómodo que é estar sempre a pedir aos progenitores uns trocos e ter de lhes dizer “para que é” e ouvir “vê lá não gastes isso tudo”... Uma pessoa pensa que, quando for mais velho, vai desforrar-se da vida e há-de ter muito mais dinheiro. Depois cresce e percebe que continua na miséria porque tem um emprego de treta e está cheio de contas para pagar. A diferença é que antes podíamos culpar os nossos ditadores de estimação por quase tudo o que nos acontecia (excepto casos de frustação amorosa, o que já era um grande rol...). Agora, não. Já nada nos salva. Espero, ansiosamente, pelos meus filhos, para os torturar com todas estas quezílias, segundo o bom método universal de “farás como te fizeram a ti”.


Tão ou mais importante é a ideia de liberdade. O que é que quer um adolescente? Quatro em cada cinco irá responder que quer mais liberdade. “Isso é que era bom”, diz o pai (ou a mãe, ou quem quer que tenha direitos de paternidade sobre o dito, que isto, hoje em dia, não é nada linear...). “Vens é para casa cedo, não bebas mais do que deves, diz-me lá com quem é que vais estar, e quem é que é essa gente, nunca ouvi falar deles...”, enquanto levantam a sobrancelha esquerda. Os pais, no fundo, querem é que os filhos tenham juízo. Eles, pais, não têm, mas toda a gente sabe que os pais desejam que os filhos sejam melhores do que eles. É justo, por isso que estas elevadas aspirações estejam enraízadas em todos.


Há um truque que todos os adolescentes têm tendência a usar, que é o mais que batido: “Pai, mas o pai do Miguel nunca faz essas perguntas, sou só eu que tenho de passar por isto.”  Amigos, não vão por aí. Secretamente, os vossos pais estão convencidos que são melhores pais que os outros todos. Os pais do Miguel, da Luisinha e da Cristina são uns desleixados e sempre foram tansos e está-se mesmo a ver que a desgraça lhes vai bater à porta. A desgraça virá, fatalmente, na forma de uns filhos mais que terríveis. O que é isso? Uns filhos de quem toda a gente fala! O melhor, para um pai, é ter um filho quase incógnito (para um filho também convém ter um pai low profile, mas isso o pai nunca suspeita...)


Ao fazer 18 anos, um jovem está convencido que alcança a glória. Desiludam-se. Fica tudo igual. Excepto o facto de poderem tirar carta e de serem presos quando infringirem a lei, não há muitas mais mudanças. Há outro importante facto, que é o de poderem votar, de modo que, a partir desse dia, fazem parte desse grande público que os partidos políticos designam como “Jovem” (com J maiúsculo, para causar impacto), e são, por isso, atacados por todas as frentes com slogans como “Jovem, junta-te a nós” ou “Jovem, estamos a par dos teus problemas” ou ainda “Jovem, vem construir o teu futuro” e outras banalidades do estilo. Passam a ser considerados como um “importante contributo social” só porque têm mais um dia no calendário. Antes desse dia em que podiam fazer cruzes nos boletins de voto, a preocupação com os jovens (vocês) não valia um chavo.


Outra fascinante mudança é terem de começar a pensar “o que é que vão fazer na vida”, como se não fosse a vida, na maior parte dos casos, a decidir o que vai fazer convosco. A maior parte das escolhas são saborosamente fruto de um acaso.


Dizer “os jovens”, no entanto, soa a tolice. É como dizer “os homens”” ou “os portugueses” – logo, uma generalização perigosíssima. Apesar de tudo, ainda acho que a juventude é capaz de ser a altura mais gira da vida. Ou então, não.

Thursday, April 20, 2006

As Palavras Embrulhadas em Papel de Prenda

Trabalho num lugar cheio de regras de “boa educação”- como todos, pensam vocês. Isso é que era doce! Há certos lugares onde se podem largar uns palavrões se, por acidente, tropeçamos no tapete e batemos com a canela na esquina da mesa; há outros ambientes onde qualquer palavra mais “solta” é encarada com um olhar ríspido e uma tossezinha seca e outros, ainda, onde a palavra proferida chega a manchete de jornal. Para além de trabalhar num sítio onde devemos ter cuidado com a língua (esta frase tem um sentido duplo, porque, de facto, temos mesmo de ter cuidado com o modo como usamos a língua, dado que todo o erro linguístico que façamos pode ser usado contra nós - “Então, a sra Prof. não  sabia que isto se dizia assim? Louvado!”  - Então?! Julgavam que o sentido duplo era o quê? Suas mentes perversas!), trabalho num país obcecado por regras. Em Portugal, as pessoas são mais libertas de preconceitos, apesar do que se pensa. Todos sabemos que um dos passatempos preferidos dos portugueses é criticar Portugal. Quantos países vocês conhecem que se auto-criticam tanto? Ah, pois é.


