... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, May 18, 2007

A Opinião Pública


Esta opinião (a minha, não a pública) vem a propósito de uma conversa que tive noutro dia com um amigo, em que lhe disse que não me preocupava nada com a opinião alheia, nomeadamente no que concerne a assuntos pessoais, ao que ele me respondeu ser isso impossível porque todos temos necessidade de aprovação, sendo o Homem um ser social e blablabla.
Reformulando: não me preocupo nada com a opinião pública e julgo que qualquer pessoa com dois dedos de testa também não se preocupará.


Em primeiro lugar, a opinião pública é como um coro de vizinhas velhas e rabugentas, preocupadas com o seu quintal e com as laranjas da sua laranjeira que parecem estar a tombar para o nosso lado do muro, e não vá a gente lembrar-se de tirar uma. Porém, se por acaso, o gato delas roer as nossas plantas, até nos oferecem um cesto de laranjas com laço a decorar. A opinião pública muda como um catavento; se soubermos a razão da mudança ainda temos muita sorte.


Lembro-me sempre de uma situação engraçada acerca do valor das pessoas para o público: certa ocasião, quando o Eriksson era treinador do Benfica, a equipa estava a ter um campeonato muito fraquinho e andavam todos a falar mal do homem como se ele fosse pior do que um iogurte ingerido fora de prazo; entretanto, o Benfica jogou para a Taça dos Campeões e fez um figurão, passando o Eriksson de besta a bestial num espaço de 90 minutos. Houve mesmo um jornalista que lhe pôs esta questão – o eterno “Como se sente por o povo português agora passar a considerá-lo um herói quando ainda ontem se dizia tão mal de si?” O homem riu-se e disse que “Já não era a primeira vez!”.


De facto, tendo em conta que individualmente a maior parte das pessoas até pensa mais ou menos bem (ou, pelo menos, pensa) mas quando integrada num grupo parece perder as suas capacidades de lucidez e de raciocício - range os dentes e entra num espírito de carneirada, vamos todos por ali, por onde não se sabe bem, quase de olhos fechados que estão mas é por ali que vão - não sei por que carga de água se há-de atribuir grande importância à opinião desse rebanho. Experimentem perguntar-lhes o porquê de qualquer coisa / assunto / ideia  / ódio ou amor viscerais e a resposta será, 90 por cento das vezes, “eu ouvi dizer que…”. Logo, a opinião pública não só tem muito pouco de própria (no sentido de individualmente pensada) como de fundamentada nada tem. Vive de hits de momento, de foguetórios para animar a malta quando não há festarola nem há mais de que falar e de “ouviste a última? a mim, também me parece que sim”. O parecer é fundamental, porque ninguém quer ser responsável por dar certezas algumas de nada, claro está.


Não se pense que isto é exclusivo das classes sociais menos letradas. Nem pensar! Isto é de todos e para todos. Ou não fosse esta opinião… pública. A malta das literaturas, por exemplo, também tem opiniões assim elevadas e dadas a mudarem de rumo conforme sopra o vento (não raro estão eles a soprarem para que o vento mude de direcção mais depressa…). Como exemplo, Vladimir Nabokov expressou grande surpresa por um dos seus livros ter sido analisado – sincronicamente!- da seguinte forma, por dois grupos de críticos diferentes: “ A Velha Europa troçando da Nova América” e “A Nova América troçando da Velha Europa”  (Nabokov, On a Book Entitled Lolita, Nov. 1956).


Assim, é justo dizer que a opinião pública é uma espécie de mentira social, murmurada primeiro, gritada depois, levada em braços e, finalmente, deitada no lixo. Afinal, se pensarem dois minutos, vocês conhecem mais gente inteligente ou mais gente de mente desocupada e boca grande? Pois, são os fazedores da opinião pública.

Friday, May 4, 2007

Lusofobia e Lusofagia


Há pouco tempo atrás, quando trabalhava noutro país, um jornalista disse-me que a comunidade portuguesa era um caso curioso porque “não gostavam uns dos outros”. Como eu vivia muito deslocada daquilo a que vulgarmente se chama a comunidade emigrante (dado que na minha cidade praticamente não havia portugueses e no meu trabalho éramos duas, coisa sem relevância no meio da máquina trituradora de centenas), não pude pronunciar-me nem a favor nem contra. Hoje, porém, penso que os portugueses não gostam uns dos outros nem lá fora nem muito menos cá dentro, que é, como quem diz, em Portugal.


