... "And now for something completely different" Monty Python

Thursday, June 16, 2011

O caminho Ziryad

Recordo-me do cheiro a jasmim que me inundava as narinas quando eu passava, apertando a mão de minha mãe, debaixo dos tornados de folhas que pendiam sobre o caminho de Ziryad, essa minúscula faixa de terra que vai do Boulevard Bougara ao Télémly numa sucessão de curvas tortuosas.

Poderoso e penetrante, o odor do jasmim inebriava-me e eu lutava, apesar das fortes imprecações de minha mãe que apressava o passo, vendo-me diminuir ou parar cada vez que passávamos sob o arco perfumado dessas deliciosas pequenas flores brancas. Quando ela, imprudente, me deixava a mão, eu saltava como um cabrito para agarrar uma das flores, e, por vezes, várias ao mesmo tempo. As suas pétalas, frágeis como borboletas, eram mantidas por mim na palma de uma mão, abrigando-as timidamente com a palma da minha outra mão, e assim formando uma espécie de concha que as protegia do mundo e, ao mesmo tempo, me invadia um pouco mais com o seu perfume.

No Verão, o caminho de Ziryad vestia-se com os seus mais belos trajes. Perfumado pelo jasmim, era também banhado por uma sombra voluptuosa que envolvia quem por lá passava, afastando-o do calor de chumbo que reinava fora desse local. De tempos a tempos, o silêncio era quebrado pelo zumbir de uma vespa ou pelo canto melodioso de um pintassilgo. Desde o início até ao fim, estávamos ali como numa ilha, abrigados da cidade que, a toda a volta, rugia furiosamente, protegidos desse seu barulho, das hordas de carros rolando em turbilhão, cuspindo o seu veneno nas calçadas demasiado estreitas e incendiando-nos as orelhas com as suas buzinas ensurdecedoras. Fazíamos este caminho duas vezes ao dia, pelo menos: de manhã, para ir até casa do tio Walid que morava na Rua Montgolfier, e à noite, para voltarmos para casa. De manhã, os traços da noite ainda tentavam desaparecer. O ar estava ainda fresco e as flores de jasmim, ainda cheias de gotas de água, metralhavam-nos de tristeza ao deixar cair as suas lágrimas nos nossos rostos. Os homens que se cruzavam connosco apressavam o passo para chegar ao seu trabalho no centro da cidade, e alguns deixavam atrás de si um cheiro misturado de delicioso e suave café e de bolos. A minha mãe seguia esta cadência matinal e eu não tinha outra escolha senão acelerar o passo, colocando-me na sua esteira. Não era o momento de preguiçar, de levantar a cabeça para os cachos de jasmim ou de jogar com as pedras como se fossem bolas de futebol! O meu tio, que fora marinheiro, não tolerava atrasos e nem a minha mãe nem eu queríamos afrontar a sua cólera, que seria certa caso a nossa pontualidade não fosse perfeita. Por isso, a manhã não era propícia a passeios. O caminho Zyriad, na sua frescura e humidade, não me parecia ainda livre das garras da noite hostil.

Ao fim da tarde, porém, passava-se exactamente o oposto. Era preciso subir em vez de descer, mas esta subida frequente e, na verdade, dolorosa das ruas em escadas de Alger, assumia um carácter de viagem agradável. Libertos dos constrangimentos do dia, do trabalho e suas obrigações, cada qual demorava o tempo que queria para chegar até ao fim da estrada e entrar em sua casa, como os barcos de pescadores que regressam ao seu porto à hora do crepúsculo. Todos em sintonia, marchando até com alegria, nós inspirávamos os odores, o do jasmim, sem dúvida, mas também todos os outros, os sedutores e até os culinários que se escapavam das casas adjacentes juntamente com os risos das mulheres. Um cheiro de cominho atravessava os muros altos e os ramos espessos para chegar até ali, à sombra do caminho Ziryad, misturar-se com os aromas da bolacha, das sardinhas grelhadas ou das cebolas fritas. Não sabíamos sequer para onde virar a cabeça, tantas eram as sensações das nossas papilas gustativas solicitadas por essa formidável avalanche de sabores doces e salgados que, tal como rios perfumados, traziam tudo o que a imaginação pode conter em pratos suculentos, juntando-se ao grande rio Ziryad onde navegávamos e do qual eu não queria mais sair.

