... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, July 20, 2006

Em Busca de um Fio…

El Gran Laberinto, o novo livro de Fernando Savater, é um romance de aventuras juvenil. Este rótulo – é necessário enquadrar o que se escreve num género qualquer, para agradar aos teóricos e confortar os entrevistadores (e vice-versa!) – é explicado pelo autor: “Um livro que só agrade a uma criança não vale a pena nem para a criança. A literatura juvenil é aquela que também pode agradar aos jovens.” Fã incondicional de Júlio Verne, de R. L. Stevenson e de todos os relatos iniciáticos que marcam os anos inquietantes de aventura e descoberta adolescente, este catedrático de Ética da Universidad Complutense de Madrid opina que escrever para jovens obriga a renunciar aos artifícios pedantes de que geralmente se socorre um escritor: “Podes impressionar um adulto com uma citação de Habermas ou de Popper, mas um puto de 13 anos não se impressiona minimamente. Tens de te defender com as tuas próprias armas. Não te podes esconder em truques eruditos. Os jovens obrigam-te a seres directo, e isso faz com o que escrevas valha por si mesmo. Deitas fora as tuas muletas culturais. Nós, os do mundo académico, temos muitas vezes essa tendência: a de nos refugiarmos atrás das citações. São muralhas! È por isso que gosto tanto deste exercício – fico com o corpo  a descoberto.”


Savater é muito conhecido pelos seus livros La infancia recuperada, Ética para Amador e Politica para Amador, todos eles com uma dimensão pedagógica acentuada. Educar é, para este professor, algo de apaixonante e não uma tortura, pelo que faz sentido passar essa mensagem nas suas obras. Entenda-se “educar” como “aproximar as ideias das pessoas para que possam ser melhor compreendidas” e não a filosofia discursiva de uma elite ou a massificação de um didactismo aborrecido. Aliás, a literatura pressupõe-se divertida. O próprio Savater confessa ser, como José Luís Borges, um leitor hedónico, que não seria nada mais se lhe pagassem somente para viver lendo: “A leitura é, em primeiro lugar, um prazer e os prazeres não se impõem, comunicam-se por contágio.O prazer da leitura tem de ser contagiante.”


A ideia de El Gran Laberinto foge à noção estrutural de um romance deste sub-género (na época pós-moderna, à falta de melhor adjectivação para o casino temporal em que vivemos, ainda subsistirão estes esquemas?) -  a intenção do autor era construí-lo como se fosse um vídeo-jogo. De facto, foi a sua mulher, aficcionada dos vídeo-jogos e já cansada das críticas que se faziam a quem passava a vida de comando na mão, quem lhe deu a ideia: em vez de criticar tanto o pessoal fã dos jogos de computador, e de dizer que os putos não lêem e são uns viciados do ecrã, porque não tentar fazer um romance juvenil de aventuras que lhes desse exactamente o que lhes dão os vídeo-jogos – aventura, risco, o poder de decidir, de escolher, a febre da luta, a ultrapassagem de si mesmos e a glória de um objectivo final?


Savater entendeu que todo o vídeo-jogo não é mais que uma forma de mecanismo iniciático e, no fundo, de educação – fonte de experiência através de determinadas passagens e consultas, daí que agrade tanto ao adolescente. Com uma certa perícia, chega-se à glória; quando não, não há recompensa. São uma forma imaginativa de recuperar histórias. Para tempos diferentes, um modo diferente de narração.


El Gran Laberinto pretende ser, assim, um multimédia convertido em romance, em que cada viagem das personagens trata de um problema actual – o fanatismo religioso, a violência sobre os mais fracos, a ciência ao serviço da guerra, etc. Isto porque o autor acredita que a literatura é, a seu modo, uma espécie de farmácia, na qual há remédios para todas as doenças, basta procurarmos. Preocupa-o, de modo particular, a questão dos nacionalismos (Savater é natural do País Basco, sofreu variadas agressões na sua região e, assinale-se, venceu o Prémio Sakharov de Direitos Humanos). Segundo ele, “o problema dos nacionalismos não é um problema real como a fome, a educação ou o desemprego. Não são os territórios que têm direitos, mas sim os cidadãos. E é com os cidadãos, não com os territórios, que devemos preocupar-nos.” A mesma posição assume em relação à língua: “São os falantes que têm direito à língua, não as línguas que têm direito a procurar falantes. Se os falantes decidem falar outra, têm esse direito. Os nacionalismos crêem que tudo tem direitos, excepto as pessoas.”


Para este educador, as pessoas e o seu viver são o mais importante. Assim, ele gostaria que os seus livros fossem pontos de partida e não de chegada. Partidas para outras leituras, outros prazeres. É por isso que há tantas referências e pistas para um leitor atento.


