... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, November 25, 2011

A epidemia da doença mental


Li no jornal o caso de uma menina de 12 anos que tinha sido adoptada e foi devolvida porque os (então) pais adoptivos, moradores em Lisboa, dizem que ela “sofre de esquizofrenia grave”. Não faço julgamentos sobre a vida íntima, mas há mesmo que levantar a voz neste caso. O casal teve a menina em sua casa menos de um mês, altura em que percebeu que ela “fazia teatrinhos e falava com amigos imaginários, era demasiado tranquila e isolada e tinha dificuldade em criar laços emocionais”. Finalmente, decidiram-se a falar mais intimamente com ela e foi quando, dizem eles, a menina confessou que “falava com a irmã gémea que morreu mas que continuava dentro dela e ouvia vozes dentro de si”. O casal, a beirar o meio século e com idade para ter juízo, diz que percebeu “num fim de semana” que havia ali um quadro de esquizofrenia, contactou a instituição onde a menina vivera seis anos e foi informado de que “ela não tinha nenhum quadro clínico, mas tomava um psicotrópico, que é dado a casos de esquizofrenia ou de dupla personalidade.” 

É só a mim que isto me parece um caso de Polícia e não de Psiquiatria? E, caso seja de Psiquiatria, o paciente não é, de certeza, a menina de 12 anos!...
Não vos parece normal o isolamento inicial de uma menina que chega a uma casa estranha, habitada por estranhos? Não seria invulgar que ela criasse laços emocionais em tão pouco tempo? Não é saudável uma criança brincar aos teatrinhos? Não é comum às crianças e aos adultos terem saudades dos entes importantes da sua vida que já partiram e sentirem-nos como se continuassem presentes dentro de si? No caso concreto, isso será tanto mais exacerbado quanto essa pessoa importante e falecida é provavelmente o ideal de família e estabilidade desta criança e, portanto, bem se pode compreender o que essa perda representou. “Anormal” e, seguramente, sem sentimentos, seria o ser humano que não se sentisse perdido e só.

O que me parece invulgar aqui são outras duas coisas. Primeiro, estes “pais” que não viram nenhuma destas evidências e que, pelo contrário, esperavam uma menina perfeita e pronta-a-usar, que respondesse com um abraço quando se carregasse no botão dessa “função”. Depois, a leveza e irresponsabilidade com que eles diagnosticam um problema severo em dois dias (já não se entrevistam os proponentes a adopções?). Segundo, a instituição que administra, com a mesma displicência, psicotrópicos a crianças.

Não é por acaso que a esquizofrenia é detectada no início da juventude (isto é, depois de terminada a adolescência). É precisamente porque, antes disso, as respostas emotivas bizarras, os pensamentos desorganizados, as alucinações, as falsas crenças e a falta de distinção entre o real e o imaginário que caracteriza a doença não podem ser facilmente destrinçados da vida usual de um adolescente com hormonas saltitantes e muito menos da de uma criança, em cujo mundo a fantasia desempenha um papel preponderante na aprendizagem e quantas vezes de saudável escape (ao contrário do que devia acontecer na vida adulta). Só depois da passagem para esse mundo cognitivo e emocional adulto se podem determinar que certos processos de pensamento desintegrado ou de descontexto emocional são esquizofrénicos. Antes, poderão ser simples brincadeiras, fases de crescimento, etc, etc.

Para além disso, o uso de psicotrópicos em quem quer que seja tem efeitos severos. São drogas fortes que actuam no sistema nervoso central, elas próprias alterando o comportamento, o humor e a cognição, quantas vezes de forma negativa. Todo o psicotrópico cria dependência. Como diz um psiquiatra que é tio de um bom amigo meu: “Se fores são mas tomares estes remédios, deixas de o ser em pouco tempo.” Posso imaginar o efeito pernicioso e devastador que estas drogas têm numa criança. Dá-las a uma menina pequena devia ser considerado crime, porque o é, de facto. Uma instituição que o faz não devia continuar a ter menores ao seu cuidado. Está a criar doentes que não existiam e a contribuir para a taxa de perturbados na sociedade.

A terminar, aponto outra situação: uma educadora de infância aconselhou os pais de um menino de 4 anos a darem-lhe calmantes porque ele “era hiperactivo” e, segundo a experiência dela, beneficiaria disso...