Ainda hoje, o caminho de Ziryad representa, para mim, esse lugar de reclusão deliciosa onde adoro afundar-me entre os requintados cheiros do meu passado e as escuras cores que o habitam, onde sinto ainda a mão da minha mãe agarrando a minha enquanto, sobre as nossas cabeças, se derrama o maravilhoso perfume do jasmim.

 
N.B.: Este texto foi uma tradução que fiz de um original francês de Karim Amellal, para o suplemento de Imprensa da AIPA dedicado a África: "Cheiros de África".  

O Verdadeiro Problema do Acordo

Desde que Portugal resolveu falar “à brasileiro” que tenho lido muitos inflamados textos de académicos a protestar sobre o assunto, já para não falar nas petições. Mas parece-me a mim que toda a argumentação usada está a passar ao lado do verdadeiro cerne da questão que é - e só para citar alguns aspectos verdadeiramente relevantes - como vão os portugueses pedir comida, como vamos nós insultar ou elogiar o próximo, como vão os homens cortejar (à falta de melhor verbo…) as mulheres, e, last but not least, como vamos à casa de banho pública a partir do momento em que o acordo vigorar. Isto porque há uma série de expressões muito lusas que vão acabar por ir à vida.


Claro que algumas coisinhas já entraram, né? Olha eu dizendo né! Olha o dicionário pobre do computador em que muito Doutor confia que não me corrige quando eu escrevo “olha eu”...

Vamos supor que João, português e Leila, brasileira estão a falar de um filme e João diz que o filme era mesmo giro. Leila espanta-se: “giro?!”. É. O brasileiro não diz “giro”. Vamos, em breve, abolir “giro” das nossas conversações. Essa coisinha engraçada, fofa, interessante, bonita, elegante, com hipóteses de vir a ser outras coisas mais, que a palavra “giro” engloba vai desaparecer. Pessoalmente acho trágico. O “giro” vai passar a ser “bacana”, que, convenhamos, não é nem de perto nem de longe a mesma coisa. E que dizer do uso de “legal”, na acepção lusa da palavra? “Legal” para um português é uma coisa dura, de tribunais apenas. “Supimpa”? Quanto ao filme ser “fixe”, isso está definitivamente fora de causa. A Leila jamais perceberia. O “fixe” morre com o acordo.

Os famosos “bué” e “pá” têm os dias contados. Pois. Ah, brasileiro também não usa “pois” no início de cada frase (atenção congressistas!).

Se, noutra esfera, o João quiser dizer à Leila que ela é uma rapariga gira, que adjectivos lhe restam? Bonita? É demasiado forte. Bonitinha? Se Leila fosse portuguesa e fosse adjectivada de “bonitinha” ficaria com vontade de lhe atirar um copo de água com gelo à cara. Seria um adjectivo muito insuficiente. Piora um pouco se o João disser à Leila, sua amigalhaça, que ela é uma rapariga muito “porreira”. Leva um par de estalos logo ali. Eu cá nunca vi um brasileiro que não pensasse que uma palavra com um som desses não fosse um insulto (e quem os pode censurar?).

Lembrei-me agora que “estalos” é outra coisa que não (se) dá em brasileiro... Tinham de ser “tapas” mesmo. É.

E se a Leila for uma rapariga como eu, o João depressa há-de saber o que são “quitutes”, mas não lhe pode dizer que vai comprar “cacetes”, porque cacete em brasileiro também não dá pão.

Há algum tempo, ensinei português a estrangeiros e tinha duas assistentes, sendo uma brasileira e outra angolana. Isto era muito engraçado para os alunos mais avançados e muito complexo para os principiantes. Por exemplo: “A Eva diz bumbum. Em Portugal não se diz “bumbum”?” Claro que não, e só para complicar, os portugueses têm para o rabiosque palavras de foro científico, palavras de uso comum, diminutivos e até palavrões. “Mas não pode ser bumbum?” Não, essa não temos. Concordo que é mais fácil ser brasileiro. Um português a dizer “bumbum” com a sua pronúncia europeia é como se estivesse engasgado a falar de um doce. Não soa bem. É como dizer que o tal filme é “legal”. Não tem o ar bamboleante, leve e festivo da expressão em brasileiro; não pode. A pronúncia do português europeu – que é muito bonita mas com um escopo fonético muito mais abrangente - dá a certas palavras um ar de gravidade, um contexto demasiado sério. Por isso, exigimos um “giro”, um “fixe”, umas palavras airosas e com vogais agradáveis para desmistificar.

