... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, November 15, 2007

A Comunicação - Parte II - Entre os Povos


Outra coisa fenomenal sobre a comunicação são as diferentes línguas, claro. Sempre foi um tema fascinante para mim, não sei se por ser bilingue e depois ter aprendido outras línguas - o que me deu muito jeito, na vida pessoal e profissional; todavia, só me veio confirmar que ninguém se entende, até porque as línguas reflectem seguramente uma questão cultural e não raro também um ambiente.


Um exemplo prático quanto ao ambiente: o ano passado, vivi num país muito frio e foi a primeira vez que me vi envolvida em nevões e que tive de tirar a neve com uma pá da frente da porta para poder sair, muitas vezes diariamente. Antes disto, nunca tinha sequer tocado em neve. A primeira vez que me caíram uns flocozinhos em cima, fiquei numa excitação tremenda, e, muito prosaica e infantil como só um ser humano perante as sensações novas, comecei a dizer: “It’s snowing! It’s snowing!”. A minha colega de trabalho levantou a sobrancelha por cima do seu olho azul direito, dizendo-me “It’s not snow, Carla. It’s flurries.” Após uma semana, já eu tinha percebido a diferença entre a “verdadeira neve” e as “neves ligeiras” - impossível de traduzir melhor isto para português, porque não temos necessidade de mais do que uma palavra para o conceito de “neve” num país onde a mesma é rara e quando ela aparece não tem tantas variações que impliquem outras tantas palavras a condizer. Dizem-me que os inuits, que vivem no extremo norte da Terra, têm mais de cem palavras para definir os tipos de neve. Logo, língua equivale à nomeação do que me rodeia. Se algo não existe na minha realidade, nunca sentirei a necessidade de ter uma palavra para esse conceito.


Quanto à parte antropológico-cultural, idem aspas: mesmo se eu for uma barra em hebraico mas não tiver a sua vivência, sou muito capaz de não entender porque raio têm os hebreus determinadas questões religiosas e culturais, e logo nunca hei-de interiorizar realmente porque carga de água o verbo “yodea” significa igualmente e sem distinção, “amar” e “conhecer”.


O facto de falarmos diferentes línguas levanta, ainda, outra problemática: as expressões idiomáticas. Estas miseráveis são o quebra-cabeças de todos os tradutores e professores de línguas. É de uma beleza primitiva explicar a um estrangeiro frases como esta: “Bem, Maria, tens de fazer das tripas, coração!” Experimente-se dizer isto assim corridinho, como em certos filmes muito bem traduzidos por certas almas: “Well, Mary, you must make of your guts, your heart!” ; “Bon, Marie, tu doit faire de tes intestins, ton coeur!” E agora expliquem que esta expressão de transformar as entranhas num orgão sublime significa dar o máximo. Hã?! As tripas são o máximo?! Ninguém entende. Só um português. E talvez só um gajo do Norte.


Outro dos meus exemplos preferidos é o da distância. Vai um inglês a passar ao pé ali do mercado e pergunta se falta muito para chegar ao aeroporto. Todos sabemos como esse pessoal anda a pé que se mata. O português, solícito, diz-lhe “Hey, don’t go by foot, pá (o português diz sempre “pá”), the airport is in cork’s hooves”, que é como quem diz “em cascos de rolha”. O inglês, baralhado, procura logo “cascos de rolha” no mapa do Faial.


Temos também aquelas expressões lindas que envolvem as nacionalidades alheias. Viver muito bem, ou até com excesso de bens, é viver “à grande e à francesa”. Experimente-se explicar a um francês que «Ici, cher ami, on vivre à la grande et à la française». Com este tipo de frases, se criam conflitos diplomáticos extraordinários. Já para não falar da complicação de como seria, no momento actual da nossa conjuntura política, explicar-lhes a todos a frase: “nós cá não damos cavaco a ninguém”...


Claro que as outras línguas também têm frases feitas que nos dão a volta ao miolo. O espanhol, nisto, é fenomenal. Por exemplo: “Vamonos a tu casa cagando leches.” A primeira vez que ouvi esta expressão, fiquei um bocado atrapalhada, pensando como raio produziríamos tal milagre. Mas, afinal, “cagando leches” significa “rapidamente”, para minha tranquilidade.


Depois, há os falsos amigos linguísticos, aquelas palavras que, sendo iguaizinhas em ambas as línguas, têm, porém, um significado completamente diferente. Analisemos o caso de uma portuguesa que namore um italiano. Ele convida-a para jantar. É impossível a rapariga estar descansada: a “manteiga” portuguesa é “burro”em italiano; o “azeite” português é “olio” em italiano, e o nosso “vinagre é “aceto”, para confundir. Só isto torna impossível que se entendam. Já livres da refeição, não pensem que a digestão será livre de agrumos: “suave” em italiano diz-se “morbido” e “seda” diz-se “seta”. Duros golpes para uma rapariga apaixonada cujo conhecimento lexical da língua do outro não é brilhante. E “subir” diz-se “salire” o que pode terminar a noite duma forma inesperadíssima e ninguém sabe como é que aquilo acabou.


