... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, July 8, 2010

Reabilitar com óculos cor-de-rosa

O Homem é um optimista profundo- é isto que faz com que a Humanidade sobreviva. Apesar de todas as misérias que os atacam, os homens arranjaram uma arma ainda maior para lhes fazer frente: a Esperança. Contra esta, ainda não se inventou nenhum buraco negro. Ainda bem.


Hoje em dia, como Rousseau, acreditamos que a essência do Homem é ser naturalmente bom, mas a vivência vai corrompendo alguns; sendo assim, é sempre possível recuperar a ovelha tresmalhada. Cada vez mais, tendemos a classificar os autores de crimes não como criminosos mas como doentes psiquiátricos ou desadaptados - o que é uma ofensa para os verdadeiros doentes, desde já criminosos em potência. Fala-se de desequilíbrios hormonais (facilmente resolvidos com químicos), distúrbios de personalidade (aplicando como cura psicoterapias nas quais o visado terá de ser honesto, quando esperar sinceridade de um criminoso é mais ou menos como esperar bifes dentro da sopa), mas não se consegue admitir que existem crimes que não provém de doença nenhuma; são fruto de maldade. Doença tem evolução, melhoria, eventual cura. Maldade não. A existência de bondade pressupõe também o oposto, mas o excessivo optimismo impede que vejamos a realidade, tornando-nos míopes e injustos.


Em 93, um bebé de dois anos, James Bulger, foi raptado de um centro comercial em Inglaterra, enquanto a mãe comprava comida. Os raptores eram crianças de dez anos, Jon Venables e Robert Thompson. Quando Bulger foi encontrado, numa linha de comboio, era só um corpinho mutilado. Venables e Thompson espancaram-no com tijolos na cabeça e uma barra de ferro, puseram-lhe pilhas de brinquedos dentro da boca para lhe abafar o choro, tinta dentro dos olhos, molestaram-no sexualmente e deixaram-no na linha para que lhe passasse um comboio por cima, parecendo um acidente (segundo os próprios). A ideia – que denota já capacidade inventiva criminosa – era escusada, porque o bebé morreu da tortura antes do comboio passar. Os meninos criminosos (as fotos lembram tímidos anjos, receosos e doces) declararam à polícia que tinham estado pacientemente toda a manhã no centro à espera de um bebé, tinham tentado raptar outros sem sucesso, e aquele finalmente foi enganado com doces e brinquedos - outro dado que reflecte a premeditação de um crime que de impulsivo teve muito pouco. Não demonstraram qualquer remorso. No tribunal, não disseram nada, já bem aconselhados pelos psiquiatras e assistentes sociais. No entanto, pelas câmaras CCTV do centro e pela quantidade de pessoas que os tinham visto passar com um bebé em lágrimas e já com algumas equimoses (eles confessaram tê-lo atirado de cabeça para o chão, como primeira sevícia, e terem dito aos passantes que era o seu irmão mais novo para não levantar suspeitas) bem como pelas suas declarações à polícia, Venables e Thompson foram os mais jovens criminosos a serem condenados por um tribunal europeu, até à época.


A sua condenação foi muito mediática. A opinião dividiu-se entre o bebé, desumanamente torturado, e as crianças sem sombra de sentimento, que a Humanidade, fiel ao seu optimismo, queria recuperar. Psiquiatras no tribunal aplicaram-se a perguntar aos meninos se sabiam a diferença entre o bem e o mal e ainda se sabiam que era errado levar um bebé para longe da sua mãe. Mas nunca lhes fizeram a pergunta essencial, a meu ver: ao ouvir gritos de dor de outro ser humano, porque é que não param de o magoar?  Não é uma questão de educação (que tanto quiseram dar a entender que era um caso falhado nestas crianças), mas sim de humanidade intrínseca.


Sejamos racionais: um ser que esperou por uma presa-vítima, a escolheu criteriosamente e depois a torturou com requinte, ignorando a sua dor extrema, e não demonstrando qualquer remorso posterior, vai reabilitar-se?
Não está doente. Simplesmente, é imune à dor de outro ser humano. Não tem contágio de emoções e nem todos os ensinamentos deste mundo o vão convencer, porque os gritos de um bebé também não enterneceram.


Venables e Thompson foram libertados. Venables acaba de ser detido novamente por pornografia infantil. Adeus ideias do Tribunal Europeu sobre “o tribunal foi muito intimidante quando julgou estas crianças” e “eles sofriam de stress pós-traumático após o crime”. É curioso como a nossa sociedade faz do criminoso uma vítima. A vítima era o bebé, coisa que, felizmente, o juiz não esqueceu ao dizer-lhes “o vosso crime foi de uma maldade e barbaridade sem paralelo”.
Como disse, na época, o PM “Em certos momentos, temos de condenar mais e compreender menos”.

