... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, January 26, 2007

Este Texto Não É Sobre a IVG

À conta de umas traduções que estive a fazer nos últimos tempos, deparei-me com uma data de planos, legislações, encontros e congressos que têm vindo a promover a Igualdade de Género – maneira formal e politicamente correcta de dizer “a igualdade entre o homem e a mulher”. Só o facto de ter de se fazer legislação para que essa igualdade exista é prova de que ela, na prática, não existe. Se de antemão ela estivesse presente no exercício de poder numa proporção racional àquela que se verifica tendo em conta o número de mulheres que, efectivamente, “puxam a carroça” dos seus agregados familiares na vida quotidiana (e não me refiro a pregar botões, embora também passe por aí e não seja vergonha nenhuma...) não seria preciso andar a fazer coisas como Plano Nacional para a Equidade de Género ou Congresso para a Promoção da Igualdade da Mulher, etc, etc.


É um triste mundo este em que estamos onde se tem de apelar à legislação para consagrar direitos óbvios, como a igualdade e a liberdade. Já a fraternidade, não há nada que a faça cumprir... Mas visto que já o fizemos em relação aos direitos da criança (atenção, eu refiro-me mesmo a crianças, a seres que respiram sem estarem ligados por um cordão umbilical a outro ser) e aos dos idosos – tudo seres humanos que a sociedade considera carentes de protecção e lá terá as suas razões - , vamo-lo fazendo, devagarinho para não borrar a pintura, em relação às mulheres. 


Mudar a legislação não muda mentalidades. A mudança das mentalidades – estas mudam sempre porque as circunstâncias levaram à sua alteração - é que conduzem à mudança da legislação. Esta verdade trivial parece não ter ainda entrado no esquema. Mas (novamente) devagarinho, lá vamos. A tartaruga também ganhou a corrida à lebre, por ser persistente.


A propósito de mentalidades – e para que não digam que vos enganei com o título (seria incapaz de tal coisa!) - , esta última tradução levou-me a uma constatação curiosa: até 2005, o Prémio Nobel da Economia nunca foi atribuído a nenhuma mulher. Como sabem, o Prémio Nobel da Economia existe desde 1969 (foi o último Nobel a ser criado; os restantes são atribuídos desde 1901), o que nos dá um total de 36 anos de prémios de Economia atribuídos apenas a homens. Serão os cérebros femininos menos dados às ciências exactas? Para os senhores que me lêem (haverá? Ah ah ah!) e que se apressam a dizer que sim, digo-vos que o Prémio Nobel da Química foi atribuído a 3 senhoras, o da Química a 2, o da Medicina a 7, sendo que uma delas recebeu um Nobel (Física e Química) em dois anos diferentes  - Marie Curie, em 1903 e 1911, foi mesmo a primeira pessoa a receber dois Nobel (não era nenhuma insatisfeita noutras áreas, como é de uso a má língua dizer nestes casos; sabe-se que tinha marido – Pierre Curie - e, ao que parece, eram uma boa equipa...). É certo que a Academia premeia muito mais as senhoras a nível da Literatura  - 10 mulheres até 2005 – e mais ainda na área da Paz – 12 mulheres. Serão as mulheres naturalmente mais pacíficas? Na minha modestíssima opinião, há-as pacíficas e aguerridas (e os homens também...). Porém, o ponto fulcral é que, fazendo umas simples continhas, verificamos o ínfimo número de prémios Nobel que, desde o início, as mulheres têm recebido em comparação com os homens. Serão menos dotadas? Têm menos visibilidade? Ou será que quando se pensa em atribuir algo ou encarreirar alguém se pensa sempre num homem primeiro, porque esta é a mentalidade vigente?




Do mesmo modo, enquanto estudei música, sempre me surpreendeu o facto de nunca haver, pelo menos, uma mulher compositora na História da Música. Podia percorrer os períodos todos, fazer arabescos barrocos, purezas clássicas ou divagações românticas mas... nada! O máximo que a História fixou – vejam bem como é fino este papel! – é uma mulher – musa inspiradora, que teve grande influência na vida de um compositor. Ás vezes, perguntava a mim própria se ela não lhe teria escrito metade das pautas... E mantido o silêncio, naturalmente, como é próprio das senhoras.


