... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, September 30, 2011

A diferença


Ontem, visitei o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos. Teria sido uma visita como tantas outras, já que perdi a conta às vezes que visitei este Centro desde o dia da inauguração até hoje. Mas foi completamente diferente, porque o guia da visita era uma senhora cega – sei que está na moda dizer “invisual”, mas eu gosto de palavras puras e não percebo porque assusta e incomoda a frontalidade das palavras quando elas são bonitas e não agressivas.

O Centro de Interpretação do Vulcão inaugurou ontem a sua sinalização em braille. Não é coisa pouca, sobretudo porque a Vanda – nossa guia, moradora no Faial – explicou que existem muito poucas instituições em Portugal que tenham instalado esta facilidade. A Vanda Ângelo não fala de cor. Fala porque viaja e conhece. Gosta de novos lugares, sobretudo “espaços com boa sonoridade” – as grutas, as igrejas. Conhece Roma e Paris. É com alguma insatisfação que diz que o Museu do Louvre não tinha ainda sinalização em braille quando ela o visitou. Mas como é optimista confia que é possível que já a tenham adoptado.

Connosco, estavam outras pessoas com deficiências visuais. Graças a elas, fomos aprendendo a “ver” o Centro de outra maneira. Excepto o Farol, que elas podem visitar mas apenas acompanhadas por alguém – até porque o Farol é complicado. Por desconhecimento meu, não sei até que ponto o seria realmente, porque a Vanda já subiu a Montanha do Pico. E, aliás, reclamou porque não esta não tem (ainda…) sinalização em braille.

No Centro, para além da sinalização em braille no chão, que dá indicações sobre direcções, existe ainda sinalização nas paredes e um guia. O guia é suficientemente extenso para que se compreenda tudo o que está no Centro e, além disso, explica pequenos detalhes essenciais à visita.

A Vanda explicou que, nos Capelinhos, está tudo sinalizado em braille em português mas também em inglês, o que se compreende facilmente - o braille não é uma linguagem; é uma forma de representar línguas de forma táctil e, como tal, é naturalmente arranjado de forma diversa consoante a língua que se propõe representar.

Dado que sofro do egoísmo que assalta todos os seres humanos, disse-lhe que só me tinha dado realmente conta das necessidades prementes das pessoas com diferenças quando na minha família nuclear nasceu um surdo profundo. Também só aí, e porque tive de começar a aprender, me apercebi que a Língua Gestual Inglesa é uma coisa e a Língua Gestual Portuguesa é outra língua diferente. Infelizmente, também só nessa época entendi que o mundo não está minimamente preparado nem organizado para pessoas que têm uma única limitação sensorial, por mais dinâmicas, inteligentes e ultra-sensíveis que sejam.

Hoje em dia, já não tenho um surdo na família. Ele já ouve - apesar de eu, como todas as mães, me queixar de que “ele só me responde quando quer…!” Não posso negar que fiquei feliz com o reverter da situação. Mas nunca deixei de ser atenta a estas coisas que dantes me passavam ao lado.

É por isso que ontem foi a minha melhor visita ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos e o melhor Dia Mundial do Turismo que passei. Dou os parabéns sinceros à Azorina, que rege o Centro, e à Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial porque sei que foram muitos os envolvidos para que isto se realizasse.

Termino com uma pergunta do poeta inglês Edward Young: “Todos nascemos originais – porque é que tantos de nós morrem sendo cópias?” que eu penso ter sido muito bem respondida pelo americano e.e.cummings “Sermos apenas nós mesmos num mundo que faz o seu melhor por nos tornar iguais aos demais é travar a mais árdua batalha humana e a única que nunca termina."

Sunday, September 25, 2011

O Livro da Selva de Rudyard Kipling




É seguro dizer que o jovem Mowgli, a pantera negra Bagheera, o urso Baloo e o tigre Shere-Khan são hoje personagens mais conhecidas devido ao último filme de animação produzido pelo próprio Walt Disney - O Livro da Selva (1967). O filme foi baseado no livro com o mesmo título (1894), um conjunto de histórias em tom de fábula em que os animais são antropomorfizados e em que a personagem principal é um rapazinho abandonado em bebé na selva e criado por lobos desde então.

As “crianças selvagens” e o seu isolamento completo face à sociedade era um tema caro ao mundo desde os ensaios de Rousseau a que as descobertas de Lévi-Strauss dos meninos-lobo encontrados precisamente na Índia em 1911 vieram avivar em termos de teorias de aquisição da linguagem e de psicologia do desenvolvimento.