Concluindo com uma verdade de La Palisse: a Babel impede que as pessoas se entendam. Devemos deixar de falar e entendermo-nos só por linguagem gestual? Nem pensar. A linguagem gestual também varia de povo para povo. Experimentem pôr as mãos abertas e esticadas à vossa frente, estilo stop, ao falarem com um grego e arriscam-se a levar um murro.


E vamos lá a ser sinceros: a linguagem gestual portuguesa também deixa a desejar – quem é que alguma vez percebeu a lógica da célebre “hum, este arrozito está de trás da orelha” enquanto apertamos a dita? Pois eu também não.

Tuesday, October 30, 2007

A Comunicação - Parte I - Entre Ele e Ela


O grande problema deste mundo é o da comunicação. Quando me vêm com as teorias psicológicas new-wave, dizendo que a falta de comunicação é que a responsável pelas questões de trabalho, pelos mal-entendidos entre amigos e pelos divórcios, apetece-me logo dizer-lhes “Chiu! Calem-se lá! A linguagem é que é a fonte da desgraça!” Ou não é?. Vamos analisar a questão, com o mínimo de palavras possível para não chatear.


Neste mundo, praticamente toda a gente se queixa de ser um incompreendido. Homens que me lêem, todos vós sabeis que as mulheres nisto são mestres. Começando pelo princípio: quando um homem e uma mulher não estão de acordo, ela fala pelos cotovelos (e pelos joelhos, e todas as articulações e poros, enquanto o infeliz finge escutar, se bem que, na verdade, já tenha perdido completamente o fio à meada e ela vai discorrendo sobre o ano em que se conheceram ao invés do problema actual).


Quando a mulher repara, no meio da diarreia verbal, que ele está calado que nem um rato, dispara com “Não dizes nada?” ao que ele responde“O que é que eu posso dizer?”, muito justificadamente porque é impossível responder à metralhadora da boca feminina com a mesma eficácia e rapidez. É, aliás, também por isso, que não há muitas mulheres em lugares de chefia. Os homens têm medo delas como o diabo tem da cruz.


 A mulher, muito infeliz porque não encontra eco, sente-se frustradíssima e diz que ele nem sequer a escuta e que não a compreende. A verdade, porém, é que ele nem sabe porque é que ela fala tanto: “Mas porque é que vais agora buscar essas coisas?” Ela, necessária e justificadamente, quer compartilhar aquelas desgraças todas e acusa-o de não comunicar. Mas o pobre de Cristo, senhoras, não pode com tanto fluxo informativo duma vez só. Bolas, é muito problema a resolver ao mesmo tempo, Maria. Ele nem sabia que vocês tinham tantos assuntos pendentes. “E vamos resolver isso tudo agora? E se fôssemos antes jantar e não se falasse mais nisso?”


Portanto, recapitulemos. Quando o psicólogo new wave vos diz para comunicarem mais e fala no diálogo na vossa união / no vosso casamento e tal, e a partilha de todos os problemas e mais que sim, não vão nessa! O diálogo no casamento é aquele que a gente sabe. Se não conseguirem comunicação eficaz quando estão em silêncio (enfim, mais ou menos...), bem podem esquecer que se vão escutar enquanto desfilam exaustivamente a lista das acusações que têm um contra o outro desde 1980. Aliás, era um bocado sufocante estarem sempre com a história do desgraçadinho e do triste fado todos os dias ao chegar a casa e do molho que se entornou na carpete, não era? Era.


Para além desta problemática, há outra, igualmente interessante. Reparem: quando um milagre de atenção, concentração e esforço louváveis por parte do elemento do sexo masculino (obviamente, sempre em dias de semana e nunca quando o Benfica joga para as competições europeias) os faz realmente escutar tudo o que disse o elemento do sexo feminino, há depois um “rebound” – é como no boxe, portanto. Nesse segundo “round”, verifica-se que a mensagem proferida pelo emissor e a mensagem recebida pelo receptor, inexplicavelmente, não é a mesma, quero dizer, foi espantosamente alterada no espaço de canal que medeia entre os dois. Seguem-se as célebres frases de ricochete: “Não foi nada disso que eu disse!” e “Percebes sempre tudo mal!” ou, em versão dos casais que lêem romances do século XIX, “Deturpas as minhas palavras ao extremo, Miguel!” Podem substituir o “Miguel” por “Maria” – a verdade é que a mensagem dita por um nunca é a mensagem ouvida pelo outro, independentemente do sexo.


