... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, February 25, 2010

O Amor de Um Mito é Puro Mito

  

Vamos começar por fazer um pequeno détour (podia dizer desvio, mas dizendo détour prestam-me logo mais atenção, por causa da tal mania portuguesinha da qual Eça de Queirós já fez troça, de que as coisas em francês são mais intelectuais): as mulheres da Literatura Açoriana têm todas fama de destravadas, cheias de coragem e de força mas também de maluqueira e claramente incomuns.  Natália Correia -  que arrisco a dizer que é mais lembrada como deputada do que como escritora (infelizmente), sendo que o que mais se conhece dela  são os famosos versos que disse como resposta ao deputado João Morgado na própria Assembleia na sequência da proibição do aborto, pois “o acto sexual é[ra] para ver nascer filhos”;  Alice Moderno, que foi a primeira mulher a preocupar-se com a condição feminina nos Açores e a escrever sobre a liberação das mulheres em todos os sentidos, desde a independência financeira aos cortes de cabelo, tudo coisas de fazer tapar a boca com a mão no princípio do século XX. Naqueles tempos  - como nos conta a investigadora Conceição Vilhena -, quando se dizia que alguém não estava bom da cabeça dizia-se que “estava como a Alice Moderno”, de tal modo as suas ideias eram consideradas provocadoras e contra a corrente.


No entanto, aquilo que me propuseram falar aqui um bocadinho é, sobretudo,  da imagem do feminino dada por aquele que escreve no masculino. Como não estou a escrever um artigo académico (pasmo de pensar que há quem pense que escrever num jornal é escrever outra coisa que não opinião, mas adiante…) perdoar-me-ão aspectos relevantes que ficarem de fora.


Escolhi Vitorino Nemésio como exemplo, não só por ser o autor sobre quem sempre me debrucei mais aprofundadamente (e, logo, tenho um conhecimento maior… mas pobre comparado com o código cifrado que ele utilizou para escrever, não se deixando desvendar) mas também porque a sua perspectiva do feminino é paradigmática.
É sempre difícil separar a obra de um homem dele próprio: é tentação comum inferir dos textos por ele produzidos não uma ficção mas a sua vida transposta. Apesar deste pecado, do qual nem sempre estou livre,  também eu “prefiro a obra de um autor à sua biografia”.


Comecemos por um romance pouco conhecido – Varanda de Pilatos. O protagonista, Venâncio, é um adolescente, tão idealista quanto amedrontado, com tendência para a evasão poética. As suas musas (uma musa única exigiria coragem que um Pilatos não possui) são Elisa, uma namoradinha infiel - que ele crê sempre incapaz de tais actos impróprios mesmo quando ela lhos confessa abertamente – e uma mulher mais velha, Fernanda, em quem ele deposita todo o impulso erótico que é incapaz de realizar com a namorada – e, logo, Elisa fá-lo por outro caminho.  
A “doce Elisinha, casta flor do meu jardim suspenso” tem com ele “um amor sério” no qual não entram desejos; entram poemas. Ao saber que ela o traía, Venâncio nem se atreve a pedir-lhe explicações, pois, como diz, ele era “um Rei […]atordoado” com esta Elisa, “pura de mais” aos seus olhos enevoados pelo amor. Elisinha não nega a traição; conta-lhe pormenores, deliciada de o ver humilhado na sua falta de decisão e de desejo (onde ela tanto o tentara sem resultado!).  Ele é rápido a passá-la de deusa, “razão de ser e fundamento” a “Messalina”, indigna do “alto sentimento que perfuma os cavaleiros, vindo de meigas donas”.


