... "And now for something completely different" Monty Python

Monday, May 16, 2011

O Futuro das Humanidades


A revista da Faculdade de Letras da UL publica este mês uma entrevista absolutamente vital feita a George Steiner, um dos raríssimos Homo Universalis de hoje. Poliglota desde a infância, estudioso de diversas áreas do saber humanista e das suas relações, Steiner re-definiu conceitos e perspectivas. Embora a Academia o tenha premiado e o seu currículo docente inclua todas as universidades de topo actuais, Steiner não é considerado um indivíduo pacífico; aliás, a sua tese de doutoramento começou por ser rejeitada em Oxford e os seus colegas de Cambridge demoraram muito a aceitar a sua crítica inflamada e personalidade pouco formatada, de quem já passara pela Guerra e se recusava a esquecê-la. Não só mas também por estas razões, vale a pena ler o que pensa o Mestre do papel da Universidade actual na Europa de hoje e das Humanidades que temos.


Algumas ideias são passíveis de chocar os mais conservadores. Steiner defende uma mudança profunda nas Universidades, dado que o modelo actual está “moribundo” e não serve nem investigadores nem alunos. Os primeiros deixaram de ser encarados com seriedade e alguns são péssimos professores; os segundos estão impacientes e zangados porque não têm esperanças socioeconómicas. A isto soma-se a preguiça e passividade actuais, o medo de outras realidades, a propagação da miséria intelectual de uma geração para outra e o entediamento que provém das facilidades trazidas pela cultura do luxo. O tédio, segundo Steiner, é um dos maiores perigos das civilizações e, conjugado com outros factores, já foi predecessor de grandes guerras.


A época actual traz perigos concretos para as Humanidades: as línguas vêem-se ameaçadas por uma espécie de “esperanto electrónico” que as substitui, a literatura perdeu terreno e ninguém hoje venera os homens de artes e letras, como se fazia na Itália Quatrocentista – hoje, existe o culto da Ciência Física, Química e Biogenética. Pessoalmente, creio que o Homem faz uma caminhada à procura de vias de salvação e da mesma forma que antes deixou a religião para se dedicar a si e à sua capacidade artística, agora deixou essa faceta para acreditar no poderio da ciência… Steiner é um pouco mais realista: crê que o Homem de hoje tem como únicos deuses o futebol, porque nada congrega tantas pessoas determinadas e apaixonadas frente a um mesmo objectivo.


Steiner acredita na coligação de Universidades e na mobilidade de docentes e alunos ao invés da tão popular reduplicação de cursos pelos países fora que hoje se verificam e que conduzem ao inevitável resultado de salas quase vazias e do maior fosso entre ensino e posterior postos de trabalho, já para não falar na extinção de cátedras devido à falta de alunos. Defende também a aceitação de algumas realidades perante a época que vivemos: certas línguas perderam terreno e, perante este facto, temos de começar a apostar no ensino de outras cuja ascensão no mundo de hoje começa a ser por demais evidente; o entendimento de que o modelo da Universidade americana não serve a Europa, porque se radica no sentir peculiar americano, em muitas coisas oposto ao sentimento de um continente elitista e abatido por uma História conflituosa; a percepção de que os currículos têm de ser revistos perante as grandes mudanças estruturais do mundo actual (dando como exemplo a revisão dos currículos científicos nos EUA aquando do aparecimento do Sputnik); a apreensão de que existem alunos mais dotados de que os mestres e que a irreverência intelectual dos alunos dotados é um factor de progresso científico a ser estimulado; a realização de que as Humanidades têm de estar entusiastas mas muito modestas, pois “não se portaram assim tão bem” – não tornaram o clima político melhor, não deram aos jovens o que eles necessitam e gastam milhões de euros em monografias especializadas sem utilidade, isto é, que não servem ao progresso espiritual das pessoas nem ao progresso do mundo.


Então, para quê ler? Curiosamente, Steiner confessa que ler hoje é difícil. Para ler, é necessário silêncio e vivemos num mundo de ruído constante; é necessária privacidade, e as pessoas são compelidas pela sociedade a partilhar todas as suas experiências em redes sociais e já não guardam intimidade do que vivem; é necessário saber com o coração (de cor) e já não há tempo para esse luxo indispensável que é a poesia.