El Gran Laberinto não deixa de ser polémico, sobretudo por se coadunar com a internet, de certa forma. Savater crê que não podemos negar a modernidade. Para ele, “ler é ler um livro” e nada retira o prazer do papel. Mas é compreensível que outras gerações tenham outros interesses porque nasceram dentro de outro espectro de circunstâncias: “O que é preciso é conservar vivo o prazer que a leitura encerra. Pensemos que muitos dos nossos antepassados, tão importantes intelectualmente, nunca tiveram um livro, em sentido moderno - Séneca, Aristóteles... nunca leram nenhum.”


Mas isso de ler não é fugir a uma vida, a um viver no sentido verdadeiro do verbo? Savater diz-nos que “as coisas mais belas, como o amor, como a religião, têm sido tremendamente mal usadas. Com a literatura, pode acontecer o mesmo.”


Wednesday, June 28, 2006

O Futebol é Assim...


Grosso modo, os portugueses podem dividir-se em dois grupos: os que gostam de futebol e os que até nem se importam com futebol mas vão vendo quando calha, nomeadamente (advérbio caríssimo aos comentadores desportivos!) quando a Selecção Nacional joga. Já a diferença entre aqueles que percebem de futebol e os que não percebem nada disso é irrelevante, pois, como é do conhecimento geral, todos os do primeiro grupo (os que gostam de futebol), são especialistas soberanos na matéria.


Portugal tem cerca de 6500 treinadores de futebol potenciais. Estão por todo o lado, mas o local preferencial de encontro é o café da esquina. Não havendo café e estando sol, a  esquina também serve.


É por esta razão que é tão difícil ser “treinador de facto”, já que toda a gente julga saber do negócio e, o que é mais importante ainda, está genuinamente interessada nele. Deve ser por isso que pagam tanto aos treinadores, coitados, para que possam aguentar a pressão vinda de tantos quadrantes. Pobres vítimas sociais! Em breve, haverá uma neurose denominada “Síndroma do treinador” se continuarmos a pressioná-los de forma tão inumana.


Ser jogador é mais fácil, porque a popularidade de um jogador é para o bem e para o mal. Tanto são elevados a heróis nacionais como subjugados a grandes estupores que não merecem a relva que pisam e deviam era comê-la (tudo depende, claro, do resultado do jogo). Excepção feita aos guarda-redes: os homens da baliza são uns marginais que nem na própria equipa se enquadram; estão sempre à parte, porque não são tidos para as vitórias mas são sempre lembrados nas derrotas. A única altura em que alguém se lembra dos guarda-redes com uma pontinha de orgulho é quando defendem uma grande-penalidade e, mesmo assim, logo chovem uma data de frases, como a célebre (e injusta): “Um penalty não se defende, marca-se” (outro chavão que confesso não saber quem disse originalmente, mas logo foi copiado por  todos os comentadores desportivos e treinadores de bancada, incessantemente, até hoje). Não há direito. Assim, não há miúdos que queiram ser guarda-redes. Os putos são forçados a irem para a baliza  nas escolas, porque não há ninguém que queira ir apanhar com as frustrações rematadas de toda a gente. Por outro lado, todos sonham em ser “jogadores de campo” (expressão giríssima, como se o o guarda-redes não estivesse em campo, mas na bancada ou na pastelaria em frente, debicando uma nata e bebendo um café durante os 90 minutos).


Pior que ser guarda-redes é ser árbitro. Ninguém, de nenhuma equipa, tem simpatia pelo árbitro. Está contra nós, foi, de certeza, subornado pelos outros, e – para cúmulo! – é muito claro que não sabe as regras. Qualquer adepto sabe mil vezes mais de futebol que o árbitro. É a ignorância dele que irrita, aliada à insegurança portuguesa e àquela pontinha de desconfiança que faz todos acreditarem que aquele “caramelo” só pode ter sido levado pela outra equipa a acabar connosco. Bandido! O mundo sempre esteve contra nós. Até admira como é que chegámos tão longe no Europeu. Ninguém nos ama e nós (pobrezinhos mas honrados) não compramos árbitros; não baixamos o nível como essa gente (os outros todos, todos).