Quando a desgraça alcançou este nível, o que é que se pode fazer? Bem, há sempre aquela clássica hipótese que é a de ele sair de casa para desanuviar no café e a de ela fazer um grande berreiro, telefonando para a mãe e para a amiga. Piorou. Porque guardam estas reacções para depois as atirarem um ao outro da próxima vez: “E lembras-te daquele dia em que saíste porta fora... / em que contaste à tua mãe que...?”


Não sendo eu conselheira da revista Maria (ainda existe esta pérola?) nem sendo eu paga principescamente como os tipos das novas seitas, para dar conselhos de rodapé resta-me dizer que o que resulta em momentos de crise, quanto à minha humilde pessoa, é o humor. Trocando por miúdos: alguém parar com a briga, dizendo uma piada qualquer por mais tonta que seja. Tem é de dar vontade de rir. Como o riso é contagioso, a luta pára logo ali e da melhor forma.


Então, e “quem é que ganha?”, perguntam os espíritos mais aguerridos; “e como é que sei se ele/ela me compreende ou não, afinal?” perguntam os mais atormentados. .Bom, isso quando estamos todos a rir, interessa muito pouco, não é? Aliás, a vida é um bocado curta para estarmos com preocupações dessas.

Monday, October 22, 2007

A Carne Mal Passada e os Telhados

As pessoas têm muita dificuldade com isto da liberdade. Todos dizem ser algo a que aspiram, e bem se vê o quanto sofrem quando estão privados dela. Mas não é um conceito que se possa gerir com facilidade, quanto mais uma realidade livre de complexidades.
Mesmo livres, e vivendo em “democratia”,os seres humanos estão amarrados a toda a sorte de coisas. Amarrados inconscientemente - ao seu grupo social ou familiar, à sua terra, à nação. Os laços prendem-nos, sejam eles de sangue, telúricos, afectivos ou convencionais. Amarrados de livre vontade - ou talvez não! – a outros nós, quantas vezes pelos próprios indivíduos criados.
Amarrados ainda a coisas mais fúteis e vãs. Aquilo a que chamam sucesso e que corresponde a poder, a ser reconhecido na rua quando vão na sua cidadezinha, a ter mais notas (nada a ver com dó, ré, mi, já se vê...) do que o vizinho e mais objectos a ganhar pó lá em casa.
Os humanos, na verdade, gostam de estar sujeitos. Gostam desse comodismo de estar presos e, sobretudo, de receber umas ordenzinhas. Isso permite não gastar muito os neurónios, já que obedecer cegamente custa muito menos que agir pela própria cabeça e com alguma criatividade. Ui, criar, isso não! Dá muito trabalho. Que seca! O melhor é sentarmo-nos todos calmamente e dizer que sim a quem tenha tido alguma ideiazita qualquer, por mais tonta que ela seja. Isso sempre nos dá menos que fazer e mostra que somos obedientes. Bons trabalhadores, no fundo. Daqueles que passam o tempo a bocejar, a jogar dominó virtual e a falar ao telefone com a Maria Joana sobre o refluxo gástrico do bebé dela até às 17h30, “sharp”.


Há uma fantástica história sobre a liberdade escrita por Emile Zola, que se chama “O Paraíso dos Gatos”. Conta-nos a vida de um angorá, que vive principesca e vegetativamente em casa de uma senhora, com almofada de penas por cama e carne mal passada ao jantar. Mas tinha uma tal sede por experimentar a liberdade dos telhados que decidiu aventurar-se e ir, finalmente, viver. Passa por muitas peripécias e acaba por escolher voltar para casa, porque a vida não é um risco que ele tenha... como dizer? “legumes daqueles que se põem nas saladas” para enfrentar. Ele sabia que, ao voltar, seria espancado a chicote, mas isso não o desanimou: a vontade de uma existência cómoda e fácil foi maior que o medo da dor e da tristeza dessa prisão sempre igual. Diz o gato:”Gozei imensamente a voluptuosidade de estar no quente e de ser espancado. Enquanto ela me batia, eu pensava, deleitado, na carne que, depois, ela me ia dar.”


 Este pensamento que parece, à partida, tão masoquista e cru é a escolha fundamental de muitos seres humanos, que preferem não a verbalizar, por ser mais fácil ignorar aquilo de que não gostamos nas nossas rotas.


