... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, October 6, 2006

Mudam-se os Tempos...


Em conversa com alguns miúdos (enfim, não tanto como isso, já são maiores de idade e têm mais 20 cm de altura do que eu,  mas, dado que 10 anos nos separam, a tendência é para os «miudizar» - sou capaz de ter inventado o verbo agora mesmo, atenção dicionário Houaiss!), descobri que a minha antiga escola secundária, hoje mais conhecida por uma sigla qualquer que me recuso a repetir por achar ridículo vivermos num mundo de siglas, proibíu que se dêem beijos na boca dentro do recinto escolar.


Serei só eu a única adulta, sã em mente e corpo (pelo menos ainda não fui internada por nenhuma mazela respeitante a estes) a achar esta medida absolutamente estapafúrdia?


A coisa torna-se ainda mais engraçada se pensarmos que a proibição é ideia de um grupo de pessoas que, quando eram jovens (basta fazermos as continhas à idade que têm…), seriam certamente todas muito arejadas e algumas até auto-denominadas hippies – vá lá, à escala do arquipélago, onda a onda hippie chegou muito mais tarde e foi sempre bem mais soft . De qualquer modo, quando andavam no liceu, estes senhores e senhoras – hoje tão predispostos a ver num beijo um pecado! - estavam  dentro da onda  da liberdade e do flower power. Todos sabemos que a máxima vigente da época destes senhores era MAKE LOVE NOT WAR e com isto está tudo dito. Resta saber se o make love era tão directo que se ia lá sem beijos nem nada. Espero, sinceramente, que não.  Estes senhores e senhoras ainda falam dos namoros e atrelamentos que tinham «no liceu» (e não «naquele tempo», note-se o pormenor semântico), mas agora querem convencer a malta que namorar dentro da escola «não se deve fazer», seguindo as boas regras de Frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz.


Entretanto, estes senhores cortaram os cabelos, fizeram as barbas, as senhoras subiram cada vez mais os saltos dos sapatos e puseram maquilhagem, eles e elas empinocaram-se nas roupas (não esquecer as fundamentais gravatas para eles) e começaram a ficar muito cansados. O cansaço crescia à medida que passavam mais tempo sentados em confortáveis cadeiras, normalmente conhecidas por «cadeiras executivas». São cadeiras que se vendem no hiper, mas só dão estatuto quando se pode fazer leis (umas a torto, outras a direito) ou mandar em meia dúzia de gente (nem que seja na comissão de moradores do prédio) sentado nelas. Depois, o cansaço engorda, o pessoal deprime-se e para chatear aqueles com ar juvenil e bem-disposto é caçá-los – cortar-lhes isso da beijoquice, por exemplo. Que pouca vergonha é essa agora ? Eles, no seu tempo (perguntem-lhes)  não beijavam ninguém  na escola!


Decerto haverá pais preocupados e professores iluminados que defendam que os namoros dos filhos/alunos dentro do recinto escolar lhes desviam a atenção das disciplinas a serem estudadas. Ah ah ah ! E outra vez : AH AH AH ! É mais ou menos como dizer que as batatas fritas estão no prato para tirar o lugar ao bife. As indecentes. A partir de hoje, devíamos comer só bifinho. Sem salada, sem batatas, sem arroz, sem molho. Seco e duro. Toma lá. Até o saboreias melhor.


A escola é onde um adolescente passa mais tempo. Não é unicamente o lugar onde vai aprender Português, Matemática, Biologia, Inglês, Desporto (embora também seja isso, o que já não é nada dizer nada pouco!). É também  o lugar onde aprende a viver em sociedade, porque o microcosmos familiar é uma célula demasiado pequena  (e quantas vezes deficiente ou até inexistente) para que ele possa apreender as ligações inter-pessoais que, de qualquer modo, são demasiado ricas e vastas  para se realizarem em pleno (só) aí. O amor faz parte da vida, e quando não faz é de lamentar. Parece-me muito perigoso incutir esta noção como regra – a de que uma manifestação de amor  (porque um beijo é tão só isso e não o tabu que querem fazer dele) está proibida.


Bem sei que muitos pais (e certos professores, meus caros colegas) abanam a cabeça a dizer que os meninos que querem namorar podem ir para casa fazê-lo. Do ponto de vista de um pai preocupado com a sua filha (porque é disso que se trata) não me parece muito inteligente. Qualquer casa oferece muitos mais perigos, com tanto chão para rebolar, sofás e camas fofinhas e (sobretudo) portas que se podem trancar.  Quem diz casa, diz outro local com chave. A imaginação de alguém a quem uma proibição foi imposta é quase ilimitada. Como sabemos, proibir é incentivar a vontade de um coração rebelde. Então, um apaixonado trepa paredes lisas.  


Se for rigorosa na sua proibição do beijo, a escola dentro em pouco levará à sua própria desertificação, excepto nos momentos absolutamente necessários para a prática do desporto e para a assistência de aulas. Isto porque ninguém prevê quando é que um beijo pode acontecer, certo?


