... "And now for something completely different" Monty Python

Monday, February 16, 2009

O Faial, uma Área Remota e Obama, um Muçulmano Perigoso

Decidi fazer algumas compras pela Internet, coisa que nunca faço. Parecia simples, vinham por um serviço postal rápido que garantia entrega em todo o lado. Era tão eficaz que, diariamente, eu fui recebendo um e-mail sobre a evolução do paradeiro da encomenda. Até que me telefonaram. Estava encravada.

“Sorry, ma’am (gosto muito quando me tratam por s’óra, é sempre um sinal de respeito à idade que faço por ter, e que até ao telefone se nota), we cannot deliver your package immediatly”.

Depois de eu ter perguntado porquê, o senhor explicou-me: “We just found out you live in a remote area”. E ainda me deu uma leve admoestação por eu não ter avisado a companhia postal que vivia num sítio obscuro e inacessível, segundo eles. Demoraram bastante tempo para o encontrar no mapa. Nalguns mapas, nem existia. De facto, telefonaram para ter a certeza que eu não estava a gozar com a companhia, dando um endereço phoney… (a tradução para isto em português não é tão boa, se eu digo “falso” falta aquele toque trocista que a palavra em “americano” tem).

Garanti que morava mesmo no fim do mundo e que era seguro entregar coisas cá - nem sequer serpentes temos, pelo menos das que são bichos. O homem diz-me que seria impossível adivinhar pelo meu nome que eu vivo onde Judas perdeu as botas: “Your name sounds decent.” Yeah, right. Se em vez de Carla Cook eu me chamasse, por exemplo, Ahorangi Waitakere (fantástico nome mahori) já seria legítimo esperar coisas terríveis do meu habitat, e de mim apenas o pior.


E por causa de nomes, agora toda a gente é fã do Obama. É quase tão “in” e tão nova-vaga ser fã do Obama como gostar de jazz e usar óculos escuros à noite. Oh sim, eu sempre detestei o povo americano sobre a administração Bush mas agora que o Obama é presidente reconheço que a América é uma nação extraordinária. Esperam-se grandes coisas. Um povo é seguramente o seu Presidente em qualquer situação. De facto, os portugueses são, e sempre foram desde as eleições presidenciais, a cara chapada e os ideais do Cavaco Silva. Eu, ao tocar no meu nariz, sinto a ponta afilada do nariz acavacado por baixo. É mais ou menos o que sentem os americanos, revendo-se nos lábios grossos do Obama (e antes, claro, reviam-se nos olhinhos pequeninos do Bush). Fielmente.

Paradoxalmente, toda a gente é contra os muçulmanos. Sim, o D. José Policarpo teve razão. Raparigas portuguesas, afastai-vos dos muçulmanos. De todo o rapaz muçulmano que a gente encontre, ainda que giro e quiçá outras coisas mais, só pode vir chatice final. Lembrai-vos da pancadaria que podeis apanhar e que em casas cristãs nunca se apanha, como sabeis. Lembrai-vos dessas relações castradoras que não as há com mais nenhuma religião. Lembrai-vos das regulações de poder paternal que são tão difíceis com muçulmanos caso vocês se divorciem (oh, hora abençoada) e tão suaves e fáceis com cristãos, muito embora de um cristão jamais vocês se devam divorciar, portanto, caso seja difícil, lembrai-vos que esse calvário é a paga pelo pecado da separação.



No entanto (e aqui reside o paradoxo da febre actual), Obama é de origem muçulmana - o seu pai era muçulmano (uso o verbo no passado porque o senhor já faleceu). De facto, Obama teve de vir a público dizer que não era praticante do Islão, o que é mais ou menos que eu dizer “Meus amigos, eu até acredito na Igreja Católica, mas não me condenem por isso, porque nunca vou à missa, ok?”. Os seus Serviços emitiram um desmentido de rumores sobre a sua prática dos preceitos religiosos islâmicos (que não incluem nada sobre as suas crenças, very smart, até porque ninguém tem nada a ver com isso) e explicaram que o seu nome é islâmico, sim senhor, e é tão só igual ao nome do seu pai, Barack Hussein Obama Jr., significando “o abençoado” (Barack) e “bom” e/ou “bonito” (Hussein). Quem diria que este segundo nome sofreria tal transformação aos olhos ocidentais, hã? Ainda há pouco, Hussein era nome de mass-killer e qualquer Hussein nos EUA era logo encostado à parede. Há coisas fantásticas, não há? Mas sobre isto também foi explicado que “Hussein é um nome comum” nessas terras inóspitas, obscuras e remotas de onde veio o pai do Sr. Presidente. Apenas se esqueceram de explicar que, segundo os preceitos e leis muçulmanas, filho de pai muçulmano é muçulmano (tal como filho de mãe judia é judeu)…

Mais risível ainda é ver os intelectuais portugueses (or so they like to be called) a vociferar contra as pessoas de sangue muçulmano - outra ridicularia, como se o sangue legitimasse ou não bondade - e a apoiar Obama.