Friday, June 25, 2010

Mátria

Há um sentimento contraditório no povo português (sem querer aqui dissertar sobre as palavras “povo” e “português” que só de si dão um tratado, sobretudo quando conjugadas na mesma frase com as palavras “sentimento” e “contraditório”, que lhe assentam como luvas): é o amor à sua terra. Para não regionalizar e correr o risco de complicar ainda mais com mesquinhices que tomam o aspecto de guerrilhas, estendo a terra ao tamanho do país.


O português ama muito o seu país, mas sente que o país ingrato não o ama assim tanto a ele. Será talvez por isso que o português é o povo mais crítico a falar da sua nação. Os outros enaltecem sempre os seus países e escondem-lhes os defeitos. O português não. Com um suspiro, admite que, realmente, Portugal não presta para nada e só um doido (sendo que o doido é ele mesmo, comprazendo-se um pouco masoquisticamente nesse papel) suporta viver nesse local sem condições e sem glória. Mas basta um virar de maré, um ventinho de feição breve – sei lá, uma vitória da Selecção Nacional – para o português dizer que Portugal é excelente. De facto, o que está na raiz mais profunda do temperamento português é não suportar viver na miserabilidade do quotidiano: ele tem de ser mártir ou então herói. É o tédio que o mata. O destino do português tem de adaptar-se a uma vocação romântica, seja boa ou má mas seja grandiosa.


Todo o português conhece a célebre frase de Pessoa “A minha pátria é a língua portuguesa”, retirada do contexto. A esta frase segue-se: “Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente, mas odeio, com ódio verdadeiro, (…) a página mal escrita, (…), a sintaxe errada, como gente em que se bata, (…) como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.” É ensinado às jovens mentes que Pessoa era um grande patriota pela sua Mensagem, mas qualquer ser pensante vê que um homem bilingue, que tanto escreveu em português como em inglês, que acabou a vida com “I know not what tomorrow will bring”, que passou a infância na Cidade do Cabo, não seria dado a nacionalismos e certamente abraçaria mais do que uma cultura.
Porém, quando Pessoa morreu não fizemos um circo… Ele não tinha ganho prémios.


O português diz continuamente que “quem é bom vai lá para fora”. Isto é discutível, claro. Até porque o português que vive em Portugal, ao dizê-lo, está automaticamente a desclassificar-se. De qualquer forma, o que não é discutível é que toda a gente tem o direito de viver onde quiser durante o tempo que quiser (esta última frase é tanto mais utópica quanto eu sei bem os meandros dela, porque já fui emigrante, já deixei de o ser por vontade própria e conheço intimamente muitos imigrantes, mas deveria ser assim até segundo as novas leis de mobilidade humana).


O português, apesar desta sua opinião veemente sobre “os bons triunfam lá fora”, fica roxo de fúria por a pianista Maria João Pires ter decidido abdicar da sua nacionalidade em favor da nacionalidade brasileira, após um conflito com o governo português. O português também não vai à bola com o facto de Saramago ter escolhido viver em Lanzarote desde os 60 anos – também por um conflito governamental. Certo é que a um morto nada faz diferença, mas, mesmo assim, não me parece correcto dizer, nas cerimónias fúnebres, “este é o regresso a casa de Saramago”. Afinal, a casa do senhor era, sem dúvida, Espanha, onde vivia com a mulher, sua família mais próxima. Que direito temos nós de o reclamar para um solo onde não tem família (a mulher está onde decidiram viver; a filha, que eu saiba, vive na Madeira). Exéquias para o morto… ou para o país ver? 


Também me parece de mau gosto um discurso claramente para agradar às massas, onde se disse “Saramago podia não acreditar em Deus, mas Deus, se existe, acreditava decerto nele.” Quase podíamos ouvir a voz de Saramago na entrevista sobre Caim onde ele diz “Mas que tenho eu a ver com os católicos portugueses?”.
Juntemos a isto a alegria despropositada dos portugueses nas exéquias fúnebres, como se estivessem numa festa nacional, “onde as cinzas descansam agora tranquilamente” e “ficam as obras para os alunos dissecarem” (o sonho de qualquer escritor, certamente, é ser dissecado!). Qualquer dia, em vez do chão da oliveira onde Saramago gostaria de estar, havemos de vê-lo no Panteão…


Talvez eu esteja a ser mordaz, mas como dizia Nemésio, “o amor à nossa terra é muito exigente” e o meu sempre foi. Não é fácil perdoar as nossas mediocridades de espírito mesmo salvaguardando a hipocrisia diplomático-política, pois sobretudo para esse papel há que ter elegância e inteligência.