Caros pais e colegas, a vossa preocupação é um pouco excessiva. Afinal, que a ciência tenha conhecimento, ainda não se engravida pela língua… 


Friday, September 15, 2006

O Nosso Mal


Há uma doença terrível, da qual pouco se fala abertamente, mas que julgo ser uma das que mais pessoas ataca a nível internacional.  As farmácias vêem-se desprovidas de medicamentos para combater os sintomas deste mal que grassa a olhos vistos. O facto é que causa imensas dores, que se situam ali mesmo na junção entre o braço e o antebraço, vulgarmente conhecidas por todos como dores de cotovelo. Agora, que já sabem do que estou a falar, pensem um bocadinho e vejam lá se não conhecem uma variedade absurda de pessoas afectadas por isto, por um motivo ou outro. Incrível, não é ?


Outro sintoma, claramente óbvio da patologia a que me refiro, é o tempo que os doentes passam a dedicar-se a um passatempo, que dadas as proporções desta catástrofe galopante, já se tornou no passatempo mundial: a maledicência.


Todavia, este hobby assume características muito peculiares na nossa cultura. Senão, vejamos: é tido como aceitável e até natural que um amigo de alguém diga deste as piores coisas quando o outro não se encontra presente, segundo a máxima « Sou amigo dele, mas não deixo de ver que fulano é um incapaz / um ignóbil / um estupor / um vendido / etc, etc, etc… ».  Apetece imediatamente  perguntar « Como é que és amigo de um incapaz / um ignóbil, … e mais esses adjectivos todos com que o brindaste agora ? » Sim, porque deve ser um grande fardo andar a aturar uma personalidade dessas ! Que peso ! Será para ganhar um cantinho no céu, à custa de sacrifícios ?


O contrário também se verifica (embora em muito menor grau, já se vê, e – como é óbvio ! – está fora do quadro sintomático da nossa patologia em análise): dizer bem de um suposto inimigo, adoptando a frasezita: « Nunca gramei esse sujeito, mas não deixo de reconhecer que é um tipo vertical… »


A que podemos atribuir esta estranha reversibilidade de papéis ? A uma dessincronização entre afecto e razão, e então, neste caso, o doente – coitadinho !-  não tem culpa de gostar tanto de gente tão odiosa e estapafúrdia como são os trastes dos amigos que tem, porque o coração tem razões que a razão desconhece, já diz o outro. No entanto, esta hipótese científica acabadinha agora mesmo de sair do forno, perdão, do tubo de ensaio mental, sofre já de problemáticas. É que quando chega o amigo do doente, tão maltratado por este anteriormente no seu discurso de maledicência, muda o disco – mas não toca o mesmo, não senhor ! E volta a ser o « amigalhaço », o « gajo porreiro », o « sabes que sempre gostei de ti, Manel ? »


A verdade é que quem sofre desta patologia tem uma ambição na vida – escalar (não a montanha do Pico, mas outras que, sendo tão materiais quanto essa, são de cariz mais económico). Consequentemente, como a economia é o que há de mais flutuante e instável neste mundo em que vivemos, nunca se sabe bem quem vai subir ou descer… Logo, o doente (que é hipócrita, sim, mas não é tolo !) não pode exprimir as suas reais opiniões abertamente, cultivando sempre a fidelidade a si próprio, mantendo-se à tona de água através dos esquemas que lhe permitem estar « de bem com toda a gente ».


Assim, estes doentes são, regra geral, « tipos fixes »  cujos companheiros em corrente dão a volta aos Açores dezenas de vezes… Pena é que não se comportem como amigos, desconhecendo o conceito essencial de « lealdade ». Claro que a insistente dor na junção do braço com o antebraço incomoda e não deixa pensar (nem sentir muito para além da dita…), pelo que é compreensível que os conceitos se esfumem ! É como pedir a alguém com uma enxaqueca persistente que recite Os Lusíadas.


Outra manha é a de fingirem que não estavam a falar do amigo A, mas sim do amigo B quando disseram a atrocidade Z : « Ó António ! Mas tu achas que eu ia dizer uma coisa dessas acerca de ti, eu que respeito tanto o teu trabalho e a tua conduta ?! Claro que aquilo que eu disse era a respeito da Ana, pá ! Toda a gente que estava ali percebeu, só tu é que não queres ver… »  Daí que os que sofrem deste mal tenham sempre o cuidado de evitar situações muito concretas, e prefiram que sejam os seus interlocutores a pronunciar nomes próprios ; dizem, quase sempre, « ele » e « ela » - que seria desta gente se se banissem os pronomes pessoais de sujeito ?