Mas realiza-se o rapazinho com Fernanda? Nem por isso. Pensamentos não lhe faltam, excitados por ela, que não ignora que basta-lhe subir a perna para arranjar as meias para provocar nele faces coradas. Mas são só isso mesmo: olhares e pensamentos. Pois Venâncio não teria atitude para avançar. A eroticidade que sente por Fernanda é também a excitação da dificuldade, o saber que está defronte do impossível e a idealização fascinada de um rapazinho por uma mulher, à vista dele, madura. De resto, ele próprio admite que as formas redondinhas de Fernanda a que deita o olho são uma desculpa para o erotismo, porque lhe dão ideias e, não raro, lembram-lhe a própria Elisa, por quem ele tem sentimentos mas em quem não consegue pensar como corpo. Assim, serve-se de uma para melhor continuar com a outra…


Como sucede em outras obras, há um bom amigo para equilibrar o protagonista confuso, esquema corrente e funcional. O amigo é rápido e certeiro a analisar que Venâncio “não passa de um trampolim onde pulam desejos pueris” sem sentido: “Falta-te o nervo!”, ao passo que vê que na Elisinha “Temos mulher.” Mas se Elisa tem sangue e Fernanda tem doces risinhos, Venâncio só ferve de contradições e nunca chega a lado nenhum, excepto a uma fuga,  insatisfatória até para o próprio.


Este romance foi dedicado a Gabriela Monjardino Gomes, expressamente “minha Mulher” segundo o autor. A dedicatória, plena de doces palavras e reconhecimento e gratidão pelo seu companheirismo, faz-nos pensar que GMG terá partilhado muito do fazer do livro. Dado estarem casados apenas há quatro meses, supõe-se que a sua intimidade era grande anteriormente (VN não era modernaço, não fazia livros em 4 meses). Impõe-se uma pergunta, dado que todos nós sabemos que VN também tinha as suas indecisões particulares: onde está “a bonequinha de sangue” que inspirou Mau Tempo no Canal?


Margarida Clark Dulmo, a protagonista de Mau Tempo no Canal, foi decalcada, como se sabe, de um amor antigo a quem VN nunca deixou de enviar cartas. Claro que Margarida é uma personagem muito complexa, desde já por ser um compósito da idiossincrassia açoriana a que o autor tentava regressar, memorialista e literariamente. Mas para além de ser esse arquétipo condensado de “Ilha perdida”, é a mitificação do sentimento amoroso de João Garcia, um co-protagonista  espécie de exorcização de VN, homem sem força de vontade, cheio de técnica e teoria, mas incapaz de uma atitude frontal e empenhada, o que fatalmente conduzirá à rejeição amorosa de Margarida, cuja “veneta” rebelde não concebe não ser orgulhosamente amada. A paralisia do carácter de João Garcia, a estagnação das promessas nunca cumpridas, “o gosto de a sentir sempre longe, sugerida, sem um apetite preciso”, a sua incapacidade de gerir o afecto chocam com os riscos (e até as sovas) que ela chega a sofrer por causa dele.  JG está muito consciente da sua fraqueza de acções (que não de sentimento), e atormenta-se por, no centro da sua concepção amorosa, repousar a ideia que ele tão bem expressa ao falar do seu amor por ela como se fossem Dante e Beatrice: ao vê-la, fica presa de “terror sagrado”, sente nela “o próprio irreal com rosto de realidade”. Esta veneração excessiva passa do simbólico ao concreto, não sendo ele capaz de nenhuma atitude rasgada como devem ser os amantes e acabando por perder a rapariga desafiadora e aventureira que via nas outras meninas do Faial umas “bispetas, que fazem biquinhos, a quem os papás compram piano e vestem de seda liberty”. 


A ofensa de JG a Margarida é a sua incapacidade de a amar, desafiando o mund(inho) local de pedestais, interpondo-se a personalidade dele de entrave ao amor dos dois como um biombo. O próprio João Garcia, derrotado, exprime este teorema, resumindo a consagração do feminino e o falhanço do amor por inexistência: “O amor de um mito é puro mito.”


Acaba por ficar comodamente casado com Laurinha, que nos aparece toda cheia de diminutivos, a começar pelo nome. Ela é boquinha, dentinhos, risinhos, dedinhos com que vai tecendo uma teia de assédio em que ele, molemente, se vai deixando enredar, sem grande gosto e, sobretudo, sem decisão firme: fica com ela como apanhado por um diabrete que lhe pisca o olho e, pensando no desgosto fundo de não ter Margarida, propõe-lhe ficarem juntos depois de ela muito o tentar. 