Não pretendo com isto criticar as escolhas de cada um. Até porque, entendamo-nos, juízes só os do tribunal e, mesmo assim, é sempre difícil engolir a ideia de que um ser humano possa julgar outro do ponto de vista ético, ainda que isso seja socialmente necessário para o bom funcionamento da máquina de grupo e tal e etcetera.
 Pretendo só ressalvar que a liberdade, que quase todos elegem como factor determinante para a felicidade, é também aquela de que quase todos abrem mão, consciente e alegremente, em favor de uma vid(inh)a mais cheia de coisas. De haveres. A verdade é que a liberdade não pressupõe pertença, antes a exclui, e as pessoas sentem necessidade de “ter”, seja uma casinha, um emprego estável, um afecto ou amigos por perto.


“Então, não há salvação?”, como dizia a minha avó, ou, por outras palavras, “não se podem conjugar a carne mal passada e os telhados?”, perguntaria o gato do Zola. A resposta é: eu não faço ideia (ao contrário dos juízes, que sabem sempre tudo). Mas a minha intuição é que sim, “é possível ser livre e ter algo”. Basta mudar um pouco a nossa rígida percepção das coisas, tanto do ter como da aventura.


Afinal, basta pensar que a liberdade consiste em viver exactamente da maneira que queremos. Já vejo as cabeças a levantarem-se e os cantos da boca a rirem de mansinho e a pensarem “Isso é que era doce! Olha como se a gente pudesse viver da maneira que quer... Eu bem gostava de ter um BMW / de fazer um curso de meditação na Birmânia / de conhecer a Giselle Bündchen.” e outras aspirações assim elevadas. Bom, viver é escolher. O difícil, realmente, é fazer a escolha dentro das circunstâncias que temos.No entanto, visto pelo prisma da simplicidade, torna-se descomplexo: basta escolher, em qualquer ocasião, o que nos torna mais felizes naquele momento. Até porque nada é para sempre.



Wednesday, September 19, 2007

As Pessoas que Mandam Nisto


Há algumas crónicas atrás, falei da minha saga com os mecânicos. Os espíritos mais  elevados perceberam a minha análise das pessoas que realmente mandam neste território. Sim, a ideia de que são os governantes que mandam é muito relativa. É por saber isso mesmo que a maior parte das pessoas não vai votar (vide nível de abstenção em quase todas as últimas eleições, sejam elas municipais, presidenciais ou o que forem). Quem realmente manda são aquelas pessoas que têm determinados poderes que nós, tristes seres que ficamos embasbacados a olhar para eles e a pedir “por favor não me arranja isto até ao meio-dia?”, nós não temos. Essas pessoas realmente poderosas estão inteiramente conscientes de que têm o resto do mundo na mão. Há um risozinho de triunfo na maneira como nos olham de lado, um esgar ligeiramente superior no modo como ajeitam os óculos e fungam antes de dizerem “por acaso, não vai ser possível”. Por acaso. Reparem no pormenor. Se tivessem acordado bem dispostos, talvez até tivessemos sorte.


Entre estas pessoas realmente poderosas da nossa sociedade contam-se os senhores das Finanças, as meninas das companhias aéreas (porque é que são quase sempre mulheres? é requisito preferencial?), os técnicos de informática, o pessoal das companhias de telemóveis, os polícias de trânsito e demais fauna policial, os porteiros das discotecas e os taxistas. Isto só para referir alguns. Há uma data de etcetera, mas não vamos agora meter-nos a fundo nisto, até chegar aos médicos e aos padres, por exemplo (ui, aí é que tinha mesmo piada!). Desiludam-se os advogados, porque já lá vai o tempo em que mandavam alguma coisa. Agora, na generalidade, falta-vos engenho.


Se julgam que estou a brincar, pensem na maior parte dos vossos dias. Imaginemos um dia normal: um tipo chega ao trabalho e os computadores não funcionam. O técnico de informática diz:”epá, não sei o que se passa!”. Seguindo o bom e velho esquema da tuguice, fica tudo a bezerrar até que ele resolva o assunto, porque, enfim, não há computadores (como é que se trabalhava há dez anos é um mistério para todos, incluindo para a Maria que não sabia trabalhar com computadores há dois anos!). O técnico decide que, uma vez que o pessoal está todo dependente dele, bem que pode ir tomar um café ou dois. Raras vezes se tem uma tal sensação de poder, caraças.


Entretanto, telefona o senhor da TMN (da Vodafone, se quiserem). Como telefonam sempre de um número que a gente não descodifica nem à lei da bala, acabamos por atender. Erro. Depois de um questionário sobre mil serviços que nunca utilizámos, “oh senhor, eu estou com pressa!”, ele quer vender-nos um pacote muito interessante a preço super para “si, cliente especial”. Mas eu agora não posso atender. Volto a telefonar ao atendimento de clientes no dia a seguir, quando tenho tempo, mas a treta da promoção de um telefone por metade do preço e mensagens grátis era só ontem. Pffff! Mas volte sempre, “até já” (dou um bombom a quem me explicar porque é que se despedem sempre com “até já”; eu não estou interessada em voltar a ouvi-los já).


