... "And now for something completely different" Monty Python

Monday, July 27, 2009

Boca Cheia Não Reclama

No dia 2 de Julho, vim num daqueles voos co-shared entre as nossas companhias (pois é escusado dizer quais se não temos mais nenhumas) entre Lisboa e a Horta. Estava o aeroporto numa enorme confusão, pois bem sei que era o voo da manhãzinha, está tudo vesgo de sono, mas isso não justificava tanta agressividade latente e uma fila que dava a volta ao terminal 2 (sabem qual é, aquele que prova que o aeroporto da nossa capital não é de terminal único). Apesar da má disposição geral, muita gente me ofereceu o seu lugar na (monstruosa) fila, dado que eu carregava um bebé que não sabe andar. Recusei. Não por orgulho mas porque só aceito quando realmente estou desesperada de cansaço – quando estava grávida também nunca aproveitei essas benesses e há poucas coisas que detesto tanto como aquelas velhinhas que dizem “ah, menina, não se importa que eu passe?” quando eu estou ali à espera há meia hora e elas acabaram de chegar há dois minutos (quando eu for velha, espetem-me este artigo, sff).


Muito me arrependi de ter recusado, pois quando chego ao check-in, a senhora diz-me que não há lugares no avião. Como não? Eu estou confirmada, jamais estive em lista de espera, paguei bilhete, e tudo o mais. Ela, muito atrapalhada, diz-me que há passageiros a mais e avião a menos.


Como já tive todo o tipo de situações – de malas roubadas e devolvidas sem o conteúdo a voos de ligação cancelados, fazendo perder o voo principal e nada de reembolsos, etc, etc - que já deram origem às minhas cartas de reclamação, sempre respondidas com uma carta tipo que começa com “Lamentamos o sucedido…”, não fiquei lá muito surpreendida com este overbooking. Fiz só um levantar da sobrancelha e um tamborilar dos dedos, enquanto perguntava “E então?” 


Mas a senhora, muito simpática (e claramente stressada, revolvendo os meus bilhetes) disse-me que não havia problema algum, pois dado que eu tinha um “infant”, tinha prioridade máxima e que ela havia de me meter no avião, não importa como. Agradeci e já me estava a ver qual pequena sentada no joelho do comandante, mais bebé acoplado na parte ventral. Giro, mas incómodo para quem não ama de paixão aviões nem tem particular amor por fardas. E talvez o Sr. Comandante não se sentisse à vontade com um bebé resmungando de sono no cockpit.


Então, fizeram-me um upgrade para executiva (a mim, que sou uma mulher muitíssimo económica). Fui, dardejada pelos olhares maldispostos dos outros passageiros, muito compreensivelmente. Oh, quantas mulheres não desejaram ser mães de infantes naquela altura para poderem ir para casa a tempo e horas! Oh, quantas sofreriam de bom grado os desconfortos de viajar junto dos senhores executivos, sempre tão descoloridos dentro dos seus fatinhos arrumadinhos, que odeiam bebezinhos.


Já dentro do avião, descobri o segredo do overbooking, se assim se pode dizer… Depois do desvio do avião anterior Lisboa-Horta para a Terceira devido ao mau tempo, tinha sido decidido mandar os passageiros de volta para Lisboa ao invés de os encaminhar para a Horta- uma decisão sábia e ambientalista, que poupa muito combustível num mundo em que recordo ouvir dizer há bem pouco tempo que os transportes eram a próxima grande aposta para reduzir a pegada ecológica… Pois.
Então, os passageiros desse voo estavam agora enfiados no “meu” voo e portanto eis um voo duplo num só avião que rebentava pelas suas costuras metálicas.


A tripulação de bordo, que estava a ouvir – tal como eu – esta história só dizia que isto era incrível e que as coisas iam de mal a pior e de pior a chocante. Convém aqui dizer que as tripulações e as pessoas que nos atendem nos aeroportos não têm culpa das decisões superiores… menos ortodoxas. Embora sejam eles a levar com as nossas “trombas” e, ocasionalmente, com algum vomitado infantil (também ajuda à reclamação).
Quando desembarquei e contei este pequeno acontecimento, comentaram “Oh, mas que sorte tiveste! Afinal, à conta disto, até vieste em executiva! Comeste bem, descansaste melhor, terias um berço para o bebé se quisesses… Portanto, não te queixes!”