Apesar de agarrado pelo diab(inho), como admira ainda o seu mito feminino! … Afinal, para além de ser a amada, Margarida é também a força que ele não sabe ser: o desprezo pelas convenções sociais de tafularia, o gosto pela errância transgressiva, o “recalque” das dores, a serenidade aparente frente ao turbilhão e o amadurecimento psicológico extremo de quem tomou nas mãos o governo da casa e da família por oposição à imaturidade inerte dele –  que é um desenraizado no amor mas um tenente muito correcto do seu trabalho. Como diz Martins Garcia “ama com lógica (o que é mau) e raciocina com amor (o que é péssimo)”. 


A imagem do feminino como ser objecto de veneração ou, pelo contrário, diabo trapaceiro está presente noutras obras –  Lurdes, a funcionária com quem o protagonista Renato tem aventuras sexuais na cozinha, guardando de tudo uma sensação póstuma de repugnância; Zilda, a braços com horizontes tacanhos mas enlevada pelos homens que a rodeiam, caindo na armadilha do rapaz bem falante quando um pressagiador podre tubarão dá à costa; Célia, a quem o protagonista tanto amava que só falava com ela com um muro interposto, não fosse ceder a alguma tentação menos casta…


Porém, suspeito que este longo texto já tem dificuldade para caber na página. Portanto, vou deixar outros falarem. Além de que tenho de guardar alguma novidade para quando encontrar alguém no café – é que eu nunca aprendi malha, não pinto as unhas e, apesar do meu nome, não troco receitas; estou desesperada à procura de assuntos assim femininos!



Friday, February 19, 2010

Persona

As crianças gostam do Carnaval. Têm a oportunidade de ser, por umas horas ou um dia, princesas, fadas, heróis, animais e tudo aquilo que a sua imaginação fizer deles, ajudada pela fantasia de uma costureira e por umas pinturas na pele. Mais tarde, na vida, descobrem que as máscaras são algo de dúbio: tão divertidas quanto assustadoras, usadas por alguns numa cerimónia e noutros como prática diária corrente, a tal ponto que se esquecem de as tirar e chegam a perder o fio ao verdadeiro indivíduo que está por detrás… Não é por acaso que as máscaras sempre foram tidas como objectos a respeitar desde a Antiguidade.


No célebre Carnaval de Veneza, cujas máscaras são de uma beleza artística incontornável, não há quem não se recorde que estes mesmos adereços serviam, em séculos passados, para esconder a identidade do portador quando este praticava situações menos abonatórias (crimes ou fosse o que fosse de ilícito) ou quando necessitava de fugir ao convencional – diríamos, em bom falar, “perder a cabeça” (mas nunca a máscara!).

Aliás, ainda hoje existe esta ideia, popularizada na frase “No Carnaval ninguém leva a mal”, façam-se as asneiras copofónicas que se fizerem, entre outras, só tristemente ultrapassadas pelas Noites de Amigos e Amigas nas quais ficaria bem usar uma máscarazita de Columbina.

Não faltam culturas nas quais a máscara é um elemento importante – dos Inuits norte-americanos com os seus totems às máscaras das diversas tribos africanas, das máscaras espirituais dos nativos da Oceânia às máscaras diabólicas da Ásia. Até nas sociedades em que é utilizada para ritos de passagem, há sempre uma força mágica e poderosa, um outro-ser de carácter extra-mundo que toma posse do indivíduo ao colocar uma máscara. Raramente, esta força é tida como benéfica. Mesmo quando é, a possessão e efeito da máscara é tão poderoso que deve ser usado com muita moderação, nunca mais do que algumas horas e seguramente apenas em determinada época do ano. Assim, o têm entendido todas as culturas. Até a nossa.

Persona é o termo usado na Psicologia de Carl Jung para falar da máscara com que todos nós nos apresentamos ao mundo. Entenda-se, a aparência que damos, o que queremos revelar. O termo persona vem do latim onde significa, precisamente, máscara.

Não é extraordinário como, contrariando todo o bom senso antropológico e humano, a vamos mantendo diariamente?

