... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, July 4, 2008

A Fada do Lar Moderninho



Ninguém tem dúvidas que nos últimos 50 anos, aconteceram grandes revoluções no mercado laboral e enormes mudanças sociais que transformaram completamente o papel da mulher. Não é preciso vir um sociólogo prová-lo; basta comparar aquilo que faço hoje e o que é esperado de mim com o que fazia a minha avó e o que era esperado dela. Na realidade, por cá, a geração que fez a grande reviravolta neste aspecto foi a geração da minha mãe. Internacionalmente, como aqui, as coisas continuam a abanar - diria até “a luta continua” - e a prová-lo está o novo anúncio da Mercedes Benz, onde o mecânico é uma mulher, de ar competente e simpático (não, não é uma modelo siliconizada, a testar o carro fantástico do marido rico; é mesmo a prova de uma carreira igualitária onde não há medo de sujar as mãos).


No entanto, no que respeita à partilha de tarefas caseiras e dos cuidados com os filhos parecemos ter ainda muito caminho para percorrer… Também não é preciso um estudo para o comprovar, embora já se tenham dedicado a isso: “O que mudou na vida dos casais de hoje”, in New York Times, 15.06.08, cuja conclusão, após várias estatísticas no terreno, consultas a empregadores, conselheiros e académicos é que “as mentalidades continuam muito parecidas ao que eram há meio século, no que respeita ao papel da mulher em casa e na família”. Por outras palavras, as mulheres mudaram a vida laboral mas não a gestão da vida doméstica.


Segundo o artigo, “os índices de partilha dos trabalhos domésticos entre o homem e a mulher quase não se alteraram nos últimos 90 anos”. Parece exagero, mas não é, se pensarmos que, regra geral, as mulheres hoje trabalham a tempo inteiro mas também cuidam da casa, refeições e filhotes. Os homens ajudam à segunda parte. Esta diferença verbal é que exprime toda uma diversidade de base de pensamento, tão profunda e arreigada que não cabe na minha opinião(zinha).


No entanto, há aspectos engraçados neste estudo que valem a pena salientar. Por exemplo, as mulheres que trabalham fora de casa dedicam cerca de 28 horas/semana às tarefas do lar (como cozinhar, tratar da roupa, limpar) e os respectivos cônjuges masculinos “apenas” 16 – eu, por mim, já acho muito, onde raio acharam elas estes pares?! Logo se vê que foi no estrangeiro. Curiosamente, embora as mulheres se sintam injustiçadas com esta divisão, também se sentem “gratas” pelo empenho dos parceiros, pois é claro que eles fazem mais do que os seus pais  - e os paizinhos delas – faziam.


Para além deste compensador e freudiano aspecto, as mulheres parece que têm padrões mais elevados que os homens no que diz respeito às tarefas do lar e ao cuidado dos filhos. Ou seja, acham sinceramente que os homens não têm jeitinho nenhum. Parece que sofrem de Parkinson quando lavam a loiça tal é a quantidade de coisas que deixam cair; a imundície que deixam acumular nos cantos da casa faz com que seja vergonhoso até o carteiro espreitar à porta; ao vestirem os filhos, misturam camisolas de pijama com calças de linho e jamais penteiam os cabelos das raparigas.


Homens, sei que esta táctica – a do simpático e bem intencionado elefante, de pata grossa e desajeitada, que até gostava de fazer melhor mas não pode, coitado, porque não está na sua natureza  -  resulta. As mulheres, que se sentem sempre socialmente julgadas pelo estado do seu lar e pela aparência das crias, correm logo a dizer “deixa-me ser eu a fazer, eu acabo isso mais depressa” ou “eu estou mais habituada, fazes para a próxima” enquanto os homens, rindo-se por dentro do ovo mal estrelado que até sabem fazer muitíssimo bem mas do qual se sabem livrar ainda melhor, lá vão preguiçar. De facto, a melhor arma de resistência masculina ao trabalho doméstico é serem empatas: fazer enternecedoramente mal qualquer serviço, aparentemente de forma ingénua e desejosa de ajudar. Por seu lado, a mulher, que tem mais do que fazer do que andar a ensinar-lhe o elementar da vassoura e do forno, acaba por preferir dar conta do recado.


Os homens de tal forma aperfeiçoaram esta figura aparentemente inapta mas cheia de boa vontade que as mulheres, esfalfadas após cozinharem e limparem a cozinha, vão dar-lhes um beijinho porque eles, caso pudessem e soubessem, teriam feito o mesmo por elas. É de mestre!... E seria, também, muito divertido, caso eu não fosse mulher e não estivesse perfeitamente consciente que qualquer homem é perfeitamente capaz de cozinhar tão bem como eu. Muitos, melhor. Simplesmente os homens adquiriram o hábito de cozinhar para um público, como as visitas (em casos mais graves de necessidade de apreciação, tornam-se cozinheiros profissionais); de modo que uma mulher, querendo que ele cozinhe, tem de se fazer muito exigente, que remédio.


