... "And now for something completely different" Monty Python

Monday, December 14, 2009

Aves Raras

Neste preciso momento, encontro-me a trabalhar numa cidade onde há vários anos atrás fiquei muito triste por esta altura do ano – estávamos em família, quando deparámos com um mendigo, gelado e só, com um cartaz que dizia “C’est dur d’être seul pendant Nöel” (é duro estar sozinho no Natal). Talvez seja. O certo é que, este ano, depois de falar com uma colega de trabalho, tenho uma impressão diferente: estar só no Natal pode ser muito bom. Desde que seja uma escolha nossa.


Não sei se sabem que a esmagadora maioria das companhias aéreas baixa escandalosamente os preços no dia 25 de Dezembro. A razão? Qual é o doido que quer viajar no dia de Natal? A maior parte está no quentinho do lar e ai dele se sai para ir dar uma volta, o sacrílego! Era engolido. Parêntesis para referir os que não são cristãos e, logo, não fazendo o Natal parte das suas convenções, digo prazeres, podem perfeitamente meter-se num avião nesse dia. Também há os que trabalham no Natal, por força das circunstâncias – assim de repente, recordo-me do taxista que nos pode levar ao aeroporto, do piloto de avião, do homem do bar, dos senhores da ambulância, da polícia e dos jornalistas.


Porque é que é tão duro passar o Natal só? Porque se convencionou que há que estar acompanhado. Experimentem dizer que vão passar sós o Natal. As famílias dos vossos amigos, com um misto de compaixão e da melhor intenção samaritana, convidar-vos-ão logo lá para casa. Há sites internet sobre como sobreviver ao Natal sozinho (sobretudo dirigidos a divorciados, embora eu cá ache que se deviam dirigir a idosos fechados em lares, onde a solidão é muito mais pesada do que se, efectivamente, estivessem livres para irem para onde bem entendessem). Quando, finalmente, uma pessoa consegue tempo para estar só em sua casa – após declinar os amáveis convites – liga a televisão e o que é que aparece? Famílias inteiras trinchando animais, presentes, presentes, presentes e festas. Uma pessoa está, praticamente, jantada de Ferreros e inundada de brinquedos sem sair do sofá.


Eu gosto sinceramente do Natal, sobretudo pelos sentimentos de generosidade, fraternidade e alegria que provoca na maior parte das pessoas que o celebram. Também gosto – talvez até infantilmente – da sua luz, do seu calor, da paz (ainda que efémera e talvez falsa) que traz com ele. Mas abomino obrigações. E é esse paradoxo que me constrange, sobretudo quando aliado ao materialismo e à hipocrisia.


Natal sozinho não tem de ser sinónimo de Natal solitário – pode ser um Natal solidário, como o da minha colega que é voluntária num abrigo e passa o Natal a servir comida a quem come mal o resto do ano. Tem um Natal melhor que o meu, porque é, sem dúvida, muito mais útil ao mundo. Não sei se se sente mais feliz. Mas é a única que vive o Natal – afinal, é a única que vê e faz milagres acontecerem. E, para falar a verdade, até me dá vontade de rir quando ouço dizer que ela está só.


Thursday, December 10, 2009

Íntimos Paraísos Feitos de Papel


“O que na vida perco, em tinta o acho” Vitorino Nemésio,
 Andamento Holandês





Escrever sobre “Literatura Açoriana” - tema proposto - não é fácil. Primeiro é preciso provar a sua existência e esta é uma questão que vem sendo debatida ainda eu comia chupa-chupas em público sem que ninguém olhasse para mim de lado. Porque é que é tão difícil provar que existe uma “Literatura Açoriana”? Porque teria de ser intrinsecamente diferente da Portuguesa o que implicaria, desde já, uma Cultura Açoriana distinta da Cultura Portuguesa que se expressasse em Literatura. Ora, admitir a especificidade de uma Cultura é algo cujas implicações não cabem aqui… Vamos elegantemente saltar por cima do conceito hipertrófico de Cultura, admitir que a Açorianidade existe e que a sua especificidade está reflectida na Arte que os Açorianos escrevinham. Como é que a Literatura expressa a Açorianidade? Um falecido Professor de Mestrado meu, Martins Garcia, dedicou a sua vida a estudá-lo e, lendo as suas conclusões, quase apetece dizer “A Literatura Açoriana é um poço de indefinições! Todos ao psiquiatra, de imediato!”.