Basta pensar no caso simples dos portugueses em férias no estrangeiro. Não há nacionalidade que mais goste de comprar T-shirts com nomes de cidades. É vê-los com “LONDON”, “AMSTERDAM”  estampados nas camisas logo ao segundo dia de repouso e sol (se bem que escolhi maus exemplos para “sol”). Têm uma necessidade premente de se integrar na onda do sítio para onde foram, esquecendo que qualquer cidadão local (pelo menos os que gozam do seu perfeito juízo... pronto, isso exclui uma percentagem razoável) não usa uma T-shirt com o nome da cidade onde habita estampada em letras garrafais. Estão a ver o que era se andássemos por aí com camisas ostentando “HORTA”? Não respondam à retórica, por favor.


O português em férias também tenta não falar a sua língua, mas sim a língua do visitado. Isto pode ser um sinal de simpatia para com o país acolhedor, e até de um certo polilinguismo que nem todas as nacionalidades possuem, seja porque a língua portuguesa tem uma amplitude fonética muito grande (o que lhe permite “imitar” outras com uma certa facilidade), seja porque temos, culturalmente, maior acesso a vários idiomas que não têm acesso à língua portuguesa (quantas vezes um inglês terá ouvido falar português antes de chegar a Portugal, por exemplo?).


Porém, passe o facto de sermos simpáticos, espertos e abertos ao mundo – já vos dei elogios para 15 dias! -, a verdade é que o português também tem, muitas vezes, desgosto. Quantas nacionalidades diriam coisas como “Eu até  gosto de português, mas prefiro ouvir outra língua”?  O que ele, realmente, apreciava era aprender português assim como quem aprende a arte do origami: qualquer coisa exótica e distante, para preencher o fim de tarde. Tendo em conta a maneira como muitos se expressam ao falar, até leva a crer que é mesmo isso que andaram a fazer na primeira infância...


O português tem, sobretudo, vergonha dos seus compatriotas quando está noutro país. Vai no Metro de Paris (cidade mais recheada de portugueses que uma lixeira de moscas)  e ouve falar português (mal) misturado de francês (pior). É o chamado francoguês, que dá pérolas como esta: “Pleuvera-til, Mariana? Não, il ping, seulement.” O português ouvinte esconde-se atrás do jornal, cora, tem suores frios, está em pânico de que o resto da carruagem descubra, por azar, que ele também é português. Que infortúnio! Mas porque é que esta gente não vai toda para as suas casinhas na Serra?! Na verdade, um português julga-se sempre melhor que todos os outros portugueses  - já o francês julga-se melhor, e ponto final! 


Mas ainda nem vos falei da Lusofagia – vocábulo que roubei ao tal jornalista (mas ele também não sabe e quem lhe disser é um lusófago!). O caso é simples...
Uma comunidade de portugueses (quer habite na Mauritânia, na Serra Nevada ou na minha rua) tem dificuldade em dividir. Há uma espécie de jogo de vaidades onde toda a gente se queima e ninguém ganha coisa alguma. E isto não acontece por uma ambição natural de querer progredir – seja esse progresso íntimo de que natureza for -, mas por uma mal dissimulada inveja do “quintalinho do vizinho”, que se traduz em aparecer numa revista social, em ser distinguido, em não poder ver ninguém fazer nada que não se pense logo que o fez obscuramente, em pensar que de tudo se podem tirar dividendos do alheio para benefício próprio, em desculpar isto “porque todos o fazemos assim”.


Claro que vocês estão a pensar exactamente o que eu disse na época ao tal jornalista:  isto é universal, não é um drama exclusivamente português! Certo. Concordamos. O problema é que o nosso Portugal, e dentro dele, os nossos Açores são tão pequeninos que tudo se nota muito mais, como se a formiguinha, vista à lupa, fosse logo candidata a elefante.