Noutros campos, sobretudo na categoria verbal, os brasileiros gostam genuinamente de inventar palavras (“deletar” como um de muitos exemplos). Os portugueses estão a querer imitá-los. Os brasileiros estão preocupados com coisas sérias como a corrupção e a fantasia que vão usar no Carnaval (já mencionei que os portugueses estão a querer imitá-los? Neste campo, também!) para se preocuparem com a gramática rígida e inventam alguns destes vocábulos que, de tão jeitosos, entram no uso comum.

E porque é que isto tudo, que é pouco ainda, faz sentido para os brasileiros mas não faz para nós?

Porque a variante de uma língua reflecte uma cultura e ninguém tem dúvidas que a cultura brasileira é diferente da portuguesa. Ou tem?

Como disse Mário Prata, escritor brasileiro que viveu em Portugal, “Se houvesse filólogos na época do império romano, não teríamos hoje nem o português, nem o italiano, nem o espanhol, nem o romeno. Os filólogos teriam unificado tudo. Todos falaríamos, até hoje, o latim. E, pior ainda, o latim clássico, já que os soldados esparramaram pelo mundo o vulgar.”

A quem interessa este acordo que estamos querendo implementar a não ser aos vendedores de dicionários? Meu deus, eu me pergunto.

Friday, June 10, 2011

Estados Unidos da Europa



É muito difícil explicar, hoje, o que é a União Europeia. Podemos socorrermo-nos de conceitos como “mercado global” e “moeda única”, mas temos de explicar que há quem esteja na União Europeia e não tenha adoptado o Euro, como o Reino Unido, e, paradoxalmente, há quem não esteja e o tenha adoptado, como Montenegro; podemos falar da “livre circulação de pessoas com a abolição do controle de passaporte entre os seus membros”, mas aí logo caímos no Espaço Schengen, que, ele sim, corresponde a esta frase e cujos 25 países membros não são os 27 países da UE; podemos ir buscar o conceito institucional de um conjunto de estados independentes supragovernados pelos vários órgãos da União, cujas decisões são sempre baseadas em negociações intergovernamentais, mas todos sabemos que as “políticas comuns” não podem nunca beneficiar todos e que países economicamente mais necessitados acabam por ceder em muito maior escala.


Talvez o mais seguro seja afastarmo-nos da governação e explicar a União Europeia pelos seus ideais. Mas aí teremos de explicar que a UE começou depois da II Guerra Mundial, com nobres intenções de criar uma federação da Europa para que não mais houvessem os perigos dos nacionalismos extremos que tanto tinham devastado o velho continente nos anos anteriores. Então damo-nos conta que estamos à beira de uma contradição, pois, invariavelmente, temos de explicar como é que esta UE tem hoje figuras de proa como Sarkozy e Merkel, cujas políticas de extremo nacionalismo roçam o indecoroso e porque é que quase todos os países da Europa se tornaram, nos últimos anos, defensores extremos de uma ideia de pátria que exclui estrangeiros, mudanças, flexibilidade e ideias progressistas, muito menos igualitárias.


Ian Buruma, Professor de Direitos Humanos, escreveu um livro sobre Religião e Democracia intitulado “Taming the Gods” onde expressa exactamente este falhanço europeu, que a América experimenta de outra forma. Buruma opina que a Europa liberal e tolerante está moribunda. Tal como vários mass media (Newsweek, Courrier International, Press Europe) têm noticiado, a Europa inteira está a virar à direita, mas essa viragem não é uma simples questão de pendor partidário; é, sobretudo, uma questão de mentalidade ajudada pela conjuntura. De facto, o sentimento de que existe uma crise económica cria todo um clima de insegurança e até de precariedade ou  fome. A última sondagem do Eurobarómetro mostrou que um número elevadíssimo de jovens europeus quer deixar os seus países porque “não encontra futuro” - só na vizinha Espanha, são 70% dos inquiridos.