Tomemos como exemplo Roberto de Mesquita e já vão ver porquê – poeta nascido em 1871 nas Flores, de onde só saíu para uma viagem ao Continente, e cujos escritos já Nemésio considerava “ o melhor exemplo do perfil difuso (…) da Açorianidade”. Este adjectivo é importante, como as brumas. Certo é que R.M. tinha uns traços afrancesados simbolistas porque lia Baudelaire, Verlaine e essa malta, mas distinguia-se deles pelo seu “sentimento de solidão atlântica” que é, afinal, a condição humana dos açorianos, ilhéus no meio do grande mar. Dizer só isto é pouco, pois não faltam ilhéus por esse mundo fora (e alguns dividem o Atlântico connosco), portanto não sejamos arrogantes. Porque é que estarmos insulados nos faz tão diferentes? Porque o Açoriano não está insulado. Ele é insulado. Parêntesis para dizer que, deste modo, a Literatura Açoriana adquire uma geografia muito mais ampla: o Açoriano leva a Ilha para onde quer que vá – arquétipo mítico da Ilha Perdida que já só dentre dele existe, arca de onde se retira material para muita literatura e tema de uma perturbação mutiladora vulgarmente conhecida como “Síndroma de Ulisses” (que não é só açoriano e nada tem de mítico, infelizmente).


Voltemos um pouco atrás – ao ser-ilha. É notória a influência dos elementos naturais na psique do Açoriano. Na Literatura Açoriana, a ambiência natural aparece como parte íntrinseca do sujeito,quase deixando de haver distinção entre a objectividade da Natureza e a subjectividade do poeta. O clima como definidor da anima é uma noção tão verdadeira quanto terrível pois o clima açoriano é de mormaço, de humidade abafada, propensa a muito pensamento e a “ilimitação parada “ de “ilhas acobardadas em neblina”, como se lê no Mau Tempo no Canal – livro extraordinário para avaliar da cobardia e dos repentes de coragem, conforme o Pico tem nuvens ou não…


Este mesmo livro define muito bem a “clausura insular”, a noção de ilha como prisão, o que é compreensível para qualquer não-ilhéu. O que já é mais difícil de explicar é porque é que os Açorianos são tão paradoxais que encaram a Ilha tanto como prisão quanto a vêem como miragem de total liberdade, por oposição às grandes capitais (restos de ideias de Rousseau?). Dividem-na em duas ilhas perfeitamente antagónicas e carregam ambas, coexistentes, sendo a “Ilha escravizante” mais forte quando lá habitam e a “Ilha sedutora” mais forte quando dela estão apartados. Porque a Ilha é como uma sereia: canta muito bem até nos agarrar.



Isto leva-nos ao grande tema da Literatura Açoriana: a viagem. Como não, com tanto mar? Mas, novamente, o Açoriano hesita, interroga-se, não se decide de uma só vez. Está encantado com a visão atlântica e deleita-se a imaginar as vivências que teria nos mundos para além mas igualmente tem um certo gosto em deixar-se ficar no seu canto conhecido, no encanto dos cheiros da terra de sempre. A maior parte acaba por recalcar o sonho da distância em amargura, levando o dia-a-dia num “viver quietista”. Outros há que partem, o que é sempre encarado como uma transgressão. E há, ainda, a transgressão suprema, a daquela personagem fabulosa chamada “o torna-viagem”, o que partiu e voltou, a mais solitária de todas as figuras porque não tem lugar a não ser como contador de histórias.