Thursday, April 5, 2007

O Luto

Em 1969, a psiquiatra suiça Elizabeth Kubler-Ross definiu cinco estádios pelos quais passa alguém que sabe padecer de uma doença terminal, no seu livro On Death and Dying. Essas fases, denominadas como estádios de dor ou de luto, foram - mais tarde - alargadas àqueles que sofrem a perda de um ente querido e lidam com esse facto, inevitavelmente. 



Assim, segundo Kubler-Ross, o doente que sabe estar a morrer (ou alguém que acaba de perder um ser amado) passa primeiro por uma fase de negação, na qual é frequente rejeitar o que se está a passar com pensamentos do tipo "Isto não está a acontecer..." 




Quando, finalmente, interioriza a realidade dos factos, surge-lhe a raiva, que corresponde ao segundo estádio. Nessa fase, tudo é ressentimento, frustração, guerra aberta contra o mundo, contra o Deus em que, possivelmente, se acredita(va) e se atreve a faltar-lhe e a apunhalar-lhe a fé, contra a ciência que não sabe encontrar uma cura e serve para tanto como as mezinhas da nossa avó, tudo é, pois, resumido em "como é possível?" e "porquê eu?" (ou "porquê a minha bebé? o meu pai?", etc, dependendo de quem lhe falta ou faltará em breve...)





Cansado de uma guerra estéril e inútil, entra-se na terceira fase - a da negociação. Não se percebe muito bem com quem o ser humano procura negociar em face da morte, mas a tentativa tem sido comprovada. Fala sózinho (fala com Deus?). Faz pactos nos quais o outro lado permanece invisível e - o que é pior - silencioso. Promete coisas: "Se me deixares viver mais algum tempo (pode ser só até ao Verão, mesmo que seja até ao Verão!), não faço mais asneiras como costumava fazer..."; ou sugere trocas: "Se tanto te faz um morto como outro... não seria possível levares-me a mim em vez dele? Faço menos falta à família." 



O silêncio - que bem se pode chamar sepulcral, passe a crueldade - do outro lado (será esse lado divino?) acaba por levar à quarta fase: a depressão. Um verdadeiro estado depressivo implica não ter interesse por nada, nem por si. Todo o mundo parece um parque de diversões inútil, feito para distrair as pessoas, desviando-lhes a atenção do essencial: a existência é vazia de sentido e todos vamos acabar sem que nada se possa fazer para contrariar o passar do tempo. Parece impossível que ninguém repare nisto e todos andem aparentemente contentes, na óptica do depressivo.





A depressão causada pelo luto é, talvez, a mais profunda até por ser reactiva e parecer não ter remissão.
Se calhar exactamente porque se chega à conclusão de que o fluir da vida não pode ser contrariado e que a morte faz parte desta, numa espécie de círculo eterno, de fluxo de acontecimentos que perfazem a totalidade da Vida Maior, que se chega à quinta fase: a aceitação. 




Nesse estádio, já não há luta contra o sofrimento. É uma espécie de sintonia com o curso geral da unidade, de remar a favor da corrente, de serenidade. 




Naturalmente, a rigidez com que Kubler-Ross define estas fases é própria de um profissional clínico. Nem toda a gente tem de passar por tudo isto, ou de seguir os períodos nesta ordem. Pode-se voltar atrás e dar saltos à frente, ou até nem sentir muitas das questões aqui focadas quando confrontados com uma situação deste tipo. Mas é interessante verificar como, realmente, este esquema permite enquadrar muitos indivíduos e perceber que o que sentimos perante a evidência da morte não são sentimentos solitários, tão pouco invulgares. Se bem que isso não nos traga nenhum conforto...


Friday, February 23, 2007

O Circo Eleitoral


Quando eu era criança, tinha um livro que se chamava As Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Era, de tal modo, fascinante que nunca mais as esqueci e posso ainda enunciar uma por uma. É uma pena que só restem as Pirâmides do Egipto, mas o mundo não pára e essas maravilhas eram todas obra humana e, portanto, perecível.