Mas a ideia de Kipling - nascido e criado na Índia, embora súbdito britânico – era fazer contos alegóricos da sociedade da época, metaforizando a sua política, movimentos nascentes, costumes, leis morais, ética, e perigos. A comunidade da selva do livro de Kipling tem um código ético tão interessante e corajoso que inspirou muitos na época – inclusivé Baden-Powell, fundador do Escutismo, que assim teve a ideia para os jovens Lobitos.

Kipling ganhou o Nobel da Literatura em 1907 “pelo seu poder de observação, imaginação original, virilidade de ideias e extraordinário talento narrativo”. Foi o primeiro escritor de língua inglesa a recebê-lo. Continuam a ser polémicas as suas obras: ora é visto como um emblema do colonialismo, ora se detêm nele como um génio versátil e inovador. Certo é que as suas histórias são ainda hoje atractivas, sobretudo para os rapazinhos aventureiros.

Monday, September 19, 2011

Estrangeiro, olha-te ao espelho


Certa vez, estava eu em França temporariamente a trabalhar com uma amiga quando fomos assaltadas. O que mais nos surpreendeu foi a reacção dos franceses a quem contávamos o sucedido. Todos, sem excepção, abanavam a cabeça e diziam "Este país está cada vez pior. Estamos cheios de árabes /argelinos / marroquinos, turcos, ... Já não se pode andar descansado!" Quando lhes perguntávamos porque é que não punham a hipótese do assalto ter sido feito por um francês - visto não termos visto a cara do assaltante - não havia quem não respondesse que era muito improvável que um verdadeiro francês se dedicasse a actividades criminosas. Um verdadeiro francês, reparem bem! É que existem os que são de mistura, ao estilo cevada para café com leite.

Perante esta reacção tão sentidamente convicta por parte dos nossos colegas parisienses, nenhuma tinha vontade de lhes dizer das suas confusas raízes, mas lá encontrámos coragem para ripostar que também nós éramos, afinal, estrangeiras ali... "Oh, mas isso é completamente diferente, minhas queridas! Vocês não estão aqui a morar!" Portanto, o problema não era ser estrangeiro em França. Era sê-lo e ter a intenção de assentar lá arraiais. O nosso trabalho (muito) temporário não incomodava ninguém, não mexia com as mentalidades, as economias, as demografias, não tirava nem dava nada à França, excepto um par de turistas a mais que - quando muito - acrescentava colorido e produzia sensação em meia dúzia de bons patriotes.

O interessante desta pequena história é que, há algum tempo atrás, acompanhei com esta amiga uns turistas cá nas ilhas. A certa altura, ela advertiu-os sobre não deixarem as malas à vista quando saíssem do carro e, perante o espanto deles porque consideravam as ilhas paraísos sem crime, ela, muito naturalmente, disse que já tinham sido assim paradisíacas mas que depois tínhamos recebido grande vaga de imigrantes e de retornados e, logo, o crime tinha aumentado e "isto nunca mais tinha sido a mesma coisa!" Não perdi a oportunidade de lhe dizer que ela estava a agir tal qual como os nossos amigos parisienses que tanto a tinham chocado na época com as suas afirmações xenófobas. Com aquela expressão de quem foi apanhado em falta, ela disse-me que nem se tinha dado conta disso. "Talvez tu te dês mais conta destes pormenores, porque andaste imigrada... Nós dizemos isto por instinto; não é por mal", justificou.

Não quero trazer aqui à discussão as variadas teorias psico-sociológicas sobre O Outro e a nossa relação com ele. As teorias existem em calhamaços, são discutidas em academias e congressos, mas a prática é tão velha como o mundo com humanos dentro. Os homens criam tribos, as tribos ficam definidas por espaços territoriais e a sobrevivência da tribo passa pela defesa desse espaço (não só mas também) face a outras tribos. O medo do Outro e a ignorância do que ele é justificavam as atitudes de repulsa e até de ataque. A evolução humana trouxe o conceito de "extraneus" - em latim, "estranho" e "estrangeiro" sendo uma e a mesma coisa, o que ainda subsiste em castelhano. Faz sentido. Se em português, "estranho" e "estrangeiro" são hoje coisas diversas, não se apresentam totalmente distintas dentro das nossas cabeças. Pena é que não tenhamos também herdado e mantido até hoje das civilizações antigas que nos fizeram berço o seu extremamente prezado conceito de hospitabilidade, cuja ética levava a tratar com cortesia qualquer "estranho" que entrasse no nosso território em busca de abrigo. Pelo menos, até que o “estranho” provasse ser inimigo. Pois “estranhos”, uns para os outros, nunca deixaremos de ser e isso dá muito mais musicalidade à vida. Como dizia certo músico de jazz americano: “Eu podia tocar num piano com teclas só brancas ou com teclas só pretas mas vocês não teriam tanto prazer em ouvir-me…”





