... "And now for something completely different" Monty Python

Tuesday, July 26, 2011

O que foi isso de "Açoriando"?

Depois de uma temporada a coordenar esta página e a fazer essa rubrica de nome duvidoso, resolvi que era mesmo melhor responder a esta pergunta que, a princípio, foi sussurrada e depois chegou-me por todos os lados (norte, sul, este, oeste, esquerda, direita e, naturalmente, centro que é quem manda e - como é do conhecimento geral - quem manda quer saber).

Em Setembro de 2010, estávamos a pensar que rubrica nova se havia de introduzir na página de Literatura… Porque é que não ficou tudo como estava? Bem, isso é a pergunta que se faz acerca de quase tudo, porque, como já dizia Mignon McLaughlin no Neurotic’s Notebook, toda a sociedade honra sempre os seus conformistas vivos e os seus não-conformistas mortos. Portanto, arriscando essa imensa glória que é ser conhecido numa cidade com 9.000 habitantes – digamos que é menos de metade do que o número de alunos da Universidade de Coimbra, mas isso não interessa nada… - , decidimos mudar as coisas. Só um bocadinho, claro está, não fossemos ficar honrados (isto é, mortos) muito rapidamente.

Disseram-me, então, que o Fazendo tinha inicialmente sido pensado para dar destaque às coisas desta terra. Que rubrica literária melhor eu podia arranjar para dar destaque às coisas da terra do que uma rubrica onde se destacassem autores açorianos? Pareceu-me ideal (não muito genial, porque era realmente óbvio, mas ideal na mesma… Mais ou menos como o ovo de Colombo). Mas se optasse por apenas destacar autores, a coisa ficava tipo Enciclopédia Bibliográfica, o que, convenhamos, era um bocado limitativo. Então, se calhar, o melhor mesmo era destacar um livro de um autor açoriano. No entanto, se me ficasse só por aí, corria o sério risco de poucos saberem de que escritor se tratava. Sim, porque não é linear que os habitantes dos Açores conheçam assim tão bem os autores açorianos (já por esta altura os queridos leitores me atiraram a sétima pedra, estando eu, portanto, na mesma situação que as mulheres do Médio Oriente apedrejadas pelos seus pecados…)

Assim nasceu o Açoriando. O nome foi um gerúndio inventado para combinar com Fazendo. Convido todos os puristas da língua a escreverem e-mails sentidos sobre esta questão fulcral: não devia ser “Açoreando”? Teriam os senhores muita razão, caso houvesse um verbo “Açorear”, devia sim senhor. Condicionalmente falando, claro, pois creio que a única coisa que existe de parecido é “assorear” que é, como sabemos, - agora que somos todos, mas mesmo todos nestas nossas ilhas, especialistas do domínio marítimo – outra coisa completamente diferente (oitava pedra).

O Açoriando falou de livros de autores açorianos e desses mesmos autores. Não muito para não irritar, claro. Ainda nos acusavam de estarmos a dar ideias ou, infinitamente pior, de sabermos alguma coisa sobre o que andámos a dizer.

PS: Para ser autor açoriano, um livro de poemas com duas linhas cada um, edição de autor, não nos chegava… às vezes, somos assim antiquados. Gostamos de ler coisas que tenham o mínimo de “suminho” (nona pedra e cai).

Friday, July 22, 2011

Escrever Bem Não Resolve Úlceras

Há alguns dias atrás, num almoço com amigos, comentámos a seguinte notícia que saiu no jornal Público sobre os exames do 12º ano: “Média negativa a Português foi o pior resultado em 14 anos de exames”. Segundo o Gabinete de Avaliação Educacional e a Presidente da Associação de Professores de Português, o problema foi a parte da prova relativa ao funcionamento da língua. Respiremos todos de alívio. Nada de especial, portanto. Num exame de língua portuguesa, passaria pela cabeça de alguém que fosse realmente importante avaliar os aspectos que dizem respeito à gramática? Se os alunos souberem identificar géneros literários e interpretar um texto, já estamos bem. No entanto, parece que isso também não correu sobre rodas. O texto de Álvaro de Campos baralhou um pouco os jovens, que não o perceberam e confundiram significados de palavras. Seriam complexas? Não, eram de uso diário, e.g. “sentimentos” versus “sensações”. Isto apesar do dito poema até ter sido retirado do livro em uso no 12º ano, para facilitar. Seria esperar demais que fossem analisar um texto que nunca tivessem visto?…