Entretanto, a epidemia continua a fazer vítimas. Tanto que a desconfiança surge entre amigos como um bichinho roedor, uma destruidora (talvez uma térmita, bicho que anda na moda e anda agora a ser estudado por cá). Até mesmo quando uma pessoa escreve uma simples opinião, logo se levantam sobrancelhas e lhe perguntam : « Ouve lá, Albina, aquilo… por acaso… não seria para mim, não ?! »



Thursday, August 10, 2006

O Turismo que Temos

O que se ouve dizer é que os Açores estão todos virados para o turismo. Houve a época da planta tintureira, a da laranja, a das vaquinhas (e ainda estão por aí, oh quantas!...) e agora – vou, elegantemente, fazer o salto no tempo de alguns booms económicos, porque se não sou historiadora tão pouco sou economista! -  quer-se apostar no turismo. Palmas.


Para perceber porque é que não temos mais turistas, convém sair dos Açores e voltar como se fosse turista, que é o mesmo que dizer como se não se soubesse do que é que a casa gasta. Na verdade, nem é preciso sair porque o bom português está sempre pronto a reclamar do que vê no seu país, quanto mais na sua região, na sua ilha brada aos céus (repare-se que um português insulta outro dizendo “essa tua atitude é mesmo portuguesa!”, frase que prova que o nacionalismo por cá nunca há-de vingar!)  não sendo de estranhar, por isso, que o turista – quantas vezes mais delicado e mais sorridente- também vá enfiando a sua farpa, murmurada noutro idioma.


Não pretendo com isto fazer a apologia desses senhores de sandália com peúga, não!  Bem sei que há muitos turistas a quem apetece apertar o pescoço, sobretudo quando começam a perguntar “porque é que não há aqui o doce de laranja igual ao doce que se faz na Suécia?” e se não temos “trufas negras para acompanhar o bife de porco, porque toda a gente sabe que só se pode comer bife de porco com trufas e é uma porcaria se não se come dessa maneira!”


Pessoalmente, quando vou a outro país, procuro as tradições e costumes desse lugar novo onde estou. Acredito que conhecer um sítio é, também, conhecer os cheiros, a comida, as danças, a música, as pessoas desse mundo novo e não só as paisagens e os museus. Se fosse só por isso, comprava um livro de fotografias e até me cansava menos. No entanto, é assombroso o número de pessoas que, quando viaja, espera encontrar a sua vidinha noutro lugar! Irritam-se por não verem a comida temperadinha com as mesmas especiarias e perguntam por marcas de vinhos que a gente nem sonha (ao que apetece responder, de imediato, “beba vinho do Pico que fica mais bem servido!”). Deste mesmo mal, sofrem muitos portugueses quando vão de férias, o mal de quererem levar a Pátria consigo, dentro de uma mochila de campismo. Essa Pátria da qual ainda há dois minutos diziam raios e coriscos, agora vai bem embrulhada na forma de pastéis de bacalhau (porque não se sabe se nessas terras do demo os fazem), de revistas mil, e até de papel higiénico (porque há certos países que não são tão limpinhos como o nosso... neste ponto, têm razão, mas adiante).


O certo é que se queremos turistas, temos de nos vender. Isto dito assim, parece mal, mas é verdade. Há que engolir uns quantos sapos, sorrir sempre e ter muita paciência. São turistas, não sabem a sua mão direita. Mas nós é que precisamos deles, a ver se entendemos isto.


Vamos pôr-nos outra vez na pele do turista, o que não é difícil – já sabemos que não há quem se sinta mais estrangeiro do que um português em Portugal (até há os que falam mal português e tudo!). Repare-se na cara de má-disposição que uma pessoa encontra quando vai a um estabelecimento. Longe vão os tempos em que se dizia “Bom dia!” Isso é que era! Agora, temos muita sorte se apanhamos um sorriso, ainda que breve, de quem serve. Regra geral, está tudo com uma fronha de ressaca. Nós é que fazemos o favor de ir ali comprar /comer/ dormir! Que fique desde já esclarecido, nem pio, venha o próximo da fila.


Os transportes são um drama.Certo, estamos em ilhas. Dependemos dos aviões e dos barcos. Não vou por aí, porque todos sabemos como dói voar (monetariamente) e nem sempre se pode andar no mar (dado que não há barcos no Inverno entre todas as ilhas). Depois de chegar à ilha em questão, qualquer que ela seja, o turista está absolutamente preso na cidade onde vai ficar. Os transportes terrestres são muito escassos e sem horário (muito) fixo. Ao fim-de-semana, então, nem pensar em sair da cidade, que ideia!... A não ser que se esteja disposto a pagar um balúrdio por um táxi.


A verdade é que qualquer cidade açoriana se vê num dia (um iluminado está a pensar, neste instante que Ponta Delgada oferece a possibilidade de ir fazer compras ao Parque Atlântico, mas centros comerciais existem em todo o mundo. Certo é que este tem uma baleia artificial como enfeite, mas estou em crer que baleias destas só são interessantes para quem nunca viu uma baleia real). Depois desse dia, procura-se a natureza, as paisagens, que são, enfim, aquilo que os Açores têm para oferecer de diferente e de genuíno.


