... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, April 16, 2010

Empatia e a Mulher Esqueleto


Sempre me foi muito fácil meter-me na pele de outra pessoa e sentir como ela sente. Aquilo a que os ingleses chamam “getting into someone else’s shoes”. Se é qualidade ou defeito, prefiro não classificar, até porque creio bem que pode ser ambas as coisas, dependendo das circunstâncias e do quanto nos deixamos envolver pelas emoções alheias. É condição indispensável em certas profissões, mas também pode dar-nos um saco de angústias extra.  Não é uma emoção e/ ou um estado fácil para todos e há mesmo quem seja absolutamente incapaz de sair de si para ir ao encontro do outro. As pessoas  narcissistas não só não o conseguem fazer como sofrem de um mal ainda maior: precisam com urgência de quem as admire intensamente mas não fazem a mínima ideia de como atrair a verdadeira admiração, que só se consegue ao dar algo de nós próprios.


A propósito de tudo isto, há uma velha lenda Inuit, inacreditável e metafórica como todas as lendas do Grande Norte. Uma rapariga Inuit discute com o pai que, irado e frustrado com a rebeldia dela, imprópria para meninas submissas, acaba por a atirar de um penhasco. A rapariga afoga-se e acaba por descansar no fundo do oceano em forma de esqueleto perfeito. Algum tempo mais tarde, um pescador que por ali passava predatoriamente apanha o esqueleto no seu anzol. Ao puxar a sua presa, vê o esqueleto emergir das águas e quase morre de susto. Então, foge como louco, no seu botezinho, tentando escapar dela. Mas como nunca retirou o anzol, o esqueleto persegue-o onde quer que vá… A perseguição do esqueleto torna o pescador cada vez mais assustado, incapaz de se aperceber que é ele que a tem fisgada e não a deixa escapar, e vocifera contra a mulher esqueleto enquanto tenta libertar-se dela e rema cada vez com mais velocidade. Até que volta para o seu igloo, sempre com o esqueleto na ponta do anzol. O pescador está exausto e aterrorizado, mas olha para a mulher esqueleto e apercebe-se que a tem presa. É nesse momento que se dá conta que ela nunca o perseguiu, mas que foi ele que a andou a arrastar, sem que ela pudesse libertar-se. O terror do pescador é substituído por um sentimento de compaixão pela mulher-esqueleto. Parêntesis para dizer que embora “compaixão” sugira em português um sentimento galináceo, de peninha coitadinha, noutras línguas é uma coisa muito nobre e segue a raíz da palavra latina. Ao dar-se conta da sua tolice e de como terá magoado o esqueleto ao arrastá-lo todo o caminho, o pescador liberta uma lágrima pela mulher. Nessa altura, o esqueleto ganha carne, músculos, nervos, sangue, em suma, vida. Num final feliz, torna-se companheira  amantíssima do pescador.


Esta pequenina lenda é uma ode à nossa capacidade de nos despojarmos do nosso ego e ver para além dele, no reconhecimento da emoção alheia e , porque não, da nossa quota parte de responsabilidade naquilo que aos outros acontece e os faz sentir de determinado modo. Actualmente, há uma grande propensão para cultivar o oposto – no entanto, curiosamente, esse mesmo umbigo para o qual tanto nos incentivam a olhar é já uma cicatriz de uma ligação a outro ser humano…


Ensinaram-me que “empatia” é o nome que se dá à capacidade de sentir com o outro, partilhar das suas emoções quase como se nossas fossem. Mas em si mesma, “empatia” também não é uma palavra fácil…  A palavra deriva do grego – empatheia – e os meus amigos gregos dizem-me que nós podemos ter deturpado a coisa como quisermos , mas empatheia em grego não quer dizer nenhuma maravilha dessas. Vem de “em” e “pathos”, que é paixão intensa, com uma conotação geralmente negativa (e.g. a paixão de Cristo). Portanto em grego ter empatia por alguém não dá um calor prazenteiro. Para isso, usam sympatheia (que será a nossa simpatia, o mesmo que a compaixão latina), traduzida na partilha de sentimentos com (syn) outro, embora também usem a mesma palavra para manifestar agrado por alguém. Portanto, a partir de agora proponho que deixemos essa coisa do sofrimento empático de parte e passemos a ser mais simpáticos… de mão dada com alguém.