Depois, vamos a correr tratar da nossa vidinha. Somos apanhados pela polícia porque íamos chocando de frente com a viatura policial. “A senhora estava distraída?”(Os polícias, amavelmente, perguntam sempre. Pode dar-se o caso de eu querer mesmo chocar contra o carro deles e desfazê-los, suicidando-me em grande estilo também). Explico toda a minha vida, o porquê de estar com pressa e da minha distracção. O polícia exclama“Ahhhhh!” compreensivamente. Chama o colega (andam sempre aos pares, como na TV) e eu explico tudo outra vez. São amáveis, gentis, cavalheiros. Levo com multa. Perdi 40 minutos. Detesto fardas.


Lá consigo chegar às Finanças. Depois de duas horas e meia de espera, contribuindo para que me rebentem as veias das pernas e algum aneurisma, a senhora, com uma boa disposição só comparável à de uma mosca ao ver o frasco de DumDum, diz-me que faltam os documentos X e Y. “Porque é que não me avisou quando estive cá ontem? É que assim já vou ter de pagar multa, porque o prazo é hoje!” A senhora diz que eu me devo ter esquecido. Sim, eu estou interessada em dar ao Estado mais 100 euros de minha livre e legítima vontade. Sim, sim, devemos dizer sempre que sim porque nunca se sabe quanto mais se podem irritar... e quem paga a frustração é a nossa carteira.


Depois, apanhamos um táxi a correr para ir para o aeroporto. O taxista cobra-nos mais não sei quanto pela bagagem, e mais não sei quanto porque é de tarde e mais não sei quanto porque temos um animal dentro de uma caixa. Vai a pisar ovos e eu com pressa. Relata-nos as agruras do Benfica, enquanto a rádio toca a Ruth Marlene em altos berros e a rádio táxi vai guinchando de vez em quando.”É um problema isto do Scolari”. Na verdade, o maior problema para mim, neste momento, é a Ruth Marlene.


Ruth Marlene devia ser o nome da menina da companhia aérea. Não era mas ficar-lhe-ia bem. Há um erro de sistema. Ok. Já consegue entrar no sistema. Fixe. Não consegue encontrar um passageiro chamado Cook. Interrogo-me se é a primeira vez que ela faz isto. Já encontrou. Não sabe fazer não sei o quê que me escapa. Chama a colega (também andam sempre aos pares, curiosamente, mas no caso presente, graças aos céus). Não sabe o que fazer com o gatinho. Explico-lhe (como se fosse minha função saber, mas enfim...) Lá consigo ter um talão de excesso para o bicho e um de embarque para mim – era giro se fosse ao contrário, não era?!


Já noutro local, decido ir espairecer deste dia. À porta da bendita da discoteca, o porteiro diz-me que não posso entrar porque estou de ténis. “Devia vir de salto alto?” Ele responde que não deixam entrar pessoas de ténis e ponto final. E não há volta a dar. Viro costas e cara alegre, que isto é só para moças com ar de quem trabalha na Côte d’Azur.


Gostaria de finalizar esta crónica, assegurando a todos que adoro a Humanidade. Mais ou menos como a Madre Teresa a adorava e o Dalai Lama a adora. Isto é: quanto mais se puder fazer por ela, melhor. E quanto mais longe se estiver dela, melhor ainda. 


Monday, September 3, 2007

Portuguese Do It Better


Há pouco tempo, li um artigo interessante numa revista de bordo. Era sobre sapatos. Não sou especial consumidora de coisa nenhuma, com a doce excepção de chocolates e gelados, mas li, apesar de sapatos não serem uma paixão minha, mas tão só um item necessário na sociedade em que vivo. Achei muito curioso e interessante saber que as marcas de sapatos Fly London, Aerosoles, Helsar e Swear são portuguesas. Portuguesas! Ena! Nunca imaginei.


Segundo os entrevistados, estas marcas facturam imenso, sobretudo extra-muros. A Fly London exporta 95% do que produz e a Aerosoles manda 4 milhões dos seus sapatinhos para o estrangeiro.
Não contentes com este sucesso, estão também nos pés de gente famosa. A Swear calça os REM, os Radiohead, a Cher e as Spice Girls (enfim, é discutível que aquelas botas tipo anos 70 de meter medo ao susto destas últimas pequenas sejam giras, mas enfim…); a Fly London calça os Prodigy e os Rolling Stones (todas as gerações em coro agora: WOW!!!); a Helsar é muito mais “sophisticated” e calça a mulher do Exmo. Tony Blair. 