Toda a guerra étnica, religiosa ou territorial consiste neste obtuso pensar que apenas e só o nosso povo é abençoado e os outros – ditos estrangeiros – são todos feios, porcos, maus e perigosos. Claro que a ignorância sobre o outro tem um papel predominante nesta linha de pensamento, mas não me alongo mais… Afinal, eu sou daqueles que nem aparece no mapa!

Thursday, January 15, 2009

Indizíveis Sobre a Vinda de um Menino

Enquanto temos os nossos pequeninos do tamanho de uma couve, todas as senhoras se recordam de como foi bom estarem grávidas e verem os filhos recém-nascidos. Mal comparado, é um bocado como ser jovem – todos nos dizem “Ah, como eu adorei passar por essa fase da vida! Passa tão rápido! Goza bem, que depois queres é voltar atrás!” 


É deixado a cada uma descobrir os tormentos inerentes à condição; é por isso que se inventaram tantos mitos absurdos à volta da gravidez e do pós-parto, sendo que as espertas das mulheres também se aproveitaram e construíram outros tantos, como a célebre ideia, muito divulgada, de que é necessário satisfazer os “desejos” da grávida. Por mim, nunca senti nenhuns, aparte aqueles que sinto sempre, porque de caprichos ocasionais todo o ser humano está cheio, esteja grávida ou não.


De qualquer forma, a mais importante questão é que nem tudo é celestial. A parte do inferno – e não querendo abusar da paráfrase do Sartre – são os outros. Explico melhor.


Durante a nossa maternidade em estágio (vulgo, gravidez), todas as mulheres nos contam como foi a sua gravidez e parto. Pormenorizadamente, fiquei a conhecer tudo, desde ventosas a forcéps, partos em que os bebés saem de nádegas a cesarianas, e pude estimar que muito pouca gente considera ter feito um parto normal. Mesmo aquelas que clinicamente o registam, acham sempre que o seu parto foi certamente anormal (ou na dor ou no tempo), o que até é correcto porque cada caso é único.


Também fiquei a par de todas as maleitas e desgraças que me haviam de acontecer. É curioso que antes de engravidar, todas nos encorajem a tal; depois de engravidarmos, dão-nos as más novas sobre a condição – passam a ser nove meses de vómito, varizes e horror o que nos espera e, por fim, a sentença de que “nunca mais voltarás a ser igual!” Pois, futuras mamãs, o bom é dizer sempre que sim, de rosto compungido, a toda a gente, ainda que nunca soframos de males semelhantes. É que as pessoas não o fazem por mal, mas por decalque da sua experiência ou por aquele gozo tão miseravelmente humano de observar uma aflição alheia.


Se pensam que o vosso rol de penas acabou quando dão à luz, estão muito enganadinhas. Ainda agora vai no adro. Saltando elegantemente por cima do parto (que no meu caso foi cesariana e, portanto, não é tão elegante como isso...), começa desde logo mais uma dança, e esta um pouco pior. Primeiro, o médico diz-nos para fazermos a nossa “vida normal”, excepto rir, chorar, discutir, espirrar, tossir, fazer força, levantar e deitar sem ajuda ou “qualquer outra coisa que envolva os músculos da zona afectada”. Desconfio que não sou a única pessoa que acha que a primeira parte da frase não faz sentido algum, dado que no quotidiano faz-se disso tudo abundantemente. Além disso, ninguém no Hospital respondeu à minha dúvida premente: o que aconteceria se eu, com os meus 18 agrafos prendendo a sutura, passasse perto de um íman? Nunca como agora tive tanto sonho desagradável de índole magnética.


Segundo, toda a gente pensa que sabe tratar melhor do bebé do que nós próprias. Quem inventou os telemóveis? Éramos bem mais felizes sem eles, digo eu. A seguir à chamada da bem intencionada tia dizendo que se deve deitar o bebé sempre de costas para baixo, segue-se o telefonema da experiente amiga recomendando que se deite o bebé sempre, mas sempre de lado e não é de desprezar a simpática opinião de uma ex-namorada do pai da criança que jura que muitos bebés morrem de morte súbita se não forem deitadinhos de costas. Caras mães, há duas hipóteses: podem sempre chocar as pessoas, revelando o vosso enigmático passado e dizendo do filho que tiveram naqueles anos em que andavam a fazer trabalho voluntário na Índia (afinal, nunca ninguém conhece a nossa vida tão bem como presume, não é?) ou podem aceitar, sorridentes, as palavras de todos e fazer o que bem entenderem (hipótese mais jeitosa para quem gosta de ser low profile).


