... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, May 28, 2010

Húbris - uma história grega

O que falta às pessoas, no colapso de uma civilização, é grandiosidade. Foi à conta desta frase que me pus a pensar. Apesar da minha mãe sempre me ter dito que não é bom pensar, eu prefiro exercer este pecado do que viver uma vida santa.


Arnold Toynbee, historiador britânico, analisou o processo de vida das civilizações: o seu nascimento, crescimento e declínio.  Toynbee estava convicto de que este processo seguia parâmetros comuns, independentemente dos lugares e épocas onde as civilizações se situassem. A civilização mais resistente era a que melhor respondia às mudanças, no fundo, a mais adaptável - uma espécie de teoria evolutiva ao nível civilizacional, mas com uma importante diferença: a causa primeira de “morte” das civilizações era interna, não provinha de desastres climatéricos nem de invasões doutros povos mas sim de crises intrínsecas. Donde ele conclui : “Civilizations die from suicide, not by murder”.


Segundo Toynbee, ao ultrapassar um desafio com criatividade, a civilização crescia. O nacionalismo ou a tirania de uma minoria despótica eram provas de que a criatividade se tinha evaporado e o fim estava próximo. As teorias de Toynbee não foram bem aceites por todos (aliás, convém desconfiar de coisas unanimente aceites, até o chocolate tem detractores!), mas o seu impacto é inegável.


Ao falar de quedas de civilizações, lembro-me sempre de uma professora (fundamental na minha ética) que nos falava das noções de honra da Antiguidade Clássica. Os Gregos possuíam o conceito de húbris, uma espécie de arrogância desmedida que se traduzia em acções de fúria e orgulho extremo, trazendo vergonha a outrem. Ao humilhar outro, o abusador pensava que a sua superioridade era maior.


Húbris era um conceito bastante complexo, porque este nível de arrogância era considerado crime - não um crime qualquer mas “o” crime por excelência, pois ao incorrer nele o Homem esquecia o seu lugar no Universo, infringindo os preceitos gregos da busca de perfeição pelo equilíbrio em todas as coisas (pan metron ariston). Consequentemente, o ser humano cego pela húbris, perdia completamente a razão e realizava acções que nunca seriam expectáveis num homem consciente da “medida de todas as coisas”.


As tragédias gregas estão repletas de exemplos de húbris (Édipo rei e o casamento com a progenitora, Ícaro voando perto do sol). A  literatura épica - sempre com reminiscências históricas - também. Há o célebre episódio de Aquiles na Íliada(um menino bonito e convencido de si próprio que humilhava todos como insectos e pagou por isso) que após matar o seu rival Heitor, não se deu por satisfeito e decidiu fazer arrastar o seu corpo  por cavalos, pelo chão, à frente dos familiares da vítima até o desfazer; ou quando após matar a rainha das amazonas violou o cadáver porque matá-la não era subjugação suficiente. Estas acções profetizaram a sua morte pouco tempo depois.


Os gregos consideravam que as práticas de húbris provinham de loucura. Não no sentido que damos à palavra, mas sim numa acepção de essência maligna. Quem praticava a humilhação fazia-o para se sentir gratificado. E esse crime nunca deixava de ser castigado, quer pelos homens (a noção do castigo da húbris encontra-se no direito grego, precavendo os extremos dos mais poderosos) quer pelos deuses – sob a forma de terriveis mudanças nos cursos de vida, pois Nemesis, deusa da vingança,  estava sempre muito atenta a punir todos os homens que se esqueciam que eram apenas … homens.


A  húbris era o erro trágico dos homens, aquilo que fatalmente conduzia à sua queda. A arrogância desmedida e a falta de controlo sobre uma impulsividade pouco sã levavam ao colapso de homens poderosos e civilizações inteiras. Claro que isto são histórias antigas. Hoje em dia, até os gregos se esqueceram dos pecados que levam à queda, como está mais que provado.