A Presidente da APP e o GAE desdramatizam: “Houve uma alteração na tipologia de itens relativos ao funcionamento da língua que traduzem um acréscimo de exigência neste domínio particular de aprendizagem da língua materna”, isto é (desdobrando para linguagem corrente) “Nos exames anteriores não foram colocadas questões destas e os alunos estavam um bocado esquecidos. Já não sabiam identificar um complemento directo ou um sujeito”. Mesmo passando por cima do facto dos senhores considerarem os alunos como se eles fossem atrasados, opinando que os exames têm sempre de ter as mesmas questões e os mesmos textos (senão, os alunos já não conseguem raciocinar para responder), subsiste a questão: como é que se admite que alguém termine o 12º ano sem saber identificar o sujeito de uma frase? E, quiçá, ir frequentar uma Licenciatura em Línguas nessas condições?

Curiosamente, os meus amigos – que não são professores nem são das Ciências Humanas - não ficaram muito chocados e até opinaram que não é necessário saber qual é o sujeito e o predicado de uma frase para saber escrever. No entanto, se eu lhes tivesse dito que os alunos do 12º ano de Biologia tinham errado os locais onde ficam o estômago e o cérebro mas estavam preparados para frequentar o primeiro ano do curso de Medicina, teriam arrancado os cabelos e temido pela vida das gerações futuras! Eu até concordo que dominar bem uma língua não nos traz necessariamente saúde e que a Medicina é a ciência do futuro (nalguns dias, opino mesmo que seja o ramo da Psiquiatria…) mas creio firmemente que desvalorizar uma língua e a sua escrita é, implicitamente, desvalorizar toda uma cultura e, com ela, tudo o que uma civilização produz, desde as artes às ciências. O primeiro património de um povo e dos poucos que uma guerra não consegue destruir é a sua língua. Como é possível que a tenhamos desprezado tanto e baixado a fasquia da exigência ao ponto de, verdadeiramente, não a ensinar?

Isto não acontece apenas no domínio da Língua Portuguesa, como bem sabemos. Tenho uma familiar muito próxima que obteve recentemente um grau de Mestrado não só sem ter feito uma tese mas sem nunca ter cumprido a parte curricular do mesmo. Como a própria admite, “beneficiou de uma injustiça circunstancial”. Isto leva-nos, a partir de agora, a perguntar, com justa causa e sem ironia, se é possível encomendar graus como se encomendam pizzas?!...

É importante escrever bem? Sim, até do ponto de vista económico. Uma reportagem recente da BBC revelou que a escrita com falhas custa milhões (sem exagero!) às empresas de vendas. Reportam, por exemplo, que os clientes perdem imediatamente o interesse quando denotam erros de escrita nas páginas web e restante material promocional.

Estamos a formar mal as novas gerações? Sim. O grau de exigência é tão pouco que se dão notas elevadas na disciplina de Português a muitos alunos que escrevem “axim” como se estivessem a enviar SMS. E, como disse outra reportagem, acabam por escrever “axim” nos seus Curricula Vitae… E, do seu ponto de vista, têm razão porque ninguém lhes disse nada em contrário!

Além disso, há que ter em conta que, ao formar uma geração, se está a formar implicitamente os mentores da geração seguinte. Que ninguém tenha a coragem de vir dizer depois que os seus netos “não sabem nada!” quando não chegou a ensinar os seus filhos… Para inverter a actual situação, temos de ter a coragem de ser exigentes quando é de ensino e avaliação que se trata. É o futuro que está em causa.

Friday, July 8, 2011

Viver é Escolher

Uma das questões que mais tem preocupado as pessoas ao longo dos tempos é a da liberdade de escolha – se existe ou não, quanta temos tendo em conta as restrições conjunturais e se a andamos a “usar” de modo que a nossa vida seja a melhor possível. Na sociedade ocidental industrializada, é dogmático pensar-se na liberdade de escolha como um valor essencial à felicidade do indivíduo numa escala proporcional, isto é, quanto maiores forem as possibilidades de escolha e menores as limitações do indivíduo para escolher de entre estas, maior será a sua possibilidade de se sentir feliz. Dificilmente encontraremos alguém que discorde desta proposição.


