... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, November 11, 2011

DNA - Do Not Ask


Há poucos dias, li uma entrevista no “Público” feita a Torsten Heinemann e a Thomas Lemke, investigadores da Goethe Universität de Frankfurt que estiveram em Portugal a participar num seminário de Patologia e Imunologia no Porto. À primeira vista, pode parecer estranho que dois homens das Ciências (ditas) Humanas tenham vindo a tal encontro, mas a razão é simples: Heinemann e Lemke dedicam-se actualmente ao projecto “DNA and Immigration” que estuda as implicações éticas e sociais da análise de ADN enquanto sistema usado na política de imigração europeia.

Confesso que foi uma surpresa saber que alguns governos europeus usam, desde há anos, as análises de ADN como forma de travar a imigração para os seus países. Isto tem peso sobretudo na questão do reagrupamento familiar, em que os candidatos têm de passar pelo teste de ADN para provar que são filhos biológicos do imigrante em causa e da sua legítima mulher, tal como consta da certidão de nascimento. Na prática, isto significa que tanto os filhos adoptados como os que resultaram de processos de fertilização tecnológica (in vitro, doações de esperma ou de óvulos) ou os filhos de relações anteriores que coabitem com este casal têm a entrada no país automaticamente negada e devem, portanto, permanecer num país diferente do pai se este continuar a optar pela imigração. Escusado será dizer que outras relações familiares com laço biológico (e.g. pais ou avós do imigrante em causa ou seus filhos biológicos maiores de idade) ou sem este laço (e.g. unidos de facto) são automaticamente recusadas.

Heinemann e Lemke estudam a aplicação deste sistema sobretudo na Alemanha, embora estes testes sejam utilizados por 21 países, dos quais 16 são europeus. Teoricamente, não se pode obrigar o imigrante a sujeitar-se ao teste, mas quem não o fizer tem a entrada negada. Não são aceites razões culturais, religiosas ou éticas para a recusa. Nalguns países, é o imigrante quem tem de pagar o teste; noutros, não. Há ainda a interessante variável de (pasme-se!) o sujeito apenas ter de pagar se o resultado se apresentar negativo para ele. Os perfis de ADN ficam na posse dos governos e podem ser usados para identificações criminais, desde já diminuindo a presunção de inocência de um imigrante no contexto da Lei.

Como se prevê, há casos caricatos. Por exemplo, um viúvo africano que teve de submeter dois filhos ao teste e descobriu que um não era seu… Essa criança, órfã recente de mãe, teve de ficar na Somália, enquanto o pai e o irmão emigravam para a Alemanha. Como se vê, é humanamente desastroso, mas bastante eficaz do ponto de vista governamental de “travão” à imigração.

Pessoalmente, tenho a mesma opinião que estes investigadores  que são peremptórios ao afirmar que a noção de família não se restringe à biologia; pelo contrário, é uma noção plural e larga que faz parte do conceito de vida do cidadão alemão – porquê negar um direito básico usufruído por este ao cidadão que vem de fora? Tal negação tem efeitos catastróficos, desde já na integração do imigrante, que vê membros importantes da sua família nuclear excluídos do seu dia a dia sem razão para tal.

Acredito no slogan que surgiu quando a febre dos clones se tornou moda: DNA pode traduzir-se por “Do Not Ask”. Nenhum governo devia arrogar-se o direito de comparar códigos genéticos para decidir se ficamos ou não com aqueles que escolhemos por Amor. Utilizar algo tão pessoal e ademais tão acidental como a biologia de um indivíduo para decidirmos da sua vida é brincar aos deuses e, no caso concreto, aos deuses territoriais e cruéis, fazendo de outros seres humanos as nossas casinhas do tabuleiro do monopólio. Isso terá, decerto, um preço muito caro no futuro.

Heinemann e Lemke consideram que a (sua) Alemanha é o país que aplica os testes de ADN de forma mais implacável, seguindo à risca a genética e sem consideração pelo aspecto humano.

Vagamente, do fundo da memória, salta o nome de Josef Mengele, o médico “Anjo da Morte” que, há 60 anos atrás, fazia experiências nos campos de concentração alemães, transformando meninos de olhos escuros em exemplares de olhos azuis.

