... "And now for something completely different" Monty Python

Monday, October 22, 2007

A Carne Mal Passada e os Telhados

As pessoas têm muita dificuldade com isto da liberdade. Todos dizem ser algo a que aspiram, e bem se vê o quanto sofrem quando estão privados dela. Mas não é um conceito que se possa gerir com facilidade, quanto mais uma realidade livre de complexidades.
Mesmo livres, e vivendo em “democratia”,os seres humanos estão amarrados a toda a sorte de coisas. Amarrados inconscientemente - ao seu grupo social ou familiar, à sua terra, à nação. Os laços prendem-nos, sejam eles de sangue, telúricos, afectivos ou convencionais. Amarrados de livre vontade - ou talvez não! – a outros nós, quantas vezes pelos próprios indivíduos criados.
Amarrados ainda a coisas mais fúteis e vãs. Aquilo a que chamam sucesso e que corresponde a poder, a ser reconhecido na rua quando vão na sua cidadezinha, a ter mais notas (nada a ver com dó, ré, mi, já se vê...) do que o vizinho e mais objectos a ganhar pó lá em casa.
Os humanos, na verdade, gostam de estar sujeitos. Gostam desse comodismo de estar presos e, sobretudo, de receber umas ordenzinhas. Isso permite não gastar muito os neurónios, já que obedecer cegamente custa muito menos que agir pela própria cabeça e com alguma criatividade. Ui, criar, isso não! Dá muito trabalho. Que seca! O melhor é sentarmo-nos todos calmamente e dizer que sim a quem tenha tido alguma ideiazita qualquer, por mais tonta que ela seja. Isso sempre nos dá menos que fazer e mostra que somos obedientes. Bons trabalhadores, no fundo. Daqueles que passam o tempo a bocejar, a jogar dominó virtual e a falar ao telefone com a Maria Joana sobre o refluxo gástrico do bebé dela até às 17h30, “sharp”.


Há uma fantástica história sobre a liberdade escrita por Emile Zola, que se chama “O Paraíso dos Gatos”. Conta-nos a vida de um angorá, que vive principesca e vegetativamente em casa de uma senhora, com almofada de penas por cama e carne mal passada ao jantar. Mas tinha uma tal sede por experimentar a liberdade dos telhados que decidiu aventurar-se e ir, finalmente, viver. Passa por muitas peripécias e acaba por escolher voltar para casa, porque a vida não é um risco que ele tenha... como dizer? “legumes daqueles que se põem nas saladas” para enfrentar. Ele sabia que, ao voltar, seria espancado a chicote, mas isso não o desanimou: a vontade de uma existência cómoda e fácil foi maior que o medo da dor e da tristeza dessa prisão sempre igual. Diz o gato:”Gozei imensamente a voluptuosidade de estar no quente e de ser espancado. Enquanto ela me batia, eu pensava, deleitado, na carne que, depois, ela me ia dar.”


 Este pensamento que parece, à partida, tão masoquista e cru é a escolha fundamental de muitos seres humanos, que preferem não a verbalizar, por ser mais fácil ignorar aquilo de que não gostamos nas nossas rotas.


Não pretendo com isto criticar as escolhas de cada um. Até porque, entendamo-nos, juízes só os do tribunal e, mesmo assim, é sempre difícil engolir a ideia de que um ser humano possa julgar outro do ponto de vista ético, ainda que isso seja socialmente necessário para o bom funcionamento da máquina de grupo e tal e etcetera.
 Pretendo só ressalvar que a liberdade, que quase todos elegem como factor determinante para a felicidade, é também aquela de que quase todos abrem mão, consciente e alegremente, em favor de uma vid(inh)a mais cheia de coisas. De haveres. A verdade é que a liberdade não pressupõe pertença, antes a exclui, e as pessoas sentem necessidade de “ter”, seja uma casinha, um emprego estável, um afecto ou amigos por perto.


“Então, não há salvação?”, como dizia a minha avó, ou, por outras palavras, “não se podem conjugar a carne mal passada e os telhados?”, perguntaria o gato do Zola. A resposta é: eu não faço ideia (ao contrário dos juízes, que sabem sempre tudo). Mas a minha intuição é que sim, “é possível ser livre e ter algo”. Basta mudar um pouco a nossa rígida percepção das coisas, tanto do ter como da aventura.


