... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, February 5, 2010

Serviço Público



A primeira vez que viajei de avião, tinha quatro meses. Por imperativos pessoais e profissionais, viajar sempre foi uma constante na minha vida e, dado dar grande importância à comunicação, sempre adorei enviar postais. Atribuo grande importância aos Correios, mesmo nesta época frenética de e-mails.Nada mais bonito do que receber uma carta, com cheiro de papel, que faz barulho ao desembrulhar-se nas mãos.


Apesar do meu fascínio pessoal pelas missivas, foi com surpresa que li a reportagem publicada pelo diário inglês The Guardian que dava conta de um serviço especial dos Correios - o tratamento das Cartas para Deus. De facto, há quem lhe escreva. Sao cartas que vêm de todo o Mundo e, dado o seu conteúdo, percebe-se que são fruto de várias e diferentes crenças religiosas. A maior parte das pessoas nao coloca direcção (o que não é de espantar...), pondo apenas o destinatário, mas outras colocam "Muro das Lamentações" no envelope e isto por uma razão muito simples: venham as cartas de onde vierem, os Correios de todo o mundo encaminham-nas para os Correios de Israel que as colocam, abertas e dobradas, nas fendas do Muro. Avi Yaniv, o encarregado do Departamento das Cartas para Deus, explica que os Correios de Israel assim o fazem por entenderem que o Muro é o local mais próximo do Divino. Mas o Muro terá lugar para tantas cartas? É que chegam diariamente... De facto, as mais antigas vão sendo enterradas em terreno sagrado.


O Muro nao é apenas o mais sagrado monumento dos judeus, que o vêem como uma das paredes do Templo destruído e seu único vestigio, mas é também importante para os islâmicos, que afirmam ser o este o local onde Maomé amarrou o seu cavalo alado, e ainda para os cristãos, que o visitam aos milhares. Faz sentido ser esta a morada escolhida para as Cartas a Deus.


De onde escrevem as pessoas? De todos os locais do planeta, desde a Rússia à Austrália, da Jordânia ao Gana. E em todas as linguas, porque Deus (e os Correios) serão capazes de entender. Porque escrevem? É mais dificil responder, mas é curioso verificar que, embora Ani Yaniv refira "depressão, tensão e sofrimento" como os causadores destas missivas, algumas pessoas escrevem só para agradecer e outras façam declarações de amor - a Deus, claro. A maior parte pede, desde bens materiais a paz. E muitos pedem o fim da solidão e a oportunidade de rever os que já partiram e de fazer as pazes com eles ou de lhes dizer aquilo para que nunca houve tempo. Outros fazem perguntas a Deus. Querem saber os comos e os porquês. Mas ninguém espera uma resposta... Só um alívio pessoal por fazer o envio.


Avi Yaniv tem 66 anos. Em breve, será outro funcionário a ocupar o seu lugar pois há 12 que se ocupa destas cartas. Há pessoas que escrevem regularmente mas ele não pode responder: é regra. Yaniv nao é Deus. Ainda se comove com a história de um homem que pede para rever a mulher morta em sonhos - "Sente muito a falta dela". Yaniv, sem ser padre, rabi nem imã está mais perto do Divino do que todos eles.


 

Thursday, January 28, 2010

Apologia da Maçã


A Maçã é o fruto mais importante do Mundo Ocidental. Não sou feroz amante de maçãs, mas defendo-as, com unhas e, sobretudo, com dentes. É que sem maçãs o Mundo não seria tal como hoje o conhecemos, pois todos sabemos que a condição humana, a sua experiência e sensibilidade repousa, bem apoiada no braço direito na sua História, mas não menos apoiada no braço esquerdo nos seus Mitos. É a Literatura que faz com que os Mitos – todas as histórias que a Humanidade criou para explicar as formas do mundo e suas criaturas - prevaleçam. Ora, não há Mitologia no “nosso” Mundo sem Maçã.