Friday, May 14, 2010

À direita uma vela, à esquerda uma lupa

Se há lutas tão antigas como o Mundo, uma delas é a que opõe Religião e Ciência, ambas uma construção do mesmo Homem, de um lado fervoroso crente e do outro insaciável curioso. Ambas as características estão ligadas à sua sobrevivência, pois o Homem necessita de esperança e de génio inventivo para continuar. Logo, enquanto a espécie não desaparecer, a luta continua (para quê?, pergunta legítima). O ano passado, por conta das comemorações de Darwin, houve um re-acender das polémicas entre os teólogos e os cientistas, e até no nosso pequeno mundo, esta mesma semana, se fizeram umas piadas sobre as cinzas do Eyjafjallajokull que impediam o trânsito aéreo mas não deixaram de se afastar para que Sua Santidade pudesse chegar a tempo a Fátima. Note-se que eu não percebo nada do assunto, pois ao contrário da esmagadora maioria dos meus compatriotas não estou habilitada para falar nem dos efeitos de vulcões a mais de 3000 km (sem falar das baixas altitudes a que voam os nossos aviões) nem tão pouco de questões metafísicas, pelo que me remeto à minha ignorância leiga, acompanhada por um pequeno punhado da população. O restante é tão versado nisto do vulcão e de milagres como em futebol.


Mas, voltando ao tema, parece que a Religião e a Ciência têm feito umas tentativas para se entender e darem as mãos (isto já antes do Eyjafjallajokull ter feito um sorriso a Sua Santidade para que pisasse o nosso solo, bem entendido). O Papa João Paulo II, em 1996, disse mesmo que a teoria da evolução não é contrária à fé cristã e que “os indícios biológicos da evolução são imperiosos”, o que, por um lado, representou um extraordinário estender da mão da entidade eclesiástica às afirmações científicas e, por outro, um golpe de diplomata dado que a comunidade científica, no seu global, afirmava que Deus era uma hipótese da qual não necessitavam para as suas explicações e teoremas. Consequentemente, para quê nomear o desnecessário?


Foi a partir de um discurso de João Paulo II à Academia Pontifícia das Ciências em 1981 que as relações da época moderna entre Religião e Ciência tomaram um novo rumo: “As Sagradas Escrituras falam-nos da origem e criação do Universo para explicar as relações entre o Homem com Deus e o Universo. A Bíblia declara que o mundo foi criado por Deus e para nos ensinar esta verdade expressa-se nos termos da cosmologia usada no tempo de quem a escreveu.”  Neste discurso de mestre, diz-nos qualquer coisa como: Deus criou o Homem, disso não tenham dúvidas nem vacile a vossa fé, dando-lhe inteligência e livre-arbítrio como faria à sua obra-prima, e para melhor admirar esta obra e deixar que ela prosseguisse o seu caminho, esse mesmo Homem foi evoluindo, na sua senda e chegou onde hoje está.


A gente revolve enciclopédias e tratados filosóficos sobre esta matéria, teorias da interconexão, do conflito versus o diálogo ao longo dos tempos, até chegar à teoria da independência de Stephen J. Gould e tem dificuldade em encontrar um discurso mais “cravo e ferradura” do que este. Ou seja, engenhosamente diplomático.


Do lado das Ciências, Einstein foi o mais habilidoso a falar destes assuntos, admitindo que sempre haveriam assuntos que o conhecimento do Homem não conseguiria penetrar e que, considerando a sua admiração por esses assuntos, sim, seria religioso, embora não acreditasse numa entidade divina mas sim na admirável estrutura do mundo: “Não acredito num Deus que se preocupe com o Destino e com os feitos da Humanidade, acredito num Deus que se manifesta na harmonia do Mundo, tal como Spinoza”. Acrescente-se que Einstein e Spinoza não eram cristãos, eram judeus.


Ultimamente, não tenho visto nenhuma manifestação inteligente entre estes dois constructos humanos. Mas dizem-me que isto do vulcão islandês em tempo de Fátima tem muito que se lhe diga…


Monday, May 3, 2010

Ups, a minha escola mudou de nome! Manuel quê…?