 Sim, porque quem quer praias tórridas vai para o calor intenso das Caríbas ou do Mediterrâneo; quem quer neve, vai ao Norte. Não será o nosso clima incerto que vai atrair turistas. Não será a nossa História que, por mais interessante, não bate o Renascimento italiano ou a Grécia Antiga. Só nos podemos valer da natureza ainda agreste, do mar ainda puro e da simpatia que ainda resta nos olhos e mãos do povo. Assim, não vale de nada  construir dezenas de unidades hoteleiras para prender as pessoas numa cidade sem lhes dar um sistema de trasnportes em conformidade para que possam explorar o campo.


Os gregos, que vivem do turismo, são quase brutais no ataque ao turista. Vamos na rua e há criaturas que surgem de todos os lados a perguntar se não queremos experimentar o prato tradicional (do qual nunca é revelado muito), a baklava, ou se não queremos fazer uma excursão não sei onde. Todo o bocado de rocha, feio e tosco, saíu, de certeza, do Pártenon. O Olimpo multiplicou-se numa miríade de deuses e deusas em miniatura que todo o turista compra – eu própria fui ingenuamente levada na conversa de comprar uma deusa da água (duvidando muito da sua existência) porque “era mesmo parecida comigo!” segundo o vendedor - todos os que me lêem saberão que tenho muito pouco de deusa...


Outro aspecto muito nosso é a sorna domingueira. Ao Domingo, fecha tudo. O turista pensa que está numa cidade fantasma. Não há nada para fazer! Qualquer cidade que pensa fazer do turismo um negócio, tem tudo aberto ao Domingo. Ou então, deixamos de brincar com esta ideia do turismo e assumimos que não temos vocação para receber gente e que essa coisa de “cidade hospitaleira” é só uma semana por ano.


Thursday, July 20, 2006

Em Busca de um Fio…

El Gran Laberinto, o novo livro de Fernando Savater, é um romance de aventuras juvenil. Este rótulo – é necessário enquadrar o que se escreve num género qualquer, para agradar aos teóricos e confortar os entrevistadores (e vice-versa!) – é explicado pelo autor: “Um livro que só agrade a uma criança não vale a pena nem para a criança. A literatura juvenil é aquela que também pode agradar aos jovens.” Fã incondicional de Júlio Verne, de R. L. Stevenson e de todos os relatos iniciáticos que marcam os anos inquietantes de aventura e descoberta adolescente, este catedrático de Ética da Universidad Complutense de Madrid opina que escrever para jovens obriga a renunciar aos artifícios pedantes de que geralmente se socorre um escritor: “Podes impressionar um adulto com uma citação de Habermas ou de Popper, mas um puto de 13 anos não se impressiona minimamente. Tens de te defender com as tuas próprias armas. Não te podes esconder em truques eruditos. Os jovens obrigam-te a seres directo, e isso faz com o que escrevas valha por si mesmo. Deitas fora as tuas muletas culturais. Nós, os do mundo académico, temos muitas vezes essa tendência: a de nos refugiarmos atrás das citações. São muralhas! È por isso que gosto tanto deste exercício – fico com o corpo  a descoberto.”


Savater é muito conhecido pelos seus livros La infancia recuperada, Ética para Amador e Politica para Amador, todos eles com uma dimensão pedagógica acentuada. Educar é, para este professor, algo de apaixonante e não uma tortura, pelo que faz sentido passar essa mensagem nas suas obras. Entenda-se “educar” como “aproximar as ideias das pessoas para que possam ser melhor compreendidas” e não a filosofia discursiva de uma elite ou a massificação de um didactismo aborrecido. Aliás, a literatura pressupõe-se divertida. O próprio Savater confessa ser, como José Luís Borges, um leitor hedónico, que não seria nada mais se lhe pagassem somente para viver lendo: “A leitura é, em primeiro lugar, um prazer e os prazeres não se impõem, comunicam-se por contágio.O prazer da leitura tem de ser contagiante.”


A ideia de El Gran Laberinto foge à noção estrutural de um romance deste sub-género (na época pós-moderna, à falta de melhor adjectivação para o casino temporal em que vivemos, ainda subsistirão estes esquemas?) -  a intenção do autor era construí-lo como se fosse um vídeo-jogo. De facto, foi a sua mulher, aficcionada dos vídeo-jogos e já cansada das críticas que se faziam a quem passava a vida de comando na mão, quem lhe deu a ideia: em vez de criticar tanto o pessoal fã dos jogos de computador, e de dizer que os putos não lêem e são uns viciados do ecrã, porque não tentar fazer um romance juvenil de aventuras que lhes desse exactamente o que lhes dão os vídeo-jogos – aventura, risco, o poder de decidir, de escolher, a febre da luta, a ultrapassagem de si mesmos e a glória de um objectivo final?