Uma professora minha explicou-me, na altura, que para estar ao mesmo nível que um rapaz (isto é, para pertencer à mesma classe) eu – por ser rapariga – tinha de ser cinco vezes melhor do que ele, porque o mundo era organizado por homens. Talvez tenha sido uma maneira cruel de pôr a questão, mas foi muito bem absorvida.


Assim, com tanto trabalho para fazer, tanta afectividade (porque sou humana), tantas ideias e caminho a percorrer... parece-me que o mínimo que devo exigir, como ser humano, é o direito à liberdade e à igualdade. Até me dói que sejam precisas leis para isso. Mas já que são necessárias... que se façam.

Wednesday, January 10, 2007

Um Ano Novo (?)

Em 1871, um senhor chamado Eça de Queirós escreveu uma Farpa sobre o estado geral do país. As Farpas eram (puxem pela memória dos tempos de escola) umas crónicas publicadas mensalmente onde, com um espírito de galhofa, se iam dizendo muitas verdades - talvez nem todas completamente absorvidas pelos remetentes, mas o sarcasmo irónico tem destas coisas... Adiante.

O que se segue é uma citação de Eça:

" O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido nem intuição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. Vivemos todos ao acaso. Todo o viver intelectual, espiritual parado! O tédio invadiu as almas! a mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce... O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. O Estado é considerado, na sua acção fiscal, como um ladrão e tratado como um inimigo.

[...] A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas só por si é dramático. O professor tornou-se um empregado das eleições.[...] E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: O País está perdido! Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz? Atesta-se, conversando e jogando o voltarete, que, de Norte a Sul, no estado, na economia, na moral, o País está desorganizado - e pede-se conhaque!

Assim, todas as consciências certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!

[...] E, não obstante, como tudo parece feliz e repousado! Os jornais conversam baixinho e devagar uns com os outros. O parlamento ressona. O ministério, todo encolhido, diz aos partidos - chuta! As secretarias cruzam os braços. O tribunal de contas, lá no seu cantinho, para se entreter, maneja, sorrindo, as quatro espécies. A polícia, torcendo o bigode, galanteia as cozinheiras. O conselho de Estado rói as unhas. O exército toca guitarra. A câmara municipal mata em sossego os cães vadios.

Os fundos descem, descem, e descem há tanto tempo que devem estar no centro da Terra. O povo, coitado, lá vai morrendo de fome como pode. Nós fazemos os nossos livrinhos. Deus faz a sua Primavera.

[...] Toda a Nação vive do Estado. Logo, desde os primeiros exames do Liceu, a mocidade vê nele o seu repouso e garantia de futuro. A classe eclesiástica já não é recrutada pelo impulso de uma crença; é uma multidão desocupada que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira; é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado, vindo a ser deputados.

[...] Esta pobreza geral produz um aviltamento na dignidade. Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse.

[...] Ninguém possui ideias originais. Há quatro ou cinco frases, feitas de há muito, que se repetem. depois, boceja-se. Quatro pessoas reunem-se; passados cinco minutos, murmuradas as trivialidades, o pensamento de cada um dos conversadores é poder livrar-se dos outros três.

[...] E todo o País não é mais que uma agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam.

É uma Nação talhada para a Ditadura - ou para a Conquista. "


Isto, Senhoras e Senhores, foi escrito em 1871, num regime de Monarquia Constitucional e da Regeneração de Fontes Pereira de Melo. Foi há cerca de 136 anos. E, agora, pergunto-vos: em 2007, com a nossa Democracia, com a nossa presença na União Europeia... Estaremos assim tão diferentes?