Friday, June 11, 2010

Papá de revista

Numa viagem de avião vim a ler uma revista pós-moderna que falava sobre o papel do pai na educação dos filhos (e mais coisas assim fantásticas como macrobiótica e civismo arquitectónico, tudo excelentes teorias cuja aplicação tem um número mínimo de praticantes). Calhou bem porque a meu lado vinha o meu filho a dormir no colo do pai. Durante esta  viagem em que o pai o segurou, a solicitude das hospedeiras e a preocupação carinhosa da passageira do lado foram inimagináveis: ”Oh, coitadinho, o senhor vai ficar com o braço cansado!”; “Não quer mais uma almofada?”; “Quer que eu o segure?” Anteriormente, eu fizera duas viagens sozinha com o meu filhote e ninguém, repito ninguém se preocupou minimamente se eu estava cansada, queria apoio ou ajuda ou sequer almofada. E eu, ao contrário do pai, tinha um braço doente e menos 30 kg do que ele…

 A minha questão é: porque é que isto acontece? Podem sempre dizer-me que é por o pai da criança ser o que se chama uma figura pública e logo todos os pretextos serem bons para meterem conversa com ele. Também é certo que um homem com bebés ou cães tem sempre sucesso e dá uma imagem de carinho e responsabilidade, sobretudo junto das mulheres, coisa que os homens não ignoram. Mas é, também, porque a mentalidade vigente espera que a mãe cumpra e faça o seu papel, mas quando o pai cumpre e faz o seu chovem salvas de palmas em louvor e ainda lhe oferecem ajudas mil como se ele fosse um incapaz.

 A revista pós-moderna também estava cheia de elogios aos super pais heróis. E eram mesmo super, a julgar pelos exemplos. O emblema era Nuno Markl, apresentador de tv, escritor, locutor de rádio, humorista e autor do programa Há Vida Em Markl e ainda pai que partilha com a mulher todas, mas mesmo todas as rotinas de um filho de oito meses. É ele quem se levanta sempre de noite, faz a sopinha com batatas, esteriliza biberons, organiza a casa e limpa. Há mesmo muita vida em Markl. 

“É o verdadeiro pai-galinha, sempre presente”, diz a revista. Excepto é claro quando está a fazer os programas de tv e de rádio, a escrever guiões ou a dar entrevistas, imagino eu. Pormenores. Quantas mulheres não leram isto e ficaram suspirando por um Markl assim. Ingénuas. A revista garante que Nuno Markl, qual contorcionista, “faz tudo com flexibilidade (…) mesmo quando o filho lhe cospe a sopa para cima dos óculos”. É uma ternura só ultrapassada pelo momento em que ele suspira que a paternidade o deixou como “um pudin-flan”, e que utiliza as peripécias da vida para os seus programas, como inspiração. Vá lá, com a catarse que faz sempre evita o ataque de nervos. Pois Markl, mais à frente, lá confessa que teve de arranjar “pequenos métodos para não enlouquecer” após ser pai. Apesar de tudo, diz ele “A paternidade faz de nós melhores pessoas. Conheço muitas bestas que seriam capazes de se reformar.” Digam lá: é meigo, não é?

 Mas a revista tem mais exemplos. Há um pai de cinco filhos, de três mulheres diferentes “que convive bem com a realidade” e tem com eles “uma relação precoce e com sentido”. Porque é que estas frases não me parecem louváveis mas sim normais? Jamais me passaria pela cabeça ter uma relação tardia e sem sentido com um filho, mas talvez eu seja pouco comum. Este pai confessa que os seus divórcios tiveram muito a ver com o facto das suas prioridades anteriormente nunca passarem pela família. Já me cheirava… Também lá aparece um outro pai que sofre porque a mulher de quem está divorciado não o deixa ver o filho. Diz ele que a ex-mulher é uma perturbada que sofre de depressão pós-parto. Não duvido que possa ser. Mas o certo é que a criança já tem 15 anos. É muito tempo de pós-parto. 

O importante a reter é - segundo os especialistas na revista -  que está a nascer um novo pai, “que reclama para si metade do prazer e da responsabilidade de tratar dos filhos” ainda que a mãe “trabalhe mais 3 horas do que o pai nas funções domésticas”. Ora, com 8 horas no emprego e 8 de sono (sarcasmo incluído), subtraindo vai e vem de trânsitos, compras e as 3 suplementares da mãe… Quantas é que o super pai trabalha em casa? Uma? E o pai que não é super? Afinal, como diz uma amiga, “por detrás de um homem de sucesso está sempre uma mulher exausta”. 


Friday, May 28, 2010

Húbris - uma história grega

O que falta às pessoas, no colapso de uma civilização, é grandiosidade. Foi à conta desta frase que me pus a pensar. Apesar da minha mãe sempre me ter dito que não é bom pensar, eu prefiro exercer este pecado do que viver uma vida santa.