Este corropio de conselhos começa logo na Maternidade. Por exemplo, o aconselhamento à amamentação. Acho muito bem, atenção. O que acho mal são as palavras escolhidas. A nós (mães do quarto triplo onde estava) disseram-nos: “Têm de aprender a usar o vosso corpo”. Convenhamos que não é a frase mais adequada. Toda a mulher deitada naquelas caminhas usou o corpo, de certeza, ou não se encontraria na presente condição. De facto, do que não queremos ouvir falar no momento é de voltar a usá-lo resultando no mesmo fim.


Depois, há os “invasores”. Às visitas de sala, convém notificar que estamos em muita má condição para sermos anfitriãs (lembram-se da tal vida normal à qual estamos limitadas?) Há também os que atacam o bebé, que estava tão tranquilo na sua sorna, e agora acorda num berreiro derivado das beijocas. Depressa percebi que não era a única mãe cansada das multidões, quando com um telefonema a minha colega de quarto despachou 16 sobrinhos, “pelo menos até chegar a casa, e então logo se vê como lido com eles”.


Finalmente, há o momento das comparações: o recém-nascido de dois kg tem o nariz do pai, a boca da mãe, as orelhas e o dedo mindinho curvado do tio Alfredo e uns suspeitos olhos cinzentos que angustiam e deixam cheios de incertezas os conhecidos da família. Serão verdes como os da avó? Escuros como os da mãe? Violeta como os da Elizabeth Taylor? Conclusão: nem quando nascemos, temos direito a ser nós próprios. Sim, mesmo “aquela maneira de chorar” é tal qual a do primo!


Há duas coisas nas quais passei a acreditar: primeiro que criar um bebé é como a História do Velho, do Rapaz e do Burro – toda a gente tem uma opinião diferente daquilo que estamos a fazer independentemente do que seja e, o que é mais, toda a gente se julga no direito de a verbalizar; depois que a depressão pós-parto afinal não existe: nenhuma mãe está deprimida consigo, por mais esburacada ou dorida que esteja porque não há tempo, com tanto trabalho extra e, sobretudo, com tanta fúria pós-natal.


De qualquer modo, toda a mãe se esquece rapidamente de si se pensar que o bebé está a passar pela maior revolução que passa um ser humano – ainda agora vivia no quente e de repente foi atirado para um mundo de estímulos bons e maus, aos quais tem de responder, a toda a hora, sem ensaio nem escolha. Ainda bem que nenhum de nós guarda memória disso…


Wednesday, November 19, 2008

Os Novos Pedintes

Qual é a grande característica da arte em Portugal nestes dias que vivemos? É ter a mão estendida. Não há artista, por pouco talento real que tenha que não haja aprendido este gesto de esticar o antebraço mais o braço e abrir a mão – e a boquinha -, proclamando que não estreia a sua produção / publica a sua obra (não raro “prima”) / sai da cepa torta porque não tem o apoio do Estado ou de um privado. Oh, quanto talento tragicamente escondido e perfidamente abafado temos entre nós pela malvada avareza governativa. Dói-me ver estes Fernandos, múltiplas Pessoas, estas Florbelas espancando-se, febris, estes Rodins partindo pedra inglória, estas Margot Fonteyn sem pontas pedinchando à beira das instituições e não raro dentro das próprias.


Até há pouco tempo, algumas artes estavam livres da esmola subsidiária. Quero dizer, dava-se dinheiro aos cineastas, por exemplo, para fazerem aqueles filmes espectaculares na lentidão e na diégese que ninguém percebia, excepto os próprios realizadores (se bem que tenho muita desconfiança acerca da relevância dos planos totalmente a branco e totalmente a negro e, sobretudo, do custo dos mesmos…); davam-se uns trocos aos compositores para algumas obras encomendadas, geralmente muito pouco melódicas e pobremente harmónicas, cuja função era a celebração de um evento nacionalista. Mas os escritores, por exemplo, sempre eram poupadinhos ao mecenato.


Hoje em dia, qualquer tipo que escreva umas balelas não só se considera escritor como se acha com talento suficiente para publicar – fora do blog que, certamente, já criou! – e ainda acha que para publicar merece que lho paguem. O pseudo-escritor português e/ou residente em Portugal (tomado como exemplo do pseudo-artista) tem uma árdua vida: escreve muito, mas são sobretudo cartas (de bajulação, de pedido, de amizade “pessoal” como se outro tipo de amizade houvesse…, de intervenção na vida da sua comunidade como crítico, de ódio a outros escritores mas na base da crítica puríssima e não raro “pessoalmente amiga” às obras destes), ou convites porque almoça e janta com quem é devido almoçar e jantar, ou ofícios porque concorre a todo o subsídio e concurso ao qual pode concorrer – é um especialista da chamada “maminha”.
Quando, finalmente, consegue alguma coisa, agradece? Nem por isso. O pseudo-artista é um “cospe na sopa” por natureza. Gosta de se lamentar que é um incompreendido, que caso lhe tivessem dado o devido valor a tempo ou caso ele vivesse noutro país (porque raio não emigram alguns é um mistério para mim…), poderia ser um Saramago ou mais ainda.