Friday, April 2, 2010

Pequenos Anjos Demoníacos e Bullies


Até há pouco tempo, uma mãe precisava de um vocabulário relativamente restrito para comunicar com as professoras: faltas, comportamento, higiene, varicela... Hoje, não. Uma mãe para poder mostrar que percebe o que estão a dizer tem de se esforçar muito mais. Vem isto a propósito da moda do bullying. A ministra da Educação, senhora que respeito muito pois sou da geração que leu os livros da colecção Uma Aventura – única coisa que em Portugal se fez a puxar ao espírito dos Famous Five, meus preferidos – já declarou que o bullying é crime.
Tudo isto me parece louvável. No entanto, quando me dizem que recentemente decidiram adoptar medidas severas contra o bullying, faço um ar de ignorante. O espanto do outro lado: "Então a senhora, que é bilingue, não sabe o que é o bullying?! Todas as escolas decidiram tomar providências." Apenas posso imaginar o esforço desesperado de uma senhora sem grande instrução e sem grande conhecimento sequer da sua língua materna quanto mais de outras, para compreender o crime de que está a ser acusado o seu rebento. Imaginemos: vai a educadora à escola falar com a professora e esta informa-o de que o filho é um bullie, pronunciando a palavra como se estivesse a falar de um recipiente para servir chá (o que torna a compreensão imediata muito mais difícil…)
Não é fácil, convenhamos!
“Mas vejo que a senhora está muito desactualizada. O bullying é um fenómeno recente. Tem a ver com o abuso dentro das escolas, feito por alguns alunos a outros. Isto está mesmo a ser muito estudado nalguns países mais avançados, como os EUA, e nós agora em Portugal também já estamos a implementar intervenções e resolução de disputas.”
Um fenómeno recente?! A sério? Qual de vocês, tenha 30, 40 ou 80 anos não andou numa escola em que o aluno mais fraquinho não apanhava pancadaria do mais forte? Em que o melhor aluno apanhava umas bofetadas do menos dotado intelectualmente no recreio? Em que a rapariga que conseguia o papel principal na peça de teatro tinha os adereços misteriosamente rasgados antes da estreia? É impressão minha ou toda a gente se esquece da sua escola primária quando cresce? De facto, a primária é apenas um estágio do que vem a seguir, como dizia a minha professora (a quem devo uma excelente preparação).
O bullying não é mais do que uma forma de abuso, mas o português gosta de usar estrangeirismos, que, no caso, não trazem clareza ao discurso. Não creio que seja com sanções que esta forma de abuso acaba. Não é propriamente exterminável (ou não seria tão antigo, como já recordámos…), mas pode ser minorado. Se, por exemplo, convencermos o aluno z (intelectualmente mais fraco mas musculado) que tem de proteger o aluno y (com qualidades opostas às dele) no recreio e em troca dissermos a y que ele deve ajudar z na sala de aula, podemos contribuir muito mais para minorar o bullying do que aplicando castigos, que geralmente só dão fogo à coisa.
Além disso, há outro ponto importante que gostava de acrescentar (já que me falaram nos "países desenvolvidos", frase de coitadinho que me irrita sempre bastante): há uma coisa que muitos países já perceberam e nós ainda não, provavelmente porque temos a sorte de ter poucos crimes cujos perpetradores são menores. As crianças não são sempre angelicais. A infância não é sinónimo de bondade; é sinónimo de pouca experiência de vida, o que, obviamente, acarreta candura. Mas muitas crianças, infelizmente, já passaram por muitas experiências adversas e a candura está deturpada. São mais adultas do que a sua idade, à partida, ditaria. E quanto à bondade, esta é uma questão íntima, de personalidade, não de faixa etária. Os estudos sobre crianças ou adolescentes que assassinam outras crianças mostram que eles são absolutamente indiferentes aos gritos de dor que ouviram, ao sofrimento que causaram, , em suma a toda a dor que não seja sua. Felizmente, casos raros.
Resumindo: os anjos não são anjos por serem jovens. Que eu saiba, Lúcifer também era um anjo.