Friday, December 29, 2006

Trezentos e Sessenta e Cinco Dias por Estrear


Nunca fui daquelas pessoas que fazem resoluções de Ano Novo; aquelas pessoas que têm listas com objectivos a alcançar e dois meses depois já estão muito desiludidas porque as metas que impuseram a si mesmas já foram destruídas por uma mudança de rumo, pelas circunstâncias, por mil e um imprevistos que se atravessaram ou por pura falta de força de vontade delas próprias. Eu penso, à partida, que trezentos e sessenta e cinco dias são muitos dias novos à minha frente para eu decidir já hoje o que quero fazer em todos eles ou de mim mesma neles. Eu nem sei se amanhã vou continuar a querer o que quero hoje… E se quiser (fenómeno raro nos seres humanos, inconstantes por natureza!) é muito provável que tudo não dependa só de mim. Assim, com tanto dia em branco à minha frente, o que há a fazer é esperar o melhor e trabalhar para o resto (provérbio que fica melhor em inglês, porque rima: «hope for the best and work for the rest»). A verdade é que dias novos em folha temos todos os dias e não só o 1 de Janeiro. Ainda bem. 


Quando andava a tirar a Licenciatura, tive uma colega a quem os pais tiraram da Universidade durante dois anos porque, segundo as crenças deles, o mundo ia acabar antes do ano 2000, portanto era inútil as filhas continuarem a estudar, a aprender, a conviver, a sair de casa. Bem vistas as coisas, nem sei porque continuaram a alimentar-se. Mas isso fizeram. Fecharam-se em casa dois anos a fio. Quando chegaram à conclusão que o mundo não dava mostras de acabar, recomeçaram a viver, no verdadeiro sentido da palavra. Esta rapariga tinha dois anos de vida em atraso. E não estou a falar de estudos. Um dia perguntei-lhe (ela tinha muito bom humor, ao contrário do que se possa imaginar por este perfil de clausura) como é que as pessoas iam ser aniquiladas, segundo as ideias dos pais dela – se pensarmos um bocadinho, quando o Novo Ano chega a Lisboa (onde estudávamos) já chegou à Nova Zelândia há cerca de 12 horas, o que implicaria um processo divino muito lento e vingativo de destruição mundial, a meu ver… Ela disse que eles nunca se tinham questionado acerca disso.


Contrariamente a esta minha colega, o que mais faço é questionar-me. Isto não significa que sou nem melhor nem pior do que ela, mas sou, seguramente, diferente.


Não olho para o dia 1 de Janeiro como um dia especial; é tão importante como o 31 de Dezembro, porque estou viva e alerta em ambos. No entanto, é verdade que, se não faço resoluções de Ano Novo, páro sempre um bocadinho para pensar, não naquilo que gostaria de ter ou de fazer (isso ia parecer-me uma infantilidade sem nexo…) mas naquilo que fiz no ano anterior. Entro em balanço, como as lojas. Sobretudo, penso naquilo que aprendi pela experiência, no que interiorizei depois, nos erros que fiz também. Os erros são, afinal, rotas mal escolhidas. Felizmente, o bom das rotas é que podemos sempre virar de rumo; podemos é já não ir a tempo de ganhar a corrida… Mas também quem é que quer um troféu ? Era coisa para ficar a encher-se de pó e mais nada...


Agora é que este texto ia entrar na parte interessante e dramática – todos sabemos que as pessoas adoram um bocadinho de drama; o que não suportam é o tédio!... – em que eu vos contava o que tinha «aprendido» este ano. Mas não. Isto não é uma novela e eu tenho muito pouco jeito para contar histórias que não sejam sobre os outros. São os outros que observo (absorvo?) para depois os re-contar.


Como não me julgo tão generosa que dê opiniões sem que mas peçam nem tão sábia que conheça a melhor maneira de viver o próximo ano, posso só desejar-vos que se surpreendam com as coisas, que gostem de vocês e de quem vos rodeia e que o vosso tempo não se perca em inutilidades sejam elas de que espécie for, porque é o tempo o mais precioso que todos temos (e nem damos conta...). 


Monday, December 11, 2006

O Aniversário


Estamos perto do aniversário dele outra vez. Na verdade, no momento em que escrevo isto, ainda faltam umas semanas, mas - a avaliar pelo comportamento das pessoas - podia ser já amanhã. Já se vendem os bolos de Natal, há quem já tenha feito a árvore e o presépio, compram-se prendas e prendas e prendas (podia encher o resto da página com a palavra «prendas» que não fugia ao  tão falado espírito de Natal, não era?).