Mas será realmente assim? Barry Schwartz, psicólogo americano cujas palestras disponíveis na internet bem como a sua coluna de opinião são famosas, escreveu The Paradox of Choice. Segundo Schwartz, que contraria a opinião institucionalizada, a enorme abundância de escolhas que o mundo actual nos oferece torna-nos relutantes na tomada de decisões, pensativos após decidirmos, e, em última análise, mais infelizes.

Schwartz aponta exemplos de decisões diárias cujas consequências são praticamente irrelevantes para o nosso futuro, como que molho escolher para o almoço de entre os vários disponíveis no stand de saladas ou que par de jeans comprar de entre as muitíssimas e confusas variedades que hoje nos oferecem as lojas de pronto a vestir (já para não falar na dificuldade que é encontrar um telemóvel que, pura e simplesmente, sirva para telefonar e não venha com mil e quinhentos acessórios de entre os quais somos obrigados a escolher…). De facto, se pensarmos bem, toda a nossa vida é composta de decisões, mais ou menos importantes.

Existem, claro, decisões bem mais complexas e cujas consequências podem ser definidoras de um percurso de vida: casar ou não? Casar agora ou deixar para mais tarde? Investir numa carreira ao invés de numa vida íntima plena? Investir primeiro na carreira e depois na intimidade? Ter filhos ou não? Esperar para os ter? Até quando? E tê-los com quem? Estará essa pessoa inclinada a fazer as mesmas decisões que nós? Onde será mais adequado viver? Nos dias que correm, até podemos escolher a nossa nacionalidade, dentro de certas limitações. Schwartz, professor no Swarthmore College, diz que recomenda muito menos trabalho aos seus alunos hoje em dia, não porque tenha alunos menos inteligentes mas porque as gerações actuais passam cada vez mais tempo dilaceradas por dúvidas profundas e legítimas que não assaltavam as gerações anteriores.

Isto acontece porque a nossa sociedade actual oferece um leque muito variado de opções, o que acarreta um esforço bastante acrescido para chegar à tomada de decisão. Não se trata apenas de ter mais dificuldade em decidir; as pessoas querem fazer “a decisão certa”, pois o elevado número de alternativas possíveis conduz a uma situação psicologicamente penosa: o elevar de expectativas de tal modo que se chega a acreditar que, de entre tantas possibilidades, uma há-de haver que seja perfeita.

Expectativas demasiado elevadas só têm um fim correspondente qualquer que seja a escolha - desapontamento. Na realidade, é quase impossível que o mundo tal qual ele é vá corresponder à nossa imaginação delirante e influenciada pelo marketing (quer falemos de jeans ou do príncipe encantado).

Tristemente, a desilusão não é ainda o fim deste processo. As pessoas acabam por se culpabilizar por aquilo que, a posteriori, consideram ter sido a sua má escolha. Como é que não foram suficientemente espertas ou não passaram tempo suficiente a analisar todas as hipóteses?!… Afinal, escolheram algo absolutamente inadequado: uns jeans que magoam, um marido que se revelou tão diferente da inicial perspectiva encantadora… E a culpa de quem escolhe, fruto da sua responsabilidade, marca como a dor do erro.

Schwartz acredita em dois segredos fundamentais para bem viver: primeiro, ter expectativas baixas; segundo, manter o máximo de opções em aberto, fazendo escolhas pouco limitativas. Como dizia certo professor de Ética que muito admiro, “evita o que te encerra e o que te enterra”. Isto reduz a possibilidade de ficarmos a braços com o custo psicológico de decisões irreversíveis.

O paradoxo da escolha num mundo de hipóteses mil é este: a infinidade de possibilidades conduz à paralisia na acção. Pensamos continuamente se faremos o melhor e, logo, não agimos. Finalmente, dado o salto, interrogamo-nos se o melhor não está ainda por aparecer ou não nos passou ao lado. Vivemos exaustos à beira da multiplicação do livre arbítrio.

Parafraseando Schwartz, ter liberdade é melhor do que não ter, mas um número demasiado grande de escolha como a abundância que a nossa sociedade apresenta só traz infelicidade. Ninguém quer viver dentro de quatro paredes… mas ter alguma noção de limite é essencial para o bem-estar. Eu só não sei qual é o limite certo e Schwartz também anda à procura dele.

