... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, August 20, 2010

Sexta -feira é azul e sabe a chocolate

A frase do título parece uma frase infantil, que achamos muito engraçada e admissível até certa idade e depois começamos a corrigir e a não permitir, porque os excessos de fantasia são de conter, sobretudo nesta sociedade eminentemente prática. Parece… mas não é. Também não é fantasia  - e daí o seu extraordinário interesse científico. De facto, recentemente, a Sinestesia voltou a ser objecto de estudo afincado por parte de neurologistas e até psicólogos (ainda que seja uma manifestação fisiológica), apesar de já ter sido descoberta no século XIX. Como o nome grego indica, é uma condição de base neurológica em que as sensações (aisthésis) se apresentam conjuntas (syn). Explicando melhor: se um sinesteta for estimulado de modo sensorial-cognitivo de uma determinada forma (por exemplo, a nível auditivo), essa estimulação não se fica por aí e automaticamente estimula outro sentido (visual, por exemplo). Assim, um sinesteta pode associar sempre o som Fá à cor verde, porque efectivamente o seu cérebro faz essa ligação.


 A Sinestesia pode ser de vários tipos: desde associar grafemas e ordinais a cores (ex: “o S é cor de laranja”) ou cores a sons, fonemas ao gosto ou cheiro (“Ana! Que nome tão baunilha!”) mas as formas de Sinestesia mais extraordinárias são a personificação e, como veremos, o espelho de toque. A personificação implica atribuir um verdadeiro carácter a inanimados, como: “A letra F, essa hipócrita, não a suporto”.



Os sinestetas organizam o mundo espacial e memorialisticamente de forma diferente, mas têm, sobretudo, uma sensibilidade diferente. Existe uma forma especial de Sinestesia que é a forma mais alta de empatia já estudada e verificada cientificamente: o espelho de toque. Os sinestetas com esta capacidade sentem literalmente as sensações de outras pessoas, nomeadamente a dor. Quer isto dizer que ao ver um toque, ele sente um toque. O porquê desta estimulação neurológica ainda não é clara, mas ela acontece. Todos já sentimos um arrepio ao ver uma cena de sangue num filme, mas o sinesteta sente o estímulo doloroso. Com a experiência, estes sinestestas distinguem perfeitamente a sua dor da alheia, não deixando de a sentir. Esta forma de Sinestesia é a mais rara de todas, e o interessante de descobrir mais sobre ela é precisamente o combate a uma sociedade egoísta e narcissista, com toda a polémica ética que isso envolve (vide estudos recentes publicados na Science Now e Cognitive NeuroPsychology).


 Como podem imaginar, esta mistura de sensações é muito atraente para os artistas, sobretudo românticos, tendo havido vários que reclamavam “sofrer” desta condição tão sedutora, como Baudelaire. Porém, a Sinestesia não é algo que se “apanhe” ou que se aprenda; é mesmo uma resposta cerebral involuntária, automática e consistente. Logo, se o seu filho for o desespero dos professores porque é demasiado sensível ou pinta a palavra Maio verde e insiste no seu cheiro a limão, não desespere: ele não é anormal, é sinesteta, e o mundo dele é apenas muito mais rico e interessante do que o dos outros milhões de cinzentos que têm sensações à vez. Nenhum sinesteta trocaria a sua condição pois um mundo sinestético é infinitamente mais rico. Pergunte a Vladimir Nabokov.



Friday, August 6, 2010

Quem precisa de uma Presidente inteligente?

Fiquei surpreendida quando a ex-candidata à Vice-Presidência dos EUA, Sarah Palin, apareceu esta semana a criticar Obama pela sua política de imigração. Palin mostrou-se escandalizada porque “Obama não tem tempo para visitar a fronteira entre os E.U.A. e o México” (local onde a imigração ilegal é forte) “mas tem tempo para aparecer em talk-shows”. Não estou chocada com a opinião de Palin; estou admirada com o quanto evoluíram os seus conhecimentos em geografia.