À primeira vista, escrever um texto sobre a nossa Escola Secundária pode parecer fácil (para mim, nem tanto, porque andei em mais do que uma). Claro que, no caso presente, o que interessa é juntar a ideia da Escola à figura da Primeira República que foi Manuel  de Arriaga, o que me complica muito as coisas, não em termos memorialísticos, porque acabei o chamado “Liceu” na escola com esse nome, mas porque de Manuel de Arriaga sei mesmo muito pouco! Portanto, decidi fazer um exercício entre algumas pessoas desse tempo – velhos e velhas que, como eu, já são trintinhos (quando tínhamos dezassete anos, um tipo de trinta já estava um bocado gasto…) e perguntar-lhes se sabem tanto da personagem como eu. Também respondi às perguntas, sem batota. Os entrevistados estão identificados só pelo nome, porque, nessa época adolescente, no bilhete de identidade não constavam cargos nem profissões, alínea que hoje anda muito in. Obrigada a todos os que acederam responder, desde os telegraficamente sinceros aos que deram voltas sérias  à memória e áqueles a quem ameacei que ia colocar uma fotografia daqueles tempos na net caso não colaborassem (é mentira, não cheguei a ser assim tão cruel ao ponto de torturar com a possível revelação da verdadeira cor capilar de cada um…). Aqui  fica uma viagem no tempo, sendo que nem entre nós conseguimos acertar no ano em que a escola mudou de nome. Independentemente do pouco que sabíamos, a verdade é que, como alguém aqui disse, ninguém se lembrou de dar uma aula gira e apelativa sobre Arriaga às nossas mentes atarefadas de então. Eis o que pensávamos sobre o 1º Presidente da República.


Questões:
1)     Na altura que frequentavas a Escola Secundária, que sabias sobre Manuel de Arriaga?
2)     E agora? Já aprendeste mais alguma coisa?
3)     Fizeste parte da geração que estava na escola quando a Escola Secundária da Horta passou a chamar-se Escola Secundária Manuel de Arriaga. Isso teve importância na época? Manuel de Arriaga pareceu-te uma melhor escolha para o nome da escola que frequentavas?


Respostas (entrevistados por ordem alfabética):


Adolfo Fialho
1)Sabia aquilo que quase toda a gente sabe… que Manuel de Arriaga foi o primeiro presidente da República Portuguesa, aspecto que, associado ao facto de ser natural da Ilha do Faial, assumia alguma relevância na história da nossa localidade.

2)Pouco mais… apesar de ultimamente se estar a enfatizar o seu papel na história da nossa República, passados que estão quase 100 anos da sua constituição. Sei que estudou advocacia em Coimbra e foi um dos grandes impulsionadores da causa republicana. Sei ainda que sucedeu a Teófilo Braga - outro açoriano, natural de Ponta Delgada - que então presidia um governo provisório, e que foi curiosamente sucedido por este, ainda antes da data prevista para concluir o seu mandato, que foi marcado por muitas controvérsias políticas…

3) Encontrava-me já na recta final dos meus estudos naquela instituição de ensino e lembro-me de estar concentrado noutros objectivos. Ainda assim, recordo-me vagamente de toda a agitação em volta do nome da escola e da importância histórica do seu novo patrono. Não me lembro de ter explorado muitos pormenores nas aulas, aspecto que me parecia importante, até para compreendermos a real importância de tal distinção. Lembro-me que houve uma grande movimentação em torno da estátua de Manuel de Arriaga, junto ao cais do porto da Horta, que até então me tinha passado completamente despercebida. Na altura, pareceu-me bem tal distinção e senti uma pontinha de orgulho por ter sido um faialense a tomar as rédeas da primeira república portuguesa.
Continuo a achar que foi uma escolha acertada. 



Carla Cook
1)     1)Sabia que tinha sido o Primeiro Presidente da República Portuguesa e que tinha nascido no Faial, naquela casa muito decrépita, perto da Rua do Arco.

2)    2) Sinceramente, muito pouco. Apenas soube, pouco depois, que não era linear que tivesse nascido no Faial, porque havia a hipótese de ter nascido no Pico… Não sei até que ponto isto é verídico. De qualquer modo, em duas ilhas separadas por 4.5 milhas náuticas, a movimentação dos habitantes é, desde há muito, uma constante. Quanto à personalidade e feitos de Manuel de Arriaga, lamento dizer que sei pouquíssimo.