Arnold Toynbee, historiador britânico, analisou o processo de vida das civilizações: o seu nascimento, crescimento e declínio.  Toynbee estava convicto de que este processo seguia parâmetros comuns, independentemente dos lugares e épocas onde as civilizações se situassem. A civilização mais resistente era a que melhor respondia às mudanças, no fundo, a mais adaptável - uma espécie de teoria evolutiva ao nível civilizacional, mas com uma importante diferença: a causa primeira de “morte” das civilizações era interna, não provinha de desastres climatéricos nem de invasões doutros povos mas sim de crises intrínsecas. Donde ele conclui : “Civilizations die from suicide, not by murder”.


Segundo Toynbee, ao ultrapassar um desafio com criatividade, a civilização crescia. O nacionalismo ou a tirania de uma minoria despótica eram provas de que a criatividade se tinha evaporado e o fim estava próximo. As teorias de Toynbee não foram bem aceites por todos (aliás, convém desconfiar de coisas unanimente aceites, até o chocolate tem detractores!), mas o seu impacto é inegável.


Ao falar de quedas de civilizações, lembro-me sempre de uma professora (fundamental na minha ética) que nos falava das noções de honra da Antiguidade Clássica. Os Gregos possuíam o conceito de húbris, uma espécie de arrogância desmedida que se traduzia em acções de fúria e orgulho extremo, trazendo vergonha a outrem. Ao humilhar outro, o abusador pensava que a sua superioridade era maior.


Húbris era um conceito bastante complexo, porque este nível de arrogância era considerado crime - não um crime qualquer mas “o” crime por excelência, pois ao incorrer nele o Homem esquecia o seu lugar no Universo, infringindo os preceitos gregos da busca de perfeição pelo equilíbrio em todas as coisas (pan metron ariston). Consequentemente, o ser humano cego pela húbris, perdia completamente a razão e realizava acções que nunca seriam expectáveis num homem consciente da “medida de todas as coisas”.


As tragédias gregas estão repletas de exemplos de húbris (Édipo rei e o casamento com a progenitora, Ícaro voando perto do sol). A  literatura épica - sempre com reminiscências históricas - também. Há o célebre episódio de Aquiles na Íliada(um menino bonito e convencido de si próprio que humilhava todos como insectos e pagou por isso) que após matar o seu rival Heitor, não se deu por satisfeito e decidiu fazer arrastar o seu corpo  por cavalos, pelo chão, à frente dos familiares da vítima até o desfazer; ou quando após matar a rainha das amazonas violou o cadáver porque matá-la não era subjugação suficiente. Estas acções profetizaram a sua morte pouco tempo depois.


Os gregos consideravam que as práticas de húbris provinham de loucura. Não no sentido que damos à palavra, mas sim numa acepção de essência maligna. Quem praticava a humilhação fazia-o para se sentir gratificado. E esse crime nunca deixava de ser castigado, quer pelos homens (a noção do castigo da húbris encontra-se no direito grego, precavendo os extremos dos mais poderosos) quer pelos deuses – sob a forma de terriveis mudanças nos cursos de vida, pois Nemesis, deusa da vingança,  estava sempre muito atenta a punir todos os homens que se esqueciam que eram apenas … homens.


A  húbris era o erro trágico dos homens, aquilo que fatalmente conduzia à sua queda. A arrogância desmedida e a falta de controlo sobre uma impulsividade pouco sã levavam ao colapso de homens poderosos e civilizações inteiras. Claro que isto são histórias antigas. Hoje em dia, até os gregos se esqueceram dos pecados que levam à queda, como está mais que provado.


Friday, May 14, 2010

À direita uma vela, à esquerda uma lupa

Se há lutas tão antigas como o Mundo, uma delas é a que opõe Religião e Ciência, ambas uma construção do mesmo Homem, de um lado fervoroso crente e do outro insaciável curioso. Ambas as características estão ligadas à sua sobrevivência, pois o Homem necessita de esperança e de génio inventivo para continuar. Logo, enquanto a espécie não desaparecer, a luta continua (para quê?, pergunta legítima). O ano passado, por conta das comemorações de Darwin, houve um re-acender das polémicas entre os teólogos e os cientistas, e até no nosso pequeno mundo, esta mesma semana, se fizeram umas piadas sobre as cinzas do Eyjafjallajokull que impediam o trânsito aéreo mas não deixaram de se afastar para que Sua Santidade pudesse chegar a tempo a Fátima. Note-se que eu não percebo nada do assunto, pois ao contrário da esmagadora maioria dos meus compatriotas não estou habilitada para falar nem dos efeitos de vulcões a mais de 3000 km (sem falar das baixas altitudes a que voam os nossos aviões) nem tão pouco de questões metafísicas, pelo que me remeto à minha ignorância leiga, acompanhada por um pequeno punhado da população. O restante é tão versado nisto do vulcão e de milagres como em futebol.


