... "And now for something completely different" Monty Python

Wednesday, April 23, 2008

Os Amigos e as Amigas

Na nossa cultura (está bem, pronto, em todas as culturas), é muito complicado uma mulher e um homem serem só amigos. Quero dizer, serem só amigos, realmente amigos, amigos a sério. Isto sem que o resto do mundo pisque o olho uns aos outros quando os vê a tomar café todos os dias e não dou duas semanas para que não esteja aí feito um grande rumor sobre o bebé que já vem a caminho.

E então? Podia fazer aqui um texto acerca de como as pessoas são mesquinhas, como pensam sempre no mais óbvio (sendo óbvio diferente de verdadeiro) e não dão importância aos sentimentos elevados - a amizade a sério, e não há amizades que não sejam a sério, é uma espécie de amor sem componente sexual -, em como é sufocante estar sempre a reboque do que pensa o pai, o vizinho, o barman, o outro amigo que temos e a senhora que vende fruta. mas, realmente, o problema está na cabeça de cada um.

Grande parte dos meus amigos são homens. É de notar que a maior parte das mulheres diz o mesmo. Entre a maior parte das mulheres - ressalvo a maior parte, porque tenho aí umas sete amigas por quem saltaria para o meio da fogueira - há uma espécie de agressividade latente. Enquanto os homens se cumprimentam com genuíno entusiasmo com grunhidos monossilábicos como "Uôp!", mesmo que não se tenham em grande conta, as mulheres cumprimentam-se com um sorriso mas fazendo "Grrrr" entredentes. Há um rotweiller em portência em muitos espíritos femininos. No geral, as mulheres não gostam umas das outras e isto, muito simplesmente, porque ninguém em seu perfeito juízo gosta dos seus directos rivais. As mulheres têm-se nessa conta. Dizem á boca cheia das outras mulheres que elas são interesseiras, cheias de esquemas e más peças, no geral. Isto vindo de quem tem conhecimento de causa em termos de género não abona muito a nosso favor, convenhamos...

Na verdade, qual é o problema subjacente? É a questão da lealdade. Vamos deitar uma olhadela às variantes possíveis.

Na amizade homem-homem podem faltar muitas coisas, mas lealdade e cerveja nunca faltam. Por exemplo, à mente de um homem jamais, em caso algum, vem a ideia que o seu amigo do peito possa deitar o olho (e muito menos estender a mão e, de caminho, apertar o resto do corpo) à namorada dele. Já na amizade mulher-mulher, uma delas admite sem custo que a sua amiga da alma possa fazê-lo ao namorado dela porque "conhece a psicologia e sabe do que a casa gasta". Perguntando a esta mulher o porquê, ela não dirá que é desconfiança, não! Dirá uma desculpa sem sal: que a carne dos homens é fraca (coitados... e pensar que gostamos deles... será do acompanhamento? enfim, adiante) e que as mulheres (grupo do qual ela se exclui automática e airosamente, desprezando essas criaturas ignóbeis e amorais) levam qualquer um à perdição. Os homens, pelo contrário, acham que as namoradas dos amigos são, automaticamente, intocáveis (desconfio que assexuadas) mesmo que antes lhes achassem piada. E isto porque, no modo de pensar masculino, aquela mulher passa a ser parte do amigo deles, da mesma maneira que as outras manias que ele tem, como ter peixinhos de aquário, discos de jazz ou velejar aos fins de semana. E, para estes senhores, a posse não é uma coisa desprestigiante.

É também (mas não só) por esta razão que os homens gostam de apresentar a namorada aos amigos; automaticamente, está a dizer à malta que aquela ali é a rapariga dele e os restantes machos ficam inibidos de lhe sequer pensar em lhe tocar - ou, se pensam, ficam-se mesmo só por aí segundo o código da lealdade. Os homens, nestas coisas da amizade, são seres mais simples. Eu, aliás, acho que são seres bem mais simples que as mulheres em quase tudo, sem que daí advenha vantagem nem desvantagem para os ditos nem para nós.

As mulheres têm, à partida, uma enorme desvantagem: regra geral, têm uma língua de serpente ao falarem umas das outras. Por pior que um homem fale de uma mulher, raramente alcançará tanta mestria como uma mulher a destilar veneno sobre outra, Mais de metade das vezes, os homens (por descaso ao pormenor, dado que o que lhes interessa é a imagem de conjunto) não reparam nos detalhes em que o espírito feminino repara. As mulheres, porém, revistam tudo umas sobre as outras, nem que tenham apenas olhado pelo cantinho do olho. E depois rotulam. Também o fazem em relação aos homens, mas com eles são mais meiguinhas na apreciação, porque "é homem, coitadinho, não tem culpa de ser assim..." Na verdade, as mulheres acham que governam tudo e que dão aos homens a ilusória sensação de que o comando e as ideias são deles. Eh eh eh. Há nisto alguma verdade, porquanto todos sabemos que a escolha final depende sempre de uma mulher desde que um homem não abuse da força.