As pessoas parecem estar esquecidas que as crianças são ruidosas, brincam, saltam, fazem teatros, têm amigos invisíveis, choram, riem, são tímidas e envergonhadas hoje, atrevidas e respondonas amanhã, não gostam de colos que não conhecem, têm saudades, gostam de mimos, confundem-se e fazem partidas, são… crianças saudáveis. Se querem robots, encomendem um pela internet. 

Sunday, November 13, 2011

Ilhas à Venda



Em Março do ano passado, apareceu a notícia “Ilhas gregas são vendidas para fazer frente à crise que o país enfrenta”. Não se tratava das ilhas turísticas que todos bem conhecemos, aquelas que fazem parte do circuito habitual dos iatistas nos Mares Egeu e Jónico; nem tão pouco de ilhas habitadas. Tendo em conta que a Grécia possui mais de seis mil ilhas, e que apenas pouco mais de duzentas têm habitantes, o país bem podia vender algumas das desabitadas a excêntricos milionários. Afinal, quem, tendo dinheiro para tal, não gosta da realidade fílmica de possuir uma ilha no Mediterrâneo?

No entanto, muito em breve se colocou outra questão. Porque não vender ou talvez alugar por um prazo longo algumas das ilhas mais turísticas (e habitadas)? Aí, já se começou a falar de ilhas tão conhecidas como Mykonos e Rhodes. Falou-se até da venda de parte dessas mesmas ilhas. Ninguém explicou muito bem como se faria a divisão: metade da ilha pertencia ao Governo Papandreou e a outra metade ficava na posse de um privado? Onde se traçava a linha imaginária que ia dividir a ilha a meio? Que direitos tem o privado face às casas e aos habitantes que moram na sua parte da ilha? Quem lá se desloca está, automaticamente, a trespassar terreno de outrem? E se o privado não fosse da União Europeia, os gregos que morassem na parte grega da ilha teriam de se munir de passaporte sempre que quisessem ir a esse terreno visitar a família que lá morava? Confuso…

Os factos, porém, eram os seguintes: os dirigentes alemães – qui d’autre?... – aconselharam a medida de venda de ilhas ao Governo grego para fazer face ao défice público. Claro que tal conselho surgiu na sequência da ajuda da União Europeia e do empréstimo do FMI à Grécia. Os gregos “ganharam” 110 mil milhões de euros emprestados com juros e, com eles, uns quantos “conselhos” sobre como os pagar rapidamente. O Financial Times e o The Guardian especularam amplamente sobre o quanto podia render uma ilha grega ao Governo grego. Qualquer coisa como 2 a 15 milhões de euros. Nada de se desprezar. Investidores chineses e russos e milionários conhecidos como Abramovich manifestaram imediato interesse na compra dos paradisíacos bocados de terra e tinham planos para magníficos investimentos nos locais.

Foi possível entrar em portais da net e “ver” certas ilhas à venda. Como exemplo, Nafsika, uma ilha do mar Jónico, estava em leilão por 15 milhões. Mas nem todas estavam tão bem posicionadas. Algumas ilhas vendiam-se por cerca de 2 milhões, ou seja, menos do que uma casa em certos bairros de Londres. Makis Perdikaris, director de uma empresa chamada Greek Island Properties, afirmou estar duplamente entristecido por “vender terreno do seu país e do povo grego” e ainda por ver que este era “o último recurso” da Grécia. Analistas internacionais acharam o caso “uma vergonha”; outros, com a mesma leveza, declararam que esta acção “prova[va] que a Grécia esta[va] a levar a sério o pagamento da sua dívida externa.”

Entretanto, vieram desmentidos a público a par de re-afirmações da notícia e, apesar de eu ter muitos amigos gregos que vivem nos mais diversos locais da Grécia, nunca fui capaz de apurar ao certo se o Governo tinha vendido as ditas parcelas de ilhas ou não. E isto porque os gregos, actualmente, são os últimos a saber o que lhes acontece. Eu mesma já cheguei a informá-los de coisas que vi na televisão e que eles ainda não sabiam. Há uma espécie de sonegar de informação, suponho que – como eles me disseram – “para manter o povo sossegado e evitar uma revolução”.