Há uma série de mitos em relação ao futebol que importa fazer cair. O primeiro é que as mulheres percebem menos de futebol que os homens e que, quando vêem futebol, o fazem para observar os jogadores. Isto só pode ser uma ideia masculina, porque qualquer mulher com uma visão 20/20 sabe que os actuais jogadores deixam muito a desejar (deixar a desejar é o termo certo porque não há desejo que se acenda com uma observação dos ditos). Reparem no ar de menino-bem de alguns jogadores de agora, e no modo como passam a mãozinha pelo cabelinho. Apetece mandá-los mudar o sapatinho e irem jogar golfe, com os respectivos caddies. Depois, misturam o ar de rapaz-da-Linha-sei-lá com a escarradela para o chão a toda a hora (mesmo depois do jogo já ter acabado). Logo, não estou a ver a que propósito é que alguém se há-de encantar com semelhantes espécimes. Há poucos anos, havia jogadores giros, mas esfumaram-se. Paciência. Não se pode ter sempre uma equipa que cative turistas.


Outro mito é que o pessoal ligado ao futebol é pouco inteligente e dá respostas estúpidas. Em boa verdade, também só lhes fazem perguntas cretinas, que não são passíveis de boas respostas. Nunca esqueci estas: “Como é que se sente?” (feita a um jogador, vítima de fractura exposta, quando o infeliz estava a sair de maca); “O que acha de ter passado de besta a bestial?” (muito acertadamente respondida “já não é a primeira vez!”); “O que vai fazer para dentro do campo?” (feita a um avançado que entrou quando a sua equipa estava a perder). Não pode ser! Estupidificam-se os senhores e depois faz-se troça deles.


Há ainda a ideia de que os intelectuais portugueses não gostam de futebol, a não ser que o digam por motivos políticos. Na verdade, a maior parte gosta, mas carrega más memórias da escola, onde os tratavam mal porque eles não sabiam jogar. Reparem que a elite nunca é do Benfica, clube plebeu e de massas que, ainda por cima, fica geograficamente perto da Amadora, da Damaia e de todas essas zonas duvidosas onde o pessoal não usa gravata. Quando muito, usa navalha. A elite é do Sporting, muito mais Lumiar, Telheiras e sempre em festa. Do Porto, nem falo, porque todos sabemos que o dragão é uma coisa mitológica e não existe.


Porém, agora, somos todos portugueses e estamos com a selecção. Mesmo o pessoal cheio de ideias independentistas para os Açores, agora é orgulhosamente português. Embora não haja açoriano que não goste mais do Pauleta que dos outros jogadores... provavelmente porque ele, apesar de super estrela, é sempre o rapaz simpático, vizinho aqui do lado.   


Friday, June 9, 2006

A Cultura, essa Especialidade Geral



Não se sabe bem quando é que começou a aparecer em vários senhores e senhoras a “febre da cultura”, mas suspeita-se que seja contagiosa, porque tem atacado imensa gente que até há poucos meses nem sabia (o exemplo é arbitrário) distinguir um Picasso de um Monet - com este remate ficam a perceber que este texto não é sobre a cultura dos campos, e também podia ser, que a “cultura” em si tanto nutre corpos como espíritos (a prová-lo está a etimologia da palavra).  A febre de que falo bem podia ser uma  epidemia saborosa (passem por cima do paradoxo, se fazem favor, e vamos ao que interessa!)  que isto de se remeter os assuntos culturais para meia dúzia de iluminados pensadores e ilustres artistas, curiosamente sempre dentro da mesma roda de amigos (?), ora agora apresento eu o teu livro e amanhã fazes tu o prefácio para o meu,  cansa muito, é redutora e o cidadão dito comum não é parvo (enfim, alguns são mesmo idiotas, mas já sabem que tenho de falar no geral, não é?). Dizia eu, porém,  que a tal febre, infelizmente, é uma coisa por demais aflitiva, e quase se diria anti-cultural.


Podia, agora, pretensiosamente, encher umas páginas com várias definições de “o que é a cultura”, cedendo aos hábitos de docente, mas ficam os leitores deste jornal muito mais bem servidos se forem procurar por si próprios em Edward Taylor, Ernst Cassirer, Ortega y Gasset, por exemplo (e fico por aqui, porque é quase Verão e estas leituras não combinam com cerveja).


Convencionou-se que “cultura” é “tudo”. Depreendeu-se que, já que é “o conjunto dos produtos, dos actos e processos especificamente humanos” (Francisco Romero, uma definição possível), então cabe tudo lá dentro – com perdão da frase! Ora, já que é “tudo”, “qualquer um” (eu, tu, a vizinha Maria e o gato dela, o sr. Dr. Pancrácio deputado e o sobrinho dentista mais-a-menina-que-está-tirando-um-dente-e-tem-a-boca-aberta) pode opinar sobre isso. Isso o quê? Pois, isso tudo. Chamemos a senhora que vende uvas, a mulher do deputado e um assessor de imprensa e façamos um debate.