Bom, ainda bem que há anos atrás os nossos escritores não se deixaram deter por problemas destes! Imagine-se o que era Fernando Pessoa batendo o pé na casa de comércio onde trabalhava escrevinhando correspondência e dizendo: “Vocês nem sequer me dão condições salariais para acabar de produzir a Mensagem! Vão arrepender-se, cambada de vermes, pois eu serei lembrado pelo Harold Bloom n’O Canône Literário! You know not what tomorrow will bring! O futuro é meu! Ah ah ah!”


Sejamos pragmáticos: é impossível patrocinar tanta arte de bolso. Por mais rico que fosse um Estado ou uma entidade, não podia ser nunca a Nssa Sra do Abono das Artes.  Até porque a maior parte destes senhores podia aproveitar melhor o tempo na produção artística original do que na caça de beneficência. Todo o artista, e, para ser coerente, todo o escritor que sinta sê-lo, há-de sê-lo sempre, não importa em que situação se veja. Nunca se ouviu falar de um escritor que tenha deixado de escrever por ficar sem meios. Os meios interessam muito pouco e a própria publicação é totalmente uma ideia secundária para quem escreve por impulso interno, por febre ou por talento. A publicação aparecerá, cedo ou tarde e que importa esse quando?


Quanto aos incentivos do Estado, são muito mais vantajosos quando aplicados na outra face da moeda, isto é: não falta gente a publicar neste país, o que pode faltar, por comparação, é gente a ler o que se publica. Por falta de interesse, de conhecimento ou de dinheiro. Portanto, em vez de um apoio dado ao José que quer publicar o livro que escreveu para a Maria no aniversário de casamento deles e que consta de cinco poemas de três linhas cada um, é sempre mais útil um apoio que vise o estímulo ou o alcance de uma obra já disponível por parte das pessoas que não o podem fazer ou que querem aprender a fazê-lo. Porque se ajudarmos o público a lá chegar ou a entusiasmar-se por isso, também se abre a porta a todos os desgraçadinhos, coitadinhos cujos braços já doem de pedir dinheirinho… é que quanto mais público, mais artistas!

Friday, October 3, 2008

A Figura que é do Público

Uma revista canadiana, La Voix du Succès, tem uma rubrica completamente inusitada onde analisam psicologicamente uma figura pública e lhe dão, ademais, conselhos sobre como harmonizar o seu espírito intimamente e a sua vida, de acordo com as perturbações que o psicólogo de serviço crê ter-lhe encontrado.
Não se pense que a figura pública responde a questões ou que são retiradas informações de entrevistas que esta tenha dado ou de atitudes que tenha demonstrado. O psicólogo simplesmente interpreta o que conhece da personalidade em questão (conhecimento igual ao de qualquer espectador de TV ou leitor de jornal) mas pondo em acção a sua teoria académica e experiência profissional. O consentimento do analisado não é para ali chamado, o que é muito curioso num país com leis tão rigorosas em relação ao assédio (por exemplo). Porque não também em relação à privacidade?

Folheando um número antigo - de 2005/2006, e escolhi este por ser da época em que eu habitava no país - encontrei uma análise à vida da sra Michaëlle Jean, que tinha acabado de assumir o cargo de Governadora-Geral do canadá (não é coisa pouca...), sendo antes uma conhecida jornalista. Quando digo "à vida", faço-o no sentido literal, pois não só interessa a sua nomeação e mudança de estatuto de figura pública - ela já o era antes, bem entendido - como também o seu casamento com um cineasta, a sua maternidade mais ou menos recente, o facto de ser jovem e até a culpa máxima de ser bonita e elegante. Ranjam os dentes, Grrrrr. Haviam de lhe encontrar uma perturbação qualquer, à falta de um podrezinho demonstrado em público.
"Gostaria de realçar que não vou falar do indivíduo Michaëlle Jean, mas sim da personagem pública e sua função oficial. Ao tê-la aceite, ela tornou-se objecto de fascínio." Mas, mais à frente, salta logo é sobre a vida pessoal da dita, a "vida de casal" onde, segundo ele, "as coisas vão confundir-se, porque não mais haverá intimidade e [...] a sua função constrange a liberdade do par. Os papéis da relação são mal definidos (aqui apetece perguntar se, como homem, repugna ao senhor psicólogo que a Senhora Governadora tenha mais destaque que o marido?!) e, no casal, um realiza-se através do outro" (bom, em assuntos íntimos esta frase não me parece má, mas suspeito que não é de intimidade que aqui se trata, mas sim de um deles gozar do estatuto de figura pública só porque é par do outro, coisa que aqueles espíritos que não têm brilho por si próprios acabam sempre por fazer, sejam homens ou mulheres. Pois temos muita pena deles.).

