... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, May 4, 2012

A Porta Estreita de André Gide



“Larga é a porta que conduz à destruição e muitos nela entram; mas estreita é a porta que conduz à vida e poucos a encontram.” É a partir da diferente interpretação deste excerto do Evangelho de S. Lucas escutado por duas crianças que se constrói o romance de Gide. Jerome (órfão de pai antes dos 12 anos, de maturidade e sensibilidade precoces) e Alyssa (desprezada ao extremo pela sua mãe adúltera pela descoberta das infidelidades conjugais desta) apaixonam-se sem jamais consumarem essa paixão adolescente no plano físico, o que ainda mais acentua o desejo e a luta constante que os une. Há, primeiro, o problema da idade que os faz optar pelo platonismo; mas a passagem do tempo só conduz ao sacrifício de Alyssa que opta por uma vida dedicada ao divino em vez da concretização do amor físico, julgando que este acto vai redimir todos os envolvidos na trama da sua vida dos castigos de além-mundo. Já Jerome, embora desiludido, não desgosta de se encontrar no papel de herói-mártir, sabendo que não deixa de ocupar o lugar maior no coração de Alyssa.

Esta misteriosa novela merece destaque na obra de Gide, que ganhou o Nobel em 1947 “pela sua escrita complexamente artística, onde a condição e problemas humanos são apresentados com um corajoso amor pela verdade e grande intuição psíquica.” Gide, autor polémico pela sua posição anti-família tradicional e a favor do livre-arbítrio do Homem, foi educado pelo pai (um professor universitário de Direito), e não foi sem reservas que Gide assumiu a sua homossexualidade, casando - apesar disso - com sua prima Madeleine com quem jamais consumou a união. Teve descendência da única mulher com quem manteve uma relação sexual na vida, a “Dama Branca” dos seus escritos (Elysabeth, filha de uma sua colega escritora). O seu desejo de verdade e a sua necessidade de ser aceite formam a coluna vertebral da sua escrita e foram, sem dúvida, o fermento de uma vida contraditória, onde receios profundos, proibições e liberdade deram as mãos.

Friday, April 27, 2012

Eleições Antecipadas


Não se assustem. Contrariamente a muitos (são muitos os cargos na nossa aldeia), não tenho poder para invocar o assunto. Mas, como cidadã, também eu posso falar de política. É muito raro, porque nisto e no futebol, somos todos especialistas… Aqueles que, como eu, não jogam mas se atrevem a emitir uma opinião sobre o jogo são imediatamente fulminados pela claque e não é inusitado que se peça ao árbitro que dê um jeitinho para nos passar cartão vermelho (apesar de estarmos na bancada).

Apesar do risco, gostava de deixar alguns tópicos de reflexão. Primeiro, porque é que as campanhas políticas insistem sistematicamente no colectivismo, no “todos como um só”? As sociedades estão longe de ser homogéneas. Porque teremos de fingir que somos todos iguais? Uma coisa é agirmos solidariamente, outra coisa é sermos fundidos num mesmo pensamento (o que já me cheira à formação de soldadinhos). A política tende à submissão, ainda que encapotada, e o que é pior, “para nosso bem” - como se nós, deficientes mentais, não soubéssemos o que nos faz bem!

Segundo, porque é os membros de um grupo, sendo vários, obedecem a um só, ainda que muitas vezes o detestem subliminarmente? Nietzsche disse que as sociedades são um conjunto de promessas que os membros do grupo fazem uns aos outros, pelo que se pressupõe ter de haver uma autoridade que garanta o cumprimento destas. A autoridade, primus inter pares, tem sempre um certo halo de temor sagrado e venerável. O seu poder sobre-humano é-lhe dado pelos restantes e não raro se converte num tabu, eventualmente perigoso a longo prazo, até para o próprio. De facto, um líder tem sempre de lutar contra a sua própria sede de capricho absolutista e, ao mesmo tempo, manter uma aura. É por ser tão difícil que líderes existem poucos; mas governantes temos às centenas.