Apesar de tudo isto, e paradoxalmente, o Mestre tem esperança no futuro. Porque das grandes crises nascem grandes momentos – as pessoas pensam mais, absorvem mais. Além disso, como todos os judeus, Steiner acredita que não se pode ter medo do futuro. Ter medo do futuro é o suicídio da mente.

Friday, May 6, 2011

Errare humanum est



N.B: preâmbulo para entender as "regras do jogo" desta miscelânea de autores e de vivências que passam pelo Suma Irracional : a cada quinzena, é dada uma palavra e cada "autor" escreve (ou pinta) algo sobre a palavra dada. A palavra da vez foi "ERRO", segundo a qual escrevi o textinho que se segue.



Os matemáticos distinguem entre “o erro absoluto” e “o erro relativo”. São noções de cálculo numérico, mas, se considerarmos apenas as expressões per si ficamos com a clara sensação de que também é possível fazer o mesmo tipo de erros no percurso da nossa vida: relativos versus absolutos. Deve ter sido a pensar nisso que os anglo-saxónicos inventaram a expressão “move on!” e que os falantes do castelhano dizem “adelante mora gente!” para enfatizar que temos de seguir sempre, mesmo após um erro colossal.


Em 1994, o brilhante neurocientista português António Damásio escreveu O Erro de Descartes onde defendia que a separação entre a racionalidade e as emoções é um mito. Ou seja, e dito de forma bastante leiga e sumária, é inútil tentar dividir duas coisas que provêm do mesmo indivíduo, pois as nossas respostas emocionais dependem, em grande parte, de processos cerebrais e vice-versa. Assim, o erro cartesiano – que muito influenciou correntes filosófico-científicas – seria pensar que é possível a existência de uma razão pura como independente do corpo e das emoções. Portanto, as pesquisas que pretendem compreender os homens de um ponto de vista puramente biológico, simulando processos da biologia humana em computadores com alta inteligência artificial, falham… porque os computadores não são passíveis de modificações mentais perante um estado corporal emotivo. Quer isso dizer que, afinal, são as emoções que determinam os nossos comportamentos?


Damásio introduz uma hipótese – a dos marcadores somáticos - que, muito sucintamente, propõe que o processo das emoções guia o comportamento, nomeadamente a tomada de decisões. Os marcadores somáticos seriam associações entre estímulos de recompensa que, naturalmente, levam a um afecto correspondente, incluindo a sua repercussão fisiológica. Isto quer dizer que o ser humano armazena informações relativamente às suas experiências emotivas passadas e que isso o ajudará a fazer escolhas mais rápidas e acertadas no futuro, como veremos.
Em conclusão: as emoções ajudam e equilibram a tomada de decisões, sendo parte integrante do processo mais racional.


O que acontece, então, a alguém que se lesionou cerebralmente com gravidade? Damásio expõe alguns casos famosos, como o de Phineas Gage, americano que em 1848 sofreu um acidente, tendo a parte frontal do seu cérebro sido trespassada por uma barra de ferro. Surpreendentemente, Gage apenas perdeu a visão de um dos olhos, quando a expectativa seria de não sobrevivência. No entanto, Gage queixava-se de um “sentimento geral estranho” após o acidente. O que nele mudou não foram as suas funções cognitivas mas sim a sua personalidade: o trauma cerebral tornou-o imprevísivel, alterado e com dificuldade em tomar decisões. O anteriormente responsável e maturo Gage tornou-se caprichoso, infantil, obstinado nas suas vacilações que depressa mudavam de rumo, transformando-se, nas palavras dos que com ele privavam, “uma criança com as paixões animais de um adulto”.


Os estudos feitos em pacientes com lesões no córtex frontal corroboraram a teoria de que indivíduos com personalidades ditas “normais” antes desses traumas apresentavam depois comportamentos bastante peculiares em relação à norma, nomeadamente inabilidades de planeamento, dificuldades de decisão, personalidades volúveis e não raro um défice no controlo da agressividade. Para além disso, a sensibilidade destes pacientes mostrava-se completamente alterada, sendo que alguns revelavam uma grande imunidade às emoções e um enorme tédio perante quaisquer excitações a muito breve prazo (daí a constante procura de novas coisas). Passemos por cima da infelicidade que deve ser viver assim e concentremo-nos no que significa ser-se imune a emoções. No fundo, é um eufemismo para psicopata. É este o tipo de pessoa que inflinge dor a outrem sem sentir qualquer tipo de problema. Se houvesse Deus, este seria o erro na cadeia dos seres humanos criados por ele: alguém sem problemas em maltratar, dado que ele também não sente e só a empatia nos permite entender o sofrimento de outro como sendo verídico, i.e. passível de existência real.