Outro factor interessante a apontar é o facto das mulheres adquirirem uma certa satisfação por serem consideradas “encarregadas da educação dos filhos” e, no fundo, cabeças do casal em tudo o que diga respeito aos assuntos dentro de portas. Ou seja, a velha máxima de que ele manda fora do lar e ela dentro do mesmo funciona, triste e saudosamente ainda, dentro da cabeça das pessoas. Talvez por isso seja mais difícil ver um homem abdicar do seu emprego para ficar com um bebé, por exemplo, e é seguramente por isso que quase todas as mulheres entrevistadas – mesmo aquelas cujo emprego é mais rentável do que o do companheiro (e não são poucas) – consideram que é mais importante que ele se satisfaça profissionalmente do que elas, porque elas têm interesses familiares compensadores (e eles não??!! Mas não são da mesma família?! Dá ideia que estas senhoras se têm em muito má conta…).


Claro que a explicação vai mais fundo e não cabe aqui. De qualquer modo, o facto das mulheres ficarem felizes por serem “presidentes” dos círculos familiares é, também, uma conspiração social. Desde as empregadas domésticas (outra tolice social, pois a casa mais limpa e arranjada que conheço tem um empregado doméstico homem e não uma senhora) às amas e aos professores, todos esperam que seja a mamã a organizar as coisas, do mesmo modo que os mestres de obras esperam que seja o papá a pagar as contas. Quando o caso é diferente, toda a gente fica a ruminar em quem é que naquela casa usa as calças e quem usa os soutiens (sendo provável desde a moda de 1960 que ambos usem as primeiras e nenhum os segundos).


Entretanto, segundo o estudo que li “a distribuição de tarefas acompanha as linhas tradicionais de género”, o que equivale a dizer que os casais de gays ou de lésbicas (como aliás é mencionado no mesmo) têm maior equilíbrio na divisão do trabalho intra-muros: dividem tarefas sem grande dificuldade, tratam dos filhotes em pé igualitário (não querendo isso dizer que não haja definição de papéis, embora eu não saiba bem como se processa) e não têm problemas em momentos de sacrifícios profissionais em relação à família. Ou seja, a aparente solução, e porque a mudança de mentalidades é algo muitíssimo complexo e demorado, é uma rapariga ser mais feliz tornando-se mesmo Maria Rapaz. O que podia até ter alguma graça, não fosse – como diz um grande amigo meu - isso ser quase irrelevante hoje em dia, pois todos sabemos que uma Maria Rapaz passa sem graça nem reconhecimento no meio de tanto Rapaz Maria, o que destrói a originalidade e gozo da ideia.


Então, que fazer? Pessoalmente, parece-me haver duas boas políticas para pôr um homem a colaborar: ou não travar a natural tendência para a javardice de um companheiro, deixando mesmo a casa atingir um nível de sujidade considerável com pêlos de cão e restos de unhas até que ele a limpe com esmero, recusar-se a qualquer tipo de inutilidades (engomar, por exemplo, é uma absurda perda de tempo, porque ninguém “olha para a tua camisa, achas que te dão essa importância toda?”), jamais lavar alimentos de modo a que haja terra, lagartas e sangue seco de cortes nas saladas… hum…
… Ou ser a perfeita fada, com a casa-museu onde ele não pode espirrar sem ir limpar o vidro dos respingos, onde não se comem alimentos que cheirem mal tipo queijo da ilha e o bacalhau é sempre espiritual, onde as cortinas combinam com o edredon cor-de-rosa e os pratinhos têm um bordadinho que combina com o forro da cadeirinha e o azul da base dos copinhos. Levezinhos.


Qualquer uma destas situações acende um debate fantástico sobre as responsabilidades de cada um e “a impossibilidade de viver numa casa assim!” Depois, sempre é mais fácil para uma senhora, habilidosa e conhecedora das manhas dessa criatura preguiçosa tão bem habituada pela sua mãe, levá-lo a conhecer mais de perto o Soflan e o Sonasol.


Thursday, June 19, 2008

Os Livros que a Minha Tia Jamais Entenderia

Não sou um escritor de ficção didáctica.[...]
Para mim, um escrito ficcional existe apenas na medida em que provoca
- e digo-o francamente - bem-estar estético, ou seja, o sentimento de estar, 
de algum modo, ligado com outros estados do ser onde a Arte (e também a 
Curiosidade, a Ternura, a Delicadeza, o Êxtase) é a norma. 
Não há muitas obras assim. 

Vladimir Nabokov


Recentemente, estive em várias apresentações de livros e em todas, felizmente, estava presente o autor. Parêntesis para dizer quão triste é uma apresentação de livro póstumo, até porque ficamos todos seriamente a remoer se o autor queria mesmo que a obra se publicasse, embora ninguém tenha coragem sequer de o murmurar. Sim, porque a ideia de que a família conhece os desejos e desígnios do mesmo é muito discutível - todos nós sabemos como funcionam as dinâmicas familiares e a de alguém famoso não tem por que ser diferente... Adiante.