Agora vem a parte pior. Nos debates ninguém discute ideias. Dá-se um parecer - como na função pública-, tem-se um outro olhar - expressão tão na moda que todos os utilizadores de óculos se sentem, de repente, muito mais charmosos e importantes-,  dizem-se opiniões pessoalíssimas (e, como é sabido, cada qual tem a sua, sendo a da vizinha Maria tão válida, enquanto pessoa, como a do Pancrácio e a da menina-da-boca-aberta). Se tudo o que fazem é dar opiniões enquanto cidadãos e não especialistas em determinado assunto, então podemos todos dar opinião, viva, viva, eu também quero e o menino que está ali na Praça da República também tem algo de interessante a acrescentar a este tema e à problemática da questão. As construções com que mais se começam frases são “Eu acho que... Julgo que... Há aspectos importantes a ressalvar aqui, na minha opinião... Tenho ideia que...”  Se analisarmos bem a coisa aquele “Eu acho que... “ equivale a que não se percebe nada do assunto, mas lá ter-se uma opinião sobre ele, isso não falha! Os próprios jornalistas – manhosos! – já perguntam: “O que é que o senhor ministro acha disto?”, encurralando o infeliz na opinião de trazer por casa. Apetece responder “Cheira-me que a sra. jornalista é capaz de ter razão!” No fundo, ninguém percebe nada dos assuntos de que debita, mas o importante é nunca dizer “Não sei” e, sobretudo, emitir uma opinião porque há muita gente com o receptor ligado. Além disso, sofre-se de uma grande falta de conclusões verdadeiramente pessoais, o que é muito, mas muito mais grave. Grande parte das ideias são roubadas do Reader’s Digest, do vizinho, da internet que se devora, do que se ouviu dizer no café.


Antigamente, éramos um país de poetas. Hoje, não. Somos um país de pensantes (e não pensadores, coisa que implica que pensamos realmente quase todos e, como disse acima, isso é que era doce!) e, o que é mais, de pensantes cultos, especialistas em generalidades  - atenção ao contra-senso! - e que procuram subsidíos para a publicação de livros e a pintura de quadros (ainda não chegou a febre à música e à dança, mas o dia aproxima-se a passos larguíssimos!).  Todos conhecemos algumas destas obras sublimes: quadros que, por pudor, não confessamos serem tal e qual os desenhos que o nosso filho fazia na creche, acompanhados de títulos sonantes, do estilo “O Obscuro Impossível” ou “ Depois do Mito, o Feminino Esplendor” (estes inventei-os agora; rezo para que não sejam cartaz de nenhum pós-moderno!); livros de poem(inh)as, em que o “amor” por uma bela “flor” está sempre repleto de “dor” num tempo de “calor” (estes livros são um horror, mas o autor – perdão por tanta rima! – já se julga um Nemésio ou um Antero, porque são os dois únicos poetas açorianos que ele conhece, fora a Natália porque foi deputada).  Há ainda outro estilo, mais em voga nos auto-denominados novos intelectuais, que consiste numa página quase em branco com excepção de duas linhas de poema no fim da página, linhas essas de grande rebuscamento lexical, mas que, espremidinhas, são muito menos avassaladoras que um “ditado” da minha avó (salta a malta da cultura popular a lembrar que isso também é cultura!).


No fundo, o que  assusta é o afundamento da cultura, ao se pretender elevá-la. Seria desejável que assim fosse e que a sociedade partilhasse conhecimentos e experiências. Mas não parece que seja isso o que se procura nem o que está a acontecer. O Homem culto reflecte, tenta estabelecer relações, questiona, problematiza, mas as suas conclusões são provisórias, porque este mundo onde estamos todos - sim, todos! - não tem as certezas absolutas, as conclusões paginadas que os devoradores de enciclopédias (via net, por ser mais moderno)  e os debitadores de “a mim, parece-me que...” nos querem fazer engolir.


Thursday, May 25, 2006

Era Uma Vez...

Imbuída da maior boa vontade, decidi separar alguns dos livros que lia em criança para dar a uns miúdos que conheço e que gostam de ler. Isso de dizerem que os putos não gostam de ler é uma mentirada de todo o tamanho – a maior parte das bibliotecas infanto-juvenis têm mais adeptos do que as bibliotecas reservadas aos adultos e só isso já seria prova suficiente; claro que houve, há e sempre haverá crianças que não gostam, mas também não podemos ser todos iguais.


Os meus livros eram intemporais, coisas como a parafernália aventureira dos Cinco, dos Sete e outros em que a criançada come alarvemente grandes jantares e almoços ao ar livre, descobre, por intuição e esperteza congénitas, ladrões e contrabandistas muito mais depressa do que os totós da autoridade vigente, anseia pelas férias para ir acampar com o cão  perto de faróis e rochedos e anda de bicicleta a mil à hora. Logo, livros que contam coisas verosímeis, susceptíveis de acontecer a qualquer tipo que tem entre 10 a 12 anos. Além disso, lembro-me perfeitamente que os pais destes heróis eram pessoas muito fora da realidade, sendo um deles até um cientista que não sabia que andava neste mundo, apesar de ser invulgarmente inteligente. Tal e qual a imagem que uma criança tem dos pais.