Claro que me queixo. Queixo-me do péssimo serviço que se anda a prestar às pessoas, independentemente de eu ter saído beneficiada. Porque muitos outros cidadãos, menos afortunados do que eu, não o foram. E nem sempre eu estarei a cantar vitória. As pessoas facilmente se esquecem da sua transitoriedade – nem sempre estarão na mó de cima… - e, o que é mais, da solidariedade. Portanto, aqui fica o meu protesto assinado ao invés de ser murmurado pelos corredores. Lamento muito se dói a alguém mas boca cheia também reclama quando a boca do vizinho não comeu.


Friday, June 12, 2009

Europa Por um Canudo

Há vários anos atrás, ganhei uma bolsa para estudar em Amsterdam. Viver é escolher, portanto fui. Como todos sabemos, não é preciso saber neerlandês para sobreviver ali (graças aos Céus, pois poucas línguas são tão antipáticas à garganta, com perdão aos holandeses que me estão a ler e eu sei que os há), dado que metade da população de Amsterdam é composta por estrangeiros. Realmente, na Universiteit havia de italianos a japoneses, passando por húngaros, russos, indonésios, polacos, britânicos, o que a gente quisesse tirar do menú… e até encontrei na minha turma uma portuguesa, “mas não açoriana, eu já sou mesmo da Europa”, como ela fez questão de me dizer. O ridículo deste acrescento ainda hoje me vem à memória quando ouço e leio algumas picardias. Mas já lá vamos…


De facto, a minha colega portuguesa foi a única com quem não fiz Amizade. Daquela Amizade a sério, com direito a partilha de confidências e de abraços. Não me considero com menos mística nacional do que os demais portugueses nem estava com sede de estrangeirismos sob que forma fossem (até porque vivia no meu país com um estrangeiro e não falávamos português em casa…), mas incomodou-me sempre um certo espírito de bairro que nela era muito patente. Sim, o amor à nossa vila ou cidade é muito bom e até muito desejável, mas não quando nos venda os olhos à universalidade do sentir e do pensar. Antes deve essa paixão primeira ser a base que sustenta o amor pelo mundo em toda a concepção humanista.


Esta reflexão vem a propósito de alguns artigos de opinião que tenho lido sobre as eleições Europeias. Jamais me pronunciei sobre política e continuarei a não o fazer, simplesmente porque há tantas coisas interessantes neste(s) mundo(s) que essa nunca chega a ocupar a minha lista – já para falar no facto de ser o primeiro assunto da lista de quase todos os meus colegas cronistas, o que tornaria este espaço redundante e francamente anacrónico. Portanto, acalmem-se os que pensam que vou aqui descascar essa banana… O caso é outro.


Como pessoa (a palavra cidadã anda muito desgastada, que diriam os gregos se vissem o uso que lhe deram?), perturba-me e desgosta-me que tanta gente se distraia com o local de nascimento dos candidatos açorianos ao Parlamento Europeu. Porque é que se hão-de escrever crónicas, de olhos postos na Europa, defendendo os interesses “da nossa terra” mas reduzindo a nossa terra à nossa rua? Para quê a preocupação com o facto de uma candidata ser de S. Miguel e de outro candidato ser do Faial, mas “ser deputado por S. Miguel”, atenção! Parece-me deplorável ter em linha de conta a naturalidade de alguém para ajuizar da sua competência e/ou carácter, sendo ademais certo que a naturalidade é algo, hoje, muito volúvel e nada de fielmente correcto (o meu filho, por exemplo, é natural da Horta segundo o seu registo de nascimento e é vox populi que nasceu em Ponta Delgada).


Não há paciência para esta guerrilha ilhoa. Mas muito menos há paciência para uma questão tão mesquinha e para um pensamento tão pequenino quando estes analistas de pacote se predispõem a fazer estas reflexões tendo em vista a nossa representação na Europa - um bocadinho maior que a rua deles e portanto merecendo um pensamento mais largo…


É até de tremer pensar que estes senhores e senhoras  analistas  e comentadores cheios de profundo disparate verboso, que, como dizia um antigo colega meu, “dizem asneiras com grande distinção” não são apenas cidadãos (o que já seria dizer muito!). Não. Estes senhores têm esperança de deixar o empedrado recente da sua rua e vir a ser “mais qualquer coisinha”, muito embora as suas plataformas de diálogo não se abram à defesa do que é ser humano, mas sim do que é ser da sua equipa; vêem uma árvore, ignoram a floresta.