Mas voltemos à vaca fria (expressão que continuo a não perceber e agradeço que ma expliquem; se alguém souber é favor mandar esclarecimento, por favor): a amizade entre um homem e uma mulher. Será que é tão difícil apenas e só porque a comunidade acha que não é lá muito "normal" que sejam "só" amigos? Na verdade, não é só por causa disso. Os homens também estão convencidos que, sendo eles homens, têm obrigação de, pelo menos, tentarem ser mais qualquer coisa do que só amiguinhos para café e cinema e passeios de barco. Por outras palavras, é preciso passarem à verdadeira acção. Por seu lado, as mulheres, quando verdadeira e realmente, só querem ser amigas deles (o que não é sempre linear, ah pois não, e aumenta a confusão!) ficam muito escandalizadas quando eles lhes propõem outra perspectiva.

... E será assim tão criticável? Vamos a ver: na verdade, senhoras, é perfeitamente possível grandes e profundas amizades onde não haja sombra de atracção. Mas também existem aquelas onde ela está presente. No último caso, há duas hipóteses: podem resolver o assunto e ficarem grandes amigos depois (se bem que também há a possibilidade de não se poderem ver se a coisa correr mal ou de se quererem ver a toda a hora caso corra mesmo bem) ou ignorarem o facto de que sempre que falam nos respectivos amores ficam os dois terrivelmente ciumentos e empatas.

Claro que é simpático viver uma amizade onde uma pessoa não tem de se preocupar com nada destas chatices sentimentais e pode estar ali como está com os seus irmãos, na pura. Mas se se souber gerir, elegantemente, os vários suores e palpitações que advêm de se estar atraído(a) por um amigo(a) não é de todo mau; é diferente. O que importa, na minha perspectiva -que é, nem mais nem menos, do que aquela de quem não percebe nada disto! - é que a amizade nunca se perca. Porque, afinal, todos os amantes são também amigos. Ou deveriam ser.






Thursday, April 17, 2008

Ódios de Estimação

Quando era muito mais jovem (e posso dizê-lo plenamente porque sou trintinha e, portanto, faz todo o sentido dizer estas frases sobre a adolescência suspirando com fingido pesar) fazíamos umas listas muito engraçadas sobre os nossos amores de estimação. As listas tinham coisas tão díspares e essenciais à vida como "caminhar à chuva", "enroscar-me no sofá quando chego a casa", "morangos", "o rapaz da terceira casa a contar da esquerda quem sobe a rua", ou "gupis". Até que um dia, uma de nós se lembrou de fazer a lista dos ódios de estimação e a vida não mais foi igual. Chegámos à conclusão que o ódio também era essencial. De facto, para algumas de nós era fonte sustentável de vida, uma espécie de versão repugnante da paixão. Iargh. Horrível, não é? Mas lá que era assim, era.

Explico melhor: há aqueles para quem um odiozinho por outro alguém é profundamente acarinhado, muitas vezes por pormenores irrelevantes - a maneira como ele descasca a fruta (para já, porque é que tira a casca da maçã quando seria muito mais normal e saudável comê-la, esse snob de treta!), os foulards pirosérrimos que usa (giros caso fossem usados por outra pessoa, claro está), a maneira como ajeita "aquele" cabelo, os trejeitos que faz e as piadas que conta. Meu Deus, como é possível que mais ninguém repare nestes atentados sociais?

As pessoas que alimentam odiozinhos não procuram fugir deles. Antes fazem de tudo para encontrar o seu desamor, para poderem fazer aquela catarse e despachar-se dos seus maus fígados num indivíduo que escolheram a dedo. Adoram dar de caras com ele (casualmente, já se vê...) para poderem coleccionar mais umas quantas razões, inteiramente justificáveis, para melhor e mais largamente o odiar.

O mais curioso é que quando lhes perguntamos porque é que não gostam de determinada pessoa (construção verbal muito suave a que logo retorquem "Não gosto?! Eu não posso com esse gajo!"), não conseguem encontrar uma razão plausível. Até admitem que ele possa ser "um bom tipo, faz algumas coisa generosas, mas eu cá tenho-he um pó!", o que é ainda mais extraordinário. A quantidade de pessoas que odiava a Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, é flagrante. Até houve um senhor que se deu ao trabalho de escrever um livro com todos os pequeninos podres que encontrou sobre ela, a que chamou, muito sugestivamente, "The Missionary Position".