Como todos sabemos, as últimas notícias reportaram que a Alemanha está disposta a perdoar à Grécia metade da dívida desta. Ora, todo o perdão tem pouco de magnanimidade e muito de troca, como bem nos tem ensinado ao longo da História a Santa Madre Igreja. Pessoalmente, estou em crer que o perdão alemão está de olho no enorme exército da Grécia. À conta de muita guerra no curso dos tempos com os seus vizinhos turcos – para além de uma enorme complexidade com os macedónios e os cipriotas – e da sua posição geográfica mais ou menos frágil, a Grécia não abdica de um exército fenomenal. Para além de ter serviço militar obrigatório durante 9 meses (sem qualquer excepção para estudos) para todos os rapazes e serviço militar voluntário para as raparigas, a Grécia ainda hoje é o maior importador de armas da Europa e gasta muito do seu PIB em armamento. Curiosamente, segundo aqueles labirintos políticos do costume, os países europeus que cobram a dívida à Grécia (e.g. França e Alemanha) são os mesmos que lhe vendem armas… Mas claro que é bastante mais simpático receber o dinheiro do armamento, perdoar uma dívida e ainda ficar com o maior exército vivo da Europa a lutar por nós e sob o nosso comando, quando e se a gente quiser…

Estou a contar uma pequena parte desta historieta porque agora com as medidas da Troika me ocorreu que Portugal não tem, nem de perto nem de longe, um exército que interesse à Sra Merkel. Que moeda de troca lhe havemos de dar? O Algarve seria uma boa ideia, mas os ingleses já o foram comprando devagarinho e o que resta não dá nem para saldar uma dívida de mercearia. E se fossem as ilhas, como primeiro ocorreu ao cérebro Papandreou? Ah, mas felizmente, nós, ilhas dos Açores, temos uma sorte estupenda. Primeiro, porque turisticamente somos quase desconhecidos. As pobres das ilhas gregas, não lhes bastava terem um clima espectacular como ainda estão no berço da Civilização Ocidental e atreveram-se a fazer do turismo a sua primeira fonte de recursos, tendo quem as visite por razões históricas e quem as visite por razões de sol e mar. Já os Açores, abençoados por Deus com um capacete de brumas quase todo o ano, e historicamente muito pouco relevantes no contexto mundial (vá… convenhamos!), não podem ter tais pretensões. Há mapas-mundo que nem contemplam a representação dos Açores. Temos muitíssima sorte!

A Grécia recebe uma média de 18 milhões de turistas por ano e a esmagadora maioria destes vai visitar as ilhas. Os que de entre vós conhecem as ilhas gregas saberão que, se não fossem os turistas, elas não teriam muito mais de onde retirar lucro, para além de ovelhas, azeitonas e laranjas. Dizem-me que os Açores têm cerca de 160 000 turistas por ano - não encontrei estatísticas e acho um número inflacionado, mas ainda bem que não são mais! Ovelhas não temos, mas não esqueçamos que as nossas vacas parecem bastante felizes, segundo foi apreciado pelo próprio Presidente da República. Mas angustia-me o facto de, contrariamente à Grécia, possuirmos tanta boa infra-estrutura a todos os níveis: hotéis, marinas, estradas, restaurantes. Nas ilhas gregas, isto é tudo caseiro e rural. Só para dar um exemplo, em toda a Grécia, só há 50 marinas… Quem quiser amarrar barcos, amarra em bóias e salta para terra (o que nunca impediu ninguém de lá ir anualmente, inclusive eu mesma que por lá andei a navegar).

Porque é que estou angustiada com isto? Porque imaginem se, por um infeliz acaso, um dirigente alemão – não esqueçamos que estes povos do Norte acham que Açores é “tropical” – tem a infeliz ideia de saber da nossa existência e sugerir a nossa venda ou aluguer ao Governo português? A minha grande esperança é que, dado que ninguém nos dá qualquer importância, se esqueçam que cá estamos. Caso contrário, imagino já o leilão na internet do Corvo, de Santa Maria, da costa norte de São Miguel… Felizmente, nós não valemos tanto que alguém nos queira comprar; aliás, nós damos muita despesa… Recordo um célebre estudo, defendido publicamente, da Universidade dos Açores que reflecte o assustador gasto que é manter cada ilhota açoriana cheia de povinho. Portanto, graças a Deus, ninguém nos há-de querer. Mas, pelo sim, pelo não, o melhor é não fazermos muito barulho. A não ser que queiramos aparecer no E-Bay com uma etiqueta: “Vende-se ou aluga-se. Usado mas em estado razoável. Terreno produtivo. Clima húmido, nevoento, chuvoso, deprimente. Povo tranquilo e conservador, habituado a obedecer sem custo. Vacas felizes.”