De facto, durante a campanha para as Presidenciais dos EUA, Palin demonstrou ser (como dizê-lo de modo suave?) enfim, muito ignorante. Em entrevistas que deu à televisão (tudo isto hoje disponível no YouTube, que põe a nu e perpetua as asneiras televisivas), Palin nunca soube identificar os vários estados do seu país, muito menos situá-los no mapa. Se até as crianças da escola são repreendidas por isso, não será grave que alguém que se propõe ser Vice-Presidente não tenha ideia do que é o país em termos territoriais? Para além desta falha – que podemos apelidar de ordenamento interno -, Palin tinha ideias muito particulares sobre a política externa, a começar pelo facto de não ter qualquer noção sobre quem fazia fronteira com os EUA. Numa entrevista, na qual puxava dos seus galões como ex-governadora do Alasca (factor importante, dado que Obama não possuía cargos políticos de relevo), Palin afirmou que estava habituada a negociar com o PM da Rússia, até porque “nós vemos a Rússia ali do Alasca”. Perante o ar de descrédito do jornalista, Palin, de entremeio com umas queixas sobre as pessoas não conhecerem nada do Alasca, acrescenta: “afinal quem pensam vocês que é o nosso país vizinho?”


Noutra entrevista, na qual lhe perguntaram o que pensava sobre a doutrina Bush (frase usada para descrever os princípios da política externa do Presidente Bush), Palin respondeu: “O que quer dizer? Se concordo com a visão do mundo do Presidente Bush?” O jornalista gagueja, repete a pergunta, Palin às voltas até o jornalista lhe explicar o que era a doutrina. Faz pensar… Se, de facto, é necessário escolher figuras tontas e manipuláveis para determinados cargos, pelo menos que lhes dêem uns cursos de preparação intensiva antes de os porem a falar em público.


Quando foi óbvio para o país que Palin era demasiado tonta e que nem conseguia dizer o nome de um jornal quando lhe perguntaram em directo que órgãos de comunicação costumava consultar, houve um pequeno momento convulsivo. O candidato a Presidente McCain tinha mais de 70 anos e já sobrevivera a um cancro. Havia fortes hipóteses de Palin ser Presidente no decurso posterior do mandato caso ganhassem. Nessa época, apareceram várias figuras públicas anti-Palin, afirmando que ela seria a risota do mundo quando se encontrasse com os líderes de outros países. John Cleese disse que os Monty Python não poderiam ter inventado uma personagem melhor nem que tivessem tentado.


Curiosamente, Palin teve muitos defensores, considerando a sua fraca prestação pública. Muitas pessoas entrevistadas sobre o que pensavam dela, diziam simplesmente: “Não percebe nada de História nem de Geografia, e é claramente pouco informada, mas gosta muito dos filhos.”
Fácil é concluir que ao povo não incomodam Presidentes pouco inteligentes – aliás, tinham eleito Bush…- mas um Presidente simpático e amoroso da família é essencial e garante que será também amigo do povo. Então, o que levou à queda de Palin (que até carregava, como um pão ao colo, um filho com problemas que lhe trouxe alguns votos)?


Um anúncio de televisão. Nos EUA, durante as campanhas, podem fazer-se anúncios a denegrir o adversário. O spot em causa mostrava lobos do Alasca, fugindo de helicópteros que os matavam à queima-roupa. Os lobos caíam e derramavam sangue na neve. O slogan era qualquer coisa como: “Queremos mesmo alguém que mata lobos inocentes na nossa Presidência?” Palin, de facto, enquanto governadora, tinha mandado matar uns lobos. O povo, sentimental, não perdoou. Como não ter um Presidente com fama de carinhoso? A popularidade de Palin só caiu em flecha quando os lobinhos tombaram mortos na TV. Muito mais grave que ver a Rússia quando abria a janela. 


Friday, July 23, 2010

A Teoria dos Jogos

No Courrier International deste mês, há um artigo muito interessante em que se diz que o Prof. Bueno de Mesquita (actualmente recrutado pela CIA) utiliza um método quase infalível para avaliar das hipóteses probabilísticas de acontecimentos futuros relevantes na política e diplomacia mundiais, como a futura estratégia de Pequim ou o Irão como provável potência nuclear. Trata-se da Teoria dos Jogos, espécie de simulação na qual se introduzem todas as variáveis possíveis tendo em vista a hipótese A ou B e se obtém a resposta para o que vai realmente acontecer. Exemplo: O Irão será (hipótese A) ou não (hipótese B) uma potência nuclear? O Prof. põe no computador o Presidente iraniano, o Ayatollah, o Conselho de Segurança da ONU, os radicais iranianos, os EUA, Israel, enfim, as colectividades e individualidades envolvidas, tudo isto em índices de 0 a 200 numa escala que avalia a determinação dos participantes em atingir os objectivos. Claro que isto é só o início… Mesquita diz que o computador no qual se introduzem dados não é propriamente adivinho; basta-lhe ter em conta que toda a gente toma sempre as decisões simultaneamente mais racionais e mais egoístas. É baseado nesta premissa que ele tem previsto os acontecimentos das últimas décadas. A CIA agradece.