Conclui-se que os odiozinhos não são, de modo algum, baseados na racionalidade ou naquilo que nos fizeram. O odiado não tem culpa alguma no cartório na maior parte dos casos. Os ódios garndes - logo, não estimáveis, mas sim aqueles que nascem das entranhas, vulgarmente confundidos com medo - não são para aqui chamados porque, obviamente, advém de causa justa (o que é sempre difícil de determinar, mas existe na cabeça de quem o sente, pelo menos).

É muito curioso ver que os odiozinhos de estimação ocupam imenso do tempo livre de quem os tem. Aliás, estou convencida que quanto menos tempo há para as paixões, mais há para os ódios, mas esta teoria é inteiramente pessoal e subjectiva, porque na minha lista de ódios só havia "ganchos no talho com carne de porco pendurada", "todas as formas de hipocrisia" e "ser obrigada a dizer que estou a divertir-me quando não estou e que gosto quando não gosto". Pensei incluir o professor de Filosofia mas depois achei que não, porque era muito claro que ele me odiava a mim e a quase toda a gente, sendo certo que todos o odiavam. Não fazia sentido. Outra coisa importante sobre os odiozinhos é esta: é quase impossível nutri-los por alguém que sente algo do género por nós. Um odiozinho não é uma retribuição. É algo inato, que nasce da embirração pura. Muito naturalmente, diga-se.

Para que servem os odiozinhos, para além da óbvia função de fazerem quem os destila catalizar os seus maus sentimentos todos para uma criatura única? Bom, do ponto de vista orgânico causam a quem odeia uma data de problemas  porque lhe sobem a tensão arterial, a angústia e, em casos mais graves, conduzem a uma tal revolução que quase estamos perante uma pré-paranóia. Socialmente, também servem para que o odiado seja valorizado. Afinal, está-se a atribuir-lhe suficiente importância para lhe dedicar tanta energia e tempo (não interessa se positivo ou negativo). De facto, o contrário de uma paixão seria a indiferença e não o ódio, como todos sabemos. Mas essa história é outra...

Resumindo: um odiozinho de estimação poderá até nascer, mas o melhor é dar cabo dele pela raiz. Bom mesmo é gastar o nosso tempo, que é tão pouco, com a primeira lista.


Tuesday, February 12, 2008

O Amor Totalitário

Visto que chegámos outra vez àquela época do ano lamechas dos coraçõezinhos nas montras comerciais, vamos lá falar desse fogo que arde e que se vê - o ciúme.
De entrada, digo já que não sou ciumenta para além do que se crê normal num ser humano que ama, ou seja, obviamente que acho que todos os outros seres humanos só podem estar secretamente apaixonados por aquele de quem eu gosto e a partir daí observo-os atentamente e com total desconfiança. E ele, o meu amor? Pois ele, naturalmente, que é incapaz de desejar outra mulher que não eu e é por saber que ele nem levanta os olhos para mais nenhuma das presentes nem imagina coisa alguma com as ausentes que eu o trago completamente debaixo de mira. Sem que ele perceba, claro está.
É muito importante, aliás, que ele não perceba nem sonhe. Se desse por isso, era capaz de lhe dar uma ânsiazita de evasão. Cruzes credo! Eu quero é que ele fique aqui amarrado de tal forma que só eu saiba desfazer o nó.


Afinal o que é o ciúme? O ciúme é aquele medo enorme e incontrolável de que a outra pessoa nos fuja. Uns ciúmes moderados, assim uma pontinha, como quem polvilha de especiarias um prato, até podem ser considerados uma coisa bonita, um picantezinho extra.  Algum de vocês imagina relação mais aborrecida que aquela em que sabemos que o nosso amor está completamente apanhado e não foge? Só se for aquela em que  sabemos que estamos completamente enfadados dele, porque já não há mais nada a descobrir. De qualquer modo, não exageremos. A pior coisa que se pode fazer neste mundo de afectos será instaurar o regime fascista do controlo absoluto.


Então, como é que se pode fazer uma elegante gestão da liberdade desse ser amado a quem apetece envolver entre os nossos dedinhos? Boa pergunta. É tanto mais boa pergunta quanto eu nunca, jamais, em caso algum suportaria que alguém me limitasse coisa alguma. Recorrendo aos sábios conselhos da minha avó, dir-vos-ei que todo o controlo deve ser como o dos Serviços Secretos.


O ciúme pressupõe a presumível existência - na grande maioria das vezes, apenas fantasiada pela imaginação delirante e ciumenta - de casos de infidelidade. Porém, caros amigos ciumentos, nunca houve tão pouco motivo para preocupações como hoje em dia.