Afinal, basta pensar que a liberdade consiste em viver exactamente da maneira que queremos. Já vejo as cabeças a levantarem-se e os cantos da boca a rirem de mansinho e a pensarem “Isso é que era doce! Olha como se a gente pudesse viver da maneira que quer... Eu bem gostava de ter um BMW / de fazer um curso de meditação na Birmânia / de conhecer a Giselle Bündchen.” e outras aspirações assim elevadas. Bom, viver é escolher. O difícil, realmente, é fazer a escolha dentro das circunstâncias que temos.No entanto, visto pelo prisma da simplicidade, torna-se descomplexo: basta escolher, em qualquer ocasião, o que nos torna mais felizes naquele momento. Até porque nada é para sempre.



Wednesday, September 19, 2007

As Pessoas que Mandam Nisto


Há algumas crónicas atrás, falei da minha saga com os mecânicos. Os espíritos mais  elevados perceberam a minha análise das pessoas que realmente mandam neste território. Sim, a ideia de que são os governantes que mandam é muito relativa. É por saber isso mesmo que a maior parte das pessoas não vai votar (vide nível de abstenção em quase todas as últimas eleições, sejam elas municipais, presidenciais ou o que forem). Quem realmente manda são aquelas pessoas que têm determinados poderes que nós, tristes seres que ficamos embasbacados a olhar para eles e a pedir “por favor não me arranja isto até ao meio-dia?”, nós não temos. Essas pessoas realmente poderosas estão inteiramente conscientes de que têm o resto do mundo na mão. Há um risozinho de triunfo na maneira como nos olham de lado, um esgar ligeiramente superior no modo como ajeitam os óculos e fungam antes de dizerem “por acaso, não vai ser possível”. Por acaso. Reparem no pormenor. Se tivessem acordado bem dispostos, talvez até tivessemos sorte.


Entre estas pessoas realmente poderosas da nossa sociedade contam-se os senhores das Finanças, as meninas das companhias aéreas (porque é que são quase sempre mulheres? é requisito preferencial?), os técnicos de informática, o pessoal das companhias de telemóveis, os polícias de trânsito e demais fauna policial, os porteiros das discotecas e os taxistas. Isto só para referir alguns. Há uma data de etcetera, mas não vamos agora meter-nos a fundo nisto, até chegar aos médicos e aos padres, por exemplo (ui, aí é que tinha mesmo piada!). Desiludam-se os advogados, porque já lá vai o tempo em que mandavam alguma coisa. Agora, na generalidade, falta-vos engenho.


Se julgam que estou a brincar, pensem na maior parte dos vossos dias. Imaginemos um dia normal: um tipo chega ao trabalho e os computadores não funcionam. O técnico de informática diz:”epá, não sei o que se passa!”. Seguindo o bom e velho esquema da tuguice, fica tudo a bezerrar até que ele resolva o assunto, porque, enfim, não há computadores (como é que se trabalhava há dez anos é um mistério para todos, incluindo para a Maria que não sabia trabalhar com computadores há dois anos!). O técnico decide que, uma vez que o pessoal está todo dependente dele, bem que pode ir tomar um café ou dois. Raras vezes se tem uma tal sensação de poder, caraças.


Entretanto, telefona o senhor da TMN (da Vodafone, se quiserem). Como telefonam sempre de um número que a gente não descodifica nem à lei da bala, acabamos por atender. Erro. Depois de um questionário sobre mil serviços que nunca utilizámos, “oh senhor, eu estou com pressa!”, ele quer vender-nos um pacote muito interessante a preço super para “si, cliente especial”. Mas eu agora não posso atender. Volto a telefonar ao atendimento de clientes no dia a seguir, quando tenho tempo, mas a treta da promoção de um telefone por metade do preço e mensagens grátis era só ontem. Pffff! Mas volte sempre, “até já” (dou um bombom a quem me explicar porque é que se despedem sempre com “até já”; eu não estou interessada em voltar a ouvi-los já).


Depois, vamos a correr tratar da nossa vidinha. Somos apanhados pela polícia porque íamos chocando de frente com a viatura policial. “A senhora estava distraída?”(Os polícias, amavelmente, perguntam sempre. Pode dar-se o caso de eu querer mesmo chocar contra o carro deles e desfazê-los, suicidando-me em grande estilo também). Explico toda a minha vida, o porquê de estar com pressa e da minha distracção. O polícia exclama“Ahhhhh!” compreensivamente. Chama o colega (andam sempre aos pares, como na TV) e eu explico tudo outra vez. São amáveis, gentis, cavalheiros. Levo com multa. Perdi 40 minutos. Detesto fardas.


Lá consigo chegar às Finanças. Depois de duas horas e meia de espera, contribuindo para que me rebentem as veias das pernas e algum aneurisma, a senhora, com uma boa disposição só comparável à de uma mosca ao ver o frasco de DumDum, diz-me que faltam os documentos X e Y. “Porque é que não me avisou quando estive cá ontem? É que assim já vou ter de pagar multa, porque o prazo é hoje!” A senhora diz que eu me devo ter esquecido. Sim, eu estou interessada em dar ao Estado mais 100 euros de minha livre e legítima vontade. Sim, sim, devemos dizer sempre que sim porque nunca se sabe quanto mais se podem irritar... e quem paga a frustração é a nossa carteira.