Todo este preâmbulo para chegar à estória das palavras. A minha colega tinha tido um dia mau. Quando chegou ao escritório, o computador não funcionava, para cúmulo. Ela soltou um:“What the f*ck is going on with this computer?!” que paralisou sete pessoas, em instantâneo. A infeliz ficou gelada, porque se deu conta que tinha lançado uma palavra proibida. Foi preciso substituir a coisa por um: “Something is wrong with our IT services today, gentlemen.” Suspiraram todos, de alívio. Bom, já se podia trabalhar em sossego. Ela dourou aquela pílula.


Claro, todos conhecemos o “dourar” da palavra. Às vezes, a mensagem fica tão críptica e cifrada que quase necessitamos de um dicionário (mais um diconário de sinónimos, excelente ferramenta que não me canso de aconselhar!) para decifrar o que quer dizer o emissor. Infelizmente, nem sempre temos tempo - para não falar do incómodo que é andar com essas coisas pesadíssimas – para estas manobras de detective, sobretudo quando o discurso é, todo ele, complexo e emaranhado, e não tem ponta de simplicidade nem do que se costuma chamar sumo. Como – e eis um exemplo inocente para que todos possamos compreender - os discursos dos candidados em época eleitoral. Neste caso, resta-nos dizer um “ah”de entendedor no fim, como se tivéssemos, efectivamente, percebido e, mais tarde, tentar compreender algo da alagaraviada apressada – porém repleta de palvaras distintas e sonantes – que nos foi martelada. Digo, enviada. Isto, claro, se ainda nos lembrarmos dela.


Há ocasiões – como nas conferências, por exemplo – em que se nos pusermos a analisar (se não nos der sono...) a verdadeira mensagem dos participantes, chegamos à triste conclusão que cerca de 70% por cento dos conferencistas tem um conteúdo muito pobre... mas um discurso cheio do que antigamente (na boa e directa linguagem dos nossos avós) se chamava “palavras de dez mil escudos!”. Não nos estão a dizer nada de particularmente inteligente, nem seguramente nada de original... mas o embrulho é furta-cores berrante, o laço de fita é colorido e, sobretudo, faz um estardalhaço a abrir. Palmas no fim.


Com tanto douramento de palavras, imagino já que no futuro isto se estenda a toda a população. Afinal, para alguma coisa havemos de educar os nossos “piquenos”. Eia, lá vamos! Não mais se dirão palavrões, vivam as palavras douradinhas (isto quase se aproxima a uma publicidade da Igloo; arrisco-me a ser processada por plágio!).


Certas coisas perderão, de todo, a sua essência, a sua pureza. Os jogos de futebol, por exemplo, não mais serão os mesmos. Eu cá tenho certa dificuldade em visualizar diálogos como este, que nos esperam no futuro caso insistamos em banir os palavrões:
- Membro sexual masculino! Este filho de uma senhora que se dedica a actividades sexuais  a troco de dinheiro está a roubar a nossa equipa! Macho da cabra em versão aumentativa! Aperto-lhe os tomates!
(porque tomates ainda não é palavrão... mas concordo que não fica bem; vá lá, banir por banir, que se substituam por uma leguminosa menos sanguinolenta, tipo insultuosas ervilhinhas, ou, se se quiser fazer a coisa em grande, uns elegantes repolhos.)


Perante esta nova linguagem, que confundirá os mais velhos e levará tempo a entrar no ritmo de todos, poucos ficarão contentes. Suspeito que apenas – para além dos já citados senhores que já andam a treinar-se nisto há anos – só as mães dos árbitros ficarão satisfeitas com esta nova nomenclatura. Além disso, certos nomes sonantes não mais poderão abrir a boca – a não ser com intérpretes. Casos do Pinto da Costa, do Alberto João e do Valentim Loureiro, que terão de reformular todo o seu vocabulário, de A a Z.


Thursday, April 6, 2006

A Vida Sob Outro Prisma



Nós, os que nascemos perfeitinhos (os que me conhecem estão a rir-se às fortes gargalhadas!) nunca pensamos como será ter uma deficiência, mais ou menos incapacitante. Incapacitante sobretudo porque o mundo onde vivemos não está estruturado para responder às necessidades de quem não tem a absoluta posse de todas as suas capacidades físicas ou mentais, nem a sociedade (palavra que geralmente usamos para nos referir a um mar de gente do qual nos excluímos elegantemente, sempre que nos é conveniente, mas na qual estamos incluídos de modo fatal) vê com olhos despidos de preconceitos os deficientes, os velhinhos esclerosados, os loucos – e agora, vejam lá, não façam a tolice de pensar que meto esta gente toda no mesmo pacote, como se fossem rebuçados de fruta.