Não será que, lenta e suavemente, estamos a caminhar num sentido hitleriano? Nada disto é muito publicitado porque a opinião pública de hoje em dia, informada através dos media, iria revoltar-se, tendo ainda a memória fresca de uma Europa que foi devassada por ideais de pureza genética. Mas terá mesmo isso presente? E não será que (devagar e com muita cautela para não assustar) a poderosa máquina dos economicamente mais fortes está a tentar, de novo, uma raça superior? 

Wednesday, November 9, 2011

Entrevista a Rui Goulart, autor de "A Identidade do Olhar"

CC- “A Identidade do Olhar” é um título que parece revelar muito do que é o livro, já que esta obra tem a particularidade de ser um conjunto de poemas mas também de fotografias, ambos fruto do mesmo autor…

RG- Sim. Confesso que procurei um título que pudesse dar uma janela do que é o livro. Não é por acaso que a capa do livro é uma janela virada para o mar e o basalto, uma foto tirada numa Casa dos Botes em ruínas que tem muito a ver comigo pela ligação ao mar. N’”A identidade do olhar” a fotografia não é uma legenda do texto; é apenas uma viagem que eu proponho – indico o caminho, mas depois ausento-me e o leitor segue ou não. A fotografia e a poesia são ambas muito subjectivas. Existe uma relação entre as duas neste livro, e eu sei que há a tentação das pessoas a procurarem, mas essa relação não é directa nem tão pouco obrigatória entre o título e corpo dos textos e as fotografias. A relação é pessoal, embora a construção foto-texto tenha sido feita em fases diferentes e nem sequer tenha sido pensada como tal inicialmente.

 
CC- Sei que este livro começou por ser uma partilha na internet. Como é que se deu esse início?
RG- É verdade. Penso que este deve ser o primeiro livro na região que nasceu no Facebook. Eu já escrevia, mas só para mim, e passei depois a partilhar um texto acompanhado de uma fotografia, consoante iam “saindo”… Então, surgiu a oportunidade do Banif fazer uma exposição de fotos com este conceito, que passou pelo Pico e por S. Miguel. Depois, surgiu o convite para o livro. Mas, indiscutivelmente, a raiz do livro no seu formato (não na essência) nasceu na rede social.

 
CC- O que é que mais gratificante – escrever ou fotografar? Ou um não faz sentido sem o outro?
RG- Cada um tem finalidades diferentes. A poesia é um encontro comigo, uma libertação, uma pausa que faço na vida do meu círculo profissional que é muito racional e onde tenho de ter um discurso muito directo, usar a voz activa, ter ausência de adjectivação mas ser criativo nessas limitações. Sinto a necessidade de estar algum tempo a escrever depois com emoção (que tem de faltar no jornalismo para haver objectividade). A poesia é quase uma catarse.
Enquanto a poesia é a pausa, a fotografia é o momento. Momentos que ficam registados e que servem para ver e sentir para além do que vemos.
Uso muito esta frase para resumir o livro: a poesia é a fotografia da alma e a fotografia é um poema do olhar.



CC- Esta pergunta é inevitável, apesar de não ter relação directa com este livro: como é que encara este fenómeno, à escala nacional, dos pivots de Telejornal escreverem livros?
O serem figuras públicas muito conhecidas é uma forma de promover mais a obra? Em termos práticos, é possível separar o apresentador de televisão do autor?

RG- As pessoas terão sempre uma reacção… Nem que seja “Não sabia que ele escrevia!”… Não vou negar – apesar de não ser o meu caso! – que há um oportunismo a nível nacional, um aproveitamento do ser-se figura pública para se publicar livros. Normalmente, são romances ou biografias; não conheço nenhum que tenha publicado poesia ou fotografia. Muitos deles publicam para ganhar dinheiro também.
Tenho plena consciência de que fiz exactamente o oposto com este livro – em vez de aproveitar o mediatismo (se é que posso falar em tal nos Açores) para escrever, esta partilha é a fuga ao mediatismo. Aqui, fujo à pressão e à exposição do jornalismo. Gosto de estar no mundo das emoções e do silêncio, de me encontrar comigo, porque a felicidade está dentro de nós… Não tenho objectivos comerciais com este livro. Quero partilhar, porque partilhamos pouco no mundo. E também quero sublinhar isto - eu não escrevo para a Literatura; escrevo o que sinto. Não escrevo para marcar, para entrar no campo da análise ou para entrar nesse mundo restrito que é o mundo literário. Escrevo as minhas emoções. Não estou preocupado com a crítica literária. Porque posso garantir que tudo o que ali está é genuíno e não fabricado e era essa genuinidade que me interessava. Estou consciente das minhas limitações enquanto escritor, quero dizer, não é por aí que quero realizar-me.