Mais ainda, do ponto de vista científico, estes indivíduos são um erro na corrente evolucionista porque, apesar do seu intelecto “normal”, nalguns casos até apresentando um Q. I. elevado em termos de produtividade, linguagem, memória e outros processos cognitivos, eles não são capazes de evoluir porque têm dificuldade em experienciar e expressar emoções, pelo que lhes falta a capacidade de se guiarem na vida pelos famosos marcadores somáticos; ou seja, não têm a possibilidade de fazerem escolhas acertadas no presente e no futuro, dado que não retiveram nada do seu passado relativamente às emoções boas ou más que viveram, não tendo por isso a rapidez na resposta e muito menos o cuidado e a atenção que têm aqueles que guardam as experiências afectivas como barómetros de tomadas de decisão. Pois são essas experiências que ditam as escolhas fundamentais, o sucesso do ser humano. A inabilidade destes seres humanos de se guiarem pelo sentimento é o erro da cadeia humana. Assim, o narcisista maligno é tão errado dentro da Humanidade como um vírus destruidor está errado num sistema informático.


Interessante é notar que algumas afirmações de Damásio o aproximam da teoria do falibilismo (do latim falibillis, i.e. passível de erro), sobretudo aquelas em que ele demonstra a sua convicção de que todos os resultados científicos são aproximações provisórias. Ou seja, o ser humano vive em verdade passageira, o mesmo é dizer em erro temporário.


Para terminar este texto de uma forma mais leve, vou partilhar este pensamento com vocês: sempre que penso em “erro”, penso no Charles Schulz e num cartoon do Snoopy em que Charlie Brown ficava acordado à noite a pensar “mas onde é que eu errei?”… para chegar à conclusão que precisava de mais do que uma noite inteira para responder a essa questão.


Wednesday, May 4, 2011

Os Açores na Política Internacional - de José Medeiros Ferreira


“A geografia é um vaso várias vezes modelado pelo Homem” Orlando Ribeiro


O papel que os Açores desempenharam na política internacional não se resume a uma resenha histórica desde os finais do séc. XIX até aos nossos dias, neste livro de José Medeiros Ferreira. Pelo contrário. A análise lúcida dos acontecimentos, a revelação de alguns documentos, as comparações inteligentes incluindo afirmações ousadas e o desfazer de mitos estão felizmente muito para além do coleccionismo eventual que caracteriza outros trabalhos e autores de História Contemporânea e Relações Internacionais, cuja perspectiva tende, por vezes, a inibir-se perante o ainda protagonismo vivencial dos que lá são referidos. Não é, pois, exagero dizer que José Medeiros Ferreira adopta efectivamente “uma nova forma de pensar a região e de conceber a sua articulação com o mundo”, como se lê na contracapa.


Determinar a importância dos Açores no panorama geoestratégico mundial é uma questão tão antiga quanto falada, porém raras vezes apreendida pelos próprios açorianos dada a sua complexidade e intensidade dos diversos jogos de influências. Como bem afirma e demonstra o autor nestas páginas, os Açores não foram sujeitos dos acontecimentos, apesar da sua importância posicional; foram, isso sim, objecto usado por outros sendo o seu relevo absolutamente determinado por circunstâncias históricas e eventos políticos que em muito os ultrapassaram.


Cronologicamente, a obra inicia-se com o estabelecimento da rede de Cabos Submarinos e, quase simultaneamente e em estreita conexão, do Observatório Meteorológico no Faial. Tratavam-se, à luz da época, de meios de transmissão tecnológicos avançados e de equipamentos científicos cuja importância foi amplamente usada, mas também cujo cobiçado serviço chegou a ser – como seria de esperar em questões políticas – motivo para neutralização e sonegação de informações.


Assim, as ilhas, e nomeadamente o Faial, mercê da sua localização geográfica ímpar entre continentes, começaram por ser encarados como plataformas logísticas ideais para a implementação de inovações científicas e tecnológicas.