Wednesday, July 6, 2011

Almas Cativas e Poemas Dispersos de Roberto de Mesquita

A primeira vez que “Almas Cativas” foi editado, em 1931, já o seu autor falecera. Essa edição de parcos exemplares não chamou a atenção até que, oitos anos depois, Vitorino Nemésio escreveu sobre ela, considerando que a poesia de Roberto de Mesquita era o que de mais profundamente simbolizava o sentir açoriano. Depois desta primeira análise, os mais conhecidos críticos da Literatura Portuguesa interessaram-se pelo livro único, vendo em Roberto de Mesquita a expressão do Simbolismo – a descrição saudosa, o pessimismo reflexivo, um sentimento de abandono, a animização da Natureza, o spleen envolto em mágoa e, sobretudo, o isolamento. O próprio Nemésio voltaria, mais tarde, a concentrar-se neste último aspecto num ensaio hoje quase mítico sobre a poesia de Roberto de Mesquita, onde o eleva à mais pura expressão do íntimo da açorianidade. É o isolamento que define a condição de ser açoriano; nesta e por esta circunstância, todo o seu íntimo se torna ilha, à semelhança do exterior que o rodeia.




Roberto de Mesquita (1871-1923) nasceu e morreu em Santa Cruz das Flores, já de si um local isolado. Foi o último filho do segundo casamento do seu pai e, como tal, viu logradas as hipóteses de prosseguir estudos, apesar do pai pertencer à baixa aristocracia. Só saiu dos Açores uma única vez na vida (em 1904), para visitar o irmão, que era professor em Coimbra e Viseu. Exerceu cargos de funcionário público em algumas das ilhas dos Açores e tinha ligações ao Partido Republicano. A sua carreira regular foi abalada por um escândalo de dívidas familiares. Profundamente abalado pela morte da mãe, mais sentiu acentuar-se o seu carácter melancólico e reservado. Rompeu o noivado com o seu amor de sempre (que, no entanto, não deixou de amar) e fez um casamento de conveniência que manteve por ser de bom tom com uma senhora de quem sempre se sentiu distante. Diz-se que morreu atacado de delírios e que ainda recitava versos no seu último estado febril.

Thursday, June 16, 2011

O caminho Ziryad

Recordo-me do cheiro a jasmim que me inundava as narinas quando eu passava, apertando a mão de minha mãe, debaixo dos tornados de folhas que pendiam sobre o caminho de Ziryad, essa minúscula faixa de terra que vai do Boulevard Bougara ao Télémly numa sucessão de curvas tortuosas.

Poderoso e penetrante, o odor do jasmim inebriava-me e eu lutava, apesar das fortes imprecações de minha mãe que apressava o passo, vendo-me diminuir ou parar cada vez que passávamos sob o arco perfumado dessas deliciosas pequenas flores brancas. Quando ela, imprudente, me deixava a mão, eu saltava como um cabrito para agarrar uma das flores, e, por vezes, várias ao mesmo tempo. As suas pétalas, frágeis como borboletas, eram mantidas por mim na palma de uma mão, abrigando-as timidamente com a palma da minha outra mão, e assim formando uma espécie de concha que as protegia do mundo e, ao mesmo tempo, me invadia um pouco mais com o seu perfume.

No Verão, o caminho de Ziryad vestia-se com os seus mais belos trajes. Perfumado pelo jasmim, era também banhado por uma sombra voluptuosa que envolvia quem por lá passava, afastando-o do calor de chumbo que reinava fora desse local. De tempos a tempos, o silêncio era quebrado pelo zumbir de uma vespa ou pelo canto melodioso de um pintassilgo. Desde o início até ao fim, estávamos ali como numa ilha, abrigados da cidade que, a toda a volta, rugia furiosamente, protegidos desse seu barulho, das hordas de carros rolando em turbilhão, cuspindo o seu veneno nas calçadas demasiado estreitas e incendiando-nos as orelhas com as suas buzinas ensurdecedoras. Fazíamos este caminho duas vezes ao dia, pelo menos: de manhã, para ir até casa do tio Walid que morava na Rua Montgolfier, e à noite, para voltarmos para casa. De manhã, os traços da noite ainda tentavam desaparecer. O ar estava ainda fresco e as flores de jasmim, ainda cheias de gotas de água, metralhavam-nos de tristeza ao deixar cair as suas lágrimas nos nossos rostos. Os homens que se cruzavam connosco apressavam o passo para chegar ao seu trabalho no centro da cidade, e alguns deixavam atrás de si um cheiro misturado de delicioso e suave café e de bolos. A minha mãe seguia esta cadência matinal e eu não tinha outra escolha senão acelerar o passo, colocando-me na sua esteira. Não era o momento de preguiçar, de levantar a cabeça para os cachos de jasmim ou de jogar com as pedras como se fossem bolas de futebol! O meu tio, que fora marinheiro, não tolerava atrasos e nem a minha mãe nem eu queríamos afrontar a sua cólera, que seria certa caso a nossa pontualidade não fosse perfeita. Por isso, a manhã não era propícia a passeios. O caminho Zyriad, na sua frescura e humidade, não me parecia ainda livre das garras da noite hostil.