Friday, November 11, 2011

DNA - Do Not Ask


Há poucos dias, li uma entrevista no “Público” feita a Torsten Heinemann e a Thomas Lemke, investigadores da Goethe Universität de Frankfurt que estiveram em Portugal a participar num seminário de Patologia e Imunologia no Porto. À primeira vista, pode parecer estranho que dois homens das Ciências (ditas) Humanas tenham vindo a tal encontro, mas a razão é simples: Heinemann e Lemke dedicam-se actualmente ao projecto “DNA and Immigration” que estuda as implicações éticas e sociais da análise de ADN enquanto sistema usado na política de imigração europeia.

Confesso que foi uma surpresa saber que alguns governos europeus usam, desde há anos, as análises de ADN como forma de travar a imigração para os seus países. Isto tem peso sobretudo na questão do reagrupamento familiar, em que os candidatos têm de passar pelo teste de ADN para provar que são filhos biológicos do imigrante em causa e da sua legítima mulher, tal como consta da certidão de nascimento. Na prática, isto significa que tanto os filhos adoptados como os que resultaram de processos de fertilização tecnológica (in vitro, doações de esperma ou de óvulos) ou os filhos de relações anteriores que coabitem com este casal têm a entrada no país automaticamente negada e devem, portanto, permanecer num país diferente do pai se este continuar a optar pela imigração. Escusado será dizer que outras relações familiares com laço biológico (e.g. pais ou avós do imigrante em causa ou seus filhos biológicos maiores de idade) ou sem este laço (e.g. unidos de facto) são automaticamente recusadas.

Heinemann e Lemke estudam a aplicação deste sistema sobretudo na Alemanha, embora estes testes sejam utilizados por 21 países, dos quais 16 são europeus. Teoricamente, não se pode obrigar o imigrante a sujeitar-se ao teste, mas quem não o fizer tem a entrada negada. Não são aceites razões culturais, religiosas ou éticas para a recusa. Nalguns países, é o imigrante quem tem de pagar o teste; noutros, não. Há ainda a interessante variável de (pasme-se!) o sujeito apenas ter de pagar se o resultado se apresentar negativo para ele. Os perfis de ADN ficam na posse dos governos e podem ser usados para identificações criminais, desde já diminuindo a presunção de inocência de um imigrante no contexto da Lei.

Como se prevê, há casos caricatos. Por exemplo, um viúvo africano que teve de submeter dois filhos ao teste e descobriu que um não era seu… Essa criança, órfã recente de mãe, teve de ficar na Somália, enquanto o pai e o irmão emigravam para a Alemanha. Como se vê, é humanamente desastroso, mas bastante eficaz do ponto de vista governamental de “travão” à imigração.

Pessoalmente, tenho a mesma opinião que estes investigadores  que são peremptórios ao afirmar que a noção de família não se restringe à biologia; pelo contrário, é uma noção plural e larga que faz parte do conceito de vida do cidadão alemão – porquê negar um direito básico usufruído por este ao cidadão que vem de fora? Tal negação tem efeitos catastróficos, desde já na integração do imigrante, que vê membros importantes da sua família nuclear excluídos do seu dia a dia sem razão para tal.

Acredito no slogan que surgiu quando a febre dos clones se tornou moda: DNA pode traduzir-se por “Do Not Ask”. Nenhum governo devia arrogar-se o direito de comparar códigos genéticos para decidir se ficamos ou não com aqueles que escolhemos por Amor. Utilizar algo tão pessoal e ademais tão acidental como a biologia de um indivíduo para decidirmos da sua vida é brincar aos deuses e, no caso concreto, aos deuses territoriais e cruéis, fazendo de outros seres humanos as nossas casinhas do tabuleiro do monopólio. Isso terá, decerto, um preço muito caro no futuro.

Heinemann e Lemke consideram que a (sua) Alemanha é o país que aplica os testes de ADN de forma mais implacável, seguindo à risca a genética e sem consideração pelo aspecto humano.

Vagamente, do fundo da memória, salta o nome de Josef Mengele, o médico “Anjo da Morte” que, há 60 anos atrás, fazia experiências nos campos de concentração alemães, transformando meninos de olhos escuros em exemplares de olhos azuis.