Enfim, um português lê este artigo e fica todo inchado de orgulho. Sempre soubemos que o cabedal português era bom. Falo do cabedal no seu sentido literal, o que serve para fazer sapatos e malas, não estou aqui com duplos sentidos, entendamo-nos. Sempre ouvimos dizer que a indústria do calçado em Portugal ia de vento em popa, mas tanto assim a gente nem suspeitava. Ah, o orgulho nacional!


Agora, pergunto-vos: não notam nada de especial nestas marcas cheias de sucesso? Olhem com atenção. Pois é. Os nomes. Têm todas nomes que soam a nomes estrangeiros. Portuguesíssimas serão, mas escolheram nomes que de portugueses não têm nada.


Uma pessoa, esteja onde estiver neste mundo e seja de onde for, olha para um sapatinho Fly London ou Swear e pensa que está comprando um sapatinho inglês. Um tipo pega num Aerosoles e julga que está levando para casa uma bota espanhola. E serei eu a única a julgar que uma chinelita Helsar parece sueca?


A conclusão que retiro desta operação de marketing é a seguinte: um português para ter sucesso no estrangeiro deve, em primeiro lugar e sobretudo, não parecer português (embora nunca deixe de lado a sua fibra de cabedal lusitano interiormente). Pelo menos, no mundo dos sapatos.


Enfim, outros exemplos haverá que confirmem esta teoria, acabadinha de inventar agora mesmo. A cantora Nelly Furtado é um caso de sucesso incontornável internacionalmente. No Canadá, é a canadiana Nelly; em Portugal, é a filha dos imigrantes portugueses Nelly, e nos Açores é a Nelly com a costela da Ponta Garça.


Na verdade, a Nelly tem sucesso também (mas não só, admito…) porque sabe aproveitar as suas múltiplas facetas, conforme a ocasião e/ou circunstâncias.  Todos sabemos que o maior segredo do sucesso, neste mundo, é a capacidade de adaptação. Aqui, a Nelly dá cartas: até aos russos ela agrada, dizendo que foi chamada Nelly Kim como homenagem a uma ginasta russa! Isso sim, é que saber agradar às massas às quais se apresenta.
Além disso, Nelly fala inglês e português mas também fala espanhol fluentemente, o que não é de estranhar, uma vez que a comunidade falante do espanhol tem um grande peso na América do Norte (e os que não o falam gostam de ouvir cantar em espanhol e compram discos, que é o que interessa). A Nelly diz que até fala hindi, o que lhe empresta um ar muito exótico (em termos de imagem, não lhe faz falta, só acrescenta, porque é lindíssima e já o tem) e agrada a um público ainda mais vasto – Sim, sabem vocês quantas pessoas falam hindi? É a língua mais falada na Índia, a par do resquício colonialista Inglês, e  se há coisa que a Índia tem – ainda mais do que caril - é população.


Bom, concluo. Já explanei a minha teoria. Obrigada à revista Atlantis e ao cabedal português. Viva o sucesso da indústria do calçado, tipicamente lusa  como se vê, e viva o “folklore da Nelly. É que nem é “folclore” o nome do disco de que tanto nos orgulhámos, por causa das raízes lusas anunciadas. É mesmo folklore, para o público anglo-saxónico não se chocar.


O marketing é uma coisa fenomenal e nada está numa publicidade por acaso. Está ali porque irá voar mais longe assim. Like a bird.

Wednesday, August 29, 2007

Tudo Bem


Tenho uma amiga que detesta a expressão “Tudo bem?” porque ninguém espera para ouvir a resposta. Ela tem razão. Mas, na verdade, é muito simples: temos medo de a ouvir e fingimos que estamos com pressa (sabemos todos que raras pessoas têm pressa em Portugal, porque a classe trabalhadora é composta por pouca gente e, dentro desta, ainda há que ver os que realmente trabalham...).


Imagine-se o que era descobrir que andava toda a gente tristíssima. Nós, os empáticos, temos imensa dificuldade em lidar com as desgraças alheias porque as sentimos como verdadeiramente nossas, ao menos um bocadinho. Se até chorámos com as criancinhas que, supostamente, morreram no 11 de Setembro! Se temos tanta dificuldade em ver as misérias do Iraque no telejornal! O que não faríamos se soubéssemos que com a nossa amiga “não está”, efectivamente, “tudo bem”. A nossa reacção e subsequente ajuda a um ente querido são pressurosamente inimagináveis.


Claro que há sempre a hipótese de estar, em boa hora, “mesmo tudo muitíssimo bem”. É um grande erro, caríssimos, responder que estamos bem, com cara de gente feliz. Certamente nunca se deve intensificar com o advérbio “muito” a nossa felicidade pessoal. E não é porque fique bem a rugazinha de pensamento soturno a meio da testa, mas sim porque a felicidade levanta suspeita.