Friday, February 5, 2010

Serviço Público



A primeira vez que viajei de avião, tinha quatro meses. Por imperativos pessoais e profissionais, viajar sempre foi uma constante na minha vida e, dado dar grande importância à comunicação, sempre adorei enviar postais. Atribuo grande importância aos Correios, mesmo nesta época frenética de e-mails.Nada mais bonito do que receber uma carta, com cheiro de papel, que faz barulho ao desembrulhar-se nas mãos.


Apesar do meu fascínio pessoal pelas missivas, foi com surpresa que li a reportagem publicada pelo diário inglês The Guardian que dava conta de um serviço especial dos Correios - o tratamento das Cartas para Deus. De facto, há quem lhe escreva. Sao cartas que vêm de todo o Mundo e, dado o seu conteúdo, percebe-se que são fruto de várias e diferentes crenças religiosas. A maior parte das pessoas nao coloca direcção (o que não é de espantar...), pondo apenas o destinatário, mas outras colocam "Muro das Lamentações" no envelope e isto por uma razão muito simples: venham as cartas de onde vierem, os Correios de todo o mundo encaminham-nas para os Correios de Israel que as colocam, abertas e dobradas, nas fendas do Muro. Avi Yaniv, o encarregado do Departamento das Cartas para Deus, explica que os Correios de Israel assim o fazem por entenderem que o Muro é o local mais próximo do Divino. Mas o Muro terá lugar para tantas cartas? É que chegam diariamente... De facto, as mais antigas vão sendo enterradas em terreno sagrado.


O Muro nao é apenas o mais sagrado monumento dos judeus, que o vêem como uma das paredes do Templo destruído e seu único vestigio, mas é também importante para os islâmicos, que afirmam ser o este o local onde Maomé amarrou o seu cavalo alado, e ainda para os cristãos, que o visitam aos milhares. Faz sentido ser esta a morada escolhida para as Cartas a Deus.


De onde escrevem as pessoas? De todos os locais do planeta, desde a Rússia à Austrália, da Jordânia ao Gana. E em todas as linguas, porque Deus (e os Correios) serão capazes de entender. Porque escrevem? É mais dificil responder, mas é curioso verificar que, embora Ani Yaniv refira "depressão, tensão e sofrimento" como os causadores destas missivas, algumas pessoas escrevem só para agradecer e outras façam declarações de amor - a Deus, claro. A maior parte pede, desde bens materiais a paz. E muitos pedem o fim da solidão e a oportunidade de rever os que já partiram e de fazer as pazes com eles ou de lhes dizer aquilo para que nunca houve tempo. Outros fazem perguntas a Deus. Querem saber os comos e os porquês. Mas ninguém espera uma resposta... Só um alívio pessoal por fazer o envio.


Avi Yaniv tem 66 anos. Em breve, será outro funcionário a ocupar o seu lugar pois há 12 que se ocupa destas cartas. Há pessoas que escrevem regularmente mas ele não pode responder: é regra. Yaniv nao é Deus. Ainda se comove com a história de um homem que pede para rever a mulher morta em sonhos - "Sente muito a falta dela". Yaniv, sem ser padre, rabi nem imã está mais perto do Divino do que todos eles.


 

Thursday, January 28, 2010

Apologia da Maçã


A Maçã é o fruto mais importante do Mundo Ocidental. Não sou feroz amante de maçãs, mas defendo-as, com unhas e, sobretudo, com dentes. É que sem maçãs o Mundo não seria tal como hoje o conhecemos, pois todos sabemos que a condição humana, a sua experiência e sensibilidade repousa, bem apoiada no braço direito na sua História, mas não menos apoiada no braço esquerdo nos seus Mitos. É a Literatura que faz com que os Mitos – todas as histórias que a Humanidade criou para explicar as formas do mundo e suas criaturas - prevaleçam. Ora, não há Mitologia no “nosso” Mundo sem Maçã.