Comecemos pela Grécia Antiga. Eris, Deusa da Discórdia, usou uma Maçã dourada para os seus propósitos. Atirou-a, muito apropriadamente, para o meio de um matrimónio onde estavam presentes todas as deusas, o que não seria nada de extraordinário, não tivesse esta a inscrição “para a mais bela”. Zeus não se quis envolver, pois se tinha chegado a líder foi também pela sabedoria de ficar sempre calado em disputas no seu harém e nomeou o pobre Páris para decidir qual era a deusa mais bonita.  Em troca da Maçã, cada deusa lhe ofereceu o que tinha: Hera deu-lhe poder, Atena, sabedoria e Afrodite, amor. Páris não pensou duas vezes, deu a Maçã à última e… assim começou a Guerra de Tróia, que durou dez anos, e teria durado mais se não fosse a brilhante ideia do cavalo de Ulisses. Por causa de uma maçãzinha… Nalgumas das línguas indo-europeias, há resquícios desta lenda – em holandês e em alemão, a expressão “maçã da discórdia” identifica  desarmonia, além de haver um lugar com o mesmo nome no bairro Eixample,  em Barcelona.


Hércules, o semi-deus dos doze trabalhos, também se viu aflito com Maçãs. Teve de roubá-las do Jardim das ninfas Hespérides (ao que parece, localizava-se na Ibéria), porque a Maçã era o pomo da imortalidade.
Na mitologia nórdica, também assim acontece – os deuses alimentam-se de maçãs para garantir não só a eterna vida como a juventude.


A cultura judaico-cristã, a que a realidade açoriana está mais ligada, assenta num mito primordial que envolve o quê? A Maçã! A serpente bem podia ter oferecido a  Eva outro fruto que expulsasse a Humanidade do Paraíso… Mas não. Deus permitiu-lhes comer tudo, excepto o “fruto da árvore da sabedoria” (ou da consciência, dependendo das traduções). Curiosamente, se formos investigar, verificamos que o fruto de Adão e Eva teria mais probabilidade de ser um figo ou uma uva – de acordo com o Zohar, texto da Cabala Judaica. Mas a nossa cultura ocidental, muito romanizada, melhor sorte não reservou para a Maçã, cujo nome latino é Malus domestica. Assim, aparentada etimologicamente com  “má”  logo de entrada, previa-se para a Maçã um mau futuro e muita especulação…


Na mesma senda de fruto poderoso e terrível, a Maçã faz parte dos imaginários infantil e juvenil: é com uma Maçã que a Madrasta da Branca de Neve – um conto cujo folclore se perde em 1700 - a envenena, e é uma Maçã que o herói suiço Guilherme Tell põe na cabeça do filho e parte ao meio com grande pontaria de arco e flecha, a arma por excelência do século XIV.


O cientista cá de casa (sim, nós pessoas das ciências humanas não somos cientistas) explicou-me que há uma razão de ser para o facto da Maçã ser tão importante: parece que era muito popular na base de alimentação do ser humano – por exemplo, os franceses, muito relutantes à introdução da batata quando esta apareceu a substituir os rabanetes e beterrabas, só se lhe renderam pela sua parecença morfológica com as maçãs; para convencer os conservadores citoyens a comer batatinhas foi preciso usar um estratagema e chamá-las pommes de terre. Achei isto muito factual e interessante, mas desfez-me um mito científico: então o Isaac Newton, ao raciocinar a Lei da Gravidade debaixo da macieira, estava apenas à espera de uma refeição fácil?! Coitado. Já naquela época, cientista sofria para o seu sustento…


Entretanto, nos últimos tempos, à custa do Novo Mundo, a Maçã ficou mais bem vista. Os americanos fizeram de Johnny Appleseed uma lenda e, logo, lendas patrióticas dos vastos campos de macieiras que ele terá plantado, alargando a frontier. Talvez por isso seja tradicional os professores mais simpáticos receberem dos alunos uma maçã vermelha, nos EUA. Na gíria do jazz moderninho, “Maçã” é uma cidade e a Big Apple é a maior de todas.


Claro que vos dei apenas um breve esboço do poder da Maçã ao longo dos tempos. Ah, e não pensem que é por um pecado de gula pessoal: dentro de mim, mora uma japonesa que ama o sabor de cerejas e a visão de sakura na Primavera. Não tenho o apetite de Agatha Christie que não conseguia escrever sem comer um cestinho de maçãs reinetas. Não posso, porém, deixar de reconhecer: culturalmente, onde estaríamos sem uma Maçã para as nossas catarses?


