... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, March 2, 2012

(Con) Formados


Em conversa com um grupo de mamãs, dei-me conta que o maior pânico destas não é que o filho seja infeliz ou até pouco dotado; é que não seja “igual aos outros meninos”. Somos instigadas a que os nossos rebentos sejam o mais formatados possível: ai daquele infante que não vai à creche, ao mini-basket e à natação para bebés, que não tem o mesmo peso/altura que os restantes e livre-se de gostar de brincadeiras que se convencionou, por ser moda, que “não fazem bem”.

Esta tentação de tornar a raça humana toda igual já teve consequências desastrosas que a História recorda amargamente. Devíamos ter aprendido que a perseguição e acusação da diferença é um erro ético e um crime humano; mas persistimos em criar soldadinhos…

Uma delas estava muito revoltada porque o filho é obrigado a pintar cartões do Dia do Pai na creche, sendo ela mãe solteira e nunca tendo o menino visto o pai. Apesar de o ter explicado às educadoras, pedindo que a criança fosse poupada ou lhe arranjassem outra actividade, não houve volta a dar: “todos os meninos fazem o mesmo; não temos culpa dele ter uma vida diferente”. Pedagógico e revelador do quanto os direitos infantis estão acima de tudo na nossa sociedade. O importante é sermos iguais e começar a aprender, desde bebés, que ser diferente é penalizado.

São tantos exemplos que não cabem aqui, desde a mãe que optou por não dar vacinas da Hepatite B ao bebé por considerar a vacinação agressiva (escândalo!) até à que optou por circuncidar o menino por razões culturais – foi o cabo dos trabalhos para arranjar um pediatra disposto ao “crime” – passando por aquela que não deixa o pai acusado de maus tratos ver o filho (“desumana!”).

Eu também sou criticada: educo o bebé em duas línguas (“depois não vai falar nenhuma como deve!”), está com uma ama em vez de na escola (“coitado, será anti-social!”), a ama é brasileira (“isso ainda o confunde mais!”), ele é muito pequeno (“quase anão!”), etc. Mas ninguém se preocupou em ver que ele é muito feliz e saudável, tal como está, na sua peculiaridade. Não tenho intenção de criar um filho para fazer propaganda de mim com a exibição dele; interessa-me, sim, o bem-estar da criança.

Há anos atrás, certo casal no Pico vivia de forma muito diferente, sem meios de comunicação e até sem casa de banho moderna, com 4 filhos que se recusaram a pôr na escola. Dizia-se que eram doidos. Mas, como nada disso era ilegal, nada se fez excepto ostracizá-los. Hoje, pelo menos um dos filhos é artista, muito mais aplaudido que eu e a maior parte de vós.

Curiosamente, vive hoje um casal no Faial, em condições peculiares (i.e. miúdos não vão à escola e vivem num iate). Mas, contrariamente, as pessoas acham “muito interessante”. Quando pergunto qual a diferença, a resposta é “estes são franceses, podem fazer o que quiserem!”… Expliquem-me lá: os estrangeiros têm direito ao livre-arbítrio na educação dos filhos… mas os portugueses têm de entrar na forma?

Quando não, entram em cena psicólogos. Se a criança é irrequieta, é hiperactiva; se é calada, tem Asperger. Não há soluções, apenas rótulos que, não raro, duram a vida toda numa comunidade pequena e fechada.

Que seria da arte se todos fossemos conformistas? Da ciência? Da busca humana pela verdade? Inexistentes, por certo.  Como dizia G.B. Shaw, “perdoem ao que pensa que os costumes da sua tribo são as leis da natureza.”

Assim vivemos na sociedade da Geração que se gaba de ter feito o 25 de Abril. Só é pena que não o tenham feito também dentro das suas cabeças.

Friday, February 17, 2012

Em vez da Democracia, o quê?