CC- Há uma citação de Alberto Caeiro que abre o livro dizendo “Ser poeta não é uma ambição minha / é a minha maneira de estar sozinho.” Não é paradoxal que essa forma de estar sozinho (que é fazer poesia) seja ao mesmo tempo uma forma de se dar a conhecer, partilhando?

RG- …É. Isso não está aí por acaso.
A poesia é a minha forma de estar sozinho mas, ao mesmo tempo, penso que vivemos numa sociedade pouco partilhável, e que não devemos ter medo de partilhar. Pode ser paradoxal o facto de partilhar poemas… Como diz o Lobo Antunes, a partir do momento em que o livro “sai”, ele deixa de ser meu. Mas não deixa de ser o meu modo de estar sozinho, porque os textos foram construídos solitariamente e a minha ambição quando eles foram feitos não passava por ser poeta… Eu próprio estou a interrogar-me sobre essa paradoxalidade agora, porque nunca me tinham feito essa pergunta! Mas é isso – vivemos numa sociedade de imagens e de aparências, onde há imenso medo de mostrar as emoções… Além disso, surgiu esta oportunidade, a reacção das pessoas foi boa e gosto da ideia de ter este registo para mais tarde sorrir … perante a seriedade e a entrega com que os fiz. Estes textos são momentos e olhares interiores, alguns exteriores, alguns até de notícias que dei e transformei aqui …


CC- Podemos contar com mais livros no futuro?

RG- Não sei. Prefiro saborear o momento. A nível de livros, gostava de fazer outro projecto, sem ser necessariamente poético; pode até passar pela área do jornalismo. Mas a época é de crise; os livros, para muitos, não são bens de primeira necessidade… Não gosto de pensar no futuro, mas tenho esse sonho, que já deixou de ser utopia.

Friday, October 28, 2011

Manteigueiros


Manteigueiro é uma profissão antiga mas, dada a actual situação económica, está cada vez mais em voga. Nos Açores, talvez devido à enorme profusão de vacas sorridentes, como foi notado pelo Presidente da República aquando da visita ao torrão do Corvo, e da consequente produção de lacticínios, ser manteigueiro é profissão de grande futuro.

O manteigueiro encontra-se, sobretudo, em posições de chefia intermédia, embora haja manteigueiros aspirantes que ainda não alcançaram a mestria suficiente para lá chegarem. O manteigueiro dá, graciosa e generosamente, manteiga a todos aqueles que considera estarem hierarquicamente numa posição favorável ou, tão somente, visível. Como a hierarquia é fugaz, flutuante, volúvel e outros adjectivos efémeros neste mundo de enganos, o manteigueiro tem imenso trabalho porque lhe cabe a árdua tarefa de distribuir manteiga a muitos. De facto, a uma multidão. E não raro, o infeliz manteigueiro se vê na posição de ter de dar manteiga a quem – por inépcia profissional – anteriormente desprezou. Em tais casos, é justo dizer que o manteigueiro enfrenta muito bem a situação: o nariz que antes todo se retorcia à presença do outro como se este fora um insecto dá agora lugar à vénia que respeitosamente se desdobra perante a mesma personagem como se ele fora um nobre. Da mesma forma, o coração do manteigueiro é como o da Maria Bethânia naquela canção do Adeus, isto é, “não guarda memória de quem já passou”, embora, no caso particular do manteigueiro, ele guarde um back-up para o caso da hierarquia se lembrar de ressuscitar personagens e de essas personagens lhe poderem ser úteis.