Ao fim da tarde, porém, passava-se exactamente o oposto. Era preciso subir em vez de descer, mas esta subida frequente e, na verdade, dolorosa das ruas em escadas de Alger, assumia um carácter de viagem agradável. Libertos dos constrangimentos do dia, do trabalho e suas obrigações, cada qual demorava o tempo que queria para chegar até ao fim da estrada e entrar em sua casa, como os barcos de pescadores que regressam ao seu porto à hora do crepúsculo. Todos em sintonia, marchando até com alegria, nós inspirávamos os odores, o do jasmim, sem dúvida, mas também todos os outros, os sedutores e até os culinários que se escapavam das casas adjacentes juntamente com os risos das mulheres. Um cheiro de cominho atravessava os muros altos e os ramos espessos para chegar até ali, à sombra do caminho Ziryad, misturar-se com os aromas da bolacha, das sardinhas grelhadas ou das cebolas fritas. Não sabíamos sequer para onde virar a cabeça, tantas eram as sensações das nossas papilas gustativas solicitadas por essa formidável avalanche de sabores doces e salgados que, tal como rios perfumados, traziam tudo o que a imaginação pode conter em pratos suculentos, juntando-se ao grande rio Ziryad onde navegávamos e do qual eu não queria mais sair.

Ainda hoje, o caminho de Ziryad representa, para mim, esse lugar de reclusão deliciosa onde adoro afundar-me entre os requintados cheiros do meu passado e as escuras cores que o habitam, onde sinto ainda a mão da minha mãe agarrando a minha enquanto, sobre as nossas cabeças, se derrama o maravilhoso perfume do jasmim.

 
N.B.: Este texto foi uma tradução que fiz de um original francês de Karim Amellal, para o suplemento de Imprensa da AIPA dedicado a África: "Cheiros de África".  

O Verdadeiro Problema do Acordo

Desde que Portugal resolveu falar “à brasileiro” que tenho lido muitos inflamados textos de académicos a protestar sobre o assunto, já para não falar nas petições. Mas parece-me a mim que toda a argumentação usada está a passar ao lado do verdadeiro cerne da questão que é - e só para citar alguns aspectos verdadeiramente relevantes - como vão os portugueses pedir comida, como vamos nós insultar ou elogiar o próximo, como vão os homens cortejar (à falta de melhor verbo…) as mulheres, e, last but not least, como vamos à casa de banho pública a partir do momento em que o acordo vigorar. Isto porque há uma série de expressões muito lusas que vão acabar por ir à vida.


Claro que algumas coisinhas já entraram, né? Olha eu dizendo né! Olha o dicionário pobre do computador em que muito Doutor confia que não me corrige quando eu escrevo “olha eu”...

Vamos supor que João, português e Leila, brasileira estão a falar de um filme e João diz que o filme era mesmo giro. Leila espanta-se: “giro?!”. É. O brasileiro não diz “giro”. Vamos, em breve, abolir “giro” das nossas conversações. Essa coisinha engraçada, fofa, interessante, bonita, elegante, com hipóteses de vir a ser outras coisas mais, que a palavra “giro” engloba vai desaparecer. Pessoalmente acho trágico. O “giro” vai passar a ser “bacana”, que, convenhamos, não é nem de perto nem de longe a mesma coisa. E que dizer do uso de “legal”, na acepção lusa da palavra? “Legal” para um português é uma coisa dura, de tribunais apenas. “Supimpa”? Quanto ao filme ser “fixe”, isso está definitivamente fora de causa. A Leila jamais perceberia. O “fixe” morre com o acordo.

Os famosos “bué” e “pá” têm os dias contados. Pois. Ah, brasileiro também não usa “pois” no início de cada frase (atenção congressistas!).

Se, noutra esfera, o João quiser dizer à Leila que ela é uma rapariga gira, que adjectivos lhe restam? Bonita? É demasiado forte. Bonitinha? Se Leila fosse portuguesa e fosse adjectivada de “bonitinha” ficaria com vontade de lhe atirar um copo de água com gelo à cara. Seria um adjectivo muito insuficiente. Piora um pouco se o João disser à Leila, sua amigalhaça, que ela é uma rapariga muito “porreira”. Leva um par de estalos logo ali. Eu cá nunca vi um brasileiro que não pensasse que uma palavra com um som desses não fosse um insulto (e quem os pode censurar?).

Lembrei-me agora que “estalos” é outra coisa que não (se) dá em brasileiro... Tinham de ser “tapas” mesmo. É.

E se a Leila for uma rapariga como eu, o João depressa há-de saber o que são “quitutes”, mas não lhe pode dizer que vai comprar “cacetes”, porque cacete em brasileiro também não dá pão.

Há algum tempo, ensinei português a estrangeiros e tinha duas assistentes, sendo uma brasileira e outra angolana. Isto era muito engraçado para os alunos mais avançados e muito complexo para os principiantes. Por exemplo: “A Eva diz bumbum. Em Portugal não se diz “bumbum”?” Claro que não, e só para complicar, os portugueses têm para o rabiosque palavras de foro científico, palavras de uso comum, diminutivos e até palavrões. “Mas não pode ser bumbum?” Não, essa não temos. Concordo que é mais fácil ser brasileiro. Um português a dizer “bumbum” com a sua pronúncia europeia é como se estivesse engasgado a falar de um doce. Não soa bem. É como dizer que o tal filme é “legal”. Não tem o ar bamboleante, leve e festivo da expressão em brasileiro; não pode. A pronúncia do português europeu – que é muito bonita mas com um escopo fonético muito mais abrangente - dá a certas palavras um ar de gravidade, um contexto demasiado sério. Por isso, exigimos um “giro”, um “fixe”, umas palavras airosas e com vogais agradáveis para desmistificar.

Noutros campos, sobretudo na categoria verbal, os brasileiros gostam genuinamente de inventar palavras (“deletar” como um de muitos exemplos). Os portugueses estão a querer imitá-los. Os brasileiros estão preocupados com coisas sérias como a corrupção e a fantasia que vão usar no Carnaval (já mencionei que os portugueses estão a querer imitá-los? Neste campo, também!) para se preocuparem com a gramática rígida e inventam alguns destes vocábulos que, de tão jeitosos, entram no uso comum.

E porque é que isto tudo, que é pouco ainda, faz sentido para os brasileiros mas não faz para nós?

Porque a variante de uma língua reflecte uma cultura e ninguém tem dúvidas que a cultura brasileira é diferente da portuguesa. Ou tem?

Como disse Mário Prata, escritor brasileiro que viveu em Portugal, “Se houvesse filólogos na época do império romano, não teríamos hoje nem o português, nem o italiano, nem o espanhol, nem o romeno. Os filólogos teriam unificado tudo. Todos falaríamos, até hoje, o latim. E, pior ainda, o latim clássico, já que os soldados esparramaram pelo mundo o vulgar.”

A quem interessa este acordo que estamos querendo implementar a não ser aos vendedores de dicionários? Meu deus, eu me pergunto.

Friday, June 10, 2011

Estados Unidos da Europa



É muito difícil explicar, hoje, o que é a União Europeia. Podemos socorrermo-nos de conceitos como “mercado global” e “moeda única”, mas temos de explicar que há quem esteja na União Europeia e não tenha adoptado o Euro, como o Reino Unido, e, paradoxalmente, há quem não esteja e o tenha adoptado, como Montenegro; podemos falar da “livre circulação de pessoas com a abolição do controle de passaporte entre os seus membros”, mas aí logo caímos no Espaço Schengen, que, ele sim, corresponde a esta frase e cujos 25 países membros não são os 27 países da UE; podemos ir buscar o conceito institucional de um conjunto de estados independentes supragovernados pelos vários órgãos da União, cujas decisões são sempre baseadas em negociações intergovernamentais, mas todos sabemos que as “políticas comuns” não podem nunca beneficiar todos e que países economicamente mais necessitados acabam por ceder em muito maior escala.


Talvez o mais seguro seja afastarmo-nos da governação e explicar a União Europeia pelos seus ideais. Mas aí teremos de explicar que a UE começou depois da II Guerra Mundial, com nobres intenções de criar uma federação da Europa para que não mais houvessem os perigos dos nacionalismos extremos que tanto tinham devastado o velho continente nos anos anteriores. Então damo-nos conta que estamos à beira de uma contradição, pois, invariavelmente, temos de explicar como é que esta UE tem hoje figuras de proa como Sarkozy e Merkel, cujas políticas de extremo nacionalismo roçam o indecoroso e porque é que quase todos os países da Europa se tornaram, nos últimos anos, defensores extremos de uma ideia de pátria que exclui estrangeiros, mudanças, flexibilidade e ideias progressistas, muito menos igualitárias.


Ian Buruma, Professor de Direitos Humanos, escreveu um livro sobre Religião e Democracia intitulado “Taming the Gods” onde expressa exactamente este falhanço europeu, que a América experimenta de outra forma. Buruma opina que a Europa liberal e tolerante está moribunda. Tal como vários mass media (Newsweek, Courrier International, Press Europe) têm noticiado, a Europa inteira está a virar à direita, mas essa viragem não é uma simples questão de pendor partidário; é, sobretudo, uma questão de mentalidade ajudada pela conjuntura. De facto, o sentimento de que existe uma crise económica cria todo um clima de insegurança e até de precariedade ou  fome. A última sondagem do Eurobarómetro mostrou que um número elevadíssimo de jovens europeus quer deixar os seus países porque “não encontra futuro” - só na vizinha Espanha, são 70% dos inquiridos.


Perante este quadro, havia que ser politicamente ousado sem deixar de ser popular. Por mais surpreendente que possa parecer, a esquerda europeia tem falhado relativamente à ousadia. De facto, segundo os analistas, a esquerda europeia tornou-se tão conservadora e tão esquecida dos ideais que professava, que é fácil interrogarmo-nos se não estamos perante a direita! Por seu lado, aproveitando-se do acobardamento de uma esquerda amedrontada que vai buscar ideias e pessoas à direita, a direita agigantou-se, como única alternativa possível, e tornou-se mais fresca e segura de si, apresentando figuras com estatuto de líder pela Europa fora e dizendo-se “conservadores progressistas”.


As pessoas estão confusas e com razão, pois, como bem salientam os analistas da política europeia, a ideologia morreu. Neste momento, o pragmatismo e o sentido de adaptação comandam as hostes. Se bem que estas duas qualidades são de louvar, a esclerose ideológica está repleta de perigos. Um deles é, sem dúvida, o regresso dos nacionalismos que já se começa a verificar, varrendo a Europa devagarinho, sem o aparato de outros tempos, mas com a força de pessoas bem falantes e bem posicionadas que garantem que os seus países só terão melhores economias se se limparem dos outsiders que tiram trabalho aos da terra e que inimigos da nação são todos aqueles cuja religião, costumes, língua, cor é diferente. A Europa incompatibiliza-se, pouco a pouco, entre si. Por enquanto, vai fazendo guerra aberta aos vizinhos que querem entrar na UE. Em breve, fará guerra aberta aos países mais pobres cujos jovens querem trabalhar nos mais ricos. Nos últimos meses, muitos discursos políticos apontam claramente nesse sentido. E até há movimentos na net - “We will not pay for Portugal, Greece, Ireland and Spain” - onde somos acusados de beber, fazer praia e dançar pela noite fora à custa dos verdadeiros trabalhadores da Europa.


No já ido ano de 2004, o Dr. Paulo Portas (então Ministro da Defesa Nacional) disse que não concordava com misturas de sangue. Dois anos depois, muitos portugueses foram expulsos do Canadá e o Governo português provou um bocadinho daquilo que também apregoara… Mas, convenientemente, já se tinha esquecido de que quem tem emigrantes também se sujeita a ter imigrantes.