Em Janeiro, o Barómetro da Qualidade da Democracia realizou um estudo denominado “Qualidade da Democracia em Portugal: a perspectiva dos cidadãos”. O estudo foi conduzido por uma equipa de politólogos portugueses. A palavra “politólogo” irrita porque é frequentemente mal atribuída a comentadores duvidosos cujas previsões ao estilo “fará sol se não chover” são, inevitavelmente, correctas. “Política” enquanto étimo grego, i.e., o que diz respeito à organização da Cidade (da Polis), transforma-se num campo de conhecimento (de Logos), se assumirmos que existe a Politologia. A verdade é que os responsáveis por este estudo são os maiores estudiosos de política que Portugal tem, hoje em dia.

O principal resultado do estudo é surpreendente: apenas 56% dos portugueses acreditam que “a democracia é preferível a qualquer outra forma de Governo.”

É uma percentagem assustadoramente pequena. António Costa Pinto, um dos coordenadores, explica que esta reacção dos cidadãos se deve a uma quase generalizada falta de confiança tanto no regime como nos agentes políticos (instituições que os representam, personagens e partidos – por ordem crescente de desconfiança). Para além disso, os portugueses acreditam que a elite política portuguesa tem uma margem de manobra muito escassa e que, no fundo, a governação do espaço onde vivem é feita por agentes alheios, estranhos ao seu voto, como sendo a célebre Troika.

A minha questão (coloquei-a na net e agradeço a quem respondeu) é: que outro regime prefeririam os portugueses? Vejamos alguns (de acordo com as respostas).

A Monarquia acabou de forma sanguinária e contra-natura ao espírito pachola, apanágio do português quando não lhe provocam a têmpera. Por isso, terá deixado saudosismo nalguns corações – isto sem falar no glamour monárquico, que sempre encanta. Mas a Monarquia tem custos económicos tremendos para um país. Além disso, os nossos governantes têm a vantagem de o serem apenas e só enquanto nós o quisermos! Já um monarca tem direito vitalício e hereditário.

A Anarquia é tentadora, nomeadamente para a malta que ainda vive no flower power, indo a todas as “manifs” ainda que não saiba qual o motivo das ditas (mas “está com o povo!”), que fuma mais ganzas que os netos e sabe de planos do sub-mundo que estão a arrasar o sistema – planos dos quais mais ninguém ouviu falar. A malta diz que o poder deve ser igual para todos. Infelizmente, esquece-se de que, na sua generalidade, esse “todo” não só não é muito informado (ou não estaríamos nesta situação) como não tem interesse e, eventualmente, capacidade para deixar de ver “A Casa dos Segredos” e ligar ao Telejornal. Como se costuma dizer “Anarquia…com este povinho?!”

A Ditadura é a repressão e o tolher da liberdade que ainda está fresco na memória de muitos. Nem é preciso explicar o que faz às vidas, aos olhos das pessoas, aos medos que crescem e à sensação de impotência.

Então, que solução? Será a Democracia o problema? Ou será a partidocracia e, consequentemente, a falta de meritocracia? Não será que, hoje, quem não defende um partido acaba por não poder enquadrar-se nos órgãos sociais? Não será que a sociedade premeia os cartões políticos e não os méritos individuais?

Ninguém se ilude sobre o “governo do povo”. Naturalmente que existirá sempre uma elite governativa. O problema é o povo verificar diariamente que grande parte dessa elite que o governa não tem nem capacidade nem mérito para o fazer. Por isso é que, como dizia o Eça, Portugal é esta nação talhada para a conquista ou para a ditadura. E há tantas formas dela acontecer…

Sunday, February 5, 2012

Educação Sexual ou Uma Coisa no Género?



“Assembleia Legislativa dos Açores aprovou o programa de Educação para a Saúde, que prevê a obrigatoriedade da educação sexual em todos os níveis de ensino e em todas as escolas” diz a notícia, e acrescenta ser de “forma a que os alunos desenvolvam conhecimentos e adquiram […] comportamentos adequados face à saúde sexual e reprodutiva". O diploma prevê a distribuição de anticoncecionais nas escolas, o que parece ser o único foco de discordância entre os partidos no Parlamento, já que, de resto, concordam com a Sra Secretária que diz que “mais de 50% dos alunos nunca falaram com os pais sobre sexualidade” indo a escola, agora, colmatar essa lacuna.