Tenho a dizer que não li nada na análise de uma página que dissesse respeito à figura pública ou ao seu desempenho profissional, anterior ou actual. A senhora é julgada por viajar muito e, assim, "prejudicar a rotina de segurança do quotidiano da sua jovem filha" (há que dar uma medalha ao marido cineasta, decero sempre disponível dentro da sua esfera artística boémia). Interroga-se o psicólogo se a Madame Jean "saberá o que acarretam as responsabilidades do seu cargo e também as responsabilidades de mãe, dado que são incompatíveis. Poderá ela assumir tudo?" Interrogo-me se não haverá uma empregada lá em casa, ou uma ama contratada, que fique com a criança a maior parte do tempo, em vez do marido herói e socialmente deprimido. Além de que o senhor psicólogo certamente terá em conta que a Madame Jean pensou em tudo isto e muito mais antes dele e só ela sabe as linhas com que se vai cosendo e amargurando.


Quando questionado sobre a encarnação do sucesso que é esta figura pública, o senhor psicólogo responde que ela é "a projecção do sucesso", mas não mais pois é impossível conciliar tudo como Mme. Jean dá a impressão de fazer. Aqui, confesso que concordo, porque nalgum momento há que escolher e estar hiper realizado em tudo soa um bocadinho a falso...

A última questão: qual o conselho do psicólogo para uma maior estabilidade na vida da Senhora Governadora? Ele recomenda que Mme. preserve a sua vida íntima para que "a sua criança" - algo sempre susceptível de trazer uma lágrima aos leitores e leitoras mais sensíveis! - e ela própria encontrem "a harmonia possível". Subitamente, o marido já não interessa (deve ser naturalmente harmónico...); é de ressalvar o advérbio "possível", claramente indicativo de que "muita" harmonia não será, com certeza...

Ora, como é possível a Madame seguir este bom conselho vindo de quem escarafuncha a sua vida em detalhe, sem saber nada de concreto ou realista sobre a mesma?

Claro que se tudo isto se passasse numa terra geograficamente pequena como os Açores não seria necessária uma revista Voz do Sucesso. O "boca a boca" (não confundir com a respiração de emergência!) funciona muito melhor e rapidamente. Também não seriam necessários jornalista nem psicólogo encartados. Temos vários, sentados nos cafés ou de passagem pelas esquinas que, mesmo sem diploma, não se coíbem de exercer a experiência, afiando a língua.

Ainda mais curioso do que esta experiência é o facto de, com tanta assumida invasão do território privado e confusão deste com o domínio público, haver tanta gente ansiosa por se tornar figura pública. Sobretudo nesta época, nota-se uma verdadeira oferta de (quase) anónimos desejosos e frementes de serem do povo. Realmente, há senhores e senhoras cheios de despojamento e de coragem, não há?...



Monday, September 8, 2008

Geografia dos Sorrisos e Anatomia das Vítimas


Com certeza que já viram as famosas estatísticas (da World Values Survey, disponível online) que revelam onde, neste planeta, é que as pessoas se consideram mais felizes. Estas partiram de uma pergunta simples, que se pode traduzir assim: "Tomando tudo em conta, diria que é muito feliz, feliz, não muito feliz ou infeliz?" As estatísticas da felicidade, por país, foram medidas pelo número de pessoas que se classificou como "muito feliz" ou "feliz".
Espantosamente, Portugal ficou em 31º lugar. Mais abaixo, explico porque usei aqui o advérbio "espantosamente".

Os três primeiros lugares da tabela são ocupados pela Islândia, Suécia e Dinamarca. Admitamos, desde já, que os países nórdicos têm pouco de comum entre si, tanto em costumes como (ou ainda menos...) em sentimento de união, e que a Islândia não será "irmãzinha" da Suécia, por exemplo.

Surpreende-me que o povo sueco esteja em segundo lugar na lista dos mais felizes. Afinal, é um dos povos europeus com maior taxa de suicídio (estatísticas da World Health Organization, disponíveis também). Podemos discutir que estão apenas a exercer a sua liberdade, é certo. No entanto, folheando uma revista (umazinha só!, o Courrier International de Agosto) encontrei as seguintes notícias sobre a Suécia:

1) O Instituto Internacional de Defesa Sueco vai passar a ter livre acesso e a poder interceptar quaisquer e-mails, sms e chamadas telefónicas que os suecos recebam vindas do estrangeiro. Isto porque nunca se sabe quem é que recebe o que eles denominam "mensagens cifradas" de "forças negativas". Quem decide quais são não está especificado e quem descodifica as supostas cifras também não. Em Psicologia Aplicada não é a isto que se chama "paranóia"?...