Mas, voltando ao tema, parece que a Religião e a Ciência têm feito umas tentativas para se entender e darem as mãos (isto já antes do Eyjafjallajokull ter feito um sorriso a Sua Santidade para que pisasse o nosso solo, bem entendido). O Papa João Paulo II, em 1996, disse mesmo que a teoria da evolução não é contrária à fé cristã e que “os indícios biológicos da evolução são imperiosos”, o que, por um lado, representou um extraordinário estender da mão da entidade eclesiástica às afirmações científicas e, por outro, um golpe de diplomata dado que a comunidade científica, no seu global, afirmava que Deus era uma hipótese da qual não necessitavam para as suas explicações e teoremas. Consequentemente, para quê nomear o desnecessário?


Foi a partir de um discurso de João Paulo II à Academia Pontifícia das Ciências em 1981 que as relações da época moderna entre Religião e Ciência tomaram um novo rumo: “As Sagradas Escrituras falam-nos da origem e criação do Universo para explicar as relações entre o Homem com Deus e o Universo. A Bíblia declara que o mundo foi criado por Deus e para nos ensinar esta verdade expressa-se nos termos da cosmologia usada no tempo de quem a escreveu.”  Neste discurso de mestre, diz-nos qualquer coisa como: Deus criou o Homem, disso não tenham dúvidas nem vacile a vossa fé, dando-lhe inteligência e livre-arbítrio como faria à sua obra-prima, e para melhor admirar esta obra e deixar que ela prosseguisse o seu caminho, esse mesmo Homem foi evoluindo, na sua senda e chegou onde hoje está.


A gente revolve enciclopédias e tratados filosóficos sobre esta matéria, teorias da interconexão, do conflito versus o diálogo ao longo dos tempos, até chegar à teoria da independência de Stephen J. Gould e tem dificuldade em encontrar um discurso mais “cravo e ferradura” do que este. Ou seja, engenhosamente diplomático.


Do lado das Ciências, Einstein foi o mais habilidoso a falar destes assuntos, admitindo que sempre haveriam assuntos que o conhecimento do Homem não conseguiria penetrar e que, considerando a sua admiração por esses assuntos, sim, seria religioso, embora não acreditasse numa entidade divina mas sim na admirável estrutura do mundo: “Não acredito num Deus que se preocupe com o Destino e com os feitos da Humanidade, acredito num Deus que se manifesta na harmonia do Mundo, tal como Spinoza”. Acrescente-se que Einstein e Spinoza não eram cristãos, eram judeus.


Ultimamente, não tenho visto nenhuma manifestação inteligente entre estes dois constructos humanos. Mas dizem-me que isto do vulcão islandês em tempo de Fátima tem muito que se lhe diga…


Monday, May 3, 2010

Ups, a minha escola mudou de nome! Manuel quê…?


À primeira vista, escrever um texto sobre a nossa Escola Secundária pode parecer fácil (para mim, nem tanto, porque andei em mais do que uma). Claro que, no caso presente, o que interessa é juntar a ideia da Escola à figura da Primeira República que foi Manuel  de Arriaga, o que me complica muito as coisas, não em termos memorialísticos, porque acabei o chamado “Liceu” na escola com esse nome, mas porque de Manuel de Arriaga sei mesmo muito pouco! Portanto, decidi fazer um exercício entre algumas pessoas desse tempo – velhos e velhas que, como eu, já são trintinhos (quando tínhamos dezassete anos, um tipo de trinta já estava um bocado gasto…) e perguntar-lhes se sabem tanto da personagem como eu. Também respondi às perguntas, sem batota. Os entrevistados estão identificados só pelo nome, porque, nessa época adolescente, no bilhete de identidade não constavam cargos nem profissões, alínea que hoje anda muito in. Obrigada a todos os que acederam responder, desde os telegraficamente sinceros aos que deram voltas sérias  à memória e áqueles a quem ameacei que ia colocar uma fotografia daqueles tempos na net caso não colaborassem (é mentira, não cheguei a ser assim tão cruel ao ponto de torturar com a possível revelação da verdadeira cor capilar de cada um…). Aqui  fica uma viagem no tempo, sendo que nem entre nós conseguimos acertar no ano em que a escola mudou de nome. Independentemente do pouco que sabíamos, a verdade é que, como alguém aqui disse, ninguém se lembrou de dar uma aula gira e apelativa sobre Arriaga às nossas mentes atarefadas de então. Eis o que pensávamos sobre o 1º Presidente da República.