Depois, apanhamos um táxi a correr para ir para o aeroporto. O taxista cobra-nos mais não sei quanto pela bagagem, e mais não sei quanto porque é de tarde e mais não sei quanto porque temos um animal dentro de uma caixa. Vai a pisar ovos e eu com pressa. Relata-nos as agruras do Benfica, enquanto a rádio toca a Ruth Marlene em altos berros e a rádio táxi vai guinchando de vez em quando.”É um problema isto do Scolari”. Na verdade, o maior problema para mim, neste momento, é a Ruth Marlene.


Ruth Marlene devia ser o nome da menina da companhia aérea. Não era mas ficar-lhe-ia bem. Há um erro de sistema. Ok. Já consegue entrar no sistema. Fixe. Não consegue encontrar um passageiro chamado Cook. Interrogo-me se é a primeira vez que ela faz isto. Já encontrou. Não sabe fazer não sei o quê que me escapa. Chama a colega (também andam sempre aos pares, curiosamente, mas no caso presente, graças aos céus). Não sabe o que fazer com o gatinho. Explico-lhe (como se fosse minha função saber, mas enfim...) Lá consigo ter um talão de excesso para o bicho e um de embarque para mim – era giro se fosse ao contrário, não era?!


Já noutro local, decido ir espairecer deste dia. À porta da bendita da discoteca, o porteiro diz-me que não posso entrar porque estou de ténis. “Devia vir de salto alto?” Ele responde que não deixam entrar pessoas de ténis e ponto final. E não há volta a dar. Viro costas e cara alegre, que isto é só para moças com ar de quem trabalha na Côte d’Azur.


Gostaria de finalizar esta crónica, assegurando a todos que adoro a Humanidade. Mais ou menos como a Madre Teresa a adorava e o Dalai Lama a adora. Isto é: quanto mais se puder fazer por ela, melhor. E quanto mais longe se estiver dela, melhor ainda. 


Monday, September 3, 2007

Portuguese Do It Better


Há pouco tempo, li um artigo interessante numa revista de bordo. Era sobre sapatos. Não sou especial consumidora de coisa nenhuma, com a doce excepção de chocolates e gelados, mas li, apesar de sapatos não serem uma paixão minha, mas tão só um item necessário na sociedade em que vivo. Achei muito curioso e interessante saber que as marcas de sapatos Fly London, Aerosoles, Helsar e Swear são portuguesas. Portuguesas! Ena! Nunca imaginei.


Segundo os entrevistados, estas marcas facturam imenso, sobretudo extra-muros. A Fly London exporta 95% do que produz e a Aerosoles manda 4 milhões dos seus sapatinhos para o estrangeiro.
Não contentes com este sucesso, estão também nos pés de gente famosa. A Swear calça os REM, os Radiohead, a Cher e as Spice Girls (enfim, é discutível que aquelas botas tipo anos 70 de meter medo ao susto destas últimas pequenas sejam giras, mas enfim…); a Fly London calça os Prodigy e os Rolling Stones (todas as gerações em coro agora: WOW!!!); a Helsar é muito mais “sophisticated” e calça a mulher do Exmo. Tony Blair. 


Enfim, um português lê este artigo e fica todo inchado de orgulho. Sempre soubemos que o cabedal português era bom. Falo do cabedal no seu sentido literal, o que serve para fazer sapatos e malas, não estou aqui com duplos sentidos, entendamo-nos. Sempre ouvimos dizer que a indústria do calçado em Portugal ia de vento em popa, mas tanto assim a gente nem suspeitava. Ah, o orgulho nacional!


Agora, pergunto-vos: não notam nada de especial nestas marcas cheias de sucesso? Olhem com atenção. Pois é. Os nomes. Têm todas nomes que soam a nomes estrangeiros. Portuguesíssimas serão, mas escolheram nomes que de portugueses não têm nada.


Uma pessoa, esteja onde estiver neste mundo e seja de onde for, olha para um sapatinho Fly London ou Swear e pensa que está comprando um sapatinho inglês. Um tipo pega num Aerosoles e julga que está levando para casa uma bota espanhola. E serei eu a única a julgar que uma chinelita Helsar parece sueca?


A conclusão que retiro desta operação de marketing é a seguinte: um português para ter sucesso no estrangeiro deve, em primeiro lugar e sobretudo, não parecer português (embora nunca deixe de lado a sua fibra de cabedal lusitano interiormente). Pelo menos, no mundo dos sapatos.