Savater entendeu que todo o vídeo-jogo não é mais que uma forma de mecanismo iniciático e, no fundo, de educação – fonte de experiência através de determinadas passagens e consultas, daí que agrade tanto ao adolescente. Com uma certa perícia, chega-se à glória; quando não, não há recompensa. São uma forma imaginativa de recuperar histórias. Para tempos diferentes, um modo diferente de narração.


El Gran Laberinto pretende ser, assim, um multimédia convertido em romance, em que cada viagem das personagens trata de um problema actual – o fanatismo religioso, a violência sobre os mais fracos, a ciência ao serviço da guerra, etc. Isto porque o autor acredita que a literatura é, a seu modo, uma espécie de farmácia, na qual há remédios para todas as doenças, basta procurarmos. Preocupa-o, de modo particular, a questão dos nacionalismos (Savater é natural do País Basco, sofreu variadas agressões na sua região e, assinale-se, venceu o Prémio Sakharov de Direitos Humanos). Segundo ele, “o problema dos nacionalismos não é um problema real como a fome, a educação ou o desemprego. Não são os territórios que têm direitos, mas sim os cidadãos. E é com os cidadãos, não com os territórios, que devemos preocupar-nos.” A mesma posição assume em relação à língua: “São os falantes que têm direito à língua, não as línguas que têm direito a procurar falantes. Se os falantes decidem falar outra, têm esse direito. Os nacionalismos crêem que tudo tem direitos, excepto as pessoas.”


Para este educador, as pessoas e o seu viver são o mais importante. Assim, ele gostaria que os seus livros fossem pontos de partida e não de chegada. Partidas para outras leituras, outros prazeres. É por isso que há tantas referências e pistas para um leitor atento.


El Gran Laberinto não deixa de ser polémico, sobretudo por se coadunar com a internet, de certa forma. Savater crê que não podemos negar a modernidade. Para ele, “ler é ler um livro” e nada retira o prazer do papel. Mas é compreensível que outras gerações tenham outros interesses porque nasceram dentro de outro espectro de circunstâncias: “O que é preciso é conservar vivo o prazer que a leitura encerra. Pensemos que muitos dos nossos antepassados, tão importantes intelectualmente, nunca tiveram um livro, em sentido moderno - Séneca, Aristóteles... nunca leram nenhum.”


Mas isso de ler não é fugir a uma vida, a um viver no sentido verdadeiro do verbo? Savater diz-nos que “as coisas mais belas, como o amor, como a religião, têm sido tremendamente mal usadas. Com a literatura, pode acontecer o mesmo.”


Wednesday, June 28, 2006

O Futebol é Assim...


Grosso modo, os portugueses podem dividir-se em dois grupos: os que gostam de futebol e os que até nem se importam com futebol mas vão vendo quando calha, nomeadamente (advérbio caríssimo aos comentadores desportivos!) quando a Selecção Nacional joga. Já a diferença entre aqueles que percebem de futebol e os que não percebem nada disso é irrelevante, pois, como é do conhecimento geral, todos os do primeiro grupo (os que gostam de futebol), são especialistas soberanos na matéria.


Portugal tem cerca de 6500 treinadores de futebol potenciais. Estão por todo o lado, mas o local preferencial de encontro é o café da esquina. Não havendo café e estando sol, a  esquina também serve.


É por esta razão que é tão difícil ser “treinador de facto”, já que toda a gente julga saber do negócio e, o que é mais importante ainda, está genuinamente interessada nele. Deve ser por isso que pagam tanto aos treinadores, coitados, para que possam aguentar a pressão vinda de tantos quadrantes. Pobres vítimas sociais! Em breve, haverá uma neurose denominada “Síndroma do treinador” se continuarmos a pressioná-los de forma tão inumana.


Ser jogador é mais fácil, porque a popularidade de um jogador é para o bem e para o mal. Tanto são elevados a heróis nacionais como subjugados a grandes estupores que não merecem a relva que pisam e deviam era comê-la (tudo depende, claro, do resultado do jogo). Excepção feita aos guarda-redes: os homens da baliza são uns marginais que nem na própria equipa se enquadram; estão sempre à parte, porque não são tidos para as vitórias mas são sempre lembrados nas derrotas. A única altura em que alguém se lembra dos guarda-redes com uma pontinha de orgulho é quando defendem uma grande-penalidade e, mesmo assim, logo chovem uma data de frases, como a célebre (e injusta): “Um penalty não se defende, marca-se” (outro chavão que confesso não saber quem disse originalmente, mas logo foi copiado por  todos os comentadores desportivos e treinadores de bancada, incessantemente, até hoje). Não há direito. Assim, não há miúdos que queiram ser guarda-redes. Os putos são forçados a irem para a baliza  nas escolas, porque não há ninguém que queira ir apanhar com as frustrações rematadas de toda a gente. Por outro lado, todos sonham em ser “jogadores de campo” (expressão giríssima, como se o o guarda-redes não estivesse em campo, mas na bancada ou na pastelaria em frente, debicando uma nata e bebendo um café durante os 90 minutos).


