... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, July 27, 2007

Fraldinha e Sabonete


Li, numa revista médica, que as mulheres engravidam mais nos meses de Verão. Havia uma data de razões apontadas, metade das quais não me lembro, mas sobretudo o nível de produção de hormonas de ambos os sexos -ao que parece, os níveis de testosterona dos homens são mais altos nos meses de calor - que, como todos sabemos leva a uma maior predisposição para fazer bebés (embora “fazer bebés” não seja aquilo que realmente se queira 98% das vezes).


O facto não me surpreende. Na minha própria família, quase todos nascemos na Primavera (e início do Verão, quando o pessoal já andava a gastar os últimos cartuchos...) Assim, contando nove meses para trás, as mulheres terão engravidado na época estival. 


Actualmente, a maior parte das minhas amigas estão todas a tentar engravidar Algumas já ostentam orgulhosamente uma barriguinha que só com muito esforço se vê. Agora que escrevo isto, reparo bem no contrasenso que é, porque até há bem pouco tempo atrás o que mais se queria era não engravidar e era uma grande desgraça se tal drama nos batesse à porta. De repente, querem todas  ter o primeiro bebé. É uma febre que ataca as mulheres que sentem chegar o fim da década dos vinte anos – acende-se um sinal vermelho dentro do cérebro que diz: “Alto, Maria! A Sara, a Sofia e a Bernardete já engravidaram... Tenho de me despachar senão qualquer dia não tenho assunto nenhum para falar com elas, porque elas já só falam de marcas de fraldas e de parto sem dor. Hum... A ver se me engano  na toma da pílula este mês...”


O assunto agrava-se quando há uma cunhada ou uma irmã que (supremo infortúnio!) já deu o primeiro netinho aos ansiosos avós. Já não vamos a tempo! A acérrima competição entra agora no campo familiar. Não raro a avó em potência excita as feras, com suspiros “O desgosto que tenho de ainda não ter uma menina correndo neste quintal, ao lado do netinho que a Luísa me deu. Ainda bem, Luísa, que me trouxeste a alegria desta criança!”, e aí temos esta Luísa (cunhada que sempre odiámos secretamente!), toda inchada de um pedaço de gente que berra e se baba todo o santo dia.


Depois, há o problema da idade. Ainda ontem éramos umas rapariguinhas – “Vê lá não chegues tarde a casa...”; “Quem é esse tipo com quem andas agora? Ainda me parece pior que o anterior!”; “Onde é que estiveste? ;”, etc, . Subitamente e sem aviso, já temos de nos despachar ou começamos a ser “um bocado velhotas para ter o primeiro filho”. Porquê? Porque senão o corpo pode não voltar a ser o mesmo, que é como quem diz não voltar a ter o mesmo peso, abrir estrias por toda a santa curva, descair o peito, ficar flácido aqui e acolá. Isto tudo vai fatalmente acontecer quer uma pessoa tenha filhos agora ou depois, e até há-de acontecer a quem nunca os tiver, mas nós, pobres ingénuas, gostamos de pensar que se seguirmos certas regras na vida, evitamos todas as misérias que a velhice traz. Mais tarde, quando chegar a pancada cruel, havemos de dar razão à nossa avó, mas não interessa porque aí já havemos de ter a idade dela e ninguém, sobretudo os filhos e netos que eventualmente tivermos, nos hão-de dar ouvidos.


Uma mulher é olhada muito de lado ao assumir que não quer ter filhos. Imediatamente, é um ser anti-social, mais ou menos como os que insistem em andar de bicicleta neste mundo de carros, os que preferem ter uma iguana como animal de estimação em vez de um cão ou os que não usam gravata no escritório. Neste mundo, só há um crime pior do que ser diferente – é ter genuíno prazer em sê-lo. “Mas porquê, Maria?” perguntam a amiga, a vizinha, a mãe dela,  e o patrão que antes refilou por contratar uma mulher dado que “as gajas engravidam e depois é uma chatice...”  Não interessam as razões da Maria, porque todos lhe hão-de dizer que não é natural  -  vigora a ideia de que uma mulher só se pode sentir realizada se der à luz.