Antes mil  escritores maus do que um crítico de literatura frustrado…

Friday, May 29, 2009

Longa Vida aos Sapatos do Morto


Na terra da minha avó, dizia-se que era de muito mau agouro enterrar um homem descalço. Perdem-se no tempo as origens desta superstição – seria ele mal recebido no Céu caso aparecesse sem botas? Certo é que se fazia mesmo o possível por enterrar as pessoas bem calçadas, com sapato engraxado e atacadores novos.
Ora quando morreu o Zé Latas levantou-se um problema muito sério. O Zé Latas era o vagabundo oficial da terra. Isto não é de espantar, toda a terra pequenina tem o seu, um pobre coitado que caíra em desgraça há já muitos anos e nunca mais se conseguira levantar. Talvez por falta de sapatos, quem sabe…


Fora de ironias, o Zé Latas vivia das esmolas de uns e de outros, vestia sempre os mesmos trapos e claro que sapatos não tinha. Também não tinha família, e, portanto, não se lhes podia ir pedir uma vestimenta condigna para enterrar o homem. Caixão arranjou-se, o Padre tomou conta do assunto. Deu-se então na terrinha uma onda de solidariedade pelo morto Zé Latas como nunca se vira pelo homem Zé Latas enquanto vivo – choveram camisas interiores e das outras, calças e casacos, peúgas novas em folha, houve mesmo quem desse um fato e uma gravata! E os sapatos, lustrosos, como devem ser, não ficaram atrás.


Acontece que o morto não colaborou. Era mesmo de esperar que o patife do Zé Latas, preguiçoso e bêbado, não quisesse fazer a sua parte… Pois por um não raro fenómeno nos mortos, o Zé Latas inchou. Aparentemente, e segundo o médico da terrinha “eram gases”. Credo, Sr. Dr., o homem não está morto? perguntavam as beatas. “Confirmo o Rigor Mortis. Mas os gases dentro do estômago e intestinos dos mortos, muitas vezes, acabam por sair e depois eles incham assim… Não se preocupem, o tipo não ressuscita!” dizia o médico, muito senhor da sua ciência em terra de cegos. Senhor, benzei-nos.


Morto mas muito mais gordo, não havia roupa que servisse ao Zé. E a caridade alheia que lhe dera um fato não dava dois para o bêbado maltrapilho oficial do vilarejo.


Felizmente, estava-se na altura em que começava a aparecer a mosca de Verão, quer-se dizer, a emigrantada, essa mosca um bocado mais gorda que aquilo que o Zé Latas estava. E logo sempre prontos a auxiliar os da sua terra, porque os viam muito pouco e estavam saudosos daquela miséria quentinha tão diferente do frio impessoal e endinheirado que tinham no dia a dia, disseram “Vamos vestir este morto, este pobre de Cristo!” E assim o fizeram.


No dia do enterro, toda a terrinha compareceu. O caixão estava aberto durante a missa para melhor se ver a roupa que calhava bem com o ar cheio e perfeito do morto, que nunca em vida parecera tão saudável. Tivera de ser uma roupa que lhe servisse, umas coisas americanas, largas, grandes. O Zé Latas estava de escuro e tivera de se vestir com roupa desportiva, mas tudo de marca boa! E cara. Mas o importante era nos pés balofos a ostentação de uns ténis, novos e sem um risco! O pé do morto muito virado para fora deixava mostrar na sola dos ténis, por debaixo da marca, em grandes letras, esta frase apropriada à ocasião:


“Nike - Long life tennis shoes”…


Monday, February 16, 2009

O Faial, uma Área Remota e Obama, um Muçulmano Perigoso

Decidi fazer algumas compras pela Internet, coisa que nunca faço. Parecia simples, vinham por um serviço postal rápido que garantia entrega em todo o lado. Era tão eficaz que, diariamente, eu fui recebendo um e-mail sobre a evolução do paradeiro da encomenda. Até que me telefonaram. Estava encravada.

“Sorry, ma’am (gosto muito quando me tratam por s’óra, é sempre um sinal de respeito à idade que faço por ter, e que até ao telefone se nota), we cannot deliver your package immediatly”.