O ponto é que em toda a apresentação de uma obra está sempre aquele que vai dissertar um bocadinho sobre ela. Eu própria já estive nessa situação (como autora e também como apresentadora de uma autor) e sei como é complexo falar sobre a obra de alguém que está ali ao nosso lado e que, depois, vai usar da palavra. Em boa verdade, o perigo não é assim tão grande, pois seria preciso uma fera em estado de sobreexcitação para contestar publicamente o que se acaba de dizer (pois mesmo que esteja redondamente errado, é sempre fatalmente lisonjeiro) sobre a sua pessoa e ademais publicação.

No entanto, é muito curioso ver o que diz quem apresenta o livro, sobretudo a dois níveis. Primeiro, a ideia tão frequentemente transmitida do "propósito do autor" ou, um pouco mais corriqueiro e grave, "a mensagem que o autor nos quer dizer". De facto, a mensagem - se é que ela existe de modo tão concreto e para-literário - só o autor a pode saber e revelar. Toda e qualquer outra ideia que seja quem for retire do livro é apenas e tão só a sua interpretação do mesmo, por mais literato que esse alguém seja.

Ora, como sabemos, as interpretações são como as sentenças - cada qual tem a sua. Não é por isso de estranhar que sejamos confrontados com um certo ar de surpresa resignada dos autores dos livros (que poderíamos traduzir por "hã?!?!") pois realmente rara será a vez que um escritor terá pensado na suposta mensagem que o comentador ali afirma como propósito mais que certo da obra. Já dizia Nabokov, quando o instigavam a comentar a origem e desenvolvimento das suas obras: "Por acaso, pertenço àquele tipo de autores que, ao começar a trabalhar num livro, não tenho outro propósito que não seja o de me livrar dele!"

Geralmente, estas interpretações são férteis em termos fora do uso comum, o que me leva ao segundo nível de comentários das obras, mais teórico e menos subjectivo, que é moda dos comentadores mais directamente ligados à Literatura. Os Teóricos Literários levam-se muito a sério, mais do que à própria Literatura e têm até muita dificuldade em inserir nesta última algo que não se enquadre dentro dos padrões habituais. Assim, a primeira coisa a fazer quando reconhecem um autor é inseri-lo numa escola, verificar em que género literário está aquilo em que escreve, as categorias da narrativa e do discurso e fazer com que as excentricidades criativas do autor sejam correctamente apadrinhadas dentro do cânone. Caso contrário, é a morte do artista.


Não há, porém, maior tédio, do que ver um destes senhores a apresentar uma obra...logo temos "a prólepse que nos leva a uma maior compreensão da diégese"; "o narrador empírico e omnisciente que se confunde com o autor, embora, naturalmente, não devamos esquecer a célebre distinção de ambos"; "a intratextualidade das personagens redondas"... entre outras preciosidades. Após 10 páginas disto, raro é o elemento do público que consegue aguentar as pestanas. Porém, todos, sem excepção, batem palmas, com receio de que o ouvinte do lado, os julguem menos cultos. alguns chegam a comentar a "essência" desta abordagem. Mas o facto é que apenas 1 em 100 terá entendido alguma coisa! E o mais engraçado é que o autor de uma obra ficcional está-se literalmente nas tintas para a Teoria da Literatura e acha risível todos estes termos nos quais, realmente, nunca pensa quando está a escrever. Ou acham que um tipo se senta a escrever pensando: "Agora o que se me dava aqui fazer era uma rememoriação analéptica, para que a história ganhasse mais volume! Ao trabalho!"

Ultimamente, também os jornalistas gostam de fazer umas reportagens a atirar para o incompreensível: com palavras muito caras, mas sem sumo nenhum após a sua desconstrução. A isto, um amigo meu chama "reportagens que a [sua] tia não entende", sendo esta tia, obviamente, uma personificação do povo. Pois, estas apresentações de livros a minha tia jamais entenderia...



Wednesday, April 23, 2008

Os Amigos e as Amigas

Na nossa cultura (está bem, pronto, em todas as culturas), é muito complicado uma mulher e um homem serem só amigos. Quero dizer, serem só amigos, realmente amigos, amigos a sério. Isto sem que o resto do mundo pisque o olho uns aos outros quando os vê a tomar café todos os dias e não dou duas semanas para que não esteja aí feito um grande rumor sobre o bebé que já vem a caminho.

E então? Podia fazer aqui um texto acerca de como as pessoas são mesquinhas, como pensam sempre no mais óbvio (sendo óbvio diferente de verdadeiro) e não dão importância aos sentimentos elevados - a amizade a sério, e não há amizades que não sejam a sério, é uma espécie de amor sem componente sexual -, em como é sufocante estar sempre a reboque do que pensa o pai, o vizinho, o barman, o outro amigo que temos e a senhora que vende fruta. mas, realmente, o problema está na cabeça de cada um.