Friday, March 19, 2010

Conceitos Prévios

Há pouco, ouvi esta expressão que parece ser agora politicamente correcta: conceitos prévios. Quando os nossos interlocutores dizem que têm “alguns conceitos prévios sobre o assunto em questão”, podemos começar a puxar lustro à cadeira. É que, se desconstruirmos a frase para analisar o sentido, começamos a perceber que a retórica significa apenas “pré-conceitos”, ou, em bom português, “preconceitos”, aquela palavra proibida que não se pode usar em sociedade e que ninguém de bom tom pode admitir que tem.


Qual é a maneira mais segura de saber se alguém os tem? Geralmente, o preconceituoso tem pânico de chamar as coisas pelos nomes. Dá voltas ao dicionário para arranjar sinónimos e eufemismos que tornem a coisa mais soft. O preconceituoso esperto (aka hipócrita) consegue manter um diálogo sem que demos pelo circo – há até o que faz discursos contra os seus ideais, para obter a aprovação dos seus pares, porque, dada a sua insegurança, não suporta ser ímpar. É que dentro de cada preconceituoso mora um ser muito inseguro, sem firmeza de opinião. Um preconceituoso, naturalmente cheio de medo das diferenças, não fará nunca revoluções. Mas vai incessantemente, incansavelmente trabalhando na sombra, com o seu focinhito de toupeira.

O preconceituoso é a favor dos imigrantes em Portugal. Muito, até. “Eu? Eu não suportaria viver sem a minha empregada ucraniana, é a melhor que tive até hoje! E mais: a minha casa foi feita por um cabo-verdiano e digo-te que nunca vi obra tão perfeitinha!” A favor das mãos que toquem no que ele, indivíduo que a si mesmo se considera qualquer coisa muito especial, nunca tocaria.

O preconceituoso está pela igualdade. Ele tem amigos gay que gostam dele. Ter amigos homossexuais fica bem e dá um ar liberal, mas se o seu filho se atrevesse a ser uma coisa dessas não voltava a pôr os pés lá em casa, porque a casa de um homem de conceitos prévios não é casa de gente torta.

O preconceituoso adora crianças a quem dá beijinhos em público, mas seria incapaz de adoptar uma, porque genes incógnitos são capazes das mais hediondas coisas e não merecem a honra e louvor de serem educados debaixo da sua alçada. Os seus genes, sim. Ocasionalmente, até pode ser que lhes dê a papa. Mudar a fralda, isso não, que é trabalho inferior, coisa de criada.

O preconceituoso é a favor da distribuição das tarefas domésticas: ele pode muito bem contribuir e abrir a cerveja que a mulher lhe traz! Também concorda com uma igualitária distribuição de postos de trabalho: porque é que se há-de ter um jurista quando olhar para uma jurista de decote é sempre melhor? Aliás, “quantos mais decotes, perdão mulheres na empresa, melhor!”

Todos estes exemplos podem fazer sorrir, seja por troça, desprezo ou ironia. Mas, no fundo, estamos a rir-nos da nossa própria construção social. Explico melhor. Os senhores que têm conceitos prévios (vamos a ver se me habituo a esta nova nomenclatura…) usam-nos, afinal, por uma questão de adaptabilidade ao mundo que os rodeia. Quero com isto dizer que ninguém nasce com conceitos prévios; aprende-os. Essa aprendizagem é fruto de uma família, de uma escola, de toda uma sociedade que formou muitos homens incapazes de serem coerentes. Se por um lado, estão agarrados às suas ideias absolutamente fora dos ideais de fraternidade e igualdade, por outro estão muito cientes de que devem transparecer uma imagem a favor da liberdade e dos direitos humanos. Ou seja, e para utilizar uma metáfora ao alcance de todos, são criaturas com cabeça de Estado Novo tentando proclamar o 25 de Abril.