Repare-se que não é educar que parece importante ao mundo, mas sim o acto de fazer nascer. Ter filhos é fácil (sobretudo para mim, que, efectivamente, nunca pari nenhum.) Como é coisa que já se vem fazendo desde que o Mundo é Mundo, julgo que a Natureza se encarregou de nos dotar com esse saber inato, sem necessidade dessa ideia tão pós-moderna e hollywoddesca – agora também nos Açores, iupi! - que são as “aulas de preparação para o parto”, que, segundo sei, não existem no Terceiro Mundo onde os bebés são mais que as mães  continuam. Mais difícil é criá-los depois.


Actualmente, há umas versões de “pai” e “mãe” muito em voga que são “o/a amigo/a mais velho/a”. Não têm conta os pais e mães que dizem “Eu o que quero é ser uma espécie de amigo/a mais velho/a do meu filho, não exactamente um pai/uma mãe”. Ora, se não querem ser pais nem mães, faz sentido terem filhos? É que amigos podem-se ter vários na vida, e escolhemo-los nós, mas pai e mãe será difícil arranjar outros...


É verdade que a educação é uma coisa ingrata – é preciso castigar as maldades e saber dizer que sim e que não e dar uns abraços apertados e proteger só na medida certa e blablabla e é o maior quebra-cabeças do mundo para se ter com alguém que na primeira oportunidade nos vai dizer que fizemos quase tudo errado.


Felizmente, está cheia de momentos inesquecíveis e divertidos. Não resisto a contar um, que se passou com um menino de cinco anos, a quem o meu sogro tentava ensinar algo sobre a bondade e a vida eterna. Depois de uma grande prelecção sobre boas acções, fez-lhe perguntas para se assegurar de que ele tinha percebido. “Então, se eu for à missa sempre, vou para o céu?”. “Não”, disse o miúdo. “Muito bem. E se eu tiver muito dinheiro vou para o céu?” “Não”. “Claro. O que é que é preciso para irmos para o céu?”. O menino não tinha dúvidas – “Temos de estar mortos”. 

Wednesday, July 4, 2007

O Choque Tecnológico


Vivemos numa época em que é (quase) tudo absurdamente fácil. Não nos damos conta disso porque estamos automaticamente programados para viver assim. As invenções e  esquemas novos que nos facilitam a vida entram depressa no nosso sistema e, passados uns meses, já nem nos lembramos como foi possível viver sem aquela tecnologia ou mecanismo.


Isto vem a propósito de um momento insólito que vivi recentemente. Vivo num condomínio, cujo portão nos permite a todos entrar para dentro do chão comum que nos leva aos nossos apartamentos, e esse portão funciona electricamente – carrega-se num botão e abre-se o portão; nada mais simples (e rima!). Acontece que a electricidade falhou. Algo que para os nossos pais (nem digo avós...) seria encarado como quase comum, mas nós maldizemos logo a EDA, as obras da Câmara, o Governo e a Assembleia (de notar que algumas destas entidades não têm absolutamente nada a ver com a falta temporária de electricidade, mas é extraordinário ver como são sempre metidas ao barulho sempre e quando falta qualquer coisa na vida de um cidadão).


Chegámos nós ao portão para sair de casa e, gesto automático, carregámos no botão. Não abriu. O pânico instalou-se. As vozes levantaram-se: “Não podemos sair; estamos presos em casa!”. A minha amiga lembrou: “Vamos saltar o portão!”, mas a vontade não era muita, porque é alto, complexo, e – obviamente - foi feito para que ninguém o saltasse… Só depois de analisadas várias hipóteses,  incluindo a solução Tarzan - saltar a varanda das traseiras (um risco físico muito pior do que saltar o portão, e susceptível de causar um ataque de coração à vizinha do prédio ao lado) e a solução Calimero – esperar, calmos e conformados, que voltasse a luz… - é que alguém (pronto, fui eu, podem bater palmas) se lembrou que devia haver uma chave do portão.