Uma vez, um padre católico explicou-me que estava provado que o homem Jesus tinha nascido em Março, mas que, por uma convenção eclesiástica, se tinha decidido celebrar o seu aniversário a 25 de Dezembro. Não acho mal. Muita gente nasceu num dia, foi registada noutro e celebra quando quer. Além disso, todos sabemos que as datas são convenções, e as tradições mais não fazem que assegurar à Humanidade a sua coesão. Com a continuidade de uma celebração, parece-nos que a nossa estabilidade continua, sentimo-nos mais seguros. Se, de repente, viesse agora um tipo dizer que o Natal era em Março, mandavamo-lo passear. Em Março, já temos a Primavera a despontar, obrigada. Não precisamos de um motivo extra de alegria.


Tenho a certeza que ele nunca pensou que isto ia chegar tão longe… «Isto» é a celebração do seu aniversário, naturalmente. Há 2006 anos atrás, a pregar no Médio Oriente sobre a paz e o amor universais e a possibilidade de redenção divina e de recomeçar a vida (não importava a sujidade que se tivesse feito, aos olhos da Humanidade), aposto todo o meu sangue em como nunca pensou que milhares de anos depois – ena, tanto tempo ! - iam celebrá-lo com um circo de luzinhas, fitas e bolas, peditórios para se dar aos mais pobrezinhos em nome dele (um pobre que era Rei… ou um Rei que era pobre… algo assim, a metáfora funciona, mas não quando quem a diz tem a barriga demasiado cheia, como costuma ser o caso), e prendas, prendas, prendas.


Atenção! Eu não sou contra o facto de darmos prendas. Acho uma ideia muito bonita ter-se escolhido uma época no ano em que toda a gente dá uma prenda a alguém que lhe é mais querido. É uma maneira (entre tantas outras possíveis) de se dizer  que se aprecia alguém. Mas, mais uma vez, levou-se a coisa longe demais e hoje são precisas variadíssimas prendas… Já ninguém se satisfaz com menos. Menos seria pouco. Menos seria depois ter de explicar à vizinha, aos amigos, no emprego que as coisas em nossa casa não andam bem… Que celebramos o aniversário dele com menos festa. Que, se calhar, nos apreciamos menos. Isto tudo, não sendo verdade (porque a alegria faz-se de risos e  a estima não se faz de dádivas materiais) passou a ser, porque se convencionou assim. Destrói a mensagem inicial de redenção e amor universal  - mas não faz mal, porque raramente nos lembramos dela; só serve de letra aos cânticos natalícios.


Outra coisa extraordinária são os enfeites da nossa celebração. Estamos atarefados a enfeitar a casa com neve artificial, com bonecos de neve, com a rena Rudolph, «the red-nosed reindeer» como diz a canção (!!!). Alguém, sinceramente, tem alguma memória infantil desta treta de rena americana? Fomos invadidos pela ideia do «White Christmas» e nem demos conta disso.


Há quatro anos atrás, o meu marido sugeriu-me que puséssemos um enfeite do Pai Natal a fazer surf. Eu disse que nem pensar, não era tradicional! «Para ti, não é, mas eu sou do Hemisfério Sul… Para mim, o Natal é na praia.»  Foi a primeira vez que pensei que o S. Nicolau também podia ser surfista. E é, para metade do mundo – uma metade na qual nós, Hemisfério Norte com a mania de todo poderoso, nunca pensamos.


Uma metade, não… Porque os judeus, os muçulmanos, os hindus, os budistas, e outros não celebram o Natal. Não é «a celebração universal». É uma celebração cristã. É ou começou por ser…? Penso que ainda é. O que o aniversário dele tem de bonito é que as pessoas sentem uma predisposição para serem mais generosas com todos os outros, pelo menos uma vez no ano, não importa porquê; e só por isso vale a pena celebrá-lo. Só por isso valeu a pena nascer um menino.