Questões:
1)     Na altura que frequentavas a Escola Secundária, que sabias sobre Manuel de Arriaga?
2)     E agora? Já aprendeste mais alguma coisa?
3)     Fizeste parte da geração que estava na escola quando a Escola Secundária da Horta passou a chamar-se Escola Secundária Manuel de Arriaga. Isso teve importância na época? Manuel de Arriaga pareceu-te uma melhor escolha para o nome da escola que frequentavas?


Respostas (entrevistados por ordem alfabética):


Adolfo Fialho
1)Sabia aquilo que quase toda a gente sabe… que Manuel de Arriaga foi o primeiro presidente da República Portuguesa, aspecto que, associado ao facto de ser natural da Ilha do Faial, assumia alguma relevância na história da nossa localidade.

2)Pouco mais… apesar de ultimamente se estar a enfatizar o seu papel na história da nossa República, passados que estão quase 100 anos da sua constituição. Sei que estudou advocacia em Coimbra e foi um dos grandes impulsionadores da causa republicana. Sei ainda que sucedeu a Teófilo Braga - outro açoriano, natural de Ponta Delgada - que então presidia um governo provisório, e que foi curiosamente sucedido por este, ainda antes da data prevista para concluir o seu mandato, que foi marcado por muitas controvérsias políticas…

3) Encontrava-me já na recta final dos meus estudos naquela instituição de ensino e lembro-me de estar concentrado noutros objectivos. Ainda assim, recordo-me vagamente de toda a agitação em volta do nome da escola e da importância histórica do seu novo patrono. Não me lembro de ter explorado muitos pormenores nas aulas, aspecto que me parecia importante, até para compreendermos a real importância de tal distinção. Lembro-me que houve uma grande movimentação em torno da estátua de Manuel de Arriaga, junto ao cais do porto da Horta, que até então me tinha passado completamente despercebida. Na altura, pareceu-me bem tal distinção e senti uma pontinha de orgulho por ter sido um faialense a tomar as rédeas da primeira república portuguesa.
Continuo a achar que foi uma escolha acertada. 



Carla Cook
1)     1)Sabia que tinha sido o Primeiro Presidente da República Portuguesa e que tinha nascido no Faial, naquela casa muito decrépita, perto da Rua do Arco.

2)    2) Sinceramente, muito pouco. Apenas soube, pouco depois, que não era linear que tivesse nascido no Faial, porque havia a hipótese de ter nascido no Pico… Não sei até que ponto isto é verídico. De qualquer modo, em duas ilhas separadas por 4.5 milhas náuticas, a movimentação dos habitantes é, desde há muito, uma constante. Quanto à personalidade e feitos de Manuel de Arriaga, lamento dizer que sei pouquíssimo.

3)     3)Não teve a importância que lhe atribuo agora. Mentiria se dissesse que sim. Sou de 77, penso que aconteceu no meu 12º ano, que foi uma época de muito estudo e muito namoro, aquela vida intensa, rápida e feliz, própria da idade. Estava ocupada e não pensava em Manuel de Arriaga. Além disso, tínhamos de escrever “Escola Secundária Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga, Horta”. Isso pareceu-me uma perda de tempo e de tinta por oposição a “Escola Secundária da Horta”, embora concordasse que era muito positivo dar à escola o nome de um homem da terra que tinha conseguido algo importante: é motivador para as gentes; logo, achei bem.



Cláudia Pereira
1)      1)Não tinha muita informação sobre Manuel de Arriaga. Lembro-me que sabia que tinha sido o primeiro Presidente da República, que era natural da Horta e que tinha nascido numa casa onde tive catequese e que se situa junto ao Ponto.com (restaurante).

2)      2)Infelizmente, não. Talvez pelo facto de nunca ter sido uma figura que me despertasse muita curiosidade, apesar de ter dado o seu nome ao nosso liceu.

3)      3)Sim, na altura foi muito falado. Pareceu-me uma boa escolha por ser faialense e pelo facto de se ter convertido num estadista. Na altura, fazia sentido.



César Lima
1)Sabia que tinha sido o 1º presidente eleito da Republica Portuguesa, que era natural de cá, e que tinha nascido na Casa do Arco.

2) Agora sei um pouco mais , sei que foi advogado, professor, escritor e politico (Partido Republicano Português),e foi deputado republicano da Madeira.
Estudou direito em Coimbra, deu aulas de Inglês em Lisboa, e mais tarde foi reitor da universidade de Coimbra.
Sei também que sentiu-se amargurado e injustiçado pelos próprios republicanos nos últimos meses do seu mandato,
que morreu 2 anos depois de ter abandonado a presidncia da Republica e que está sepultado no cemitério dos Prazeres.

 3) Sim, estudava lá na altura, aliás concorri ao concurso para escolher o logotipo da escola.
Acho que não só é um nome melhor para a escola 
como também é uma justa e honrosa homenagem a uma figura tão valorosa como ele foi.