Um conceito prévio resulta sempre de uma frustração imposta por um elemento mais forte; incapaz de lidar com a sua frustração, o pré-conceituoso gere a agressividade para com um elemento mais fraco. O alvo do seu conceito prévio é um bode expiatório para aquilo que ele verdadeiramente sente: falta de poder, falha do leme da sua vida.

Peço desculpa de ter escrito o texto referindo-me ao masculino. Não é certo, claro. Afinal, todos os homens com conceitos prévios tiveram uma mãe que os educou a pensarem assim…

Friday, March 5, 2010

Música, maestrina!


Escrevo a 4 de Março, aniversário do nascimento de Vivaldi, que todos sabem quem foi por conta dos primeiros compassos do Allegro da Primavera d’As Quatro Estações.

Não vou falar dele. Primeiro, porque seria óbvio nesta data (atentos produtores de cultura estão afincadamente a afiar lápis e seriam duas notas sobre o mesmo tema); segundo, porque Vivaldi tinha como alcunha “o padre vermelho” e, dizia Schulz, é diplomata não recordar às mentes política ou religião (nem futebol, mas este não me consta que existisse em 1678).

Aqueles que apreciam música erudita, vulgo chamada clássica, recordam-se de alguma mulher compositora? Um nome… Nem um? Entre tanto homem famoso, não há nenhuma mulher, pois não? Custa a crer. Pois tenho novidades: uma enciclopédia de Aaron Cohen que registou 6.196 mulheres compositoras dentro do estilo. O problema é que nós olhamos para os nomes e ocorre-nos sempre outra razão pela qual as mulheres são mais famosas do pela música. Exemplo: “Oh, Anne Boleyn! Foi a segunda mulher do Henrique XVIII e reza a História de Inglaterra que ele mudou as leis e a religião do reino para ficar com ela mas afinal mandou-a matar no fim, esse louco… “ ou “Ah! Clara Wieck! Era mulher do Robert Schumman, ele sim um grande compositor e ela era a melhor intérprete das composições dele – é o que se chama uma união celestial… Porque será que Schumman se suicidou?”

Daqui se tiram tristes conclusões. Primeiro, as mulheres são sobretudo lembradas não pela sua obra mas por serem apêndices de alguém (mulheres, filhas ou mães, conforme o caso). Segundo, isto dá à mulher um papel muito subalterno, como se a(s)  sua(s)  maior(es)  qualidade(s)  fosse(m)  aquela(s) que representa(m)  dentro de quatro paredes: dona do lar, do fogão, da cama e de todo o bem-estar  - livra, já não é dizer pouco, pensarão as mulheres que me lêem! Aliás, convém não esquecer a sabedoria dos grandes otomanos: “O Sultão governa o Reino e o harém, mas a sua companheira predilecta é a cabeça que move a sua mão.” Terceiro: a mulher anda sempre metida em confusões e tragédias que mudam o curso das nações, mesmo quando ela está sentada em casa, a tocar piano.

Apesar dos estudos sobre possíveis contribuições de mulheres para música muito venerada - como as suites para violoncelo de Bach que alguns dizem ter sido escritas pela sua segunda mulher, Anna Magdalena - , nunca nada se provou de concreto.  De qualquer modo, há muito mais compositores do que compositoras e a razão é óbvia: o mundo está feito para que os homens avancem mais facilmente (espero que ninguém me vá punir com uma censura ou ofertar-me uma quota por esta frase à La Palisse). Anna Magdalena, por exemplo, transcrevia toda a música que Bach fazia e ainda tratava de 14 crianças.