Enfim, outros exemplos haverá que confirmem esta teoria, acabadinha de inventar agora mesmo. A cantora Nelly Furtado é um caso de sucesso incontornável internacionalmente. No Canadá, é a canadiana Nelly; em Portugal, é a filha dos imigrantes portugueses Nelly, e nos Açores é a Nelly com a costela da Ponta Garça.


Na verdade, a Nelly tem sucesso também (mas não só, admito…) porque sabe aproveitar as suas múltiplas facetas, conforme a ocasião e/ou circunstâncias.  Todos sabemos que o maior segredo do sucesso, neste mundo, é a capacidade de adaptação. Aqui, a Nelly dá cartas: até aos russos ela agrada, dizendo que foi chamada Nelly Kim como homenagem a uma ginasta russa! Isso sim, é que saber agradar às massas às quais se apresenta.
Além disso, Nelly fala inglês e português mas também fala espanhol fluentemente, o que não é de estranhar, uma vez que a comunidade falante do espanhol tem um grande peso na América do Norte (e os que não o falam gostam de ouvir cantar em espanhol e compram discos, que é o que interessa). A Nelly diz que até fala hindi, o que lhe empresta um ar muito exótico (em termos de imagem, não lhe faz falta, só acrescenta, porque é lindíssima e já o tem) e agrada a um público ainda mais vasto – Sim, sabem vocês quantas pessoas falam hindi? É a língua mais falada na Índia, a par do resquício colonialista Inglês, e  se há coisa que a Índia tem – ainda mais do que caril - é população.


Bom, concluo. Já explanei a minha teoria. Obrigada à revista Atlantis e ao cabedal português. Viva o sucesso da indústria do calçado, tipicamente lusa  como se vê, e viva o “folklore da Nelly. É que nem é “folclore” o nome do disco de que tanto nos orgulhámos, por causa das raízes lusas anunciadas. É mesmo folklore, para o público anglo-saxónico não se chocar.


O marketing é uma coisa fenomenal e nada está numa publicidade por acaso. Está ali porque irá voar mais longe assim. Like a bird.

Wednesday, August 29, 2007

Tudo Bem


Tenho uma amiga que detesta a expressão “Tudo bem?” porque ninguém espera para ouvir a resposta. Ela tem razão. Mas, na verdade, é muito simples: temos medo de a ouvir e fingimos que estamos com pressa (sabemos todos que raras pessoas têm pressa em Portugal, porque a classe trabalhadora é composta por pouca gente e, dentro desta, ainda há que ver os que realmente trabalham...).


Imagine-se o que era descobrir que andava toda a gente tristíssima. Nós, os empáticos, temos imensa dificuldade em lidar com as desgraças alheias porque as sentimos como verdadeiramente nossas, ao menos um bocadinho. Se até chorámos com as criancinhas que, supostamente, morreram no 11 de Setembro! Se temos tanta dificuldade em ver as misérias do Iraque no telejornal! O que não faríamos se soubéssemos que com a nossa amiga “não está”, efectivamente, “tudo bem”. A nossa reacção e subsequente ajuda a um ente querido são pressurosamente inimagináveis.


Claro que há sempre a hipótese de estar, em boa hora, “mesmo tudo muitíssimo bem”. É um grande erro, caríssimos, responder que estamos bem, com cara de gente feliz. Certamente nunca se deve intensificar com o advérbio “muito” a nossa felicidade pessoal. E não é porque fique bem a rugazinha de pensamento soturno a meio da testa, mas sim porque a felicidade levanta suspeita.


Se andamos com um ar muito feliz, logo a reacção geral é de incómodo. Pensam imediatamente "Porque será que aquele caramelo anda todo satisfeito? Que será que ele já sabe que eu ainda não sei? ... De certeza que já meteu a patinha na parte que me cabia a mim! Humpf!" As pessoas têm, bem no fundo de si, a ideia de que a nossa felicidade se ganhou à custa da felicidade de outro alguém. Não há volta a dar-lhe.


De modo que o melhor, para manter a paz de espírito alheia - e , logo, a nossa - é ser o mais low profile possível. E, por mais feliz que estejamos, manter sempre um ar mais ou menos alheado. Um ar "mais ou menos", em suma.


A triste realidade deste mundo é que a maior parte das pessoas aguenta muito melhor a miséria alheia – porque esta lhes permite compadecer-se, humanizar-se, serem, enfim, seres plenos de caridade – do que a felicidade dos outros. O nosso triunfo acaba por suscitar nos demais sorrisos amarelos, elogios que soam a falso. O drama e a tragédia são muito mais apelativos ao coração generoso dos seres do que a partilha da glória. Daí resulta que aqueles para quem” tudo está bem” se sentem culpados da sua felicidade , tão terrível aos olhos dos outros.