Terceiro, a democracia foi uma grande invenção e não conheço sistema melhor. Mas, dado que é a vitória da maioria, contém um paradoxo terrível: todos nós conhecemos mais pessoas ignorantes do que pessoas inteligentes e mais maldade do que bondade no mundo… Logo, é de prever que as soluções melhores não serão as escolhidas. Como exemplo, vejam as consultas públicas sobre qualquer assunto: toda a gente se atropela e verifica-se que os conhecimentos da maioria dos intervenientes são muito débeis.

Quarto, gostava de viver numa sociedade em que o Estado e o indivíduo não estivessem em guerra. Actualmente, são dois irmãos que se culpam do seu mal-estar. O Estado foi organizacionalmente criado para o indivíduo, decorre dele, e o indivíduo detém valores – isto anda esquecido. Hoje o Estado está convencido que ordena e institui valores ao indivíduo e este, por seu lado, demite-se, diz que o Estado “tem direito” e chora. O direito é uma convenção humana, não nasceu dos genes. Os Direitos Humanos, necessariamente genéricos e universais, carecem de adaptações e estas jamais existirão por parte daqueles que estão melhor instalados (ou alguém já ouviu falar de donos de escravos abolicionistas?).

Quinto, os partidos deveriam ser um meio de participação política… mas são um fim em si mesmos. A política, per se, trabalha em prol do desenvolvimento da sociedade; os políticos trabalham em prol da sua promoção esquecendo que o maior interesse humano é gregário.

Sexto, preocupa-me a enorme limitação de liberdades por parte das instituições. Será por medo? E que deduções tirar de um Estado com medo que nos limita “para nosso bem”? Os maiores inimigos da liberdade têm sido os grandes carniceiros da História. Não é pelo risco de haver quem se atire do nono andar que temos de ser todos obrigados a viver no rés-do-chão…

Sétimo, a política já não é a organização da vida dos cidadãos. Tornou-se, para uns, opressiva; para outros, um projecto de marketing. É esta a suprema ambição de um governante?

Assim, arriscamo-nos a que os abstencionistas ganhem as eleições. Arriscamo-nos àquela frase humorística do escritor açoriano Álamo de Oliveira: “Se os abstencionistas ganharem as eleições, eles que formem governo!” É a piada mais séria que já ouvi.

Friday, April 13, 2012

Responsabilidade



“A tendência do indivíduo médio é para regredir emocionalmente assim que se torna membro de um grupo” disse Scott Peck, médico ao serviço do Exército Americano durante a Guerra do Vietname. Nos seus escritos sobre o massacre de civis em Mylai pelas forças do batalhão americano “Charlie”, Peck começa por considerar os factos: os civis eram sobretudo crianças, mulheres e idosos; os soldados que puxaram das armas não terão sido mais de 50 (os restantes 200 terão assistido ao massacre sem o tentar impedir); no ano seguinte ao crime, ninguém na Força de Comando Especial ignorava as atrocidades cometidas e ninguém (sublinhe-se, ninguém) as revelou. O crime só se tornou público porque um ex-militar (não pertencente à Força, mas que ouvira o relato por via de um amigo) escreveu uma carta ao Congresso Americano que, como tal, foi compelido a agir.

A complexidade do acontecimento não cabe numa crónica, muito menos a ramificação mental de fragmentação da consciência que ocorreu num grupo de homens convencidos de que massacrar inocentes não só não era crime como era um dever patriótico à causa grupal a que esse Outro se opunha pela sua existência de pertencente a um grupo que não o seu. Não confessaram porque, no seu distorcido esquema mental, não havia culpa a registar, mas sim o cumprimento de um dever.  