Há pouco tempo, soube de uma votação para eleger as novas Sete Maravilhas do Mundo, que serão as Sete Maravilhas do Mundo Moderno. O conceito de Moderno é muitíssimo vasto, porque “a concurso” (se assim se pode dizer...) estão a Acrópole de Atenas e a Torre Eiffel, as tais Pirâmides do Egipto e a Ópera de Sydney, só para citar algumas. De qualquer modo, já cá faltava esta eleição. Estávamos com necessidade de eleger os sete lugares do mundo mais bem feitos, mais grandiosos, mais bonitos e que mais vale a pena visitar actualmente. Como foi possível esperar milénios por umas novas Sete Maravilhas, meu Deus? Surpreende-me que a Humanidade tenha sobrevivido tanto tempo sem este roteiro turístico. Felizmente, Lisboa vai salvar o mundo, pois será em Lisboa – mais precisamente em Julho deste ano – que acontecerá a Cerimónia Oficial da Declaração das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Isto dar-se-á  no dia 07.07.2007. A cabalística destes números arrepia!


Mas não parámos por aqui, não. Logo a Comissão achou por bem eleger também as Sete Maravilhas de Portugal. Primeiro, havia 77 nomeados (reparem como continuamos na tradição da cabala);  neste momento, o círculo já se adensou para 21 finalistas de entre as nossas muitas belezas man-made, de entre as quais – lamento dizer – nenhuma se encontra nos Açores, apesar de Angra ser património mundial com a sua arquitectura. O resultado desta crucial votação será revelado no mesmo dia que o da votação para as maravilhas mundiais.


Mas não estávamos satisfeitos ainda... Foi, então, com agrado que vimos aparecer a votação para Os Grandes Portugueses. Ena, que polémica fenomenal! E documentários, que sempre dão para saber pormenores da vida de cada um. E gerações discutindo à mesa de jantar qual merece ganhar a disputa entre o Salazar e o Cunhal, prova mais que provada que Portugal pouco avançou nas mentalidades desde o dia 25 de Abril de 1974. Não se deu por isso. Uns são ditadores e outros revolucionários, mas poucos vivem sem sobressaltos, num país que podia ser menos dado ao drama e, em contrapartida, mais eficaz e com cara mais alegre. Isso de Portugal não ser alegre é um mito em que a gente acreditou e vai crendo ainda.


Finalmente, a última destas votações é O Maior Açoriano de Sempre: uma votação decalcada desta última, que circula aí pela internet e tem uma data de apoiantes. Novamente, os candidatos têm uma espantosa e confusa vastidão temporal (pois falamos do maior de sempre) e têm, igualmente, uma grande dispersão cultural entre si. Há de tudo, desde Vitorino Nemésio a Vasco Garcia (a escolha dos nomes citados é puramente aleatória, como calculam), desde Diogo de Silves (não me consta que fosse açoriano!) a Nelly Furtado (que até gere muito bem a sua carreira, mas estão mesmo a eleger o maior açoriano de sempre ou nem por isso?), passando por nomes como Teotónio Simão de Ornelas Bruges Paim da Câmara, 1º visconde de Bruges e 1º visconde da Praia (ufa!!!). Da última vez que vi, esta lista já tinha mais de 200 nomes, e aceitava propostas!!! Eu própria fiquei a saber que conheço imensa gente ilustríssima a quem não ando a prestar as devidas honras.


Porém, o ponto principal de toda esta súbita chuva de votações para entretimento de um povo (quer ele seja local, nacional ou mundial) é o sentimento de circo que se retira daqui. Parecemos regressados à velha máxima romana panem et circens (“pão e circo”) – alimentados e distraídos. E, se calhar, é isso mesmo que a gente quer, a julgar pela votação dos Grandes Portugueses que descambou em ridículo, pela patética invenção do Maior Açoriano e pela necessidade das nossas Maravilhas todas. É isso mesmo que a gente quer e tem.


Wednesday, February 14, 2007

O Planeta Azul e o Mundo Dentro Dele

O planeta Terra esteve sempre, constantemente, em mudança ambiental. Essa mudança faz parte do fenómeno que é a Vida – o que está vivo muda, transforma-se, ajusta-se, adapta-se como pode ou segundo o que as circunstâncias fizerem dele.


As provas dessa mudança estão presentes em mil e uma descobertas científicas, em achados arqueológicos que nos mostram um Ser Humano muito diferente de nós (já para não falar de tantas outras espécies; reparem como o ser humano é bem egoísta, puxa tudo para si!), em teorias evolucionistas e de selecção natural – enfatizando natural, nada de misturar Darwin com ideias sociais de superioridade racial – e noutras semi catastróficas.