José Medeiros Ferreira aliás, nunca abandona a ideia de que esta ainda é e será  sempre a principal mais valia dos Açores no quadro internacional, oferecendo também como exemplos mais recentes a Estação Iternacional de infra-sons e detecção de ensaios nucleares da Graciosa, a estação da Agência Espacial Europeia (ESA) em Santa Maria – o mais avançado que Portugal possui no âmbito da tecnologia espacial - e mesmo a Região de Informação de Voo desta ilha (que em conjunto com a de Lisboa tem uma área 51 vezes superior à do Continente português) e, finalmente, o Departamento de Oceanografia e Pescas  e o Instituto do Mar no Faial que, segundo o autor, é uma instituição ímpar que ocupa o 14º lugar a nível mundial na sua área de investigação, consitutuindo, portanto, um dos principais pilares da excelência oceanográfica actuais.


Esta distinção é tanto mais importante quanto José Medeiros Ferreira crê que os Açores estão em plena mudança de paradigma quanto às suas relações com a política europeia, nomeadamente em termos contributivos e decisivos, nos quais se destaca indubitavelmente a área da Política Marítima. Naturalmente que aqui entramos num campo  prospectivo, mas considerando os eixos à volta dos quais esta política se organiza a nível europeu, fácil é verificar que os Açores acrescentam algo e não são apenas a fonte de despesas nacionais que tantas vezes nos fazem crer; vistos por esse prisma, os Açores são uma mais valia para Portugal no âmbito da União Europeia.


José Medeiros Ferreira não deixa de passar em revista a importante situação dos Açores nas duas Guerras Mundiais e no tempo que mediou entre estas, considerando certas jogadas portuguesas (como a importância política que o Governo de Salazar quis atribuir ao acordo francês para a estação de telemetria das Flores que, afinal, não tinha nem tanta utilidade nem tanta pompa como aquela com que a enfeitámos, ou os pedidos portugueses de licença a Londres para aceitar os acordos com os americanos, nomeadamente na época das Grandes Guerras). É também dado destaque a algumas situações que desmistificam certas feridas antigas entre as ilhas, considerando-se umas ainda hoje “roubadas” por outras de um prestígio que anteriormente possuíam. Assim, e reportando-me ao mais localista, o porto do Faial não perdeu a sua importância para S. Miguel porque isso tenha sido ditado pelo poder local mas sim porque a Marinha americana necessitava urgentemente de um porto de maior dimensão na Primeira Grande Guerra; foi a Eastern Telegraph que retirou ao Faial a centralidade das comunicações via rádio no arquipélago, referindo que a montanha do Pico era um impasse a certas transmissões; quando a Marinha deu lugar à Aviação como força primordial, as Lajes da Terceira e a sua grande pista, à época de terra batida, passou a ser o centro dos interesses internacionais nos Açores (sendo, aliás, uma pista melhorada por fundos estrangeiros para seu próprio uso),… e a lista continua, numa óbvia conclusão: as ilhas não se “retiraram” vantagens inter pares; foram utilizadas conforme os interesses momentâneos de outros.


Daqui, advêm duas conclusões fundamentais. A primeira é que algumas ilhas são claramente mais pró-europeias e outras fundamentalmente pró-americanas, mercê de influências e contactos estabelecidos ao longo dos tempos. Isto talvez não tenha tido importância até agora, mas poderá ser crucial no futuro em tomadas de posição nas relações entre “correntes mais continentalistas e outras mais atlantistas”. A segunda conclusão é delicada e analítica: José Medeiros Ferreira expõe, em quadro, os fundos que os Açores receberam de 1990 a 97 do Acordo feito entre as ilhas e os EUA e também os fundos vindos da UE. Numa perspectiva propositadamente comparativa, fácil é verificar porque incentivaram tanto os americanos a nossa entrada na UE: é que quanto mais recebemos da UE, menos recebemos dos EUA.


Nesta obra, estão também analisados os movimentos autonomistas nos Açores à luz da visão internacional sobre os mesmos e ainda a posição que os Açores têm na UE , enquanto região autónoma e ultraperiférica, mas sem o estatuto particular pelo qual optaram as Canárias, nem a excentricidade dos departamentos franceses ultramarinos; ainda assim, mais arquipelágica e oceânica que a Madeira.


Assim, e na opinião de José Medeiros Ferreira, o maior bem dos Açores é a sua unidade insular enquanto Região Autonóma. Porém, esta unidade entre ilhas “não é um dado adquirido tendo em conta a evolução mundial” que poderá levar a uma infeliz desagregação da coesão açoriana (?).