Comecemos pela Grécia Antiga. Eris, Deusa da Discórdia, usou uma Maçã dourada para os seus propósitos. Atirou-a, muito apropriadamente, para o meio de um matrimónio onde estavam presentes todas as deusas, o que não seria nada de extraordinário, não tivesse esta a inscrição “para a mais bela”. Zeus não se quis envolver, pois se tinha chegado a líder foi também pela sabedoria de ficar sempre calado em disputas no seu harém e nomeou o pobre Páris para decidir qual era a deusa mais bonita.  Em troca da Maçã, cada deusa lhe ofereceu o que tinha: Hera deu-lhe poder, Atena, sabedoria e Afrodite, amor. Páris não pensou duas vezes, deu a Maçã à última e… assim começou a Guerra de Tróia, que durou dez anos, e teria durado mais se não fosse a brilhante ideia do cavalo de Ulisses. Por causa de uma maçãzinha… Nalgumas das línguas indo-europeias, há resquícios desta lenda – em holandês e em alemão, a expressão “maçã da discórdia” identifica  desarmonia, além de haver um lugar com o mesmo nome no bairro Eixample,  em Barcelona.


Hércules, o semi-deus dos doze trabalhos, também se viu aflito com Maçãs. Teve de roubá-las do Jardim das ninfas Hespérides (ao que parece, localizava-se na Ibéria), porque a Maçã era o pomo da imortalidade.
Na mitologia nórdica, também assim acontece – os deuses alimentam-se de maçãs para garantir não só a eterna vida como a juventude.


A cultura judaico-cristã, a que a realidade açoriana está mais ligada, assenta num mito primordial que envolve o quê? A Maçã! A serpente bem podia ter oferecido a  Eva outro fruto que expulsasse a Humanidade do Paraíso… Mas não. Deus permitiu-lhes comer tudo, excepto o “fruto da árvore da sabedoria” (ou da consciência, dependendo das traduções). Curiosamente, se formos investigar, verificamos que o fruto de Adão e Eva teria mais probabilidade de ser um figo ou uma uva – de acordo com o Zohar, texto da Cabala Judaica. Mas a nossa cultura ocidental, muito romanizada, melhor sorte não reservou para a Maçã, cujo nome latino é Malus domestica. Assim, aparentada etimologicamente com  “má”  logo de entrada, previa-se para a Maçã um mau futuro e muita especulação…


Na mesma senda de fruto poderoso e terrível, a Maçã faz parte dos imaginários infantil e juvenil: é com uma Maçã que a Madrasta da Branca de Neve – um conto cujo folclore se perde em 1700 - a envenena, e é uma Maçã que o herói suiço Guilherme Tell põe na cabeça do filho e parte ao meio com grande pontaria de arco e flecha, a arma por excelência do século XIV.


O cientista cá de casa (sim, nós pessoas das ciências humanas não somos cientistas) explicou-me que há uma razão de ser para o facto da Maçã ser tão importante: parece que era muito popular na base de alimentação do ser humano – por exemplo, os franceses, muito relutantes à introdução da batata quando esta apareceu a substituir os rabanetes e beterrabas, só se lhe renderam pela sua parecença morfológica com as maçãs; para convencer os conservadores citoyens a comer batatinhas foi preciso usar um estratagema e chamá-las pommes de terre. Achei isto muito factual e interessante, mas desfez-me um mito científico: então o Isaac Newton, ao raciocinar a Lei da Gravidade debaixo da macieira, estava apenas à espera de uma refeição fácil?! Coitado. Já naquela época, cientista sofria para o seu sustento…


Entretanto, nos últimos tempos, à custa do Novo Mundo, a Maçã ficou mais bem vista. Os americanos fizeram de Johnny Appleseed uma lenda e, logo, lendas patrióticas dos vastos campos de macieiras que ele terá plantado, alargando a frontier. Talvez por isso seja tradicional os professores mais simpáticos receberem dos alunos uma maçã vermelha, nos EUA. Na gíria do jazz moderninho, “Maçã” é uma cidade e a Big Apple é a maior de todas.


Claro que vos dei apenas um breve esboço do poder da Maçã ao longo dos tempos. Ah, e não pensem que é por um pecado de gula pessoal: dentro de mim, mora uma japonesa que ama o sabor de cerejas e a visão de sakura na Primavera. Não tenho o apetite de Agatha Christie que não conseguia escrever sem comer um cestinho de maçãs reinetas. Não posso, porém, deixar de reconhecer: culturalmente, onde estaríamos sem uma Maçã para as nossas catarses?