Claro que não é possível resumir as características da Literatura Açoriana numa opinião de meia-folha. Direi, como já outros disseram, que ela é “solidão, cárcere, infinito e fuga”. Acrescento, também, que não se pode falar dela sem falar de emigração, uma emigração sem lugar de chegada, mas apenas com lugar de partida: a Ilha Açoriana é íntima, para além de física – depois da evasão, estilhaça-se, parte-se num indivíduo também ele próprio fragmentado pelas circunstâncias de dois mundos, mas continua a existir.


Quanto ao mais, seria interessante (num artigo mais longo), verificar a incidência de tantas mulheres-anjos e outras tantas mulheres-demónios na Literatura Açoriana. De facto, somos mal amadas porque somos sagazes Circes ou, pelo contrário, mitificadas de tal modo que de símbolos não passamos… Pois, não sei se cheguei a mencionar que a Literatura Açoriana não é um caso de Teoria da Literatura – é um caso de Psicologia.


Felizmente, nalgumas linhas, nalgumas páginas é tão bonita que vale todo o tempo que lhe dedicamos. São íntimos paraísos feitos de papel. 




Nota: Este texto, inicialmente feito para o Fazendo como crónica principal, foi re-publicado no RTP-Comunidades a 24 de Abril de 2011. A 27 de Julho de 2011, o RTP-Comunidades republicou o artigo, pelo interesse e polémica que gerou.
Ver aqui:





Wednesday, December 9, 2009

Poderosas Burkas Invísiveis

Este Verão, fomos – eu e a minha família - a Istambul. Teria sido uma viagem como outras se não nos tivesse marcado tanto. Em artigos que escrevi para o AO, onde mantenho uma coluna, falei, na época, dessa viagem - de como foi poderoso estar nos sítios das mesquitas reservados apenas às mulheres, de como o meu filho me ensinou mais sobre como comunicação com outros povos do que quaisquer academias (e até da barbaridade que é os fraldários do aeroporto de Lisboa estarem dentro dos wc femininos porque não tenho de ser obrigatoriamente eu a limpar o rabinho da criança, perdoem-me este aparte).


Mas, na verdade, quando regressei, lembrei-me de Sarah Mousavi, uma ex-aluna minha que usava um véu na cabeça. Era muito comum no Canadá haver uma enorme diversidade cultural, mas a Sarah foi a única muçulmana que ensinei que fazia questão de tapar os cabelos com um véu e as coxas com roupas largas. Embora a Sarah fosse bem aceite por todos, havia, ocasionalmente, algumas piadas menos simpáticas e imagino que, fora das aulas, a coisa se incendiava muito mais. A certa altura, por obrigatoriedade disciplinar, os alunos tiveram de escrever um texto sobre tradições culturais e este foi o texto da Sarah que - corrigido por mim é certo - segue aqui, para vossa reflexão. Acredito que toda a literatura deve acordar-nos e abrir-nos os olhos para o real, como se nos desse uma marretada na cabeça. Portanto, o que a Sarah escreveu, nesta óptica, é literatura.


Antes de o transcrever, tenho de agradecer às centenas de alunos de tantos países que tive ao longo dos anos. Não sei quem mais aprendeu, se eu, se eles…



“Uso um véu nos cabelos e interrogo-me porque é que os meus colegas pensam que isso me faz estar presa a seja o que for. Este uso é uma escolha minha, pessoal, ainda que condicionada pela minha cultura. Mas não é verdade que todos eles estão condicionados pelas suas culturas? Não é verdade que todos eles estão agarrados a conceitos que trazem do que lhes ensinaram os pais, os avós e até do que lhes disseram os amigos e vizinhos? Os meus pais não me obrigaram a usar hijab. Educaram-me dentro da filosofia da religião islâmica, é certo, mas eu podia ser islâmica e não usar nenhuma espécie de véus, se quisesse. Sinto-me bem como estou e, sobretudo, como sou.