“Utilidade” é o slogan que rege a vida do manteigueiro. Desenganem-se todos os que vêem no manteigueiro apenas um servidor – e mais ainda se iludem os que nele vêem um servidor fiel. Para o manteigueiro, “fiel” é nome de cão e não tem outro significado. Quanto a ser servidor, claro que sim, ele é mais do que isso – é servil, mas com o único intuito de se aproveitar de quem serve. A psicologia do manteigueiro é complexa porque radica na mais profunda antinomia do ser humano – ele mostra-se submisso para melhor dominar. O manteigueiro não ignora que é com mel que se apanham moscas. Mais do que isso, ele está plenamente convicto de que a hierarquia apenas escolheu moscas, tontas e sedentas de que alguém lhes dê um bocadinho de mel para não se sentirem tão tontinhas. Convencido da sua superioridade e maldizendo a sua pouca sorte de não ter (ainda) sido escolhido para líder, o manteigueiro - que não possui qualquer tipo de escrúpulos e é profundamente hipócrita - dá aos seus superiores o que eles precisam para se sentirem bem: elogios. Elogia-os tão profusamente e com um ar tão sincero e repleto de devota e fingida escravidão que eles ficam a precisar dele para tudo. E assim, devagarinho e insidiosamente, dento de algum tempo o (suposto) chefe só se mexe para o lado que o manteigueiro ordena, perdão, sugere. Sugere com o toque de mestre “parece-me que é isto o que fazia V. Excª parecer melhor na fotografia!”. S. Excª fá-lo imediatamente e ainda agradece ao manteigueiro!

O manteigueiro, embora ufano do seu poder e domínio, vive sempre em secreto ódio contra aqueles a quem dá manteiga. Excepto, é claro, se receber o inusitado prémio de chegar à tribo superior. O manteigueiro é uma profissão sem problemas de mudança pois não tem limite de idade nem tão pouco exige currículo académico nem experiência profissional anterior. De igual modo, o manteigueiro distribui manteiga à esquerda e à direita, não tem cor política e não se preocupa com convicções ou filosofias, muito menos com questões éticas. De facto, há manteigueiros que se dizem firmemente crentes em algo ou seguidores de um caminho… Mas a experiência mostra-nos que são os mesmos que, passados poucos dias, têm a mesma força e convicção em afirmar-se crentes no oposto e seguidores de outra via. O manteigueiro confia numa coisa apenas: o melhor para si. O resto são modos de lá chegar. O manteigueiro com experiência sabe que não é, pois, suficiente dar manteiga apenas aos superiores hierárquicos… Muito longe disso! Efectivamente, é necessário manteigar aqueles que se encontram ao seu lado (seus concorrentes), pois a qualquer momento podem passar a ser seus chefes. De igual modo, o manteigueiro experiente não desdenha e até se compraz em manteigar os seus subordinados, porque não ignora que deles obtém toda uma panóplia de coisas que dão jeito, nomeadamente trabalhinho feito a tempo e horas, segredos mantidos a sete chaves, favores que lhe ficam a dever por terem trabalho ou promoções, e até uma certa adoração pacóvia vinda de algum mais falho de miolos, o que sempre sustenta a necessidade inesgotável que o manteigueiro tem de ser admirado por alguém.

A todos os jovens que desejam ser manteigueiros, recomenda-se hipocrisia, astúcia, olho vivo e paciência. São inúmeros os casos de manteigueiros promissores que apostaram no cavalo errado e, infinitamente pior, desprezaram o cavalo correcto, vindo depois a sofrer consequências muito funestas. Manteiguem, pois, o maior número de indivíduos que puderem, pois nunca se sabe qual deles é que vai ganhar.

Monday, October 24, 2011

A Boa Terra de Pearl Buck


A Boa Terra é uma obra ainda hoje polémica. Fala-nos de Wang Lung, camponês pobre e trabalhador mas fiel aos princípios de dever familiar e para com a terra que regem a China. Em contraponto, está a casa de ricos proprietários Hwang, cujo pequeno império começa a declinar devido ao esbanjamento e ao uso incontrolado de ópio. A mulher de Wang Lung serviu como escrava na casa de Hwang e foi comprada pelo marido: só isso serve para demonstrar todo um feixe de relações.

O-Lan, a mulher, tem vários filhos, inclusive uma deficiente mental cujo nome é irrelevante pois todos na família lhe chamam “pobre tonta” e ainda uma filha que sufocam à nascença por não ter comida para lhe dar. Wang Lung vive miseravelmente durante a seca, as migrações para a cidade, os abjectos negócios de compra e venda entre ricos e pobres mas trata os filhos com a severidade de um patriarca, ensinando-lhes que prefere deitar comida fora e passar fome do que comer o que eles tenham surripiado a outros. Com o tempo, porém, desorientado e cansado da desgraça, também Wang Lu roubará e se revoltará contra os poderosos. A reviravolta da roda da fortuna faz com que Wang Lu desonesto consiga lucrar na vida o que jamais lucrara com a honestidade: prospera, educa os filhos, compra terras a Hwang, torna-se um senhor. Wang Lung esquece os valores: um rico merece uma concubina… ou mais. Com a compra de concubinas, a família de Wang Lu passa a ser um núcleo de guerras constantes entre as suas mulheres e seus filhos. Wang Lung, velho, não tem paz; sente que falhou.