Mas os restantes? Porque não falaram de Mylai? Primeiramente, por cobardia. Esses sentiam a culpa do sucedido e sabiam que os esperava uma lei marcial se o acontecimento fosse descoberto (encobrir um crime constitui crime em tempo de guerra). Segundo, por anestesia psíquica, um conhecido fenómeno de quem sobreviveu a situações de stress intenso e prolongado: após algum tempo em condições sub-humanas, as defesas emergem e o ser humano protege-se pela anestesia de emoções, i.e. o que antes o perturbava deixa de ser relevante (exemplo extremo: se antes o horrorizava ver queimar corpos, passada uma semana é ele mesmo que os atira para a fogueira se entender que de tal depende a sua sobrevivência, ainda que seja apenas a sobrevivência social). Em terceiro lugar, por imaturidade emocional – aqui, seria necessário explanar o modo como se escolhem os indivíduos para pertencer a um determinado grupo e porque é que alguém é “cão de caça” ao invés de “caçador”. Regra geral, soldados têm personalidades influenciáveis, dependentes e descontroladamente agressivas, servindo para a linha da frente, enquanto oficiais fazem lavagens de cérebro, usam de frieza e maquiavelismo e jamais se colocariam em situações de perigo. Qual deles o mais perigoso? E o mais culpado?

Os seguidores de Hitler estavam convencidos que a purificação da raça não era um pecado… era um dever para com os humanos e o mundo. Já para o esquemático Hitler, a convicção era outra: a sua questão pessoal encontrou um escape na matança e, adicionalmente, o seu ego ficou satisfeito por encontrar uma multidão de seguidores que, ainda que não pela mesma razão, o apoiavam.

Uma das formas mais seguras de fomentar o ódio contra o Outro é convencer “soldados” de que fazem parte de um grupo, coeso e orgulhoso, sendo o Outro uma ameaça (este simples esquema funciona nos jogos de futebol, na política e até nas reuniões internacionais). De acordo com todas as teorias sobre as tribos, tenhamos em conta que se um indivíduo não tolera bem a crítica nem o falhanço, um grupo – ferido no seu orgulho ou em risco de queda – é triplamente mais rancoroso e perverso nos seus ataques de narcisismo e de (suposta) defesa exacerbada.

Resta uma questão: e a opinião pública? Ao saber de Mylai, ao saber de “n” atrocidades, porque não se manifesta? Porque dizemos “não é comigo” e desresponzabilizamos as questões, empurrando para o patrão, o vizinho, o Governo ou os especialistas? Porque é que nunca sabemos de nada nem queremos confusões com ninguém? Não será pelas mesmas razões - inércia, cobardia, protecção da própria pele, anestesia de grau elevado?

Existe uma velha expressão judaica da Ética dos Pais que vos deixo aqui “se não eu para mim, quem para mim? E quando eu sou só para mim, quem sou eu? E se não agora, quando?”  

Tuesday, April 10, 2012

O Grande Enigma de Tomas Tranströmer



Colectânea de poemas de um autor que, segundo o próprio, é conhecido pela sua “pouca produtividade literária”. Com efeito, Tranströmer, vencedor do Nobel em 2011 pelas “suas imagens condensadas e translúcidas que nos dão um novo acesso à realidade”, escreveu pouco mais de uma dezena de livros de poesia, mas está traduzido em mais de 50 línguas. O Grande Enigma são cinco pequenos poemas e vários haiku (note-se que são haiku feitos à moda sueca, adaptando esta forma japonesa, o que, em versões traduzidas, nos transporta, ainda para um terceiro universo linguístico!). A estrutura simples e silábica surpreende porque consegue encaixar em si uma profundidade que não necessita de arranjos barrocos.

A vida de Tranströmer foi peculiar, como a de todos os homens notáveis. Educado apenas pela mãe numa melancólica ilhota da Suécia, formou-se em Psicologia e Literatura. Trabalhou como psicólogo num casa de correcção juvenil, o que mais acentuou a sua veia trágica e nostálgica. Mais tarde, sofreu um AVC que lhe deixou paralisado o lado direito do corpo e o impossibilitou de falar. Mas Tranströmer, lutador por natureza e por experiência de vida, continuou a escrever poesia e a tocar piano, auto-ensinando-se a fazer ambos apenas com a mão esquerda, de modo tão notável que chegou a dar recitais líricos. Na Suécia, alcunharam-no de “poeta milhafre” (buzzard poet) pois dizem que a sua poesia perspectiva o mundo como se ele planasse em grandes alturas.