Se andamos com um ar muito feliz, logo a reacção geral é de incómodo. Pensam imediatamente "Porque será que aquele caramelo anda todo satisfeito? Que será que ele já sabe que eu ainda não sei? ... De certeza que já meteu a patinha na parte que me cabia a mim! Humpf!" As pessoas têm, bem no fundo de si, a ideia de que a nossa felicidade se ganhou à custa da felicidade de outro alguém. Não há volta a dar-lhe.


De modo que o melhor, para manter a paz de espírito alheia - e , logo, a nossa - é ser o mais low profile possível. E, por mais feliz que estejamos, manter sempre um ar mais ou menos alheado. Um ar "mais ou menos", em suma.


A triste realidade deste mundo é que a maior parte das pessoas aguenta muito melhor a miséria alheia – porque esta lhes permite compadecer-se, humanizar-se, serem, enfim, seres plenos de caridade – do que a felicidade dos outros. O nosso triunfo acaba por suscitar nos demais sorrisos amarelos, elogios que soam a falso. O drama e a tragédia são muito mais apelativos ao coração generoso dos seres do que a partilha da glória. Daí resulta que aqueles para quem” tudo está bem” se sentem culpados da sua felicidade , tão terrível aos olhos dos outros.


Claro que isto do estar bem é sempre momentâneo, porque tudo é efeméro no ciclo vivencial. As criaturas que respondem “tudo bem” e se sentem realmente assim, também não estão completamente satisfeitas com a vida, mas (...pst, cheguem-se agora todos aqui para ouvir o segredo...) estão-se nas tintas para aquilo que não têm neste momento. Como dizia o meu avô: “Se não há, não é preciso.” Este é que é o segredo.


Pensando assim, nem há lugar para a inveja neste mundo. A inveja nasce, realmente, de um sentimento íntimo de comparação. As pessoas comparam a sua vida com a de outro e porque não estão satisfeitas com a vida que levam e supõem que a do outro é mais interessante, cobiçam-na, embora não saibam nada da verdadeira vida que ele leva, na maior parte das vezes. É a divagação, a fabulização de pequenas historietas mentais que causa esse sentimento – até porque o que lhes interessa não é tanto a realidade mas o que lhes permite canalizar o veneno interior. No fundo, a inveja é uma espécie de esgoto, a fossa asséptica da alma de cada um.


Por outro lado, as pessoas adoram dissertar compungidamente sobre os problemas alheios, falar das grandes misérias que bateram à porta dos vizinhos e dos amigos,martirizar-se com culpas e vergonhas de há anos a que juntam outras tantas inventadas, e não esqueçamos aquelas que desfilam o rol das suas doenças e as comparam em praça pública com as doenças dos outros. Depois, junta-se tudo num grande saquinho e fala-se mal da Região e do País, e etc. Apetece perguntar a estas pessoas porque não fizeram uma operação plástica, não se divorciaram, não mudaram de emprego/ amigos/ casa e emigraram. Estão sempre a tempo de mudar de vida, enquanto estiverem vivos. E, já agora, porque é que imaginam que, sempre que estamos a rir, nos havemos de estar a rir deles. Para eles, nunca põem a hipótese. Com eles, de quê? Isso é que era doce.


Enfim, não tenham medo de responder ao “tudo bem?”. Riam-se do mesmo modo que os estrangeiros se riem para os locais, sem razão e sem má interpretação. Já é tempo de começarmos a rir uns para os outros, de assumirmos que estamos mesmo bem, que isto do fado português sofrido e penado, da mulher de lenço preto que espera na praia, já nem a minha avó o fazia. Tenham paciência, mas as pessoas têm mesmo o direito e o dever pessoal de serem felizes.


Saturday, August 4, 2007

Eu Gosto é do Verão

Parece que chegou o Verão. Quase não se dá por ele, especialmente em certos dias brumosos, feios, encapotados e em que mais apetece, ilha por ilha, emigrar para a Sardenha ou para a Córsega ou - caso o desejo de sol seja muito - para S. Tomé.


A maior parte das pessoas (que não eu, escusadamente acrescento, porque “a maior parte” nunca me inclui e é com um desgosto escolar que o digo...) está de férias ou a contar os dias que faltam para as mesmas. As férias são a vingança anual do povo. Depois, já mais apaziguado, e quase “cansado da pasmaceira que é estar sem fazer nada” e dos “dias em família, torrando ao sol”, pode voltar ao trabalho.  Por esta razão, não se compreende porque é que a Natureza, geralmente cooperante, se mostra, este ano, tão antipática, a pôr a língua de fora. Isto só a nós é que nos chateia, porque os turistas (os poucos que temos, que são todos velhos e do Norte e, portanto, dispostos a pensar que estão nas Caraíbas) andam sempre de belo calção, mostrando a alva perna. Até dá jeito que o sol não seja como o sol mediterrâneo, para não queimar a frágil pele idosa e passível de tonalidades encarnadas perigosas.