Pior que ser guarda-redes é ser árbitro. Ninguém, de nenhuma equipa, tem simpatia pelo árbitro. Está contra nós, foi, de certeza, subornado pelos outros, e – para cúmulo! – é muito claro que não sabe as regras. Qualquer adepto sabe mil vezes mais de futebol que o árbitro. É a ignorância dele que irrita, aliada à insegurança portuguesa e àquela pontinha de desconfiança que faz todos acreditarem que aquele “caramelo” só pode ter sido levado pela outra equipa a acabar connosco. Bandido! O mundo sempre esteve contra nós. Até admira como é que chegámos tão longe no Europeu. Ninguém nos ama e nós (pobrezinhos mas honrados) não compramos árbitros; não baixamos o nível como essa gente (os outros todos, todos).


Há uma série de mitos em relação ao futebol que importa fazer cair. O primeiro é que as mulheres percebem menos de futebol que os homens e que, quando vêem futebol, o fazem para observar os jogadores. Isto só pode ser uma ideia masculina, porque qualquer mulher com uma visão 20/20 sabe que os actuais jogadores deixam muito a desejar (deixar a desejar é o termo certo porque não há desejo que se acenda com uma observação dos ditos). Reparem no ar de menino-bem de alguns jogadores de agora, e no modo como passam a mãozinha pelo cabelinho. Apetece mandá-los mudar o sapatinho e irem jogar golfe, com os respectivos caddies. Depois, misturam o ar de rapaz-da-Linha-sei-lá com a escarradela para o chão a toda a hora (mesmo depois do jogo já ter acabado). Logo, não estou a ver a que propósito é que alguém se há-de encantar com semelhantes espécimes. Há poucos anos, havia jogadores giros, mas esfumaram-se. Paciência. Não se pode ter sempre uma equipa que cative turistas.


Outro mito é que o pessoal ligado ao futebol é pouco inteligente e dá respostas estúpidas. Em boa verdade, também só lhes fazem perguntas cretinas, que não são passíveis de boas respostas. Nunca esqueci estas: “Como é que se sente?” (feita a um jogador, vítima de fractura exposta, quando o infeliz estava a sair de maca); “O que acha de ter passado de besta a bestial?” (muito acertadamente respondida “já não é a primeira vez!”); “O que vai fazer para dentro do campo?” (feita a um avançado que entrou quando a sua equipa estava a perder). Não pode ser! Estupidificam-se os senhores e depois faz-se troça deles.


Há ainda a ideia de que os intelectuais portugueses não gostam de futebol, a não ser que o digam por motivos políticos. Na verdade, a maior parte gosta, mas carrega más memórias da escola, onde os tratavam mal porque eles não sabiam jogar. Reparem que a elite nunca é do Benfica, clube plebeu e de massas que, ainda por cima, fica geograficamente perto da Amadora, da Damaia e de todas essas zonas duvidosas onde o pessoal não usa gravata. Quando muito, usa navalha. A elite é do Sporting, muito mais Lumiar, Telheiras e sempre em festa. Do Porto, nem falo, porque todos sabemos que o dragão é uma coisa mitológica e não existe.


Porém, agora, somos todos portugueses e estamos com a selecção. Mesmo o pessoal cheio de ideias independentistas para os Açores, agora é orgulhosamente português. Embora não haja açoriano que não goste mais do Pauleta que dos outros jogadores... provavelmente porque ele, apesar de super estrela, é sempre o rapaz simpático, vizinho aqui do lado.   


Friday, June 9, 2006

A Cultura, essa Especialidade Geral



Não se sabe bem quando é que começou a aparecer em vários senhores e senhoras a “febre da cultura”, mas suspeita-se que seja contagiosa, porque tem atacado imensa gente que até há poucos meses nem sabia (o exemplo é arbitrário) distinguir um Picasso de um Monet - com este remate ficam a perceber que este texto não é sobre a cultura dos campos, e também podia ser, que a “cultura” em si tanto nutre corpos como espíritos (a prová-lo está a etimologia da palavra).  A febre de que falo bem podia ser uma  epidemia saborosa (passem por cima do paradoxo, se fazem favor, e vamos ao que interessa!)  que isto de se remeter os assuntos culturais para meia dúzia de iluminados pensadores e ilustres artistas, curiosamente sempre dentro da mesma roda de amigos (?), ora agora apresento eu o teu livro e amanhã fazes tu o prefácio para o meu,  cansa muito, é redutora e o cidadão dito comum não é parvo (enfim, alguns são mesmo idiotas, mas já sabem que tenho de falar no geral, não é?). Dizia eu, porém,  que a tal febre, infelizmente, é uma coisa por demais aflitiva, e quase se diria anti-cultural.


Podia, agora, pretensiosamente, encher umas páginas com várias definições de “o que é a cultura”, cedendo aos hábitos de docente, mas ficam os leitores deste jornal muito mais bem servidos se forem procurar por si próprios em Edward Taylor, Ernst Cassirer, Ortega y Gasset, por exemplo (e fico por aqui, porque é quase Verão e estas leituras não combinam com cerveja).