Claro que isto do estar bem é sempre momentâneo, porque tudo é efeméro no ciclo vivencial. As criaturas que respondem “tudo bem” e se sentem realmente assim, também não estão completamente satisfeitas com a vida, mas (...pst, cheguem-se agora todos aqui para ouvir o segredo...) estão-se nas tintas para aquilo que não têm neste momento. Como dizia o meu avô: “Se não há, não é preciso.” Este é que é o segredo.


Pensando assim, nem há lugar para a inveja neste mundo. A inveja nasce, realmente, de um sentimento íntimo de comparação. As pessoas comparam a sua vida com a de outro e porque não estão satisfeitas com a vida que levam e supõem que a do outro é mais interessante, cobiçam-na, embora não saibam nada da verdadeira vida que ele leva, na maior parte das vezes. É a divagação, a fabulização de pequenas historietas mentais que causa esse sentimento – até porque o que lhes interessa não é tanto a realidade mas o que lhes permite canalizar o veneno interior. No fundo, a inveja é uma espécie de esgoto, a fossa asséptica da alma de cada um.


Por outro lado, as pessoas adoram dissertar compungidamente sobre os problemas alheios, falar das grandes misérias que bateram à porta dos vizinhos e dos amigos,martirizar-se com culpas e vergonhas de há anos a que juntam outras tantas inventadas, e não esqueçamos aquelas que desfilam o rol das suas doenças e as comparam em praça pública com as doenças dos outros. Depois, junta-se tudo num grande saquinho e fala-se mal da Região e do País, e etc. Apetece perguntar a estas pessoas porque não fizeram uma operação plástica, não se divorciaram, não mudaram de emprego/ amigos/ casa e emigraram. Estão sempre a tempo de mudar de vida, enquanto estiverem vivos. E, já agora, porque é que imaginam que, sempre que estamos a rir, nos havemos de estar a rir deles. Para eles, nunca põem a hipótese. Com eles, de quê? Isso é que era doce.


Enfim, não tenham medo de responder ao “tudo bem?”. Riam-se do mesmo modo que os estrangeiros se riem para os locais, sem razão e sem má interpretação. Já é tempo de começarmos a rir uns para os outros, de assumirmos que estamos mesmo bem, que isto do fado português sofrido e penado, da mulher de lenço preto que espera na praia, já nem a minha avó o fazia. Tenham paciência, mas as pessoas têm mesmo o direito e o dever pessoal de serem felizes.


Saturday, August 4, 2007

Eu Gosto é do Verão

Parece que chegou o Verão. Quase não se dá por ele, especialmente em certos dias brumosos, feios, encapotados e em que mais apetece, ilha por ilha, emigrar para a Sardenha ou para a Córsega ou - caso o desejo de sol seja muito - para S. Tomé.


A maior parte das pessoas (que não eu, escusadamente acrescento, porque “a maior parte” nunca me inclui e é com um desgosto escolar que o digo...) está de férias ou a contar os dias que faltam para as mesmas. As férias são a vingança anual do povo. Depois, já mais apaziguado, e quase “cansado da pasmaceira que é estar sem fazer nada” e dos “dias em família, torrando ao sol”, pode voltar ao trabalho.  Por esta razão, não se compreende porque é que a Natureza, geralmente cooperante, se mostra, este ano, tão antipática, a pôr a língua de fora. Isto só a nós é que nos chateia, porque os turistas (os poucos que temos, que são todos velhos e do Norte e, portanto, dispostos a pensar que estão nas Caraíbas) andam sempre de belo calção, mostrando a alva perna. Até dá jeito que o sol não seja como o sol mediterrâneo, para não queimar a frágil pele idosa e passível de tonalidades encarnadas perigosas.