Nestas últimas, encontramos quedas de meteoritos, épocas glaciais e outras de degelo – no fundo, brutais alterações climáticas ou choques com outros astros que levam a uma alteração demasiado rápida da Vida no planeta e, consequentemente, à extinção de várias espécies, algumas dominantes (como na época dos dinossauros).



Estou a dizer alguma coisa de novo? Não. Debito o que aprendi em Biologia.

O problema actual é que a espécie dominante é a nossa, a humana, e estamos a ver a vidinha a andar para trás... O outro problema é que o Homem pensa (enfim, nem todos, mas a espécie, que é o que pretendo referir aqui, pensa!), logo duvida. Descartes errou na frase.



A dúvida humana dos dias que passam consiste nisto: continuar a aproveitar hedonisticamente o planeta que tem, gastando-o enquanto pode, o mais que pode, sem se importar com o que aí vem ou com as gerações futuras (afinal, sabe-se lá se as haverá dado que até pode cair um meteoro na nossa rota de colisão ou haver uma terceira guerra mundial e algum world leaderfazer cabummmm nisto tudo...) ou, pelo contrário, ser generoso com os seus bisnetos e os bisnetos dos americanos, dos chineses, dos iranianos e da vizinha Miquelina, e começar já amanhã a fazer reciclagem de plástico, papel, pilhas e vidro, aderir ao Greenpeace, poupar água e propangadear as energias renováveis.



O Homem divide-se, assim, entre o egoísmo e a dádiva para com futuros seres que nunca chegará a conhecer... Está-se mesmo a ver o que é que a maior parte dos seres humanos faz! Claro que há honrosas excepções, perante as quais me curvo. Mas mesmo esses hesitam entre viver o momento e ser previdentes em relação a um futuro que lhes parece hipotético, mau grado a comunidade científica bradar aos céus que não é hipótese, é fato consumado se a malta persistir nesta trilha de autodestruição. Ah, mas nós, Édipos e Electras, bem sabemos que nada apela mais ao ser humano que a autodestruição, um pouquinho encapotada e infalivelmente trágica!

Claro que alguns cientistas também mudam de opinião como quem muda de camisa (não direi de cuecas, porque espero, sinceramente, que não seja o caso). Portugal quando entrou para a Comunidade Europeia achou que era muito feio ter baleeiros e caçar baleias nas ilhas dos Açores, porque a CE assim o dizia. Vai daí, em 1986 (no mesmo ano, portanto) passou a ser proibida a caça de cachalotes. Todos sabemos que os meios de caça eram ruralmente artesanais (botes a remos de sete homens, arpão manual, etc) e o número de animais caçados por ano tão ínfimo que não causava qualquer distúrbio ao equilíbrio ecológico. Nada que se compare à indústria norueguesa, muito menos à mega-caça japonesa. Ninguém morreu de fome por cá à conta desta proibição. Mas muita gente perdeu o espírito. Um homem do mar é um homem do mar e não é feliz em aventuras terrestres.


Portugal, no entanto, faz Aquacultura (fishfarming) em variadíssimos locais, empregando biólogos e até arquitectos, nessas redes onde tanto barco vai dar. É “o futuro da indústria”, pesqueira e de mariscos. É pena que seja também altamente condenável pelas associações ambientais internacionais, onde estão outros tantos biólogos marinhos, que consideram estas redes “aspiradores dos oceanos”, perturbadoras dos ecossistemas marinhos, focos de bactérias, redes assassinas de baleias e golfinhos, um perigo para a navegação, em suma, uma mentira global. Veja-se, por exemplo:http://oceans.greenpeace.org/en/our-oceans/fish-farming. Porém, enquanto a CE achar bem, fazemo-lo e com muito orgulho.



É que o mundo é uma construção política e o ambiente depende, também, do que nos fizerem acreditar que é bom para nós.



Aqui o nosso editor-mor da Reacção Cultural pediu-me para eu fazer o meu Perfil. Eu disse: "Claro que eu faço! Eu sou mulher-camaleão, adapto-me a tudo..." Mas depois pensei: "Ai, perfil, perfil... Não pode ser antes frente-a-frente?"

