... "And now for something completely different" Monty Python

Tuesday, February 12, 2008

O Amor Totalitário

Visto que chegámos outra vez àquela época do ano lamechas dos coraçõezinhos nas montras comerciais, vamos lá falar desse fogo que arde e que se vê - o ciúme.
De entrada, digo já que não sou ciumenta para além do que se crê normal num ser humano que ama, ou seja, obviamente que acho que todos os outros seres humanos só podem estar secretamente apaixonados por aquele de quem eu gosto e a partir daí observo-os atentamente e com total desconfiança. E ele, o meu amor? Pois ele, naturalmente, que é incapaz de desejar outra mulher que não eu e é por saber que ele nem levanta os olhos para mais nenhuma das presentes nem imagina coisa alguma com as ausentes que eu o trago completamente debaixo de mira. Sem que ele perceba, claro está.
É muito importante, aliás, que ele não perceba nem sonhe. Se desse por isso, era capaz de lhe dar uma ânsiazita de evasão. Cruzes credo! Eu quero é que ele fique aqui amarrado de tal forma que só eu saiba desfazer o nó.


Afinal o que é o ciúme? O ciúme é aquele medo enorme e incontrolável de que a outra pessoa nos fuja. Uns ciúmes moderados, assim uma pontinha, como quem polvilha de especiarias um prato, até podem ser considerados uma coisa bonita, um picantezinho extra.  Algum de vocês imagina relação mais aborrecida que aquela em que sabemos que o nosso amor está completamente apanhado e não foge? Só se for aquela em que  sabemos que estamos completamente enfadados dele, porque já não há mais nada a descobrir. De qualquer modo, não exageremos. A pior coisa que se pode fazer neste mundo de afectos será instaurar o regime fascista do controlo absoluto.


Então, como é que se pode fazer uma elegante gestão da liberdade desse ser amado a quem apetece envolver entre os nossos dedinhos? Boa pergunta. É tanto mais boa pergunta quanto eu nunca, jamais, em caso algum suportaria que alguém me limitasse coisa alguma. Recorrendo aos sábios conselhos da minha avó, dir-vos-ei que todo o controlo deve ser como o dos Serviços Secretos.


O ciúme pressupõe a presumível existência - na grande maioria das vezes, apenas fantasiada pela imaginação delirante e ciumenta - de casos de infidelidade. Porém, caros amigos ciumentos, nunca houve tão pouco motivo para preocupações como hoje em dia.


Como diz um grande amigo meu, já não há boas infidelidades porque já ninguém perde a cabeça. Daquelas à Eça de Queiroz em que as mulheres arriscavam o casamento e os homens a posição social (o contrário jamais se verificava e dois séculos depois ainda é assim a regra geral), nas quais havia um sentido trágico e delirante, tipo ópera La Traviata . Hoje não. Alguém seria capaz de hoje arrumar a sua mala de roupinhas e fugir com o amante, sabendo que nunca mais seria olhada de frente na rua quando antes servia chá com bolinhos à alta sociedade? Nem pensar. Isso era no século XIX. Hoje somos pessoas sérias. Quando há demasiada paixão no ar, tomamos Xanax para acalmar. Jamais rolarão pescoços. Estão presos pelas gravatas deles e pelos colares de ouro delas.


Resumindo: hoje, apesar de toda a gente dizer que a sociedade livre oferece mil e um perigos e blablabla, é só conversa. Entenda-se o “só conversa” literalmente. Descansai as vossas almas, amiguinhos do ciúme de faca e alguidar de sangue. Nunca há-de a conversa chegar a vias de facto, porque hoje as pessoas não estão para adultérios. O pessoal respeita muito o mandamento sexto da Nova Lei de Deus, que é como quem diz “Não darás motivos para que fale de ti a tua vizinha”.  Se bem que o castigo não seja perder o Paraíso (porque no Inferno já nos encarregaríamos de o fazer cozer em fogo brando e continuado), aproxima-se muito do bom e velho antigo apedrejamento em via pública. Seria preciso muita ópera e sentimento para levar avante um amor anti-social. Convenhamos que com coraçõezinhos “I love you” não vamos lá.


Então, para terminar, e recorrendo de novo à minha sábia avó, um conselho de pacote para a brigada do ciúme: é preciso fazer o outro ter pena. “Tu nunca gostaste de mim”; “Eu sou tão infeliz e desesperado(a) sem ti”; “Eu que sempre me dediquei ao nosso amor”; “Sabes que o facto de ter estado com outra (o) não significa nada, porque só me lembrava da tua cara...”; “Eu sou capaz até de perder a vida se me deixares”. A culpa move montanhas nesses espíritos sensíveis que um dia gostaram de nós. Os infelizes.