Grande parte dos meus amigos são homens. É de notar que a maior parte das mulheres diz o mesmo. Entre a maior parte das mulheres - ressalvo a maior parte, porque tenho aí umas sete amigas por quem saltaria para o meio da fogueira - há uma espécie de agressividade latente. Enquanto os homens se cumprimentam com genuíno entusiasmo com grunhidos monossilábicos como "Uôp!", mesmo que não se tenham em grande conta, as mulheres cumprimentam-se com um sorriso mas fazendo "Grrrr" entredentes. Há um rotweiller em portência em muitos espíritos femininos. No geral, as mulheres não gostam umas das outras e isto, muito simplesmente, porque ninguém em seu perfeito juízo gosta dos seus directos rivais. As mulheres têm-se nessa conta. Dizem á boca cheia das outras mulheres que elas são interesseiras, cheias de esquemas e más peças, no geral. Isto vindo de quem tem conhecimento de causa em termos de género não abona muito a nosso favor, convenhamos...

Na verdade, qual é o problema subjacente? É a questão da lealdade. Vamos deitar uma olhadela às variantes possíveis.

Na amizade homem-homem podem faltar muitas coisas, mas lealdade e cerveja nunca faltam. Por exemplo, à mente de um homem jamais, em caso algum, vem a ideia que o seu amigo do peito possa deitar o olho (e muito menos estender a mão e, de caminho, apertar o resto do corpo) à namorada dele. Já na amizade mulher-mulher, uma delas admite sem custo que a sua amiga da alma possa fazê-lo ao namorado dela porque "conhece a psicologia e sabe do que a casa gasta". Perguntando a esta mulher o porquê, ela não dirá que é desconfiança, não! Dirá uma desculpa sem sal: que a carne dos homens é fraca (coitados... e pensar que gostamos deles... será do acompanhamento? enfim, adiante) e que as mulheres (grupo do qual ela se exclui automática e airosamente, desprezando essas criaturas ignóbeis e amorais) levam qualquer um à perdição. Os homens, pelo contrário, acham que as namoradas dos amigos são, automaticamente, intocáveis (desconfio que assexuadas) mesmo que antes lhes achassem piada. E isto porque, no modo de pensar masculino, aquela mulher passa a ser parte do amigo deles, da mesma maneira que as outras manias que ele tem, como ter peixinhos de aquário, discos de jazz ou velejar aos fins de semana. E, para estes senhores, a posse não é uma coisa desprestigiante.

É também (mas não só) por esta razão que os homens gostam de apresentar a namorada aos amigos; automaticamente, está a dizer à malta que aquela ali é a rapariga dele e os restantes machos ficam inibidos de lhe sequer pensar em lhe tocar - ou, se pensam, ficam-se mesmo só por aí segundo o código da lealdade. Os homens, nestas coisas da amizade, são seres mais simples. Eu, aliás, acho que são seres bem mais simples que as mulheres em quase tudo, sem que daí advenha vantagem nem desvantagem para os ditos nem para nós.

As mulheres têm, à partida, uma enorme desvantagem: regra geral, têm uma língua de serpente ao falarem umas das outras. Por pior que um homem fale de uma mulher, raramente alcançará tanta mestria como uma mulher a destilar veneno sobre outra, Mais de metade das vezes, os homens (por descaso ao pormenor, dado que o que lhes interessa é a imagem de conjunto) não reparam nos detalhes em que o espírito feminino repara. As mulheres, porém, revistam tudo umas sobre as outras, nem que tenham apenas olhado pelo cantinho do olho. E depois rotulam. Também o fazem em relação aos homens, mas com eles são mais meiguinhas na apreciação, porque "é homem, coitadinho, não tem culpa de ser assim..." Na verdade, as mulheres acham que governam tudo e que dão aos homens a ilusória sensação de que o comando e as ideias são deles. Eh eh eh. Há nisto alguma verdade, porquanto todos sabemos que a escolha final depende sempre de uma mulher desde que um homem não abuse da força.

Mas voltemos à vaca fria (expressão que continuo a não perceber e agradeço que ma expliquem; se alguém souber é favor mandar esclarecimento, por favor): a amizade entre um homem e uma mulher. Será que é tão difícil apenas e só porque a comunidade acha que não é lá muito "normal" que sejam "só" amigos? Na verdade, não é só por causa disso. Os homens também estão convencidos que, sendo eles homens, têm obrigação de, pelo menos, tentarem ser mais qualquer coisa do que só amiguinhos para café e cinema e passeios de barco. Por outras palavras, é preciso passarem à verdadeira acção. Por seu lado, as mulheres, quando verdadeira e realmente, só querem ser amigas deles (o que não é sempre linear, ah pois não, e aumenta a confusão!) ficam muito escandalizadas quando eles lhes propõem outra perspectiva.

... E será assim tão criticável? Vamos a ver: na verdade, senhoras, é perfeitamente possível grandes e profundas amizades onde não haja sombra de atracção. Mas também existem aquelas onde ela está presente. No último caso, há duas hipóteses: podem resolver o assunto e ficarem grandes amigos depois (se bem que também há a possibilidade de não se poderem ver se a coisa correr mal ou de se quererem ver a toda a hora caso corra mesmo bem) ou ignorarem o facto de que sempre que falam nos respectivos amores ficam os dois terrivelmente ciumentos e empatas.