Férias sem sol de jeito são especialmente cruéis para as mulheres. Anda uma mulher a preparar-se afincadamente, depila daqui e dali, compra creme anti-celulítico, faz dieta, inscreve-se no ginásio, corre a avenida toda ao fim da tarde e até sobe a estrada até à Santa, maldiz os nove meses em que comeu, bebeu, fumou quanto quis – que é o mesmo que dizer, os nove meses em que viveu normalmente - , faz pedicure por causa da sandália, compra um bikini novo, porque o bikini é melhor que o fato-de-banho já que bronzeia o estômago mas é preciso que seja um bikini que estilize a figura e aperte os papos da anca e não deixe sair os papos da barriga, e ainda, se possível, levante e/ou encha o peito ou o rabiosque de quem o tem descaído (o tempo que se perde e as viagens que se fazem para achar estas duas peças!!!). Finalmente, lá acaba por ir à praia, franzindo o nariz porque não há muito sol e o efeito não é tão espectacular como se esperava porque, enfim, não há público suficiente!  Profundamente injusto, o mundo. O mundo é a ilha, claro está. Felizmente, logo se anima, se há amigas por perto. As amigas na praia servem, fundamentalmente, para que a mulher se certifique de que a sua Operação-Verão foi bem sucedida (“Ai, querida, estás tão gira! E muito mais magra! Esse bikini fica-te mesmo bem! Onde arranjaste? Eu procurei uma coisinha assim imenso tempo!” ; “Mas tu também estás espectacular! Que segredo é o teu? Gosto imenso do teu novo corte de cabelo! Estavas a precisar de mudar! Assim estás muito melhor!”), e, não menos importante, para cortar na casaca de todas as outras mulheres. Atenção que isto não é por mal, evidentemente. Tão somente o fazem porque essas criaturas – as outras – não sendo amigas, são gordas (ou, se forem como eu, esqueléticas e desengonçadas), certamente fizeram esforços desumanos para serem assim (ou será que são doentes? “Sim, porque eu já ouvi dizer...”), e vê-se logo que estão mesmo a tentar chamar a atenção com aquele andar e aqueles olhos e aquela saia horrivelmente curta. Blargh. Devia ser proibido.


O Verão sem sol também é duro para os homens. Não há a possibilidade daqueles raios brilhantes como relâmpagos a faiscar nos carros fenomenais que se compraram, que vão dos 0 aos 250 km em poucos segundos, para impressionar os amigos, para fazer inveja aos vizinhos e para dar status. São carros completamente inúteis num sítio circular, curvadinho e centrado como é uma ilha, mas isso não interessa nada, porque o carro não foi adquirido para andar. Um carro não é para andar, eh eh eh, que noção! Um carro é para mostrar ao pessoal. Além disso, sempre se ouviu dizer que as mulheres gostam de homens com carros assim possantes (quem inventou esta estupidez gostava eu de saber?).


De qualquer modo, com sol ou sem sol, sempre há a possibilidade de dar largas ao tuning: faróis de cores, autocolantes, verificação das molas dos estofos (porque nunca se sabe se, em dias de sorte, o carro vai ser mais útil parado do que a andar...) Sobretudo,  pôr a música em altíssimos decibéis para chamar a atenção das miúdas, enquanto se ajeitam os óculos de sol -comprados nas barracas das festas- com a ponta do dedo indicador, e se baixa o vidro da janela do carro, devagarinho. Bonito.
Outro espécime é o surfista de Verão. Surfista que é surfista é-o todo o ano, e com maior razão no Inverno, porque ondas ferozes e boas é com mau tempo que se apanham. Mas nós temos essa especialidade gira que é o surfista estival. Cabelo todo wax, vocabulário cool, bronzeado e (quando calha) giro. Pena é que confunda surf com bodyboard e  não apanhe uma onda que seja sem se espetar. Podia ser interessante se fosse genuíno e, logo, não-sazonal.


Eu gosto do Verão, sinceramente. Adoro o sol. Tenho verdadeiro prazer em comer gelados (embora aí seja um pouco como a publicidade da OLÁ, passe a pub, gosto sempre). Agora, assusta-me é essa coisa de andarem por aí com campanhas de promoção da natalidade no país e no mundo. A natalidade sobe imenso no Verão, como se sabe, com as feromonas em alta e tudo o mais. Mas a mim parece-me que, com gente assim, já temos é pessoas a mais.