Esta obra de José Medeiros Ferreira  é, sem dúvida, muito animadora. Em época de crise geral, o livro contradiz o pessimismismo, dando-nos provas históricas de que os Açores foram uma espécie de joguete num campeonato no qual não tinham voz, mas também apresentando a convicção de que nunca estivemos tão conscientes do nosso poder estratégico e enquanto possível centro de pesquisa como hoje e que nunca tivemos tanto capital humano capaz de o utilizar. Assim, saibamos nós dar valor às pessoas que poderão fazer a diferença nuns Açores, numa Europa e num Mundo em mudança. No entanto, também se adverte que as influências que se movem à volta dos Açores e dos quais as ilhas, pelo seu próprio tamanho e geografia, dependem e interseccionam, não são forças estáticas: hoje, a Europa e a América são continentes cooperantes, mas o futuro poderá ser diferente… Fundamentalmente, para que não se repitam erros do passado e para que os Açores continuem a ter uma palavra a dizer, há que apostar fortemente na coesão inter-ilhas, no desenvolvimento de todas e na sua representação equitativa em termos de representação política. É, sem dúvida, um papel que cabe ao Governo. Mas o Governo só faz aquilo que lhe for exigido pelos cidadãos.


P.S.: Este livro iria também ser lançado na Horta este mês de Abril no âmbito do Colóquio Internacional “Os Açores, a I Guerra Mundial e a República Portuguesa no Contexto Internacional”, que decorreu na Biblioteca Pública João José da Graça. Infelizmente, a nossa condição insular ainda condiciona a tecnologia aeronáutica disponível e o apresentador do livro, Doutor Carlos Riley, viu-se impedido de chegar a tempo devido ao cancelamento de avião. No entanto, o livro está por cá e foi discutido, embora não oficialmente lançado. Como disse José Medeiros Ferreira, no término do mesmo: “Por muito que a geografia impere, é o espírito humano que a compreende e utiliza”.

Friday, April 29, 2011

"Ai, paciência, meu Deus!"



Estava eu a conversar com uma rapariga da Lituânia que tem uma paixão desmedida por Portugal quando ela me perguntou porque é que num país como este, bem fornecido de sol, de temperaturas amenas, de bonitas paisagens, de gente (mais ou menos) calma e sem fomes nem misérias de maior na sua generalidade, os portugueses estavam sempre a suspirar e a dizer “Ai, paciência!”.


Eu nunca me tinha dado conta que recomendávamos tanta paciência uns aos outros e, ademais, éramos tão plenos de suspiros! Mas é bem verdade. A mais comum das exclamações é mesmo capaz de ser esta, exceptuando outras que, embora não seja de bom tom eu escrever no jornal são, paradoxalmente, as mais ouvidas na rua e das primeiras que qualquer estrangeiro aprende se quiser sobreviver em 70% dos ambientes de trabalho lusos.


Porque precisa o português de tanta paciência, sincopadamente suspirada? Eu também não sei!
Porém, este é já um hábito bem antigo, de onde se conclui que o tão apregoado pessimismo português (repare-se que muitos até dizem “festa de fim de ano” e nunca “festa de princípio de ano”, semanticamente tomando uns copitos pelo ano que passou e não pelo que há-de vir!) nem é bem pessimismo – é uma espécie de amortização da queda. Afinal, o português até quem consciência que vive no “melhor dos mundos possíveis”, como apregoava Leibniz. Simplesmente, de vez em quando lá aparece uma pedrinha no caminho – nada que um espírito navegante e conquistador como é o português não resolva com meia dúzia de suspiros e caldos de paciência.


Outra coisa que o português muito gosta de fazer é chamar por Deus. Mas na base da confiança! Raros povos alcançaram um tu-cá-tu-lá assim com o divino. Enquanto que, por exemplo, os espanhóis têm tanto respeitinho a Deus que, só de pensarem nele intensamente, há centenas de espanhóis que sofrem de stigmatae sanguinolentos e absolutamente inexplicáveis, os portugueses tratam Deus com a maior descontracção. Os irlandeses, coitados, passam agruras por quererem praticar a sua religião. Os portugueses, mesmo os que se dizem fiéis e que se contam pelos dedos, estão sempre relaxados. Enquanto os naturais das Filipinas se esfolam todos na Páscoa para demonstrar a Deus que sofrem por Ele e tal como Ele, os portugueses não estão para demonstrações de nenhuma espécie. O português acha que se alguém tem de demonstrar alguma coisa é Deus, não é ele. Mas, verdade seja dita, não se incomoda se a demonstração levar anos ou mesmo não acontecer porque temos tempo... e sol e temperaturas amenas (vide primeiro parágrafo). Em suma: somos um convite à lazeira.