N.B.: Há cerca de um mês, publiquei um artigo sobre uma situação de miséria envergonhada neste espaço. Fiquei surpreendida e feliz por ver que várias pessoas se mostraram dispostas a dar uma mão para ajudar a resolver esse assunto (de entre vários semelhantes que por aí há). Há mesmo quem goste genuinamente das pessoas sem viver na base da troca.

Friday, September 2, 2011

Apartheid da informação


Já esteve naquela situação em que recebe em casa uma carta de uma entidade pública e não consegue perceber o conteúdo? Não está sozinho. A esmagadora maioria dos portugueses já passou pelo mesmo. Intimações de tribunal ou das Finanças, avisos do Hospital ou da Segurança Social, cartas de conteúdo panfletário ou informativo e até mesmo anúncios de emprego na função pública e contratos bancários deixam a população à toa, em busca de um dicionário. A linguagem em forma de minuta que ali é usada sofre de um gongorismo antiquado, cujas flores e pretensiosismo são até difíceis de entender para quem a redigiu mecanicamente – e a prova é que, desconstruindo alguns desses discursos, verificamos a sua incoerência total quanto ao significado.


Caso esteja a pensar que são apenas os iletrados que têm dificuldade em entender estes documentos de uso comum, pense outra vez. Segundo estudos apresentados pela “Português Claro”, 50% dos portugueses tem dificuldade em entender as bulas dos medicamentos e, logo, não sabe bem como há-de tomar os ditos. Ao que parece, apenas 5% da nossa população consegue lidar bem com documentos novos e de complexidade relativa (manuais de utilização de máquinas, por exemplo). De facto, é complicado para qualquer cidadão entender à primeira frases como a seguinte (retirada de um documento comum de seguro automóvel): “por falecimento da pessoa segura, o capital seguro é prestado, em caso de premuriência do beneficiário relativamente à pessoa segura, aos herdeiros desta; em caso de comuriência da pessoa segura e do beneficiário, aos herdeiros deste”. No entanto, lá vamos engolindo e assinando. Ninguém levanta a voz para dizer “Não percebi…” O mesmo acontece com os discursos de boa parte dos nossos governantes onde as pessoas batem palmas sem ter entendido boa parte da mensagem. É o célebre “Não percebi, mas ele fala muito bem!”


A Português Claro, de onde retirei estas informações, é um projecto que, à semelhança da mais velhinha Plain English Foundation, se dedica a ajudar os organismos e empresas numa simplificação da linguagem adequada à compreensão da maioria dos cidadãos.


Porque são os documentos escritos de forma tão barroca e quase ininteligível? Talvez porque assim o cidadão, atordoado, assina de cruz com vergonha de questionar, perdendo uma boa parte da noção dos seus direitos. O facto é que quem não sabe dos seus direitos também terá dificuldade em compreender os seus deveres, o que arrasta consequências negativas para toda a sociedade.


O abismo que existe entre a literacia dos portugueses e a complexidade dos documentos é grande. Mas educar toda uma sociedade não só demora várias gerações como exige uma reformulação cultural profunda; o mais simples é, efectivamente, optar pela clareza dos discursos e dos documentos. Até porque quanto mais sabemos acerca de um assunto, mais capazes somos de o simplificar e de adaptar o nosso discurso a quem nos ouve. Por mais complexo que seja o tema, o verdadeiro conhecedor deve ser capaz de falar dele com a simplicidade que uma criança exige do mesmo modo que, com cientificidade, faz uma palestra.