PS- Não escrevo os pronomes ou possessivos referentes a Jesus com letra maiúscula, porque não vejo porque havia um homem tão humilde de querer que se elevasse o nome dele num texto dessa forma. Assim, peço desculpa das eventuais ofensas que isso possa causar à Igreja Cristã, seja ela Católica ou Protestante (com letra maiúscula, evidentemente).


Wednesday, November 22, 2006

Desculpe, Disse "Igualdade de Circunstâncias"?


Todos sabemos como é que é, hoje em dia, concorrer para um emprego. Ou o nosso sobrenome é Cunha ou então nada feito – com raríssimas e honrosas excepções, algumas decorrentes até da sorte e não, propriamente, do mérito. Aliás, como ninguém neste mundo (sim, não é só em Portugal…) ignora este facto – ao ponto de já se dar a coisa por instituída e se achar que é natural (um mal de que se padece e para o qual não há cura, como a subida constante das taxas de juro, a corrupção na justiça ou a inércia pasmadinha que reinam em grande parte destas nossas tribos) – não vamos falar dele aqui. Até porque seria coisa para ofender dois terços da população e nós não queremos ofender ninguém – muito menos gratuitamente.


Reparem como estava, até aqui, a usar o plural majestático (também chamado de modéstia, porque esta forma verbal dá para ser grande ou pequenino mudando o tom para o que nos convem… e, ao usá-la, ganha-se um grande conforto!)


O certo é que, por descargo de consciência e porque a esperança é a última a morrer –mas morre, ainda que na praia… - lá se vai concorrendo a empregos (embora duvidando muito do uso do verbo «concorrer» quando utilizado na mesma frase que o substantivo «emprego»). O facto de se ser mulher condiciona ainda mais.


Pronto, já sei que é tabu falar-se disto num tempo iluminado e esclarecido como o nosso, em que a igualdade entre os sexos é ponto assente e homem que disser que não é assim é machista (espécime peludo, cuspidor para o chão, criatura cuja noção de «mulher» implica «aquela cujos metros quadrados a percorrer se desenrolam entre o quarto de cama e a cozinha») e mulher que disser que não é assim é feminista (espécime também peluda, pouco maternal, criatura cuja noção de «homem» implica «aquele que se pode abater após se ter retirado o esperma necessário à continuidade da vida»). Os de entre nós que são simplesmente a favor de uma perspectiva igualitária mas que acham que ela não existe são olhados com uma desconfiança de canto. Verdade, verdadinha, a mulher ainda não é vista como igual ao homem no que ao trabalho diz respeito.


Antes que me venham dizer «Ah, pois é, o bem que se fazia era meter às senhoras um sacho nas mãos para criarem calos!», digo-vos já que não vejo porque não. Não se pode negar que os homens têm – regra geral – mais força física. No entanto, não vejo porque não pode uma mulher pegar num sacho e cavar terra ou numa lixa e lixar as madeiras todas dum barco. Hipoteticamente, pode até demorar mais tempo, mas o trabalho fica feito (e, quem sabe, mais perfeitinho?). Não é uma questão de sexos, mas de indivíduos. Haja quem queira trabalhar e trabalhar com perfeccionismo e vontade. Aliás, temos muitos exemplos de mulheres a fazerem o que, vulgarmente, se denomina «trabalho d’homem» (e não é preciso recuar na História, ao tempo em que os homens iam à guerra e as mulheres tinham de fazer o que, anteriormente, lhes cabia a eles; basta olhar para algumas fábricas, algumas quintas, alguns navios, etc…)


Voltando, porém, aos «concursos» (entre aspas…), é curioso que uma mulher tenha de responder a determinadas questões que a um homem nunca são postas. Vá lá, ainda posso perceber que se coloquem questões como «pensa ter filhos?», porque a lógica patronal é que uma jovem mulher engravida, tem bebé(s) e depois não trabalha (mas recebe, caso esteja na raríssima situação contratual, porque recibo verde é esse ser inexistente) durante seis meses. É chato. Isto já para não falar dos eventuais problemas das grávidas em risco de aborto espontâneo que vão para casa mais cedo – sim, porque fora isso não se compreende que não se trabalhe até ao rebentamento das águas, como desde sempre e para todo o sempre, ámen.