Assim, apesar de não darem troco nenhum a Deus, não é raro ouvir os portugueses chamar pela mãezinha d’Ele: “Oh Virgem Maria!”, ou outros de Sua proximidade “Ai santa Bárbara! Ajudai-nos!”, etc, revelando uma clara familiaridade com as entidades celestiais. Eis a minha exclamação favorita: “Oh Jesus Cristo! Anda cá abaixo ver isto!” que, não só rima, como é uma espécie de invocação imperativa que sujeita o pobre Jesus a ser humano e a passar por todo o Calvário novamente.


Mesmo os ateus se saem às vezes com frases destas. Não é preciso uma epifania para entender o porquê: é que ninguém tem bem a certeza de haver ou não Reinos que não sejam deste Mundo (perdão, João de Melo). Assim, o português arranjou um truque fixe que é o de tratar Deus como um amigalhaço, porque, assim, se Ele não existir, não fez figura de parvo a dedicar-se-Lhe e, se Ele existir, o português já fez o seu papel. Fica tudo salvaguardado.


Os ateus (com raríssimas excepções) costumam dizer que “não acreditam em Deus mas numa entidade superior que nos criou a todos” o que é a mesma coisa que um oriental dizer que não acredita no Buda mas admite a existência de um manda-chuva gordo e careca, sentado à chinês...
Como é diferente a Mística em Portugal, ai paciência! 

Monday, April 18, 2011

Gente Feliz com Lágrimas de João de Melo

João de Melo, que disse nunca ter pretendido ser “regionalista, mas alguém com olhos açorianos” viu este seu terceiro romance receber o Grande Prémio APE em 89 e, subitamente, eclipsar o resto da sua obra, já reconhecida à época, para se tornar num sério caso de romance da condição açoriana.

Narrativa de indícios autobiográficos, começa com a viagem de Nuno Miguel, que viaja para Lisboa para ingressar no Seminário. Damo-nos conta da triste e violenta infância de Nuno e dos seus irmãos, Maria Amélia e Luís Miguel, cujas vozes também lemos: uma infância de pobreza, de trabalho e, sobretudo, dor, que os obriga a crescer depressa sem, no entanto, jamais a abandonar. Nuno e Maria Amélia deixam uma vida difícil para entrar noutra existência espartilhada e de humilhação, que ambos acabam por abandonar, deixando a religiosidade de lado. Nuno, com o seu pendor de filósofo perante a vida, sonha em combater o Estado Novo… E a Guerra, a Revolução, os Açores vestidos com outra roupagem, tudo se desenrola para voltar à Lisboa onde, ao contrário das ilhas, não se olha de frente para o mar mas sim para cima, para o céu, para tentar alcançar uma plenitude. Na memória, vive-lhe sempre essa gente “ruidosa, […] feliz com lágrimas”.

Nascido numa pequena freguesia do Nordeste em 1949, João de Melo aí viveu até aos dez anos se mudar para o continente para prosseguir estudos. Em 1971, partiu para Angola, onde esteve mais de dois anos no estranho mundo da Guerra Colonial. É inegável o peso das suas vivências nas suas obras, que lhe valeram, no mundo literário português, os epítetos de “o açoriano” e “o escritor da Guerra Colonial”. Professor e autor de uma vasta obra em géneros tão diferentes como a ficção, a antologia, o ensaio, a poesia e as crónicas de viagens, recebeu já vários prémios literários nacionais e internacionais. As suas muito conhecidas obras de ficção estão também traduzidas em várias línguas. Desde 2001, João de Melo é o Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Madrid.