Dália Leal
1)   1)  Pouco.
2)    2) Sim.
3)     3)Na altura, teve pouca importância. Considero ser uma importante homenagem a um ilustre faialense.



Filipe Pires
1) Na altura em que frequentei o "Liceu", já tinha noção que Manuel de Arriaga tinha sido o primeiro Presidente eleito da Républica Portuguesa e que era faialense.

2) Sim, nos dias de hoje, já adquiri mais alguns conhecimentos.

3)Sim, acho que que fiz parte desse grupo, creio que foi em 1994. Na altura, apesar de saber quem foi Manuel de Arriaga, a mudança de nome da escola nao fez grande diferença e sinceramente não atribuí grande importância, pelo menos do que me lembro.



Joana Decq Mota

1)     Sabia que foi o 1º presidente eleito da República Portuguesa, sucedendo ao Governo provisório; nasceu na Cidade da Horta, situando-se a sua casa na Rua do Arco na Matriz.

2) Soube mais tarde que estudou Direito em Coimbra.

3) Quando frequentei já se chamava ESMA há muitos anos, anteriormente Liceu Nacional da Horta. Acho adequado atendendo à importância que tem o facto de o 1º presidente da República ser açoriano, nascido no Faial. Penso também que a grande maioria dos faialenses mais jovens desconhece tal facto.




Luis Campos
 1)Sabia apenas que tinha nascido na Ilha do Faial e tinha-se tornado o primeiro Presidente da República Portuguesa.
2)Não.
3)Acho que não, mas sinceramente acho bem melhor, assim sempre se dá ênfase a  um grande nome das gentes do Faial.




Nuno Ribeiro

1)Que tinha sido o 1º Presidente da Republica, e que tinha nascido na Cidade da Horta.
2) Que afinal existe uma polémica se ele nasceu mesmo no Faial ou no Pico.
3)Foi na minha altura. Achei um nome muito grande (Esc. Sec. Geral e Básica Dr. Manuel de Arriaga), mas acho que foi um excelente forma de homenagear uma figura muito importante e mercante da História de Portugal.



Pedro Taborda

1) Sabia que Manuel de Arriaga era natural da Ilha do Faial e havia sido o primeiro presidente da Republica. Talvez por isso havia uma estátua em sua homenagem no cais da Horta.
2)  Desde então não aprendi mais nada que dissesse respeito a Manuel de Arriaga. 
3Manuel de Arriaga é um nome  ajustado para a Escola Secundária da Horta ainda mais pela importância do cargo que este açoriano  desempenhou. Só tenho pena que a casa onde nasceu Manuel de Arriaga não seja recuperada e se transforme num qualquer espaço de utilidade pública. 



Renato Silveira
1)Na altura, sabia que ele tinha sido o primeiro presidente da República
Portuguesa e que era meu conterrâneo, um faialense, e pouco mais.
2)Agora, e resumindo, sei que o mandato dele foi envolto de muita
controvérsia e que, apesar de ser considerado um homem bom e integro,
foi obrigado a renunciar ao cargo devido a algumas polémicas
relacionadas com o General Pimenta de Castro, homem que a dada altura
foi escolhido por si para governar o governo. Saiu da presidência,
como se diz na gíria, "pela porta pequena", numa altura em que se
viviam tempos agitados numa República ainda a dar os primeiros passos.
3)Quanto à alteração do nome ter tido importância,
sinceramente já não me lembro bem, mas julgo que não foi assim muito
relevante. Foi apenas uma alteração do nome do Liceu (mas a
minha memória pode estar a atraiçoar-me).
Se foi a melhor escolha? Não sei, mas foi uma escolha bastante
adequada uma vez que, dado o seu passado académico e relevância
política para o país, foi uma forma bonita de homenagear este
faialense.


Rosa Dart
1-   1) Por acaso até sabia qualquer coisa... apesar de não dar a importância que dou agora às memórias da nossa terra. 
2)Já. "Passei" por ele ao de leve no curso de Filosofia quando estudei Antero de Quental. Fiz também pesquisas sobre os honoráveis da Ilha e Manuel de Arriaga, incontornavelmente, era um deles. Claro que sempre fiquei a saber mais qualquer coisa. Aprende-se sempre.
3)Pois. Sou da fornada de 75! Não, sinceramente na altura não dei muita importância, se bem que agora acho que o nome de Manuel de Arriaga ainda dá mais dignidade ao Liceu (que é como sempre lhe chamamos, pelo menos os alunos de 75). 