Como diz um grande amigo meu, já não há boas infidelidades porque já ninguém perde a cabeça. Daquelas à Eça de Queiroz em que as mulheres arriscavam o casamento e os homens a posição social (o contrário jamais se verificava e dois séculos depois ainda é assim a regra geral), nas quais havia um sentido trágico e delirante, tipo ópera La Traviata . Hoje não. Alguém seria capaz de hoje arrumar a sua mala de roupinhas e fugir com o amante, sabendo que nunca mais seria olhada de frente na rua quando antes servia chá com bolinhos à alta sociedade? Nem pensar. Isso era no século XIX. Hoje somos pessoas sérias. Quando há demasiada paixão no ar, tomamos Xanax para acalmar. Jamais rolarão pescoços. Estão presos pelas gravatas deles e pelos colares de ouro delas.


Resumindo: hoje, apesar de toda a gente dizer que a sociedade livre oferece mil e um perigos e blablabla, é só conversa. Entenda-se o “só conversa” literalmente. Descansai as vossas almas, amiguinhos do ciúme de faca e alguidar de sangue. Nunca há-de a conversa chegar a vias de facto, porque hoje as pessoas não estão para adultérios. O pessoal respeita muito o mandamento sexto da Nova Lei de Deus, que é como quem diz “Não darás motivos para que fale de ti a tua vizinha”.  Se bem que o castigo não seja perder o Paraíso (porque no Inferno já nos encarregaríamos de o fazer cozer em fogo brando e continuado), aproxima-se muito do bom e velho antigo apedrejamento em via pública. Seria preciso muita ópera e sentimento para levar avante um amor anti-social. Convenhamos que com coraçõezinhos “I love you” não vamos lá.


Então, para terminar, e recorrendo de novo à minha sábia avó, um conselho de pacote para a brigada do ciúme: é preciso fazer o outro ter pena. “Tu nunca gostaste de mim”; “Eu sou tão infeliz e desesperado(a) sem ti”; “Eu que sempre me dediquei ao nosso amor”; “Sabes que o facto de ter estado com outra (o) não significa nada, porque só me lembrava da tua cara...”; “Eu sou capaz até de perder a vida se me deixares”. A culpa move montanhas nesses espíritos sensíveis que um dia gostaram de nós. Os infelizes.


E, para não desmoralizar o outro lado, outro conselho de pacote, recorrendo ao meu sábio avô, para a brigada dos infiéis: existe sempre a filosofia do compensa. Ou seja, se estou a ser infiel a quem estou legalmente ligado, por outro lado estou a  ser fiel a quem estou afectivamente ligado (se, dramaticamente, não calhar serem a mesma pessoa,...). Pois, vendo bem, compensa. Faz-me feliz. Que se lixe.


Finalmente, a pedra de toque inventada pelas espertalhonas das mulheres: há uma ideia muito em voga nas cabeças masculinas (tradicionalmente ciumentas e infiéis, embora nem sempre acompanhadas pelo resto do corpo) que é a de que os homens continuam a trair muito mais do que as mulheres, enquanto essas cândidas e sofridas criaturas ficam em casa carpindo as misérias de estarem a ser traídas. Isso é que era, senhores. Se os homens traem e as amantíssimas e sofredoras mulheres se retraem, com quem, ao certo, é que os homens se divertem?

Friday, January 25, 2008

“Ai, Paciência, Meu Deus!”





N.B.: Este texto foi revisto e alterado para ser publicado na edição do dia 29 de Abril de 2011 no jornal Açoriano Oriental.





Estava eu a conversar com uma rapariga da Lituânia que tem uma paixão desmedida por Portugal e vai daí ela perguntou-me porque raio num país como este, bem fornecido de sol, de temperaturas amenas, de bonitas paisagens, de gente (mais ou menos) calma  e sem fomes nem misérias de maior na sua generalidade, os portugueses estavam sempre a suspirar e a dizer “Ai, paciência!”.


Eu cá nunca me tinha dado conta que recomendávamos tanta paciência uns aos outros e, ademais, éramos tão plenos de suspiros! Mas é bem verdade. A mais comum das exclamações é mesmo capaz de ser esta, exceptuando outras que, embora não seja de bom tom eu escrever no jornal são, paradoxalmente, as mais ouvidas na rua e das primeiras que qualquer estrangeiro aprende se quiser sobreviver em 70% dos ambientes de trabalho lusos.