E, para não desmoralizar o outro lado, outro conselho de pacote, recorrendo ao meu sábio avô, para a brigada dos infiéis: existe sempre a filosofia do compensa. Ou seja, se estou a ser infiel a quem estou legalmente ligado, por outro lado estou a  ser fiel a quem estou afectivamente ligado (se, dramaticamente, não calhar serem a mesma pessoa,...). Pois, vendo bem, compensa. Faz-me feliz. Que se lixe.


Finalmente, a pedra de toque inventada pelas espertalhonas das mulheres: há uma ideia muito em voga nas cabeças masculinas (tradicionalmente ciumentas e infiéis, embora nem sempre acompanhadas pelo resto do corpo) que é a de que os homens continuam a trair muito mais do que as mulheres, enquanto essas cândidas e sofridas criaturas ficam em casa carpindo as misérias de estarem a ser traídas. Isso é que era, senhores. Se os homens traem e as amantíssimas e sofredoras mulheres se retraem, com quem, ao certo, é que os homens se divertem?

Friday, January 25, 2008

“Ai, Paciência, Meu Deus!”





N.B.: Este texto foi revisto e alterado para ser publicado na edição do dia 29 de Abril de 2011 no jornal Açoriano Oriental.





Estava eu a conversar com uma rapariga da Lituânia que tem uma paixão desmedida por Portugal e vai daí ela perguntou-me porque raio num país como este, bem fornecido de sol, de temperaturas amenas, de bonitas paisagens, de gente (mais ou menos) calma  e sem fomes nem misérias de maior na sua generalidade, os portugueses estavam sempre a suspirar e a dizer “Ai, paciência!”.


Eu cá nunca me tinha dado conta que recomendávamos tanta paciência uns aos outros e, ademais, éramos tão plenos de suspiros! Mas é bem verdade. A mais comum das exclamações é mesmo capaz de ser esta, exceptuando outras que, embora não seja de bom tom eu escrever no jornal são, paradoxalmente, as mais ouvidas na rua e das primeiras que qualquer estrangeiro aprende se quiser sobreviver em 70% dos ambientes de trabalho lusos.


Atacando o assunto: porque precisa o português de tanta paciência, sincopadamente suspirada? Eu também não sei!
Confesso, porém, que este hábito já vem de trás... Já a minha bisavó era amiga deste dito. Daqui concluo que o tão apregoado pessimismo português (repare-se que muito  pessoal até diz “festa de fim de ano” e nunca “festa de princípio de ano” semanticamente tomando uns copitos pelo ano que passou e não pelo que há-de vir!)  nem é bem pessimismo – é uma espécie de amortização da queda. Afinal, o português até quem consciência que vive no “melhor dos mundos possíveis”, como apregoava Leibniz. Simplesmente, de vez em quando lá aparece uma pedrinha no caminho – nada que um espírito navegante e conquistador como o nosso não resolva com meia dúzia de suspiros e caldos de paciência.


Outra coisa que muito gostamos de fazer é chamar por Deus. Mas na base da confiança! Raros povos alcançaram um tu-cá-tu-lá com o divino como nós. Enquanto que, por exemplo, os espanhóis têm tanto respeitinho a Deus que, só de pensarem nele intensamente, há centenas de espanhóis que sofrem de stigmatae (vulgo, estigmas, aquelas feridas sanguinolentas e absolutamente inexplicáveis), os portugueses são tratados por Deus na pura, que é como quem diz, na maior descontracção. Os irlandeses, coitados, passam agruras do demo por quererem praticar a sua religião. Os portugueses estão sempre na boa e contam-se pelos dedos os fiéis. Há pessoal nas Filipinas que se esfola todo para demonstrar a Deus que sofre por Ele, tal como Ele. O português não está nem aí para demonstrações de nenhuma espécie. O português acha que se alguém tem de demonstrar alguma coisa é Deus, não é ele. Mas, verdade seja dita, não se chateia se a demonstração levar anos ou mesmo não acontecer porque temos tempo... e sol e temperaturas amenas (vide primeiro parágrafo). Em suma: somos um convite à lazeira.


Assim, apesar de não darem troco nenhum a Deus, não é raro ouvir os portugueses chamar pela mãezinha d’Ele: “Oh Virgem Maria!”, ou outros de Sua proximidade “Ai santa Bárbara! Que escuridão”, etc, revelando uma clara familiaridade com as entidades celestiais. Eis a minha exclamação favorita: “Oh Jesus Cristo! Anda cá abaixo ver isto!” que, não só rima, como é uma espécie de invocação imperativa que sujeita o pobre Jesus  a ser humano e a passar por aquelas desgraceiras todas outra vez.