A Boa Terra é tão criticado quanto aplaudido. Muitos argumentam que a cultura chinesa não pode ser criticada tão linearmente por uma “estrangeira” e que os sistemas políticos, familiares e sociais do Oriente jamais serão entendidos pelo Ocidente. Outros defendem que Buck escreveu muito cuidadosamente, sem juízos de valor em adjectivos, com pura e simples descrição de um tempo e espaço em que ela própria viveu.

Pearl Buck ganhou o Nobel da Literatura em 1938 “pelas suas ricas, verdadeiramente épicas descrições da vida na China rural e ainda pelas suas obras-primas biográficas”. Não era uma “estrangeira”. A China foi onde Buck passou a maior parte da sua vida, apesar da sua cidadania americana. Aos três meses, muda-se para lá, com os pais, missionários; aprende a falar chinês clássico e inglês desde os primeiros tempos; foi a menina “Sai Zenzhu” para todos e “Pearl” apenas em casa; em adulta, escolhe também a China para viver com o seu primeiro marido (de quem herdou o nome “Buck”). O casal vive momentos difíceis nas revoluções tormentosas da China, acabando por se mudar para os E.U.A. e por se divorciar. Buck volta a casar, mas não mais regressa à China… Foi impedida de o fazer pelos oficiais de estado chineses que a acusaram de “imperialista americana”. Ironicamente, a sua prosa e a sua forma de estar revolucionária eram mal vistas na América. O amor de Buck pela China e pela Humanidade foi demonstrado toda a vida em inúmeras acções, nomeadamente na forte campanha contra a discriminação da pobreza na Ásia, na promoção de oportunidades para todas as crianças e numa rede de adopção (na época, o regime chinês considerava as crianças filhas de nacionalidades mistas uma aberração). Buck foi uma das primeiras defensoras do povo, por convicção e não por moda. Marginalizada por duas culturas, a sua lápide está escrita em pinyin, por desejo seu.

Tuesday, October 18, 2011

O Jogo das Contas de Vidro de Herman Hesse



O Jogo das Contas de Vidro é um romance que joga com a utopia do conhecimento absoluto numa comunidade de intelectuais brilhantes versus a vida secular, vibrante de sensações.
Num local imaginado (com muitas semelhanças com a terra Natal do autor e sem dúvida bebendo das suas experiências educativas), Hesse conta a história de um grupo de escolas de elite, onde só os verdadeiramente dotados se dedicam ao estudo das ciências e das artes. O Jogo por eles gerado é a consagração de todas as disciplinas em conjunto, espécie de linguagem universal onde se relacionam valores e símbolos. Os jogadores fazem conciliações harmónicas de temas inicialmente paradoxais, partindo de qualquer proposição científica ou questão artística. A simbologia inerente a esta batalha mental é a “busca da perfeição, uma aproximação ao espírito que, para além de todas as pluralidades, é Um em si mesmo.”

Limando a vida até à unidade máxima, espera-se dos jogadores que sejam o ideal do Homo Universalis. As escolas são uma comunidade fechada em si própria, vivendo num tempo futuro em relação ao nosso, desprezando os académicos vulgares e pseudo-intelectuais e criticando altivamente a mesquinha materialidade e a vaidade inflamada da sociedade pública. Josef Knecht, magister ludi da Academia, homem empático e questionador, acaba por interrogar-se se sua tarefa é mais útil do que a vida de um preceptor juvenil ou do que a de um homem do campo. Dando-se conta da esterilidade que regula a vida da Academia, Knecht não pode continuar a defendê-la e abraça a vida “real”; por seu lado, a Academia teme-lhe a coragem e o carácter e etiqueta-o como perigoso.

Herman Hesse ganhou o Prémio Nobel em 1946 pela sua “escrita inspirada, que, embora sempre crescente em ousadia e espírito de penetração, nunca deixou de ser exemplo dos ideais clássicos humanitários e das mais altas qualidades”. O Prémio surgiu após a supressão das suas obras na Alemanha nazi, de onde era natural. Hesse nunca acedeu a ser igual à sua “tribo”, apesar dos desconfortos. Trocou de nacionalidade e abraçou a multiculturalidade em pleno – “que a diversidade em todas as formas e cores possa viver neste mundo” proclamou Hesse aquando do Nobel.