Não será que, lenta e suavemente, estamos a caminhar num sentido hitleriano? Nada disto é muito publicitado porque a opinião pública de hoje em dia, informada através dos media, iria revoltar-se, tendo ainda a memória fresca de uma Europa que foi devassada por ideais de pureza genética. Mas terá mesmo isso presente? E não será que (devagar e com muita cautela para não assustar) a poderosa máquina dos economicamente mais fortes está a tentar, de novo, uma raça superior? 

Wednesday, November 9, 2011

Entrevista a Rui Goulart, autor de "A Identidade do Olhar"

CC- “A Identidade do Olhar” é um título que parece revelar muito do que é o livro, já que esta obra tem a particularidade de ser um conjunto de poemas mas também de fotografias, ambos fruto do mesmo autor…

RG- Sim. Confesso que procurei um título que pudesse dar uma janela do que é o livro. Não é por acaso que a capa do livro é uma janela virada para o mar e o basalto, uma foto tirada numa Casa dos Botes em ruínas que tem muito a ver comigo pela ligação ao mar. N’”A identidade do olhar” a fotografia não é uma legenda do texto; é apenas uma viagem que eu proponho – indico o caminho, mas depois ausento-me e o leitor segue ou não. A fotografia e a poesia são ambas muito subjectivas. Existe uma relação entre as duas neste livro, e eu sei que há a tentação das pessoas a procurarem, mas essa relação não é directa nem tão pouco obrigatória entre o título e corpo dos textos e as fotografias. A relação é pessoal, embora a construção foto-texto tenha sido feita em fases diferentes e nem sequer tenha sido pensada como tal inicialmente.

 
CC- Sei que este livro começou por ser uma partilha na internet. Como é que se deu esse início?
RG- É verdade. Penso que este deve ser o primeiro livro na região que nasceu no Facebook. Eu já escrevia, mas só para mim, e passei depois a partilhar um texto acompanhado de uma fotografia, consoante iam “saindo”… Então, surgiu a oportunidade do Banif fazer uma exposição de fotos com este conceito, que passou pelo Pico e por S. Miguel. Depois, surgiu o convite para o livro. Mas, indiscutivelmente, a raiz do livro no seu formato (não na essência) nasceu na rede social.

 
CC- O que é que mais gratificante – escrever ou fotografar? Ou um não faz sentido sem o outro?
RG- Cada um tem finalidades diferentes. A poesia é um encontro comigo, uma libertação, uma pausa que faço na vida do meu círculo profissional que é muito racional e onde tenho de ter um discurso muito directo, usar a voz activa, ter ausência de adjectivação mas ser criativo nessas limitações. Sinto a necessidade de estar algum tempo a escrever depois com emoção (que tem de faltar no jornalismo para haver objectividade). A poesia é quase uma catarse.
Enquanto a poesia é a pausa, a fotografia é o momento. Momentos que ficam registados e que servem para ver e sentir para além do que vemos.
Uso muito esta frase para resumir o livro: a poesia é a fotografia da alma e a fotografia é um poema do olhar.



CC- Esta pergunta é inevitável, apesar de não ter relação directa com este livro: como é que encara este fenómeno, à escala nacional, dos pivots de Telejornal escreverem livros?
O serem figuras públicas muito conhecidas é uma forma de promover mais a obra? Em termos práticos, é possível separar o apresentador de televisão do autor?

RG- As pessoas terão sempre uma reacção… Nem que seja “Não sabia que ele escrevia!”… Não vou negar – apesar de não ser o meu caso! – que há um oportunismo a nível nacional, um aproveitamento do ser-se figura pública para se publicar livros. Normalmente, são romances ou biografias; não conheço nenhum que tenha publicado poesia ou fotografia. Muitos deles publicam para ganhar dinheiro também.
Tenho plena consciência de que fiz exactamente o oposto com este livro – em vez de aproveitar o mediatismo (se é que posso falar em tal nos Açores) para escrever, esta partilha é a fuga ao mediatismo. Aqui, fujo à pressão e à exposição do jornalismo. Gosto de estar no mundo das emoções e do silêncio, de me encontrar comigo, porque a felicidade está dentro de nós… Não tenho objectivos comerciais com este livro. Quero partilhar, porque partilhamos pouco no mundo. E também quero sublinhar isto - eu não escrevo para a Literatura; escrevo o que sinto. Não escrevo para marcar, para entrar no campo da análise ou para entrar nesse mundo restrito que é o mundo literário. Escrevo as minhas emoções. Não estou preocupado com a crítica literária. Porque posso garantir que tudo o que ali está é genuíno e não fabricado e era essa genuinidade que me interessava. Estou consciente das minhas limitações enquanto escritor, quero dizer, não é por aí que quero realizar-me.