Quem vai lecionar esta aula? Se é um professor de Biologia, limitando a educação sexual ao funcionamento reprodutivo, a verdade é que a concepção e gravidez já faziam parte do programa. Será um profissional de saúde (alheio ao corpo docente) que vai falar de doenças sexualmente transmissíveis? No meu 9ºano, havia uma disciplina chamada Saúde que abordava as DST. Será o psicólogo da escola, porque se terá em conta que sexualidade não é só biologia? Hipótese viável, já que, no Homem, os instintos se interligam com as emoções e os pensamentos (não há memória de outra espécie ter inventado o erotismo…) No entanto, se vamos dizer aos alunos de 15 anos que a sexualidade é questão para psicólogos não sei até que ponto não os assustamos! Será o professor de Moral? Mas eu não quero que o meu filho tenha a disciplina de Moral…

Preocupa-me a resposta. A sexualidade não é só uma questão de saúde; implica a vivência íntima das pessoas, seus afectos, orientação do comportamento, responsabilidade, valores, crenças. Quem vai “ensinar” tudo isto a um filho meu e em que diretrizes o fará? Será um docente moralista e conservador que lhe dirá que determinadas coisas são pecado e determinados comportamentos uma doença e um desvio? Será um docente libertino que dirá que, com um preservativo, qualquer coisa vale a pena? Ninguém pensou que a transmissão de princípios ou até de estereótipos relativamente a este assunto pode ser exactamente contrária àquela que os pais incutem aos filhos – até porque nem todos desejamos transmitir a mesma coisa … A sexualidade varia e mal será quando decidirmos que ela tem de ser normatizada nas jovens mentes pelo Estado.

Qual é o programa desta disciplina? Também quero saber o que significa “a todos os níveis de ensino”: a sexualidade deve ser assunto abordado naturalmente assim que a criança perguntar mas não uma imagem abusiva impingida à força antes das questões.

Só ouvi as forças decisoras preocupadas com o problema da gravidez precoce. Preocupante, de facto, mas não creio que a gravidez apareça porque os jovens não sabem usar métodos contracetivos ou não lhes têm acesso (são de distribuição gratuita às adolescentes nos nossos Centros de Saúde). Na Grã-Bretanha, a Educação Sexual existe na escola desde a Grande Guerra o que não impede que continuem a ter a taxa mais alta da Europa de gravidez na adolescência. A grande maioria das jovens engravida porque vê aí um escape desesperado (e irresponsavelmente muito mal pensado) para a vida que tem, prova de quanto os afectos – em que ninguém pensou nesta Lei! – são mal geridos. Os tais jovens que não comunicam com os pais não estão sedentos de aulas de fisiologia mas de uma oportunidade nova na vida. Já na Holanda, a Educação Sexual envolve tópicos como o evitar do abuso violento e o poder e direito da escolha individual: eis o país com a taxa mais baixa de gravidez na adolescência.

Dêem-se competências parentais aos pais que delas precisam para evitar que sejam avós precoces, porque, caso contrário, o ciclo vai repetir-se ad aeternum; não os desresponsabilizem, colocando na escola toda a função e decisão de criar os filhos, sem sequer dar aos professores formação para tal. 

Uma disciplina de Educação para a Saúde nos moldes em que está pensada pode descansar a cabeça estadual, mas não mudará a realidade social. Se olharmos para a política europeia, vemos que um preservativo não muda mentalidades nem resolve o assunto; se, porém, nos limitamos a esta “educação”, admita-se que não passa de uma operação de cosmética.