O que sabem vocês do Islão? Provavelmente tanto ou menos do que eu sei do Cristianismo, do Judaísmo, do Hinduísmo. É fácil criticar quando somos ignorantes acerca de algo. Dizem-me “oh Sarah, como podes andar de burka?!” Mas eu não uso uma burka, uso um hijab. Há muitas formas de véus, desde a abaya (aqueles véus negros que tapam as mulheres completamente, só lhes deixando os olhos à vista) e muitas tradições de os usar. Aliás, hijab é também a palavra que usamos para definir a forma de vestir das mulheres muçulmanas.
O meu propósito ao escrever este texto, porém, é outro. Gostava de fazer uma observação: todas vocês, minhas colegas e algumas até minhas amigas, usam burkas e não sabem. São burkas invísiveis e, por isso, são mais poderosas ainda. Algumas até usam abayas: estão tão tapadas que apenas os vossos olhos se vêem e, quando olhamos para vocês, baixam-nos, envergonhadas de terem abdicado da vossa liberdade. Não têm mãos livres e a vossa cara está presa em negros véus. Eu sou um passarinho que voa em eterna Primavera perto das vossas gaiolas de grades douradas, por comparação. E sabem porquê?


Vocês dizem-se livres e emancipadas, por serem mulheres estudantes. Isso também eu sou. A minha liberdade é a mesma – participo em todas as actividades, desportivas e culturais. Mas, ao contrário de vocês, eu não sofro de dupla personalidade. Não tenho de fazer o papel de leoa que dá nas vistas quando está na Universidade e no café, soltando urros para se fazer mais notada e caçando para alimentar o leão (sim, o leão, e não vocês próprias… pois vocês passam o tempo a satisfazer o macho egocêntrico e dizem-se mulheres livres). Tanta pintura, tanto creme e tanto gritinho não é para que se sintam bem… mas pura competição para que o preguiçoso e aborrecido leão – que pouco vos liga – vos dê um pouco mais de atenção do que tem dado ultimamente. Ou do que dá à leoa do lado. Eu não preciso disso.


Ah, mas desculpem. Eu falava de dupla personalidade. Sim, porque ao pé do leão e dos vossos pais, vocês são uns cordeiros. Enfiam a burka por completo. Fazem tudo o que lhes mandam. Sim, meu senhor, que mais quereis? Já estais satisfeito? Julgam que assim ele vos dará mais. Mais do quê? Mais ordens? Que prazer ou vantagens retiram vocês da vida, para além de uma minúscula prenda no Valentines Day, dada, com certeza, para que vocês continuem a obedecer? Ah sim, um sorriso… Pois, tenho notícias: todo o tirano, para ser bem obedecido, ordena com ar simpático. Não deixa de ser uma ordem categórica isso que ele vos dá. Já experimentaram ser rebeldes? Então porque me aconselham rebeldia?! Vocês não conhecem o significado da palavra. Fazem-me rir com os vossos conselhos sem sentido.


Sou Sarah Mousavi. Consciente das minhas escolhas. Sempre a mesma, em qualquer situação. Feliz e confiante no meu Deus, na minha família, em mim própria. Não me minto. Não acredito em culturas perfeitas e não sou extremista em nada. Apenas quero sublinhar que eu vivo num mundo que conheço, do qual vocês pouco sabem (e inventam tolices como circuncisão feminina, que parvoíce!), e não tenho vergonha de ser como sou. Vocês dizem-se livres mas vivem na hipocrisia: vendem-se quase diariamente por dinheiro, por status e até algumas por uma cama quente ou por um bocadinho de atenção a que chamam amor. Amor é companheirismo, viver para um fim comum. Vocês vivem na obediência cega em vez de viverem na comunhão que prega o vosso Deus. Mas eu é que uso burka, segundo me dizem...”


Monday, November 30, 2009

Profissões de Futuro

Tendo irmãos e cunhada em idade de escolher profissão, naquele ingrato momento de vida em que ainda pensam que o primeiro emprego que tiverem lhes há-de durar toda a vida, escolhendo-o portanto com muita atenção, dispus-me a ir verificar quais as “profissões de futuro”, não sem antes os advertir que a gente, hoje em dia, muda de profissão frequentemente.