Não posso entender, porém, que um (futuro) patrão ponha questões do tipo: «O seu marido… porque já lhe perguntei se é casada… o seu marido, que diz?  Acha bem que a menina / a senhora concorra a este emprego?» É tal qual como perguntar a uma menor de idade se o paizinho dela concorda, se dá autorização e assina a folhinha. Tenho a certeza que, a um homem, patrão algum (ou patroa, já agora…) pergunta se a mulher concorda com – e, convenhamos, não tem nada que perguntar, porque a vida pessoal, cada um resolve-a  como quiser, sem ter de dar contas ao emprego, partindo do princípio que um funcionário inteligente e responsável não deixa sequer que isso afecte a sua prestação.


Com a passagem do tempo, começo a perceber o que é que se entende por uma «boa rapariga» - é, afinal, uma rapariga amorfa. Quanto menos fazemos e dizemos, melhores pequenas somos. Se, porém, temos alguma atitude (quer seja ou não de valor), a par da meia dúzia que declara que «somos mulheres de garra», logo se levanta uma dúzia em coro a gritar que «afinal, com aquela cara de anjo, é o diabo em pessoa!». Mas boas raparigas, após mostrarmos a nossa voz, é algo que nunca voltaremos a ser…

Saturday, November 11, 2006

A Tradição Já Não É o que Era


Bem sei que Outubro é um mês a roçar o deprimente. O Outono nos Açores não é especialmente bonito nem colorido, chove quase tanto como em Abril com a agravante de que o que nos espera é o Inverno, estamos na ressaca do Verão e não apetecia nada deixar os dias morninhos e longos por um capacete de nevoeiro. Além disso, verifica-se uma debandada geral de gente: de estudantes que vão para fora da ilha, de turistas (pronto, está bem, podem sufocar o riso, já sei que não temos assim tantos, mas no Outono é que não vamos vê-los a tirar fotografias à torre do Relógio e ao seu largo de aspecto arruinado, de certezinha!), de iatistas que estão todos de férias na época baixa de Outubro (a Horta é incaracterística e meia despovoada sem eles), de emigrantes que já fizeram as visitas à família.  Juntemos a isto os rostos das criancinhas que já perderam a frescura expectante do regresso às aulas e temos uma melancolia quase generalizada.


Cada um lida com ela a seu modo. Há aquelas cidades (sim, nos Açores também, embora, felizmente, a Horta tenha o bom senso de não o fazer e espero que continue assim!) que se enfeitam prematuramente para o Natal, com bolas, luzes, pinheiros – de plástico, senão não aguentavam tanto tempo, já se vê… - e, sobretudo, um número infindável de pais natais, renas e bonecos de neve. Faz todo o sentido que nos preparemos para o Natal, essa festa de partilha, com tanta antecedência. Se eu fosse comerciante, ficaria deliciada! Como não sou, quando chega à quinzena natalícia, já estou capaz de dar um tiro ao primeiro bonequinho fofinho com nariz vermelhinho que me faz sacar da carteira porque é Natal (é que já há dois meses que vem sendo Natal e já ninguém aguenta tanta dádiva com cântico de fundo…)


A par disto (e deste mal, não se escapa também por cá), resolveu-se animar o fim de Outubro com uma importação irlandesa. Estou convencida que a culpa foi da minha geração porque julgo que antes (tanto quanto sei, mas estejam à vontade para me rebater com provas em contrário)  não havia memória de se celebrar uma coisa chamada Noite das Bruxas ou - mais apropriada e celticamente falando – Halloween. A coisa começou muito inocentemente, numa versão brincalhona, em que nos mascarávamos de qualquer coisa assustadora (enfim, alguns com menos esforço que outros…) nessa noite, para nos divertirmos e porque isso era mais uma oportunidade de sermos outro alguém por umas horas.