Depois de eu ter perguntado porquê, o senhor explicou-me: “We just found out you live in a remote area”. E ainda me deu uma leve admoestação por eu não ter avisado a companhia postal que vivia num sítio obscuro e inacessível, segundo eles. Demoraram bastante tempo para o encontrar no mapa. Nalguns mapas, nem existia. De facto, telefonaram para ter a certeza que eu não estava a gozar com a companhia, dando um endereço phoney… (a tradução para isto em português não é tão boa, se eu digo “falso” falta aquele toque trocista que a palavra em “americano” tem).

Garanti que morava mesmo no fim do mundo e que era seguro entregar coisas cá - nem sequer serpentes temos, pelo menos das que são bichos. O homem diz-me que seria impossível adivinhar pelo meu nome que eu vivo onde Judas perdeu as botas: “Your name sounds decent.” Yeah, right. Se em vez de Carla Cook eu me chamasse, por exemplo, Ahorangi Waitakere (fantástico nome mahori) já seria legítimo esperar coisas terríveis do meu habitat, e de mim apenas o pior.


E por causa de nomes, agora toda a gente é fã do Obama. É quase tão “in” e tão nova-vaga ser fã do Obama como gostar de jazz e usar óculos escuros à noite. Oh sim, eu sempre detestei o povo americano sobre a administração Bush mas agora que o Obama é presidente reconheço que a América é uma nação extraordinária. Esperam-se grandes coisas. Um povo é seguramente o seu Presidente em qualquer situação. De facto, os portugueses são, e sempre foram desde as eleições presidenciais, a cara chapada e os ideais do Cavaco Silva. Eu, ao tocar no meu nariz, sinto a ponta afilada do nariz acavacado por baixo. É mais ou menos o que sentem os americanos, revendo-se nos lábios grossos do Obama (e antes, claro, reviam-se nos olhinhos pequeninos do Bush). Fielmente.

Paradoxalmente, toda a gente é contra os muçulmanos. Sim, o D. José Policarpo teve razão. Raparigas portuguesas, afastai-vos dos muçulmanos. De todo o rapaz muçulmano que a gente encontre, ainda que giro e quiçá outras coisas mais, só pode vir chatice final. Lembrai-vos da pancadaria que podeis apanhar e que em casas cristãs nunca se apanha, como sabeis. Lembrai-vos dessas relações castradoras que não as há com mais nenhuma religião. Lembrai-vos das regulações de poder paternal que são tão difíceis com muçulmanos caso vocês se divorciem (oh, hora abençoada) e tão suaves e fáceis com cristãos, muito embora de um cristão jamais vocês se devam divorciar, portanto, caso seja difícil, lembrai-vos que esse calvário é a paga pelo pecado da separação.



No entanto (e aqui reside o paradoxo da febre actual), Obama é de origem muçulmana - o seu pai era muçulmano (uso o verbo no passado porque o senhor já faleceu). De facto, Obama teve de vir a público dizer que não era praticante do Islão, o que é mais ou menos que eu dizer “Meus amigos, eu até acredito na Igreja Católica, mas não me condenem por isso, porque nunca vou à missa, ok?”. Os seus Serviços emitiram um desmentido de rumores sobre a sua prática dos preceitos religiosos islâmicos (que não incluem nada sobre as suas crenças, very smart, até porque ninguém tem nada a ver com isso) e explicaram que o seu nome é islâmico, sim senhor, e é tão só igual ao nome do seu pai, Barack Hussein Obama Jr., significando “o abençoado” (Barack) e “bom” e/ou “bonito” (Hussein). Quem diria que este segundo nome sofreria tal transformação aos olhos ocidentais, hã? Ainda há pouco, Hussein era nome de mass-killer e qualquer Hussein nos EUA era logo encostado à parede. Há coisas fantásticas, não há? Mas sobre isto também foi explicado que “Hussein é um nome comum” nessas terras inóspitas, obscuras e remotas de onde veio o pai do Sr. Presidente. Apenas se esqueceram de explicar que, segundo os preceitos e leis muçulmanas, filho de pai muçulmano é muçulmano (tal como filho de mãe judia é judeu)…

Mais risível ainda é ver os intelectuais portugueses (or so they like to be called) a vociferar contra as pessoas de sangue muçulmano - outra ridicularia, como se o sangue legitimasse ou não bondade - e a apoiar Obama.