Saturday, February 4, 2012

A Filha de Burger de Nadine Gordimer



Romance inicialmente proibido na África do Sul, passa-se nos anos 70, em Joanesburgo, onde ser branco ou negro faz toda a diferença. Rose Burger, ainda menina, vê o seu pai, branco, membro do Partido Comunista e activista anti-apartheid, ser preso. O pai morre na cadeia, deixando Rose órfã de pais mas não de convicções. Sozinha, sem a companhia do irmão negro Baasie, que os seus pais tinham adoptado mas seus tios não aceitaram, Rose começa a viver com um namorado, Conrad, por quem não está apaixonada mas cuja companhia lhe é vital. É Conrad quem faz Rose questionar-se sobre a sua cega obediência à família Burger e a faz pensar qual é, realmente, a sua identidade. Rose passa a ser membro activo do Partido Comunista, amante do influente Chavalier e vive no estrangeiro durante algum tempo. Mas é difícil ser apenas Rose quando a mística de ser filha de Burger é uma constante na sua vida, para o bem e para o mal… Rose reencontra Baasie, e fica chocada quando percebe que não só ele não quer a companhia dela como critica a atitude paternalista e burguesa de Rose e dos pais no envolvimento na luta anti-apartheid: “Baasie nunca foi o meu nome! Vocês nem sabem qual é o meu nome verdadeiro!” Rose volta a África e prossegue a sua luta – mas a maior luta da sua vida é saber quem é, na verdade, Rose… para além de ser a filha privilegiada de um mártir chamado Burger.


Nadine Gordimer ganhou o Nobel da Literatura em 1991 “pela sua magnífica escrita épica da qual resultou grande benefício para a Humanidade”. Uma branca nascida na África do Sul, filha de pais contra o regime mas não particularmente activistas, embora as ideias peculiares da sua mãe a levassem a educar a filha em casa por considerar que uma sociedade tão pouco justa não lhe formaria uma boa personalidade. Apesar da (ou por causa da) sua educação não ortodoxa, Gordimer já publicava ficção aos 15 anos. Ainda hoje vive em Joanesburgo, onde se destacou por lutar contra o apartheid e, mais recentemente, na luta contra a SIDA. As suas posições fortes levaram a que fosse atacada, mas Gordimer nunca quis viver numa situação de protecção oficial nem sair do país. Recusou ser distinguida com o famoso Orange Prize, por este premiar apenas mulheres. Acerca da sua escrita, Gordimer referiu que também ela sofria “as lânguidas evasões da culpa liberal”, mas é indiscutível que ela é muito mais que uma autora anti-regime – a sua capacidade de representar conflitos culturais, redenção e esperança dentro de células familiares bem como de nações elevam-na à universalidade. 

Friday, January 20, 2012

Superficial



Nicholas Carr foi finalista do Pulitzer 2011 com The Shallows (Os Superficiais), um livro sobre o modo como essa revolução chamada internet mexeu com os nossos cérebros. A teoria de Carr é que a net nos torna menos críticos, menos atentos e concentrados, com menos capacidade de registo na memória, levando à destruição das aptidões de raciocínio, interpretação e processamento de informação. Em suma, menos inteligentes. Há quem o conteste. Mas há também estudos das Universidades de Columbia, Stanford e Harvard (citados pelo próprio) que suportam as suas ideias de que a net nos está a fazer regredir para um pensamento mais primitivo.

Para acreditarmos em tal, temos de ser adeptos do conceito de neuroplasticidade, isto é da ideia de que os nossos cérebros se adaptam constantemente às circunstâncias – por oposição à visão dogmática que nos diz que, a partir de certa idade, o cérebro já perdeu a possibilidade de novas aprendizagens.

Não é difícil verificar que a enorme (e louvável) disponibilidade de informação que a net apresenta faz com que as pessoas deixem de ter de se esforçar para conseguir encontrar conhecimento. Isso leva a que, na generalidade, haja uma preguiça cerebral que se traduz não só neurologicamente nas ligações entre neurónios mas também a nível cognitivo, nomeadamente em termos de profundidade. De facto, os conceitos que adquirimos através da net são um instantâneo, não têm qualquer fundura. Metaforicamente falando, creio bem que se pode dizer que a internet será uma espécie de fast food enquanto o suporte físico é uma experiência gourmet - aliás, como pode a internet ser tão apelativa quando nem sequer tem aroma, perdoem-me a divagação… Haverá coisa mais saborosa do que cheirar? E isso também entra na esfera do conhecimento – livros novos e velhos, experiências cheiram sempre bem, deixam rasto.