De resto, como é do conhecimento geral (por um milagre que se chama televisão-que-passa-a-vida-a-mostrar-filmes-americanos) o Halloween é a noite antes do Dia de Todos os Santos (uma contracçãozita de All Hallows Eve). Há mil e uma versões sobre como se iniciou esta tradição e como se propagou – fácil é perceber que chegou com os colonos aos E.U.A., mais difícil é entender porque é que foi bombardeada nos últimos anos para todo o mundo, como se tivesse alguma coisa a ver connosco, e mais ainda porque é que engolimos isto tudo tão bem e pedimos mais. Realmente, hoje em dia não há santa terrinha onde não se veja uma lojeca no mês de Outubro a vender uma abóbora com um sorriso cortado à faca e iluminada por dentro, tipo lanterna, ou uns caramelos embrulhados em papel com bruxas para as fatais criancinhas que agora hão-de (tradicionalmente!) bater-nos à porta nessa noite, ou fantasias de fantasma e vampiro ou até – pasme-se ! – livros sobre «Como enfeitar a sua casa para o Halloween»   não vamos nós agora ter uma casa menos adequadamente decorada do que a do vizinho para esta novíssima tradição que se impõe. É preciso estar a par. Afinal, não somos menos que a América. Também queremos uma Noite das Bruxas.


Até há bem poucos anos atrás, tínhamos a nossa própria tradição, no Dia de Todos os Santos, chamada Pão por Deus. Muito diferente do Halloween, mas com um ponto em comum – também nos batiam crianças à porta, mas era muito mais simpático, porque não nos ameaçavam com o terrível «doce ou susto!» que dizem os putos do Halloween . A mim, apetece-me logo dizer «Olha, por acaso não tenho doces, prega-me lá o susto que quiseres, filho…», porque me aborrece este ultimato. Já a tradição do Pão por Deus é muito mais terna e, sobretudo, é nossa. Não cheira a baú da América, cujas roupinhas Portugal usa mas ficam-lhe largas e vê-se logo que não são suas.


Não tenho absolutamente nada contra as celebrações das tradições de outros lugares, quando o fazemos sabendo que estamos a fazer isso mesmo: a celebrar festas de outras culturas e a aprender com isso. Mas esta mania de incorporar na rotina de um povo datas que nada têm de intrínsecamente a ver com ele não lhe acrescenta nada, pelo contrário. Cada povo é único e característico por ser diferente e são (também) as tradições tão diversas que trazem encanto e beleza a cada um, e que fazem valer a pena viajar, conhecer, aprender, inter-relacionarmo-nos com  pessoas de outras nacionalidades. Querer, a toda a força, implementar costumes que não são nossos não é uma prova de inteligência nem sequer uma boa estratégia turística, dado que ficamos iguaizinhos a outros tantos. Iguais, não; uma imitação parola e comercial.


Qualquer dia, inventa-se o Thanksgiving como grande tradição portuguesa, que não é mais que dizer excelente forma dos supermercados expandirem o negócio dos perus.


Sunday, October 15, 2006

«Demasiadas Notas, Meu Caro Mozart!»

«Outubro é o mês da música.» É isto que vemos propagandeado e não se percebe muito bem porquê – afinal, quem gosta, gosta sempre (tenho a impressão de já ter ouvido esta frase em qualquer lado…afinal, o marketing funciona!); quem não aprecia dificilmente se deixará contagiar por se ter institucionalizado o dia 1 de Outubro como o Dia Internacional da Música.


«2006 é o ano Mozart.»  Outra frase repetida até à exaustão e igualmente sem sentido porque de Mozart são todos os anos desde 1756. Já em 1991 tínhamos assistido a uma febre universal mozartiana, quando se celebraram (o verbo é extraordinário quando aplicado a esta situação) duzentos anos da sua morte. Escreveram-se milhares de ensaios, artigos, biografias, restauraram-se quadros, repensou-se a catalogação Köchel (com o devido respeito que inspira sempre a toda a gente a revisão feita por Einstein), reviu-se a peça de Peter Schaeffer e o filme de Milos Forman centenas de vezes e, acima de tudo, discutiu-se muito a vida de Mozart nos círculos ditos eruditos;  não sei até se mais do que se ouviu a sua música – afinal, único momento onde reside o magnetismo inexplicável e a intemporalidade que todos se esforçavam por descobrir em mil e um lugares secretos estranhos aos sons. 