Já sei que estou a usar uma data de palavras neste texto que ninguém gosta de mencionar... Já há alguns anos que vem sendo hábito não se chamarem as coisas pelos nomes (e só isto dava uma crónica completamente diferente que fica para a próxima) por um medo extraordinário das palavras. Quase tanto como o medo de olhar para as pessoas de frente que muita gente tem.


Há algumas deficências com que me deparei mais ou menos tarde na vida.


Só pensei como seria ser surdo – é quase indesculpável que me tenha ocorrido tão tarde - quando tive uma aluna surda. Nessa altura, dei-me conta de que era preciso articular muito bem as palavras (ela sabia ler nos lábios) e nunca falar quando estava de costas ou de lado, mas sempre olhando bem de frente para a minha turma. Para a minha turma, porque ela era parte da turma, não era uma alienígena que estava ali com a qual eu me tinha de me comportar como se ela fosse de Marte. Ocasionalmente, convinha repetir as coisas, sobretudo se a via franzir o nariz e os olhos, sinal de que estava com dificuldades. Era uma aula muito bem-disposta, como todas, mas foi uma aula para a qual nunca levei música porque confesso que não sei como ela iria reagir. Claro, talvez pudesse sentir as vibrações mas achei que era insistir numa diferença entre ela e os outros alunos, puxar por uma corda provavelmente sensível.


Igualmente, nunca pensei muito na cegueira. Havia um colega cego numa das escolas onde andei. Escrevia numa máquina especial, demorava mais tempo a andar pelas escadas com a bengala, tinha livros com sinais esquisitos – Braille, obviamente, mas quem se preocupava com detalhes desses na pré-adolescência? Fora isso, era um rapaz normal e entrava em muitas actividades. Às vezes, dizíamos disparates à sua frente. Coisas de miúdos que não pensam, como: “A Ana está ali, não vês?” Ele ria-se e dizia: “Por acaso, não vejo!”  ou “Dá-me a caneta vermelha”, sendo que lhe seria impossível distinguir a vermelha da azul, como é evidente. Mas tudo era feito entre risos e nunca houve uma ocasião de atrito ou de má-fé de que me lembre.


Podia continuar a enumerar situações. Isto a propósito de um artigo que li, em que uma escritora (Nancy Mairs), que sofre de esclerose múltipla, conta como vê o seu corpo degradar-se pouco a pouco. Vai perdendo as suas capacidades físicas num processo terrivelmente rápido; é ainda jovem mas o seu corpo está a tornar-se o de uma velhinha incapacitada. Diz ela que, ainda há poucas semanas, era uma mulher de saltos altos que dava conferências. Agora, anda de cadeira de rodas (e ainda bem que estas existem, caso contrário a sua locomoção era impossível) e a primeira coisa que vê do mundo, quando está numa multidão, são rabos. Juro que, depois de ler isto, passei a ter mais cuidado com os jeans que enfio.


Há uma passagem em que ela fala da sua sexualidade. Eis uma coisa da qual ninguém fala: a sexualidade de alguém que, por um motivo ou outro, está numa cadeira de rodas, é anão ou tem sete dedos numa mão e uma giga nas costas. Como ela diz: “Não é suposto os aleijados quererem sexo, muito menos fazê-lo.” São obrigados a uma castidade que não escolheram e que é, na maior parte destas situações, contra-natura. Estas pessoas não têm as hormonas em declínio. Nem sequer estão na menopausa/andropausa. Têm um corpo um bocadinho diferente e é tudo. 


Á conta disto, dei por mim a pensar nos variadíssimos adolescentes e adultos que há à minha volta de cadeira de rodas. Ou outra incapacidade física qualquer. Será que são inevitavelmente postos de parte do ponto de vista amoroso e sexual à conta disso? Se calhar, a maior parte das vezes são. Será que mais de metade disso não é mesmo preconceito nosso? Se calhar, é. Pois é.