Atacando o assunto: porque precisa o português de tanta paciência, sincopadamente suspirada? Eu também não sei!
Confesso, porém, que este hábito já vem de trás... Já a minha bisavó era amiga deste dito. Daqui concluo que o tão apregoado pessimismo português (repare-se que muito  pessoal até diz “festa de fim de ano” e nunca “festa de princípio de ano” semanticamente tomando uns copitos pelo ano que passou e não pelo que há-de vir!)  nem é bem pessimismo – é uma espécie de amortização da queda. Afinal, o português até quem consciência que vive no “melhor dos mundos possíveis”, como apregoava Leibniz. Simplesmente, de vez em quando lá aparece uma pedrinha no caminho – nada que um espírito navegante e conquistador como o nosso não resolva com meia dúzia de suspiros e caldos de paciência.


Outra coisa que muito gostamos de fazer é chamar por Deus. Mas na base da confiança! Raros povos alcançaram um tu-cá-tu-lá com o divino como nós. Enquanto que, por exemplo, os espanhóis têm tanto respeitinho a Deus que, só de pensarem nele intensamente, há centenas de espanhóis que sofrem de stigmatae (vulgo, estigmas, aquelas feridas sanguinolentas e absolutamente inexplicáveis), os portugueses são tratados por Deus na pura, que é como quem diz, na maior descontracção. Os irlandeses, coitados, passam agruras do demo por quererem praticar a sua religião. Os portugueses estão sempre na boa e contam-se pelos dedos os fiéis. Há pessoal nas Filipinas que se esfola todo para demonstrar a Deus que sofre por Ele, tal como Ele. O português não está nem aí para demonstrações de nenhuma espécie. O português acha que se alguém tem de demonstrar alguma coisa é Deus, não é ele. Mas, verdade seja dita, não se chateia se a demonstração levar anos ou mesmo não acontecer porque temos tempo... e sol e temperaturas amenas (vide primeiro parágrafo). Em suma: somos um convite à lazeira.


Assim, apesar de não darem troco nenhum a Deus, não é raro ouvir os portugueses chamar pela mãezinha d’Ele: “Oh Virgem Maria!”, ou outros de Sua proximidade “Ai santa Bárbara! Que escuridão”, etc, revelando uma clara familiaridade com as entidades celestiais. Eis a minha exclamação favorita: “Oh Jesus Cristo! Anda cá abaixo ver isto!” que, não só rima, como é uma espécie de invocação imperativa que sujeita o pobre Jesus  a ser humano e a passar por aquelas desgraceiras todas outra vez.


Mesmo os ateus e os não-católicos (como eu) se saem às vezes com frases destas. Aqui, não é preciso uma epifania para entender o porquê: é que ninguém tem bem a certeza (excepção honrosa feita ao meu irmão) de haver ou não Reinos que não sejam deste Mundo – perdão, João de Melo. Assim, o português arranjou um truque fixe que é o de tratar Deus como um amigalhaço, na onda cool e tal, porque, assim, se Ele não existir não fez figura de parvo a dedicar-se-Lhe e se Ele existir, o tuga já fez o seu papel. Tudo salvaguardado.


Os próprios ateus (com raríssimas excepções) costumam dizer que “não acreditam em Deus mas numa entidade superior que nos criou” o que é a mesma coisa que um oriental dizer que não acredita no Buda mas admite a existência de um manda-chuva gordo e careca, sentado à chinês...


Senhores, resolvam-se. No sítio. Senão, é preciso vir Jesus cá abaixo ver isto. Até que se resolvam, a gente vai ter muita, muita paciência... (suspiro!).  


Thursday, November 29, 2007

A Comunicação - Parte III - Entre Pais e Filhos

Quando esta relação começa, a geração mais velha está em vantagem porque a mais nova, pura e simplesmente, não sabe falar. Além disso, regra geral, são os pais que ensinam os filhos a falarem, após tentarem, sem qualquer sucesso, comunicarem com eles através de “gugu, nhánhá, pschtiii” e outras baboseiras, acompanhadas de gestos exagerados que nenhum ser que não seja pai de um bebé, palhaço ou domador de focas faz.


Depois de terem ensinado aos filhos a sua linguagem, os pais arrependem-se amargamente e haverá muitos momentos num breve futuro em que hão-de desejar tê-los mantido sem acesso à reinvidicação verbal. Como já antes salientei (ver “A Comunicação, Partes I e II, sff), a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Tão só. Mas como não temos outra coisa  - já quase ninguém sabe código Morse e custa bastante fazer sinais de fumo num clima tão húmido – lá vamos falando...


De facto, em breve, as criancinhas que antes choravam para fazer entender que tinham dores de dentes, fome ou pura birra, agora querem explicar as suas razões. Convenhamos que, para a maior parte dos pais, as razões não interessam nada, desde que pare o berreiro. Ou não é verdade que cada vez há mais criancinhas mal-educadas batendo o pé na rua e rivalizando em competência sonora com as sirenes dos Bombeiros porque querem os chocolates e as Barbies e um telemóvel de brincar (Santo Deus!) ? É. Isto tudo numa saída normal de compras ao sábado de manhã. Nem imagino o que pedirão no Natal.