Desde o fim de 2005 - os 250 anos do nascimento de Mozart celebraram-se a 27 de Janeiro deste ano e a «máquina» não perde tempo! - que vimos assistindo a uma agitação em tudo igual. Nada mudou. Salzburg e Viena continuam a disputar o wunderkind e recebem peregrinações turísticas - embora todos já saibamos, há muitos anos, que Mozart nunca gostou da sua terra-natal - , os biográfos ainda discutem a influência na sua vida da disciplina e visão do pai Leopold, do carácter (amoroso ou cínico?... mas seguramente adaptável e camaleónico) da mulher Constanze Weber e da sua  (agora  admitida como muitíssimo  exagerada) rivalidade com Salieri. Um pouco por todo o mundo, não têm conta os concertos que se realizaram para celebrar o aniversário de Mozart este ano, e ainda continuam a realizar-se, havendo mesmo quem tenha tido a iluminação intelectual de encomendar o Requiem para a quadra natalícia, demonstrando esta escolha uma apurada sensibilidade musical a par de um  elevadíssimo conhecimento terminológico (e prático, pois imagino o desconforto que se apoderará das pessoas na igreja quando sentirem o peso e a melancolia de uma Missa de Defuntos na época cristamente alegre de aniversário do Menino Jesus. Adiante.)


Escrever sobre música é ridículo e pedante. Ridículo porque se as palavras pudessem transmitir o que transmitem os sons, não haveria músicos mas apenas escritores. Teríamos um mundo insuportavelmente mais pobre. Pedante porque a tendência geral quando se escreve ou até se fala sobre música e não se pertence a esse mundo tecnicamente (com raríssimas excepções, como Aldous Huxley que, sendo doutra esfera, aparentava uma naturalidade invejável) é meter a música em ficheiros bibliográficos  que se leram e arrumá-la  em teorias formativo-sistemáticas que se aprenderam há anos atrás, donde resultam conversas melómanas onde entram construções poéticas como «mistério ambivalente» a par de palavrões como «dodecafonia». Banalidades que não acrescentam nada à música enquanto fenómeno transportador.


Hoje, já elucidados pelos historiadores quanto a alguns mistérios mozartianos (as paixões juvenis pela prima e pela irmã da mulher, as viagens e as enormes dificuldades profissionais e financeiras, a ligação ambígua ao pai, as suas crenças, a sua doença súbita que nada teve de misterioso como por tanto tempo se acreditou), não somos capazes de discernir o mais recôndito – a razão do apelo da sua música. A música de Mozart é, mesmo para os animais ditos irracionais, a mais chamativa, a mais vivificante e, paradoxalmente, a mais tranquilizadora, segundo os etólogos.


Podemos agarrar-nos a conceitos como o domínio técnico infalível da forma e da «simetria» (a palavra mais usada quando se fala em Mozart, depois das palavras «divino» e «humano», o que nos faz pensar que ele é a ponte de equilíbrio entre dois mundos opostos) das suas sinfonias, a incomparável «percepção humana» (ops!) das suas óperas, o fascínio e brilhantismo dos seus concertos, a maravilhosa duplicidade – a um tempo alegre e nostálgica – das suas sonatas, etc, etc… Nada disso interessa. É absolutamente irrelevante tentar explicar o prazer.


De resto, nem sempre ele foi unânime, pelo menos entre os pseudo-avaliadores (essas pessoas sempre tão gloriosamente importantes na sua época e depois tão imediatamente esquecidas dias após a sua morte). O Sacro-Imperador José II ao ouvir a ópera O Rapto do Serralho - hoje aclamada como deliciosamente imaginativa - bocejou :«Demasiadas notas, meu caro Mozart!».


Afortunadamente, Mozart não prestava muita atenção aos seus mecenas ou a quem quer que fosse. A sua consciência musical era apenas a de que a música era. Sem necessidade de explicações ou consequências. E, nele, a música era um rio inesgotável  porque, tal como o sangue e a linfa que foram a sua curta vida, a música era Mozart.