Friday, January 22, 2010

Mrs. Robinson, Primeira Dama

O Primeiro Ministro irlandês, Peter Robinson, está a ser pressionado para pedir a demissão. Segundo o seu partido, o conservador DUP, e também segundo as sondagens que mostram o que pensa a opinião pública geral, Robinson “não tem condições” para continuar a liderar a Irlanda. Isto porque rebentou uma bomba que a imprensa classifica de “escândalo sexual com laivos financeiros” em casa de Mr. Robinson. Em casa… porque na verdade foi Mrs. Robinson (cujo B.I. segue já: Primeira Dama, 60 anos, também ela com um cargo político e membro do mesmo partido, claro) que teve um amante (19 anos, filho de um amigo) a quem montou um café com dinheiros que se esqueceu de declarar.


O DUP reuniu, Mrs. Robinson demitiu-se do seu cargo, o marido expulsou-a do partido (mas não de casa, que ninguém tem nada a ver com isso e tanto também não lhe exigiram os seus conservadores pares…), os OCS pegaram na história como cães num osso. Mrs. Robinson escusou-se a falar, o rapaz ex-amante também – apesar de ter começado a aparecer como ícone em revistas gay, pois parece que descobriu, entretanto, o seu verdadeiro eu, o que ajuda ao picante grotesco e vende mais a história – mas o Primeiro Ministro viu-se obrigado a explicar à nação que raio anda a passar-se dentro das suas portas. Na TV, o Primeiro apareceu muito ajuizadamente protegido por uma parede decorada com antigos desenhos dos filhos onde se lia “Pai, nós admiramos-te”. Explicou que a mulher estava (ou era, pois em inglês não há diferença verbal como sabemos…um pormenor que é tudo!) “perturbada e não era possível tirar-lhe duas frases com sentido”.


O DUP explicou aos OCS que este tipo de comportamentos “é inadmissível” e acrescentou que não há “simpatia para quem se coloca nestas posições”. A opinião pública, ainda há pouco tão elogiosa para com o Primeiro Ministro, considerando-o uma figura fundamental no frágil processo de paz da Irlanda - sempre a braços com as lutas religiosas e o terrorismo interno - agora quer crucificá-lo… porque a primeira-dama não se portou bem.


Não sei se estão recordados do quanto a Europa se riu quando foi do caso Monica Lewinski – Clinton. Toda a gente dizia que aquilo só na América, porque nós, cultos europeus, não queremos saber com quem é que os políticos dormem, só queremos saber se fazem um bom trabalho… Pois a gente, afinal, 16 anos passados, não só queremos saber da vida íntima dos políticos, como até das mulheres deles e, se as senhoras saem da linha, as cabeças dos maridos até podem rolar por isso.


De onde se retiram várias lições, entre as quais: os europeus estão mais papistas que o Papa; mulher de político tem de ter muito cuidado com as suas acções e Simon and Garfunkel nunca passaram de moda.


Friday, January 8, 2010

Pausa

Quando perguntaram ao famoso pianista Arthur Rubinstein como fazia para manobrar as notas com tanta mestria, ele respondeu: “Caríssimo, eu jogo com as notas como qualquer outro. Mas as pausas… É nas pausas que reside a arte!” Passe a modéstia de Rubinstein, a verdade é que as pausas são sub-valorizadas, na música como na vida.


Um workaholic, por exemplo, não consegue fazer pausas do trabalho o que, intimamente, significa que é um ser incapaz de relaxar em toda e qualquer situação, incluindo o tal trabalho, que ele jura ser compensador mas onde está tão obssessiva-compulsivamente envolvido. O nome clínico desta doença é ergomania, traduzido por mania de trabalhar. Para aqueles que estão a pensar que isso é bom, relembro que, em grego, mania significa loucura.