3)     3)Não teve a importância que lhe atribuo agora. Mentiria se dissesse que sim. Sou de 77, penso que aconteceu no meu 12º ano, que foi uma época de muito estudo e muito namoro, aquela vida intensa, rápida e feliz, própria da idade. Estava ocupada e não pensava em Manuel de Arriaga. Além disso, tínhamos de escrever “Escola Secundária Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga, Horta”. Isso pareceu-me uma perda de tempo e de tinta por oposição a “Escola Secundária da Horta”, embora concordasse que era muito positivo dar à escola o nome de um homem da terra que tinha conseguido algo importante: é motivador para as gentes; logo, achei bem.



Cláudia Pereira
1)      1)Não tinha muita informação sobre Manuel de Arriaga. Lembro-me que sabia que tinha sido o primeiro Presidente da República, que era natural da Horta e que tinha nascido numa casa onde tive catequese e que se situa junto ao Ponto.com (restaurante).

2)      2)Infelizmente, não. Talvez pelo facto de nunca ter sido uma figura que me despertasse muita curiosidade, apesar de ter dado o seu nome ao nosso liceu.

3)      3)Sim, na altura foi muito falado. Pareceu-me uma boa escolha por ser faialense e pelo facto de se ter convertido num estadista. Na altura, fazia sentido.



César Lima
1)Sabia que tinha sido o 1º presidente eleito da Republica Portuguesa, que era natural de cá, e que tinha nascido na Casa do Arco.

2) Agora sei um pouco mais , sei que foi advogado, professor, escritor e politico (Partido Republicano Português),e foi deputado republicano da Madeira.
Estudou direito em Coimbra, deu aulas de Inglês em Lisboa, e mais tarde foi reitor da universidade de Coimbra.
Sei também que sentiu-se amargurado e injustiçado pelos próprios republicanos nos últimos meses do seu mandato,
que morreu 2 anos depois de ter abandonado a presidncia da Republica e que está sepultado no cemitério dos Prazeres.

 3) Sim, estudava lá na altura, aliás concorri ao concurso para escolher o logotipo da escola.
Acho que não só é um nome melhor para a escola 
como também é uma justa e honrosa homenagem a uma figura tão valorosa como ele foi.



Dália Leal
1)   1)  Pouco.
2)    2) Sim.
3)     3)Na altura, teve pouca importância. Considero ser uma importante homenagem a um ilustre faialense.



Filipe Pires
1) Na altura em que frequentei o "Liceu", já tinha noção que Manuel de Arriaga tinha sido o primeiro Presidente eleito da Républica Portuguesa e que era faialense.

2) Sim, nos dias de hoje, já adquiri mais alguns conhecimentos.

3)Sim, acho que que fiz parte desse grupo, creio que foi em 1994. Na altura, apesar de saber quem foi Manuel de Arriaga, a mudança de nome da escola nao fez grande diferença e sinceramente não atribuí grande importância, pelo menos do que me lembro.



Joana Decq Mota

1)     Sabia que foi o 1º presidente eleito da República Portuguesa, sucedendo ao Governo provisório; nasceu na Cidade da Horta, situando-se a sua casa na Rua do Arco na Matriz.

2) Soube mais tarde que estudou Direito em Coimbra.

3) Quando frequentei já se chamava ESMA há muitos anos, anteriormente Liceu Nacional da Horta. Acho adequado atendendo à importância que tem o facto de o 1º presidente da República ser açoriano, nascido no Faial. Penso também que a grande maioria dos faialenses mais jovens desconhece tal facto.




Luis Campos
 1)Sabia apenas que tinha nascido na Ilha do Faial e tinha-se tornado o primeiro Presidente da República Portuguesa.
2)Não.
3)Acho que não, mas sinceramente acho bem melhor, assim sempre se dá ênfase a  um grande nome das gentes do Faial.