Perante este quadro, havia que ser politicamente ousado sem deixar de ser popular. Por mais surpreendente que possa parecer, a esquerda europeia tem falhado relativamente à ousadia. De facto, segundo os analistas, a esquerda europeia tornou-se tão conservadora e tão esquecida dos ideais que professava, que é fácil interrogarmo-nos se não estamos perante a direita! Por seu lado, aproveitando-se do acobardamento de uma esquerda amedrontada que vai buscar ideias e pessoas à direita, a direita agigantou-se, como única alternativa possível, e tornou-se mais fresca e segura de si, apresentando figuras com estatuto de líder pela Europa fora e dizendo-se “conservadores progressistas”.


As pessoas estão confusas e com razão, pois, como bem salientam os analistas da política europeia, a ideologia morreu. Neste momento, o pragmatismo e o sentido de adaptação comandam as hostes. Se bem que estas duas qualidades são de louvar, a esclerose ideológica está repleta de perigos. Um deles é, sem dúvida, o regresso dos nacionalismos que já se começa a verificar, varrendo a Europa devagarinho, sem o aparato de outros tempos, mas com a força de pessoas bem falantes e bem posicionadas que garantem que os seus países só terão melhores economias se se limparem dos outsiders que tiram trabalho aos da terra e que inimigos da nação são todos aqueles cuja religião, costumes, língua, cor é diferente. A Europa incompatibiliza-se, pouco a pouco, entre si. Por enquanto, vai fazendo guerra aberta aos vizinhos que querem entrar na UE. Em breve, fará guerra aberta aos países mais pobres cujos jovens querem trabalhar nos mais ricos. Nos últimos meses, muitos discursos políticos apontam claramente nesse sentido. E até há movimentos na net - “We will not pay for Portugal, Greece, Ireland and Spain” - onde somos acusados de beber, fazer praia e dançar pela noite fora à custa dos verdadeiros trabalhadores da Europa.


No já ido ano de 2004, o Dr. Paulo Portas (então Ministro da Defesa Nacional) disse que não concordava com misturas de sangue. Dois anos depois, muitos portugueses foram expulsos do Canadá e o Governo português provou um bocadinho daquilo que também apregoara… Mas, convenientemente, já se tinha esquecido de que quem tem emigrantes também se sujeita a ter imigrantes. 


Monday, May 30, 2011

Literacia

Muito se tem escutado sobre estarmos perante uma das gerações mais qualificadas de sempre em Portugal. Eu própria exprimi a minha indignação sobre alguns pertencentes à minha geração - perfil lato sensu: 30 e poucos, grau académico de Mestrado ou Doutoramento, experiência profissional interessante e, nalguns casos, internacional – terem muita dificuldade para arranjar trabalho e, quando o têm, não raro serem penalizados por colegas ou chefes que, apesar de estarem em melhores condições de emprego, têm profundos sentimentos de insegurança.


No entanto, gostava hoje de explorar aqui outra face da moeda do momento actual. A ideia de termos uma geração ou, mais largamente, um país muito qualificado é uma generalização extremamente perigosa e conduz a uma falácia. De facto, quanto mais avançamos no Mundo Moderno, mais existe fragmentação a todos os níveis e, portanto, encontrar denominadores comuns a nível geracional começa a ser mais complicado do que era.

O facto é que, na minha geração e também nas outras que com a minha partilham hoje a vivência em Portugal, existe muita gente com graus académicos. Mas não é linear que todas essas pessoas tenham capacidade de investigação, comunicação, e até de pensamento autónomo e possuam um determinado nível de literacia.

Reparem que disse “capacidade” e não outra palavra. Evidentemente, ninguém espera que um grau académico forneça tudo – espera-se que dê ferramentas para que aquele que o obteve vá mais longe no seu próprio trilho de experiências, pois, essas sim, poderão ensinar-lhe infinitamente mais. Este desenvolvimento cabe a cada qual fazer, e assim deve ser. Se há dúvidas, basta pensar nos médicos – quando se sai de um curso de Medicina, sabem-se os princípios, mas é o dia a dia como médico que vai forjar o profissional.

No entanto, o que aqui está em causa é outra coisa: só deviam completar os graus, quaisquer que eles fossem, os que tivessem capacidade para tal. Cada vez menos, isto se verifica. Um “canudo”, nos dias que correm, não é garantia de trabalho… mas também não é garantia de um indivíduo preparado para tal.