Férias sem sol de jeito são especialmente cruéis para as mulheres. Anda uma mulher a preparar-se afincadamente, depila daqui e dali, compra creme anti-celulítico, faz dieta, inscreve-se no ginásio, corre a avenida toda ao fim da tarde e até sobe a estrada até à Santa, maldiz os nove meses em que comeu, bebeu, fumou quanto quis – que é o mesmo que dizer, os nove meses em que viveu normalmente - , faz pedicure por causa da sandália, compra um bikini novo, porque o bikini é melhor que o fato-de-banho já que bronzeia o estômago mas é preciso que seja um bikini que estilize a figura e aperte os papos da anca e não deixe sair os papos da barriga, e ainda, se possível, levante e/ou encha o peito ou o rabiosque de quem o tem descaído (o tempo que se perde e as viagens que se fazem para achar estas duas peças!!!). Finalmente, lá acaba por ir à praia, franzindo o nariz porque não há muito sol e o efeito não é tão espectacular como se esperava porque, enfim, não há público suficiente!  Profundamente injusto, o mundo. O mundo é a ilha, claro está. Felizmente, logo se anima, se há amigas por perto. As amigas na praia servem, fundamentalmente, para que a mulher se certifique de que a sua Operação-Verão foi bem sucedida (“Ai, querida, estás tão gira! E muito mais magra! Esse bikini fica-te mesmo bem! Onde arranjaste? Eu procurei uma coisinha assim imenso tempo!” ; “Mas tu também estás espectacular! Que segredo é o teu? Gosto imenso do teu novo corte de cabelo! Estavas a precisar de mudar! Assim estás muito melhor!”), e, não menos importante, para cortar na casaca de todas as outras mulheres. Atenção que isto não é por mal, evidentemente. Tão somente o fazem porque essas criaturas – as outras – não sendo amigas, são gordas (ou, se forem como eu, esqueléticas e desengonçadas), certamente fizeram esforços desumanos para serem assim (ou será que são doentes? “Sim, porque eu já ouvi dizer...”), e vê-se logo que estão mesmo a tentar chamar a atenção com aquele andar e aqueles olhos e aquela saia horrivelmente curta. Blargh. Devia ser proibido.


O Verão sem sol também é duro para os homens. Não há a possibilidade daqueles raios brilhantes como relâmpagos a faiscar nos carros fenomenais que se compraram, que vão dos 0 aos 250 km em poucos segundos, para impressionar os amigos, para fazer inveja aos vizinhos e para dar status. São carros completamente inúteis num sítio circular, curvadinho e centrado como é uma ilha, mas isso não interessa nada, porque o carro não foi adquirido para andar. Um carro não é para andar, eh eh eh, que noção! Um carro é para mostrar ao pessoal. Além disso, sempre se ouviu dizer que as mulheres gostam de homens com carros assim possantes (quem inventou esta estupidez gostava eu de saber?).


De qualquer modo, com sol ou sem sol, sempre há a possibilidade de dar largas ao tuning: faróis de cores, autocolantes, verificação das molas dos estofos (porque nunca se sabe se, em dias de sorte, o carro vai ser mais útil parado do que a andar...) Sobretudo,  pôr a música em altíssimos decibéis para chamar a atenção das miúdas, enquanto se ajeitam os óculos de sol -comprados nas barracas das festas- com a ponta do dedo indicador, e se baixa o vidro da janela do carro, devagarinho. Bonito.
Outro espécime é o surfista de Verão. Surfista que é surfista é-o todo o ano, e com maior razão no Inverno, porque ondas ferozes e boas é com mau tempo que se apanham. Mas nós temos essa especialidade gira que é o surfista estival. Cabelo todo wax, vocabulário cool, bronzeado e (quando calha) giro. Pena é que confunda surf com bodyboard e  não apanhe uma onda que seja sem se espetar. Podia ser interessante se fosse genuíno e, logo, não-sazonal.


Eu gosto do Verão, sinceramente. Adoro o sol. Tenho verdadeiro prazer em comer gelados (embora aí seja um pouco como a publicidade da OLÁ, passe a pub, gosto sempre). Agora, assusta-me é essa coisa de andarem por aí com campanhas de promoção da natalidade no país e no mundo. A natalidade sobe imenso no Verão, como se sabe, com as feromonas em alta e tudo o mais. Mas a mim parece-me que, com gente assim, já temos é pessoas a mais. 


Friday, July 27, 2007

Fraldinha e Sabonete


Li, numa revista médica, que as mulheres engravidam mais nos meses de Verão. Havia uma data de razões apontadas, metade das quais não me lembro, mas sobretudo o nível de produção de hormonas de ambos os sexos -ao que parece, os níveis de testosterona dos homens são mais altos nos meses de calor - que, como todos sabemos leva a uma maior predisposição para fazer bebés (embora “fazer bebés” não seja aquilo que realmente se queira 98% das vezes).


O facto não me surpreende. Na minha própria família, quase todos nascemos na Primavera (e início do Verão, quando o pessoal já andava a gastar os últimos cartuchos...) Assim, contando nove meses para trás, as mulheres terão engravidado na época estival. 