Apesar do jogo matemático ser interessante, é a teoria de base que me fascina. De facto, há uma teoria socio-antropológica denominada “social exchange” (é capaz de ser “troca social” em português, mas confesso que não estudei em versão traduzida) que diz que as relações humanas são formadas numa perspectiva de custo/beneficio, ou seja, damos o que esperamos obter e, simultaneamente, quem recebe fica pressionado a dar em igual parte.

Parêntesis para dizer que esta teoria é amada pelos economistas que assim têm a satisfação de reduzir as relações humanas à linearidade dos números e a uma espécie de sobe-desce de bolsa de valores de ordem sentimental. Por outro lado, os defensores do altruísmo e de teses como a do sentimento maternal ser tão forte como o da sobrevivência, acham que isto são balelas. Certo é que esta teoria fez um imenso furor por épocas do meu nascimento (pois, eu nasci na pior época para um bebé ser feliz, mas em contrapartida ficámos todos muito witty! Basta ver a bomba que são as letras dos Pearl Jam.)

A Teoria do Social Exchange implica pensar-se na reciprocidade por antecipação, fazendo tudo por recompensa e esperando sempre influenciar os outros (toda a influência, por si só, é a nosso favor, mesmo que se reflicta apenas em mecanismos de controlo social identitário como a tão falada reputação e/ou a construção de uma imagem pública).

Já estão a ver o quanto se interligam estas teses… Vão todas dar direitinhas à Teoria da Escolha Pública, de onde, curiosamente, Mesquita foi beber a sua Teoria dos Jogos. A Teoria da Escolha Pública é a ciência política utilizada em campanhas para a acção dos agentes políticos (e, o que é fantástico, analisa mesmo dois candidatos concorrentes face a eleitores médios que são, afinal, quem os elege), as suas decisões para chegar ao poder ou permanecer nele e a sua habilidade de compromisso em satisfazer o eleitorado ou fazer coligações. A base continua a ser a mesma que é utilizada na Teoria dos Jogos: escolhas racionais e egoístas e a previsão do comportamento do oponente, tão racional e egoísta quanto o do visado. Bom, mas isto é conversa académica… claro que há pessoas muito mais habilitadas para esta dissertação.

Mesquita afirma que a Teoria dos Jogos – afinal, pura estratégia - resulta porque o comportamento das pessoas é muito previsível, sendo que elas decidem sempre tentando obter o que é melhor para si. Só se tem de analisar os condicionantes.

Se a CIA confia e tem provas que o mundo é egoísta por natureza… quem sou eu, ser humano que gosta genuína e fatalmente de outros, para duvidar?

Post-Scriptum: Fui alertada para o facto das minhas crónicas serem “muito pouco light, nada a condizer com aquilo que se espera duma rapariga em pleno Verão”. Vou fazer por colocar adoçante no chá das cinco ou, em alternativa, recorrer a uma lobotomia. (smile)

Thursday, July 8, 2010

Reabilitar com óculos cor-de-rosa

O Homem é um optimista profundo- é isto que faz com que a Humanidade sobreviva. Apesar de todas as misérias que os atacam, os homens arranjaram uma arma ainda maior para lhes fazer frente: a Esperança. Contra esta, ainda não se inventou nenhum buraco negro. Ainda bem.