Os professores são muito pressionados para darem melhores notas aos alunos, que devem “passar” a todo o custo. Não vou aqui dissecar os argumentos. Os poucos que me lêem já sabem que não concordo com nenhuma medida que tenha por fim premiar a mediocridade tal como não concordo com medidas que procurem rebaixar o êxito – pois o que se faz ao elevar quem não sabe é simultaneamente inflacionar aquele que sabe “mais ou menos” e até o que sabe um pouco mais, que acaba por ter 20 (dar nota máxima tornou-se hoje tão comum que dir-se-ia estarmos perante um “boom” de génios); ora, que nota se pode dar, então, ao aluno brilhante? Ficou, simplesmente, sem lugar na pauta existente e obrigado a ter a mesma nota que os intelectualmente menos dotados, isto é, o mesmo 20!

Quantos de nós já ouviram dizer que “x é sobredotado”? A palavra “sobredotado” está, hoje, tão vulgarizada e mal aplicada que, certamente, daqui a alguns anos, haverá um número relativamente simbólico de gente “sobredotada” no desemprego. Pior: serão pessoas muitíssimo amargas, pois tinham altas expectativas da vida.

Não quero de modo algum aqui subvalorizar as queixas válidas dos alunos – sim, é verdade: temos muitos professores incompetentes e mal formados dos pontos de vista académico e pedagógico, não se compreendendo, portanto, como se pode dizer “que ensinam”; lícito será antes dizer que “o seu emprego é serem professores”. Estes professores, do ensino primário ao universitário, perpetuam pela sua própria acção e (des)conhecimento, um ciclo que temos dificuldade em quebrar.

Escrevi isto a propósito de uma notícia do Expresso – “Melhor aluno do país entrou na faculdade sem terminar o liceu”. O Tomás desistiu da escola; mas agora com as “Novas Oportunidades” terminou-a em poucos meses e entrou na Universidade com uma média de 20 valores (valor de apenas um exame que fez) e é, deste modo, o aluno com a nota mais alta de candidatura ao ensino superior. Peço desculpa ao Tomás pela referência mas as circunstâncias tornaram-no num exemplo a calhar.

Com o sistema pós-Bolonha, em 4 anos alguém com este percurso será Mestre. Um pouco mais de ousadia e poderá decidir encomendar uma tese de Doutoramento a alguém que as escreva por dinheiro - coisa que está na moda nestes tempos de crise e há quem faça, sim! - e temos um Doutor. Assim é natural que, em Portugal, haja um grande salto na qualificação da população…

Saturday, May 28, 2011

Entrevista a Genuíno Madruga, autor de "O Mundo que Eu Vi"



“O Mundo que eu vi” da autoria do navegador Genuíno Madruga foi lançado a 20 de Maio num porto mítico para a navegação oceânica: o Peter Café Sport. Trata-se de um livro que resulta da evocação da sua primeira volta ao mundo iniciada em 2000, mas sobretudo do relato da segunda volta começada em 2007, viagens estas feitas a bordo de um veleiro, talvez profeticamente baptizado “Hemingway”. Obra essencialmente descritiva – para o que muito contribuem as dezenas de fotografias – de um homem pragmático, que aqui regista pormenores de navegação e de percurso, narra histórias de encontros e de vidas, comenta um mundo revelador que o surpreende e se surpreende com ele como acontece em todas as situações em que interagem diferentes culturas. Conjunto de memórias e de experiências de um périplo marítimo, este livro insere-se na chamada Literatura de Viagens, para a qual os portugueses tanto contribuíram desde os tempos idos das Descobertas. 


 Carla Cook – O que o levou a querer escrever “O Mundo que eu vi”? A necessidade de fazer um diário de viagem que ficasse para a posteridade ou a vontade de partilhar um pouco do que viveu com quem não pode partir à aventura?

Genuíno Madruga – Este é um projecto que já tem muitos anos. A primeira parte do livro foi escrita ainda à mão e nem pensava em computadores. Escrevia sobre coisas que vivia na pesca, sobre sítios que fui vendo, pessoas que fui conhecendo na época. Estamos a falar dos idos anos 60. Depois, surgiram as duas viagens. E também escrevi para dar resposta às muitas pessoas que me perguntavam “Então, Genuíno, e quando é que fazes um livro?”. Todas estas coisas somadas acabaram por resultar neste livro.