No entanto, em Portugal, sofremos do mal oposto. Ao invés de se tentar simplificar a linguagem burocrática e a retórica de bancada para povo entender insiste-se no floreado discursivo, quantas vezes com resultados desastrosos para quem tenta, através desse fraseado pomposo, uma acção de marketing pessoal de sentido eleitoralista ou dominador. Assim, acabamos por ter tristes exemplos de cabeças dirigentes cujo palavreado rebuscado acaba por não fazer sentido algum à luz da análise. Ocorre-me o daquele promissor político açoriano que, questionado sobre a situação que vivemos, afirmou: “Sou a favor dos cortes! Reduções é que nunca!” ou a daquele alto cargo que andou às voltas com um “resumo breve” porque pretendia antes uma “resenha sucinta”. Talvez se ande a precisar de umas lições de português… ou de claridade. Sob risco das anedotas linguísticas passarem a ter como sujeitos outros que não os jogadores de futebol.



A pedido de Sandra Fischer-Martins, da Português Claro, aqui fica o link para a apresentação no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=d4Vl6dPmv0w

Friday, August 26, 2011

Viagens Longe da Porta


“Começamos a ser estrangeiros onde nascemos, ou como?!
Agora é o coração que se constrange.  Vivi aqui e ali. Uma, duas, três casas
que abrigaram o adolescente e parecem olhar o homem maduro com olhos cegos,
janelas ocas… Tudo isto do sonho e da saudade é uma mentira arranjada, um
embuste literário ou quê? Então não é verdade que aquela vidraça era minha?
[…]Porque não nos conhecem e festejam as janelas e […] as pedras das calçadas?
Mas passamos ao largo de tudo e tudo fica incólume.”
Vitorino Nemésio, Corsário das Ilhas

Há um conjunto de sentimentos estranhos e invulgares que assalta o imigrante. Quer tenha imigrado por necessidade conjuntural quer o tenha feito por fascínio aventureiro, sente-se, ao chegar ao novo país, relutante ao entranhar de uma cultura que não é a sua. Relutante em pequenos nadas na habituação a um diferente quotidiano, no qual se entrelaçam um modo de pensar necessariamente diverso e um clima quantas vezes oposto ao que deixou. Uma adaptação sensorial completa de um ser humano adulto, cujos sentidos renascem: as papilas gustativas, o estômago e os intestinos confrontados com uma comida totalmente nova, o nariz e a cabeça à luta com uma panóplia de aromas nunca dantes sentidos, os olhos perdidos na anonimidade de rostos que enfrenta, os ouvidos aflitos na preocupação de entender e de se fazer entender noutra língua, o tacto confuso com outra forma de interpretar os seus gestos antes comuns, outra maneira de ser bem-educado (ou não), outra geografia de ruas, parques, mar substituído por montanha, montanha que deu o lugar a cidade. Um abismo cultural que, pouco a pouco, se vai aceitando.


E, a certo passo, é quase com surpresa que descobre que a nova cultura já é a sua. Em pequeninos gestos automáticos, na forma de cumprimentar, na sua lista de compras, no olhar e entender do mundo que antes era novo, e agora se tornou diário… e seu.  

Surge, então, para alguns uma ansiedade indefinida e contraditória de regresso às origens, vulgo saudade, misturada com desgosto por partir. Talvez seja uma espécie de relógio de medo incutido pelos nossos progenitores que nos alerta para não perdermos raízes.  Talvez uma reacção natural de segurança, que está na pirâmide básica das necessidades dos seres humanos.
Todos regressam, de visita. Mas alguns regressam… e ficam. 


Não sou diferentes de milhares, de milhões de pessoas. Tal como o meu vizinho do lado, também eu já fui imigrante. E também eu voltei ao que se chama terra natal. E, como tantos outros, também eu olho em volta, “vivi aqui e ali” mas nada já me conhece ou festeja, tudo deixou de ser meu. Inexplicada e dolorosamente, também eu não me sinto em casa.


Não há casa geográfica possível para os espíritos nómadas. Mas isso, ao contrário do que muitas vezes se apregoa, não é forçosamente triste. Embora desde os mitos gregos se venha pensando que os viajantes não têm mais lugar nem reconhecimento no lar que um dia deixaram, também é certo que nada desperta tanto um ser humano como a viagem em si.


A amargura que, inicialmente, se sente no re-confronto com a terra de origem transforma-se, para muitos, numa espécie de serena alegria, que se alcança sem saber muito bem como (nova transformação camaleónica!), pela gratidão do presente de uma vida cheia, pela consciência dos rumos que a qualquer momento se podem alterar, por uma tão maior segurança individual depois do que se passou e ultrapassou, pela agradável assumpção da diferença, pela paixão de ser em todas as suas vertentes.