Hoje em dia, como Rousseau, acreditamos que a essência do Homem é ser naturalmente bom, mas a vivência vai corrompendo alguns; sendo assim, é sempre possível recuperar a ovelha tresmalhada. Cada vez mais, tendemos a classificar os autores de crimes não como criminosos mas como doentes psiquiátricos ou desadaptados - o que é uma ofensa para os verdadeiros doentes, desde já criminosos em potência. Fala-se de desequilíbrios hormonais (facilmente resolvidos com químicos), distúrbios de personalidade (aplicando como cura psicoterapias nas quais o visado terá de ser honesto, quando esperar sinceridade de um criminoso é mais ou menos como esperar bifes dentro da sopa), mas não se consegue admitir que existem crimes que não provém de doença nenhuma; são fruto de maldade. Doença tem evolução, melhoria, eventual cura. Maldade não. A existência de bondade pressupõe também o oposto, mas o excessivo optimismo impede que vejamos a realidade, tornando-nos míopes e injustos.


Em 93, um bebé de dois anos, James Bulger, foi raptado de um centro comercial em Inglaterra, enquanto a mãe comprava comida. Os raptores eram crianças de dez anos, Jon Venables e Robert Thompson. Quando Bulger foi encontrado, numa linha de comboio, era só um corpinho mutilado. Venables e Thompson espancaram-no com tijolos na cabeça e uma barra de ferro, puseram-lhe pilhas de brinquedos dentro da boca para lhe abafar o choro, tinta dentro dos olhos, molestaram-no sexualmente e deixaram-no na linha para que lhe passasse um comboio por cima, parecendo um acidente (segundo os próprios). A ideia – que denota já capacidade inventiva criminosa – era escusada, porque o bebé morreu da tortura antes do comboio passar. Os meninos criminosos (as fotos lembram tímidos anjos, receosos e doces) declararam à polícia que tinham estado pacientemente toda a manhã no centro à espera de um bebé, tinham tentado raptar outros sem sucesso, e aquele finalmente foi enganado com doces e brinquedos - outro dado que reflecte a premeditação de um crime que de impulsivo teve muito pouco. Não demonstraram qualquer remorso. No tribunal, não disseram nada, já bem aconselhados pelos psiquiatras e assistentes sociais. No entanto, pelas câmaras CCTV do centro e pela quantidade de pessoas que os tinham visto passar com um bebé em lágrimas e já com algumas equimoses (eles confessaram tê-lo atirado de cabeça para o chão, como primeira sevícia, e terem dito aos passantes que era o seu irmão mais novo para não levantar suspeitas) bem como pelas suas declarações à polícia, Venables e Thompson foram os mais jovens criminosos a serem condenados por um tribunal europeu, até à época.


A sua condenação foi muito mediática. A opinião dividiu-se entre o bebé, desumanamente torturado, e as crianças sem sombra de sentimento, que a Humanidade, fiel ao seu optimismo, queria recuperar. Psiquiatras no tribunal aplicaram-se a perguntar aos meninos se sabiam a diferença entre o bem e o mal e ainda se sabiam que era errado levar um bebé para longe da sua mãe. Mas nunca lhes fizeram a pergunta essencial, a meu ver: ao ouvir gritos de dor de outro ser humano, porque é que não param de o magoar?  Não é uma questão de educação (que tanto quiseram dar a entender que era um caso falhado nestas crianças), mas sim de humanidade intrínseca.


Sejamos racionais: um ser que esperou por uma presa-vítima, a escolheu criteriosamente e depois a torturou com requinte, ignorando a sua dor extrema, e não demonstrando qualquer remorso posterior, vai reabilitar-se?
Não está doente. Simplesmente, é imune à dor de outro ser humano. Não tem contágio de emoções e nem todos os ensinamentos deste mundo o vão convencer, porque os gritos de um bebé também não enterneceram.


Venables e Thompson foram libertados. Venables acaba de ser detido novamente por pornografia infantil. Adeus ideias do Tribunal Europeu sobre “o tribunal foi muito intimidante quando julgou estas crianças” e “eles sofriam de stress pós-traumático após o crime”. É curioso como a nossa sociedade faz do criminoso uma vítima. A vítima era o bebé, coisa que, felizmente, o juiz não esqueceu ao dizer-lhes “o vosso crime foi de uma maldade e barbaridade sem paralelo”.
Como disse, na época, o PM “Em certos momentos, temos de condenar mais e compreender menos”.

Friday, June 25, 2010

Mátria

Há um sentimento contraditório no povo português (sem querer aqui dissertar sobre as palavras “povo” e “português” que só de si dão um tratado, sobretudo quando conjugadas na mesma frase com as palavras “sentimento” e “contraditório”, que lhe assentam como luvas): é o amor à sua terra. Para não regionalizar e correr o risco de complicar ainda mais com mesquinhices que tomam o aspecto de guerrilhas, estendo a terra ao tamanho do país.