Nuno Ribeiro

1)Que tinha sido o 1º Presidente da Republica, e que tinha nascido na Cidade da Horta.
2) Que afinal existe uma polémica se ele nasceu mesmo no Faial ou no Pico.
3)Foi na minha altura. Achei um nome muito grande (Esc. Sec. Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga), mas acho que foi um excelente forma de homenagear uma figura muito importante e mercante da História de Portugal.



Pedro Taborda

1) Sabia que Manuel de Arriaga era natural da Ilha do Faial e havia sido o primeiro presidente da Republica. Talvez por isso havia uma estátua em sua homenagem no cais da Horta.
2)  Desde então não aprendi mais nada que dissesse respeito a Manuel de Arriaga. 
3Manuel de Arriaga é um nome  ajustado para a Escola Secundária da Horta ainda mais pela importância do cargo que este açoriano  desempenhou. Só tenho pena que a casa onde nasceu Manuel de Arriaga não seja recuperada e se transforme num qualquer espaço de utilidade pública. 



Renato Silveira
1)Na altura, sabia que ele tinha sido o primeiro presidente da República
Portuguesa e que era meu conterrâneo, um faialense, e pouco mais.
2)Agora, e resumindo, sei que o mandato dele foi envolto de muita
controvérsia e que, apesar de ser considerado um homem bom e integro,
foi obrigado a renunciar ao cargo devido a algumas polémicas
relacionadas com o General Pimenta de Castro, homem que a dada altura
foi escolhido por si para governar o governo. Saiu da presidência,
como se diz na gíria, "pela porta pequena", numa altura em que se
viviam tempos agitados numa República ainda a dar os primeiros passos.
3)Quanto à alteração do nome ter tido importância,
sinceramente já não me lembro bem, mas julgo que não foi assim muito
relevante. Foi apenas uma alteração do nome do Liceu (mas a
minha memória pode estar a atraiçoar-me).
Se foi a melhor escolha? Não sei, mas foi uma escolha bastante
adequada uma vez que, dado o seu passado académico e relevância
política para o país, foi uma forma bonita de homenagear este
faialense.


Rosa Dart
1-   1) Por acaso até sabia qualquer coisa... apesar de não dar a importância que dou agora às memórias da nossa terra. 
2)Já. "Passei" por ele ao de leve no curso de Filosofia quando estudei Antero de Quental. Fiz também pesquisas sobre os honoráveis da Ilha e Manuel de Arriaga, incontornavelmente, era um deles. Claro que sempre fiquei a saber mais qualquer coisa. Aprende-se sempre.
3)Pois. Sou da fornada de 75! Não, sinceramente na altura não dei muita importância, se bem que agora acho que o nome de Manuel de Arriaga ainda dá mais dignidade ao Liceu (que é como sempre lhe chamamos, pelo menos os alunos de 75). 



Vanessa Santos

1)Anteriormente à mudança de nome da escola, nada. Depois, apenas que era Faialense e que era considerado uma figura importante.
2)Pouco. Mas este exercício despertou-me a curiosidade fazendo com que tenha pesquisado informação adicional.
3)Na altura não compreendi o porquê da mudança. De um ponto de vista mais prático, considerava que trazia complicações: por exemplo, a necessidade de decorar um novo nome, demorar mais tempo a preencher o nome da escola em fichas (por ser mais longo e por ter de me lembrar da ordem das palavras, mas penso que tinha outras coisas pelo meio, tipo “escola básica e integrada”), por vezes esquecer-me e preencher com o nome antigo (como acontece quando mudamos de ano). Agora, atribuo-lhe a importância devida. Respeito.

Friday, April 30, 2010

Da obediência à autoridade

Uma discussão recente sobre ditadores, o misto de insegurança profunda que neles existe em contraponto com a sua extraordinária força para mover multidões, sobre revoltas sociais contra regimes e outras conversas usuais no mês de Abril levou-me a falar com alguns amigos sobre a experiência Milgram. Para meu espanto, apesar de serem indivíduos ligados às ciências humanas ou à biologia, não a conheciam, o que me fez pensar que realmente o lado obscuro do Homem passou a ser considerado tabu, mesmo nas instituições que se dedicam a estudá-lo.