Kaváfis, poeta grego, exprimiu bem o que podemos e devemos esperar ao regressar a “casa”, usando como imagem Ítaca, a ilha do célebre herói Ulisses, cuja viagem longa o tornou também um perfeito desconhecido, mesmo por parte da sua família, aquando do regresso:


“Ítaca já te deu uma bela viagem; sem Ítaca, jamais terias partido.

Ela já te deu tudo, e nada mais te pode dar.

Se, no final, achares que Ítaca é pobre, não penses que ela te enganou.

Porque te tornaste um sábio, viveste uma vida intensa,

e este é o significado de Ítaca.

E agora sabes o que significam Ítacas.”




N.B.: Por decisão editorial do jornal, este artigo foi publicado sem o seu título original (
http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=show&id=153
que era o que aqui se coloca. 


Saturday, August 20, 2011

Misérias


Dizem que a miséria não existe por aqui. Vivemos num local abençoado onde, felizmente, ela ainda não chegou. Quase toda a gente tem emprego e ouço mesmo dizer que quem não tem é porque não tentou o suficiente, não se esforçou o bastante, ou é, por personalidade e vocação, um parasita social. A mim, que não acredito nessa nossa retórica de auto-promoção social toponímica que tenta passar a imagem de uns Açores sem fome, também me explicaram textualmente que "há pessoas que gostam de viver assim." Na miséria. Quando perguntei como era isso possível, respnderam-me: "Estão habituadas. Nem conhecem outra vida. Isso, para eles, é confortável..."

Parece-me que esse mito urbano é que se tornou extremamente confortável para quem não vive em condições miseráveis.

Há ainda outros mitos que avolumam o primeiro. Por exemplo, a ideia de que quem pede esmola está automaticamente a pedir para satisfazer um vício (seja este ilegal, como algumas drogas, ou legal, como o álcool). Claro que há muitos tipos de miséria, incluindo as dependências, e, logo, muitas razões para pedir... Dentro dos vários tipos de miséria, existe inclusivé a miséria de carácter daquela personagem que sai do supermercado com três caixas de bombons de whisky mas não dá nem 50 cêntimos ao miúdo que está à porta. "Para que queres isso tudo?" "Para comprar um chocolate. O senhor pode ficar a ver eu comprar se não acredita." "Chocolate?! Se fosse para pão, eu dava! Não sabes que essas porcarias fazem mal?"

Há, de facto, tantos tipos de misérias. A miséria que advém da roda da sorte e do azar, de puros acidentes que fazem nascer uns numa casa abastada e outros numa casa onde moram 6 pessoas no mesmo quarto e, logo, obrigam os últimos a crescer muito mais depressa à força de ver no quotidiano tudo o que os primeiros só vêem nos filmes para dultos às escondidas dos pais; o que faz nascer uns na Terra das Oportunidades e outros na Terra do Sempre Igual, e saberem que, nessa terra, uma vez miserável para sempre miserável da mesma forma que aquele que nasce com sobrenome sonante só precisa de tilintar o B. I. para continuar a collecionar jantares de graça pela vida fora.  

São tantas as misérias que não cabem num livro. Mas hoje escrevo isto porque vi um antigo colega de escola a pedir, muito envergonhadamente e, claro, sem estender a mão, dinheiro para comprar uma sandes. Não tem vícios. O que não tem é emprego e as famílias, como sabemos, nem sempre são ninhos de amor. Chegou ao ponto de não ter dinheiro para comprar um miserável pão.

Podia ser eu, podias ser tu que tantas vezes ao dia passamos ao lado quando confrontados com o miúdo de rua, com a velhota perto da igreja, com o sem abrigo no centro da cidade, quase contentes porque ainda não somos nós. Estamos a salvo. Estamos acima. Usamos óculos-de-não-ver. A nosso modo, também sofremos de miséria, mas de uma miséria diferente. E temos com que sobreviver.

É muito urgente deixarmos de padecer desta cegueira voluntária que conduz à miséria interior - ela cresce devagarinho e só aumenta o sofrimento do próximo. Chama-se indiferença.

Friday, August 5, 2011

Essencialistas

Conhecem um vídeo que circula na Internet com o brilhante violinista Joshua Bell a tocar no metro de Washington, incógnito? Com a experiência, tentava-se perceber se as pessoas tinham tanto prazer com a interpretação de Bell se não soubessem que é um dos mais famosos violonistas de hoje, mas o vissem como um mero músico de rua. Numa hora, Bell não fez mais dinheiro do que os restantes músicos do metro, se exceptuarmos a gorda nota que recebeu de uma senhora que o reconheceu, ficando chocada e pesarosa por ver Joshua Bell ali.