O português ama muito o seu país, mas sente que o país ingrato não o ama assim tanto a ele. Será talvez por isso que o português é o povo mais crítico a falar da sua nação. Os outros enaltecem sempre os seus países e escondem-lhes os defeitos. O português não. Com um suspiro, admite que, realmente, Portugal não presta para nada e só um doido (sendo que o doido é ele mesmo, comprazendo-se um pouco masoquisticamente nesse papel) suporta viver nesse local sem condições e sem glória. Mas basta um virar de maré, um ventinho de feição breve – sei lá, uma vitória da Selecção Nacional – para o português dizer que Portugal é excelente. De facto, o que está na raiz mais profunda do temperamento português é não suportar viver na miserabilidade do quotidiano: ele tem de ser mártir ou então herói. É o tédio que o mata. O destino do português tem de adaptar-se a uma vocação romântica, seja boa ou má mas seja grandiosa.


Todo o português conhece a célebre frase de Pessoa “A minha pátria é a língua portuguesa”, retirada do contexto. A esta frase segue-se: “Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente, mas odeio, com ódio verdadeiro, (…) a página mal escrita, (…), a sintaxe errada, como gente em que se bata, (…) como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.” É ensinado às jovens mentes que Pessoa era um grande patriota pela sua Mensagem, mas qualquer ser pensante vê que um homem bilingue, que tanto escreveu em português como em inglês, que acabou a vida com “I know not what tomorrow will bring”, que passou a infância na Cidade do Cabo, não seria dado a nacionalismos e certamente abraçaria mais do que uma cultura.
Porém, quando Pessoa morreu não fizemos um circo… Ele não tinha ganho prémios.


O português diz continuamente que “quem é bom vai lá para fora”. Isto é discutível, claro. Até porque o português que vive em Portugal, ao dizê-lo, está automaticamente a desclassificar-se. De qualquer forma, o que não é discutível é que toda a gente tem o direito de viver onde quiser durante o tempo que quiser (esta última frase é tanto mais utópica quanto eu sei bem os meandros dela, porque já fui emigrante, já deixei de o ser por vontade própria e conheço intimamente muitos imigrantes, mas deveria ser assim até segundo as novas leis de mobilidade humana).


O português, apesar desta sua opinião veemente sobre “os bons triunfam lá fora”, fica roxo de fúria por a pianista Maria João Pires ter decidido abdicar da sua nacionalidade em favor da nacionalidade brasileira, após um conflito com o governo português. O português também não vai à bola com o facto de Saramago ter escolhido viver em Lanzarote desde os 60 anos – também por um conflito governamental. Certo é que a um morto nada faz diferença, mas, mesmo assim, não me parece correcto dizer, nas cerimónias fúnebres, “este é o regresso a casa de Saramago”. Afinal, a casa do senhor era, sem dúvida, Espanha, onde vivia com a mulher, sua família mais próxima. Que direito temos nós de o reclamar para um solo onde não tem família (a mulher está onde decidiram viver; a filha, que eu saiba, vive na Madeira). Exéquias para o morto… ou para o país ver? 


Também me parece de mau gosto um discurso claramente para agradar às massas, onde se disse “Saramago podia não acreditar em Deus, mas Deus, se existe, acreditava decerto nele.” Quase podíamos ouvir a voz de Saramago na entrevista sobre Caim onde ele diz “Mas que tenho eu a ver com os católicos portugueses?”.
Juntemos a isto a alegria despropositada dos portugueses nas exéquias fúnebres, como se estivessem numa festa nacional, “onde as cinzas descansam agora tranquilamente” e “ficam as obras para os alunos dissecarem” (o sonho de qualquer escritor, certamente, é ser dissecado!). Qualquer dia, em vez do chão da oliveira onde Saramago gostaria de estar, havemos de vê-lo no Panteão…


Talvez eu esteja a ser mordaz, mas como dizia Nemésio, “o amor à nossa terra é muito exigente” e o meu sempre foi. Não é fácil perdoar as nossas mediocridades de espírito mesmo salvaguardando a hipocrisia diplomático-política, pois sobretudo para esse papel há que ter elegância e inteligência.