Estes insuportáveis espécimes que não raro nos pespegam pastilhas elásticas no cabelo mas que são, segundo o cliché, “o melhor do mundo” não têm culpa nenhuma de ser assim. A culpa é de outra espécie muito em voga que (não) toma conta deles, denominada “os pais que não querem ter chatices”. Estes pais fabulosos são muito amigalhaços dos filhos, que consideram crianças hiper-activas (outro conceito muito giro e que, hoje em dia, se aplica a quem se mexe um bocadinho mais do que seria desejável e mesmo até a quem se mexe saudavelmente, para aqueles pais hiper severos que têm as casas como se fossem museus, cheias de coisas inúteis e anti-criançada como porcelanas, pratas e jarros sem flores).


Na infância, há também uma fase de comunicação usualmente chamada “idade dos porquês” que irrita muito os progenitores. Este momento da vida deveria antes orgulhá-los pois nunca na existência os filhos voltarão a perguntar-lhes os porquês deste mundo, pela simples razão que não mais voltarão a acreditar que os pais são assim tão sábios.


Na verdade, ao passarem à adolescência, os filhos entram em cheio noutro momento, diametralmente oposto, no qual consideram que os pais, embora geralmente até sejam gajos porreiros, estão um bocado ultrapassados e, portanto, não vale a pena perguntar-lhes nada porque os infelizes cotas já não têm estaleca para tanto. Os próprios pais, nesta altura, vêem–se muitas vezes na situação de ter de pedir favores aos filhos, geralmente de ordem tecnológica: “Ó Rodrigo, será que podes explicar ao pai como é que funciona o blackberry que a empresa me deu?” Tirando estes momentos e os grunhidos monossilábicos com que os filhos respondem aos pais à pergunta “Está tudo bem?”, não há muito mais a dizer quanto à comunicação.


Já na vida adulta, há um desconcertante momento no qual os pais e os filhos estão, por assim dizer, activos e independentes. Como já não falavam há vários anos, não se lhes ocorre nada que possam dizer. É por isso que os avós e os netos são tão importantes nas festas de Natal e outras que juntam as famílias. Na falta de avós e ranchos de criancinhas que façam berreiro, convém ter uma televisão. E comida, claro, porque com a boca cheia as pessoas têm uma desculpa para não falar.


Segue-se, depois, a última fase, que depende do modo como as coisas se passaram na primeira. Quando os pais ficam velhotes e, logo, dependentes dos filhos (seja económica seja fisicamente por questões de mobilidade ou doença), não há filho que não se lembre da sua infância e um sentimentozinho muito humano de “olho por olho, dente por dente” renasce no mais terno e menos vingativo dos seres. Por alguma coisa, a Santa Casa da Misericórdia é a instituição mais rica de Portugal.


E assim termina este ciclo, no qual, como se viu, não é possível pôr grandes culpas na comunicação, dado que ela está cheia de fragilidades. A culpa (palavra feia!), não parece, porém, estar nestas coisas das ligações genéticas, porque, como diz Deborah Tannen, da Cornell University, “a razão pela qual as mães e as filhas não comunicam bem é porque ambas são mulheres.” Pronto. Melhor, só o Freud. 


Thursday, November 15, 2007

A Comunicação - Parte II - Entre os Povos


Outra coisa fenomenal sobre a comunicação são as diferentes línguas, claro. Sempre foi um tema fascinante para mim, não sei se por ser bilingue e depois ter aprendido outras línguas - o que me deu muito jeito, na vida pessoal e profissional; todavia, só me veio confirmar que ninguém se entende, até porque as línguas reflectem seguramente uma questão cultural e não raro também um ambiente.


Um exemplo prático quanto ao ambiente: o ano passado, vivi num país muito frio e foi a primeira vez que me vi envolvida em nevões e que tive de tirar a neve com uma pá da frente da porta para poder sair, muitas vezes diariamente. Antes disto, nunca tinha sequer tocado em neve. A primeira vez que me caíram uns flocozinhos em cima, fiquei numa excitação tremenda, e, muito prosaica e infantil como só um ser humano perante as sensações novas, comecei a dizer: “It’s snowing! It’s snowing!”. A minha colega de trabalho levantou a sobrancelha por cima do seu olho azul direito, dizendo-me “It’s not snow, Carla. It’s flurries.” Após uma semana, já eu tinha percebido a diferença entre a “verdadeira neve” e as “neves ligeiras” - impossível de traduzir melhor isto para português, porque não temos necessidade de mais do que uma palavra para o conceito de “neve” num país onde a mesma é rara e quando ela aparece não tem tantas variações que impliquem outras tantas palavras a condizer. Dizem-me que os inuits, que vivem no extremo norte da Terra, têm mais de cem palavras para definir os tipos de neve. Logo, língua equivale à nomeação do que me rodeia. Se algo não existe na minha realidade, nunca sentirei a necessidade de ter uma palavra para esse conceito.