Claro que é simpático viver uma amizade onde uma pessoa não tem de se preocupar com nada destas chatices sentimentais e pode estar ali como está com os seus irmãos, na pura. Mas se se souber gerir, elegantemente, os vários suores e palpitações que advêm de se estar atraído(a) por um amigo(a) não é de todo mau; é diferente. O que importa, na minha perspectiva -que é, nem mais nem menos, do que aquela de quem não percebe nada disto! - é que a amizade nunca se perca. Porque, afinal, todos os amantes são também amigos. Ou deveriam ser.






Thursday, April 17, 2008

Ódios de Estimação

Quando era muito mais jovem (e posso dizê-lo plenamente porque sou trintinha e, portanto, faz todo o sentido dizer estas frases sobre a adolescência suspirando com fingido pesar) fazíamos umas listas muito engraçadas sobre os nossos amores de estimação. As listas tinham coisas tão díspares e essenciais à vida como "caminhar à chuva", "enroscar-me no sofá quando chego a casa", "morangos", "o rapaz da terceira casa a contar da esquerda quem sobe a rua", ou "gupis". Até que um dia, uma de nós se lembrou de fazer a lista dos ódios de estimação e a vida não mais foi igual. Chegámos à conclusão que o ódio também era essencial. De facto, para algumas de nós era fonte sustentável de vida, uma espécie de versão repugnante da paixão. Iargh. Horrível, não é? Mas lá que era assim, era.

Explico melhor: há aqueles para quem um odiozinho por outro alguém é profundamente acarinhado, muitas vezes por pormenores irrelevantes - a maneira como ele descasca a fruta (para já, porque é que tira a casca da maçã quando seria muito mais normal e saudável comê-la, esse snob de treta!), os foulards pirosérrimos que usa (giros caso fossem usados por outra pessoa, claro está), a maneira como ajeita "aquele" cabelo, os trejeitos que faz e as piadas que conta. Meu Deus, como é possível que mais ninguém repare nestes atentados sociais?

As pessoas que alimentam odiozinhos não procuram fugir deles. Antes fazem de tudo para encontrar o seu desamor, para poderem fazer aquela catarse e despachar-se dos seus maus fígados num indivíduo que escolheram a dedo. Adoram dar de caras com ele (casualmente, já se vê...) para poderem coleccionar mais umas quantas razões, inteiramente justificáveis, para melhor e mais largamente o odiar.

O mais curioso é que quando lhes perguntamos porque é que não gostam de determinada pessoa (construção verbal muito suave a que logo retorquem "Não gosto?! Eu não posso com esse gajo!"), não conseguem encontrar uma razão plausível. Até admitem que ele possa ser "um bom tipo, faz algumas coisa generosas, mas eu cá tenho-he um pó!", o que é ainda mais extraordinário. A quantidade de pessoas que odiava a Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, é flagrante. Até houve um senhor que se deu ao trabalho de escrever um livro com todos os pequeninos podres que encontrou sobre ela, a que chamou, muito sugestivamente, "The Missionary Position".

Conclui-se que os odiozinhos não são, de modo algum, baseados na racionalidade ou naquilo que nos fizeram. O odiado não tem culpa alguma no cartório na maior parte dos casos. Os ódios garndes - logo, não estimáveis, mas sim aqueles que nascem das entranhas, vulgarmente confundidos com medo - não são para aqui chamados porque, obviamente, advém de causa justa (o que é sempre difícil de determinar, mas existe na cabeça de quem o sente, pelo menos).

É muito curioso ver que os odiozinhos de estimação ocupam imenso do tempo livre de quem os tem. Aliás, estou convencida que quanto menos tempo há para as paixões, mais há para os ódios, mas esta teoria é inteiramente pessoal e subjectiva, porque na minha lista de ódios só havia "ganchos no talho com carne de porco pendurada", "todas as formas de hipocrisia" e "ser obrigada a dizer que estou a divertir-me quando não estou e que gosto quando não gosto". Pensei incluir o professor de Filosofia mas depois achei que não, porque era muito claro que ele me odiava a mim e a quase toda a gente, sendo certo que todos o odiavam. Não fazia sentido. Outra coisa importante sobre os odiozinhos é esta: é quase impossível nutri-los por alguém que sente algo do género por nós. Um odiozinho não é uma retribuição. É algo inato, que nasce da embirração pura. Muito naturalmente, diga-se.

Para que servem os odiozinhos, para além da óbvia função de fazerem quem os destila catalizar os seus maus sentimentos todos para uma criatura única? Bom, do ponto de vista orgânico causam a quem odeia uma data de problemas  porque lhe sobem a tensão arterial, a angústia e, em casos mais graves, conduzem a uma tal revolução que quase estamos perante uma pré-paranóia. Socialmente, também servem para que o odiado seja valorizado. Afinal, está-se a atribuir-lhe suficiente importância para lhe dedicar tanta energia e tempo (não interessa se positivo ou negativo). De facto, o contrário de uma paixão seria a indiferença e não o ódio, como todos sabemos. Mas essa história é outra...

Resumindo: um odiozinho de estimação poderá até nascer, mas o melhor é dar cabo dele pela raiz. Bom mesmo é gastar o nosso tempo, que é tão pouco, com a primeira lista.