Primeiro, fomos ao portão confirmar que sim senhor, havia lugar a uma chave, não era de todo um portão ultra-hiper-extra-moderno, sem lugar para uma coisa tão corriqueira como um buraco de fechadura. Depois, ficámos com cara de palhaços (é o que somos…), porque não nos tínhamos lembrado do bom e velho método da chavinha na porta antes. Contemporâneos extravagantes! E agora, onde está a chave do portão?! Porque, evidentemente, nunca a tínhamos usado nem sequer dado conta da sua existência…


Este pequeno episódio doméstico não serve só para ilustrar que somos um pouco disfuncionais, coisa que, evidentemente, só interessa aos próprios. Serve, sobretudo, para dizer que neste mundo Moderno já ninguém se lembra do mais evidente. A tecnologia devia ser apelativa, sobretudo por poupar tempo para depois se aproveitar melhor a vida, mas, muitas vezes, impede as pessoas de pensar – não estaremos a ficar um bocadinho mais ignorantes com tanta facilitação? As criancinhas, agora, usam todas calculadora antes de saberem a tabuada, pelo que nunca a saberão; está fora de moda ensinar a gramática como deve ser, porque as regras gramaticais limitam a livre expressão (aliás, o erro, dependendo de quem vem, passou a ser considerado figura de estilo…).


 É fácil desculpabilizarmo-nos no mundo tecnológico – a culpa não é nossa, foi qualquer coisa na porcaria do sistema que falhou. E também posso culpar o computador porque, como diz um senhor que conheço, ele nunca há-de gritar a defender-se.


Pessoalmente, apesar de viver numa casa sem televisão, e de só muito tarde ter aderido ao telemóvel (e hoje não vivo sem ele, e tenho a firme convicção que me bastava mudar de número para mudar de vida… experimentem!), não posso conceber voltar atrás no tempo para aqueles dias sem as paredes que vomitam dinheiro chamadas Multibanco, sem máquinas digitais que fazem de toda a gente um grande fotógrafo e sem internet em casa que nos permite ser escritores ou músicos em potência, sem jogos virtuais, nos quais somos o Indiana Jones descobrindo templos e matando crocodilos, preguiçosamente sentados no sofá.


Às vezes, não há electricidade e uma pessoa pára. É obrigada a pensar de modo diferente. Até parece que usa uma zona adormecida do cérebro outra vez. 

Friday, June 22, 2007

A Importância de um Local que Soe Bem


Sei que a toponímia está na moda, mas não vou aqui dissertar sobre os nomes dos Açores, até porque há obras recentemente publicadas sobre a questão de indiscutível valor (as obras, não a toponímia, que deixa um pouco a desejar como sabemos).  É certo que este deve ser dos temas mais caros a toda a gente, sobretudo para nos picarmos uns aos outros com questões da naturalidade e da residência de cada um, expressas em nomes infelizes.


Estou convencida (e isto para dar um exemplo clássico) que os indivíduos de Rabo de Peixe passaram a sofrer agruras de troça do restante arquipélago exactamente por nascerem e/ou viverem num sítio denominado assim. Não me venham com a história da pronúncia dos seus  habitantes (que não é menos compreensível que a de muitos outros sítios da ilha de S. Miguel) ou com questões socio–culturais e económicas (tão gritantes ali como noutras freguesias). Não, não. O azar destes senhores foi mesmo terem nascido no Rabo de um Peixe qualquer. Marca para toda a vida aos olhos dos demais.


É por isto mesmo que os naturais de Rosto de Cão (também na ilha de S. Miguel, como sabemos) se sentem eminentemente superiores. Afinal, eles nasceram no Rosto e os outros infelizes vêm do Rabo. A vida é injusta, porque dá a estes segundos um longo caminho a percorrer, enquanto que aos primeiros coloca-os já na pole-position. E, se formos mais longe, a coisa é ainda mais séria, porque os do Rabo são de um Peixe e os do Rosto são de um Cão, grandes companheiros da espécie humana, inteligentes e semper fidelis, etc, etc. Mesmo assim, não se livram de serem gozados, toda a vida, pelos demais, que tiveram a sorte de não nascerem/não residirem em locais com denominações tão peculiares.