Friday, January 22, 2010

Mrs. Robinson, Primeira Dama

O Primeiro Ministro irlandês, Peter Robinson, está a ser pressionado para pedir a demissão. Segundo o seu partido, o conservador DUP, e também segundo as sondagens que mostram o que pensa a opinião pública geral, Robinson “não tem condições” para continuar a liderar a Irlanda. Isto porque rebentou uma bomba que a imprensa classifica de “escândalo sexual com laivos financeiros” em casa de Mr. Robinson. Em casa… porque na verdade foi Mrs. Robinson (cujo B.I. segue já: Primeira Dama, 60 anos, também ela com um cargo político e membro do mesmo partido, claro) que teve um amante (19 anos, filho de um amigo) a quem montou um café com dinheiros que se esqueceu de declarar.


O DUP reuniu, Mrs. Robinson demitiu-se do seu cargo, o marido expulsou-a do partido (mas não de casa, que ninguém tem nada a ver com isso e tanto também não lhe exigiram os seus conservadores pares…), os OCS pegaram na história como cães num osso. Mrs. Robinson escusou-se a falar, o rapaz ex-amante também – apesar de ter começado a aparecer como ícone em revistas gay, pois parece que descobriu, entretanto, o seu verdadeiro eu, o que ajuda ao picante grotesco e vende mais a história – mas o Primeiro Ministro viu-se obrigado a explicar à nação que raio anda a passar-se dentro das suas portas. Na TV, o Primeiro apareceu muito ajuizadamente protegido por uma parede decorada com antigos desenhos dos filhos onde se lia “Pai, nós admiramos-te”. Explicou que a mulher estava (ou era, pois em inglês não há diferença verbal como sabemos…um pormenor que é tudo!) “perturbada e não era possível tirar-lhe duas frases com sentido”.


O DUP explicou aos OCS que este tipo de comportamentos “é inadmissível” e acrescentou que não há “simpatia para quem se coloca nestas posições”. A opinião pública, ainda há pouco tão elogiosa para com o Primeiro Ministro, considerando-o uma figura fundamental no frágil processo de paz da Irlanda - sempre a braços com as lutas religiosas e o terrorismo interno - agora quer crucificá-lo… porque a primeira-dama não se portou bem.


Não sei se estão recordados do quanto a Europa se riu quando foi do caso Monica Lewinski – Clinton. Toda a gente dizia que aquilo só na América, porque nós, cultos europeus, não queremos saber com quem é que os políticos dormem, só queremos saber se fazem um bom trabalho… Pois a gente, afinal, 16 anos passados, não só queremos saber da vida íntima dos políticos, como até das mulheres deles e, se as senhoras saem da linha, as cabeças dos maridos até podem rolar por isso.


De onde se retiram várias lições, entre as quais: os europeus estão mais papistas que o Papa; mulher de político tem de ter muito cuidado com as suas acções e Simon and Garfunkel nunca passaram de moda.


Friday, January 8, 2010

Pausa

Quando perguntaram ao famoso pianista Arthur Rubinstein como fazia para manobrar as notas com tanta mestria, ele respondeu: “Caríssimo, eu jogo com as notas como qualquer outro. Mas as pausas… É nas pausas que reside a arte!” Passe a modéstia de Rubinstein, a verdade é que as pausas são sub-valorizadas, na música como na vida.


Um workaholic, por exemplo, não consegue fazer pausas do trabalho o que, intimamente, significa que é um ser incapaz de relaxar em toda e qualquer situação, incluindo o tal trabalho, que ele jura ser compensador mas onde está tão obssessiva-compulsivamente envolvido. O nome clínico desta doença é ergomania, traduzido por mania de trabalhar. Para aqueles que estão a pensar que isso é bom, relembro que, em grego, mania significa loucura.


No fim dos anos 60, no Japão, começaram a aparecer os primeiros casos de que há memória de morte por excesso de trabalho. Aliás, o Japão é o único país – que eu saiba – que apresenta estatísticas para esta estranha morte, que denominam karoshi. Acontece que, nessa época, apenas operários morriam de karoshi… Quando, nos anos 80, começaram a morrer executivos, a Universidade de Tóquio – muito prestigiada e de onde já sairam mais de uma mão-cheia de Prémios Nobel - prestou atenção ao fenómeno e decidiu estudá-lo. Deixo para os sociólogos e economistas a observação da doença enquanto consequência de todo um espectro de país devastado pela Guerra e com uma brutal energia para ressurgir em grande (?) e para os analistas políticos a força da filosofia do comunitarianismo (ética dos poderosos, será?)  na influência do pensar destes viciados.