Quanto à parte antropológico-cultural, idem aspas: mesmo se eu for uma barra em hebraico mas não tiver a sua vivência, sou muito capaz de não entender porque raio têm os hebreus determinadas questões religiosas e culturais, e logo nunca hei-de interiorizar realmente porque carga de água o verbo “yodea” significa igualmente e sem distinção, “amar” e “conhecer”.


O facto de falarmos diferentes línguas levanta, ainda, outra problemática: as expressões idiomáticas. Estas miseráveis são o quebra-cabeças de todos os tradutores e professores de línguas. É de uma beleza primitiva explicar a um estrangeiro frases como esta: “Bem, Maria, tens de fazer das tripas, coração!” Experimente-se dizer isto assim corridinho, como em certos filmes muito bem traduzidos por certas almas: “Well, Mary, you must make of your guts, your heart!” ; “Bon, Marie, tu doit faire de tes intestins, ton coeur!” E agora expliquem que esta expressão de transformar as entranhas num orgão sublime significa dar o máximo. Hã?! As tripas são o máximo?! Ninguém entende. Só um português. E talvez só um gajo do Norte.


Outro dos meus exemplos preferidos é o da distância. Vai um inglês a passar ao pé ali do mercado e pergunta se falta muito para chegar ao aeroporto. Todos sabemos como esse pessoal anda a pé que se mata. O português, solícito, diz-lhe “Hey, don’t go by foot, pá (o português diz sempre “pá”), the airport is in cork’s hooves”, que é como quem diz “em cascos de rolha”. O inglês, baralhado, procura logo “cascos de rolha” no mapa do Faial.


Temos também aquelas expressões lindas que envolvem as nacionalidades alheias. Viver muito bem, ou até com excesso de bens, é viver “à grande e à francesa”. Experimente-se explicar a um francês que «Ici, cher ami, on vivre à la grande et à la française». Com este tipo de frases, se criam conflitos diplomáticos extraordinários. Já para não falar da complicação de como seria, no momento actual da nossa conjuntura política, explicar-lhes a todos a frase: “nós cá não damos cavaco a ninguém”...


Claro que as outras línguas também têm frases feitas que nos dão a volta ao miolo. O espanhol, nisto, é fenomenal. Por exemplo: “Vamonos a tu casa cagando leches.” A primeira vez que ouvi esta expressão, fiquei um bocado atrapalhada, pensando como raio produziríamos tal milagre. Mas, afinal, “cagando leches” significa “rapidamente”, para minha tranquilidade.


Depois, há os falsos amigos linguísticos, aquelas palavras que, sendo iguaizinhas em ambas as línguas, têm, porém, um significado completamente diferente. Analisemos o caso de uma portuguesa que namore um italiano. Ele convida-a para jantar. É impossível a rapariga estar descansada: a “manteiga” portuguesa é “burro”em italiano; o “azeite” português é “olio” em italiano, e o nosso “vinagre é “aceto”, para confundir. Só isto torna impossível que se entendam. Já livres da refeição, não pensem que a digestão será livre de agrumos: “suave” em italiano diz-se “morbido” e “seda” diz-se “seta”. Duros golpes para uma rapariga apaixonada cujo conhecimento lexical da língua do outro não é brilhante. E “subir” diz-se “salire” o que pode terminar a noite duma forma inesperadíssima e ninguém sabe como é que aquilo acabou.


Concluindo com uma verdade de La Palisse: a Babel impede que as pessoas se entendam. Devemos deixar de falar e entendermo-nos só por linguagem gestual? Nem pensar. A linguagem gestual também varia de povo para povo. Experimentem pôr as mãos abertas e esticadas à vossa frente, estilo stop, ao falarem com um grego e arriscam-se a levar um murro.


E vamos lá a ser sinceros: a linguagem gestual portuguesa também deixa a desejar – quem é que alguma vez percebeu a lógica da célebre “hum, este arrozito está de trás da orelha” enquanto apertamos a dita? Pois eu também não.

Tuesday, October 30, 2007

A Comunicação - Parte I - Entre Ele e Ela


O grande problema deste mundo é o da comunicação. Quando me vêm com as teorias psicológicas new-wave, dizendo que a falta de comunicação é que a responsável pelas questões de trabalho, pelos mal-entendidos entre amigos e pelos divórcios, apetece-me logo dizer-lhes “Chiu! Calem-se lá! A linguagem é que é a fonte da desgraça!” Ou não é?. Vamos analisar a questão, com o mínimo de palavras possível para não chatear.