Após cuidado estudo da minha parte, envolvendo pesquisas à escala global (pois já a minha geração aprendeu que a gente tanto está morando no Pico como na Samoa desde que haja emprego) descobri, sem surpresas, que a maior parte das profissões de futuro estão relacionadas com tecnologia de ponta: analistas, programadores, designers. O Homem confia na tecnologia.


Claro que há o reverso da medalha. Tecnologia a mais contribui para um planeta menos natural. Portanto, também temos carreiras de futuro ligadas à protecção do ambiente, embora não sejam tantas como aquelas que hão-de dar cabo dele. De facto, há uma pequena parcela do mundo que quer regressar a uma vida mais primitiva, no sentido de original. Mas mesmo esses não vivem sem blackberries e sem Facebook.


Explorando mais um pouco sobre profissões de futuro, não é de espantar que a taxa de demografia actual aliada às condições de vida e à medicina avançada – que fazem deste um mundo cheio de bisavós com Alzheimer, mas carente de bisnetos – sejam favoráveis a profissões não só de saúde mas também (eu diria sobretudo!) de assistência à velhice. Lares de idosos precisam de mais mãozinhas qualificadas.


Outras profissões de futuro na lista são de limpeza, quer seja da rua (os “senhores do lixo” são os primeiros protectores do ambiente) ou da nossa casa (empregadas domésticas, experimentem fazer greve!). E, claro, essa profissão de limpeza por excelência que é o psiquiatra e o psicólogo. Limpa que é um caso sério e vai continuar a ter futuro no mundo que se avizinha.


Para ajudar a dar cor e verniz à vida, nada como ser esteticista. Esteticistas, massagistas e técnicos de turismo serão procurados no futuro, como formas de escapar à pressão do dia a dia.


E carreiras que em breve vão deixar de existir? Telefonistas e secretárias. Ao que parece, atender telefone, agendar reuniões e viagens já é feito por computadores em muitas empresas. Claro que um computador não tem unhas de gel pintadas de roxo nem mastiga pastilha elástica de balão enquanto nos atende… Como diz um cínico familiar meu: não há nada que chegue à reconfortante poluição visual e sonora que nos dá um ser humano.

Monday, November 16, 2009

O Caso da Mini-Saia Rosa-Choque

São Paulo, uma das cidades mais povoadas do mundo, deu ao Brasil um dos seus últimos escândalos. Parece coisa fingida para aparecer num reality show, se não tivéssemos mesmo visto as inacreditáveis imagens em telejornais (no you tube para os bichos raros que, como eu, não possuem televisão). Facto: uma rapariga de 20 anos, estudante de Turismo na Uniban, teve de sair, certa manhã, da sua Universidade escoltada pela Polícia. Porquê? Facto: uma universidade em peso (e não era pouca gente, vide primeira linha), colegas, professores e staff auxiliar insultava a rapariga com os mais fortes insultos que uma mulher pode ouvir, ameaçava-a de violação, e bloqueava a saída de modo que ela não ia a lado nenhum. E porquê? Facto: a rapariga estava a usar um minúsculo vestido rosa-choque.


Após o choque inicial (o meu, não o da rapariga…), dei comigo a pensar que poderia haver aqui diferenças culturais que estariam para lá de um primeiro olhar e com diferenças culturais não se goza; tenta-se entender. Mas depois… qual quê?! Então isto não é o mesmo país que gosta de dançar o Carnaval na rua semi-nu?


Poderão dizer-me “mas isso é o Carnaval, não é a vida de todos os dias”. Concordo. Há um tempo e um lugar adequados para tudo. Mas garanto também que a rapariga, neste momento tão tristemente endeusada pelos defensores da liberdade como apunhalada pelos moralistas de sacristia, não estava diferentemente vestida de muitas funcionárias públicas portuguesas, neo-burguesinhas, guiando carros flashy (dos maridos) e piscando o olho muito pintado (aos patrões). Esta Geisy de seu nome, falsa loura, sapato alto, unha longa vermelha e vestido “olhem-para-mim” cuja cor não condizia com o tom da unha, falando com aquele tom arrastado de quem já perdeu a ingenuidade mas quer parecer que não, que nos aparece nas câmaras puxando lágrimas, é um produto de fábrica.