CC- Há uma citação de Alberto Caeiro que abre o livro dizendo “Ser poeta não é uma ambição minha / é a minha maneira de estar sozinho.” Não é paradoxal que essa forma de estar sozinho (que é fazer poesia) seja ao mesmo tempo uma forma de se dar a conhecer, partilhando?

RG- …É. Isso não está aí por acaso.
A poesia é a minha forma de estar sozinho mas, ao mesmo tempo, penso que vivemos numa sociedade pouco partilhável, e que não devemos ter medo de partilhar. Pode ser paradoxal o facto de partilhar poemas… Como diz o Lobo Antunes, a partir do momento em que o livro “sai”, ele deixa de ser meu. Mas não deixa de ser o meu modo de estar sozinho, porque os textos foram construídos solitariamente e a minha ambição quando eles foram feitos não passava por ser poeta… Eu próprio estou a interrogar-me sobre essa paradoxalidade agora, porque nunca me tinham feito essa pergunta! Mas é isso – vivemos numa sociedade de imagens e de aparências, onde há imenso medo de mostrar as emoções… Além disso, surgiu esta oportunidade, a reacção das pessoas foi boa e gosto da ideia de ter este registo para mais tarde sorrir … perante a seriedade e a entrega com que os fiz. Estes textos são momentos e olhares interiores, alguns exteriores, alguns até de notícias que dei e transformei aqui …


CC- Podemos contar com mais livros no futuro?

RG- Não sei. Prefiro saborear o momento. A nível de livros, gostava de fazer outro projecto, sem ser necessariamente poético; pode até passar pela área do jornalismo. Mas a época é de crise; os livros, para muitos, não são bens de primeira necessidade… Não gosto de pensar no futuro, mas tenho esse sonho, que já deixou de ser utopia.

Friday, October 28, 2011

Manteigueiros


Manteigueiro é uma profissão antiga mas, dada a actual situação económica, está cada vez mais em voga. Nos Açores, talvez devido à enorme profusão de vacas sorridentes, como foi notado pelo Presidente da República aquando da visita ao torrão do Corvo, e da consequente produção de lacticínios, ser manteigueiro é profissão de grande futuro.

O manteigueiro encontra-se, sobretudo, em posições de chefia intermédia, embora haja manteigueiros aspirantes que ainda não alcançaram a mestria suficiente para lá chegarem. O manteigueiro dá, graciosa e generosamente, manteiga a todos aqueles que considera estarem hierarquicamente numa posição favorável ou, tão somente, visível. Como a hierarquia é fugaz, flutuante, volúvel e outros adjectivos efémeros neste mundo de enganos, o manteigueiro tem imenso trabalho porque lhe cabe a árdua tarefa de distribuir manteiga a muitos. De facto, a uma multidão. E não raro, o infeliz manteigueiro se vê na posição de ter de dar manteiga a quem – por inépcia profissional – anteriormente desprezou. Em tais casos, é justo dizer que o manteigueiro enfrenta muito bem a situação: o nariz que antes todo se retorcia à presença do outro como se este fora um insecto dá agora lugar à vénia que respeitosamente se desdobra perante a mesma personagem como se ele fora um nobre. Da mesma forma, o coração do manteigueiro é como o da Maria Bethânia naquela canção do Adeus, isto é, “não guarda memória de quem já passou”, embora, no caso particular do manteigueiro, ele guarde um back-up para o caso da hierarquia se lembrar de ressuscitar personagens e de essas personagens lhe poderem ser úteis.

“Utilidade” é o slogan que rege a vida do manteigueiro. Desenganem-se todos os que vêem no manteigueiro apenas um servidor – e mais ainda se iludem os que nele vêem um servidor fiel. Para o manteigueiro, “fiel” é nome de cão e não tem outro significado. Quanto a ser servidor, claro que sim, ele é mais do que isso – é servil, mas com o único intuito de se aproveitar de quem serve. A psicologia do manteigueiro é complexa porque radica na mais profunda antinomia do ser humano – ele mostra-se submisso para melhor dominar. O manteigueiro não ignora que é com mel que se apanham moscas. Mais do que isso, ele está plenamente convicto de que a hierarquia apenas escolheu moscas, tontas e sedentas de que alguém lhes dê um bocadinho de mel para não se sentirem tão tontinhas. Convencido da sua superioridade e maldizendo a sua pouca sorte de não ter (ainda) sido escolhido para líder, o manteigueiro - que não possui qualquer tipo de escrúpulos e é profundamente hipócrita - dá aos seus superiores o que eles precisam para se sentirem bem: elogios. Elogia-os tão profusamente e com um ar tão sincero e repleto de devota e fingida escravidão que eles ficam a precisar dele para tudo. E assim, devagarinho e insidiosamente, dento de algum tempo o (suposto) chefe só se mexe para o lado que o manteigueiro ordena, perdão, sugere. Sugere com o toque de mestre “parece-me que é isto o que fazia V. Excª parecer melhor na fotografia!”. S. Excª fá-lo imediatamente e ainda agradece ao manteigueiro!