C.C. – A primeira parte do livro é a sua história, tem detalhes da vida do Genuíno, da sua família e do seu sonho. Até nesse sentido, é um livro pessoal e íntimo. Não sentiu receio de se expor demasiado? Afinal, um navegador solitário é, por definição, um homem recatado e ensimesmado.

G.M. – Não, não creio que se dê esse caso. Muitas das coisas que escrevi não são coisas assim tão pessoais quanto isso. Não escrevi nada que não possa ser do conhecimento geral. Haverá outros aspectos que não constam ali… Talvez um dia, pense em escrevê-los, mas para já não. Não sou escritor. O fundamental deste livro parece-me minimamente conseguido:  quis deixar um registo das coisas que vi, desde os primeiros tempos em que construí o meu primeiro barco. Este livro é isso mesmo.

C.C. – Há muitos mitos acerca de navegar em solitário. Diz-se que há momentos em que o deserto do mar pode ser difícil. Nessas alturas, um livro ajuda?

G.M. – No meu caso pessoal, posso dizer que, nessas alturas, as companhias que tive foram os livros que tinha a bordo, alguns que fui também adquirindo pelo caminho e outros de amigos, e as minhas músicas… Excepto alguma ave que, de vez em quando, procurasse o Hemingway. De resto, não havia mais nada. O mar, o céu, as estrelas de noite e o sol durante o dia, que, por vezes, escalda imenso… Mais nada. É preciso ter as ideias bem arrumadas para navegar sozinho!

C.C. – Aproveito para perguntar: um homem do mar que escreve um livro de viagens pretende alcançar que tipo de público – outros homens do mar, todo o tipo de gente com sede de aventura, pessoas interessadas em culturas diferentes… Que expectativas tem em termos de leitores?

G.M. – Creio que o livro, escrito por mim que não sou expert nas Letras, é acessível a qualquer um. Não é especialmente dirigido a ninguém. Embora me pareça, e não vejo nisso mal, que muitos dos meus companheiros do mar e da pesca possam efectivamente ter interesse nele e entender muito do que ali escrevi.

C.C. – Há partes muito curiosas no livro. Notei que encontrou açorianos em muitos dos sítios por onde passou. Aliás, a aventura da viagem começa exactamente pelo encontro de um faialense que mora em Cabo Verde. Corrobora a frase “os açorianos estão por todo o lado”?

G.M. – Sim, é mais ou menos verdade! É bom ter em conta que já Joshua Slocum na sua viagem em solitário à volta do mundo em meados do século XIX, passa pela Terra do Fogo e já relata aí um encontro com um açoriano. Passa também pelas Ilhas de Robinson Crusoé no Pacífico e relata um encontro que teve com um açoriano da Ilha de São Miguel, um tal Manuel Carroça que vivia naquela ilha com uma brasileira que tinha para lá levado do Rio de Janeiro. Estamos em 1880, mais ou menos. Esse açoriano era conhecido por “Rei” porque era o único naquelas ilhas que falava inglês. Ou seja, era um indivíduo que saíra dos Açores na altura da emigração baleeira e acabou por chegar àquela ilha perdida no Pacífico.
Na minha viagem, não tive qualquer oportunidade de ir a esta ilha, embora tivesse muita vontade. Passei sempre lá de noite… Aquilo é uma base chilena, portanto não somos autorizados a entrar nem a sair de noite.
Mas encontrei vários. Por exemplo, a família Silva e a família Pereira que vivem na Samoa Ocidental. Da parte da família Silva, soube pelo padre Silva, que o bisavô tinha vindo “das ilhas e que tinha andado numa baleeira”. À partida, seria oriundo daqui dos Açores.
Na África do Sul, tive o prazer de um dia, à tarde, ser visitado pelas duas únicas açorianas que lá vivem: Maria de São João, da Ilha de São Jorge, e Maria Romana, da Ilha Terceira.
Isto são exemplos. Como se sabe, antes da emigração para a América do Norte que começou com a baleação, houve um grande fluxo de emigração açoriana para o Brasil. No Brasil, ainda se podem ver muitos vestígios açorianos. Quando estive no município de Alcântara, no Estado do Maranhão, encontrei um doce chamado “espécies”!... Das duas uma: ou as nossas “espécies” vieram de lá… ou fomos nós que levámos para lá as “espécies”. Portanto, há também muitas marcas açorianas importantes por esse mundo fora.