Friday, February 9, 2007

Os Generosos Avisos da Santa Madre



Sou contra proselitismos. Sou contra marketing disfarçado. Detesto que me inculquem coisas, sejam essas coisas ideias, conselhos (oh, as generosas pessoas que dão conselhos de graça!...), a margarina ou o detergente em promoção do hiper, a roupinha da moda ou qualquer política de opressão. Deixem-me pensar e agir por mim. Obrigada pela mãozinha, mas já sei que vem aí um braço agarrado.



Há semanas (repito, semanas!) que venho recebendo no correio uns papelinhos que me avisam - e este é o termo certo! - para votar "não" a 11 de Fevereiro, na questão da despenalização da IVG.


Apelam ao catolicismo (sabem lá se sou católica ou não...), ao desrespeito que é terem marcado o referendo para o dia de Nossa Senhora de Lourdes (sempre muito comemorado em Portugal, como sabemos; quem não vai em peregrinação daqui até Lourdes, França, ponha a mão no ar... bem me parecia!), aos 90 anos da aparição da Virgem que é a nossa mãe celestial e chora verdadeiramente por estes abortos que estas senhoras vão todas fazer quando as famílias fizerem este atentado brutal e cobarde contra os inocentes, relembram que a Virgem disse que "em Portugal conservar-se-á sempre o Dogma da Fé" (lá que os outros países  e outras fés caiam no Inferno não interessa aos santos... Portugal católico, sublinho católico porque há outras realidades dentro de Portugal que são esquecidas, está a salvo e sob a protecção da Virgem, enquanto não abortar indefesos!).


Este papel avisa-me que, para não decepcionar a minha "Mãe do Céu", devo também comprar um terçozinho, o Terço da Vida, para rezar ao menos uma vez antes do referendo e participar na grande súplica nacional a Nssa. Sra. de Fátima (de repente, já não é a de Lourdes, dando-se aqui uma elegante metamorfose para o produto nacional).


Muito me surpreendia se não se fizessem uns dinheiritos à custa disto... Realmente, a compra do Terçozinho da Vida vem a calhar. E, ainda, o livrinho ilustrado "O Rosário da Vida", tudo para que não mais se ouçam os gemidos dos inocentes por nascer e não mais corram as lágrimas da Virgem.


Claro que todos temos direito à nossa opinião. Martelá-la na cabeça dos outros é que já me parece absolutamente desnecessário. Ameaçá-los com o fogo eterno, dizendo-lhes que serão excomungados se votarem "sim", é abusar do poder eclesiástico e aproveitar-se do medo de alguns. Já nem falo da restrição de liberdade que tudo isto é.


Quanto à venda final, expressa no papelinho, não é de espantar... A partir do momento em que as Igrejas mais bonitas deste mundo passaram a vender postaizinhos, cruzes e imagens dentro do próprio local de culto, incomodando  a genuína fé de quem reza com a seringada de turistas a tilintar o dinheiro, passámos a um curioso espectáculo: nenhum(a) catequista pode explicar, hoje em dia, a uma criança o episódio de expulsão dos vendilhões do Templo por Jesus Cristo, já que a Igreja Católica chamou para dentro de portas os vendilhões e abençoou-os.


Os papelinhos que me metem no Correio têm, em mim, o efeito contrário. Se eu já era pelo "sim", por todas as razões e mais alguma, hoje sou-o ainda mais.

Friday, January 26, 2007

Este Texto Não É Sobre a IVG

À conta de umas traduções que estive a fazer nos últimos tempos, deparei-me com uma data de planos, legislações, encontros e congressos que têm vindo a promover a Igualdade de Género – maneira formal e politicamente correcta de dizer “a igualdade entre o homem e a mulher”. Só o facto de ter de se fazer legislação para que essa igualdade exista é prova de que ela, na prática, não existe. Se de antemão ela estivesse presente no exercício de poder numa proporção racional àquela que se verifica tendo em conta o número de mulheres que, efectivamente, “puxam a carroça” dos seus agregados familiares na vida quotidiana (e não me refiro a pregar botões, embora também passe por aí e não seja vergonha nenhuma...) não seria preciso andar a fazer coisas como Plano Nacional para a Equidade de Género ou Congresso para a Promoção da Igualdade da Mulher, etc, etc.