Saturday, April 16, 2011

A Base Biológica


Todos sabemos que o cérebro é ainda uma área francamente desconhecida da ciência em geral e da medicina em particular, apesar dos esforços para tentar penetrar nos segredos do computador humano. Pensa-se que grande parte dos seres humanos usam apenas 3% das capacidades cerebrais e que os mais dotados conseguem chegar ao valor irrisório de 10%, pelo que o potencial que temos acumulado e que não usamos é uma espécie de reservatório fenomenal ao qual ainda ninguém soube como chegar. Não se tem certezas quanto ao funcionamento processual do cérebro (ou já se estaria mais perto da cura do Alzheimer e da esclerose, só para citar alguns problemas) e menos ainda quanto a essas inexplicáveis pulsões e afectividades que estão associadas ao cérebro e que o fazem mais complexo de gerir do que qualquer máquina por ele inventada.


De quando em vez, surgem mais umas teorias e experiências científicas sobre esse orgãozinho dominador, o mesmo é dizer sobre nós próprios. A que fez furor neste mês de Abril foi a publicação da teoria de Ryota Kanai (neurocientista do University College of London) que afirma que a orientação política de cada um tem, afinal, uma base biológica.


Confesso que a ideia me pareceu inacreditável e digna de umas boas gargalhadas, mas, à cautela  - até porque sou das Ciências Humanas, essas desprezadas junto do aparente pragmatismo das outras Ciências (serão não humanas?!) – fui verificar o que Ryota Kanai dizia sobre o assunto. As experiências neurofisológicas do Dr. Kanai levaram-no a concluir que a estrutura física dos que optam por políticas liberais é diametralmente diferente da dos políticos conservadores. De uma forma muito generalista, resume-se assim: os liberais têm mais matéria cinzenta (as famosas células do Hercule Poirot) no córtex cingulado anterior e, consequentemente, estão mais aptos a entender todas as questões que envolvam complexidade e têm um pensamento menos restrito e mais tolerante; por seu lado, os conservadores, cuja amígdala cerebelosa tem que se lhes diga, têm mais capacidade de reacção às situações e também de processamento de emoções básicas, nomeadamente o medo.


Portanto, a Biologia explica tudo. Como sabemos, etimologicamente a Biologia é a ciência da vida, embora possamos ter uma perspectiva à Alberto Caeiro e ripostar que a vida não tem nem pode ter ciência nenhuma. Mais estranha talvez é a Psicologia, porque é quase metafísico supor que existe uma ciência da alma. É uma discussão que tenho várias vezes em casa, porque somos de áreas diferentes - não há nada melhor para combater o tédio do que não ter ideia da ciência do outro e, para terminar em beleza, podem-se sempre culpar os gregos pela herança de vocábulos tão úteis quanto aparentemente desfasados do real.


Metendo a foice em seara alheia, não posso concordar com esta perspectiva maniqueísta do Dr. Kanai. As características físicas, em grande parte herdadas geneticamente, não podem, per si, explicar opções de vida. Se a Genética fosse tão linear, seria de esperar que os filhos de bandidos fossem todos bandidos, o que seria muito injusto para os frutos inocentes de violações, por exemplo, cuja hipótese de serem violadores é tão grande como a de outra pessoa qualquer. Além disso, é bem conhecida a experiência das duas gémeas verdadeiras separadas à nascença, tornando-se uma pianista de renome e a outra crescendo para detestar qualquer tipo de música…


O Dr. Kanai ressalva, porém, que a sua experiência não dispensa avaliar o percurso posterior do indivíduo, sendo certo, no entanto, que nas características físicas de cada um está inscrito o modo como lida com a incerteza e com o receio e que é isso que faz dele um liberal ou um conservador, de acordo com a sua teoria.


É importante dizer que se desconhecem as inclinações políticas do Dr. Kanai. Seria interessante sabê-lo. Mas talvez mais interessante seria convencer o Dr. Kanai a prosseguir estas experiências em Portugal, onde, com grande desgosto académico, veria esta tese gorada e decerto, se veria obrigado a formular uma nova com grande ginástica científica, pois os nossos opinion makers e dirigentes políticos não raro mudam de inclinação política… Mudarão eles também de estrutura interior? Não é um caso de ética, como nós, leigos, julgámos; é um caso de ciência.  

Friday, April 1, 2011

Mátria II


Pediram-me que nunca escrevesse sobre política. Não foi difícil cumprir com esse requisito. Primeiro, porque apesar de haver demasiadas pessoas a falar sobre o assunto, poucas dizem alguma coisa. Depois, porque me parece que há efectivamente pouca gente a fazer política… embora muitas pessoas vivam dela. Estes contra-sensos levam ao descrédito básico de um povo perante a classe governante ou aqueles que aspiram a governar. Assim, por formação, vejo-me muito mais inclinada a escrever sobre a base cultural que faz um povo ser como é.