As ruas – das quais se esperaria terem nomes mais vulgares e ajuizados, porque não se escapam com questões de tradição – vão pelo mesmo triste caminho. Tive um colega  que morava na Rua das Necessidades, perto da velha estrada da Ribeira Grande. Rua das Necessidades! Podem imaginar…O rapaz, que era inteligente e simpático, sofria sempre imenso cada vez que tinha de dizer a sua residência. Via-se na cara das pessoas o gozo fenomenal. Ah, que necessidades seriam essas? E ele, em particular, estaria necessitado de algo? Imagino que a primeira coisa que deve ter feito foi mudar-se dali para fora. A zona, hoje, é toda bastante mais in, muito via rápida, mas continua a ter aquela ruazinha assim denominada. Fica-lhe bem.


Há outra interessante rua (hesito entre a Fajã de Cima e os Arrifes e aceito correcções, porque a minha memória recusa-se a lembrar-se disto muito bem, como podem entender…): é a Rua do Mata-Mulheres. Calculo que deve haver uma história por detrás desta invulgar tabuleta. Louvo a coragem das senhoras que habitam ali. Cada manhã é uma vitória sobre o mito.


Lamento ter trabalhado tão pouco tempo na ilha Terceira e não estar suficientemente por dentro da fascinante toponímia da cidade de Angra. Mas sempre me fascinou a Rua do Galo, completamente desenquadrada dos restantes nomes, quase todos sonantes da cidade do Heroísmo, património mundial e tudo o mais. O Frango está ali só para chatear, para dar uma ideia de cobardolas esquecido e de situações mal resolvidas, sei lá, chatices que acontecem pelo meio das pernas.


Convenhamos que também estamos bem servidos no Faial, a começar pelo nome da cidade. Pois bem sei que deriva do nosso primeiro capitão-donatário flamengo Van Huertere, blablabla, mas o certo é que hoje é Horta e lembra logo repolhos. Se bem que Ponta Delgada para nome de cidade também é algo muito pouco pujante (não bastava ser pontinha, mas ainda é delgadinha, Senhor Deus, que fraqueza!). A Ribeira Grande, neste aspecto, faz-lhe sombra.
Mas olhem que dentro do Faial – como nome de ilha não está mal pensado, é melhor que a denominação cardinal e vulgar de Terceira – temos ainda outras preciosidades, onde se inclui essa valorosa terra (abundante de dinheiros e dada à leitura da Vogue magazine) que dá pelo nome de Espalhafatos.
E que dizer da freguesia das Angústias, como abreviadamente é conhecida? Um dos meus momentos catárticos é passar ali perto da Polícia, virar à esquerda e dar de caras com esta tabuleta -  “Parque Infantil de Angústias”. Lida de um só fôlego e com esta preposiçãozita sem artigo (DE Angústias) é de homem! Eis um local que se assume. Aqui, meninos, podeis e tendes o dever de dar largas às vossas ansiedades.


No entanto, talvez mais importante que a toponímia é a antroponímia, que é o mesmo que dizer o nome pessoal de cada um. Saberão vocês, pais e mães, a responsabilidade que pesa sobre vós ao escolher o nome dos vossos filhinhos ? Marca um destino para uma vida inteira, senhores.
Recordo sempre um Inspector-Geral da Portugal Telecom que se chamava Luís Todo Bom. Isso mesmo. A primeira vez que o ouvi anunciado na televisão, estava na cozinha e fui a correr para a sala de estar só para ver com os meus próprios olhos quem seria o dono de tal nome. As expectativas que cresceram em mim durante estes décimos de segundo são indescrítiveis e não as posso pôr em palavras. Não só era Luís Bom, como era mesmo Todo Bom, intensificado por advérbio. Que coragem, registado em cartório!...  Pois lamento dizer às leitoras que  me senti um pedacinho  defraudada quando pude observar o senhor (mas é legítimo abrir um parêntesis para dizer que nestes assuntos não há verdades absolutas e poderá ser que as senhoras encontrassem motivos para verificar a adequação deste nome onde eu nada vi).