Convencionou-se que “cultura” é “tudo”. Depreendeu-se que, já que é “o conjunto dos produtos, dos actos e processos especificamente humanos” (Francisco Romero, uma definição possível), então cabe tudo lá dentro – com perdão da frase! Ora, já que é “tudo”, “qualquer um” (eu, tu, a vizinha Maria e o gato dela, o sr. Dr. Pancrácio deputado e o sobrinho dentista mais-a-menina-que-está-tirando-um-dente-e-tem-a-boca-aberta) pode opinar sobre isso. Isso o quê? Pois, isso tudo. Chamemos a senhora que vende uvas, a mulher do deputado e um assessor de imprensa e façamos um debate.


Agora vem a parte pior. Nos debates ninguém discute ideias. Dá-se um parecer - como na função pública-, tem-se um outro olhar - expressão tão na moda que todos os utilizadores de óculos se sentem, de repente, muito mais charmosos e importantes-,  dizem-se opiniões pessoalíssimas (e, como é sabido, cada qual tem a sua, sendo a da vizinha Maria tão válida, enquanto pessoa, como a do Pancrácio e a da menina-da-boca-aberta). Se tudo o que fazem é dar opiniões enquanto cidadãos e não especialistas em determinado assunto, então podemos todos dar opinião, viva, viva, eu também quero e o menino que está ali na Praça da República também tem algo de interessante a acrescentar a este tema e à problemática da questão. As construções com que mais se começam frases são “Eu acho que... Julgo que... Há aspectos importantes a ressalvar aqui, na minha opinião... Tenho ideia que...”  Se analisarmos bem a coisa aquele “Eu acho que... “ equivale a que não se percebe nada do assunto, mas lá ter-se uma opinião sobre ele, isso não falha! Os próprios jornalistas – manhosos! – já perguntam: “O que é que o senhor ministro acha disto?”, encurralando o infeliz na opinião de trazer por casa. Apetece responder “Cheira-me que a sra. jornalista é capaz de ter razão!” No fundo, ninguém percebe nada dos assuntos de que debita, mas o importante é nunca dizer “Não sei” e, sobretudo, emitir uma opinião porque há muita gente com o receptor ligado. Além disso, sofre-se de uma grande falta de conclusões verdadeiramente pessoais, o que é muito, mas muito mais grave. Grande parte das ideias são roubadas do Reader’s Digest, do vizinho, da internet que se devora, do que se ouviu dizer no café.


Antigamente, éramos um país de poetas. Hoje, não. Somos um país de pensantes (e não pensadores, coisa que implica que pensamos realmente quase todos e, como disse acima, isso é que era doce!) e, o que é mais, de pensantes cultos, especialistas em generalidades  - atenção ao contra-senso! - e que procuram subsidíos para a publicação de livros e a pintura de quadros (ainda não chegou a febre à música e à dança, mas o dia aproxima-se a passos larguíssimos!).  Todos conhecemos algumas destas obras sublimes: quadros que, por pudor, não confessamos serem tal e qual os desenhos que o nosso filho fazia na creche, acompanhados de títulos sonantes, do estilo “O Obscuro Impossível” ou “ Depois do Mito, o Feminino Esplendor” (estes inventei-os agora; rezo para que não sejam cartaz de nenhum pós-moderno!); livros de poem(inh)as, em que o “amor” por uma bela “flor” está sempre repleto de “dor” num tempo de “calor” (estes livros são um horror, mas o autor – perdão por tanta rima! – já se julga um Nemésio ou um Antero, porque são os dois únicos poetas açorianos que ele conhece, fora a Natália porque foi deputada).  Há ainda outro estilo, mais em voga nos auto-denominados novos intelectuais, que consiste numa página quase em branco com excepção de duas linhas de poema no fim da página, linhas essas de grande rebuscamento lexical, mas que, espremidinhas, são muito menos avassaladoras que um “ditado” da minha avó (salta a malta da cultura popular a lembrar que isso também é cultura!).


No fundo, o que  assusta é o afundamento da cultura, ao se pretender elevá-la. Seria desejável que assim fosse e que a sociedade partilhasse conhecimentos e experiências. Mas não parece que seja isso o que se procura nem o que está a acontecer. O Homem culto reflecte, tenta estabelecer relações, questiona, problematiza, mas as suas conclusões são provisórias, porque este mundo onde estamos todos - sim, todos! - não tem as certezas absolutas, as conclusões paginadas que os devoradores de enciclopédias (via net, por ser mais moderno)  e os debitadores de “a mim, parece-me que...” nos querem fazer engolir.


Thursday, May 25, 2006

Era Uma Vez...