De um modo muito geral, o português não é, nem por modo de ser intrínseco nem por vontades contextuais, um povo com tendência à anarquia. Antes pelo contrário. O português teme, mais que tudo na vida, a insegurança, preferindo arrastar ao máximo situações difíceis. Segundo os velhos ditos “não vá a pior”, “antes diabo conhecido que bem desconhecido” e “atrás de mim virá quem de mim bom fará”, Deus nos livre de grandes abalos; já bastam os naturais e inevitáveis. É por isso que qualquer governante (não importa o quadrante) quando chega ao poder, sabe que apenas sairá por impedimento constitucional ou por motivos pessoais (e raros são os que os invocam). Os exemplos em Portugal de governantes ad aeternum constitutia são inúmeros.


O português tem um medo terrível do desconhecido, embora nutra um odiozinho quotidiano e de morte lenta ao conhecido. A isto chama-se, em psiquiatria, co-dependência. Logo, o povo português bem pode ser um caso de estudo.


As próprias ementas dos nossos restaurantes são demonstrativas do nosso receio da surpresa: mudam os locais, mas não mudam os menus. Se alguém, por acaso, tem um menu original, o português torce o nariz, aflito até à chegada do prato, porque “nunca provou e tem receio”. O drama do português é este. O povo português mata-se a fogo lento porque não consegue lidar com incertezas… e quando muda, não é de espantar, que mude inevitavelmente para alguém que o trata da mesma forma ou pior. É que ele – povo – estava mesmo a pedi-las. Ele não se valoriza, não sabe dizer “Agora chega! Se faz favor, tratem-me humanamente. Este foi o meu limite e ou me tratam bem ou sofrem as consequências.” Não senhor. O povo não tem qualquer consciência do seu poder, enquanto ferramenta absolutamente indispensável para que os governantes exerçam (e para que os aspirantes a governantes cheguem à cadeira). O povo julga-se absolutamente manobrado e manobrável. Portanto, encolhe os ombros e diz que não vale a pena, são todos assim, será sempre tudo uma desgraça e não vale sequer a pena votar… Mas não venha a pior, isso é que não.


O povo português vive também no terror do pior: se come comida de cão, queixa-se… mas ainda assim pensa que podia não ter sequer dinheiro para comprar ossos; se trabalha para um patrão mal formado, incompetente, arrogante e abusador, que nem sequer lhe paga a horas, queixa-se… mas pensa que podia nem sequer ter arranjado esse emprego porque conhece muita gente como ele que, apesar de ser qualificado, não consegue trabalhar; se espera um ano para ter uma consulta no Hospital, queixa-se… mas dá graças a Deus porque não tem cancro, que o podia ter morto nesse espaço de tempo. Não venha a pior.


Conhecem aquelas crianças que apanham pancadaria dos pais, mas quando são retiradas aos pais choram muito e dizem que não querem ir? Choram porque não têm mais ninguém no mundo. Não é difícil entender isto. Antes lidar com a violência que já conhecem, e, na sua inocência, julgam que aprendem a gerir, do que lidar com um vazio total num mundo tão grande. Pois esse é o retrato fiel, mutatis mutandis, do povo português.


 Tenho sempre vontade de rir quando me dizem que o português deu em anarca. Não senhor. O português quer um paizinho. Pode ser – e é tantas vezes – um pai abusador, que maltrata, mente e o faz sentir culpado do que não fez. Mas é alguém a quem obedecer, seguir, e, em última análise, depositar a nossa vida. O português não se emancipou. E vai seguindo, de pai adoptivo em pai adoptivo, de salvador em salvador, de D. Sebastião em D. Sebastião… é um povo onde o indivíduo per si não é capaz de responsabilidade porque foi educado na subserviência. A grande maioria das pessoas não se considera responsável por coisa alguma: tem pais ou patrões ou governantes ou desgovernantes que lhe impuseram um determinado estilo de vida. E, no entanto, serve-os com uma hipócrita fidelidade… por medo. Sem respeito e muito menos admiração. O medo é o triste conforto na qual repousa o português e do qual se orgulham, sem glória nem mérito, os que detém ou pretendem deter poder. É que Deus nos livre que isto venha a pior.