No fim dos anos 60, no Japão, começaram a aparecer os primeiros casos de que há memória de morte por excesso de trabalho. Aliás, o Japão é o único país – que eu saiba – que apresenta estatísticas para esta estranha morte, que denominam karoshi. Acontece que, nessa época, apenas operários morriam de karoshi… Quando, nos anos 80, começaram a morrer executivos, a Universidade de Tóquio – muito prestigiada e de onde já sairam mais de uma mão-cheia de Prémios Nobel - prestou atenção ao fenómeno e decidiu estudá-lo. Deixo para os sociólogos e economistas a observação da doença enquanto consequência de todo um espectro de país devastado pela Guerra e com uma brutal energia para ressurgir em grande (?) e para os analistas políticos a força da filosofia do comunitarianismo (ética dos poderosos, será?)  na influência do pensar destes viciados.


Facto é que centenas de pessoas, nos dias de hoje, morrem de estafa, sem sinais anteriores de doença. O perfil típico é o de um homem com boa posição, que trabalha mais de doze horas por dia e sete dias por semana. Pois, mesmo que vá para casa, verifica-se que não consegue deixar de trabalhar… E muitos só vão porque a família os foi buscar aos empregos.


Nem todos os viciados no trabalho morrem. Aparentemente, muitos ficam apenas com severos problemas mentais e de memória (escusado é dizer que todos apresentam graves questões a nível de relacionamentos pessoais). O terrível paradoxo é que estas consequências individuais acabam por afectar o seu rendimento e fazê-los ter de trabalhar cada vez mais, dando origem a um ciclo de quanto mais trabalho, menos produção.
Hoje, no Japão, já inventaram um jogo de computador em que o propósito final não é sobreviver. É matar-se… de cansaço. Chama-se Suicide Salaryman. É precisamente a pergunta que me ocorre: qual é a diferença entre este karoshi e o suicidio a fogo lento?


Nota: Este artigo foi re-publicado a 30 de Julho de 2010 no A.Marginal.

Friday, December 25, 2009

Family Matters


Diz o refrão que “Natal é a festa da família.” O refrão só não diz que “família” tem significados diferentes para muitos, tanto do ponto de vista afectivo como psíquico e até ético. Não vamos por aí, porque corríamos o risco de divagações psico-filosóficas. Certo é que há, basicamente, duas famílias: a nuclear – aquela que é formada por duas pessoas quando decidem juntar trapinhos e escovas de dentes, mais seus filhotes – e depois a família de ADN – aquela que a gente não escolhe mas que nos calhou na rifa. Eu acrescentaria ainda uma terceira, formada por colaterais e emprestados. O Natal é a única época do ano em que dita a convenção social que há que juntar esta gente toda... O Natal é, pois, permitam-me dizê-lo, a festa da sobrevivência.


Vamos então falar das duas figuras universalmente mais amadas da Família: a Madrasta e a Sogra. Para onde formos no Mundo inteiro, não há quem não as venere. O próprio Pai Natal, se tivesse Madrasta e Sogra, deixaria de exibir um ar tão bonacheirão. O Menino Jesus, felizmente tinha Mãe ao invés da outra Senhora… e não chegou a ter Sogra. É por isso que está sempre com aquele sorriso abençoado.


Gostaria de esclarecer os espíritos menos iluminados: estou muito habilitada para falar de Madrastas. Em primeiro lugar, tenho uma; em segundo, sou uma. É, pois, com certeza que afirmo:  é impossível ser uma boa Madrasta - tudo está contra as ditas criaturas na crença popular. Desde o princípio dos tempos que elas envenenam maçãs (vide Branca de Neve), infernizam a vida das raparigas (vide Cinderela) e lhes dão nada mais que pão duro para comer (vide história das Três Maçãs de Oiro). Cá por mim, nunca comi nada que a minha tivesse cozinhado sem ver a minha Irmã (filha dela) dar uma trinca primeiro. São invejosas, más e arrancam o coração das enteadas nalguns contos infantis em que o Pai das meninas é uma figura quase invisível. A gente admira-se como é que ele não salta logo ali a dizer “Alto! O coração, não, sua bruxa!”. É por ter a certeza que o meu Paizinho também não saltaria que tenho sempre muito cuidado, sobretudo quando a minha Madrasta carrega a sua caixa na qual ela diz que guarda a flauta – pois toca numa orquestra sinfónica  – mas eu cá suspeito que aquilo são armas letais.