Mesmo os ateus e os não-católicos (como eu) se saem às vezes com frases destas. Aqui, não é preciso uma epifania para entender o porquê: é que ninguém tem bem a certeza (excepção honrosa feita ao meu irmão) de haver ou não Reinos que não sejam deste Mundo – perdão, João de Melo. Assim, o português arranjou um truque fixe que é o de tratar Deus como um amigalhaço, na onda cool e tal, porque, assim, se Ele não existir não fez figura de parvo a dedicar-se-Lhe e se Ele existir, o tuga já fez o seu papel. Tudo salvaguardado.


Os próprios ateus (com raríssimas excepções) costumam dizer que “não acreditam em Deus mas numa entidade superior que nos criou” o que é a mesma coisa que um oriental dizer que não acredita no Buda mas admite a existência de um manda-chuva gordo e careca, sentado à chinês...


Senhores, resolvam-se. No sítio. Senão, é preciso vir Jesus cá abaixo ver isto. Até que se resolvam, a gente vai ter muita, muita paciência... (suspiro!).  


Thursday, November 29, 2007

A Comunicação - Parte III - Entre Pais e Filhos

Quando esta relação começa, a geração mais velha está em vantagem porque a mais nova, pura e simplesmente, não sabe falar. Além disso, regra geral, são os pais que ensinam os filhos a falarem, após tentarem, sem qualquer sucesso, comunicarem com eles através de “gugu, nhánhá, pschtiii” e outras baboseiras, acompanhadas de gestos exagerados que nenhum ser que não seja pai de um bebé, palhaço ou domador de focas faz.


Depois de terem ensinado aos filhos a sua linguagem, os pais arrependem-se amargamente e haverá muitos momentos num breve futuro em que hão-de desejar tê-los mantido sem acesso à reinvidicação verbal. Como já antes salientei (ver “A Comunicação, Partes I e II, sff), a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Tão só. Mas como não temos outra coisa  - já quase ninguém sabe código Morse e custa bastante fazer sinais de fumo num clima tão húmido – lá vamos falando...


De facto, em breve, as criancinhas que antes choravam para fazer entender que tinham dores de dentes, fome ou pura birra, agora querem explicar as suas razões. Convenhamos que, para a maior parte dos pais, as razões não interessam nada, desde que pare o berreiro. Ou não é verdade que cada vez há mais criancinhas mal-educadas batendo o pé na rua e rivalizando em competência sonora com as sirenes dos Bombeiros porque querem os chocolates e as Barbies e um telemóvel de brincar (Santo Deus!) ? É. Isto tudo numa saída normal de compras ao sábado de manhã. Nem imagino o que pedirão no Natal.


Estes insuportáveis espécimes que não raro nos pespegam pastilhas elásticas no cabelo mas que são, segundo o cliché, “o melhor do mundo” não têm culpa nenhuma de ser assim. A culpa é de outra espécie muito em voga que (não) toma conta deles, denominada “os pais que não querem ter chatices”. Estes pais fabulosos são muito amigalhaços dos filhos, que consideram crianças hiper-activas (outro conceito muito giro e que, hoje em dia, se aplica a quem se mexe um bocadinho mais do que seria desejável e mesmo até a quem se mexe saudavelmente, para aqueles pais hiper severos que têm as casas como se fossem museus, cheias de coisas inúteis e anti-criançada como porcelanas, pratas e jarros sem flores).


Na infância, há também uma fase de comunicação usualmente chamada “idade dos porquês” que irrita muito os progenitores. Este momento da vida deveria antes orgulhá-los pois nunca na existência os filhos voltarão a perguntar-lhes os porquês deste mundo, pela simples razão que não mais voltarão a acreditar que os pais são assim tão sábios.


Na verdade, ao passarem à adolescência, os filhos entram em cheio noutro momento, diametralmente oposto, no qual consideram que os pais, embora geralmente até sejam gajos porreiros, estão um bocado ultrapassados e, portanto, não vale a pena perguntar-lhes nada porque os infelizes cotas já não têm estaleca para tanto. Os próprios pais, nesta altura, vêem–se muitas vezes na situação de ter de pedir favores aos filhos, geralmente de ordem tecnológica: “Ó Rodrigo, será que podes explicar ao pai como é que funciona o blackberry que a empresa me deu?” Tirando estes momentos e os grunhidos monossilábicos com que os filhos respondem aos pais à pergunta “Está tudo bem?”, não há muito mais a dizer quanto à comunicação.


Já na vida adulta, há um desconcertante momento no qual os pais e os filhos estão, por assim dizer, activos e independentes. Como já não falavam há vários anos, não se lhes ocorre nada que possam dizer. É por isso que os avós e os netos são tão importantes nas festas de Natal e outras que juntam as famílias. Na falta de avós e ranchos de criancinhas que façam berreiro, convém ter uma televisão. E comida, claro, porque com a boca cheia as pessoas têm uma desculpa para não falar.