A pergunta não é se a menina tem falta de elegância, de bom gosto e de bom senso. Claro que tem. A pergunta é que tipo de Academia (latu sensu) se preocupa mais com as Geisys e seus uniformes do que com as questões que verdadeiramente a deviam interessar enquanto Templo do Saber e Lugar de Formação. Para quem disser que “formar” a Geisy começa na sua aparência, eu diria que, muito mais grave do que o modo como a Geisy se veste, é saber porque raio todos estes professores, académicos, futuros advogados, futuros médicos, futuros jornalistas, etc,  assumem comportamentos tribais e agem como uma multidão ávida de sangue ao ver alguém que não se comporta como “um dos do grupo” de tal modo que a Polícia tem de a retirar de lá. E muito mais grave ainda é verificar como uma simples mini-saia pôs uma Universidade (cabeças pensantes, julgava eu…) a gritar graves acusações de prostituição e extraordinárias ameaças de violação. E, em última análise, uma mini-saia levou à expulsão de uma rapariga da escola no século XXI… Mary Quant, se tu soubesses!


Monday, November 2, 2009

Dura Lex, Sed Lex?

Todos viram “O Pianista” e talvez até tenham deitado uma lágrima com essa comovente história de um pianista polaco-judeu que consegue sobreviver milagrosamente à II Guerra Mundial. È um filme muito bem feito pelo Roman Polanski, um grande realizador na onda mainstream como o foi no cinema independente. O Sr. Polanski já ganhou um Óscar, um Globo de Cristal, uma Palma de Ouro e vários Césares nos mais variados Festivais de Cinema, sendo um dos mais conceituados realizadores do mundo. Foi preso na Suiça o mês passado, apesar da sua condenação por acusações de sexo não consentido com uma criança, a quem drogou, já vir de 1997. Acontece que o Sr. Polanski, ao saber da sua sentença nos EUA, fugiu para a França pois é cidadão francês. A França pode recusar-se a extraditar os seus cidadãos e o Sr. Polanski tem andado fugido até hoje. Mas tem recebido prémios. Por exemplo, o Óscar da Academia foi recebido pelo Harrison Ford em seu nome.


Remexendo mais na história: parece estranho que a menina – hoje uma senhora – tenha levado tantos anos para denunciar que foi vítima de violação e drogada? Talvez. Mas é preciso ter em conta que ela tinha 13 anos e o Sr. Polanski 44, o que lhe dava um grande ascendente de poder sobre ela. Para além disso, ele era já muito famoso na época e ela estava a cumprir ordens da mãe quando foi fazer uma sessão de fotos com ele. Não tenho dúvidas que o abuso de poder possa ser exercido nesta situação.


É invulgar que a senhora venha dizer, ao fim de algum tempo, que “só quer ser deixada em paz e que retira as acusações”? Talvez. Mas se eu andasse a receber 500 telefonemas de jornalistas por dia e não pudesse sair de casa, não tivesse o apoio de ninguém por comparação aos prémios públicos dados ao meu opositor, sabendo que o criminoso podia, como pôde, livremente fugir da justiça (elucidem-me: fuga à justiça não constitui, per si, um crime?!) após ter sido provada em tribunal a sua culpa, retirava tudo o que ele quisesse para poder ir pôr o saquinho do lixo lá fora, sem incómodos.


E não é invulgar que o Ministro da Cultura francês, esse portento do Frédéric Miterrand, diga publicamente que apoia Polanski “pelo seu amor à França, por ser um homem maravilhoso” e “por ter sido, nesta história, atirado aos leões” - afirmações que têm tanto a ver com a sua ética como batatas com mecânica e que nos dão a ideia que qualquer homem de cultura está não só acima da lei como pode violar o próximo a bem da inspiração.