Facto é que centenas de pessoas, nos dias de hoje, morrem de estafa, sem sinais anteriores de doença. O perfil típico é o de um homem com boa posição, que trabalha mais de doze horas por dia e sete dias por semana. Pois, mesmo que vá para casa, verifica-se que não consegue deixar de trabalhar… E muitos só vão porque a família os foi buscar aos empregos.


Nem todos os viciados no trabalho morrem. Aparentemente, muitos ficam apenas com severos problemas mentais e de memória (escusado é dizer que todos apresentam graves questões a nível de relacionamentos pessoais). O terrível paradoxo é que estas consequências individuais acabam por afectar o seu rendimento e fazê-los ter de trabalhar cada vez mais, dando origem a um ciclo de quanto mais trabalho, menos produção.
Hoje, no Japão, já inventaram um jogo de computador em que o propósito final não é sobreviver. É matar-se… de cansaço. Chama-se Suicide Salaryman. É precisamente a pergunta que me ocorre: qual é a diferença entre este karoshi e o suicidio a fogo lento?


Nota: Este artigo foi re-publicado a 30 de Julho de 2010 no A.Marginal.

Friday, December 25, 2009

Family Matters


Diz o refrão que “Natal é a festa da família.” O refrão só não diz que “família” tem significados diferentes para muitos, tanto do ponto de vista afectivo como psíquico e até ético. Não vamos por aí, porque corríamos o risco de divagações psico-filosóficas. Certo é que há, basicamente, duas famílias: a nuclear – aquela que é formada por duas pessoas quando decidem juntar trapinhos e escovas de dentes, mais seus filhotes – e depois a família de ADN – aquela que a gente não escolhe mas que nos calhou na rifa. Eu acrescentaria ainda uma terceira, formada por colaterais e emprestados. O Natal é a única época do ano em que dita a convenção social que há que juntar esta gente toda... O Natal é, pois, permitam-me dizê-lo, a festa da sobrevivência.


Vamos então falar das duas figuras universalmente mais amadas da Família: a Madrasta e a Sogra. Para onde formos no Mundo inteiro, não há quem não as venere. O próprio Pai Natal, se tivesse Madrasta e Sogra, deixaria de exibir um ar tão bonacheirão. O Menino Jesus, felizmente tinha Mãe ao invés da outra Senhora… e não chegou a ter Sogra. É por isso que está sempre com aquele sorriso abençoado.


Gostaria de esclarecer os espíritos menos iluminados: estou muito habilitada para falar de Madrastas. Em primeiro lugar, tenho uma; em segundo, sou uma. É, pois, com certeza que afirmo:  é impossível ser uma boa Madrasta - tudo está contra as ditas criaturas na crença popular. Desde o princípio dos tempos que elas envenenam maçãs (vide Branca de Neve), infernizam a vida das raparigas (vide Cinderela) e lhes dão nada mais que pão duro para comer (vide história das Três Maçãs de Oiro). Cá por mim, nunca comi nada que a minha tivesse cozinhado sem ver a minha Irmã (filha dela) dar uma trinca primeiro. São invejosas, más e arrancam o coração das enteadas nalguns contos infantis em que o Pai das meninas é uma figura quase invisível. A gente admira-se como é que ele não salta logo ali a dizer “Alto! O coração, não, sua bruxa!”. É por ter a certeza que o meu Paizinho também não saltaria que tenho sempre muito cuidado, sobretudo quando a minha Madrasta carrega a sua caixa na qual ela diz que guarda a flauta – pois toca numa orquestra sinfónica  – mas eu cá suspeito que aquilo são armas letais.