Já foram feitas outras experiências engraçadas dentro do mesmo género. Por exemplo, as pessoas pagam um preço muito mais elevado por uma simples camisola se souberem que pertence a George Clooney. Curiosamente, o preço desce como uma flecha quando lhes dizem que a camisola pertence a Clooney, mas foi lavada antes de ser posta à venda…

Embora possamos rir destes estudos, todos os seres humanos são afectados pelo historial das coisas e das pessoas e, mais profundamente, por aquilo que imaginam que elas são.

Anda a ser muito discutida uma teoria de Paul Bloom, professor em Yale, que defende que a espécie humana é essencialista. Quer isto dizer que o Homem tem prazer e dor não apenas pela sensação neurofisiológica que o prazer ou dor em si provocam, mas sente-os muito mais intensamente e em maiores proporções devido à essência que lhes atribui, isto é ao que pensa sobre a sua origem e conteúdo. A composição química das experiências que provocam prazer ou dor é, portanto, apenas uma parcela mínima da questão.

É fácil entender esta teoria quando falamos de sensações obtidas através de algo fluído como a arte ou as ideias. Muitos de nós sentem satisfação por estar num museu a contemplar obras de Da Vinci e sentir-nos-íamos sincera e intimamente lesados se nos dissessem que os quadros são imitações, embora perfeitas. O prazer diminui a olhos vistos. Também é interessante verificar que, exibindo a mesmíssima ideia a Republicanos e Democratas, obtemos uma reacção de concórdia ou de repulsa frente ao assunto, dizendo-lhes que se trata de uma ideia do seu partido ou do partido oposto. Isto significa que é o conceito que fazemos das coisas e não as coisas per si a principal fonte de gozo ou decisão.

O mesmo fenómeno verifica-se com igual intensidade nos prazeres mais íntimos. Por exemplo, a comida. Todos já fizemos experiências com os nossos filhos que não comem sopa, mas comem a mesma sopa se forem levados a acreditar que ela tem batatas fritas esmagadas. Os adultos são iguais. Quando bebem vinho barato, o prazer é mínimo. Mas se beberem o mesmo vinho, vindo de uma garrafa caríssima e muito conhecida, as zonas do cérebro relacionadas com o prazer entram em perfeita euforia, como já foi demonstrado por experiências neuropsicológicas. Ah, quanto do prazer é feito por nós mesmos!

Como imaginam, o mesmo se aplica às relações amorosas e sexuais. O prazer nasce e cresce, em grande escala, da imaginação de quem o sente. E decresce da mesma forma. A atracção que sentimos por alguém é proporcional àquilo que mentalmente construímos dele. Além disso, existe o chamado “efeito de exposição”, i.e. quanto mais frequentemente vemos alguém mais tendência temos a desenvolver uma maior atracção… até ao pico dessa sensação, a partir da qual desenvolvemos o tédio por desilusão ou aborrecimento. Há dezenas de exemplos: tendemos a pensar que os famosos são mais bonitos e achamo-los, de imediato, boas pessoas; os casais apaixonados pensam que os seus companheiros feios são muito atraentes; as pessoas que trabalham juntas apaixonam-se frequentemente por proximidade (ou seja, acabamos logicamente por desejar o que vemos a toda a hora).

A mesma teoria da essência é válida para a dor. Se nos derem um choque eléctrico, isso dói. Mas se acreditarmos que o choque nos foi dado intencionalmente, o efeito físico da nossa dor é muitíssimo amplificado. Experiências neurológicas já o comprovaram, demonstrando que o Homem é fisicamente sensível ao que pensa ser a origem do mal.

Bloom acredita que o facto do ser humano construir em grande parte o seu próprio prazer e dor, ainda que inconscientemente e negando-o com força (pois ninguém quer admitir que aquilo que o faz sentir tão bem é uma construção mental interna), é uma vantagem para a nossa espécie. Apesar de nos sentirmos mais miseráveis do que os chimpanzés, somos também capazes de maior felicidade. Até certo ponto, somos capazes de controlar o prazer e a dor, se tivermos consciência da nossa quota-parte no processo sensitivo. Isto para não falar de um mundo de possibilidades no transformar de sensações químicas desagradáveis em experiências positivas - afinal, os humanos são os únicos loucos que pensam que comer pimenta e andar de montanha-russa são coisas boas…