 
Stanley Milgram era psicólogo na Yale University e começou as suas experiências sobre obediência a figuras de autoridade em 1961, poucos meses depois do início do julgamento em Jerusalém de Adolf Eichmann, o criminoso de guerra Nazi. Um dos seus propósitos era tentar obter uma resposta para a noção de intenção por parte de Eichmann e seus companheiros em relação às suas atitudes – como sabemos, a intenção é fulcral para a determinação do crime. Por outras palavras, Milgram testou a capacidade de obediência à autoridade do ser humano, mesmo que as ordens recebidas fossem profundamente contra o sentido de ética e de moral do ser que obedece.


A experiência continha 3 personagens: experimentador, vítima e participante. A vítima era um actor e não sofria danos, embora isso fosse ignorado pelo participante. Os participantes (pessoas comuns entre 20 e 50 anos, obtidas através de anúncio de jornal, pagas à hora), tinham de ensinar alguns conceitos às vítimas, assumindo com estas o papel de professor perante o aluno. Por cada resposta errada, davam-lhes um choque eléctrico de baixa intensidade. Simplesmente, por cada erro, o choque ia aumentando de intensidade até atingir 450 volts.


 
Se o participante/professor manifestasse desejos de terminar com os choques, o experimentador – assumindo uma figura impassível e na posse do poder – dizia-lhe apenas: “A experiência exige que continue” sem mais conversas.


 
Milgram sondou os colegas psicólogos sobre os resultados das experiências e estes apostaram na ética e bom coração do ser humano. Mas falharam. No primeiro grupo de experiências, 65% das pessoas administraram o choque final de 450 volts e apenas um parou aos 300 volts. A vítima-actor estava instruída para gritar de dor. Os participantes questionaram-se, indagaram o experimentador sobre o propósito da experiência, alguns choraram pelas suas acções, tremeram. Mas fizeram-no. A maior parte continuava após ser assegurada pelo experimentador que não lhes seria imputada responsabilidade pelo acontecido, o que nos leva a conceptualizar sobre a necessidade de assumir para sentir.


 
As experiências de Milgram (mais tarde, plenas de variações) foram muito criticadas devido ao stress que inflingiam nos participantes e atacadas como pouco éticas. Milgram publicou-as em livro “Obedience to Authority” em 1974, com algumas interpretações teóricas resultantes. Segundo ele, ao obedecer, o indivíduo vê-se como um agente dos desejos de outro e portanto desresponsabiliza-se das suas acções, ocorrendo um desvio crítico do seu ponto de vista – “they made me do it”. Outra situação que ocorre é explicada pela teoria do conformismo, a sensação de que estamos perante um grupo ou alguém mais forte do que nós; não podendo escapar, resta-nos obedecer. Actualmente, adaptou-se a esta teoria o conceito de “desamparo adquirido”, mais ou menos aquilo de que sofrem as mulheres vítimas de violência, que passam a obedecer cegamente como forma de sobrevivência, porque “aprendem” que nada as pode ajudar a sair de uma situação em que existe uma autoridade que não as deixa escapar.



Seja qual for a razão, os ditadores conhecem bem como aproveitar os recursos de obediência que cada ser humano tem em potência. A Igreja usa-os há séculos, como um dos seus três votos fundamentais. Nestes casos, ter cabeça pensante não ajuda pois também existe um fundo de ignorância: o único participante da primeira experiência que recusou ir mais longe disse “Eu sou engenheiro eléctrico. Eu sei o que os choques fazem às pessoas. Você não me pode convencer.”, donde se depreende que para obedecer cegamente convém ser um pouco tonto e que a inteligência não ajuda ninguém a sobreviver a um ditador… Já dizia a minha avó “mulheres burras fazem homens dominadores muito felizes”.