Não pensem que, na eminência permanente deste ataque sob o qual vivo desde os 10 anos de idade, me mantinha impávida. Isso é que era doce! Fazia-lhe a vida num inferno à minha maneira, aquela maneira delicodoce que a criançada tem de se fingir adorável e ir partindo frascos pela calada e pondo os vidros no lixo. “Perfume?! Não. Não vi frasco nenhum! Mas ajudo a procurar.” Eh eh eh…


Sempre que podia vir a gostar dela, lembrava-me imediatamente que a Madrasta era incompatível com a minha Mãe e ficava logo mais ordenada, com a raiva no sítio certo. Era o que faltava! Até porque a minha Madrasta é mesmo odiosa, claro, e não amorosa como eu. Quando acabar isto, vou-lhe escrever um fofo cartão de Natal, que espero seja o meu Pai a abrir para que saiba como eu faço um esforço para ser boazinha. Ia juntar um link para um grupo do Facebook chamado “Stepmoms Suck”, no qual se pode dizer mal sobre as mulheres dos nossos pais (alguns infelizes já vão na quinta Madrasta oficial, fora as outras, mas ainda não se lembraram de achar que é o Pai que é inconstante…)


E as Sogras? É folclórico que Sogra é um problema. Não estou tão habilitada para dissertar porque não sou Sogra… ainda. Mas como tenho um Filho, suspeito que, cedo ou tarde (tarde, meu Deus, fazei com que seja muito tarde!), estarei encontrando perfídias em todas as mulheres que dele se aproximarem. Sim, porque claro que serão elas a aproximar-se, o meu Filho jamais se aproximará de Mulher alguma quando já tem em mim tudo o que precisa.


Essas aproveitadoras (de quê ainda não sei bem, mas estou certa que existem para se aproveitar de alguma coisa…) que estejam alerta porque eu não lhes vou dar descanso! …Sempre com muito mel, evidentemente: “Oh Filho, essa rapariga gosta de ti mas parece que está um bocadinho infeliz e tu então… Estou preocupada com ela e contigo, vocês talvez devessem tirar umas férias um do outro para espairecerem. Anda para casa da Mamã uns dias. Ou a Mamã pode ir  dar-vos uma ajuda, que a vida de casal é muito difícil, sempre uma pessoa mais experiente equilibra…” Eh eh eh.


Sogra, para além de ter infinitos truques movidos pelo ciúme de ver o Filho beijado e apertado por outra criatura do sexo feminino (vide Madame Bovary), tem um peculiar atributo: odeia toda e qualquer Nora na mesma proporção em que “ela é muito boa rapariga” a partir do momento em que passa a ser ex-nora. Experimentem dizer-lhes que vão ficar juntos de novo e invertem logo a opinião da Sogra.


Sogra é bicho tanto mais ruim quanto nunca diz verdadeiramente o que pensa ao Filho; diz e faz à Nora que, na sua ingenuidade (quando ainda a tem) conta ao Filho que, por sua vez, jamais pode acreditar que a sua Mãe fosse capaz de tais pensamentos, palavras e acções. O meu Filho também nunca acreditará, Deus o guarde. Estou já congeminando o meu saco de maldades, maior que o do Pai Natal.


A melhor piada sobre Sogras que conheço foi-me dita por um homem, Sogro veterano - um velho vai ser operado e insiste para que seja o Filho, afamado cirurgião, a executar a operação; quando já está na mesa de operações, pede para falar ao Filho antes da anestesia e diz-lhe: “não te enerves, filho, faz o teu melhor… lembra-te apenas que se isto correr mal e eu morrer, a tua mãe passa a viver contigo e com a tua mulher…”


É assim que no Natal vemos reunidos, mais uma vez, no seio familiar (gosto muito desta expressão, “seio familiar”, algo muito caro às Sogras – o seio é de onde o Filho nunca havia de ter saído! – e Madrastas – por pudor e reverência paternal, não comento esta parte …) todos os clãs, que Deus os abençoe na Sua infinita misericórdia, luz, paz e amor.  Àmen.


Monday, December 14, 2009

Aves Raras

Neste preciso momento, encontro-me a trabalhar numa cidade onde há vários anos atrás fiquei muito triste por esta altura do ano – estávamos em família, quando deparámos com um mendigo, gelado e só, com um cartaz que dizia “C’est dur d’être seul pendant Nöel” (é duro estar sozinho no Natal). Talvez seja. O certo é que, este ano, depois de falar com uma colega de trabalho, tenho uma impressão diferente: estar só no Natal pode ser muito bom. Desde que seja uma escolha nossa.