Claro que a lista de antropónimos é infindável, mas é igualmente perigosa e eu própria tenho telhados de vidro. Para além do usual questionário pelo qual tenho de passar e das alcunhas que o meu sobrenome permite, é raro passarem-me recibos correctamente, o que me causa grandes chatices (qualquer dia escrevo sobre os impostos mas há-de ser num dia em que me encontre particularmente azeda, coisa dificílima). Assim, passei a, gesto automático, soletrar o meu nome. Quando por qualquer razão isto não resulta, tenho por hábito usar a analogia do Capitão Cook (toda a gente sabe quem foi o Cpt Cook e a fila anda!).
Porém, há pouco tempo, fui comprar uma batedeira para fazer os meus bolinhos. A menina da caixa não sabia quem foi o Capitão Cook. Também, aparentemente, tinha dificuldades em soletrar. Ficámos num impasse. Mostrei-lhe o Bilhete de Identidade. Ela riu-se: «Ah! Bolas, menina! Já me podia ter dito que era cozinheira, só que é cozinheira em inglês!»

Friday, June 1, 2007

Os Especialistas


É gratificante viver rodeada de especialistas. Suponho que todos sentimos o mesmo. Sabemos que estamos imensamente seguros neste nosso pequeno mundo, pois não há tarefa a executar que não tenha, pelo menos, uma mão cheia de especialistas na área prontos a debitar sobre o assunto. Lá deitar mãos à obra é que é mais complicado, como sabemos. Podem não mexer uma palha, mas falar sim (não necessariamente à frente dos executantes, claro está).  Como não se deram ao esforço de suar para que algo fosse, efectivamente, feito, é muito fácil – após a obra concluída - dizer que a mesma está uma treta. O mais rísivel é que quando lhes perguntamos como poderia ser melhor, não sabem. Mexer (e mexer-se!) dá muito trabalho. Então agora, em tempo de calor, é uma canseira. Ufa!


Há todo o tipo de especialistas. Infelizmente – para mal dos nossos pecados- nem são capazes de se entenderem entre si. Veja-se o exemplo dos mecânicos, especialistas em consertar automóveis. Uma mulher (pronto, eu, deixemo-nos de eufemismos) leva o carro à oficina. Os mecânicos observam a entrada, com cara de «ehehe, olha a dama, vem trazer a máquina, cerca pela esquerda Manel, a dama não vai perceber nada disto, ainda por cima é pequenita e o motor deve ser mais velho do que ela, olha esta potência». Atiram uma beata para o chão para dar um certo ar de macho, fungam e dizem: «Entao, queria alguma coisa?». Eu queria, queria saber porque é que este carro não anda e assumo que os meus conhecimentos da avaria são escassos.


Oh, nada dá mais alegria aos mecânicos! Eles, a quem compete saber porque é que aquela carroça não se mexe, também não têm a mais remota ideia, mas que EU não saiba é que lhes dá um gozo bestial. «Então, e quando é que a senhora, perdão, a menina deu por isso?»  eh eh eh. «Foi ontem, foi de repente, eu quer-me parecer  que isto é só uma questão da bateria».


Ah, a arrogância, agora a mim há-de-me querer parecer alguma coisa! E só da bateria! Como se fosse pouco.  Começando a mexer no carro, os mecânicos vão piscando o olho entre si e atirando com frases que é suposto eu não entender porque uma mulher não deve poder penetrar no universo sagrado da mecânica automóvel: «Oh minha cara menina isto tanto pode ser das velas, como do carter como da suspensão ou do diferencial. Epá, até pode ser da transmissão, um gajo assim de repente não pode dizer…Percebe? eh eh eh. Claro que isto para si, se calhar, é chinês. O melhor é deixar as coisas técnicas connosco e depois, na altura certa, a gente devolve-lhe a máquina. Fique descansada.»  O outro atira com : «Pensava que era assim simples, não é? Isto parece simples, mas nós já andamos a mexer em carros há muitos anos, menina… Nós é que sabemos.»


É nessa altura que faço o erro fatal de fazer espumar as feras, dizendo: «Bem, os senhores deram-me 5 hipóteses prováveis para a resolução de um problema e nenhum tempo concreto para o resolverem, o que, para especialistas que andam aqui há muitos anos, não me parece muito eficiente.»
Após alguns grunhidos e salivadas, misturadas com «olha-me esta gaja…», sai um polido «Se calhar, a gente não lhe explicou bem os termos técnicos, para a senhora poder entender esta nossa linguagem que é muito específica e só com a prática é que o pessoal percebe» (de notar que passei a ser  senhora para melhor me chamarem burra). Digo: «Eu percebi muito bem todos os vossos termos técnicos. Quando não perceber, pergunto. Muito obrigada. E daqui a quanto tempo é que os senhores calculam ter feito o trabalho que vos compete fazer?»
  Bufando e respingando, respondem: « Isto demora, isto não é como pintar a unha todos os dias, ó senhora doutora.» (vou subindo de título enquanto falam comigo e descendo de título enquanto falam entre eles sobre mim).  «Se os senhores prestassem atenção reparavam que não tenho as unhas pintadas. Guardem lá essa conversa para as senhoras que servem de decoração, fazem favor. »