C.C. – Há momentos em que encontra pessoas que já encontrara aquando da sua primeira viagem. Nota-se que essas experiências de reencontro, algumas com pessoas muito humildes, tiveram uma forte importância humana para si pelo destaque que lhes dá nesta sua obra.

G.M – Obviamente. Por exemplo, refiro um caso que envolve pescadores. A primeira vez que cheguei à Ilha de Rodriguez, cheguei sem mastro devido a ter passado por uma tempestade violenta no Índico. Tive a ajuda de pescadores locais e apanhámos um bambu para improvisar um mastro que me permitisse fazer mais mil e tal milhas. Pescadores e suas mulheres arranjaram velas, limparam, enfim… Trataram das coisas. Quando agora passei pela segunda vez na Ilha de Rodriguez, um deles – o Manuel – assim que soube que eu tinha chegado, veio logo trazer-me de prenda um grande saco de tomates.
Tive muitos momentos marcantes a nível humano nesta viagem… Uma família com quem criei um relacionamento mais próximo nas Ilhas Fiji, gente da África do Sul, outros das Marquesas,… de todo o lado. Também, na primeira viagem, fiz uma palestra para uma escola; na segunda, encontrei alguns dos miúdos e isso foi importante.

C.C. – Pessoalmente, creio que alguns dos momentos mais interessantes do livro estão no que poderíamos designar por “choque de culturas”. Recordo, por exemplo, a aguardente do Pico que deu a provar nas Ilhas Fiji e que tanta confusão causou. No fim de tudo isto, que lhe parece: as diferenças culturais deste mundo são inultrapassáveis?

G.M. – Não, não, cuidado! Todos falamos a mesma língua. Por exemplo, no mar. Quer se trate dos que andam em barcos altamente sofisticados quer se trate dos que andam nas canoas da Polinésia, todos os que andam no mar falam a mesma língua, apesar de falarem diferentes idiomas. Há coisas que todos entendem sem ser necessária muita explicação.
Claro que, nos dias que correm, põem-se situações muito complicadas às pessoas: cada vez há menos peixe - nos Açores e em todo o mundo -, cada vez há maiores dificuldades, cada vez há um maior fosso entre os maiores e os mais pequenos … É uma situação que vai explodir um dia destes, quando as pessoas estiverem demasiado encostadas à parede.


C.C. – O que foi mais difícil: dobrar o Cabo Horn… ou escrever este livro?

G.M. – Ah, são coisas completamente diferentes. Mas se navegar o Hemingway e passar o Cabo Horn, conseguir sair dali para fora, saber do vento, da neblina, do mau tempo, foi difícil… escrever o livro também teve situações complicadíssimas. Teve gritos e situações de vária ordem, até porque eu não estava habituado a escrever. Para além disso, houve vezes em que eu queria escrever uma coisa e a Beatriz entendia que ficava melhor outra. Mas o que importa, no fim de tudo, é que, com bom ou mau tempo, o Cabo Horn passou-se e o livro também se escreveu!

C.C. – Gostaria de transmitir mais alguma coisa acerca deste livro ou de outros projectos futuros?

G.M. – Há sempre projectos; o problema é haver meios para os concretizar.
O livro aí está – as pessoas agora podem ver muito daquilo que passei e, no fundo também, daquilo que sou. Outros tê-lo-iam escrito de outra forma; mas eu fiz uma coisa simples.
A primeira parte trata da minha vida mas não só. Trata também da vida e da faina da pesca naquela época, nos anos 60. Por muito difícil que a vida no mar hoje seja (e é evidente que é e que muitas coisas têm mesmo de tomar outro rumo), essa vida não tem comparação com aquilo que era nesses tempos. Os próprios pescadores não têm nada a ver com aquilo que eram nessa altura. Naquele tempo, a maior parte dos pescadores eram analfabetos. Ser um pescador ou um homem do mar não era um desejo de muita gente; os pais não queriam isso para os filhos. Eu tive muitas dificuldades para andar no mar, porque isso era considerado uma desonra para a família e uma condenação à miséria, talvez até à fome. Isto que acontecia naquela altura não tem rigorosamente nada a ver com o que é a pesca hoje em dia. Há dificuldades, sim. Mas temos outras condições e formas de ultrapassar as coisas más.
Considero que a pesca e, acima de tudo, o mar são muito importantes para a economia e para o desenvolvimento destas ilhas. Vivemos numa situação de privilégio: dum lado, a Europa, do outro, as Américas do Norte e do Sul – isto não está a ser devidamente explorado. Temos uma água limpa. É certo que temos maus invernos, mas os verões são bons. E temos paz e segurança numa área enorme de mar que tem de ser tratada pelos açorianos e não por gente de fora. Se os açorianos não o fizerem, vão vir pessoas que o farão…