Sunday, October 16, 2011

A Parada Alegre


O Correio da Manhã noticiou: “Governo dos Açores promove parada gay em S. Miguel em 2012”. Agora, escolha o que isto é: 1) uma notícia do dia 1 de Abril; 2) uma anedota; 3) um erro de impressão. Nenhuma das opções referidas; ao que tudo indica, a notícia publicada em Setembro último está correcta. O Governo Regional vai promover uma Gay Parade.

Primeiro, quero esclarecer que não tenho absolutamente nada contra quem é gay. Aliás, seria ridículo eu achar-me no direito de ser contra ou a favor da opção sexual de cada um. Também não dou a ninguém a confiança de se pronunciar sobre a minha – muito menos ao Estado, a quem não me ocorre, em caso algum, que vá promovê-la. Que tem o Estado a ver com isso? O Estado promove muita coisa, e ainda bem, mas promover questões sexuais parece-me totalmente descabido. Imaginem se ao Estado lhe dá para promover a castidade. É que se lhe damos o direito para se pronunciar e deliberar sobre assuntos da nossa vida mais privada e íntima, sujeitamo-nos ao que daí advier.

Também não tenho nada contra as famosas Gay Parades. Aliás, vivi em locais onde elas existiam: Holanda e Canadá, e também cheguei a assistir na Dinamarca e nos E.U.A. São eventos cheios de cor, espécie de corso de Carnaval temático e com uma função muito particular. Nem todos os homossexuais acham interessante a participação numa Gay Parade, como é natural. Esta história de meter os homossexuais todos dentro do mesmo saco é discriminatória, por si só. Os homossexuais, como os heterossexuais (não seria preciso dizê-lo, mas parece que é…) são um grupo heterogéneo – há os tímidos e os extrovertidos, os recatados e os histriónicos, os que têm uma data de parceiros e os que vivem em união com o mesmo há muito tempo. Alguns casaram. O primeiro casamento entre homossexuais nos Açores aconteceu em Agosto de 2010. O casal Carlos e Manoel teve de lutar contra uma tonelada de burocracia e preconceitos. Tudo isso exaspera, dói e massacra.

Mas o ponto aqui não é a questão dos direitos dos gay ou de como o mundo de hoje devia ter abertura de espírito e não tem. Há muitos direitos que deviam ser respeitados, por fazerem parte dos direitos inegáveis a todo o ser humano, mas que são espezinhados todos os dias junto à nossa porta. A questão é que o Governo deve executar medidas para que os direitos dos cidadãos sejam respeitados. Sem qualquer dúvida. Dentro de tais medidas, no caso em concreto, farão parte, com certeza, a desburocratização para que mais gay possam casar-se sem que as autoridades emperrem o caso como se fosse pecado; farão parte eventualmente acções junto da população mais jovem para que os jovens gays não sejam discriminados pelos colegas mais violentos (como tanto se vê…); fará parte o que o Estado entender por bem fazer para preservar os direitos das pessoas.

Mas uma Gay Parade não é propriamente isso. É uma manifestação e, como todas as “manif”, vai quem sente na pele os problemas que advém da condição e ainda assim não vão todos, mas apenas os que concordam que desfilar pelas ruas é solução. Todas as “manif” são, indubitavelmente, movimentos de cidadãos ou de associações comunitárias. Não são promoções e organizações estaduais. Porque, obviamente, uma “manif” protesta contra o status quo. O Governo vai organizar uma “manif” para protestar contra um estado de coisas que se vive nos Açores… quando ele é o organizador da nossa sociedade?! O papel de protestante cabe aos cidadãos, senhores, não ao Governo! Quando muito, o Governo poderá apoiar as instituições que queiram expressar-se deste modo.

Claramente, nos Açores sofremos de um problema que começa a ser crónico. O Governo passou a ser o Pai de todos. Não há nenhuma iniciativa que o Governo não subsidie, não organize, não pague, não decida. E todos, filhos dependentes e nunca maiores de idade, ficam sem autonomia mas também sem voz. Isto é muito confortável para os filhos que vivem sempre à custa de. Simplesmente, não podem jamais dizer que algo está mal... De vez em quando, chega-se ao ridículo de situações como esta que não se passam noutros locais, onde o promotor se ridiculariza a si mesmo (será que sem dar por isso?).