Sunday, March 18, 2012

Portugal à beira de um ataque de nervos


Em 2010, foi feito um estudo pioneiro em Portugal: o 1º Estudo Nacional da Saúde Mental, organizado pela Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, embora dentro de um âmbito de estudo muito mais vasto realizado pela Organização Mundial de Saúde e pela Harvard University.

O Professor Caldas de Almeida, responsável pelo estudo no nosso país, diz ter sido “apanhado de surpresa” pelas conclusões: Portugal é o país europeu com maior número de doentes mentais, sendo que 43% da população já teve uma perturbação psiquiátrica. Quase metade! Só no ano do estudo, foram 23% os que foram diagnosticados por um psiquiatra como doentes do foro (portanto, um em cada cinco portugueses). À frente de Portugal, só mesmo os E.U.A., que aliás, só nos ganham por 3,4% em valores globais. Dá que pensar.

O número aumenta assustadoramente ao assumirmos que a maior parte dos doentes mentais não chega sequer a ir ao psiquiatra, como admitem os responsáveis pelo estudo. A considerar este grupo maior (que, obviamente, não entrou na estatística), podemos especular que Portugal tem uma taxa bastante mais elevada de doentes mentais na sua população.

Reportando-nos (apenas) aos corajosos que foram ao médico e que foram diagnosticados como tal – duas premissas diferentes, claro está -, este estudo verifica que 67% dos doentes considerados graves nunca chegam a ser prosseguir tratamento, ou “por vergonha” ou por “ausência de serviços especializados” na sua área de residência. Destes, uma parte auto-medica-se com ansiolíticos e anti-depressivos cujo efeito é nulo para a sua condição; o mesmo tipo de medicamentos, aliás, é “tomado por gente que não necessita deles”. Também não é inusitado ser o médico de família a tomar conta dos problemas psiquiátricos em Portugal, o que está na mesma bitola de correcção de ser o neurologista a indicar uma diálise.

No topo dos problemas dos portugueses abrangidos por este estudo, encontram-se as perturbações de ansiedade, as depressões, o descontrolo impulsivo e o alcoolismo. Mas muita atenção! As doenças psicóticas, de relevância e gravidade bem superior, não fizeram parte deste levantamento. Dada a sua especificidade, serão consideradas apenas numa segunda fase do estudo. Portanto, não se admirem de não ver aqui nomeadas aquelas perturbações em que os doentes vivem numa realidade paralela e que colocam os que com eles habitam a viver um filme de terror. Em traços largos, se juntarmos (ainda!) mais estes à estatística, concluímos que pouca será a percentagem de portugueses que não sofre de problemas mentais.  

“O padrão atípico [por ser elevado] de Portugal” não foi explicado pelos responsáveis, embora essa fosse – quanto a mim - a parte mais interessante do trabalho. Serão causas genéticas? Pouco provável, visto sermos uma nação de misturas étnicas várias, tanto no plano diacrónico como sincrónico. Serão causas ambientais? O facto é que os restantes países actualmente em crise apresentam taxas bem mais baixas do que a portuguesa (nem chegam aos 10%!) e a vida está difícil para todos. Factores educativos? O segundo país europeu mais perturbado é a França (18,4%), o que talvez explique a nossa empatia subserviente face aos gauleses. Na realidade, desconhecemos “a causa”. Os dados, que em si têm “implicações políticas” como foi referido pelos responsáveis, ainda não foram muito destrinçados - na nossa humilde opinião, contudo, os dados não só têm implicações como ajudam a explicar muitas das complicações…

Porém, não restam dúvidas sobre o seguinte:  somos uma nação de gente perturbada. Se você que lê este artigo tem a excepcional e improvável sorte de ter uma família de gente mentalmente sã e ainda se o seu círculo de amigos e colegas de trabalho comporta pessoas mentalmente sãs… você não é apenas muito afortunado; segundo as estatísticas portuguesas, o mais provável é que seja você que está a precisar de tratamento. 