Não é invulgar que a Polónia, terra original de Polanski, tenha uma sentença de castração química para violação de menores mas defenda Polanski, um homem famoso, que afirmou numa entrevista na TV que esta sentença lhe “dava muito mais projecção que um homicídio, porque f… com miúdas é o que toda a gente quer fazer, incluindo o juiz”?


Talvez tenhamos todos de aprender a distinguir entre os artistas, figuras públicas encantadoras, e os seres humanos que habitam dentro deles, ou, como disse Joan Smith, “temos de encontrar a nossa bússola ética e parar de encontrar desculpas para quem viola” os outros e a lei, sejam famosos ou não, admiráveis na sua arte ou nossos vizinhos.

Monday, October 19, 2009

A Dor de Cabeça do Barack

Poucas coisas fizeram correr tanta tinta ultimamente como o Prémio Nobel atribuído ao Presidente Obama. Aliás, poucas coisas fizeram correr tanta tinta ultimamente como o Presidente Obama. O Prémio Nobel e Obama, em termos de popularidade, formaram um caso raro de simbiose na data em que se juntaram. Esta protocooperação é extraordinariamente visível: no meu servidor de e-mail (que não é americano!) há até uma caixa de mensagens para mandarmos os nossos parabéns ao Presidente e a cadeia de televisão BBC, nas suas notícias online, colocou à disposição dos espectadores um fórum onde podemos dizer o que pensamos acerca da atribuição deste prémio. Alguém se lembra do Prémio Nobel ser tão comentado? E, vamos lá, também já vínhamos sentindo falta de uma notícia grandiosa e positiva sobre Obama depois daquelas imagens de cartazes com o rosto dele e a palavra “Hope” (utilizados na sua campanha) terem aparecido na televisão com jovens a escreverem por baixo “less”, formando “Hopeless”. A opinião pública é terrível: num dia, um tipo é um salvador bestial e no dia seguinte é uma besta, passando a bestial outra vez por um “nico” de nada se a coisa for bem jogada. Pois a opinião pública, para além de terrível, nada tem de inteligente – é obtusa, vendável para o bem e para o mal e funciona com base na psicologia das multidões.


Há milhares de milhões de comentários sobre a justiça da atribuição deste Nobel da Paz. O meu seria apenas mais um e não me interessa inculcar a minha humilde ideia. Muito mais engraçado seria discutir uma questão levantada pelo Wall Street Journal que diz que Obama devia ganhar um Nobel, sim, mas o da Economia, pelo seu “Reform Act” na área da Saúde, pelo seu pacote-estímulo de 787$ biliões, pelas questões da General Motors e da Chrysler… Mas eu sou mulher e, como já exprimi aqui, as mulheres não percebem nada de Economia nem de globalização; só podemos dizer aos nossos maridos que estão em falta detergentes e que o orçamento doméstico corre o risco de se afundar. Não é?


Quanto à Paz – que segundo a Revista Maria – é imprescindível para o bem-estar do lar e calculo que também do mundo, cheira-me que foi uma grande estratégia deste comité dar o Prémio ao Sr. Presidente dos EUA. Uma pessoa que recebe o Nobel da Paz não tem outro remédio senão ser mais do que diplomata daqui em diante. Vê-se obrigado a uma ética de base. Acabaram-se os conflitos bélicos americanos no terreno, as declarações de confronto no futuro, as armas nucleares ainda existentes, as penosas sanções a países terceiros, a pena de morte dentro do seu país, etc. Gee whiz. Coitado. Ou aceita ser Nobel da Paz ou segue a actual estratégia da sua super potência. O homem só está lá há nove meses, não pode modificar a política externa e interna só por si, ainda que queira. Alguém se lembra de um tal de Kennedy? Parece que era adorado. Não se sabe é como é que morreu. Alguém acredita nessa patranha do russo que furou a alta segurança americana? Eu, como sou mulher, só me lembro das toilettes da Jackie Kennedy. Lindas. E os chapeuzinhos? Divinais.