O rasto leva-nos à volatilidade da internet. Poder-se-ia até acrescentar que toda a vida actual prima por ser fugaz e inconsequentemente rápida. Carr opina que a profusão de hyperlinks faz saltar a nossa atenção de modo constante, encoraja-nos a avançar depressa sobre toda a informação mas a pensar muito pouco sobre ela. Talvez esse seja o problema em si. De facto, de que serve tanto input se não o absorvemos, se nem sequer paramos um instante para a reflexão pessoal e para formar a nossa percepção? Este défice de contemplação e de espírito científico parece-me ainda mais grave do que a perda de concentração que está na sua origem.

Não estou certa de que a tecnologia nos torna estúpidos. Tenho um irmão que é um wiz da informática, e, contrariando as estatísticas, é um jovem crítico, informado e racional. Além disso, também contra os estereótipos, não é um nerd anti-social. Mas admito que isso acontece porque ele próprio é ferozmente analítico relativamente aos fenómenos em rede e tem o discernimento para não se limitar à virtualidade dos assuntos.

Nos meus dias pró-tecnologia, acho que o meu irmão não é excepção e que o Google, a Wikipedia e o Facebook são grandes invenções. Nos meus dias do contra, em que me surpreendo com um aluno que frequenta uma instituição universitária a perguntar-me: “Professora, o Antigo Testamento é um livro ou alguma cena da internet?”, fico convencida que Carr tem razão. Há qualquer coisa de muito errado quando alguém só comunica por meio de bytes.

E mais ainda me assusto quando vejo um par de namorados que só namora através da net. Não haverá um handicap relacional em alguém que só consegue expressar proximidade estando protegido por um ecrã de permeio? Este paradoxo só vem confirmar que a sociedade virtual é uma espécie de onanismo o que, como se sabe, é uma conduta que pode ser normal mas não deixa de ser estéril.

Friday, January 6, 2012

Migrantes


Depois de ter estado a leccionar na Universidade dos Açores durante 5 anos, fui leccionar para a Brock University, no Canadá. O que isto tem de interessante é o processo para conseguir o visto de trabalho. Quando me convidaram, eu estava convencida que o visto de trabalho era “canja”. Pus-me em campo para o obter (a Universidade mandava a carta-contrato de trabalho e eu tratava do resto, claro). Primeiro, em Portugal informaram-me que a diplomacia canadiana em Portugal não tratava dessas coisas; “conceder vistos para o Canadá dentro da Europa apenas diz respeito à Embaixada do Canadá em Paris.” Muito me interroguei sobre o que tratava e fazia a diplomacia canadiana em Portugal, mas não tive remédio senão tratar do papel com Paris. A Embaixada em Paris exigiu a tal carta e verificou se eu falava francês como deve ser, dado ter-me comprovado o inglês como mother-language. Felizmente, eu falava francês couramment.


Depois, veio a parte dolorosa: uma equipa médica inglesa para me fazer um exame. Não sei se já estiveram nus numa sala onde todos os restantes estão vestidos. A sensação não é de conforto. Para além disso, foi de mau gosto usarem uma vareta para me tocarem e fazerem-me perguntas que violavam completamente a minha intimidade.

Conclusão: apesar de eu ter cicatrizes demais e ter recusado revelar a minha vida sexual, lá me concederam a graça do visto de trabalho. Isto para dizer que a emigração para fora da União Europeia nem sempre é fácil - e nem falo dos processos que têm de se fazer ao chegar ao país de destino, como pagamento de impostos e seguro de saúde.

Mas, se queremos emigrar, há que passar por todas as agruras que dizem respeito à Lei de Imigração do país onde desejamos viver. São um mal necessário. A opção contrária é viver na ilegalidade e medo constante de sermos mandados para o sítio de onde quisemos sair.

Antes dessa minha experiência fora da UE, tinha dado aulas a imigrantes nos Açores e o meu círculo de amizades passava por imigrantes. Ou seja, conheço bem o reverso da medalha. Tanto por experiência própria como pelos diferentes relatos, recordo as idas ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e a papelada, as tentativas de visto dos meus amigos, as fugas, uma célebre rusga às 4:00 da manhã “só para confirmar se não mentiram”, as perguntas tão indecorosas como as do tal médico inglês, as humilhações de tratamento impostas por algumas autoridades portuguesas e a ignorância de alguns funcionários que atendiam imigrantes.