Friday, April 16, 2010

Empatia e a Mulher Esqueleto


Sempre me foi muito fácil meter-me na pele de outra pessoa e sentir como ela sente. Aquilo a que os ingleses chamam “getting into someone else’s shoes”. Se é qualidade ou defeito, prefiro não classificar, até porque creio bem que pode ser ambas as coisas, dependendo das circunstâncias e do quanto nos deixamos envolver pelas emoções alheias. É condição indispensável em certas profissões, mas também pode dar-nos um saco de angústias extra.  Não é uma emoção e/ ou um estado fácil para todos e há mesmo quem seja absolutamente incapaz de sair de si para ir ao encontro do outro. As pessoas  narcissistas não só não o conseguem fazer como sofrem de um mal ainda maior: precisam com urgência de quem as admire intensamente mas não fazem a mínima ideia de como atrair a verdadeira admiração, que só se consegue ao dar algo de nós próprios.


A propósito de tudo isto, há uma velha lenda Inuit, inacreditável e metafórica como todas as lendas do Grande Norte. Uma rapariga Inuit discute com o pai que, irado e frustrado com a rebeldia dela, imprópria para meninas submissas, acaba por a atirar de um penhasco. A rapariga afoga-se e acaba por descansar no fundo do oceano em forma de esqueleto perfeito. Algum tempo mais tarde, um pescador que por ali passava predatoriamente apanha o esqueleto no seu anzol. Ao puxar a sua presa, vê o esqueleto emergir das águas e quase morre de susto. Então, foge como louco, no seu botezinho, tentando escapar dela. Mas como nunca retirou o anzol, o esqueleto persegue-o onde quer que vá… A perseguição do esqueleto torna o pescador cada vez mais assustado, incapaz de se aperceber que é ele que a tem fisgada e não a deixa escapar, e vocifera contra a mulher esqueleto enquanto tenta libertar-se dela e rema cada vez com mais velocidade. Até que volta para o seu igloo, sempre com o esqueleto na ponta do anzol. O pescador está exausto e aterrorizado, mas olha para a mulher esqueleto e apercebe-se que a tem presa. É nesse momento que se dá conta que ela nunca o perseguiu, mas que foi ele que a andou a arrastar, sem que ela pudesse libertar-se. O terror do pescador é substituído por um sentimento de compaixão pela mulher-esqueleto. Parêntesis para dizer que embora “compaixão” sugira em português um sentimento galináceo, de peninha coitadinha, noutras línguas é uma coisa muito nobre e segue a raíz da palavra latina. Ao dar-se conta da sua tolice e de como terá magoado o esqueleto ao arrastá-lo todo o caminho, o pescador liberta uma lágrima pela mulher. Nessa altura, o esqueleto ganha carne, músculos, nervos, sangue, em suma, vida. Num final feliz, torna-se companheira  amantíssima do pescador.


Esta pequenina lenda é uma ode à nossa capacidade de nos despojarmos do nosso ego e ver para além dele, no reconhecimento da emoção alheia e , porque não, da nossa quota parte de responsabilidade naquilo que aos outros acontece e os faz sentir de determinado modo. Actualmente, há uma grande propensão para cultivar o oposto – no entanto, curiosamente, esse mesmo umbigo para o qual tanto nos incentivam a olhar é já uma cicatriz de uma ligação a outro ser humano…


Ensinaram-me que “empatia” é o nome que se dá à capacidade de sentir com o outro, partilhar das suas emoções quase como se nossas fossem. Mas em si mesma, “empatia” também não é uma palavra fácil…  A palavra deriva do grego – empatheia – e os meus amigos gregos dizem-me que nós podemos ter deturpado a coisa como quisermos , mas empatheia em grego não quer dizer nenhuma maravilha dessas. Vem de “em” e “pathos”, que é paixão intensa, com uma conotação geralmente negativa (e.g. a paixão de Cristo). Portanto em grego ter empatia por alguém não dá um calor prazenteiro. Para isso, usam sympatheia (que será a nossa simpatia, o mesmo que a compaixão latina), traduzida na partilha de sentimentos com (syn) outro, embora também usem a mesma palavra para manifestar agrado por alguém. Portanto, a partir de agora proponho que deixemos essa coisa do sofrimento empático de parte e passemos a ser mais simpáticos… de mão dada com alguém.