Tuesday, February 12, 2008

O Amor Totalitário

Visto que chegámos outra vez àquela época do ano lamechas dos coraçõezinhos nas montras comerciais, vamos lá falar desse fogo que arde e que se vê - o ciúme.
De entrada, digo já que não sou ciumenta para além do que se crê normal num ser humano que ama, ou seja, obviamente que acho que todos os outros seres humanos só podem estar secretamente apaixonados por aquele de quem eu gosto e a partir daí observo-os atentamente e com total desconfiança. E ele, o meu amor? Pois ele, naturalmente, que é incapaz de desejar outra mulher que não eu e é por saber que ele nem levanta os olhos para mais nenhuma das presentes nem imagina coisa alguma com as ausentes que eu o trago completamente debaixo de mira. Sem que ele perceba, claro está.
É muito importante, aliás, que ele não perceba nem sonhe. Se desse por isso, era capaz de lhe dar uma ânsiazita de evasão. Cruzes credo! Eu quero é que ele fique aqui amarrado de tal forma que só eu saiba desfazer o nó.


Afinal o que é o ciúme? O ciúme é aquele medo enorme e incontrolável de que a outra pessoa nos fuja. Uns ciúmes moderados, assim uma pontinha, como quem polvilha de especiarias um prato, até podem ser considerados uma coisa bonita, um picantezinho extra.  Algum de vocês imagina relação mais aborrecida que aquela em que sabemos que o nosso amor está completamente apanhado e não foge? Só se for aquela em que  sabemos que estamos completamente enfadados dele, porque já não há mais nada a descobrir. De qualquer modo, não exageremos. A pior coisa que se pode fazer neste mundo de afectos será instaurar o regime fascista do controlo absoluto.


Então, como é que se pode fazer uma elegante gestão da liberdade desse ser amado a quem apetece envolver entre os nossos dedinhos? Boa pergunta. É tanto mais boa pergunta quanto eu nunca, jamais, em caso algum suportaria que alguém me limitasse coisa alguma. Recorrendo aos sábios conselhos da minha avó, dir-vos-ei que todo o controlo deve ser como o dos Serviços Secretos.


O ciúme pressupõe a presumível existência - na grande maioria das vezes, apenas fantasiada pela imaginação delirante e ciumenta - de casos de infidelidade. Porém, caros amigos ciumentos, nunca houve tão pouco motivo para preocupações como hoje em dia.


Como diz um grande amigo meu, já não há boas infidelidades porque já ninguém perde a cabeça. Daquelas à Eça de Queiroz em que as mulheres arriscavam o casamento e os homens a posição social (o contrário jamais se verificava e dois séculos depois ainda é assim a regra geral), nas quais havia um sentido trágico e delirante, tipo ópera La Traviata . Hoje não. Alguém seria capaz de hoje arrumar a sua mala de roupinhas e fugir com o amante, sabendo que nunca mais seria olhada de frente na rua quando antes servia chá com bolinhos à alta sociedade? Nem pensar. Isso era no século XIX. Hoje somos pessoas sérias. Quando há demasiada paixão no ar, tomamos Xanax para acalmar. Jamais rolarão pescoços. Estão presos pelas gravatas deles e pelos colares de ouro delas.


Resumindo: hoje, apesar de toda a gente dizer que a sociedade livre oferece mil e um perigos e blablabla, é só conversa. Entenda-se o “só conversa” literalmente. Descansai as vossas almas, amiguinhos do ciúme de faca e alguidar de sangue. Nunca há-de a conversa chegar a vias de facto, porque hoje as pessoas não estão para adultérios. O pessoal respeita muito o mandamento sexto da Nova Lei de Deus, que é como quem diz “Não darás motivos para que fale de ti a tua vizinha”.  Se bem que o castigo não seja perder o Paraíso (porque no Inferno já nos encarregaríamos de o fazer cozer em fogo brando e continuado), aproxima-se muito do bom e velho antigo apedrejamento em via pública. Seria preciso muita ópera e sentimento para levar avante um amor anti-social. Convenhamos que com coraçõezinhos “I love you” não vamos lá.


Então, para terminar, e recorrendo de novo à minha sábia avó, um conselho de pacote para a brigada do ciúme: é preciso fazer o outro ter pena. “Tu nunca gostaste de mim”; “Eu sou tão infeliz e desesperado(a) sem ti”; “Eu que sempre me dediquei ao nosso amor”; “Sabes que o facto de ter estado com outra (o) não significa nada, porque só me lembrava da tua cara...”; “Eu sou capaz até de perder a vida se me deixares”. A culpa move montanhas nesses espíritos sensíveis que um dia gostaram de nós. Os infelizes.


E, para não desmoralizar o outro lado, outro conselho de pacote, recorrendo ao meu sábio avô, para a brigada dos infiéis: existe sempre a filosofia do compensa. Ou seja, se estou a ser infiel a quem estou legalmente ligado, por outro lado estou a  ser fiel a quem estou afectivamente ligado (se, dramaticamente, não calhar serem a mesma pessoa,...). Pois, vendo bem, compensa. Faz-me feliz. Que se lixe.