Toda a guerra étnica, religiosa ou territorial consiste neste obtuso pensar que apenas e só o nosso povo é abençoado e os outros – ditos estrangeiros – são todos feios, porcos, maus e perigosos. Claro que a ignorância sobre o outro tem um papel predominante nesta linha de pensamento, mas não me alongo mais… Afinal, eu sou daqueles que nem aparece no mapa!

Thursday, January 15, 2009

Indizíveis Sobre a Vinda de um Menino

Enquanto temos os nossos pequeninos do tamanho de uma couve, todas as senhoras se recordam de como foi bom estarem grávidas e verem os filhos recém-nascidos. Mal comparado, é um bocado como ser jovem – todos nos dizem “Ah, como eu adorei passar por essa fase da vida! Passa tão rápido! Goza bem, que depois queres é voltar atrás!” 


É deixado a cada uma descobrir os tormentos inerentes à condição; é por isso que se inventaram tantos mitos absurdos à volta da gravidez e do pós-parto, sendo que as espertas das mulheres também se aproveitaram e construíram outros tantos, como a célebre ideia, muito divulgada, de que é necessário satisfazer os “desejos” da grávida. Por mim, nunca senti nenhuns, aparte aqueles que sinto sempre, porque de caprichos ocasionais todo o ser humano está cheio, esteja grávida ou não.


De qualquer forma, a mais importante questão é que nem tudo é celestial. A parte do inferno – e não querendo abusar da paráfrase do Sartre – são os outros. Explico melhor.


Durante a nossa maternidade em estágio (vulgo, gravidez), todas as mulheres nos contam como foi a sua gravidez e parto. Pormenorizadamente, fiquei a conhecer tudo, desde ventosas a forcéps, partos em que os bebés saem de nádegas a cesarianas, e pude estimar que muito pouca gente considera ter feito um parto normal. Mesmo aquelas que clinicamente o registam, acham sempre que o seu parto foi certamente anormal (ou na dor ou no tempo), o que até é correcto porque cada caso é único.


Também fiquei a par de todas as maleitas e desgraças que me haviam de acontecer. É curioso que antes de engravidar, todas nos encorajem a tal; depois de engravidarmos, dão-nos as más novas sobre a condição – passam a ser nove meses de vómito, varizes e horror o que nos espera e, por fim, a sentença de que “nunca mais voltarás a ser igual!” Pois, futuras mamãs, o bom é dizer sempre que sim, de rosto compungido, a toda a gente, ainda que nunca soframos de males semelhantes. É que as pessoas não o fazem por mal, mas por decalque da sua experiência ou por aquele gozo tão miseravelmente humano de observar uma aflição alheia.


Se pensam que o vosso rol de penas acabou quando dão à luz, estão muito enganadinhas. Ainda agora vai no adro. Saltando elegantemente por cima do parto (que no meu caso foi cesariana e, portanto, não é tão elegante como isso...), começa desde logo mais uma dança, e esta um pouco pior. Primeiro, o médico diz-nos para fazermos a nossa “vida normal”, excepto rir, chorar, discutir, espirrar, tossir, fazer força, levantar e deitar sem ajuda ou “qualquer outra coisa que envolva os músculos da zona afectada”. Desconfio que não sou a única pessoa que acha que a primeira parte da frase não faz sentido algum, dado que no quotidiano faz-se disso tudo abundantemente. Além disso, ninguém no Hospital respondeu à minha dúvida premente: o que aconteceria se eu, com os meus 18 agrafos prendendo a sutura, passasse perto de um íman? Nunca como agora tive tanto sonho desagradável de índole magnética.


Segundo, toda a gente pensa que sabe tratar melhor do bebé do que nós próprias. Quem inventou os telemóveis? Éramos bem mais felizes sem eles, digo eu. A seguir à chamada da bem intencionada tia dizendo que se deve deitar o bebé sempre de costas para baixo, segue-se o telefonema da experiente amiga recomendando que se deite o bebé sempre, mas sempre de lado e não é de desprezar a simpática opinião de uma ex-namorada do pai da criança que jura que muitos bebés morrem de morte súbita se não forem deitadinhos de costas. Caras mães, há duas hipóteses: podem sempre chocar as pessoas, revelando o vosso enigmático passado e dizendo do filho que tiveram naqueles anos em que andavam a fazer trabalho voluntário na Índia (afinal, nunca ninguém conhece a nossa vida tão bem como presume, não é?) ou podem aceitar, sorridentes, as palavras de todos e fazer o que bem entenderem (hipótese mais jeitosa para quem gosta de ser low profile).