Infelizmente, tive de pôr de parte estas extraordinárias sagas, porque os putos a quem eu ia dar os livros eram bem mais novos e não liam livros com tantas páginas. Virei-me, assim, para os contos de encantar de Grimm e de Perrault. Com honestidade, deviam ser chamados contos de terror, tal é o grau de violência que encontrei naquelas páginas ao fim de tantos anos – assassinatos (neste particular, há de tudo, de fraticídios a parricídios, passando pelas outras variantes), canibalismo, mutilações, e um não acabar de cenas que fazem arrepiar os cabelos! Não sei como podia eu ter um sono  descansadinho todas as noites, depois de ler uma historiazinha destas (“para dormir melhor”, meu Deus!).


Hansel e Gretel, por exemplo. Todos sabemos do que se trata: os pais  vêem-se na penúria  e decidem abandonar os filhos na floresta; eles, espertos, ouvem a conversa por acaso e tentam marcar o caminho com migalhas de pão que os passarinhos acabam por comer. Imaginem o sufoco que não terei tido, depois de ler este conto, quando ouvi discutir os problemas económicos lá de casa. Decerto nunca mais me senti confortável ao visitar o parque florestal do Capelo, intimamente pensando “é desta que fico atrás e não tenho irmãos mais velhos nem trouxe pão”. Felizmente, do Capelo até à Horta, seria fácil descobrir o caminho...


Polegarzinha, outro conto arrepiante. Nasceu de uma flor, sendo filha de uma senhora que desejava muito ter um filho. “Toma lá esta”, diz-lhe a fada. E a pobre da senhora tem de agradecer e tratar de uma filha do tamanho de um polegar! Não há direito! Isso é que há, segundo a moral da história, porque a senhora devia aprender a não desejar coisas para além do que a natureza lhe pode dar... A pobre da Polegarzinha ainda sofre mais do que a mãe; a certa altura, arranjam-lhe casamento com uma toupeira. Felizmente, tudo acaba como deve ser, claro. Isto dos humanos casarem com animais não é único deste conto, aliás, embora nunca seja explicado como é que as núpcias se processavam: A Bela e o Monstro, A Princesa e o Sapo, entre outros. Aliás, provavelmente, são as núpcias o único aspecto não explorado dos contos de fadas. Depois de viverem felizes para sempre, não há mais nada a acrescentar.


Porém, se não se pode falar de sexo, a violência não é um problema. Há uma carnificina quase constante e grandes chantagens psicológicas: bichos ardilosos atacam, como n’O Capuchinho Vermelho, perfídias angustiantes duram toda uma vida, como a miserável existência da Cinderela, famílias que nos odeiam e o mundo todo contra nós como o pobre Patinho Feio, gigantes que comem crianças e por aí fora. Acresce que nenhuma menina olhará com bons olhos uma madrasta depois de ler - e isto é só um exemplo - Branca de Neve, onde a malvada até o coração da enteada quis ter!... E já nem vou falar da fatal injecção que é para uma menina a ideia do Príncipe que nos há-de livrar dessas desgraças todas e que aparece em (quase) todas as histórias – compiladas por homens, claro!


Em todo o caso, como bem sabemos, os miúdos percepcionam o mundo de um modo completamente diferente dos adultos.Assim, “num primeiro nível, os contos de fadas ensinam pouco sobre a sociedade” tal como ela é hoje; mas ensinam muito “àcerca dos nossos conflitos interiores e soluções acertadas para estes” (Bettelheim). É por isso que continuam a ser tão populares – são terapêuticos e contêm a promessa de que o melhor ainda está para chegar: vamos ter todos um final feliz, mesmo que passemos muitas desventuras. Ou, por outras palavras, acaba tudo bem – se não estamos bem, é porque ainda não chegámos ao fim. 


Thursday, May 11, 2006

Isso de Ser Jovem

Ser jovem é um grande quebra-cabeças. Atenção que não estou a falar do pessoal da minha idade – os jovens na ressaca, os que “ainda” são jovens e estão a gastar aqueles últimos oportunos cartuchos da casa dos vinte anos antes de entrarem nos trinta, para passarem à fase do “subsídio”, conhecida por bancos, empresas e outros, e que, etariamente, se define por “jovem até aos 35 anos”. A partir daí, já não há juventude para ninguém, a não ser a de espírito. Não, nestas linhas estou mesmo a referir-me aos desgraçados dos adolescentes.