Friday, June 11, 2010

Papá de revista

Numa viagem de avião vim a ler uma revista pós-moderna que falava sobre o papel do pai na educação dos filhos (e mais coisas assim fantásticas como macrobiótica e civismo arquitectónico, tudo excelentes teorias cuja aplicação tem um número mínimo de praticantes). Calhou bem porque a meu lado vinha o meu filho a dormir no colo do pai. Durante esta  viagem em que o pai o segurou, a solicitude das hospedeiras e a preocupação carinhosa da passageira do lado foram inimagináveis: ”Oh, coitadinho, o senhor vai ficar com o braço cansado!”; “Não quer mais uma almofada?”; “Quer que eu o segure?” Anteriormente, eu fizera duas viagens sozinha com o meu filhote e ninguém, repito ninguém se preocupou minimamente se eu estava cansada, queria apoio ou ajuda ou sequer almofada. E eu, ao contrário do pai, tinha um braço doente e menos 30 kg do que ele…

 A minha questão é: porque é que isto acontece? Podem sempre dizer-me que é por o pai da criança ser o que se chama uma figura pública e logo todos os pretextos serem bons para meterem conversa com ele. Também é certo que um homem com bebés ou cães tem sempre sucesso e dá uma imagem de carinho e responsabilidade, sobretudo junto das mulheres, coisa que os homens não ignoram. Mas é, também, porque a mentalidade vigente espera que a mãe cumpra e faça o seu papel, mas quando o pai cumpre e faz o seu chovem salvas de palmas em louvor e ainda lhe oferecem ajudas mil como se ele fosse um incapaz.

 A revista pós-moderna também estava cheia de elogios aos super pais heróis. E eram mesmo super, a julgar pelos exemplos. O emblema era Nuno Markl, apresentador de tv, escritor, locutor de rádio, humorista e autor do programa Há Vida Em Markl e ainda pai que partilha com a mulher todas, mas mesmo todas as rotinas de um filho de oito meses. É ele quem se levanta sempre de noite, faz a sopinha com batatas, esteriliza biberons, organiza a casa e limpa. Há mesmo muita vida em Markl. 

“É o verdadeiro pai-galinha, sempre presente”, diz a revista. Excepto é claro quando está a fazer os programas de tv e de rádio, a escrever guiões ou a dar entrevistas, imagino eu. Pormenores. Quantas mulheres não leram isto e ficaram suspirando por um Markl assim. Ingénuas. A revista garante que Nuno Markl, qual contorcionista, “faz tudo com flexibilidade (…) mesmo quando o filho lhe cospe a sopa para cima dos óculos”. É uma ternura só ultrapassada pelo momento em que ele suspira que a paternidade o deixou como “um pudin-flan”, e que utiliza as peripécias da vida para os seus programas, como inspiração. Vá lá, com a catarse que faz sempre evita o ataque de nervos. Pois Markl, mais à frente, lá confessa que teve de arranjar “pequenos métodos para não enlouquecer” após ser pai. Apesar de tudo, diz ele “A paternidade faz de nós melhores pessoas. Conheço muitas bestas que seriam capazes de se reformar.” Digam lá: é meigo, não é?

 Mas a revista tem mais exemplos. Há um pai de cinco filhos, de três mulheres diferentes “que convive bem com a realidade” e tem com eles “uma relação precoce e com sentido”. Porque é que estas frases não me parecem louváveis mas sim normais? Jamais me passaria pela cabeça ter uma relação tardia e sem sentido com um filho, mas talvez eu seja pouco comum. Este pai confessa que os seus divórcios tiveram muito a ver com o facto das suas prioridades anteriormente nunca passarem pela família. Já me cheirava… Também lá aparece um outro pai que sofre porque a mulher de quem está divorciado não o deixa ver o filho. Diz ele que a ex-mulher é uma perturbada que sofre de depressão pós-parto. Não duvido que possa ser. Mas o certo é que a criança já tem 15 anos. É muito tempo de pós-parto. 