Recentemente, Portugal tem vibrado muito com o êxito internacional de uma sua maestrina. Nós antes só tínhamos (poucos) maestros a conseguirem algum renome fora de portas (António Vitorino d’Almeida, Álvaro Cassuto). Apareceu Joana Carneiro com 30 aninhos a ficar à frente da Sinfónica de Berkeley em 2009 e demos-lhe a Ordem do Infante. Mas quando vamos procurar informação sobre a dita, damos logo de caras com esta coisa irritante que há-de persegui-la até à morte, por mais sucesso que tenha: António Vitorino d’Almeida é ele próprio, Cassuto é ele mesmo e Joana Carneiro é… filha de Roberto Carneiro, antigo Ministro da Educação. Uma mulher não tem hipótese: por melhor que seja, arranjam-lhe logo uma biografia de sucesso atrelada. 

Thursday, February 25, 2010

O Amor de Um Mito é Puro Mito

  

Vamos começar por fazer um pequeno détour (podia dizer desvio, mas dizendo détour prestam-me logo mais atenção, por causa da tal mania portuguesinha da qual Eça de Queirós já fez troça, de que as coisas em francês são mais intelectuais): as mulheres da Literatura Açoriana têm todas fama de destravadas, cheias de coragem e de força mas também de maluqueira e claramente incomuns.  Natália Correia -  que arrisco a dizer que é mais lembrada como deputada do que como escritora (infelizmente), sendo que o que mais se conhece dela  são os famosos versos que disse como resposta ao deputado João Morgado na própria Assembleia na sequência da proibição do aborto, pois “o acto sexual é[ra] para ver nascer filhos”;  Alice Moderno, que foi a primeira mulher a preocupar-se com a condição feminina nos Açores e a escrever sobre a liberação das mulheres em todos os sentidos, desde a independência financeira aos cortes de cabelo, tudo coisas de fazer tapar a boca com a mão no princípio do século XX. Naqueles tempos  - como nos conta a investigadora Conceição Vilhena -, quando se dizia que alguém não estava bom da cabeça dizia-se que “estava como a Alice Moderno”, de tal modo as suas ideias eram consideradas provocadoras e contra a corrente.


No entanto, aquilo que me propuseram falar aqui um bocadinho é, sobretudo,  da imagem do feminino dada por aquele que escreve no masculino. Como não estou a escrever um artigo académico (pasmo de pensar que há quem pense que escrever num jornal é escrever outra coisa que não opinião, mas adiante…) perdoar-me-ão aspectos relevantes que ficarem de fora.


Escolhi Vitorino Nemésio como exemplo, não só por ser o autor sobre quem sempre me debrucei mais aprofundadamente (e, logo, tenho um conhecimento maior… mas pobre comparado com o código cifrado que ele utilizou para escrever, não se deixando desvendar) mas também porque a sua perspectiva do feminino é paradigmática.
É sempre difícil separar a obra de um homem dele próprio: é tentação comum inferir dos textos por ele produzidos não uma ficção mas a sua vida transposta. Apesar deste pecado, do qual nem sempre estou livre,  também eu “prefiro a obra de um autor à sua biografia”.


Comecemos por um romance pouco conhecido – Varanda de Pilatos. O protagonista, Venâncio, é um adolescente, tão idealista quanto amedrontado, com tendência para a evasão poética. As suas musas (uma musa única exigiria coragem que um Pilatos não possui) são Elisa, uma namoradinha infiel - que ele crê sempre incapaz de tais actos impróprios mesmo quando ela lhos confessa abertamente – e uma mulher mais velha, Fernanda, em quem ele deposita todo o impulso erótico que é incapaz de realizar com a namorada – e, logo, Elisa fá-lo por outro caminho.  
A “doce Elisinha, casta flor do meu jardim suspenso” tem com ele “um amor sério” no qual não entram desejos; entram poemas. Ao saber que ela o traía, Venâncio nem se atreve a pedir-lhe explicações, pois, como diz, ele era “um Rei […]atordoado” com esta Elisa, “pura de mais” aos seus olhos enevoados pelo amor. Elisinha não nega a traição; conta-lhe pormenores, deliciada de o ver humilhado na sua falta de decisão e de desejo (onde ela tanto o tentara sem resultado!).  Ele é rápido a passá-la de deusa, “razão de ser e fundamento” a “Messalina”, indigna do “alto sentimento que perfuma os cavaleiros, vindo de meigas donas”.