Segue-se, depois, a última fase, que depende do modo como as coisas se passaram na primeira. Quando os pais ficam velhotes e, logo, dependentes dos filhos (seja económica seja fisicamente por questões de mobilidade ou doença), não há filho que não se lembre da sua infância e um sentimentozinho muito humano de “olho por olho, dente por dente” renasce no mais terno e menos vingativo dos seres. Por alguma coisa, a Santa Casa da Misericórdia é a instituição mais rica de Portugal.


E assim termina este ciclo, no qual, como se viu, não é possível pôr grandes culpas na comunicação, dado que ela está cheia de fragilidades. A culpa (palavra feia!), não parece, porém, estar nestas coisas das ligações genéticas, porque, como diz Deborah Tannen, da Cornell University, “a razão pela qual as mães e as filhas não comunicam bem é porque ambas são mulheres.” Pronto. Melhor, só o Freud. 


Thursday, November 15, 2007

A Comunicação - Parte II - Entre os Povos


Outra coisa fenomenal sobre a comunicação são as diferentes línguas, claro. Sempre foi um tema fascinante para mim, não sei se por ser bilingue e depois ter aprendido outras línguas - o que me deu muito jeito, na vida pessoal e profissional; todavia, só me veio confirmar que ninguém se entende, até porque as línguas reflectem seguramente uma questão cultural e não raro também um ambiente.


Um exemplo prático quanto ao ambiente: o ano passado, vivi num país muito frio e foi a primeira vez que me vi envolvida em nevões e que tive de tirar a neve com uma pá da frente da porta para poder sair, muitas vezes diariamente. Antes disto, nunca tinha sequer tocado em neve. A primeira vez que me caíram uns flocozinhos em cima, fiquei numa excitação tremenda, e, muito prosaica e infantil como só um ser humano perante as sensações novas, comecei a dizer: “It’s snowing! It’s snowing!”. A minha colega de trabalho levantou a sobrancelha por cima do seu olho azul direito, dizendo-me “It’s not snow, Carla. It’s flurries.” Após uma semana, já eu tinha percebido a diferença entre a “verdadeira neve” e as “neves ligeiras” - impossível de traduzir melhor isto para português, porque não temos necessidade de mais do que uma palavra para o conceito de “neve” num país onde a mesma é rara e quando ela aparece não tem tantas variações que impliquem outras tantas palavras a condizer. Dizem-me que os inuits, que vivem no extremo norte da Terra, têm mais de cem palavras para definir os tipos de neve. Logo, língua equivale à nomeação do que me rodeia. Se algo não existe na minha realidade, nunca sentirei a necessidade de ter uma palavra para esse conceito.


Quanto à parte antropológico-cultural, idem aspas: mesmo se eu for uma barra em hebraico mas não tiver a sua vivência, sou muito capaz de não entender porque raio têm os hebreus determinadas questões religiosas e culturais, e logo nunca hei-de interiorizar realmente porque carga de água o verbo “yodea” significa igualmente e sem distinção, “amar” e “conhecer”.


O facto de falarmos diferentes línguas levanta, ainda, outra problemática: as expressões idiomáticas. Estas miseráveis são o quebra-cabeças de todos os tradutores e professores de línguas. É de uma beleza primitiva explicar a um estrangeiro frases como esta: “Bem, Maria, tens de fazer das tripas, coração!” Experimente-se dizer isto assim corridinho, como em certos filmes muito bem traduzidos por certas almas: “Well, Mary, you must make of your guts, your heart!” ; “Bon, Marie, tu doit faire de tes intestins, ton coeur!” E agora expliquem que esta expressão de transformar as entranhas num orgão sublime significa dar o máximo. Hã?! As tripas são o máximo?! Ninguém entende. Só um português. E talvez só um gajo do Norte.


Outro dos meus exemplos preferidos é o da distância. Vai um inglês a passar ao pé ali do mercado e pergunta se falta muito para chegar ao aeroporto. Todos sabemos como esse pessoal anda a pé que se mata. O português, solícito, diz-lhe “Hey, don’t go by foot, pá (o português diz sempre “pá”), the airport is in cork’s hooves”, que é como quem diz “em cascos de rolha”. O inglês, baralhado, procura logo “cascos de rolha” no mapa do Faial.