Não pensem que, na eminência permanente deste ataque sob o qual vivo desde os 10 anos de idade, me mantinha impávida. Isso é que era doce! Fazia-lhe a vida num inferno à minha maneira, aquela maneira delicodoce que a criançada tem de se fingir adorável e ir partindo frascos pela calada e pondo os vidros no lixo. “Perfume?! Não. Não vi frasco nenhum! Mas ajudo a procurar.” Eh eh eh…


Sempre que podia vir a gostar dela, lembrava-me imediatamente que a Madrasta era incompatível com a minha Mãe e ficava logo mais ordenada, com a raiva no sítio certo. Era o que faltava! Até porque a minha Madrasta é mesmo odiosa, claro, e não amorosa como eu. Quando acabar isto, vou-lhe escrever um fofo cartão de Natal, que espero seja o meu Pai a abrir para que saiba como eu faço um esforço para ser boazinha. Ia juntar um link para um grupo do Facebook chamado “Stepmoms Suck”, no qual se pode dizer mal sobre as mulheres dos nossos pais (alguns infelizes já vão na quinta Madrasta oficial, fora as outras, mas ainda não se lembraram de achar que é o Pai que é inconstante…)


E as Sogras? É folclórico que Sogra é um problema. Não estou tão habilitada para dissertar porque não sou Sogra… ainda. Mas como tenho um Filho, suspeito que, cedo ou tarde (tarde, meu Deus, fazei com que seja muito tarde!), estarei encontrando perfídias em todas as mulheres que dele se aproximarem. Sim, porque claro que serão elas a aproximar-se, o meu Filho jamais se aproximará de Mulher alguma quando já tem em mim tudo o que precisa.


Essas aproveitadoras (de quê ainda não sei bem, mas estou certa que existem para se aproveitar de alguma coisa…) que estejam alerta porque eu não lhes vou dar descanso! …Sempre com muito mel, evidentemente: “Oh Filho, essa rapariga gosta de ti mas parece que está um bocadinho infeliz e tu então… Estou preocupada com ela e contigo, vocês talvez devessem tirar umas férias um do outro para espairecerem. Anda para casa da Mamã uns dias. Ou a Mamã pode ir  dar-vos uma ajuda, que a vida de casal é muito difícil, sempre uma pessoa mais experiente equilibra…” Eh eh eh.


Sogra, para além de ter infinitos truques movidos pelo ciúme de ver o Filho beijado e apertado por outra criatura do sexo feminino (vide Madame Bovary), tem um peculiar atributo: odeia toda e qualquer Nora na mesma proporção em que “ela é muito boa rapariga” a partir do momento em que passa a ser ex-nora. Experimentem dizer-lhes que vão ficar juntos de novo e invertem logo a opinião da Sogra.


Sogra é bicho tanto mais ruim quanto nunca diz verdadeiramente o que pensa ao Filho; diz e faz à Nora que, na sua ingenuidade (quando ainda a tem) conta ao Filho que, por sua vez, jamais pode acreditar que a sua Mãe fosse capaz de tais pensamentos, palavras e acções. O meu Filho também nunca acreditará, Deus o guarde. Estou já congeminando o meu saco de maldades, maior que o do Pai Natal.


A melhor piada sobre Sogras que conheço foi-me dita por um homem, Sogro veterano - um velho vai ser operado e insiste para que seja o Filho, afamado cirurgião, a executar a operação; quando já está na mesa de operações, pede para falar ao Filho antes da anestesia e diz-lhe: “não te enerves, filho, faz o teu melhor… lembra-te apenas que se isto correr mal e eu morrer, a tua mãe passa a viver contigo e com a tua mulher…”


É assim que no Natal vemos reunidos, mais uma vez, no seio familiar (gosto muito desta expressão, “seio familiar”, algo muito caro às Sogras – o seio é de onde o Filho nunca havia de ter saído! – e Madrastas – por pudor e reverência paternal, não comento esta parte …) todos os clãs, que Deus os abençoe na Sua infinita misericórdia, luz, paz e amor.  Àmen.