Neste mundo, praticamente toda a gente se queixa de ser um incompreendido. Homens que me lêem, todos vós sabeis que as mulheres nisto são mestres. Começando pelo princípio: quando um homem e uma mulher não estão de acordo, ela fala pelos cotovelos (e pelos joelhos, e todas as articulações e poros, enquanto o infeliz finge escutar, se bem que, na verdade, já tenha perdido completamente o fio à meada e ela vai discorrendo sobre o ano em que se conheceram ao invés do problema actual).


Quando a mulher repara, no meio da diarreia verbal, que ele está calado que nem um rato, dispara com “Não dizes nada?” ao que ele responde“O que é que eu posso dizer?”, muito justificadamente porque é impossível responder à metralhadora da boca feminina com a mesma eficácia e rapidez. É, aliás, também por isso, que não há muitas mulheres em lugares de chefia. Os homens têm medo delas como o diabo tem da cruz.


 A mulher, muito infeliz porque não encontra eco, sente-se frustradíssima e diz que ele nem sequer a escuta e que não a compreende. A verdade, porém, é que ele nem sabe porque é que ela fala tanto: “Mas porque é que vais agora buscar essas coisas?” Ela, necessária e justificadamente, quer compartilhar aquelas desgraças todas e acusa-o de não comunicar. Mas o pobre de Cristo, senhoras, não pode com tanto fluxo informativo duma vez só. Bolas, é muito problema a resolver ao mesmo tempo, Maria. Ele nem sabia que vocês tinham tantos assuntos pendentes. “E vamos resolver isso tudo agora? E se fôssemos antes jantar e não se falasse mais nisso?”


Portanto, recapitulemos. Quando o psicólogo new wave vos diz para comunicarem mais e fala no diálogo na vossa união / no vosso casamento e tal, e a partilha de todos os problemas e mais que sim, não vão nessa! O diálogo no casamento é aquele que a gente sabe. Se não conseguirem comunicação eficaz quando estão em silêncio (enfim, mais ou menos...), bem podem esquecer que se vão escutar enquanto desfilam exaustivamente a lista das acusações que têm um contra o outro desde 1980. Aliás, era um bocado sufocante estarem sempre com a história do desgraçadinho e do triste fado todos os dias ao chegar a casa e do molho que se entornou na carpete, não era? Era.


Para além desta problemática, há outra, igualmente interessante. Reparem: quando um milagre de atenção, concentração e esforço louváveis por parte do elemento do sexo masculino (obviamente, sempre em dias de semana e nunca quando o Benfica joga para as competições europeias) os faz realmente escutar tudo o que disse o elemento do sexo feminino, há depois um “rebound” – é como no boxe, portanto. Nesse segundo “round”, verifica-se que a mensagem proferida pelo emissor e a mensagem recebida pelo receptor, inexplicavelmente, não é a mesma, quero dizer, foi espantosamente alterada no espaço de canal que medeia entre os dois. Seguem-se as célebres frases de ricochete: “Não foi nada disso que eu disse!” e “Percebes sempre tudo mal!” ou, em versão dos casais que lêem romances do século XIX, “Deturpas as minhas palavras ao extremo, Miguel!” Podem substituir o “Miguel” por “Maria” – a verdade é que a mensagem dita por um nunca é a mensagem ouvida pelo outro, independentemente do sexo.


Quando a desgraça alcançou este nível, o que é que se pode fazer? Bem, há sempre aquela clássica hipótese que é a de ele sair de casa para desanuviar no café e a de ela fazer um grande berreiro, telefonando para a mãe e para a amiga. Piorou. Porque guardam estas reacções para depois as atirarem um ao outro da próxima vez: “E lembras-te daquele dia em que saíste porta fora... / em que contaste à tua mãe que...?”


Não sendo eu conselheira da revista Maria (ainda existe esta pérola?) nem sendo eu paga principescamente como os tipos das novas seitas, para dar conselhos de rodapé resta-me dizer que o que resulta em momentos de crise, quanto à minha humilde pessoa, é o humor. Trocando por miúdos: alguém parar com a briga, dizendo uma piada qualquer por mais tonta que seja. Tem é de dar vontade de rir. Como o riso é contagioso, a luta pára logo ali e da melhor forma.


Então, e “quem é que ganha?”, perguntam os espíritos mais aguerridos; “e como é que sei se ele/ela me compreende ou não, afinal?” perguntam os mais atormentados. .Bom, isso quando estamos todos a rir, interessa muito pouco, não é? Aliás, a vida é um bocado curta para estarmos com preocupações dessas.