Thursday, March 16, 2006

O Amor via Messenger



Confesso que, até há poucos anos atrás, não percebia nada do mundo virtual, vulgo internet, e do que se passa nele. Essas coisas de sites, blogs, conversas pelo messenger, chats, fóruns, buscas, e o diabo a fazer o pino (virtualmente, claro) eram-me de todo desconhecidas. Eu era uma info-excluída, que só sabia mandar e receber e-mails... Sim, porque isso de falar por messenger é recentíssimo (sobretudo para mim) e provocaria um ataque à minha bisavó, que nunca sequer entendeu como é que as pessoas da telenovela não conheciam as pessoas que apresentavam o telejornal (“Mas vocês não são amigos?”,  perguntava ela aos jornalistas, que tinham de lhe explicar que não, as telenovelas vinham de fora... “De fora? Mas não trabalham todos na televisão?” Enfim... Coisas modernas.). 


Agora, uma pessoa que está longe dos amigos, da família, do namorado tem o messenger. Acautelem-se, empresas telefónicas, a vida nao mais será a mesma! Agora, tecatecateca... e uma pessoa, em dois segundos, tem uma conversa amorosa ali à mão de semear. E custa menos (falo de dinheiro, e não de esforço, porque todos sabemos que a maior parte dos homens gosta tanto de escrever como de ir ao dentista... mas enfim, também lhes custa falar, pelo que não nos vamos meter por aí, que não adiantamos muito!)


Este messenger é um achado. Tem uma data de possibilidades. Quando uma pessoa não sabe mais o que dizer (ou quer dar mais emoção à coisa), junta-lhe um smile. Explico aqui aos pouco versados nestas coisas que um smile são aqueles bonequinhos todos giros que lá estão a fazer caretas, e sorrisos e caras de desenho animado tipo “gosto tanto de ti” ou “que raio queres tu dizer com isso?” ou ainda” estou triste hoje”. Dá imenso jeito! As mulheres, por natureza mais dadas a enfeitar as conversas, adoram enviar smiles. Os homens, não. De facto, os homens detestam smiles. É frequente os homens dizerem “não me mandes smiles, amor, que estou a fazer um download e isso faz crash ao sistema.”  Qualquer mulher sabe que ele não quer ser incomodado por umas horas quando lhe manda esta conversa. Um download pode levar toda a noite... Um homem esperto envia logo aquela bem pensada história do download. Uma mulher compreensiva (e ainda mais esperta) finge que não percebe.


O messenger tambem dá para usar microfone. Confesso que nunca usei. Parece-me um bocado ridículo, porque podíamos usar o telefone, se quisessemos ouvir a voz  do nosso amado (este palavreado do “amado” já é um bocado poético para conversas internautas, e ademais, pouco  moderno!...), mas admito que não seria tão barato. Todos sabemos que misturar amor e dinheiro é ainda menos poético do que misturar amor e internet... Na verdade, é, mais ou menos, como matar o amor à machadada. Por isso, vou passar de fininho para outro pormenor.


O que mais gosto no messenger é a possibilidade da webcam. Traduzo outra vez para os não utilizadores. É uma camerazita minúscula que passa a ser o objecto da nossa alegria porque mostra a cara de quem está a falar connosco, lá do outro lado do mundo (no outro computador, pois claro). Ás vezes, deixamos a webcam ligada. Verdadeiras e incontornáveis catástrofes podem acontecer nestes casos: o nosso interlocutor vê-nos com creme para as borbulhas, a lamber chocolate com os dedos ou a roer as unhas. É chato se o interlocutor for o nosso patrão. Sim, o messenger também serve para conversas de trabalho, por vezes. Pelo menos, eu utilizo. Isto para não falar daqueles momentos familiares em que temos o gato a saltar para cima de nós, o filho pendurado no nosso pescoço e o marido a passar de toalha enrolada (vá lá que estava de toalha!). E a webcam ligada, por azar. Por delicadeza, nem nos mencionam o facto.


A webcam, porém, pode ser gloriosamente venerada, sobretudo se estamos separados do nosso mais que tudo durante longo tempo. Vemos aquela carinha (o quadrado de felicidade proporcionado pelo messenger é ridiculamente minúsculo) e oh, que maravilha! Ficamos logo todos melados, sem descolar do pc.


Claro que também há os amores que começam e acabam na net. Esses são mais estranhos. Porque são amores sem aroma (o que seria essencial para mim,e calculo que para muitos... Como se pode saber se se gosta de alguém que nunca tivemos oportunidade de cheirar?!) e sem voz (aquela voz toda distorcida do micro nao conta!). Sem tacto, também. Sem gosto sequer. É um amor feito de palavras escritas e de uma visão distorcida pelos pixels. Mas, neste mundo, há tanta variante de amor como há pessoas. E eu também nunca afirmei que percebia nada de amores... e menos ainda da internet.