Finalmente, a pedra de toque inventada pelas espertalhonas das mulheres: há uma ideia muito em voga nas cabeças masculinas (tradicionalmente ciumentas e infiéis, embora nem sempre acompanhadas pelo resto do corpo) que é a de que os homens continuam a trair muito mais do que as mulheres, enquanto essas cândidas e sofridas criaturas ficam em casa carpindo as misérias de estarem a ser traídas. Isso é que era, senhores. Se os homens traem e as amantíssimas e sofredoras mulheres se retraem, com quem, ao certo, é que os homens se divertem?

Friday, January 25, 2008

“Ai, Paciência, Meu Deus!”





N.B.: Este texto foi revisto e alterado para ser publicado na edição do dia 29 de Abril de 2011 no jornal Açoriano Oriental.





Estava eu a conversar com uma rapariga da Lituânia que tem uma paixão desmedida por Portugal e vai daí ela perguntou-me porque raio num país como este, bem fornecido de sol, de temperaturas amenas, de bonitas paisagens, de gente (mais ou menos) calma  e sem fomes nem misérias de maior na sua generalidade, os portugueses estavam sempre a suspirar e a dizer “Ai, paciência!”.


Eu cá nunca me tinha dado conta que recomendávamos tanta paciência uns aos outros e, ademais, éramos tão plenos de suspiros! Mas é bem verdade. A mais comum das exclamações é mesmo capaz de ser esta, exceptuando outras que, embora não seja de bom tom eu escrever no jornal são, paradoxalmente, as mais ouvidas na rua e das primeiras que qualquer estrangeiro aprende se quiser sobreviver em 70% dos ambientes de trabalho lusos.


Atacando o assunto: porque precisa o português de tanta paciência, sincopadamente suspirada? Eu também não sei!
Confesso, porém, que este hábito já vem de trás... Já a minha bisavó era amiga deste dito. Daqui concluo que o tão apregoado pessimismo português (repare-se que muito  pessoal até diz “festa de fim de ano” e nunca “festa de princípio de ano” semanticamente tomando uns copitos pelo ano que passou e não pelo que há-de vir!)  nem é bem pessimismo – é uma espécie de amortização da queda. Afinal, o português até quem consciência que vive no “melhor dos mundos possíveis”, como apregoava Leibniz. Simplesmente, de vez em quando lá aparece uma pedrinha no caminho – nada que um espírito navegante e conquistador como o nosso não resolva com meia dúzia de suspiros e caldos de paciência.


Outra coisa que muito gostamos de fazer é chamar por Deus. Mas na base da confiança! Raros povos alcançaram um tu-cá-tu-lá com o divino como nós. Enquanto que, por exemplo, os espanhóis têm tanto respeitinho a Deus que, só de pensarem nele intensamente, há centenas de espanhóis que sofrem de stigmatae (vulgo, estigmas, aquelas feridas sanguinolentas e absolutamente inexplicáveis), os portugueses são tratados por Deus na pura, que é como quem diz, na maior descontracção. Os irlandeses, coitados, passam agruras do demo por quererem praticar a sua religião. Os portugueses estão sempre na boa e contam-se pelos dedos os fiéis. Há pessoal nas Filipinas que se esfola todo para demonstrar a Deus que sofre por Ele, tal como Ele. O português não está nem aí para demonstrações de nenhuma espécie. O português acha que se alguém tem de demonstrar alguma coisa é Deus, não é ele. Mas, verdade seja dita, não se chateia se a demonstração levar anos ou mesmo não acontecer porque temos tempo... e sol e temperaturas amenas (vide primeiro parágrafo). Em suma: somos um convite à lazeira.


Assim, apesar de não darem troco nenhum a Deus, não é raro ouvir os portugueses chamar pela mãezinha d’Ele: “Oh Virgem Maria!”, ou outros de Sua proximidade “Ai santa Bárbara! Que escuridão”, etc, revelando uma clara familiaridade com as entidades celestiais. Eis a minha exclamação favorita: “Oh Jesus Cristo! Anda cá abaixo ver isto!” que, não só rima, como é uma espécie de invocação imperativa que sujeita o pobre Jesus  a ser humano e a passar por aquelas desgraceiras todas outra vez.


Mesmo os ateus e os não-católicos (como eu) se saem às vezes com frases destas. Aqui, não é preciso uma epifania para entender o porquê: é que ninguém tem bem a certeza (excepção honrosa feita ao meu irmão) de haver ou não Reinos que não sejam deste Mundo – perdão, João de Melo. Assim, o português arranjou um truque fixe que é o de tratar Deus como um amigalhaço, na onda cool e tal, porque, assim, se Ele não existir não fez figura de parvo a dedicar-se-Lhe e se Ele existir, o tuga já fez o seu papel. Tudo salvaguardado.


Os próprios ateus (com raríssimas excepções) costumam dizer que “não acreditam em Deus mas numa entidade superior que nos criou” o que é a mesma coisa que um oriental dizer que não acredita no Buda mas admite a existência de um manda-chuva gordo e careca, sentado à chinês...