Friday, April 2, 2010

Pequenos Anjos Demoníacos e Bullies


Até há pouco tempo, uma mãe precisava de um vocabulário relativamente restrito para comunicar com as professoras: faltas, comportamento, higiene, varicela... Hoje, não. Uma mãe para poder mostrar que percebe o que estão a dizer tem de se esforçar muito mais. Vem isto a propósito da moda do bullying. A ministra da Educação, senhora que respeito muito pois sou da geração que leu os livros da colecção Uma Aventura – única coisa que em Portugal se fez a puxar ao espírito dos Famous Five, meus preferidos – já declarou que o bullying é crime.
Tudo isto me parece louvável. No entanto, quando me dizem que recentemente decidiram adoptar medidas severas contra o bullying, faço um ar de ignorante. O espanto do outro lado: "Então a senhora, que é bilingue, não sabe o que é o bullying?! Todas as escolas decidiram tomar providências." Apenas posso imaginar o esforço desesperado de uma senhora sem grande instrução e sem grande conhecimento sequer da sua língua materna quanto mais de outras, para compreender o crime de que está a ser acusado o seu rebento. Imaginemos: vai a educadora à escola falar com a professora e esta informa-o de que o filho é um bullie, pronunciando a palavra como se estivesse a falar de um recipiente para servir chá (o que torna a compreensão imediata muito mais difícil…)
Não é fácil, convenhamos!
“Mas vejo que a senhora está muito desactualizada. O bullying é um fenómeno recente. Tem a ver com o abuso dentro das escolas, feito por alguns alunos a outros. Isto está mesmo a ser muito estudado nalguns países mais avançados, como os EUA, e nós agora em Portugal também já estamos a implementar intervenções e resolução de disputas.”
Um fenómeno recente?! A sério? Qual de vocês, tenha 30, 40 ou 80 anos não andou numa escola em que o aluno mais fraquinho não apanhava pancadaria do mais forte? Em que o melhor aluno apanhava umas bofetadas do menos dotado intelectualmente no recreio? Em que a rapariga que conseguia o papel principal na peça de teatro tinha os adereços misteriosamente rasgados antes da estreia? É impressão minha ou toda a gente se esquece da sua escola primária quando cresce? De facto, a primária é apenas um estágio do que vem a seguir, como dizia a minha professora (a quem devo uma excelente preparação).
O bullying não é mais do que uma forma de abuso, mas o português gosta de usar estrangeirismos, que, no caso, não trazem clareza ao discurso. Não creio que seja com sanções que esta forma de abuso acaba. Não é propriamente exterminável (ou não seria tão antigo, como já recordámos…), mas pode ser minorado. Se, por exemplo, convencermos o aluno z (intelectualmente mais fraco mas musculado) que tem de proteger o aluno y (com qualidades opostas às dele) no recreio e em troca dissermos a y que ele deve ajudar z na sala de aula, podemos contribuir muito mais para minorar o bullying do que aplicando castigos, que geralmente só dão fogo à coisa.
Além disso, há outro ponto importante que gostava de acrescentar (já que me falaram nos "países desenvolvidos", frase de coitadinho que me irrita sempre bastante): há uma coisa que muitos países já perceberam e nós ainda não, provavelmente porque temos a sorte de ter poucos crimes cujos perpetradores são menores. As crianças não são sempre angelicais. A infância não é sinónimo de bondade; é sinónimo de pouca experiência de vida, o que, obviamente, acarreta candura. Mas muitas crianças, infelizmente, já passaram por muitas experiências adversas e a candura está deturpada. São mais adultas do que a sua idade, à partida, ditaria. E quanto à bondade, esta é uma questão íntima, de personalidade, não de faixa etária. Os estudos sobre crianças ou adolescentes que assassinam outras crianças mostram que eles são absolutamente indiferentes aos gritos de dor que ouviram, ao sofrimento que causaram, , em suma a toda a dor que não seja sua. Felizmente, casos raros.
Resumindo: os anjos não são anjos por serem jovens. Que eu saiba, Lúcifer também era um anjo.