O manteigueiro, embora ufano do seu poder e domínio, vive sempre em secreto ódio contra aqueles a quem dá manteiga. Excepto, é claro, se receber o inusitado prémio de chegar à tribo superior. O manteigueiro é uma profissão sem problemas de mudança pois não tem limite de idade nem tão pouco exige currículo académico nem experiência profissional anterior. De igual modo, o manteigueiro distribui manteiga à esquerda e à direita, não tem cor política e não se preocupa com convicções ou filosofias, muito menos com questões éticas. De facto, há manteigueiros que se dizem firmemente crentes em algo ou seguidores de um caminho… Mas a experiência mostra-nos que são os mesmos que, passados poucos dias, têm a mesma força e convicção em afirmar-se crentes no oposto e seguidores de outra via. O manteigueiro confia numa coisa apenas: o melhor para si. O resto são modos de lá chegar. O manteigueiro com experiência sabe que não é, pois, suficiente dar manteiga apenas aos superiores hierárquicos… Muito longe disso! Efectivamente, é necessário manteigar aqueles que se encontram ao seu lado (seus concorrentes), pois a qualquer momento podem passar a ser seus chefes. De igual modo, o manteigueiro experiente não desdenha e até se compraz em manteigar os seus subordinados, porque não ignora que deles obtém toda uma panóplia de coisas que dão jeito, nomeadamente trabalhinho feito a tempo e horas, segredos mantidos a sete chaves, favores que lhe ficam a dever por terem trabalho ou promoções, e até uma certa adoração pacóvia vinda de algum mais falho de miolos, o que sempre sustenta a necessidade inesgotável que o manteigueiro tem de ser admirado por alguém.

A todos os jovens que desejam ser manteigueiros, recomenda-se hipocrisia, astúcia, olho vivo e paciência. São inúmeros os casos de manteigueiros promissores que apostaram no cavalo errado e, infinitamente pior, desprezaram o cavalo correcto, vindo depois a sofrer consequências muito funestas. Manteiguem, pois, o maior número de indivíduos que puderem, pois nunca se sabe qual deles é que vai ganhar.

Monday, October 24, 2011

A Boa Terra de Pearl Buck


A Boa Terra é uma obra ainda hoje polémica. Fala-nos de Wang Lung, camponês pobre e trabalhador mas fiel aos princípios de dever familiar e para com a terra que regem a China. Em contraponto, está a casa de ricos proprietários Hwang, cujo pequeno império começa a declinar devido ao esbanjamento e ao uso incontrolado de ópio. A mulher de Wang Lung serviu como escrava na casa de Hwang e foi comprada pelo marido: só isso serve para demonstrar todo um feixe de relações.

O-Lan, a mulher, tem vários filhos, inclusive uma deficiente mental cujo nome é irrelevante pois todos na família lhe chamam “pobre tonta” e ainda uma filha que sufocam à nascença por não ter comida para lhe dar. Wang Lung vive miseravelmente durante a seca, as migrações para a cidade, os abjectos negócios de compra e venda entre ricos e pobres mas trata os filhos com a severidade de um patriarca, ensinando-lhes que prefere deitar comida fora e passar fome do que comer o que eles tenham surripiado a outros. Com o tempo, porém, desorientado e cansado da desgraça, também Wang Lu roubará e se revoltará contra os poderosos. A reviravolta da roda da fortuna faz com que Wang Lu desonesto consiga lucrar na vida o que jamais lucrara com a honestidade: prospera, educa os filhos, compra terras a Hwang, torna-se um senhor. Wang Lung esquece os valores: um rico merece uma concubina… ou mais. Com a compra de concubinas, a família de Wang Lu passa a ser um núcleo de guerras constantes entre as suas mulheres e seus filhos. Wang Lung, velho, não tem paz; sente que falhou.