Mas realiza-se o rapazinho com Fernanda? Nem por isso. Pensamentos não lhe faltam, excitados por ela, que não ignora que basta-lhe subir a perna para arranjar as meias para provocar nele faces coradas. Mas são só isso mesmo: olhares e pensamentos. Pois Venâncio não teria atitude para avançar. A eroticidade que sente por Fernanda é também a excitação da dificuldade, o saber que está defronte do impossível e a idealização fascinada de um rapazinho por uma mulher, à vista dele, madura. De resto, ele próprio admite que as formas redondinhas de Fernanda a que deita o olho são uma desculpa para o erotismo, porque lhe dão ideias e, não raro, lembram-lhe a própria Elisa, por quem ele tem sentimentos mas em quem não consegue pensar como corpo. Assim, serve-se de uma para melhor continuar com a outra…


Como sucede em outras obras, há um bom amigo para equilibrar o protagonista confuso, esquema corrente e funcional. O amigo é rápido e certeiro a analisar que Venâncio “não passa de um trampolim onde pulam desejos pueris” sem sentido: “Falta-te o nervo!”, ao passo que vê que na Elisinha “Temos mulher.” Mas se Elisa tem sangue e Fernanda tem doces risinhos, Venâncio só ferve de contradições e nunca chega a lado nenhum, excepto a uma fuga,  insatisfatória até para o próprio.


Este romance foi dedicado a Gabriela Monjardino Gomes, expressamente “minha Mulher” segundo o autor. A dedicatória, plena de doces palavras e reconhecimento e gratidão pelo seu companheirismo, faz-nos pensar que GMG terá partilhado muito do fazer do livro. Dado estarem casados apenas há quatro meses, supõe-se que a sua intimidade era grande anteriormente (VN não era modernaço, não fazia livros em 4 meses). Impõe-se uma pergunta, dado que todos nós sabemos que VN também tinha as suas indecisões particulares: onde está “a bonequinha de sangue” que inspirou Mau Tempo no Canal?


Margarida Clark Dulmo, a protagonista de Mau Tempo no Canal, foi decalcada, como se sabe, de um amor antigo a quem VN nunca deixou de enviar cartas. Claro que Margarida é uma personagem muito complexa, desde já por ser um compósito da idiossincrassia açoriana a que o autor tentava regressar, memorialista e literariamente. Mas para além de ser esse arquétipo condensado de “Ilha perdida”, é a mitificação do sentimento amoroso de João Garcia, um co-protagonista  espécie de exorcização de VN, homem sem força de vontade, cheio de técnica e teoria, mas incapaz de uma atitude frontal e empenhada, o que fatalmente conduzirá à rejeição amorosa de Margarida, cuja “veneta” rebelde não concebe não ser orgulhosamente amada. A paralisia do carácter de João Garcia, a estagnação das promessas nunca cumpridas, “o gosto de a sentir sempre longe, sugerida, sem um apetite preciso”, a sua incapacidade de gerir o afecto chocam com os riscos (e até as sovas) que ela chega a sofrer por causa dele.  JG está muito consciente da sua fraqueza de acções (que não de sentimento), e atormenta-se por, no centro da sua concepção amorosa, repousar a ideia que ele tão bem expressa ao falar do seu amor por ela como se fossem Dante e Beatrice: ao vê-la, fica presa de “terror sagrado”, sente nela “o próprio irreal com rosto de realidade”. Esta veneração excessiva passa do simbólico ao concreto, não sendo ele capaz de nenhuma atitude rasgada como devem ser os amantes e acabando por perder a rapariga desafiadora e aventureira que via nas outras meninas do Faial umas “bispetas, que fazem biquinhos, a quem os papás compram piano e vestem de seda liberty”. 