Temos também aquelas expressões lindas que envolvem as nacionalidades alheias. Viver muito bem, ou até com excesso de bens, é viver “à grande e à francesa”. Experimente-se explicar a um francês que «Ici, cher ami, on vivre à la grande et à la française». Com este tipo de frases, se criam conflitos diplomáticos extraordinários. Já para não falar da complicação de como seria, no momento actual da nossa conjuntura política, explicar-lhes a todos a frase: “nós cá não damos cavaco a ninguém”...


Claro que as outras línguas também têm frases feitas que nos dão a volta ao miolo. O espanhol, nisto, é fenomenal. Por exemplo: “Vamonos a tu casa cagando leches.” A primeira vez que ouvi esta expressão, fiquei um bocado atrapalhada, pensando como raio produziríamos tal milagre. Mas, afinal, “cagando leches” significa “rapidamente”, para minha tranquilidade.


Depois, há os falsos amigos linguísticos, aquelas palavras que, sendo iguaizinhas em ambas as línguas, têm, porém, um significado completamente diferente. Analisemos o caso de uma portuguesa que namore um italiano. Ele convida-a para jantar. É impossível a rapariga estar descansada: a “manteiga” portuguesa é “burro”em italiano; o “azeite” português é “olio” em italiano, e o nosso “vinagre é “aceto”, para confundir. Só isto torna impossível que se entendam. Já livres da refeição, não pensem que a digestão será livre de agrumos: “suave” em italiano diz-se “morbido” e “seda” diz-se “seta”. Duros golpes para uma rapariga apaixonada cujo conhecimento lexical da língua do outro não é brilhante. E “subir” diz-se “salire” o que pode terminar a noite duma forma inesperadíssima e ninguém sabe como é que aquilo acabou.


Concluindo com uma verdade de La Palisse: a Babel impede que as pessoas se entendam. Devemos deixar de falar e entendermo-nos só por linguagem gestual? Nem pensar. A linguagem gestual também varia de povo para povo. Experimentem pôr as mãos abertas e esticadas à vossa frente, estilo stop, ao falarem com um grego e arriscam-se a levar um murro.


E vamos lá a ser sinceros: a linguagem gestual portuguesa também deixa a desejar – quem é que alguma vez percebeu a lógica da célebre “hum, este arrozito está de trás da orelha” enquanto apertamos a dita? Pois eu também não.

Tuesday, October 30, 2007

A Comunicação - Parte I - Entre Ele e Ela


O grande problema deste mundo é o da comunicação. Quando me vêm com as teorias psicológicas new-wave, dizendo que a falta de comunicação é que a responsável pelas questões de trabalho, pelos mal-entendidos entre amigos e pelos divórcios, apetece-me logo dizer-lhes “Chiu! Calem-se lá! A linguagem é que é a fonte da desgraça!” Ou não é?. Vamos analisar a questão, com o mínimo de palavras possível para não chatear.


Neste mundo, praticamente toda a gente se queixa de ser um incompreendido. Homens que me lêem, todos vós sabeis que as mulheres nisto são mestres. Começando pelo princípio: quando um homem e uma mulher não estão de acordo, ela fala pelos cotovelos (e pelos joelhos, e todas as articulações e poros, enquanto o infeliz finge escutar, se bem que, na verdade, já tenha perdido completamente o fio à meada e ela vai discorrendo sobre o ano em que se conheceram ao invés do problema actual).


Quando a mulher repara, no meio da diarreia verbal, que ele está calado que nem um rato, dispara com “Não dizes nada?” ao que ele responde“O que é que eu posso dizer?”, muito justificadamente porque é impossível responder à metralhadora da boca feminina com a mesma eficácia e rapidez. É, aliás, também por isso, que não há muitas mulheres em lugares de chefia. Os homens têm medo delas como o diabo tem da cruz.


 A mulher, muito infeliz porque não encontra eco, sente-se frustradíssima e diz que ele nem sequer a escuta e que não a compreende. A verdade, porém, é que ele nem sabe porque é que ela fala tanto: “Mas porque é que vais agora buscar essas coisas?” Ela, necessária e justificadamente, quer compartilhar aquelas desgraças todas e acusa-o de não comunicar. Mas o pobre de Cristo, senhoras, não pode com tanto fluxo informativo duma vez só. Bolas, é muito problema a resolver ao mesmo tempo, Maria. Ele nem sabia que vocês tinham tantos assuntos pendentes. “E vamos resolver isso tudo agora? E se fôssemos antes jantar e não se falasse mais nisso?”


Portanto, recapitulemos. Quando o psicólogo new wave vos diz para comunicarem mais e fala no diálogo na vossa união / no vosso casamento e tal, e a partilha de todos os problemas e mais que sim, não vão nessa! O diálogo no casamento é aquele que a gente sabe. Se não conseguirem comunicação eficaz quando estão em silêncio (enfim, mais ou menos...), bem podem esquecer que se vão escutar enquanto desfilam exaustivamente a lista das acusações que têm um contra o outro desde 1980. Aliás, era um bocado sufocante estarem sempre com a história do desgraçadinho e do triste fado todos os dias ao chegar a casa e do molho que se entornou na carpete, não era? Era.