Actualmente, a maior parte das minhas amigas estão todas a tentar engravidar Algumas já ostentam orgulhosamente uma barriguinha que só com muito esforço se vê. Agora que escrevo isto, reparo bem no contrasenso que é, porque até há bem pouco tempo atrás o que mais se queria era não engravidar e era uma grande desgraça se tal drama nos batesse à porta. De repente, querem todas  ter o primeiro bebé. É uma febre que ataca as mulheres que sentem chegar o fim da década dos vinte anos – acende-se um sinal vermelho dentro do cérebro que diz: “Alto, Maria! A Sara, a Sofia e a Bernardete já engravidaram... Tenho de me despachar senão qualquer dia não tenho assunto nenhum para falar com elas, porque elas já só falam de marcas de fraldas e de parto sem dor. Hum... A ver se me engano  na toma da pílula este mês...”


O assunto agrava-se quando há uma cunhada ou uma irmã que (supremo infortúnio!) já deu o primeiro netinho aos ansiosos avós. Já não vamos a tempo! A acérrima competição entra agora no campo familiar. Não raro a avó em potência excita as feras, com suspiros “O desgosto que tenho de ainda não ter uma menina correndo neste quintal, ao lado do netinho que a Luísa me deu. Ainda bem, Luísa, que me trouxeste a alegria desta criança!”, e aí temos esta Luísa (cunhada que sempre odiámos secretamente!), toda inchada de um pedaço de gente que berra e se baba todo o santo dia.


Depois, há o problema da idade. Ainda ontem éramos umas rapariguinhas – “Vê lá não chegues tarde a casa...”; “Quem é esse tipo com quem andas agora? Ainda me parece pior que o anterior!”; “Onde é que estiveste? ;”, etc, . Subitamente e sem aviso, já temos de nos despachar ou começamos a ser “um bocado velhotas para ter o primeiro filho”. Porquê? Porque senão o corpo pode não voltar a ser o mesmo, que é como quem diz não voltar a ter o mesmo peso, abrir estrias por toda a santa curva, descair o peito, ficar flácido aqui e acolá. Isto tudo vai fatalmente acontecer quer uma pessoa tenha filhos agora ou depois, e até há-de acontecer a quem nunca os tiver, mas nós, pobres ingénuas, gostamos de pensar que se seguirmos certas regras na vida, evitamos todas as misérias que a velhice traz. Mais tarde, quando chegar a pancada cruel, havemos de dar razão à nossa avó, mas não interessa porque aí já havemos de ter a idade dela e ninguém, sobretudo os filhos e netos que eventualmente tivermos, nos hão-de dar ouvidos.


Uma mulher é olhada muito de lado ao assumir que não quer ter filhos. Imediatamente, é um ser anti-social, mais ou menos como os que insistem em andar de bicicleta neste mundo de carros, os que preferem ter uma iguana como animal de estimação em vez de um cão ou os que não usam gravata no escritório. Neste mundo, só há um crime pior do que ser diferente – é ter genuíno prazer em sê-lo. “Mas porquê, Maria?” perguntam a amiga, a vizinha, a mãe dela,  e o patrão que antes refilou por contratar uma mulher dado que “as gajas engravidam e depois é uma chatice...”  Não interessam as razões da Maria, porque todos lhe hão-de dizer que não é natural  -  vigora a ideia de que uma mulher só se pode sentir realizada se der à luz.


Repare-se que não é educar que parece importante ao mundo, mas sim o acto de fazer nascer. Ter filhos é fácil (sobretudo para mim, que, efectivamente, nunca pari nenhum.) Como é coisa que já se vem fazendo desde que o Mundo é Mundo, julgo que a Natureza se encarregou de nos dotar com esse saber inato, sem necessidade dessa ideia tão pós-moderna e hollywoddesca – agora também nos Açores, iupi! - que são as “aulas de preparação para o parto”, que, segundo sei, não existem no Terceiro Mundo onde os bebés são mais que as mães  continuam. Mais difícil é criá-los depois.


Actualmente, há umas versões de “pai” e “mãe” muito em voga que são “o/a amigo/a mais velho/a”. Não têm conta os pais e mães que dizem “Eu o que quero é ser uma espécie de amigo/a mais velho/a do meu filho, não exactamente um pai/uma mãe”. Ora, se não querem ser pais nem mães, faz sentido terem filhos? É que amigos podem-se ter vários na vida, e escolhemo-los nós, mas pai e mãe será difícil arranjar outros...


É verdade que a educação é uma coisa ingrata – é preciso castigar as maldades e saber dizer que sim e que não e dar uns abraços apertados e proteger só na medida certa e blablabla e é o maior quebra-cabeças do mundo para se ter com alguém que na primeira oportunidade nos vai dizer que fizemos quase tudo errado.