E assim, os especialistas – amplamente reconhecidos, pelo seu excelso trabalho – e eu, convivemos em sã harmonia, todos os dias. Precisamos uns dos outros, que se há-de fazer? 

Friday, May 18, 2007

A Opinião Pública


Esta opinião (a minha, não a pública) vem a propósito de uma conversa que tive noutro dia com um amigo, em que lhe disse que não me preocupava nada com a opinião alheia, nomeadamente no que concerne a assuntos pessoais, ao que ele me respondeu ser isso impossível porque todos temos necessidade de aprovação, sendo o Homem um ser social e blablabla.
Reformulando: não me preocupo nada com a opinião pública e julgo que qualquer pessoa com dois dedos de testa também não se preocupará.


Em primeiro lugar, a opinião pública é como um coro de vizinhas velhas e rabugentas, preocupadas com o seu quintal e com as laranjas da sua laranjeira que parecem estar a tombar para o nosso lado do muro, e não vá a gente lembrar-se de tirar uma. Porém, se por acaso, o gato delas roer as nossas plantas, até nos oferecem um cesto de laranjas com laço a decorar. A opinião pública muda como um catavento; se soubermos a razão da mudança ainda temos muita sorte.


Lembro-me sempre de uma situação engraçada acerca do valor das pessoas para o público: certa ocasião, quando o Eriksson era treinador do Benfica, a equipa estava a ter um campeonato muito fraquinho e andavam todos a falar mal do homem como se ele fosse pior do que um iogurte ingerido fora de prazo; entretanto, o Benfica jogou para a Taça dos Campeões e fez um figurão, passando o Eriksson de besta a bestial num espaço de 90 minutos. Houve mesmo um jornalista que lhe pôs esta questão – o eterno “Como se sente por o povo português agora passar a considerá-lo um herói quando ainda ontem se dizia tão mal de si?” O homem riu-se e disse que “Já não era a primeira vez!”.


De facto, tendo em conta que individualmente a maior parte das pessoas até pensa mais ou menos bem (ou, pelo menos, pensa) mas quando integrada num grupo parece perder as suas capacidades de lucidez e de raciocício - range os dentes e entra num espírito de carneirada, vamos todos por ali, por onde não se sabe bem, quase de olhos fechados que estão mas é por ali que vão - não sei por que carga de água se há-de atribuir grande importância à opinião desse rebanho. Experimentem perguntar-lhes o porquê de qualquer coisa / assunto / ideia  / ódio ou amor viscerais e a resposta será, 90 por cento das vezes, “eu ouvi dizer que…”. Logo, a opinião pública não só tem muito pouco de própria (no sentido de individualmente pensada) como de fundamentada nada tem. Vive de hits de momento, de foguetórios para animar a malta quando não há festarola nem há mais de que falar e de “ouviste a última? a mim, também me parece que sim”. O parecer é fundamental, porque ninguém quer ser responsável por dar certezas algumas de nada, claro está.


Não se pense que isto é exclusivo das classes sociais menos letradas. Nem pensar! Isto é de todos e para todos. Ou não fosse esta opinião… pública. A malta das literaturas, por exemplo, também tem opiniões assim elevadas e dadas a mudarem de rumo conforme sopra o vento (não raro estão eles a soprarem para que o vento mude de direcção mais depressa…). Como exemplo, Vladimir Nabokov expressou grande surpresa por um dos seus livros ter sido analisado – sincronicamente!- da seguinte forma, por dois grupos de críticos diferentes: “ A Velha Europa troçando da Nova América” e “A Nova América troçando da Velha Europa”  (Nabokov, On a Book Entitled Lolita, Nov. 1956).