Friday, May 27, 2011

Pedras Negras de Dias de Melo

Pedras Negras, assumidamente parte de uma trilogia que inclui também os romances Mar Rubro e Mar p’la Proa, é o livro mais emblemático de Dias de Melo, estando traduzido para inglês e japonês. Publicado em 1964, o romance é bem o retrato de um mundo pequenino de janelas abertas para o mar, cuja história salgada e escura é surpreendentemente elevada ao universal pelos seus contornos trágicos. A baleação e todo o seu aparato dramático ocupam lugar central. O protagonista é Francisco Marroco, cujas dificuldades são grandes em encaixar-se naquele mundo(inho) pesado, injusto, ganancioso e mesquinho, dividido ao meio para poderosos e trabalhadores, com pesos diferentes para ambos. Também aqui se aborda a sempre eterna porque sempre actual problemática da emigração do ilhéu que vê a América como uma namorada caprichosa, que ora lhe dá carinho ora lhe mostra as unhas. Depois, os retornos a casa, os ajustes de contas, as vítimas que passam a algozes, as rebeldias que têm de ser castigadas numa realidade que não suporta e inveja novidades. O tempo como senhor dominante, fazendo e desfazendo, em ciclos que não se quebram.


O “homem do cachimbo” nasceu na Calheta do Nesquim da Ilha do Pico em 1925, morrendo em S. Miguel – na cidade onde viveu grande parte da sua vida - em 2008.  Professor em Ponta Delgada, exerceu a profissão também em Lisboa, para onde foi obrigado a “exilar-se” aquando da perseguição que lhe foi feita antes do 25 de Abril. Nessa sua estadia, colaborou assiduamente com o Diário de Notícias. Foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente Mário Soares. É unanimemente considerado o escritor da faina baleeira, motivo maior das suas obras numa carreira literária de meio século.



Thursday, May 19, 2011

Os Silos do Silêncio de Eduíno de Jesus

Esta antologia pessoal reúne as poesias mais emblemáticas do autor de 1948 a 2004 – meio século de poesia que passeou por tão diferentes caminhos e temáticas que julgamos, por vezes, estar perante diferentes autores. Por isto mesmo, é difícil etiquetar a obra. Na busca de contextualizações, notam-se influências maiores como a do concretismo e a do simbolismo, com alguns traços românticos. Mais fácil é dizer que o autor segue o caminho multifacetado e caleidoscópico da Modernidade.


Redutor também é falar-se de uma obra tematicamente centrífuga, numa poesia que tanto explora, e com o mesmo à vontade na pena e no sentir, a metafísica como o quotidiano nas suas múltiplas vertentes e, entre estes dois pólos, as artes.

Obra não completa de um autor que continua a surpreender, mas, seguramente, condensado mimo poético coligido pelo próprio e com direito a Inéditos. A perspicácia do leitor exige-se.





Eduíno de Jesus nasceu em S. Miguel em 1928. Foi docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, mais tarde (entre 1979 e 2000), regente da cadeira de Teoria de Literatura na Universidade Nova da mesma cidade. Foi um dos directores da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura da Verbo e ainda colaborador da Enciclopédia de Leitura Biblos e do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Embora a sua obra seja mais profícua e conhecida no campo poético, não se limita a este, tendo igualmente publicado artigos, crónicas, contos e drama. Polímata activo, escreve continuamente sobre vários assuntos. É conhecida a sua actividade dinâmica enquanto Presidente da Casa dos Açores em Lisboa entre 2003 e 2009, que lhe valeu o merecido epíteto em livro publicado pelo IAC de “Eduíno de Jesus - A Ca(u)sa dos Açores em Lisboa”.