Felizmente, está cheia de momentos inesquecíveis e divertidos. Não resisto a contar um, que se passou com um menino de cinco anos, a quem o meu sogro tentava ensinar algo sobre a bondade e a vida eterna. Depois de uma grande prelecção sobre boas acções, fez-lhe perguntas para se assegurar de que ele tinha percebido. “Então, se eu for à missa sempre, vou para o céu?”. “Não”, disse o miúdo. “Muito bem. E se eu tiver muito dinheiro vou para o céu?” “Não”. “Claro. O que é que é preciso para irmos para o céu?”. O menino não tinha dúvidas – “Temos de estar mortos”. 

Wednesday, July 4, 2007

O Choque Tecnológico


Vivemos numa época em que é (quase) tudo absurdamente fácil. Não nos damos conta disso porque estamos automaticamente programados para viver assim. As invenções e  esquemas novos que nos facilitam a vida entram depressa no nosso sistema e, passados uns meses, já nem nos lembramos como foi possível viver sem aquela tecnologia ou mecanismo.


Isto vem a propósito de um momento insólito que vivi recentemente. Vivo num condomínio, cujo portão nos permite a todos entrar para dentro do chão comum que nos leva aos nossos apartamentos, e esse portão funciona electricamente – carrega-se num botão e abre-se o portão; nada mais simples (e rima!). Acontece que a electricidade falhou. Algo que para os nossos pais (nem digo avós...) seria encarado como quase comum, mas nós maldizemos logo a EDA, as obras da Câmara, o Governo e a Assembleia (de notar que algumas destas entidades não têm absolutamente nada a ver com a falta temporária de electricidade, mas é extraordinário ver como são sempre metidas ao barulho sempre e quando falta qualquer coisa na vida de um cidadão).


Chegámos nós ao portão para sair de casa e, gesto automático, carregámos no botão. Não abriu. O pânico instalou-se. As vozes levantaram-se: “Não podemos sair; estamos presos em casa!”. A minha amiga lembrou: “Vamos saltar o portão!”, mas a vontade não era muita, porque é alto, complexo, e – obviamente - foi feito para que ninguém o saltasse… Só depois de analisadas várias hipóteses,  incluindo a solução Tarzan - saltar a varanda das traseiras (um risco físico muito pior do que saltar o portão, e susceptível de causar um ataque de coração à vizinha do prédio ao lado) e a solução Calimero – esperar, calmos e conformados, que voltasse a luz… - é que alguém (pronto, fui eu, podem bater palmas) se lembrou que devia haver uma chave do portão.


Primeiro, fomos ao portão confirmar que sim senhor, havia lugar a uma chave, não era de todo um portão ultra-hiper-extra-moderno, sem lugar para uma coisa tão corriqueira como um buraco de fechadura. Depois, ficámos com cara de palhaços (é o que somos…), porque não nos tínhamos lembrado do bom e velho método da chavinha na porta antes. Contemporâneos extravagantes! E agora, onde está a chave do portão?! Porque, evidentemente, nunca a tínhamos usado nem sequer dado conta da sua existência…


Este pequeno episódio doméstico não serve só para ilustrar que somos um pouco disfuncionais, coisa que, evidentemente, só interessa aos próprios. Serve, sobretudo, para dizer que neste mundo Moderno já ninguém se lembra do mais evidente. A tecnologia devia ser apelativa, sobretudo por poupar tempo para depois se aproveitar melhor a vida, mas, muitas vezes, impede as pessoas de pensar – não estaremos a ficar um bocadinho mais ignorantes com tanta facilitação? As criancinhas, agora, usam todas calculadora antes de saberem a tabuada, pelo que nunca a saberão; está fora de moda ensinar a gramática como deve ser, porque as regras gramaticais limitam a livre expressão (aliás, o erro, dependendo de quem vem, passou a ser considerado figura de estilo…).


 É fácil desculpabilizarmo-nos no mundo tecnológico – a culpa não é nossa, foi qualquer coisa na porcaria do sistema que falhou. E também posso culpar o computador porque, como diz um senhor que conheço, ele nunca há-de gritar a defender-se.


Pessoalmente, apesar de viver numa casa sem televisão, e de só muito tarde ter aderido ao telemóvel (e hoje não vivo sem ele, e tenho a firme convicção que me bastava mudar de número para mudar de vida… experimentem!), não posso conceber voltar atrás no tempo para aqueles dias sem as paredes que vomitam dinheiro chamadas Multibanco, sem máquinas digitais que fazem de toda a gente um grande fotógrafo e sem internet em casa que nos permite ser escritores ou músicos em potência, sem jogos virtuais, nos quais somos o Indiana Jones descobrindo templos e matando crocodilos, preguiçosamente sentados no sofá.


Às vezes, não há electricidade e uma pessoa pára. É obrigada a pensar de modo diferente. Até parece que usa uma zona adormecida do cérebro outra vez.