Friday, March 2, 2012

(Con) Formados


Em conversa com um grupo de mamãs, dei-me conta que o maior pânico destas não é que o filho seja infeliz ou até pouco dotado; é que não seja “igual aos outros meninos”. Somos instigadas a que os nossos rebentos sejam o mais formatados possível: ai daquele infante que não vai à creche, ao mini-basket e à natação para bebés, que não tem o mesmo peso/altura que os restantes e livre-se de gostar de brincadeiras que se convencionou, por ser moda, que “não fazem bem”.

Esta tentação de tornar a raça humana toda igual já teve consequências desastrosas que a História recorda amargamente. Devíamos ter aprendido que a perseguição e acusação da diferença é um erro ético e um crime humano; mas persistimos em criar soldadinhos…

Uma delas estava muito revoltada porque o filho é obrigado a pintar cartões do Dia do Pai na creche, sendo ela mãe solteira e nunca tendo o menino visto o pai. Apesar de o ter explicado às educadoras, pedindo que a criança fosse poupada ou lhe arranjassem outra actividade, não houve volta a dar: “todos os meninos fazem o mesmo; não temos culpa dele ter uma vida diferente”. Pedagógico e revelador do quanto os direitos infantis estão acima de tudo na nossa sociedade. O importante é sermos iguais e começar a aprender, desde bebés, que ser diferente é penalizado.

São tantos exemplos que não cabem aqui, desde a mãe que optou por não dar vacinas da Hepatite B ao bebé por considerar a vacinação agressiva (escândalo!) até à que optou por circuncidar o menino por razões culturais – foi o cabo dos trabalhos para arranjar um pediatra disposto ao “crime” – passando por aquela que não deixa o pai acusado de maus tratos ver o filho (“desumana!”).

Eu também sou criticada: educo o bebé em duas línguas (“depois não vai falar nenhuma como deve!”), está com uma ama em vez de na escola (“coitado, será anti-social!”), a ama é brasileira (“isso ainda o confunde mais!”), ele é muito pequeno (“quase anão!”), etc. Mas ninguém se preocupou em ver que ele é muito feliz e saudável, tal como está, na sua peculiaridade. Não tenho intenção de criar um filho para fazer propaganda de mim com a exibição dele; interessa-me, sim, o bem-estar da criança.

Há anos atrás, certo casal no Pico vivia de forma muito diferente, sem meios de comunicação e até sem casa de banho moderna, com 4 filhos que se recusaram a pôr na escola. Dizia-se que eram doidos. Mas, como nada disso era ilegal, nada se fez excepto ostracizá-los. Hoje, pelo menos um dos filhos é artista, muito mais aplaudido que eu e a maior parte de vós.

Curiosamente, vive hoje um casal no Faial, em condições peculiares (i.e. miúdos não vão à escola e vivem num iate). Mas, contrariamente, as pessoas acham “muito interessante”. Quando pergunto qual a diferença, a resposta é “estes são franceses, podem fazer o que quiserem!”… Expliquem-me lá: os estrangeiros têm direito ao livre-arbítrio na educação dos filhos… mas os portugueses têm de entrar na forma?

Quando não, entram em cena psicólogos. Se a criança é irrequieta, é hiperactiva; se é calada, tem Asperger. Não há soluções, apenas rótulos que, não raro, duram a vida toda numa comunidade pequena e fechada.

Que seria da arte se todos fossemos conformistas? Da ciência? Da busca humana pela verdade? Inexistentes, por certo.  Como dizia G.B. Shaw, “perdoem ao que pensa que os costumes da sua tribo são as leis da natureza.”