 Toda a gente fala com saudade do tempo em que era jovem e andava no liceu, sobretudo os pais de quem lá anda a penar agora. Estarão todos doidos? Até admira como é que se conseguiu resistir a tanta dor de alma, a tanta borbulha pungente e a tanta coisa secretamente nova, que aparecia de todos os lados. Além disso, o mundo, em geral, não ajuda nada os jovens; está repleto de ditadores, vulgo pais, professores, porteiros de discotecas, gajos que não nos deixam acampar onde a gente quer, etc, etc, etc. Isto para já não falar da falta de dinheiro gritante (porque não se ganha nenhum, claro) e do incómodo que é estar sempre a pedir aos progenitores uns trocos e ter de lhes dizer “para que é” e ouvir “vê lá não gastes isso tudo”... Uma pessoa pensa que, quando for mais velho, vai desforrar-se da vida e há-de ter muito mais dinheiro. Depois cresce e percebe que continua na miséria porque tem um emprego de treta e está cheio de contas para pagar. A diferença é que antes podíamos culpar os nossos ditadores de estimação por quase tudo o que nos acontecia (excepto casos de frustação amorosa, o que já era um grande rol...). Agora, não. Já nada nos salva. Espero, ansiosamente, pelos meus filhos, para os torturar com todas estas quezílias, segundo o bom método universal de “farás como te fizeram a ti”.


Tão ou mais importante é a ideia de liberdade. O que é que quer um adolescente? Quatro em cada cinco irá responder que quer mais liberdade. “Isso é que era bom”, diz o pai (ou a mãe, ou quem quer que tenha direitos de paternidade sobre o dito, que isto, hoje em dia, não é nada linear...). “Vens é para casa cedo, não bebas mais do que deves, diz-me lá com quem é que vais estar, e quem é que é essa gente, nunca ouvi falar deles...”, enquanto levantam a sobrancelha esquerda. Os pais, no fundo, querem é que os filhos tenham juízo. Eles, pais, não têm, mas toda a gente sabe que os pais desejam que os filhos sejam melhores do que eles. É justo, por isso que estas elevadas aspirações estejam enraízadas em todos.


Há um truque que todos os adolescentes têm tendência a usar, que é o mais que batido: “Pai, mas o pai do Miguel nunca faz essas perguntas, sou só eu que tenho de passar por isto.”  Amigos, não vão por aí. Secretamente, os vossos pais estão convencidos que são melhores pais que os outros todos. Os pais do Miguel, da Luisinha e da Cristina são uns desleixados e sempre foram tansos e está-se mesmo a ver que a desgraça lhes vai bater à porta. A desgraça virá, fatalmente, na forma de uns filhos mais que terríveis. O que é isso? Uns filhos de quem toda a gente fala! O melhor, para um pai, é ter um filho quase incógnito (para um filho também convém ter um pai low profile, mas isso o pai nunca suspeita...)


Ao fazer 18 anos, um jovem está convencido que alcança a glória. Desiludam-se. Fica tudo igual. Excepto o facto de poderem tirar carta e de serem presos quando infringirem a lei, não há muitas mais mudanças. Há outro importante facto, que é o de poderem votar, de modo que, a partir desse dia, fazem parte desse grande público que os partidos políticos designam como “Jovem” (com J maiúsculo, para causar impacto), e são, por isso, atacados por todas as frentes com slogans como “Jovem, junta-te a nós” ou “Jovem, estamos a par dos teus problemas” ou ainda “Jovem, vem construir o teu futuro” e outras banalidades do estilo. Passam a ser considerados como um “importante contributo social” só porque têm mais um dia no calendário. Antes desse dia em que podiam fazer cruzes nos boletins de voto, a preocupação com os jovens (vocês) não valia um chavo.


Outra fascinante mudança é terem de começar a pensar “o que é que vão fazer na vida”, como se não fosse a vida, na maior parte dos casos, a decidir o que vai fazer convosco. A maior parte das escolhas são saborosamente fruto de um acaso.


Dizer “os jovens”, no entanto, soa a tolice. É como dizer “os homens”” ou “os portugueses” – logo, uma generalização perigosíssima. Apesar de tudo, ainda acho que a juventude é capaz de ser a altura mais gira da vida. Ou então, não.