Assim, é justo dizer que a opinião pública é uma espécie de mentira social, murmurada primeiro, gritada depois, levada em braços e, finalmente, deitada no lixo. Afinal, se pensarem dois minutos, vocês conhecem mais gente inteligente ou mais gente de mente desocupada e boca grande? Pois, são os fazedores da opinião pública.

Friday, May 4, 2007

Lusofobia e Lusofagia


Há pouco tempo atrás, quando trabalhava noutro país, um jornalista disse-me que a comunidade portuguesa era um caso curioso porque “não gostavam uns dos outros”. Como eu vivia muito deslocada daquilo a que vulgarmente se chama a comunidade emigrante (dado que na minha cidade praticamente não havia portugueses e no meu trabalho éramos duas, coisa sem relevância no meio da máquina trituradora de centenas), não pude pronunciar-me nem a favor nem contra. Hoje, porém, penso que os portugueses não gostam uns dos outros nem lá fora nem muito menos cá dentro, que é, como quem diz, em Portugal.


Basta pensar no caso simples dos portugueses em férias no estrangeiro. Não há nacionalidade que mais goste de comprar T-shirts com nomes de cidades. É vê-los com “LONDON”, “AMSTERDAM”  estampados nas camisas logo ao segundo dia de repouso e sol (se bem que escolhi maus exemplos para “sol”). Têm uma necessidade premente de se integrar na onda do sítio para onde foram, esquecendo que qualquer cidadão local (pelo menos os que gozam do seu perfeito juízo... pronto, isso exclui uma percentagem razoável) não usa uma T-shirt com o nome da cidade onde habita estampada em letras garrafais. Estão a ver o que era se andássemos por aí com camisas ostentando “HORTA”? Não respondam à retórica, por favor.


O português em férias também tenta não falar a sua língua, mas sim a língua do visitado. Isto pode ser um sinal de simpatia para com o país acolhedor, e até de um certo polilinguismo que nem todas as nacionalidades possuem, seja porque a língua portuguesa tem uma amplitude fonética muito grande (o que lhe permite “imitar” outras com uma certa facilidade), seja porque temos, culturalmente, maior acesso a vários idiomas que não têm acesso à língua portuguesa (quantas vezes um inglês terá ouvido falar português antes de chegar a Portugal, por exemplo?).


Porém, passe o facto de sermos simpáticos, espertos e abertos ao mundo – já vos dei elogios para 15 dias! -, a verdade é que o português também tem, muitas vezes, desgosto. Quantas nacionalidades diriam coisas como “Eu até  gosto de português, mas prefiro ouvir outra língua”?  O que ele, realmente, apreciava era aprender português assim como quem aprende a arte do origami: qualquer coisa exótica e distante, para preencher o fim de tarde. Tendo em conta a maneira como muitos se expressam ao falar, até leva a crer que é mesmo isso que andaram a fazer na primeira infância...


O português tem, sobretudo, vergonha dos seus compatriotas quando está noutro país. Vai no Metro de Paris (cidade mais recheada de portugueses que uma lixeira de moscas)  e ouve falar português (mal) misturado de francês (pior). É o chamado francoguês, que dá pérolas como esta: “Pleuvera-til, Mariana? Não, il ping, seulement.” O português ouvinte esconde-se atrás do jornal, cora, tem suores frios, está em pânico de que o resto da carruagem descubra, por azar, que ele também é português. Que infortúnio! Mas porque é que esta gente não vai toda para as suas casinhas na Serra?! Na verdade, um português julga-se sempre melhor que todos os outros portugueses  - já o francês julga-se melhor, e ponto final! 


Mas ainda nem vos falei da Lusofagia – vocábulo que roubei ao tal jornalista (mas ele também não sabe e quem lhe disser é um lusófago!). O caso é simples...
Uma comunidade de portugueses (quer habite na Mauritânia, na Serra Nevada ou na minha rua) tem dificuldade em dividir. Há uma espécie de jogo de vaidades onde toda a gente se queima e ninguém ganha coisa alguma. E isto não acontece por uma ambição natural de querer progredir – seja esse progresso íntimo de que natureza for -, mas por uma mal dissimulada inveja do “quintalinho do vizinho”, que se traduz em aparecer numa revista social, em ser distinguido, em não poder ver ninguém fazer nada que não se pense logo que o fez obscuramente, em pensar que de tudo se podem tirar dividendos do alheio para benefício próprio, em desculpar isto “porque todos o fazemos assim”.