2) Numa escola em Lund, os convites da festa de aniversário de um aluno de 8 anos foram confiscados pelo professor, porque ele não tinha convidado dois dos seus coleguinhas. A escola não tolera a discriminação: se há uma festa, todos os rapazes ou todas as meninas (gira, a separação!) têm de ser convidados. Como o pai deste menino não achou graça, levou o caso ao Parlamento sueco.
A relevância dos assuntos discutidos no Parlamento só têm comparação com a preocupação dada à vida íntima de cada cidadão expressa no ponto 1.

3) Os suecos costumam ir tomar a vodka que fabricam à Dinamarca, porque a política de consumo de álcool na Suécia é muito restrita (ok,"muito" depende do ponto de vista: nos bares é preciso ter 20 anos para consumir álcool com mais de 3.5% vol.). isto não faz com que deixem de beber, mas dificulta o trânsito marítimo seguro no estreito entre os dois países, sobretudo à noite. Mas quem quer saber dos acidentes marítimos extra-territoriais dos cidadãos quando nas estradas tudo corre bem? A imagem de um país está salvaguardada.

Bom, talvez o conceito de "felicidade" na Suécia seja um pouco diverso, não é?...

Por curiosidade, refiro que o 50º lugar da tabela da felicidade era da Bulgária. mas num país onde abanar a cabeça para os lados significa "sim" e e abaná-la para cima e para baixo significa "não" (ao contrário da maior parte dos países deste mundo), as pessoas devem andar verdadeiramente confundidas.

Mas voltemos a Portugal e ao advérbio que utilizei. Custa-me interiorizar que tanto habitante de Portugal se tenha considerado feliz quando o que vejo é que há um grande número de pessoas com tendência para a vitimização (estatísticas de Carla Cook, não disponíveis porque ninguém tem acesso à mente da mesma). Pessoas que, ao falarem de si, agem sempre como se o desenrolar dos acontecimentos da vida fossem independentes delas próprias e da sua vontade, quanto mais da sua acção.
Antigamente, havia a noção fatalista do destino; hoje, está na moda a noção enjoadinha - ainda por cima, falha de sentimento e sobre a qual ninguém escreverá romances trágicos - da vítima. A vítima é aquele pobre ser a quem tudo de mal acontece sem que ele tenha culpa de nada, já se vê, porque é uma pessoa impecável e sabe Deus como é que os outros (ou seja, o restante Mundo) lhes estão sempre a passar incríveis rasteiras impiedosamente. Claro que é muito mais fácil adoptar esta atitude passiva e queixinhas perante a própria existência, porque assim se descarta de todas as responsabilidades acerca do que faz - a Culpa é sempre das outras pessoas (de toda a gente, menos do ser a quem se lamenta no momento).

É espantoso como a malta que se vitimiza obtém sucesso. É a senhora que faz beicinho e suspira "que não pode mais de calor e vai desmaiar" e passa à nossa frente e à frente de mais dez na fila, apesar de estarmos todos à espera há mais de três horas, alguns de nós terem crianças ao colo e outros serem seniores; é o colega que "tem e sempre teve dificuldades na vida" com eterna baixa, quando somos nós que estamos doentes e o vemos a passear as suas dificuldades na praia enquanto vamos a caminho do médico, atafulhados em papéis do serviço que devia ser ele a fazer; é a amiga que nos acorda às três da manhã porque se vai suicidar se não a formos já buscar porque "está perdendo a cabeça por este homem" que a deixou e nós vamos a correr, em pijama, aflitíssimas, para a encontrar perfeitamente bem, arqueando a sobrancelha e dizendo "olha, vieste depressa!".

Não há paciência. Apetece oferecer uma viagem low-cost a esta gente. Podia ser para a Suécia, já agora.


Monday, July 28, 2008

O Problema do Verão

O problema do Verão são as férias. As férias (tal qual como o Natal no Inverno) obrigam as famílias a passarem tempo juntas. Durante o chamado “ano lectivo” - que se prolongou imenso nos últimos anos para gáudio dos pais e desespero dos professores - as famílias podem fugir umas às outras com elegância e, sobretudo, com desculpas socialmente aceitáveis e necessariamente produtivas. Mas no Natal e naquele fatídico mês estival que os empregos chamam ironicamente de “descanso”, há que fazer qualquer coisa em conjunto, nem que seja pela primeira razão apontada (a social, pois claro!).


Não é por acaso, senhoras e senhores, que o maior índice de divórcios é em Janeiro e em Setembro. Ou seja, é quando as pessoas se dão conta (e outras, mais honestas ou experientes, admitem) que não se suportam. No resto do ano, é mais ou menos fácil segurar uma relação que se vai aguentando, ponta de conveniência aqui, falso jantar com amigos acolá. Agora nestas épocas, há que enfrentar o seio familiar.