Thursday, April 20, 2006

As Palavras Embrulhadas em Papel de Prenda

Trabalho num lugar cheio de regras de “boa educação”- como todos, pensam vocês. Isso é que era doce! Há certos lugares onde se podem largar uns palavrões se, por acidente, tropeçamos no tapete e batemos com a canela na esquina da mesa; há outros ambientes onde qualquer palavra mais “solta” é encarada com um olhar ríspido e uma tossezinha seca e outros, ainda, onde a palavra proferida chega a manchete de jornal. Para além de trabalhar num sítio onde devemos ter cuidado com a língua (esta frase tem um sentido duplo, porque, de facto, temos mesmo de ter cuidado com o modo como usamos a língua, dado que todo o erro linguístico que façamos pode ser usado contra nós - “Então, a sra Prof. não  sabia que isto se dizia assim? Louvado!”  - Então?! Julgavam que o sentido duplo era o quê? Suas mentes perversas!), trabalho num país obcecado por regras. Em Portugal, as pessoas são mais libertas de preconceitos, apesar do que se pensa. Todos sabemos que um dos passatempos preferidos dos portugueses é criticar Portugal. Quantos países vocês conhecem que se auto-criticam tanto? Ah, pois é.


Todo este preâmbulo para chegar à estória das palavras. A minha colega tinha tido um dia mau. Quando chegou ao escritório, o computador não funcionava, para cúmulo. Ela soltou um:“What the f*ck is going on with this computer?!” que paralisou sete pessoas, em instantâneo. A infeliz ficou gelada, porque se deu conta que tinha lançado uma palavra proibida. Foi preciso substituir a coisa por um: “Something is wrong with our IT services today, gentlemen.” Suspiraram todos, de alívio. Bom, já se podia trabalhar em sossego. Ela dourou aquela pílula.


Claro, todos conhecemos o “dourar” da palavra. Às vezes, a mensagem fica tão críptica e cifrada que quase necessitamos de um dicionário (mais um diconário de sinónimos, excelente ferramenta que não me canso de aconselhar!) para decifrar o que quer dizer o emissor. Infelizmente, nem sempre temos tempo - para não falar do incómodo que é andar com essas coisas pesadíssimas – para estas manobras de detective, sobretudo quando o discurso é, todo ele, complexo e emaranhado, e não tem ponta de simplicidade nem do que se costuma chamar sumo. Como – e eis um exemplo inocente para que todos possamos compreender - os discursos dos candidados em época eleitoral. Neste caso, resta-nos dizer um “ah”de entendedor no fim, como se tivéssemos, efectivamente, percebido e, mais tarde, tentar compreender algo da alagaraviada apressada – porém repleta de palvaras distintas e sonantes – que nos foi martelada. Digo, enviada. Isto, claro, se ainda nos lembrarmos dela.


Há ocasiões – como nas conferências, por exemplo – em que se nos pusermos a analisar (se não nos der sono...) a verdadeira mensagem dos participantes, chegamos à triste conclusão que cerca de 70% por cento dos conferencistas tem um conteúdo muito pobre... mas um discurso cheio do que antigamente (na boa e directa linguagem dos nossos avós) se chamava “palavras de dez mil escudos!”. Não nos estão a dizer nada de particularmente inteligente, nem seguramente nada de original... mas o embrulho é furta-cores berrante, o laço de fita é colorido e, sobretudo, faz um estardalhaço a abrir. Palmas no fim.


Com tanto douramento de palavras, imagino já que no futuro isto se estenda a toda a população. Afinal, para alguma coisa havemos de educar os nossos “piquenos”. Eia, lá vamos! Não mais se dirão palavrões, vivam as palavras douradinhas (isto quase se aproxima a uma publicidade da Igloo; arrisco-me a ser processada por plágio!).


Certas coisas perderão, de todo, a sua essência, a sua pureza. Os jogos de futebol, por exemplo, não mais serão os mesmos. Eu cá tenho certa dificuldade em visualizar diálogos como este, que nos esperam no futuro caso insistamos em banir os palavrões:
- Membro sexual masculino! Este filho de uma senhora que se dedica a actividades sexuais  a troco de dinheiro está a roubar a nossa equipa! Macho da cabra em versão aumentativa! Aperto-lhe os tomates!
(porque tomates ainda não é palavrão... mas concordo que não fica bem; vá lá, banir por banir, que se substituam por uma leguminosa menos sanguinolenta, tipo insultuosas ervilhinhas, ou, se se quiser fazer a coisa em grande, uns elegantes repolhos.)


Perante esta nova linguagem, que confundirá os mais velhos e levará tempo a entrar no ritmo de todos, poucos ficarão contentes. Suspeito que apenas – para além dos já citados senhores que já andam a treinar-se nisto há anos – só as mães dos árbitros ficarão satisfeitas com esta nova nomenclatura. Além disso, certos nomes sonantes não mais poderão abrir a boca – a não ser com intérpretes. Casos do Pinto da Costa, do Alberto João e do Valentim Loureiro, que terão de reformular todo o seu vocabulário, de A a Z.