Thursday, March 2, 2006

Os Países "Desenvolvidos"


Estavam à espera que vos falasse do Carnaval, mas tenham paciência... É que no país onde, actualmente, estou a viver não se celebra o Carnaval e a coisa passou-me ao lado como se nem existissem balões de água e serpentinas. Isto não é inteiramente verdade, dado que há uma coisa vagamente carnavalesca na parte francófona do Canadá, a que chamam Mardi Gras. Portanto, até pelo nome, podem ver que o Carnaval do Canadá resume-se a uma Terça-feira Gorda.  E só existe no Quebéc, que nem é onde estou.


Carnavais à parte (e a minha vida à parte, que também não vos interessa), já acabou esse rito de fantasia e já podem deixar cair as máscaras. Foi a propósito de máscaras e fantasias que me ocorreu esta ideia sobre os países desenvolvidos.


Todos nós – vá lá, a maior parte, porque de certeza há-de aparecer um iluminado a dizer que nunca teve este conceito entranhado... – pensamos no mapa e, pelo que ouvimos veiculado nas notícias, pelo que aprendemos na escola, pelo que fomos adquirindo no convívio social ao longo dos anos, criamos esta imagem de um certo número de países que chamamos desenvolvidos por oposição áqueles que não o são (ou que o são em menor grau). Claro que há aqui uma interessante escadinha: um português, por exemplo, dirá que a França é um país desenvolvido (ou que os E.U.A. são um país desenvolvido, dependendo da conotação que cada qual entender dar à palavra). Já um cingalês, por exemplo, pode achar que Portugal é um país desenvolvido (escolho esta nacionalidade à sorte, porque na minha profissão deparo-me com muitas e esta situação já me aconteceu; eu cá nunca fui ao Sri Lanka e não sei como se vive por lá!).


Note-se que o “desenvolvido” pode vir seguido de uma adversativa “mas...” se não concordarmos com as posições político-humanitárias dos países em questão. O desenvolvimento não está só patente na economia, que se reflecte imediatamente na qualidade de vida da maior parte dos cidadãos – da maior parte, sim... porque não têm todos carros e não falta gente a dormir na rua – mas também no grau de liberdade de pensamento dos mesmos, na igualdade de oportunidades, etc, e na tolerância que se manifesta para com outras culturas. Isto posto assim, não sei se estes países que “admiramos” serão tão desenvolvidos, com o maior respeito que tenho por todas as culturas... E apontando o dedinho acusador para nós próprios também.


O que mais me faz impressão nos países desenvolvidos é a falta de conhecimento que têm acerca das culturas que eles julgam ser inferiores à sua – a não ser que as achem “giras e muito típicas” para umas feriazitas a contar aos amigos. Assim, o Canadá desconhece  completamente o que será isso de Portugal (Açores então, nem falemos nisso!) e frequentemente pessoas bem intencionadas me perguntam se posso tirar-lhes dúvidas acerca da gramática espanhola. É preciso explicar que Portugal é um país, com língua própria e tudo, ahn? Obrigada. Já sei, os senhores vão dizer-me que a vossa família no Canadá conhece muita gente que sabe tudo sobre Portugal. Como sabem, as comunidades emigrantes, seja de que país forem, vivem em bairros todas juntinhas... Se sairem daquelas zonas, entram num mundo onde Portugal, a Ucrânia, o Paquistão já não existem. Eu vivo onde Portugal não existe.


Outro dia, na zona internacional do aeroporto de Toronto, uma senhora hispânica perguntava ao funcionário se era ali que saíam os passageiros do voo de Cuba. “Isso depende”- diz ele -“Cuba... isso é no Canadá?”. “Não, não! Cuba... a ilha. Sabe, o país!”, responde a senhora, cheia de paciência. “Sei lá, minha senhora, nunca ouvi falar.” “É um país.” “Tem a certeza? Se é um país qualquer, a senhora está no sítio certo; se é um sítio remoto do Canadá, tem de ir para outro terminal.”


A ignorância pelo que consideram, seja de que modo for, inferior... Lamentável. Não vejo como a ignorância corresponde a desenvolvimento. Devia estar a dormir quando passaram a ser sinónimos.


Em Portugal, agora que somos, em tanta coisa desenvolvidos, começamos a comportar-nos assim... para com quem achamos inferior, claro. Porque para com os que nem sabem o nosso nome e onde ficamos no mapa, temos uma reverência canina. Só falta abanarmos o rabo e fazermos ão ão. Nem sei bem qual o respeito que perdemos mais: se aquele que tínhamos por nós mesmos ou que devíamos ter pelo próximo.