Não sei se sabem que a esmagadora maioria das companhias aéreas baixa escandalosamente os preços no dia 25 de Dezembro. A razão? Qual é o doido que quer viajar no dia de Natal? A maior parte está no quentinho do lar e ai dele se sai para ir dar uma volta, o sacrílego! Era engolido. Parêntesis para referir os que não são cristãos e, logo, não fazendo o Natal parte das suas convenções, digo prazeres, podem perfeitamente meter-se num avião nesse dia. Também há os que trabalham no Natal, por força das circunstâncias – assim de repente, recordo-me do taxista que nos pode levar ao aeroporto, do piloto de avião, do homem do bar, dos senhores da ambulância, da polícia e dos jornalistas.


Porque é que é tão duro passar o Natal só? Porque se convencionou que há que estar acompanhado. Experimentem dizer que vão passar sós o Natal. As famílias dos vossos amigos, com um misto de compaixão e da melhor intenção samaritana, convidar-vos-ão logo lá para casa. Há sites internet sobre como sobreviver ao Natal sozinho (sobretudo dirigidos a divorciados, embora eu cá ache que se deviam dirigir a idosos fechados em lares, onde a solidão é muito mais pesada do que se, efectivamente, estivessem livres para irem para onde bem entendessem). Quando, finalmente, uma pessoa consegue tempo para estar só em sua casa – após declinar os amáveis convites – liga a televisão e o que é que aparece? Famílias inteiras trinchando animais, presentes, presentes, presentes e festas. Uma pessoa está, praticamente, jantada de Ferreros e inundada de brinquedos sem sair do sofá.


Eu gosto sinceramente do Natal, sobretudo pelos sentimentos de generosidade, fraternidade e alegria que provoca na maior parte das pessoas que o celebram. Também gosto – talvez até infantilmente – da sua luz, do seu calor, da paz (ainda que efémera e talvez falsa) que traz com ele. Mas abomino obrigações. E é esse paradoxo que me constrange, sobretudo quando aliado ao materialismo e à hipocrisia.


Natal sozinho não tem de ser sinónimo de Natal solitário – pode ser um Natal solidário, como o da minha colega que é voluntária num abrigo e passa o Natal a servir comida a quem come mal o resto do ano. Tem um Natal melhor que o meu, porque é, sem dúvida, muito mais útil ao mundo. Não sei se se sente mais feliz. Mas é a única que vive o Natal – afinal, é a única que vê e faz milagres acontecerem. E, para falar a verdade, até me dá vontade de rir quando ouço dizer que ela está só.


Thursday, December 10, 2009

Íntimos Paraísos Feitos de Papel


“O que na vida perco, em tinta o acho” Vitorino Nemésio,
 Andamento Holandês





Escrever sobre “Literatura Açoriana” - tema proposto - não é fácil. Primeiro é preciso provar a sua existência e esta é uma questão que vem sendo debatida ainda eu comia chupa-chupas em público sem que ninguém olhasse para mim de lado. Porque é que é tão difícil provar que existe uma “Literatura Açoriana”? Porque teria de ser intrinsecamente diferente da Portuguesa o que implicaria, desde já, uma Cultura Açoriana distinta da Cultura Portuguesa que se expressasse em Literatura. Ora, admitir a especificidade de uma Cultura é algo cujas implicações não cabem aqui… Vamos elegantemente saltar por cima do conceito hipertrófico de Cultura, admitir que a Açorianidade existe e que a sua especificidade está reflectida na Arte que os Açorianos escrevinham. Como é que a Literatura expressa a Açorianidade? Um falecido Professor de Mestrado meu, Martins Garcia, dedicou a sua vida a estudá-lo e, lendo as suas conclusões, quase apetece dizer “A Literatura Açoriana é um poço de indefinições! Todos ao psiquiatra, de imediato!”.