Este corropio de conselhos começa logo na Maternidade. Por exemplo, o aconselhamento à amamentação. Acho muito bem, atenção. O que acho mal são as palavras escolhidas. A nós (mães do quarto triplo onde estava) disseram-nos: “Têm de aprender a usar o vosso corpo”. Convenhamos que não é a frase mais adequada. Toda a mulher deitada naquelas caminhas usou o corpo, de certeza, ou não se encontraria na presente condição. De facto, do que não queremos ouvir falar no momento é de voltar a usá-lo resultando no mesmo fim.


Depois, há os “invasores”. Às visitas de sala, convém notificar que estamos em muita má condição para sermos anfitriãs (lembram-se da tal vida normal à qual estamos limitadas?) Há também os que atacam o bebé, que estava tão tranquilo na sua sorna, e agora acorda num berreiro derivado das beijocas. Depressa percebi que não era a única mãe cansada das multidões, quando com um telefonema a minha colega de quarto despachou 16 sobrinhos, “pelo menos até chegar a casa, e então logo se vê como lido com eles”.


Finalmente, há o momento das comparações: o recém-nascido de dois kg tem o nariz do pai, a boca da mãe, as orelhas e o dedo mindinho curvado do tio Alfredo e uns suspeitos olhos cinzentos que angustiam e deixam cheios de incertezas os conhecidos da família. Serão verdes como os da avó? Escuros como os da mãe? Violeta como os da Elizabeth Taylor? Conclusão: nem quando nascemos, temos direito a ser nós próprios. Sim, mesmo “aquela maneira de chorar” é tal qual a do primo!


Há duas coisas nas quais passei a acreditar: primeiro que criar um bebé é como a História do Velho, do Rapaz e do Burro – toda a gente tem uma opinião diferente daquilo que estamos a fazer independentemente do que seja e, o que é mais, toda a gente se julga no direito de a verbalizar; depois que a depressão pós-parto afinal não existe: nenhuma mãe está deprimida consigo, por mais esburacada ou dorida que esteja porque não há tempo, com tanto trabalho extra e, sobretudo, com tanta fúria pós-natal.


De qualquer modo, toda a mãe se esquece rapidamente de si se pensar que o bebé está a passar pela maior revolução que passa um ser humano – ainda agora vivia no quente e de repente foi atirado para um mundo de estímulos bons e maus, aos quais tem de responder, a toda a hora, sem ensaio nem escolha. Ainda bem que nenhum de nós guarda memória disso…


Wednesday, November 19, 2008

Os Novos Pedintes

Qual é a grande característica da arte em Portugal nestes dias que vivemos? É ter a mão estendida. Não há artista, por pouco talento real que tenha que não haja aprendido este gesto de esticar o antebraço mais o braço e abrir a mão – e a boquinha -, proclamando que não estreia a sua produção / publica a sua obra (não raro “prima”) / sai da cepa torta porque não tem o apoio do Estado ou de um privado. Oh, quanto talento tragicamente escondido e perfidamente abafado temos entre nós pela malvada avareza governativa. Dói-me ver estes Fernandos, múltiplas Pessoas, estas Florbelas espancando-se, febris, estes Rodins partindo pedra inglória, estas Margot Fonteyn sem pontas pedinchando à beira das instituições e não raro dentro das próprias.


Até há pouco tempo, algumas artes estavam livres da esmola subsidiária. Quero dizer, dava-se dinheiro aos cineastas, por exemplo, para fazerem aqueles filmes espectaculares na lentidão e na diégese que ninguém percebia, excepto os próprios realizadores (se bem que tenho muita desconfiança acerca da relevância dos planos totalmente a branco e totalmente a negro e, sobretudo, do custo dos mesmos…); davam-se uns trocos aos compositores para algumas obras encomendadas, geralmente muito pouco melódicas e pobremente harmónicas, cuja função era a celebração de um evento nacionalista. Mas os escritores, por exemplo, sempre eram poupadinhos ao mecenato.