Portanto, a partir de agora quem quiser fazer uma “manif” basta contactar aqueles contra quem protesta. Eles organizam e promovem. Parece-vos estranho? Bem, não tão estranho quanto ver a “manif” em si. Sim, porque isto das Gay Parade são basicamente Drag Queens em desfile. E eu sempre gostava de saber quem é que irá predispor-se a representar o Governo – promotor do evento – para desfilar como Drag Queen à cabeça deste corso. Não me digam que, protocolarmente, tinham esquecido esta obrigatoriedade?

Friday, September 30, 2011

A diferença


Ontem, visitei o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos. Teria sido uma visita como tantas outras, já que perdi a conta às vezes que visitei este Centro desde o dia da inauguração até hoje. Mas foi completamente diferente, porque o guia da visita era uma senhora cega – sei que está na moda dizer “invisual”, mas eu gosto de palavras puras e não percebo porque assusta e incomoda a frontalidade das palavras quando elas são bonitas e não agressivas.

O Centro de Interpretação do Vulcão inaugurou ontem a sua sinalização em braille. Não é coisa pouca, sobretudo porque a Vanda – nossa guia, moradora no Faial – explicou que existem muito poucas instituições em Portugal que tenham instalado esta facilidade. A Vanda Ângelo não fala de cor. Fala porque viaja e conhece. Gosta de novos lugares, sobretudo “espaços com boa sonoridade” – as grutas, as igrejas. Conhece Roma e Paris. É com alguma insatisfação que diz que o Museu do Louvre não tinha ainda sinalização em braille quando ela o visitou. Mas como é optimista confia que é possível que já a tenham adoptado.

Connosco, estavam outras pessoas com deficiências visuais. Graças a elas, fomos aprendendo a “ver” o Centro de outra maneira. Excepto o Farol, que elas podem visitar mas apenas acompanhadas por alguém – até porque o Farol é complicado. Por desconhecimento meu, não sei até que ponto o seria realmente, porque a Vanda já subiu a Montanha do Pico. E, aliás, reclamou porque não esta não tem (ainda…) sinalização em braille.

No Centro, para além da sinalização em braille no chão, que dá indicações sobre direcções, existe ainda sinalização nas paredes e um guia. O guia é suficientemente extenso para que se compreenda tudo o que está no Centro e, além disso, explica pequenos detalhes essenciais à visita.

A Vanda explicou que, nos Capelinhos, está tudo sinalizado em braille em português mas também em inglês, o que se compreende facilmente - o braille não é uma linguagem; é uma forma de representar línguas de forma táctil e, como tal, é naturalmente arranjado de forma diversa consoante a língua que se propõe representar.

Dado que sofro do egoísmo que assalta todos os seres humanos, disse-lhe que só me tinha dado realmente conta das necessidades prementes das pessoas com diferenças quando na minha família nuclear nasceu um surdo profundo. Também só aí, e porque tive de começar a aprender, me apercebi que a Língua Gestual Inglesa é uma coisa e a Língua Gestual Portuguesa é outra língua diferente. Infelizmente, também só nessa época entendi que o mundo não está minimamente preparado nem organizado para pessoas que têm uma única limitação sensorial, por mais dinâmicas, inteligentes e ultra-sensíveis que sejam.

Hoje em dia, já não tenho um surdo na família. Ele já ouve - apesar de eu, como todas as mães, me queixar de que “ele só me responde quando quer…!” Não posso negar que fiquei feliz com o reverter da situação. Mas nunca deixei de ser atenta a estas coisas que dantes me passavam ao lado.

É por isso que ontem foi a minha melhor visita ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos e o melhor Dia Mundial do Turismo que passei. Dou os parabéns sinceros à Azorina, que rege o Centro, e à Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial porque sei que foram muitos os envolvidos para que isto se realizasse.

Termino com uma pergunta do poeta inglês Edward Young: “Todos nascemos originais – porque é que tantos de nós morrem sendo cópias?” que eu penso ter sido muito bem respondida pelo americano e.e.cummings “Sermos apenas nós mesmos num mundo que faz o seu melhor por nos tornar iguais aos demais é travar a mais árdua batalha humana e a única que nunca termina."