Para além desta problemática, há outra, igualmente interessante. Reparem: quando um milagre de atenção, concentração e esforço louváveis por parte do elemento do sexo masculino (obviamente, sempre em dias de semana e nunca quando o Benfica joga para as competições europeias) os faz realmente escutar tudo o que disse o elemento do sexo feminino, há depois um “rebound” – é como no boxe, portanto. Nesse segundo “round”, verifica-se que a mensagem proferida pelo emissor e a mensagem recebida pelo receptor, inexplicavelmente, não é a mesma, quero dizer, foi espantosamente alterada no espaço de canal que medeia entre os dois. Seguem-se as célebres frases de ricochete: “Não foi nada disso que eu disse!” e “Percebes sempre tudo mal!” ou, em versão dos casais que lêem romances do século XIX, “Deturpas as minhas palavras ao extremo, Miguel!” Podem substituir o “Miguel” por “Maria” – a verdade é que a mensagem dita por um nunca é a mensagem ouvida pelo outro, independentemente do sexo.


Quando a desgraça alcançou este nível, o que é que se pode fazer? Bem, há sempre aquela clássica hipótese que é a de ele sair de casa para desanuviar no café e a de ela fazer um grande berreiro, telefonando para a mãe e para a amiga. Piorou. Porque guardam estas reacções para depois as atirarem um ao outro da próxima vez: “E lembras-te daquele dia em que saíste porta fora... / em que contaste à tua mãe que...?”


Não sendo eu conselheira da revista Maria (ainda existe esta pérola?) nem sendo eu paga principescamente como os tipos das novas seitas, para dar conselhos de rodapé resta-me dizer que o que resulta em momentos de crise, quanto à minha humilde pessoa, é o humor. Trocando por miúdos: alguém parar com a briga, dizendo uma piada qualquer por mais tonta que seja. Tem é de dar vontade de rir. Como o riso é contagioso, a luta pára logo ali e da melhor forma.


Então, e “quem é que ganha?”, perguntam os espíritos mais aguerridos; “e como é que sei se ele/ela me compreende ou não, afinal?” perguntam os mais atormentados. .Bom, isso quando estamos todos a rir, interessa muito pouco, não é? Aliás, a vida é um bocado curta para estarmos com preocupações dessas.

Monday, October 22, 2007

A Carne Mal Passada e os Telhados

As pessoas têm muita dificuldade com isto da liberdade. Todos dizem ser algo a que aspiram, e bem se vê o quanto sofrem quando estão privados dela. Mas não é um conceito que se possa gerir com facilidade, quanto mais uma realidade livre de complexidades.
Mesmo livres, e vivendo em “democratia”,os seres humanos estão amarrados a toda a sorte de coisas. Amarrados inconscientemente - ao seu grupo social ou familiar, à sua terra, à nação. Os laços prendem-nos, sejam eles de sangue, telúricos, afectivos ou convencionais. Amarrados de livre vontade - ou talvez não! – a outros nós, quantas vezes pelos próprios indivíduos criados.
Amarrados ainda a coisas mais fúteis e vãs. Aquilo a que chamam sucesso e que corresponde a poder, a ser reconhecido na rua quando vão na sua cidadezinha, a ter mais notas (nada a ver com dó, ré, mi, já se vê...) do que o vizinho e mais objectos a ganhar pó lá em casa.
Os humanos, na verdade, gostam de estar sujeitos. Gostam desse comodismo de estar presos e, sobretudo, de receber umas ordenzinhas. Isso permite não gastar muito os neurónios, já que obedecer cegamente custa muito menos que agir pela própria cabeça e com alguma criatividade. Ui, criar, isso não! Dá muito trabalho. Que seca! O melhor é sentarmo-nos todos calmamente e dizer que sim a quem tenha tido alguma ideiazita qualquer, por mais tonta que ela seja. Isso sempre nos dá menos que fazer e mostra que somos obedientes. Bons trabalhadores, no fundo. Daqueles que passam o tempo a bocejar, a jogar dominó virtual e a falar ao telefone com a Maria Joana sobre o refluxo gástrico do bebé dela até às 17h30, “sharp”.