Portanto, Portugal (e os Açores) também não são propriamente o vale do leite e do mel, onde os imigrantes são recebidos com a maior doçura. São recebidos de acordo com as leis de fronteira existentes e nem sempre por gente bem intencionada - como em todo o lado.

Que bom seria se não houvesse fronteiras, como cantava John Lennon. Mas há e há deportações. Em 2006, vivia eu no Canadá, o país deportou milhares de cidadãos portugueses que lá estavam ilegais. O grande número deveu-se a uma limpeza da Immigration, e levou o Ministro dos Negócios Estrangeiros  português - na época, Freitas do Amaral - ao Canadá para, obviamente, resolver coisa nenhuma porque nenhum país aceita que um governante de outro país lhe vá dizer como arranjar a sua casa. Em Portugal, as pessoas ficaram muito escandalizadas. Mas alguém, com humor, inteligência e imparcialidade, fez um cartoon, salvo erro no Público, do então Ministro da Administração Interna, Paulo Portas, com uma bandeirinha a dizer “RAUS!” É que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal, sob a coordenação do Dr. Portas, também deportava imigrantes ilegais em quantidade…Mas a Comunicação Social portuguesa, excepto ter transmitido uma frase do dito onde ele confessava não achar nada bem essa onda de imigrantes que assolava Portugal, fazia caixinha do assunto… mas dava grande impacto aos portugueses saídos do Canadá.

Não tem piada que o Dr. Portas seja hoje Ministro dos Negócios Estrangeiros? É de rir à força toda.




Sunday, December 25, 2011

Traição de Harold Pinter



Peça de teatro de 1978, Traição entrou para a história da exigente e completa dramaturgia inglesa como um dos trabalhos mais profundos e bem conseguidos sobre a complexidade das emoções humanas. Os actores têm um trabalho árduo em palco pois, em vez de envelhecer ao longo da peça, rejuvenescem em corpo e alma – a história é contada em analepse, encontrando-se os amantes (Emma e Jerry) dois anos depois de terem terminado uma relação extra-marital que durou sete anos. 

Emma é casada com Robert e Jerry (casado com Judith) é amigo íntimo do seu marido. Resumida assim, a história parece banal, um mexerico de aldeia de quem não tem o que fazer. Mas a mestria de Pinter está em colocar os personagens perante uma traição constante e contínua, de todos entre todos e, em última análise, de traição a si próprios, de tal modo que não sabemos a que traição o título se refere. 

Traem-se os esposos, traem-se os amigos, traem-se os amantes: a certa altura, Emma conta ao marido que está com Jerry mas não conta a Jerry que o marido sabe… e a amizade dos dois homens permanece, durante anos, em desequilíbrio de forças mas não pela razão original. Traem-se ainda os amores pois é muito claro que a perspectiva homem/mulher sobre a relação amorosa e suas expectativas é completamente diversa, bem como o remorso e as memórias que ambos guardam seja do adultério seja do casamento. Emma precisa dos dois homens, os dois homens precisam dela e precisam um do outro. É talvez por se darem conta desta ácida fatalidade que passam de jovens amorosos e alegres a cépticos magoados (ou antes o contrário na estranha cronologia da peça).


Harold Pinter nunca escondeu que Traição se baseava na sua própria experiência de vida - durante sete anos, manteve uma sólida relação com outra pessoa que não a sua amarga primeira mulher. Mais tarde, já noutra relação, Pinter diria: “Hoje, tenho uma vida feliz. Mas não se faz teatro sobre vidas felizes. O teatro é sobre conflito e perturbação. Vivo a felicidade, não a revelo.”


Pinter ganhou o Nobel da Literatura em 2005 “pelas suas dramaturgias que descobrem o precipício debaixo da conversa quotidiana e deixam a força entrar nos quartos fechados da opressão.”