Thursday, April 6, 2006

A Vida Sob Outro Prisma



Nós, os que nascemos perfeitinhos (os que me conhecem estão a rir-se às fortes gargalhadas!) nunca pensamos como será ter uma deficiência, mais ou menos incapacitante. Incapacitante sobretudo porque o mundo onde vivemos não está estruturado para responder às necessidades de quem não tem a absoluta posse de todas as suas capacidades físicas ou mentais, nem a sociedade (palavra que geralmente usamos para nos referir a um mar de gente do qual nos excluímos elegantemente, sempre que nos é conveniente, mas na qual estamos incluídos de modo fatal) vê com olhos despidos de preconceitos os deficientes, os velhinhos esclerosados, os loucos – e agora, vejam lá, não façam a tolice de pensar que meto esta gente toda no mesmo pacote, como se fossem rebuçados de fruta.


Já sei que estou a usar uma data de palavras neste texto que ninguém gosta de mencionar... Já há alguns anos que vem sendo hábito não se chamarem as coisas pelos nomes (e só isto dava uma crónica completamente diferente que fica para a próxima) por um medo extraordinário das palavras. Quase tanto como o medo de olhar para as pessoas de frente que muita gente tem.


Há algumas deficências com que me deparei mais ou menos tarde na vida.


Só pensei como seria ser surdo – é quase indesculpável que me tenha ocorrido tão tarde - quando tive uma aluna surda. Nessa altura, dei-me conta de que era preciso articular muito bem as palavras (ela sabia ler nos lábios) e nunca falar quando estava de costas ou de lado, mas sempre olhando bem de frente para a minha turma. Para a minha turma, porque ela era parte da turma, não era uma alienígena que estava ali com a qual eu me tinha de me comportar como se ela fosse de Marte. Ocasionalmente, convinha repetir as coisas, sobretudo se a via franzir o nariz e os olhos, sinal de que estava com dificuldades. Era uma aula muito bem-disposta, como todas, mas foi uma aula para a qual nunca levei música porque confesso que não sei como ela iria reagir. Claro, talvez pudesse sentir as vibrações mas achei que era insistir numa diferença entre ela e os outros alunos, puxar por uma corda provavelmente sensível.


Igualmente, nunca pensei muito na cegueira. Havia um colega cego numa das escolas onde andei. Escrevia numa máquina especial, demorava mais tempo a andar pelas escadas com a bengala, tinha livros com sinais esquisitos – Braille, obviamente, mas quem se preocupava com detalhes desses na pré-adolescência? Fora isso, era um rapaz normal e entrava em muitas actividades. Às vezes, dizíamos disparates à sua frente. Coisas de miúdos que não pensam, como: “A Ana está ali, não vês?” Ele ria-se e dizia: “Por acaso, não vejo!”  ou “Dá-me a caneta vermelha”, sendo que lhe seria impossível distinguir a vermelha da azul, como é evidente. Mas tudo era feito entre risos e nunca houve uma ocasião de atrito ou de má-fé de que me lembre.


Podia continuar a enumerar situações. Isto a propósito de um artigo que li, em que uma escritora (Nancy Mairs), que sofre de esclerose múltipla, conta como vê o seu corpo degradar-se pouco a pouco. Vai perdendo as suas capacidades físicas num processo terrivelmente rápido; é ainda jovem mas o seu corpo está a tornar-se o de uma velhinha incapacitada. Diz ela que, ainda há poucas semanas, era uma mulher de saltos altos que dava conferências. Agora, anda de cadeira de rodas (e ainda bem que estas existem, caso contrário a sua locomoção era impossível) e a primeira coisa que vê do mundo, quando está numa multidão, são rabos. Juro que, depois de ler isto, passei a ter mais cuidado com os jeans que enfio.


Há uma passagem em que ela fala da sua sexualidade. Eis uma coisa da qual ninguém fala: a sexualidade de alguém que, por um motivo ou outro, está numa cadeira de rodas, é anão ou tem sete dedos numa mão e uma giga nas costas. Como ela diz: “Não é suposto os aleijados quererem sexo, muito menos fazê-lo.” São obrigados a uma castidade que não escolheram e que é, na maior parte destas situações, contra-natura. Estas pessoas não têm as hormonas em declínio. Nem sequer estão na menopausa/andropausa. Têm um corpo um bocadinho diferente e é tudo. 


Á conta disto, dei por mim a pensar nos variadíssimos adolescentes e adultos que há à minha volta de cadeira de rodas. Ou outra incapacidade física qualquer. Será que são inevitavelmente postos de parte do ponto de vista amoroso e sexual à conta disso? Se calhar, a maior parte das vezes são. Será que mais de metade disso não é mesmo preconceito nosso? Se calhar, é. Pois é.