Vanessa Santos

1)Anteriormente à mudança de nome da escola, nada. Depois, apenas que era Faialense e que era considerado uma figura importante.
2)Pouco. Mas este exercício despertou-me a curiosidade fazendo com que tenha pesquisado informação adicional.
3)Na altura não compreendi o porquê da mudança. De um ponto de vista mais prático, considerava que trazia complicações: por exemplo, a necessidade de decorar um novo nome, demorar mais tempo a preencher o nome da escola em fichas (por ser mais longo e por ter de me lembrar da ordem das palavras, mas penso que tinha outras coisas pelo meio, tipo “escola básica e integrada”), por vezes esquecer-me e preencher com o nome antigo (como acontece quando mudamos de ano). Agora, atribuo-lhe a importância devida. Respeito.

Friday, April 30, 2010

Da obediência à autoridade

Uma discussão recente sobre ditadores, o misto de insegurança profunda que neles existe em contraponto com a sua extraordinária força para mover multidões, sobre revoltas sociais contra regimes e outras conversas usuais no mês de Abril levou-me a falar com alguns amigos sobre a experiência Milgram. Para meu espanto, apesar de serem indivíduos ligados às ciências humanas ou à biologia, não a conheciam, o que me fez pensar que realmente o lado obscuro do Homem passou a ser considerado tabu, mesmo nas instituições que se dedicam a estudá-lo.


 
Stanley Milgram era psicólogo na Yale University e começou as suas experiências sobre obediência a figuras de autoridade em 1961, poucos meses depois do início do julgamento em Jerusalém de Adolf Eichmann, o criminoso de guerra Nazi. Um dos seus propósitos era tentar obter uma resposta para a noção de intenção por parte de Eichmann e seus companheiros em relação às suas atitudes – como sabemos, a intenção é fulcral para a determinação do crime. Por outras palavras, Milgram testou a capacidade de obediência à autoridade do ser humano, mesmo que as ordens recebidas fossem profundamente contra o sentido de ética e de moral do ser que obedece.


A experiência continha 3 personagens: experimentador, vítima e participante. A vítima era um actor e não sofria danos, embora isso fosse ignorado pelo participante. Os participantes (pessoas comuns entre 20 e 50 anos, obtidas através de anúncio de jornal, pagas à hora), tinham de ensinar alguns conceitos às vítimas, assumindo com estas o papel de professor perante o aluno. Por cada resposta errada, davam-lhes um choque eléctrico de baixa intensidade. Simplesmente, por cada erro, o choque ia aumentando de intensidade até atingir 450 volts.


 
Se o participante/professor manifestasse desejos de terminar com os choques, o experimentador – assumindo uma figura impassível e na posse do poder – dizia-lhe apenas: “A experiência exige que continue” sem mais conversas.


 
Milgram sondou os colegas psicólogos sobre os resultados das experiências e estes apostaram na ética e bom coração do ser humano. Mas falharam. No primeiro grupo de experiências, 65% das pessoas administraram o choque final de 450 volts e apenas um parou aos 300 volts. A vítima-actor estava instruída para gritar de dor. Os participantes questionaram-se, indagaram o experimentador sobre o propósito da experiência, alguns choraram pelas suas acções, tremeram. Mas fizeram-no. A maior parte continuava após ser assegurada pelo experimentador que não lhes seria imputada responsabilidade pelo acontecido, o que nos leva a conceptualizar sobre a necessidade de assumir para sentir.


 
As experiências de Milgram (mais tarde, plenas de variações) foram muito criticadas devido ao stress que inflingiam nos participantes e atacadas como pouco éticas. Milgram publicou-as em livro “Obedience to Authority” em 1974, com algumas interpretações teóricas resultantes. Segundo ele, ao obedecer, o indivíduo vê-se como um agente dos desejos de outro e portanto desresponsabiliza-se das suas acções, ocorrendo um desvio crítico do seu ponto de vista – “they made me do it”. Outra situação que ocorre é explicada pela teoria do conformismo, a sensação de que estamos perante um grupo ou alguém mais forte do que nós; não podendo escapar, resta-nos obedecer. Actualmente, adaptou-se a esta teoria o conceito de “desamparo adquirido”, mais ou menos aquilo de que sofrem as mulheres vítimas de violência, que passam a obedecer cegamente como forma de sobrevivência, porque “aprendem” que nada as pode ajudar a sair de uma situação em que existe uma autoridade que não as deixa escapar.



Seja qual for a razão, os ditadores conhecem bem como aproveitar os recursos de obediência que cada ser humano tem em potência. A Igreja usa-os há séculos, como um dos seus três votos fundamentais. Nestes casos, ter cabeça pensante não ajuda pois também existe um fundo de ignorância: o único participante da primeira experiência que recusou ir mais longe disse “Eu sou engenheiro eléctrico. Eu sei o que os choques fazem às pessoas. Você não me pode convencer.”, donde se depreende que para obedecer cegamente convém ser um pouco tonto e que a inteligência não ajuda ninguém a sobreviver a um ditador… Já dizia a minha avó “mulheres burras fazem homens dominadores muito felizes”.