Assim vivemos na sociedade da Geração que se gaba de ter feito o 25 de Abril. Só é pena que não o tenham feito também dentro das suas cabeças.

Friday, February 17, 2012

Em vez da Democracia, o quê?


Em Janeiro, o Barómetro da Qualidade da Democracia realizou um estudo denominado “Qualidade da Democracia em Portugal: a perspectiva dos cidadãos”. O estudo foi conduzido por uma equipa de politólogos portugueses. A palavra “politólogo” irrita porque é frequentemente mal atribuída a comentadores duvidosos cujas previsões ao estilo “fará sol se não chover” são, inevitavelmente, correctas. “Política” enquanto étimo grego, i.e., o que diz respeito à organização da Cidade (da Polis), transforma-se num campo de conhecimento (de Logos), se assumirmos que existe a Politologia. A verdade é que os responsáveis por este estudo são os maiores estudiosos de política que Portugal tem, hoje em dia.

O principal resultado do estudo é surpreendente: apenas 56% dos portugueses acreditam que “a democracia é preferível a qualquer outra forma de Governo.”

É uma percentagem assustadoramente pequena. António Costa Pinto, um dos coordenadores, explica que esta reacção dos cidadãos se deve a uma quase generalizada falta de confiança tanto no regime como nos agentes políticos (instituições que os representam, personagens e partidos – por ordem crescente de desconfiança). Para além disso, os portugueses acreditam que a elite política portuguesa tem uma margem de manobra muito escassa e que, no fundo, a governação do espaço onde vivem é feita por agentes alheios, estranhos ao seu voto, como sendo a célebre Troika.

A minha questão (coloquei-a na net e agradeço a quem respondeu) é: que outro regime prefeririam os portugueses? Vejamos alguns (de acordo com as respostas).

A Monarquia acabou de forma sanguinária e contra-natura ao espírito pachola, apanágio do português quando não lhe provocam a têmpera. Por isso, terá deixado saudosismo nalguns corações – isto sem falar no glamour monárquico, que sempre encanta. Mas a Monarquia tem custos económicos tremendos para um país. Além disso, os nossos governantes têm a vantagem de o serem apenas e só enquanto nós o quisermos! Já um monarca tem direito vitalício e hereditário.

A Anarquia é tentadora, nomeadamente para a malta que ainda vive no flower power, indo a todas as “manifs” ainda que não saiba qual o motivo das ditas (mas “está com o povo!”), que fuma mais ganzas que os netos e sabe de planos do sub-mundo que estão a arrasar o sistema – planos dos quais mais ninguém ouviu falar. A malta diz que o poder deve ser igual para todos. Infelizmente, esquece-se de que, na sua generalidade, esse “todo” não só não é muito informado (ou não estaríamos nesta situação) como não tem interesse e, eventualmente, capacidade para deixar de ver “A Casa dos Segredos” e ligar ao Telejornal. Como se costuma dizer “Anarquia…com este povinho?!”

A Ditadura é a repressão e o tolher da liberdade que ainda está fresco na memória de muitos. Nem é preciso explicar o que faz às vidas, aos olhos das pessoas, aos medos que crescem e à sensação de impotência.

Então, que solução? Será a Democracia o problema? Ou será a partidocracia e, consequentemente, a falta de meritocracia? Não será que, hoje, quem não defende um partido acaba por não poder enquadrar-se nos órgãos sociais? Não será que a sociedade premeia os cartões políticos e não os méritos individuais?

Ninguém se ilude sobre o “governo do povo”. Naturalmente que existirá sempre uma elite governativa. O problema é o povo verificar diariamente que grande parte dessa elite que o governa não tem nem capacidade nem mérito para o fazer. Por isso é que, como dizia o Eça, Portugal é esta nação talhada para a conquista ou para a ditadura. E há tantas formas dela acontecer…