Imbuída da maior boa vontade, decidi separar alguns dos livros que lia em criança para dar a uns miúdos que conheço e que gostam de ler. Isso de dizerem que os putos não gostam de ler é uma mentirada de todo o tamanho – a maior parte das bibliotecas infanto-juvenis têm mais adeptos do que as bibliotecas reservadas aos adultos e só isso já seria prova suficiente; claro que houve, há e sempre haverá crianças que não gostam, mas também não podemos ser todos iguais.


Os meus livros eram intemporais, coisas como a parafernália aventureira dos Cinco, dos Sete e outros em que a criançada come alarvemente grandes jantares e almoços ao ar livre, descobre, por intuição e esperteza congénitas, ladrões e contrabandistas muito mais depressa do que os totós da autoridade vigente, anseia pelas férias para ir acampar com o cão  perto de faróis e rochedos e anda de bicicleta a mil à hora. Logo, livros que contam coisas verosímeis, susceptíveis de acontecer a qualquer tipo que tem entre 10 a 12 anos. Além disso, lembro-me perfeitamente que os pais destes heróis eram pessoas muito fora da realidade, sendo um deles até um cientista que não sabia que andava neste mundo, apesar de ser invulgarmente inteligente. Tal e qual a imagem que uma criança tem dos pais.


Infelizmente, tive de pôr de parte estas extraordinárias sagas, porque os putos a quem eu ia dar os livros eram bem mais novos e não liam livros com tantas páginas. Virei-me, assim, para os contos de encantar de Grimm e de Perrault. Com honestidade, deviam ser chamados contos de terror, tal é o grau de violência que encontrei naquelas páginas ao fim de tantos anos – assassinatos (neste particular, há de tudo, de fraticídios a parricídios, passando pelas outras variantes), canibalismo, mutilações, e um não acabar de cenas que fazem arrepiar os cabelos! Não sei como podia eu ter um sono  descansadinho todas as noites, depois de ler uma historiazinha destas (“para dormir melhor”, meu Deus!).


Hansel e Gretel, por exemplo. Todos sabemos do que se trata: os pais  vêem-se na penúria  e decidem abandonar os filhos na floresta; eles, espertos, ouvem a conversa por acaso e tentam marcar o caminho com migalhas de pão que os passarinhos acabam por comer. Imaginem o sufoco que não terei tido, depois de ler este conto, quando ouvi discutir os problemas económicos lá de casa. Decerto nunca mais me senti confortável ao visitar o parque florestal do Capelo, intimamente pensando “é desta que fico atrás e não tenho irmãos mais velhos nem trouxe pão”. Felizmente, do Capelo até à Horta, seria fácil descobrir o caminho...


Polegarzinha, outro conto arrepiante. Nasceu de uma flor, sendo filha de uma senhora que desejava muito ter um filho. “Toma lá esta”, diz-lhe a fada. E a pobre da senhora tem de agradecer e tratar de uma filha do tamanho de um polegar! Não há direito! Isso é que há, segundo a moral da história, porque a senhora devia aprender a não desejar coisas para além do que a natureza lhe pode dar... A pobre da Polegarzinha ainda sofre mais do que a mãe; a certa altura, arranjam-lhe casamento com uma toupeira. Felizmente, tudo acaba como deve ser, claro. Isto dos humanos casarem com animais não é único deste conto, aliás, embora nunca seja explicado como é que as núpcias se processavam: A Bela e o Monstro, A Princesa e o Sapo, entre outros. Aliás, provavelmente, são as núpcias o único aspecto não explorado dos contos de fadas. Depois de viverem felizes para sempre, não há mais nada a acrescentar.


Porém, se não se pode falar de sexo, a violência não é um problema. Há uma carnificina quase constante e grandes chantagens psicológicas: bichos ardilosos atacam, como n’O Capuchinho Vermelho, perfídias angustiantes duram toda uma vida, como a miserável existência da Cinderela, famílias que nos odeiam e o mundo todo contra nós como o pobre Patinho Feio, gigantes que comem crianças e por aí fora. Acresce que nenhuma menina olhará com bons olhos uma madrasta depois de ler - e isto é só um exemplo - Branca de Neve, onde a malvada até o coração da enteada quis ter!... E já nem vou falar da fatal injecção que é para uma menina a ideia do Príncipe que nos há-de livrar dessas desgraças todas e que aparece em (quase) todas as histórias – compiladas por homens, claro!


Em todo o caso, como bem sabemos, os miúdos percepcionam o mundo de um modo completamente diferente dos adultos.Assim, “num primeiro nível, os contos de fadas ensinam pouco sobre a sociedade” tal como ela é hoje; mas ensinam muito “àcerca dos nossos conflitos interiores e soluções acertadas para estes” (Bettelheim). É por isso que continuam a ser tão populares – são terapêuticos e contêm a promessa de que o melhor ainda está para chegar: vamos ter todos um final feliz, mesmo que passemos muitas desventuras. Ou, por outras palavras, acaba tudo bem – se não estamos bem, é porque ainda não chegámos ao fim.