A Boa Terra é tão criticado quanto aplaudido. Muitos argumentam que a cultura chinesa não pode ser criticada tão linearmente por uma “estrangeira” e que os sistemas políticos, familiares e sociais do Oriente jamais serão entendidos pelo Ocidente. Outros defendem que Buck escreveu muito cuidadosamente, sem juízos de valor em adjectivos, com pura e simples descrição de um tempo e espaço em que ela própria viveu.

Pearl Buck ganhou o Nobel da Literatura em 1938 “pelas suas ricas, verdadeiramente épicas descrições da vida na China rural e ainda pelas suas obras-primas biográficas”. Não era uma “estrangeira”. A China foi onde Buck passou a maior parte da sua vida, apesar da sua cidadania americana. Aos três meses, muda-se para lá, com os pais, missionários; aprende a falar chinês clássico e inglês desde os primeiros tempos; foi a menina “Sai Zenzhu” para todos e “Pearl” apenas em casa; em adulta, escolhe também a China para viver com o seu primeiro marido (de quem herdou o nome “Buck”). O casal vive momentos difíceis nas revoluções tormentosas da China, acabando por se mudar para os E.U.A. e por se divorciar. Buck volta a casar, mas não mais regressa à China… Foi impedida de o fazer pelos oficiais de estado chineses que a acusaram de “imperialista americana”. Ironicamente, a sua prosa e a sua forma de estar revolucionária eram mal vistas na América. O amor de Buck pela China e pela Humanidade foi demonstrado toda a vida em inúmeras acções, nomeadamente na forte campanha contra a discriminação da pobreza na Ásia, na promoção de oportunidades para todas as crianças e numa rede de adopção (na época, o regime chinês considerava as crianças filhas de nacionalidades mistas uma aberração). Buck foi uma das primeiras defensoras do povo, por convicção e não por moda. Marginalizada por duas culturas, a sua lápide está escrita em pinyin, por desejo seu.

Tuesday, October 18, 2011

O Jogo das Contas de Vidro de Herman Hesse



O Jogo das Contas de Vidro é um romance que joga com a utopia do conhecimento absoluto numa comunidade de intelectuais brilhantes versus a vida secular, vibrante de sensações.
Num local imaginado (com muitas semelhanças com a terra Natal do autor e sem dúvida bebendo das suas experiências educativas), Hesse conta a história de um grupo de escolas de elite, onde só os verdadeiramente dotados se dedicam ao estudo das ciências e das artes. O Jogo por eles gerado é a consagração de todas as disciplinas em conjunto, espécie de linguagem universal onde se relacionam valores e símbolos. Os jogadores fazem conciliações harmónicas de temas inicialmente paradoxais, partindo de qualquer proposição científica ou questão artística. A simbologia inerente a esta batalha mental é a “busca da perfeição, uma aproximação ao espírito que, para além de todas as pluralidades, é Um em si mesmo.”

Limando a vida até à unidade máxima, espera-se dos jogadores que sejam o ideal do Homo Universalis. As escolas são uma comunidade fechada em si própria, vivendo num tempo futuro em relação ao nosso, desprezando os académicos vulgares e pseudo-intelectuais e criticando altivamente a mesquinha materialidade e a vaidade inflamada da sociedade pública. Josef Knecht, magister ludi da Academia, homem empático e questionador, acaba por interrogar-se se sua tarefa é mais útil do que a vida de um preceptor juvenil ou do que a de um homem do campo. Dando-se conta da esterilidade que regula a vida da Academia, Knecht não pode continuar a defendê-la e abraça a vida “real”; por seu lado, a Academia teme-lhe a coragem e o carácter e etiqueta-o como perigoso.

Herman Hesse ganhou o Prémio Nobel em 1946 pela sua “escrita inspirada, que, embora sempre crescente em ousadia e espírito de penetração, nunca deixou de ser exemplo dos ideais clássicos humanitários e das mais altas qualidades”. O Prémio surgiu após a supressão das suas obras na Alemanha nazi, de onde era natural. Hesse nunca acedeu a ser igual à sua “tribo”, apesar dos desconfortos. Trocou de nacionalidade e abraçou a multiculturalidade em pleno – “que a diversidade em todas as formas e cores possa viver neste mundo” proclamou Hesse aquando do Nobel.