Hoje em dia, qualquer tipo que escreva umas balelas não só se considera escritor como se acha com talento suficiente para publicar – fora do blog que, certamente, já criou! – e ainda acha que para publicar merece que lho paguem. O pseudo-escritor português e/ou residente em Portugal (tomado como exemplo do pseudo-artista) tem uma árdua vida: escreve muito, mas são sobretudo cartas (de bajulação, de pedido, de amizade “pessoal” como se outro tipo de amizade houvesse…, de intervenção na vida da sua comunidade como crítico, de ódio a outros escritores mas na base da crítica puríssima e não raro “pessoalmente amiga” às obras destes), ou convites porque almoça e janta com quem é devido almoçar e jantar, ou ofícios porque concorre a todo o subsídio e concurso ao qual pode concorrer – é um especialista da chamada “maminha”.
Quando, finalmente, consegue alguma coisa, agradece? Nem por isso. O pseudo-artista é um “cospe na sopa” por natureza. Gosta de se lamentar que é um incompreendido, que caso lhe tivessem dado o devido valor a tempo ou caso ele vivesse noutro país (porque raio não emigram alguns é um mistério para mim…), poderia ser um Saramago ou mais ainda.


Bom, ainda bem que há anos atrás os nossos escritores não se deixaram deter por problemas destes! Imagine-se o que era Fernando Pessoa batendo o pé na casa de comércio onde trabalhava escrevinhando correspondência e dizendo: “Vocês nem sequer me dão condições salariais para acabar de produzir a Mensagem! Vão arrepender-se, cambada de vermes, pois eu serei lembrado pelo Harold Bloom n’O Canône Literário! You know not what tomorrow will bring! O futuro é meu! Ah ah ah!”


Sejamos pragmáticos: é impossível patrocinar tanta arte de bolso. Por mais rico que fosse um Estado ou uma entidade, não podia ser nunca a Nssa Sra do Abono das Artes.  Até porque a maior parte destes senhores podia aproveitar melhor o tempo na produção artística original do que na caça de beneficência. Todo o artista, e, para ser coerente, todo o escritor que sinta sê-lo, há-de sê-lo sempre, não importa em que situação se veja. Nunca se ouviu falar de um escritor que tenha deixado de escrever por ficar sem meios. Os meios interessam muito pouco e a própria publicação é totalmente uma ideia secundária para quem escreve por impulso interno, por febre ou por talento. A publicação aparecerá, cedo ou tarde e que importa esse quando?


Quanto aos incentivos do Estado, são muito mais vantajosos quando aplicados na outra face da moeda, isto é: não falta gente a publicar neste país, o que pode faltar, por comparação, é gente a ler o que se publica. Por falta de interesse, de conhecimento ou de dinheiro. Portanto, em vez de um apoio dado ao José que quer publicar o livro que escreveu para a Maria no aniversário de casamento deles e que consta de cinco poemas de três linhas cada um, é sempre mais útil um apoio que vise o estímulo ou o alcance de uma obra já disponível por parte das pessoas que não o podem fazer ou que querem aprender a fazê-lo. Porque se ajudarmos o público a lá chegar ou a entusiasmar-se por isso, também se abre a porta a todos os desgraçadinhos, coitadinhos cujos braços já doem de pedir dinheirinho… é que quanto mais público, mais artistas!

Friday, October 3, 2008

A Figura que é do Público

Uma revista canadiana, La Voix du Succès, tem uma rubrica completamente inusitada onde analisam psicologicamente uma figura pública e lhe dão, ademais, conselhos sobre como harmonizar o seu espírito intimamente e a sua vida, de acordo com as perturbações que o psicólogo de serviço crê ter-lhe encontrado.
Não se pense que a figura pública responde a questões ou que são retiradas informações de entrevistas que esta tenha dado ou de atitudes que tenha demonstrado. O psicólogo simplesmente interpreta o que conhece da personalidade em questão (conhecimento igual ao de qualquer espectador de TV ou leitor de jornal) mas pondo em acção a sua teoria académica e experiência profissional. O consentimento do analisado não é para ali chamado, o que é muito curioso num país com leis tão rigorosas em relação ao assédio (por exemplo). Porque não também em relação à privacidade?