A ofensa de JG a Margarida é a sua incapacidade de a amar, desafiando o mund(inho) local de pedestais, interpondo-se a personalidade dele de entrave ao amor dos dois como um biombo. O próprio João Garcia, derrotado, exprime este teorema, resumindo a consagração do feminino e o falhanço do amor por inexistência: “O amor de um mito é puro mito.”


Acaba por ficar comodamente casado com Laurinha, que nos aparece toda cheia de diminutivos, a começar pelo nome. Ela é boquinha, dentinhos, risinhos, dedinhos com que vai tecendo uma teia de assédio em que ele, molemente, se vai deixando enredar, sem grande gosto e, sobretudo, sem decisão firme: fica com ela como apanhado por um diabrete que lhe pisca o olho e, pensando no desgosto fundo de não ter Margarida, propõe-lhe ficarem juntos depois de ela muito o tentar. 


Apesar de agarrado pelo diab(inho), como admira ainda o seu mito feminino! … Afinal, para além de ser a amada, Margarida é também a força que ele não sabe ser: o desprezo pelas convenções sociais de tafularia, o gosto pela errância transgressiva, o “recalque” das dores, a serenidade aparente frente ao turbilhão e o amadurecimento psicológico extremo de quem tomou nas mãos o governo da casa e da família por oposição à imaturidade inerte dele –  que é um desenraizado no amor mas um tenente muito correcto do seu trabalho. Como diz Martins Garcia “ama com lógica (o que é mau) e raciocina com amor (o que é péssimo)”. 


A imagem do feminino como ser objecto de veneração ou, pelo contrário, diabo trapaceiro está presente noutras obras –  Lurdes, a funcionária com quem o protagonista Renato tem aventuras sexuais na cozinha, guardando de tudo uma sensação póstuma de repugnância; Zilda, a braços com horizontes tacanhos mas enlevada pelos homens que a rodeiam, caindo na armadilha do rapaz bem falante quando um pressagiador podre tubarão dá à costa; Célia, a quem o protagonista tanto amava que só falava com ela com um muro interposto, não fosse ceder a alguma tentação menos casta…


Porém, suspeito que este longo texto já tem dificuldade para caber na página. Portanto, vou deixar outros falarem. Além de que tenho de guardar alguma novidade para quando encontrar alguém no café – é que eu nunca aprendi malha, não pinto as unhas e, apesar do meu nome, não troco receitas; estou desesperada à procura de assuntos assim femininos!



Friday, February 19, 2010

Persona

As crianças gostam do Carnaval. Têm a oportunidade de ser, por umas horas ou um dia, princesas, fadas, heróis, animais e tudo aquilo que a sua imaginação fizer deles, ajudada pela fantasia de uma costureira e por umas pinturas na pele. Mais tarde, na vida, descobrem que as máscaras são algo de dúbio: tão divertidas quanto assustadoras, usadas por alguns numa cerimónia e noutros como prática diária corrente, a tal ponto que se esquecem de as tirar e chegam a perder o fio ao verdadeiro indivíduo que está por detrás… Não é por acaso que as máscaras sempre foram tidas como objectos a respeitar desde a Antiguidade.


No célebre Carnaval de Veneza, cujas máscaras são de uma beleza artística incontornável, não há quem não se recorde que estes mesmos adereços serviam, em séculos passados, para esconder a identidade do portador quando este praticava situações menos abonatórias (crimes ou fosse o que fosse de ilícito) ou quando necessitava de fugir ao convencional – diríamos, em bom falar, “perder a cabeça” (mas nunca a máscara!).

Aliás, ainda hoje existe esta ideia, popularizada na frase “No Carnaval ninguém leva a mal”, façam-se as asneiras copofónicas que se fizerem, entre outras, só tristemente ultrapassadas pelas Noites de Amigos e Amigas nas quais ficaria bem usar uma máscarazita de Columbina.