Há uma fantástica história sobre a liberdade escrita por Emile Zola, que se chama “O Paraíso dos Gatos”. Conta-nos a vida de um angorá, que vive principesca e vegetativamente em casa de uma senhora, com almofada de penas por cama e carne mal passada ao jantar. Mas tinha uma tal sede por experimentar a liberdade dos telhados que decidiu aventurar-se e ir, finalmente, viver. Passa por muitas peripécias e acaba por escolher voltar para casa, porque a vida não é um risco que ele tenha... como dizer? “legumes daqueles que se põem nas saladas” para enfrentar. Ele sabia que, ao voltar, seria espancado a chicote, mas isso não o desanimou: a vontade de uma existência cómoda e fácil foi maior que o medo da dor e da tristeza dessa prisão sempre igual. Diz o gato:”Gozei imensamente a voluptuosidade de estar no quente e de ser espancado. Enquanto ela me batia, eu pensava, deleitado, na carne que, depois, ela me ia dar.”


 Este pensamento que parece, à partida, tão masoquista e cru é a escolha fundamental de muitos seres humanos, que preferem não a verbalizar, por ser mais fácil ignorar aquilo de que não gostamos nas nossas rotas.


Não pretendo com isto criticar as escolhas de cada um. Até porque, entendamo-nos, juízes só os do tribunal e, mesmo assim, é sempre difícil engolir a ideia de que um ser humano possa julgar outro do ponto de vista ético, ainda que isso seja socialmente necessário para o bom funcionamento da máquina de grupo e tal e etcetera.
 Pretendo só ressalvar que a liberdade, que quase todos elegem como factor determinante para a felicidade, é também aquela de que quase todos abrem mão, consciente e alegremente, em favor de uma vid(inh)a mais cheia de coisas. De haveres. A verdade é que a liberdade não pressupõe pertença, antes a exclui, e as pessoas sentem necessidade de “ter”, seja uma casinha, um emprego estável, um afecto ou amigos por perto.


“Então, não há salvação?”, como dizia a minha avó, ou, por outras palavras, “não se podem conjugar a carne mal passada e os telhados?”, perguntaria o gato do Zola. A resposta é: eu não faço ideia (ao contrário dos juízes, que sabem sempre tudo). Mas a minha intuição é que sim, “é possível ser livre e ter algo”. Basta mudar um pouco a nossa rígida percepção das coisas, tanto do ter como da aventura.


Afinal, basta pensar que a liberdade consiste em viver exactamente da maneira que queremos. Já vejo as cabeças a levantarem-se e os cantos da boca a rirem de mansinho e a pensarem “Isso é que era doce! Olha como se a gente pudesse viver da maneira que quer... Eu bem gostava de ter um BMW / de fazer um curso de meditação na Birmânia / de conhecer a Giselle Bündchen.” e outras aspirações assim elevadas. Bom, viver é escolher. O difícil, realmente, é fazer a escolha dentro das circunstâncias que temos.No entanto, visto pelo prisma da simplicidade, torna-se descomplexo: basta escolher, em qualquer ocasião, o que nos torna mais felizes naquele momento. Até porque nada é para sempre.



Wednesday, September 19, 2007

As Pessoas que Mandam Nisto


Há algumas crónicas atrás, falei da minha saga com os mecânicos. Os espíritos mais  elevados perceberam a minha análise das pessoas que realmente mandam neste território. Sim, a ideia de que são os governantes que mandam é muito relativa. É por saber isso mesmo que a maior parte das pessoas não vai votar (vide nível de abstenção em quase todas as últimas eleições, sejam elas municipais, presidenciais ou o que forem). Quem realmente manda são aquelas pessoas que têm determinados poderes que nós, tristes seres que ficamos embasbacados a olhar para eles e a pedir “por favor não me arranja isto até ao meio-dia?”, nós não temos. Essas pessoas realmente poderosas estão inteiramente conscientes de que têm o resto do mundo na mão. Há um risozinho de triunfo na maneira como nos olham de lado, um esgar ligeiramente superior no modo como ajeitam os óculos e fungam antes de dizerem “por acaso, não vai ser possível”. Por acaso. Reparem no pormenor. Se tivessem acordado bem dispostos, talvez até tivessemos sorte.


Entre estas pessoas realmente poderosas da nossa sociedade contam-se os senhores das Finanças, as meninas das companhias aéreas (porque é que são quase sempre mulheres? é requisito preferencial?), os técnicos de informática, o pessoal das companhias de telemóveis, os polícias de trânsito e demais fauna policial, os porteiros das discotecas e os taxistas. Isto só para referir alguns. Há uma data de etcetera, mas não vamos agora meter-nos a fundo nisto, até chegar aos médicos e aos padres, por exemplo (ui, aí é que tinha mesmo piada!). Desiludam-se os advogados, porque já lá vai o tempo em que mandavam alguma coisa. Agora, na generalidade, falta-vos engenho.