Folheando um número antigo - de 2005/2006, e escolhi este por ser da época em que eu habitava no país - encontrei uma análise à vida da sra Michaëlle Jean, que tinha acabado de assumir o cargo de Governadora-Geral do canadá (não é coisa pouca...), sendo antes uma conhecida jornalista. Quando digo "à vida", faço-o no sentido literal, pois não só interessa a sua nomeação e mudança de estatuto de figura pública - ela já o era antes, bem entendido - como também o seu casamento com um cineasta, a sua maternidade mais ou menos recente, o facto de ser jovem e até a culpa máxima de ser bonita e elegante. Ranjam os dentes, Grrrrr. Haviam de lhe encontrar uma perturbação qualquer, à falta de um podrezinho demonstrado em público.
"Gostaria de realçar que não vou falar do indivíduo Michaëlle Jean, mas sim da personagem pública e sua função oficial. Ao tê-la aceite, ela tornou-se objecto de fascínio." Mas, mais à frente, salta logo é sobre a vida pessoal da dita, a "vida de casal" onde, segundo ele, "as coisas vão confundir-se, porque não mais haverá intimidade e [...] a sua função constrange a liberdade do par. Os papéis da relação são mal definidos (aqui apetece perguntar se, como homem, repugna ao senhor psicólogo que a Senhora Governadora tenha mais destaque que o marido?!) e, no casal, um realiza-se através do outro" (bom, em assuntos íntimos esta frase não me parece má, mas suspeito que não é de intimidade que aqui se trata, mas sim de um deles gozar do estatuto de figura pública só porque é par do outro, coisa que aqueles espíritos que não têm brilho por si próprios acabam sempre por fazer, sejam homens ou mulheres. Pois temos muita pena deles.).

Tenho a dizer que não li nada na análise de uma página que dissesse respeito à figura pública ou ao seu desempenho profissional, anterior ou actual. A senhora é julgada por viajar muito e, assim, "prejudicar a rotina de segurança do quotidiano da sua jovem filha" (há que dar uma medalha ao marido cineasta, decero sempre disponível dentro da sua esfera artística boémia). Interroga-se o psicólogo se a Madame Jean "saberá o que acarretam as responsabilidades do seu cargo e também as responsabilidades de mãe, dado que são incompatíveis. Poderá ela assumir tudo?" Interrogo-me se não haverá uma empregada lá em casa, ou uma ama contratada, que fique com a criança a maior parte do tempo, em vez do marido herói e socialmente deprimido. Além de que o senhor psicólogo certamente terá em conta que a Madame Jean pensou em tudo isto e muito mais antes dele e só ela sabe as linhas com que se vai cosendo e amargurando.


Quando questionado sobre a encarnação do sucesso que é esta figura pública, o senhor psicólogo responde que ela é "a projecção do sucesso", mas não mais pois é impossível conciliar tudo como Mme. Jean dá a impressão de fazer. Aqui, confesso que concordo, porque nalgum momento há que escolher e estar hiper realizado em tudo soa um bocadinho a falso...

A última questão: qual o conselho do psicólogo para uma maior estabilidade na vida da Senhora Governadora? Ele recomenda que Mme. preserve a sua vida íntima para que "a sua criança" - algo sempre susceptível de trazer uma lágrima aos leitores e leitoras mais sensíveis! - e ela própria encontrem "a harmonia possível". Subitamente, o marido já não interessa (deve ser naturalmente harmónico...); é de ressalvar o advérbio "possível", claramente indicativo de que "muita" harmonia não será, com certeza...

Ora, como é possível a Madame seguir este bom conselho vindo de quem escarafuncha a sua vida em detalhe, sem saber nada de concreto ou realista sobre a mesma?

Claro que se tudo isto se passasse numa terra geograficamente pequena como os Açores não seria necessária uma revista Voz do Sucesso. O "boca a boca" (não confundir com a respiração de emergência!) funciona muito melhor e rapidamente. Também não seriam necessários jornalista nem psicólogo encartados. Temos vários, sentados nos cafés ou de passagem pelas esquinas que, mesmo sem diploma, não se coíbem de exercer a experiência, afiando a língua.

Ainda mais curioso do que esta experiência é o facto de, com tanta assumida invasão do território privado e confusão deste com o domínio público, haver tanta gente ansiosa por se tornar figura pública. Sobretudo nesta época, nota-se uma verdadeira oferta de (quase) anónimos desejosos e frementes de serem do povo. Realmente, há senhores e senhoras cheios de despojamento e de coragem, não há?...