Não faltam culturas nas quais a máscara é um elemento importante – dos Inuits norte-americanos com os seus totems às máscaras das diversas tribos africanas, das máscaras espirituais dos nativos da Oceânia às máscaras diabólicas da Ásia. Até nas sociedades em que é utilizada para ritos de passagem, há sempre uma força mágica e poderosa, um outro-ser de carácter extra-mundo que toma posse do indivíduo ao colocar uma máscara. Raramente, esta força é tida como benéfica. Mesmo quando é, a possessão e efeito da máscara é tão poderoso que deve ser usado com muita moderação, nunca mais do que algumas horas e seguramente apenas em determinada época do ano. Assim, o têm entendido todas as culturas. Até a nossa.

Persona é o termo usado na Psicologia de Carl Jung para falar da máscara com que todos nós nos apresentamos ao mundo. Entenda-se, a aparência que damos, o que queremos revelar. O termo persona vem do latim onde significa, precisamente, máscara.

Não é extraordinário como, contrariando todo o bom senso antropológico e humano, a vamos mantendo diariamente?

Friday, February 5, 2010

Serviço Público



A primeira vez que viajei de avião, tinha quatro meses. Por imperativos pessoais e profissionais, viajar sempre foi uma constante na minha vida e, dado dar grande importância à comunicação, sempre adorei enviar postais. Atribuo grande importância aos Correios, mesmo nesta época frenética de e-mails.Nada mais bonito do que receber uma carta, com cheiro de papel, que faz barulho ao desembrulhar-se nas mãos.


Apesar do meu fascínio pessoal pelas missivas, foi com surpresa que li a reportagem publicada pelo diário inglês The Guardian que dava conta de um serviço especial dos Correios - o tratamento das Cartas para Deus. De facto, há quem lhe escreva. Sao cartas que vêm de todo o Mundo e, dado o seu conteúdo, percebe-se que são fruto de várias e diferentes crenças religiosas. A maior parte das pessoas nao coloca direcção (o que não é de espantar...), pondo apenas o destinatário, mas outras colocam "Muro das Lamentações" no envelope e isto por uma razão muito simples: venham as cartas de onde vierem, os Correios de todo o mundo encaminham-nas para os Correios de Israel que as colocam, abertas e dobradas, nas fendas do Muro. Avi Yaniv, o encarregado do Departamento das Cartas para Deus, explica que os Correios de Israel assim o fazem por entenderem que o Muro é o local mais próximo do Divino. Mas o Muro terá lugar para tantas cartas? É que chegam diariamente... De facto, as mais antigas vão sendo enterradas em terreno sagrado.


O Muro nao é apenas o mais sagrado monumento dos judeus, que o vêem como uma das paredes do Templo destruído e seu único vestigio, mas é também importante para os islâmicos, que afirmam ser o este o local onde Maomé amarrou o seu cavalo alado, e ainda para os cristãos, que o visitam aos milhares. Faz sentido ser esta a morada escolhida para as Cartas a Deus.


De onde escrevem as pessoas? De todos os locais do planeta, desde a Rússia à Austrália, da Jordânia ao Gana. E em todas as linguas, porque Deus (e os Correios) serão capazes de entender. Porque escrevem? É mais dificil responder, mas é curioso verificar que, embora Ani Yaniv refira "depressão, tensão e sofrimento" como os causadores destas missivas, algumas pessoas escrevem só para agradecer e outras façam declarações de amor - a Deus, claro. A maior parte pede, desde bens materiais a paz. E muitos pedem o fim da solidão e a oportunidade de rever os que já partiram e de fazer as pazes com eles ou de lhes dizer aquilo para que nunca houve tempo. Outros fazem perguntas a Deus. Querem saber os comos e os porquês. Mas ninguém espera uma resposta... Só um alívio pessoal por fazer o envio.


Avi Yaniv tem 66 anos. Em breve, será outro funcionário a ocupar o seu lugar pois há 12 que se ocupa destas cartas. Há pessoas que escrevem regularmente mas ele não pode responder: é regra. Yaniv nao é Deus. Ainda se comove com a história de um homem que pede para rever a mulher morta em sonhos - "Sente muito a falta dela". Yaniv, sem ser padre, rabi nem imã está mais perto do Divino do que todos eles.