Tomemos como exemplo Roberto de Mesquita e já vão ver porquê – poeta nascido em 1871 nas Flores, de onde só saíu para uma viagem ao Continente, e cujos escritos já Nemésio considerava “ o melhor exemplo do perfil difuso (…) da Açorianidade”. Este adjectivo é importante, como as brumas. Certo é que R.M. tinha uns traços afrancesados simbolistas porque lia Baudelaire, Verlaine e essa malta, mas distinguia-se deles pelo seu “sentimento de solidão atlântica” que é, afinal, a condição humana dos açorianos, ilhéus no meio do grande mar. Dizer só isto é pouco, pois não faltam ilhéus por esse mundo fora (e alguns dividem o Atlântico connosco), portanto não sejamos arrogantes. Porque é que estarmos insulados nos faz tão diferentes? Porque o Açoriano não está insulado. Ele é insulado. Parêntesis para dizer que, deste modo, a Literatura Açoriana adquire uma geografia muito mais ampla: o Açoriano leva a Ilha para onde quer que vá – arquétipo mítico da Ilha Perdida que já só dentre dele existe, arca de onde se retira material para muita literatura e tema de uma perturbação mutiladora vulgarmente conhecida como “Síndroma de Ulisses” (que não é só açoriano e nada tem de mítico, infelizmente).


Voltemos um pouco atrás – ao ser-ilha. É notória a influência dos elementos naturais na psique do Açoriano. Na Literatura Açoriana, a ambiência natural aparece como parte íntrinseca do sujeito,quase deixando de haver distinção entre a objectividade da Natureza e a subjectividade do poeta. O clima como definidor da anima é uma noção tão verdadeira quanto terrível pois o clima açoriano é de mormaço, de humidade abafada, propensa a muito pensamento e a “ilimitação parada “ de “ilhas acobardadas em neblina”, como se lê no Mau Tempo no Canal – livro extraordinário para avaliar da cobardia e dos repentes de coragem, conforme o Pico tem nuvens ou não…


Este mesmo livro define muito bem a “clausura insular”, a noção de ilha como prisão, o que é compreensível para qualquer não-ilhéu. O que já é mais difícil de explicar é porque é que os Açorianos são tão paradoxais que encaram a Ilha tanto como prisão quanto a vêem como miragem de total liberdade, por oposição às grandes capitais (restos de ideias de Rousseau?). Dividem-na em duas ilhas perfeitamente antagónicas e carregam ambas, coexistentes, sendo a “Ilha escravizante” mais forte quando lá habitam e a “Ilha sedutora” mais forte quando dela estão apartados. Porque a Ilha é como uma sereia: canta muito bem até nos agarrar.



Isto leva-nos ao grande tema da Literatura Açoriana: a viagem. Como não, com tanto mar? Mas, novamente, o Açoriano hesita, interroga-se, não se decide de uma só vez. Está encantado com a visão atlântica e deleita-se a imaginar as vivências que teria nos mundos para além mas igualmente tem um certo gosto em deixar-se ficar no seu canto conhecido, no encanto dos cheiros da terra de sempre. A maior parte acaba por recalcar o sonho da distância em amargura, levando o dia-a-dia num “viver quietista”. Outros há que partem, o que é sempre encarado como uma transgressão. E há, ainda, a transgressão suprema, a daquela personagem fabulosa chamada “o torna-viagem”, o que partiu e voltou, a mais solitária de todas as figuras porque não tem lugar a não ser como contador de histórias.


Claro que não é possível resumir as características da Literatura Açoriana numa opinião de meia-folha. Direi, como já outros disseram, que ela é “solidão, cárcere, infinito e fuga”. Acrescento, também, que não se pode falar dela sem falar de emigração, uma emigração sem lugar de chegada, mas apenas com lugar de partida: a Ilha Açoriana é íntima, para além de física – depois da evasão, estilhaça-se, parte-se num indivíduo também ele próprio fragmentado pelas circunstâncias de dois mundos, mas continua a existir.


Quanto ao mais, seria interessante (num artigo mais longo), verificar a incidência de tantas mulheres-anjos e outras tantas mulheres-demónios na Literatura Açoriana. De facto, somos mal amadas porque somos sagazes Circes ou, pelo contrário, mitificadas de tal modo que de símbolos não passamos… Pois, não sei se cheguei a mencionar que a Literatura Açoriana não é um caso de Teoria da Literatura – é um caso de Psicologia.


Felizmente, nalgumas linhas, nalgumas páginas é tão bonita que vale todo o tempo que lhe dedicamos. São íntimos paraísos feitos de papel. 




Nota: Este texto, inicialmente feito para o Fazendo como crónica principal, foi re-publicado no RTP-Comunidades a 24 de Abril de 2011. A 27 de Julho de 2011, o RTP-Comunidades republicou o artigo, pelo interesse e polémica que gerou.
Ver aqui: