... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, September 2, 2011

Apartheid da informação


Já esteve naquela situação em que recebe em casa uma carta de uma entidade pública e não consegue perceber o conteúdo? Não está sozinho. A esmagadora maioria dos portugueses já passou pelo mesmo. Intimações de tribunal ou das Finanças, avisos do Hospital ou da Segurança Social, cartas de conteúdo panfletário ou informativo e até mesmo anúncios de emprego na função pública e contratos bancários deixam a população à toa, em busca de um dicionário. A linguagem em forma de minuta que ali é usada sofre de um gongorismo antiquado, cujas flores e pretensiosismo são até difíceis de entender para quem a redigiu mecanicamente – e a prova é que, desconstruindo alguns desses discursos, verificamos a sua incoerência total quanto ao significado.


Caso esteja a pensar que são apenas os iletrados que têm dificuldade em entender estes documentos de uso comum, pense outra vez. Segundo estudos apresentados pela “Português Claro”, 50% dos portugueses tem dificuldade em entender as bulas dos medicamentos e, logo, não sabe bem como há-de tomar os ditos. Ao que parece, apenas 5% da nossa população consegue lidar bem com documentos novos e de complexidade relativa (manuais de utilização de máquinas, por exemplo). De facto, é complicado para qualquer cidadão entender à primeira frases como a seguinte (retirada de um documento comum de seguro automóvel): “por falecimento da pessoa segura, o capital seguro é prestado, em caso de premuriência do beneficiário relativamente à pessoa segura, aos herdeiros desta; em caso de comuriência da pessoa segura e do beneficiário, aos herdeiros deste”. No entanto, lá vamos engolindo e assinando. Ninguém levanta a voz para dizer “Não percebi…” O mesmo acontece com os discursos de boa parte dos nossos governantes onde as pessoas batem palmas sem ter entendido boa parte da mensagem. É o célebre “Não percebi, mas ele fala muito bem!”


A Português Claro, de onde retirei estas informações, é um projecto que, à semelhança da mais velhinha Plain English Foundation, se dedica a ajudar os organismos e empresas numa simplificação da linguagem adequada à compreensão da maioria dos cidadãos.


Porque são os documentos escritos de forma tão barroca e quase ininteligível? Talvez porque assim o cidadão, atordoado, assina de cruz com vergonha de questionar, perdendo uma boa parte da noção dos seus direitos. O facto é que quem não sabe dos seus direitos também terá dificuldade em compreender os seus deveres, o que arrasta consequências negativas para toda a sociedade.


O abismo que existe entre a literacia dos portugueses e a complexidade dos documentos é grande. Mas educar toda uma sociedade não só demora várias gerações como exige uma reformulação cultural profunda; o mais simples é, efectivamente, optar pela clareza dos discursos e dos documentos. Até porque quanto mais sabemos acerca de um assunto, mais capazes somos de o simplificar e de adaptar o nosso discurso a quem nos ouve. Por mais complexo que seja o tema, o verdadeiro conhecedor deve ser capaz de falar dele com a simplicidade que uma criança exige do mesmo modo que, com cientificidade, faz uma palestra.


No entanto, em Portugal, sofremos do mal oposto. Ao invés de se tentar simplificar a linguagem burocrática e a retórica de bancada para povo entender insiste-se no floreado discursivo, quantas vezes com resultados desastrosos para quem tenta, através desse fraseado pomposo, uma acção de marketing pessoal de sentido eleitoralista ou dominador. Assim, acabamos por ter tristes exemplos de cabeças dirigentes cujo palavreado rebuscado acaba por não fazer sentido algum à luz da análise. Ocorre-me o daquele promissor político açoriano que, questionado sobre a situação que vivemos, afirmou: “Sou a favor dos cortes! Reduções é que nunca!” ou a daquele alto cargo que andou às voltas com um “resumo breve” porque pretendia antes uma “resenha sucinta”. Talvez se ande a precisar de umas lições de português… ou de claridade. Sob risco das anedotas linguísticas passarem a ter como sujeitos outros que não os jogadores de futebol.



A pedido de Sandra Fischer-Martins, da Português Claro, aqui fica o link para a apresentação no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=d4Vl6dPmv0w

Friday, August 26, 2011

Viagens Longe da Porta


“Começamos a ser estrangeiros onde nascemos, ou como?!
Agora é o coração que se constrange.  Vivi aqui e ali. Uma, duas, três casas
que abrigaram o adolescente e parecem olhar o homem maduro com olhos cegos,
janelas ocas… Tudo isto do sonho e da saudade é uma mentira arranjada, um
embuste literário ou quê? Então não é verdade que aquela vidraça era minha?
[…]Porque não nos conhecem e festejam as janelas e […] as pedras das calçadas?
Mas passamos ao largo de tudo e tudo fica incólume.”
Vitorino Nemésio, Corsário das Ilhas

Há um conjunto de sentimentos estranhos e invulgares que assalta o imigrante. Quer tenha imigrado por necessidade conjuntural quer o tenha feito por fascínio aventureiro, sente-se, ao chegar ao novo país, relutante ao entranhar de uma cultura que não é a sua. Relutante em pequenos nadas na habituação a um diferente quotidiano, no qual se entrelaçam um modo de pensar necessariamente diverso e um clima quantas vezes oposto ao que deixou. Uma adaptação sensorial completa de um ser humano adulto, cujos sentidos renascem: as papilas gustativas, o estômago e os intestinos confrontados com uma comida totalmente nova, o nariz e a cabeça à luta com uma panóplia de aromas nunca dantes sentidos, os olhos perdidos na anonimidade de rostos que enfrenta, os ouvidos aflitos na preocupação de entender e de se fazer entender noutra língua, o tacto confuso com outra forma de interpretar os seus gestos antes comuns, outra maneira de ser bem-educado (ou não), outra geografia de ruas, parques, mar substituído por montanha, montanha que deu o lugar a cidade. Um abismo cultural que, pouco a pouco, se vai aceitando.


E, a certo passo, é quase com surpresa que descobre que a nova cultura já é a sua. Em pequeninos gestos automáticos, na forma de cumprimentar, na sua lista de compras, no olhar e entender do mundo que antes era novo, e agora se tornou diário… e seu.  

Surge, então, para alguns uma ansiedade indefinida e contraditória de regresso às origens, vulgo saudade, misturada com desgosto por partir. Talvez seja uma espécie de relógio de medo incutido pelos nossos progenitores que nos alerta para não perdermos raízes.  Talvez uma reacção natural de segurança, que está na pirâmide básica das necessidades dos seres humanos.
Todos regressam, de visita. Mas alguns regressam… e ficam. 


Não sou diferentes de milhares, de milhões de pessoas. Tal como o meu vizinho do lado, também eu já fui imigrante. E também eu voltei ao que se chama terra natal. E, como tantos outros, também eu olho em volta, “vivi aqui e ali” mas nada já me conhece ou festeja, tudo deixou de ser meu. Inexplicada e dolorosamente, também eu não me sinto em casa.


Não há casa geográfica possível para os espíritos nómadas. Mas isso, ao contrário do que muitas vezes se apregoa, não é forçosamente triste. Embora desde os mitos gregos se venha pensando que os viajantes não têm mais lugar nem reconhecimento no lar que um dia deixaram, também é certo que nada desperta tanto um ser humano como a viagem em si.


A amargura que, inicialmente, se sente no re-confronto com a terra de origem transforma-se, para muitos, numa espécie de serena alegria, que se alcança sem saber muito bem como (nova transformação camaleónica!), pela gratidão do presente de uma vida cheia, pela consciência dos rumos que a qualquer momento se podem alterar, por uma tão maior segurança individual depois do que se passou e ultrapassou, pela agradável assumpção da diferença, pela paixão de ser em todas as suas vertentes.


Kaváfis, poeta grego, exprimiu bem o que podemos e devemos esperar ao regressar a “casa”, usando como imagem Ítaca, a ilha do célebre herói Ulisses, cuja viagem longa o tornou também um perfeito desconhecido, mesmo por parte da sua família, aquando do regresso:


“Ítaca já te deu uma bela viagem; sem Ítaca, jamais terias partido.

Ela já te deu tudo, e nada mais te pode dar.

Se, no final, achares que Ítaca é pobre, não penses que ela te enganou.

Porque te tornaste um sábio, viveste uma vida intensa,

e este é o significado de Ítaca.

E agora sabes o que significam Ítacas.”




N.B.: Por decisão editorial do jornal, este artigo foi publicado sem o seu título original (
http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=show&id=153
que era o que aqui se coloca. 


Saturday, August 20, 2011

Misérias


Dizem que a miséria não existe por aqui. Vivemos num local abençoado onde, felizmente, ela ainda não chegou. Quase toda a gente tem emprego e ouço mesmo dizer que quem não tem é porque não tentou o suficiente, não se esforçou o bastante, ou é, por personalidade e vocação, um parasita social. A mim, que não acredito nessa nossa retórica de auto-promoção social toponímica que tenta passar a imagem de uns Açores sem fome, também me explicaram textualmente que "há pessoas que gostam de viver assim." Na miséria. Quando perguntei como era isso possível, respnderam-me: "Estão habituadas. Nem conhecem outra vida. Isso, para eles, é confortável..."

Parece-me que esse mito urbano é que se tornou extremamente confortável para quem não vive em condições miseráveis.

Há ainda outros mitos que avolumam o primeiro. Por exemplo, a ideia de que quem pede esmola está automaticamente a pedir para satisfazer um vício (seja este ilegal, como algumas drogas, ou legal, como o álcool). Claro que há muitos tipos de miséria, incluindo as dependências, e, logo, muitas razões para pedir... Dentro dos vários tipos de miséria, existe inclusivé a miséria de carácter daquela personagem que sai do supermercado com três caixas de bombons de whisky mas não dá nem 50 cêntimos ao miúdo que está à porta. "Para que queres isso tudo?" "Para comprar um chocolate. O senhor pode ficar a ver eu comprar se não acredita." "Chocolate?! Se fosse para pão, eu dava! Não sabes que essas porcarias fazem mal?"

Há, de facto, tantos tipos de misérias. A miséria que advém da roda da sorte e do azar, de puros acidentes que fazem nascer uns numa casa abastada e outros numa casa onde moram 6 pessoas no mesmo quarto e, logo, obrigam os últimos a crescer muito mais depressa à força de ver no quotidiano tudo o que os primeiros só vêem nos filmes para dultos às escondidas dos pais; o que faz nascer uns na Terra das Oportunidades e outros na Terra do Sempre Igual, e saberem que, nessa terra, uma vez miserável para sempre miserável da mesma forma que aquele que nasce com sobrenome sonante só precisa de tilintar o B. I. para continuar a collecionar jantares de graça pela vida fora.  

São tantas as misérias que não cabem num livro. Mas hoje escrevo isto porque vi um antigo colega de escola a pedir, muito envergonhadamente e, claro, sem estender a mão, dinheiro para comprar uma sandes. Não tem vícios. O que não tem é emprego e as famílias, como sabemos, nem sempre são ninhos de amor. Chegou ao ponto de não ter dinheiro para comprar um miserável pão.

Podia ser eu, podias ser tu que tantas vezes ao dia passamos ao lado quando confrontados com o miúdo de rua, com a velhota perto da igreja, com o sem abrigo no centro da cidade, quase contentes porque ainda não somos nós. Estamos a salvo. Estamos acima. Usamos óculos-de-não-ver. A nosso modo, também sofremos de miséria, mas de uma miséria diferente. E temos com que sobreviver.

É muito urgente deixarmos de padecer desta cegueira voluntária que conduz à miséria interior - ela cresce devagarinho e só aumenta o sofrimento do próximo. Chama-se indiferença.

Friday, August 5, 2011

Essencialistas

Conhecem um vídeo que circula na Internet com o brilhante violinista Joshua Bell a tocar no metro de Washington, incógnito? Com a experiência, tentava-se perceber se as pessoas tinham tanto prazer com a interpretação de Bell se não soubessem que é um dos mais famosos violonistas de hoje, mas o vissem como um mero músico de rua. Numa hora, Bell não fez mais dinheiro do que os restantes músicos do metro, se exceptuarmos a gorda nota que recebeu de uma senhora que o reconheceu, ficando chocada e pesarosa por ver Joshua Bell ali.

Já foram feitas outras experiências engraçadas dentro do mesmo género. Por exemplo, as pessoas pagam um preço muito mais elevado por uma simples camisola se souberem que pertence a George Clooney. Curiosamente, o preço desce como uma flecha quando lhes dizem que a camisola pertence a Clooney, mas foi lavada antes de ser posta à venda…

Embora possamos rir destes estudos, todos os seres humanos são afectados pelo historial das coisas e das pessoas e, mais profundamente, por aquilo que imaginam que elas são.

Anda a ser muito discutida uma teoria de Paul Bloom, professor em Yale, que defende que a espécie humana é essencialista. Quer isto dizer que o Homem tem prazer e dor não apenas pela sensação neurofisiológica que o prazer ou dor em si provocam, mas sente-os muito mais intensamente e em maiores proporções devido à essência que lhes atribui, isto é ao que pensa sobre a sua origem e conteúdo. A composição química das experiências que provocam prazer ou dor é, portanto, apenas uma parcela mínima da questão.

É fácil entender esta teoria quando falamos de sensações obtidas através de algo fluído como a arte ou as ideias. Muitos de nós sentem satisfação por estar num museu a contemplar obras de Da Vinci e sentir-nos-íamos sincera e intimamente lesados se nos dissessem que os quadros são imitações, embora perfeitas. O prazer diminui a olhos vistos. Também é interessante verificar que, exibindo a mesmíssima ideia a Republicanos e Democratas, obtemos uma reacção de concórdia ou de repulsa frente ao assunto, dizendo-lhes que se trata de uma ideia do seu partido ou do partido oposto. Isto significa que é o conceito que fazemos das coisas e não as coisas per si a principal fonte de gozo ou decisão.

O mesmo fenómeno verifica-se com igual intensidade nos prazeres mais íntimos. Por exemplo, a comida. Todos já fizemos experiências com os nossos filhos que não comem sopa, mas comem a mesma sopa se forem levados a acreditar que ela tem batatas fritas esmagadas. Os adultos são iguais. Quando bebem vinho barato, o prazer é mínimo. Mas se beberem o mesmo vinho, vindo de uma garrafa caríssima e muito conhecida, as zonas do cérebro relacionadas com o prazer entram em perfeita euforia, como já foi demonstrado por experiências neuropsicológicas. Ah, quanto do prazer é feito por nós mesmos!

Como imaginam, o mesmo se aplica às relações amorosas e sexuais. O prazer nasce e cresce, em grande escala, da imaginação de quem o sente. E decresce da mesma forma. A atracção que sentimos por alguém é proporcional àquilo que mentalmente construímos dele. Além disso, existe o chamado “efeito de exposição”, i.e. quanto mais frequentemente vemos alguém mais tendência temos a desenvolver uma maior atracção… até ao pico dessa sensação, a partir da qual desenvolvemos o tédio por desilusão ou aborrecimento. Há dezenas de exemplos: tendemos a pensar que os famosos são mais bonitos e achamo-los, de imediato, boas pessoas; os casais apaixonados pensam que os seus companheiros feios são muito atraentes; as pessoas que trabalham juntas apaixonam-se frequentemente por proximidade (ou seja, acabamos logicamente por desejar o que vemos a toda a hora).

A mesma teoria da essência é válida para a dor. Se nos derem um choque eléctrico, isso dói. Mas se acreditarmos que o choque nos foi dado intencionalmente, o efeito físico da nossa dor é muitíssimo amplificado. Experiências neurológicas já o comprovaram, demonstrando que o Homem é fisicamente sensível ao que pensa ser a origem do mal.

Bloom acredita que o facto do ser humano construir em grande parte o seu próprio prazer e dor, ainda que inconscientemente e negando-o com força (pois ninguém quer admitir que aquilo que o faz sentir tão bem é uma construção mental interna), é uma vantagem para a nossa espécie. Apesar de nos sentirmos mais miseráveis do que os chimpanzés, somos também capazes de maior felicidade. Até certo ponto, somos capazes de controlar o prazer e a dor, se tivermos consciência da nossa quota-parte no processo sensitivo. Isto para não falar de um mundo de possibilidades no transformar de sensações químicas desagradáveis em experiências positivas - afinal, os humanos são os únicos loucos que pensam que comer pimenta e andar de montanha-russa são coisas boas…

Tuesday, July 26, 2011

O que foi isso de "Açoriando"?

Depois de uma temporada a coordenar esta página e a fazer essa rubrica de nome duvidoso, resolvi que era mesmo melhor responder a esta pergunta que, a princípio, foi sussurrada e depois chegou-me por todos os lados (norte, sul, este, oeste, esquerda, direita e, naturalmente, centro que é quem manda e - como é do conhecimento geral - quem manda quer saber).

Em Setembro de 2010, estávamos a pensar que rubrica nova se havia de introduzir na página de Literatura… Porque é que não ficou tudo como estava? Bem, isso é a pergunta que se faz acerca de quase tudo, porque, como já dizia Mignon McLaughlin no Neurotic’s Notebook, toda a sociedade honra sempre os seus conformistas vivos e os seus não-conformistas mortos. Portanto, arriscando essa imensa glória que é ser conhecido numa cidade com 9.000 habitantes – digamos que é menos de metade do que o número de alunos da Universidade de Coimbra, mas isso não interessa nada… - , decidimos mudar as coisas. Só um bocadinho, claro está, não fossemos ficar honrados (isto é, mortos) muito rapidamente.

Disseram-me, então, que o Fazendo tinha inicialmente sido pensado para dar destaque às coisas desta terra. Que rubrica literária melhor eu podia arranjar para dar destaque às coisas da terra do que uma rubrica onde se destacassem autores açorianos? Pareceu-me ideal (não muito genial, porque era realmente óbvio, mas ideal na mesma… Mais ou menos como o ovo de Colombo). Mas se optasse por apenas destacar autores, a coisa ficava tipo Enciclopédia Bibliográfica, o que, convenhamos, era um bocado limitativo. Então, se calhar, o melhor mesmo era destacar um livro de um autor açoriano. No entanto, se me ficasse só por aí, corria o sério risco de poucos saberem de que escritor se tratava. Sim, porque não é linear que os habitantes dos Açores conheçam assim tão bem os autores açorianos (já por esta altura os queridos leitores me atiraram a sétima pedra, estando eu, portanto, na mesma situação que as mulheres do Médio Oriente apedrejadas pelos seus pecados…)

Assim nasceu o Açoriando. O nome foi um gerúndio inventado para combinar com Fazendo. Convido todos os puristas da língua a escreverem e-mails sentidos sobre esta questão fulcral: não devia ser “Açoreando”? Teriam os senhores muita razão, caso houvesse um verbo “Açorear”, devia sim senhor. Condicionalmente falando, claro, pois creio que a única coisa que existe de parecido é “assorear” que é, como sabemos, - agora que somos todos, mas mesmo todos nestas nossas ilhas, especialistas do domínio marítimo – outra coisa completamente diferente (oitava pedra).

O Açoriando falou de livros de autores açorianos e desses mesmos autores. Não muito para não irritar, claro. Ainda nos acusavam de estarmos a dar ideias ou, infinitamente pior, de sabermos alguma coisa sobre o que andámos a dizer.

PS: Para ser autor açoriano, um livro de poemas com duas linhas cada um, edição de autor, não nos chegava… às vezes, somos assim antiquados. Gostamos de ler coisas que tenham o mínimo de “suminho” (nona pedra e cai).

Friday, July 22, 2011

Escrever Bem Não Resolve Úlceras

Há alguns dias atrás, num almoço com amigos, comentámos a seguinte notícia que saiu no jornal Público sobre os exames do 12º ano: “Média negativa a Português foi o pior resultado em 14 anos de exames”. Segundo o Gabinete de Avaliação Educacional e a Presidente da Associação de Professores de Português, o problema foi a parte da prova relativa ao funcionamento da língua. Respiremos todos de alívio. Nada de especial, portanto. Num exame de língua portuguesa, passaria pela cabeça de alguém que fosse realmente importante avaliar os aspectos que dizem respeito à gramática? Se os alunos souberem identificar géneros literários e interpretar um texto, já estamos bem. No entanto, parece que isso também não correu sobre rodas. O texto de Álvaro de Campos baralhou um pouco os jovens, que não o perceberam e confundiram significados de palavras. Seriam complexas? Não, eram de uso diário, e.g. “sentimentos” versus “sensações”. Isto apesar do dito poema até ter sido retirado do livro em uso no 12º ano, para facilitar. Seria esperar demais que fossem analisar um texto que nunca tivessem visto?…


A Presidente da APP e o GAE desdramatizam: “Houve uma alteração na tipologia de itens relativos ao funcionamento da língua que traduzem um acréscimo de exigência neste domínio particular de aprendizagem da língua materna”, isto é (desdobrando para linguagem corrente) “Nos exames anteriores não foram colocadas questões destas e os alunos estavam um bocado esquecidos. Já não sabiam identificar um complemento directo ou um sujeito”. Mesmo passando por cima do facto dos senhores considerarem os alunos como se eles fossem atrasados, opinando que os exames têm sempre de ter as mesmas questões e os mesmos textos (senão, os alunos já não conseguem raciocinar para responder), subsiste a questão: como é que se admite que alguém termine o 12º ano sem saber identificar o sujeito de uma frase? E, quiçá, ir frequentar uma Licenciatura em Línguas nessas condições?

Curiosamente, os meus amigos – que não são professores nem são das Ciências Humanas - não ficaram muito chocados e até opinaram que não é necessário saber qual é o sujeito e o predicado de uma frase para saber escrever. No entanto, se eu lhes tivesse dito que os alunos do 12º ano de Biologia tinham errado os locais onde ficam o estômago e o cérebro mas estavam preparados para frequentar o primeiro ano do curso de Medicina, teriam arrancado os cabelos e temido pela vida das gerações futuras! Eu até concordo que dominar bem uma língua não nos traz necessariamente saúde e que a Medicina é a ciência do futuro (nalguns dias, opino mesmo que seja o ramo da Psiquiatria…) mas creio firmemente que desvalorizar uma língua e a sua escrita é, implicitamente, desvalorizar toda uma cultura e, com ela, tudo o que uma civilização produz, desde as artes às ciências. O primeiro património de um povo e dos poucos que uma guerra não consegue destruir é a sua língua. Como é possível que a tenhamos desprezado tanto e baixado a fasquia da exigência ao ponto de, verdadeiramente, não a ensinar?

Isto não acontece apenas no domínio da Língua Portuguesa, como bem sabemos. Tenho uma familiar muito próxima que obteve recentemente um grau de Mestrado não só sem ter feito uma tese mas sem nunca ter cumprido a parte curricular do mesmo. Como a própria admite, “beneficiou de uma injustiça circunstancial”. Isto leva-nos, a partir de agora, a perguntar, com justa causa e sem ironia, se é possível encomendar graus como se encomendam pizzas?!...

É importante escrever bem? Sim, até do ponto de vista económico. Uma reportagem recente da BBC revelou que a escrita com falhas custa milhões (sem exagero!) às empresas de vendas. Reportam, por exemplo, que os clientes perdem imediatamente o interesse quando denotam erros de escrita nas páginas web e restante material promocional.

Estamos a formar mal as novas gerações? Sim. O grau de exigência é tão pouco que se dão notas elevadas na disciplina de Português a muitos alunos que escrevem “axim” como se estivessem a enviar SMS. E, como disse outra reportagem, acabam por escrever “axim” nos seus Curricula Vitae… E, do seu ponto de vista, têm razão porque ninguém lhes disse nada em contrário!

Além disso, há que ter em conta que, ao formar uma geração, se está a formar implicitamente os mentores da geração seguinte. Que ninguém tenha a coragem de vir dizer depois que os seus netos “não sabem nada!” quando não chegou a ensinar os seus filhos… Para inverter a actual situação, temos de ter a coragem de ser exigentes quando é de ensino e avaliação que se trata. É o futuro que está em causa.

Friday, July 8, 2011

Viver é Escolher

Uma das questões que mais tem preocupado as pessoas ao longo dos tempos é a da liberdade de escolha – se existe ou não, quanta temos tendo em conta as restrições conjunturais e se a andamos a “usar” de modo que a nossa vida seja a melhor possível. Na sociedade ocidental industrializada, é dogmático pensar-se na liberdade de escolha como um valor essencial à felicidade do indivíduo numa escala proporcional, isto é, quanto maiores forem as possibilidades de escolha e menores as limitações do indivíduo para escolher de entre estas, maior será a sua possibilidade de se sentir feliz. Dificilmente encontraremos alguém que discorde desta proposição.