Os adolescentes safam-se como podem: acampar com amigos, concertos de Verão, saídas à noite, etc. Poucas coisas haverá de tão aborrecidinhas para um teen como ter de passar as férias familiares com o resto da tropa caseira. Os pais que só têm filhos adolescentes tremem mais de medo do que os restantes, porque vão ter de estar sozinhos. A quantidade de casais que já não sabem estar sozinhos é enorme, dado que a maior parte confia nos filhotes para fazer conversa entre ambos, melhor dizendo entre os três, os quatro e por aí fora.


Mas há ainda uma hipótese salvadora, pais em aflição! Quando tiverem de falar só os dois, nesse estranho e revolucionário momento em que olham um para o outro e pensam como foram aí parar há dezassete anos atrás, podem falar exactamente sobre os filhotes desertores. Afinal, é um tópico seguríssimo e dá para horas. Quanto mais problemático o filho, mais tempo de conversação.


As famílias que têm mesmo de partir para férias carregadas com as criancinhas pequenas escolhem, regra geral, a casa dos avós como destino. Pais em vias de fazer as primeiras férias, segui este conselho dos mais experientes e toca de fazer o mesmo: a casa dos avós é como uma segunda habitação. Em primeiro lugar, é muito difícil haver lugar a discussões porque “não queres que a minha mãe ouça, pois não?”. Também é verdade que nem sempre é fácil haver lugar a grandes tropelias (“mas onde é que elas já vão…”, pensará a maior parte de vocês!) com a mamã a bater à porta para saber se querem um chazinho. De qualquer modo, as mulheres sentem-se mais descansadas porque mais livres das tarefas domésticas, junto da mamã. Os homens, como sempre, estão na maior onde houver um sofá e um jornal onde enterrar a cabeça para fingir que não estão a ouvir.


Há umas férias delicadas quando os avós, na melhor das intenções, se oferecem para ficar com os netos “para que o casal possa gozar umas férias a sós”. Às vezes, é mesmo impossível recusar, sobretudo quando os bons dos avós pagam as passagens ao casal para que vão passear em segunda lua-de-mel a um sítio exótico. Casais, a coisa melhor a fazer é ir, senão os avós desconfiam imediatamente! Lembrem-se que a idade traz muita manha e eles próprios já passaram por isso tudo que estão vocês a passar agora. Enganar os vossos pais só porque vocês já são adultos casados não é nada, nada fácil… Na maior parte das vezes, eles usam esse truque quando começam a ver a vossa vida a dois na curva perigosa. Sim, os nossos pais são tudo menos inocentes.


Nessa segunda lua-de-mel (sem doçura nenhuma e sem olhares para o astro nocturno, como previsto…), há que ter muitíssimo bom humor para aguentar aqueles hábitos dos quais se fugiu o ano inteiro, com estratégias tais como refeições nunca tomadas em conjunto, insónias, trabalho extra e paracetamol para as dores de cabeça que “sempre se teve”. Quando a paciência chega ao fim após horas a discutir em cima de um mapa o sentido a tomar para chegar à Ponte de não sei onde e ao Museu de não sei quê, vão para o primeiro café que encontram, por acaso muito semelhante ao de lá do bairro mas cinco vezes mais caro. É aí que a mulher, muito infeliz, desata a choramingar porque ele jamais a compreendeu (sendo “jamais” os últimos dez anos). O homem, muito mais comedido em público, pensa consigo próprio que terá ele feito para merecer esta criatura. Não raro discutem mesmo a sério, com todas as palavras que tinham arrumadas e guardadinhas no resto desse ano onde se viram o menos possível, já que estão livres da presença conciliadora das crianças e dos laços constrangedores da sociedade onde vivem habitualmente.


No fim dessa encantadora viagem, voltam a casa com a mala cheia de presentes para os filhos e um para os avós. Mandaram os postais da praxe aos amigos. “Não te esqueceste de ninguém?” pergunta ela, preocupada se terão esquecido de referir a felicidade matrimonial de mais um bem passado Verão a algum conhecido. Mas não, foi tudo tratado. Até ao próximo ano, se se conseguir chegar lá. Uf!