O importante a reter é - segundo os especialistas na revista -  que está a nascer um novo pai, “que reclama para si metade do prazer e da responsabilidade de tratar dos filhos” ainda que a mãe “trabalhe mais 3 horas do que o pai nas funções domésticas”. Ora, com 8 horas no emprego e 8 de sono (sarcasmo incluído), subtraindo vai e vem de trânsitos, compras e as 3 suplementares da mãe… Quantas é que o super pai trabalha em casa? Uma? E o pai que não é super? Afinal, como diz uma amiga, “por detrás de um homem de sucesso está sempre uma mulher exausta”. 


Friday, May 28, 2010

Húbris - uma história grega

O que falta às pessoas, no colapso de uma civilização, é grandiosidade. Foi à conta desta frase que me pus a pensar. Apesar da minha mãe sempre me ter dito que não é bom pensar, eu prefiro exercer este pecado do que viver uma vida santa.


Arnold Toynbee, historiador britânico, analisou o processo de vida das civilizações: o seu nascimento, crescimento e declínio.  Toynbee estava convicto de que este processo seguia parâmetros comuns, independentemente dos lugares e épocas onde as civilizações se situassem. A civilização mais resistente era a que melhor respondia às mudanças, no fundo, a mais adaptável - uma espécie de teoria evolutiva ao nível civilizacional, mas com uma importante diferença: a causa primeira de “morte” das civilizações era interna, não provinha de desastres climatéricos nem de invasões doutros povos mas sim de crises intrínsecas. Donde ele conclui : “Civilizations die from suicide, not by murder”.


Segundo Toynbee, ao ultrapassar um desafio com criatividade, a civilização crescia. O nacionalismo ou a tirania de uma minoria despótica eram provas de que a criatividade se tinha evaporado e o fim estava próximo. As teorias de Toynbee não foram bem aceites por todos (aliás, convém desconfiar de coisas unanimente aceites, até o chocolate tem detractores!), mas o seu impacto é inegável.


Ao falar de quedas de civilizações, lembro-me sempre de uma professora (fundamental na minha ética) que nos falava das noções de honra da Antiguidade Clássica. Os Gregos possuíam o conceito de húbris, uma espécie de arrogância desmedida que se traduzia em acções de fúria e orgulho extremo, trazendo vergonha a outrem. Ao humilhar outro, o abusador pensava que a sua superioridade era maior.


Húbris era um conceito bastante complexo, porque este nível de arrogância era considerado crime - não um crime qualquer mas “o” crime por excelência, pois ao incorrer nele o Homem esquecia o seu lugar no Universo, infringindo os preceitos gregos da busca de perfeição pelo equilíbrio em todas as coisas (pan metron ariston). Consequentemente, o ser humano cego pela húbris, perdia completamente a razão e realizava acções que nunca seriam expectáveis num homem consciente da “medida de todas as coisas”.


As tragédias gregas estão repletas de exemplos de húbris (Édipo rei e o casamento com a progenitora, Ícaro voando perto do sol). A  literatura épica - sempre com reminiscências históricas - também. Há o célebre episódio de Aquiles na Íliada(um menino bonito e convencido de si próprio que humilhava todos como insectos e pagou por isso) que após matar o seu rival Heitor, não se deu por satisfeito e decidiu fazer arrastar o seu corpo  por cavalos, pelo chão, à frente dos familiares da vítima até o desfazer; ou quando após matar a rainha das amazonas violou o cadáver porque matá-la não era subjugação suficiente. Estas acções profetizaram a sua morte pouco tempo depois.


Os gregos consideravam que as práticas de húbris provinham de loucura. Não no sentido que damos à palavra, mas sim numa acepção de essência maligna. Quem praticava a humilhação fazia-o para se sentir gratificado. E esse crime nunca deixava de ser castigado, quer pelos homens (a noção do castigo da húbris encontra-se no direito grego, precavendo os extremos dos mais poderosos) quer pelos deuses – sob a forma de terriveis mudanças nos cursos de vida, pois Nemesis, deusa da vingança,  estava sempre muito atenta a punir todos os homens que se esqueciam que eram apenas … homens.


A  húbris era o erro trágico dos homens, aquilo que fatalmente conduzia à sua queda. A arrogância desmedida e a falta de controlo sobre uma impulsividade pouco sã levavam ao colapso de homens poderosos e civilizações inteiras. Claro que isto são histórias antigas. Hoje em dia, até os gregos se esqueceram dos pecados que levam à queda, como está mais que provado.