Senhores, resolvam-se. No sítio. Senão, é preciso vir Jesus cá abaixo ver isto. Até que se resolvam, a gente vai ter muita, muita paciência... (suspiro!).  


Thursday, November 29, 2007

A Comunicação - Parte III - Entre Pais e Filhos

Quando esta relação começa, a geração mais velha está em vantagem porque a mais nova, pura e simplesmente, não sabe falar. Além disso, regra geral, são os pais que ensinam os filhos a falarem, após tentarem, sem qualquer sucesso, comunicarem com eles através de “gugu, nhánhá, pschtiii” e outras baboseiras, acompanhadas de gestos exagerados que nenhum ser que não seja pai de um bebé, palhaço ou domador de focas faz.


Depois de terem ensinado aos filhos a sua linguagem, os pais arrependem-se amargamente e haverá muitos momentos num breve futuro em que hão-de desejar tê-los mantido sem acesso à reinvidicação verbal. Como já antes salientei (ver “A Comunicação, Partes I e II, sff), a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Tão só. Mas como não temos outra coisa  - já quase ninguém sabe código Morse e custa bastante fazer sinais de fumo num clima tão húmido – lá vamos falando...


De facto, em breve, as criancinhas que antes choravam para fazer entender que tinham dores de dentes, fome ou pura birra, agora querem explicar as suas razões. Convenhamos que, para a maior parte dos pais, as razões não interessam nada, desde que pare o berreiro. Ou não é verdade que cada vez há mais criancinhas mal-educadas batendo o pé na rua e rivalizando em competência sonora com as sirenes dos Bombeiros porque querem os chocolates e as Barbies e um telemóvel de brincar (Santo Deus!) ? É. Isto tudo numa saída normal de compras ao sábado de manhã. Nem imagino o que pedirão no Natal.


Estes insuportáveis espécimes que não raro nos pespegam pastilhas elásticas no cabelo mas que são, segundo o cliché, “o melhor do mundo” não têm culpa nenhuma de ser assim. A culpa é de outra espécie muito em voga que (não) toma conta deles, denominada “os pais que não querem ter chatices”. Estes pais fabulosos são muito amigalhaços dos filhos, que consideram crianças hiper-activas (outro conceito muito giro e que, hoje em dia, se aplica a quem se mexe um bocadinho mais do que seria desejável e mesmo até a quem se mexe saudavelmente, para aqueles pais hiper severos que têm as casas como se fossem museus, cheias de coisas inúteis e anti-criançada como porcelanas, pratas e jarros sem flores).


Na infância, há também uma fase de comunicação usualmente chamada “idade dos porquês” que irrita muito os progenitores. Este momento da vida deveria antes orgulhá-los pois nunca na existência os filhos voltarão a perguntar-lhes os porquês deste mundo, pela simples razão que não mais voltarão a acreditar que os pais são assim tão sábios.


Na verdade, ao passarem à adolescência, os filhos entram em cheio noutro momento, diametralmente oposto, no qual consideram que os pais, embora geralmente até sejam gajos porreiros, estão um bocado ultrapassados e, portanto, não vale a pena perguntar-lhes nada porque os infelizes cotas já não têm estaleca para tanto. Os próprios pais, nesta altura, vêem–se muitas vezes na situação de ter de pedir favores aos filhos, geralmente de ordem tecnológica: “Ó Rodrigo, será que podes explicar ao pai como é que funciona o blackberry que a empresa me deu?” Tirando estes momentos e os grunhidos monossilábicos com que os filhos respondem aos pais à pergunta “Está tudo bem?”, não há muito mais a dizer quanto à comunicação.


Já na vida adulta, há um desconcertante momento no qual os pais e os filhos estão, por assim dizer, activos e independentes. Como já não falavam há vários anos, não se lhes ocorre nada que possam dizer. É por isso que os avós e os netos são tão importantes nas festas de Natal e outras que juntam as famílias. Na falta de avós e ranchos de criancinhas que façam berreiro, convém ter uma televisão. E comida, claro, porque com a boca cheia as pessoas têm uma desculpa para não falar.


Segue-se, depois, a última fase, que depende do modo como as coisas se passaram na primeira. Quando os pais ficam velhotes e, logo, dependentes dos filhos (seja económica seja fisicamente por questões de mobilidade ou doença), não há filho que não se lembre da sua infância e um sentimentozinho muito humano de “olho por olho, dente por dente” renasce no mais terno e menos vingativo dos seres. Por alguma coisa, a Santa Casa da Misericórdia é a instituição mais rica de Portugal.


E assim termina este ciclo, no qual, como se viu, não é possível pôr grandes culpas na comunicação, dado que ela está cheia de fragilidades. A culpa (palavra feia!), não parece, porém, estar nestas coisas das ligações genéticas, porque, como diz Deborah Tannen, da Cornell University, “a razão pela qual as mães e as filhas não comunicam bem é porque ambas são mulheres.” Pronto. Melhor, só o Freud.