Claro que vocês estão a pensar exactamente o que eu disse na época ao tal jornalista:  isto é universal, não é um drama exclusivamente português! Certo. Concordamos. O problema é que o nosso Portugal, e dentro dele, os nossos Açores são tão pequeninos que tudo se nota muito mais, como se a formiguinha, vista à lupa, fosse logo candidata a elefante.

Thursday, April 5, 2007

O Luto

Em 1969, a psiquiatra suiça Elizabeth Kubler-Ross definiu cinco estádios pelos quais passa alguém que sabe padecer de uma doença terminal, no seu livro On Death and Dying. Essas fases, denominadas como estádios de dor ou de luto, foram - mais tarde - alargadas àqueles que sofrem a perda de um ente querido e lidam com esse facto, inevitavelmente. 



Assim, segundo Kubler-Ross, o doente que sabe estar a morrer (ou alguém que acaba de perder um ser amado) passa primeiro por uma fase de negação, na qual é frequente rejeitar o que se está a passar com pensamentos do tipo "Isto não está a acontecer..." 




Quando, finalmente, interioriza a realidade dos factos, surge-lhe a raiva, que corresponde ao segundo estádio. Nessa fase, tudo é ressentimento, frustração, guerra aberta contra o mundo, contra o Deus em que, possivelmente, se acredita(va) e se atreve a faltar-lhe e a apunhalar-lhe a fé, contra a ciência que não sabe encontrar uma cura e serve para tanto como as mezinhas da nossa avó, tudo é, pois, resumido em "como é possível?" e "porquê eu?" (ou "porquê a minha bebé? o meu pai?", etc, dependendo de quem lhe falta ou faltará em breve...)





Cansado de uma guerra estéril e inútil, entra-se na terceira fase - a da negociação. Não se percebe muito bem com quem o ser humano procura negociar em face da morte, mas a tentativa tem sido comprovada. Fala sózinho (fala com Deus?). Faz pactos nos quais o outro lado permanece invisível e - o que é pior - silencioso. Promete coisas: "Se me deixares viver mais algum tempo (pode ser só até ao Verão, mesmo que seja até ao Verão!), não faço mais asneiras como costumava fazer..."; ou sugere trocas: "Se tanto te faz um morto como outro... não seria possível levares-me a mim em vez dele? Faço menos falta à família." 



O silêncio - que bem se pode chamar sepulcral, passe a crueldade - do outro lado (será esse lado divino?) acaba por levar à quarta fase: a depressão. Um verdadeiro estado depressivo implica não ter interesse por nada, nem por si. Todo o mundo parece um parque de diversões inútil, feito para distrair as pessoas, desviando-lhes a atenção do essencial: a existência é vazia de sentido e todos vamos acabar sem que nada se possa fazer para contrariar o passar do tempo. Parece impossível que ninguém repare nisto e todos andem aparentemente contentes, na óptica do depressivo.





A depressão causada pelo luto é, talvez, a mais profunda até por ser reactiva e parecer não ter remissão.
Se calhar exactamente porque se chega à conclusão de que o fluir da vida não pode ser contrariado e que a morte faz parte desta, numa espécie de círculo eterno, de fluxo de acontecimentos que perfazem a totalidade da Vida Maior, que se chega à quinta fase: a aceitação. 




Nesse estádio, já não há luta contra o sofrimento. É uma espécie de sintonia com o curso geral da unidade, de remar a favor da corrente, de serenidade. 




Naturalmente, a rigidez com que Kubler-Ross define estas fases é própria de um profissional clínico. Nem toda a gente tem de passar por tudo isto, ou de seguir os períodos nesta ordem. Pode-se voltar atrás e dar saltos à frente, ou até nem sentir muitas das questões aqui focadas quando confrontados com uma situação deste tipo. Mas é interessante verificar como, realmente, este esquema permite enquadrar muitos indivíduos e perceber que o que sentimos perante a evidência da morte não são sentimentos solitários, tão pouco invulgares. Se bem que isso não nos traga nenhum conforto...