É um triste mundo este em que estamos onde se tem de apelar à legislação para consagrar direitos óbvios, como a igualdade e a liberdade. Já a fraternidade, não há nada que a faça cumprir... Mas visto que já o fizemos em relação aos direitos da criança (atenção, eu refiro-me mesmo a crianças, a seres que respiram sem estarem ligados por um cordão umbilical a outro ser) e aos dos idosos – tudo seres humanos que a sociedade considera carentes de protecção e lá terá as suas razões - , vamo-lo fazendo, devagarinho para não borrar a pintura, em relação às mulheres. 


Mudar a legislação não muda mentalidades. A mudança das mentalidades – estas mudam sempre porque as circunstâncias levaram à sua alteração - é que conduzem à mudança da legislação. Esta verdade trivial parece não ter ainda entrado no esquema. Mas (novamente) devagarinho, lá vamos. A tartaruga também ganhou a corrida à lebre, por ser persistente.


A propósito de mentalidades – e para que não digam que vos enganei com o título (seria incapaz de tal coisa!) - , esta última tradução levou-me a uma constatação curiosa: até 2005, o Prémio Nobel da Economia nunca foi atribuído a nenhuma mulher. Como sabem, o Prémio Nobel da Economia existe desde 1969 (foi o último Nobel a ser criado; os restantes são atribuídos desde 1901), o que nos dá um total de 36 anos de prémios de Economia atribuídos apenas a homens. Serão os cérebros femininos menos dados às ciências exactas? Para os senhores que me lêem (haverá? Ah ah ah!) e que se apressam a dizer que sim, digo-vos que o Prémio Nobel da Química foi atribuído a 3 senhoras, o da Química a 2, o da Medicina a 7, sendo que uma delas recebeu um Nobel (Física e Química) em dois anos diferentes  - Marie Curie, em 1903 e 1911, foi mesmo a primeira pessoa a receber dois Nobel (não era nenhuma insatisfeita noutras áreas, como é de uso a má língua dizer nestes casos; sabe-se que tinha marido – Pierre Curie - e, ao que parece, eram uma boa equipa...). É certo que a Academia premeia muito mais as senhoras a nível da Literatura  - 10 mulheres até 2005 – e mais ainda na área da Paz – 12 mulheres. Serão as mulheres naturalmente mais pacíficas? Na minha modestíssima opinião, há-as pacíficas e aguerridas (e os homens também...). Porém, o ponto fulcral é que, fazendo umas simples continhas, verificamos o ínfimo número de prémios Nobel que, desde o início, as mulheres têm recebido em comparação com os homens. Serão menos dotadas? Têm menos visibilidade? Ou será que quando se pensa em atribuir algo ou encarreirar alguém se pensa sempre num homem primeiro, porque esta é a mentalidade vigente?




Do mesmo modo, enquanto estudei música, sempre me surpreendeu o facto de nunca haver, pelo menos, uma mulher compositora na História da Música. Podia percorrer os períodos todos, fazer arabescos barrocos, purezas clássicas ou divagações românticas mas... nada! O máximo que a História fixou – vejam bem como é fino este papel! – é uma mulher – musa inspiradora, que teve grande influência na vida de um compositor. Ás vezes, perguntava a mim própria se ela não lhe teria escrito metade das pautas... E mantido o silêncio, naturalmente, como é próprio das senhoras.


Uma professora minha explicou-me, na altura, que para estar ao mesmo nível que um rapaz (isto é, para pertencer à mesma classe) eu – por ser rapariga – tinha de ser cinco vezes melhor do que ele, porque o mundo era organizado por homens. Talvez tenha sido uma maneira cruel de pôr a questão, mas foi muito bem absorvida.


Assim, com tanto trabalho para fazer, tanta afectividade (porque sou humana), tantas ideias e caminho a percorrer... parece-me que o mínimo que devo exigir, como ser humano, é o direito à liberdade e à igualdade. Até me dói que sejam precisas leis para isso. Mas já que são necessárias... que se façam.