Tuesday, July 15, 2008

Os Heróis Precisam dos Gregos

“It was one of the few moments in my life that I was
 fully aware of being on the brink of a great experience.
And not only aware but grateful, grateful for being alive,
grateful for having eyes, for being sound in wind and limb,
for having rolled in the gutter[…], for having done everything
that I did do since at last it culminated in this
moment of bliss.”
Henry Miller, The Colossus of Maroussi












Se eu fosse uma mulher generosa a dar conselhos, e além disso sapiente, acreditando que a minha (breve) experiência de vida vos serviria de alguma coisa, poderia dar-vos uma recomendação de destino de férias e de leitura. Porém, jamais as ofereço, porque há uma zona no meu cérebro que, quando ouve uma bem intencionada recomendação, relembra imediatamente óleo de fígado na sopa. Para além desta memória de prenda envenenada, estou sinceramente convicta que ainda me falta ver muito Mundo – no sentido mais lato possível da palavra - para começar a aconselhar.




Decidi, simplesmente, falar-vos de um livro pouco conhecido, embora o seu autor o seja sobejamente. De facto, já todos ouviram falar de Henry Miller (1891-1980), quanto mais não seja pelo facto do seu livro O Trópico de Câncer ter levado a uma série de processos em tribunal em ‘61 que questionaram as leis da pornografia nos EUA. As suas obras ousadas do ponto de vista da sexualidade (algumas autobiográficas, como a trilogia na qual descreve a sua vida após o divórcio da primeira mulher) tornaram Miller famoso, ofuscando os seus outros livros – a correspondência com outros autores onde se dedica à reflexão filosófica e à crítica social, as novelas surrealistas, os ensaios de crítica literária, as short-stories ou a vasta literatura de viagens que produziu.




De entre os últimos, destaco a mais interessante e inesperada viagem – Miller nunca teria embarcado se não tivesse ouvido a descrição da Grécia feita pela sua companheira de casa, que lhe pintou “a world of light such as I had never dreamed of and never hoped to see”. Desta ideia e de uma mitificação toda feita da combinação artística entre o sonho e o real, a História e o Mito criada em Miller pelas cartas constantes recebidas de Corfu, onde morava o seu amigo Lawrence Durrel (também ele escritor), nasceu o desejo inadiável de partir para as Ilhas Gregas.




A viagem aconteceu em 39-40 e o relato vívido, cativante, verdadeiro de um país e de um povo que tão pouco mudou no seu essencial arquetípico e personalístico e tanto mudou no acessório fácil que o turista distraído apreende ao primeiro olhar chama-se The Colossus of Maroussi.




Durrel acompanha Miller da capital em diante, dando-lhe ainda a conhecer várias outras fascinantes personagens. Miller torna-se um admirador dos gregos, que, segundo ele, preservam as qualidades humanas que parecem ter sido esquecidas no resto do Mundo: a paixão pela vida, a generosidade, o quase total desprezo pelo material, o conforto na vida simples e também a confusão agradável do caos e a assumpção de um não resolvido espírito contraditório. Esta gente agrada-lhe tanto mais quanto representa a antítese ao seu próprio povo – os americanos absurdamente capitalistas – se bem que Miller faça também comparações com os ingleses (dominadores na época da ilha de Corfu não tendo os nativos em grande consideração), cuja aristocracia falha por ser demasiado forçada, e os franceses (pois era em Paris que Miller habitava), cujo requinte era totalmente desprovido de um afecto espontâneo e natural.




A admiração de Miller encontra valor simbólico no poeta grego Katsambalis, o Colosso que figura no título. Katsambalis é um encantador pela palavra, pelo seu sentido de aventura interior maior que a vida, por fazer crer que o génio (ao invés da mediocridade) é a norma: “The task of genius, and man is nothing if not genius, is to keep the miracle alive, to live always in the miracle, to make the miracle more and more miraculous.” Da vida, Katsambalis tira mais vida, como quando imita um galo a cantar de madrugada em plena Acrópole e lhe respondem vários galos, despontando, assim, a manhã.




Miller guarda também da Grécia a incomparável paisagem semelhante a uma tela (importante para quem, como ele, pintava), as limpas e modestíssimas pousadas, o humor de se encontrar num barco repleto de gente, animais e carga dentro do mesmo espaço ou de enfrentar o perigo e o enjoo de uma vez só, ambos profunda e teimosamente. Também não esquece a língua grega, que é “para poetas, não para mercadores”, flexível, amante, uma língua para homens que precisam de se inventar em heróis.




The Colossus of Maroussi não é um elogio gratuito à Grécia. Fala também da sua rudeza ocasional, da sua falta de meios na província, da sua loucura intempestiva. Mas é, sem dúvida, o relato mais verídico de um périplo pela Grécia. Todos os que lá foram com olhos de ver (logo, fora dos sítios de boom turístico) ou lá viveram sabem que é um lugar onde o vento, a água, a terra e o fogo são eles mesmos, em estado puro. Só isso, combinado com o aroma ancestral da História e a carga do Mito, fazem da Grécia sem rival.



Nota: A foto que publiquei a acompanhar o artigo foi uma foto diferente, da Ilha de Mykonos. Esta é da ilha de Syros. Uma espreitadela à foto original aqui: ...