Mas será realmente assim? Barry Schwartz, psicólogo americano cujas palestras disponíveis na internet bem como a sua coluna de opinião são famosas, escreveu The Paradox of Choice. Segundo Schwartz, que contraria a opinião institucionalizada, a enorme abundância de escolhas que o mundo actual nos oferece torna-nos relutantes na tomada de decisões, pensativos após decidirmos, e, em última análise, mais infelizes.

Schwartz aponta exemplos de decisões diárias cujas consequências são praticamente irrelevantes para o nosso futuro, como que molho escolher para o almoço de entre os vários disponíveis no stand de saladas ou que par de jeans comprar de entre as muitíssimas e confusas variedades que hoje nos oferecem as lojas de pronto a vestir (já para não falar na dificuldade que é encontrar um telemóvel que, pura e simplesmente, sirva para telefonar e não venha com mil e quinhentos acessórios de entre os quais somos obrigados a escolher…). De facto, se pensarmos bem, toda a nossa vida é composta de decisões, mais ou menos importantes.

Existem, claro, decisões bem mais complexas e cujas consequências podem ser definidoras de um percurso de vida: casar ou não? Casar agora ou deixar para mais tarde? Investir numa carreira ao invés de numa vida íntima plena? Investir primeiro na carreira e depois na intimidade? Ter filhos ou não? Esperar para os ter? Até quando? E tê-los com quem? Estará essa pessoa inclinada a fazer as mesmas decisões que nós? Onde será mais adequado viver? Nos dias que correm, até podemos escolher a nossa nacionalidade, dentro de certas limitações. Schwartz, professor no Swarthmore College, diz que recomenda muito menos trabalho aos seus alunos hoje em dia, não porque tenha alunos menos inteligentes mas porque as gerações actuais passam cada vez mais tempo dilaceradas por dúvidas profundas e legítimas que não assaltavam as gerações anteriores.

Isto acontece porque a nossa sociedade actual oferece um leque muito variado de opções, o que acarreta um esforço bastante acrescido para chegar à tomada de decisão. Não se trata apenas de ter mais dificuldade em decidir; as pessoas querem fazer “a decisão certa”, pois o elevado número de alternativas possíveis conduz a uma situação psicologicamente penosa: o elevar de expectativas de tal modo que se chega a acreditar que, de entre tantas possibilidades, uma há-de haver que seja perfeita.

Expectativas demasiado elevadas só têm um fim correspondente qualquer que seja a escolha - desapontamento. Na realidade, é quase impossível que o mundo tal qual ele é vá corresponder à nossa imaginação delirante e influenciada pelo marketing (quer falemos de jeans ou do príncipe encantado).

Tristemente, a desilusão não é ainda o fim deste processo. As pessoas acabam por se culpabilizar por aquilo que, a posteriori, consideram ter sido a sua má escolha. Como é que não foram suficientemente espertas ou não passaram tempo suficiente a analisar todas as hipóteses?!… Afinal, escolheram algo absolutamente inadequado: uns jeans que magoam, um marido que se revelou tão diferente da inicial perspectiva encantadora… E a culpa de quem escolhe, fruto da sua responsabilidade, marca como a dor do erro.

Schwartz acredita em dois segredos fundamentais para bem viver: primeiro, ter expectativas baixas; segundo, manter o máximo de opções em aberto, fazendo escolhas pouco limitativas. Como dizia certo professor de Ética que muito admiro, “evita o que te encerra e o que te enterra”. Isto reduz a possibilidade de ficarmos a braços com o custo psicológico de decisões irreversíveis.

O paradoxo da escolha num mundo de hipóteses mil é este: a infinidade de possibilidades conduz à paralisia na acção. Pensamos continuamente se faremos o melhor e, logo, não agimos. Finalmente, dado o salto, interrogamo-nos se o melhor não está ainda por aparecer ou não nos passou ao lado. Vivemos exaustos à beira da multiplicação do livre arbítrio.

Parafraseando Schwartz, ter liberdade é melhor do que não ter, mas um número demasiado grande de escolha como a abundância que a nossa sociedade apresenta só traz infelicidade. Ninguém quer viver dentro de quatro paredes… mas ter alguma noção de limite é essencial para o bem-estar. Eu só não sei qual é o limite certo e Schwartz também anda à procura dele.