Se julgam que estou a brincar, pensem na maior parte dos vossos dias. Imaginemos um dia normal: um tipo chega ao trabalho e os computadores não funcionam. O técnico de informática diz:”epá, não sei o que se passa!”. Seguindo o bom e velho esquema da tuguice, fica tudo a bezerrar até que ele resolva o assunto, porque, enfim, não há computadores (como é que se trabalhava há dez anos é um mistério para todos, incluindo para a Maria que não sabia trabalhar com computadores há dois anos!). O técnico decide que, uma vez que o pessoal está todo dependente dele, bem que pode ir tomar um café ou dois. Raras vezes se tem uma tal sensação de poder, caraças.


Entretanto, telefona o senhor da TMN (da Vodafone, se quiserem). Como telefonam sempre de um número que a gente não descodifica nem à lei da bala, acabamos por atender. Erro. Depois de um questionário sobre mil serviços que nunca utilizámos, “oh senhor, eu estou com pressa!”, ele quer vender-nos um pacote muito interessante a preço super para “si, cliente especial”. Mas eu agora não posso atender. Volto a telefonar ao atendimento de clientes no dia a seguir, quando tenho tempo, mas a treta da promoção de um telefone por metade do preço e mensagens grátis era só ontem. Pffff! Mas volte sempre, “até já” (dou um bombom a quem me explicar porque é que se despedem sempre com “até já”; eu não estou interessada em voltar a ouvi-los já).


Depois, vamos a correr tratar da nossa vidinha. Somos apanhados pela polícia porque íamos chocando de frente com a viatura policial. “A senhora estava distraída?”(Os polícias, amavelmente, perguntam sempre. Pode dar-se o caso de eu querer mesmo chocar contra o carro deles e desfazê-los, suicidando-me em grande estilo também). Explico toda a minha vida, o porquê de estar com pressa e da minha distracção. O polícia exclama“Ahhhhh!” compreensivamente. Chama o colega (andam sempre aos pares, como na TV) e eu explico tudo outra vez. São amáveis, gentis, cavalheiros. Levo com multa. Perdi 40 minutos. Detesto fardas.


Lá consigo chegar às Finanças. Depois de duas horas e meia de espera, contribuindo para que me rebentem as veias das pernas e algum aneurisma, a senhora, com uma boa disposição só comparável à de uma mosca ao ver o frasco de DumDum, diz-me que faltam os documentos X e Y. “Porque é que não me avisou quando estive cá ontem? É que assim já vou ter de pagar multa, porque o prazo é hoje!” A senhora diz que eu me devo ter esquecido. Sim, eu estou interessada em dar ao Estado mais 100 euros de minha livre e legítima vontade. Sim, sim, devemos dizer sempre que sim porque nunca se sabe quanto mais se podem irritar... e quem paga a frustração é a nossa carteira.


Depois, apanhamos um táxi a correr para ir para o aeroporto. O taxista cobra-nos mais não sei quanto pela bagagem, e mais não sei quanto porque é de tarde e mais não sei quanto porque temos um animal dentro de uma caixa. Vai a pisar ovos e eu com pressa. Relata-nos as agruras do Benfica, enquanto a rádio toca a Ruth Marlene em altos berros e a rádio táxi vai guinchando de vez em quando.”É um problema isto do Scolari”. Na verdade, o maior problema para mim, neste momento, é a Ruth Marlene.


Ruth Marlene devia ser o nome da menina da companhia aérea. Não era mas ficar-lhe-ia bem. Há um erro de sistema. Ok. Já consegue entrar no sistema. Fixe. Não consegue encontrar um passageiro chamado Cook. Interrogo-me se é a primeira vez que ela faz isto. Já encontrou. Não sabe fazer não sei o quê que me escapa. Chama a colega (também andam sempre aos pares, curiosamente, mas no caso presente, graças aos céus). Não sabe o que fazer com o gatinho. Explico-lhe (como se fosse minha função saber, mas enfim...) Lá consigo ter um talão de excesso para o bicho e um de embarque para mim – era giro se fosse ao contrário, não era?!


Já noutro local, decido ir espairecer deste dia. À porta da bendita da discoteca, o porteiro diz-me que não posso entrar porque estou de ténis. “Devia vir de salto alto?” Ele responde que não deixam entrar pessoas de ténis e ponto final. E não há volta a dar. Viro costas e cara alegre, que isto é só para moças com ar de quem trabalha na Côte d’Azur.


Gostaria de finalizar esta crónica, assegurando a todos que adoro a Humanidade. Mais ou menos como a Madre Teresa a adorava e o Dalai Lama a adora. Isto é: quanto mais se puder fazer por ela, melhor. E quanto mais longe se estiver dela, melhor ainda.