... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, June 1, 2012

"The Meaning of Life"



O Fazendo convidou os seus colaboradores a enviarem os artigos deste mês subordinados ao tema “O Sentido da Vida”. Como a mim me cabe cingir-me à Literatura, fiquei com este novelo: O sentido da Vida expresso na Literatura. Convenhamos que é um tema porreiro... Alguém aí tirou Doutoramento no assunto? Melhor: alguém chegou a acabar a Instrução Primária? Eu cá confesso as minhas limitações, mas farei o meu melhor (até porque estamos em colaboração com o Arauto e vamos chegar às jovens mentes da ESMA… quanta responsabilidade).

A primeira coisa que me ocorre são os Monty Python que têm, precisamente, um filme com este título de onde se conclui que o melhor é encarar a vida com muito humor, porque se formos dedicar-nos a teorizações fazemos perigar a nossa sanidade (e não chegamos a conclusão nenhuma!) Humor é a chave. Seguindo esta lógica, em todas as situações da minha vida adulta nas quais me interroguei filosoficamente sobre o sentido da vida, optei por olhar para o lado mais luminoso do mundo. Não acreditem nas pessoas que vos dizem que só há trevas e desgraças – primeiro porque não é verdade; segundo porque mesmo que vivamos situações de tortura (e ela pode acontecer a qualquer um) temos sempre a capacidade de criar um espaço interior equilibrado e bom, pois por muito que façam da nossa existência um inferno ninguém nos pode tirar a capacidade de pensarmos o que quisermos.

Mas encomendaram-me um texto sobre Literatura e vou tentar ser obediente. Existem muitos livros sobre o sentido da vida. Alguns declaradamente bem dispostos, como “Hitchhiker’s Guide to the Galaxy” de Douglas Adams, onde o planeta Terra acaba e um grupo de gente pouco ortodoxa vai viajar pelo espaço. Prova-se que pouco é preciso para viver e que o essencial é manter a calma, o humor e o espírito de entre-ajuda. Porque o humor tem uma ética subjacente, é claro que os egoístas se dão mal…

Outros livros são sobre o modo como se lida com o sofrimento. Todos nós passamos por momentos de sofrimento extremo (uns mais do que outros, porque nisto, como em tudo na vida, não existe uma balança equitativa). Em livros como “The End of the Affair” do incontornável Graham Greene (uma história de amores e Amores passada na II Grande Guerra) ou “The People of the Lie” do médico Scott Peck (sobre pessoas perturbadas, nomeadamente pais que maltratam filhos sub-reptícia e constantemente, mesmo na idade adulta), é-nos dada a percepção de que fugir das más sensações nunca é a resposta para terminar com elas. Temos mesmo de enfrentar a realidade e o sofrimento que tal traz. Só admitindo as nossas dores é que nos damos conta que temos força para as ultrapassar. Além disso, ficamos a conhecer mais de nós, dos outros e dessa coisa que se convencionou chamar vida. Criamos defesas, mas daquelas a sério, feitas de coragem e não de fugas.

Há ainda livros sobre viagens e epifanias. Pessoalmente, poucos encontrei sobre o sentido da vida que fossem tão reveladores como os de Herman Hesse. Desde “O Lobo das Estepes” ao “Jogo das Contas de Vidro”, passando pelo “Siddharta” e pelos “Contos”, todos eles são um hino aos vários estímulos da vida, a tentar colher o máximo possível de sensações e emoções, a não abdicar da nossa condição de seres pensantes e do nosso direito à diferença, a caminharmos sempre no sentido de uma evolução enquanto seres humanos. Pessoalmente, creio nestas duas coisas: no direito à diferença e na evolução. Incomodam-me aqueles que ao longo da vida pensam e agem sempre do mesmo modo, porque acredito que, idealmente, o ser humano se vai modificando num sentido ascendente. No entanto, e porque também acredito que cada um tem direito a ser como quer – desde que não magoe o próximo, o que me parece premissa essencial - guardo o incómodo para mim, porque não tenho de emitir juízos sobre o sentido da vida de ninguém… a não ser sobre o meu e sobre o do meu filho, visto que escolhi conscientemente ser responsável por ele enquanto ele necessitar.

Os judeus expressam-no com os seus ditados. A Ética dos Pais, velho livro judaico, tem esta frase que explica o que estou a tentar transmitir “Se eu não for para mim, quem será para mim? E se eu for só para mim, quem sou eu? E se não agora, quando?”   

Claro que livros são palavras e as pessoas valem bem mais do que palavras. O sentido da vida é viver e, para além disso, viver o melhor possível - aqui incluindo, por laço, as vidas daqueles que nos dizem directamente respeito pelo amor que lhes temos e, logo, como dizia Saint-Exupéry n’O Principezinho, “quem cativamos”. Cada um de nós é a própria resposta à pergunta filosófica do sentido da vida. Sentido e não ciência. Pois toda a gente sabe que essa coisa de ciência da vida (Bios e Logos segundo os étimos gregos que deram em “Biologia”) é, como diria o poeta Alberto Caeiro, uma falta de nitidez. A vida não tem ciência nenhuma e o melhor deste mundo que muda a toda a hora é acordarmos dia a dia. O primeiro que conseguir escrever um livro de instruções e regras para a vida andou a perder tempo… e sentido na vida!

Por isso, o sentido da vida somos nós. Viver é, essencialmente, escolher: não há volta a dar a esta necessidade que é, também, um inegável direito. Quem tem 15 (ou mesmo, vá lá 65) anos e procura um sentido para a vida através da Literatura, experimente ler “Ética para um Jovem” que Fernando Savater escreveu para o seu filho adolescente. Termina assim: “Tenta gastar a tua vida a não odiar e a não ter medo.”

Para bem escrever e bem ler, é preciso antes viver muito. Viver e viver com gosto é o sentido da vida. Acho eu, mas deve haver opiniões de gente mais habilitada.

Entretanto, assim no fim da folha, lembrei-me de um poema de Clarice Lispector que uma amiga (daquelas amizades de há 20 anos, que estão lá nos momentos em que tudo cai, apesar de nem sempre concordarmos e é isto, também, o sentido comovente e grande da vida) me ofereceu recentemente e que diz assim:

“A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre."

Friday, May 25, 2012

Guilhotinas Modernas



“Somos a democracia mais apurada do mundo. E, por isso mesmo, não usamos guilhotinas. Mas temos outros métodos, menos sanguinários, de humilhação, destinados a assegurar a população que a nossa ordem será restaurada e que a República será limpa” diz William Greider, jornalista americano e autor de vários livros sobre economia e identidade, nomeadamente “Volta para Casa, América: Ascensão, Queda e Promessa Redentora de um País”.

É interessante a perspectiva de um homem que a sociedade considera bem sucedido e que não teme dizer que o sistema constituinte dessa própria sociedade “não está apenas ferido, não está apenas partido; colapsou. E visto que o governo continua a brincar, colocando os pedacinhos que restam em cima de um muro periclitante, voltará a cair. Esta não é uma posição ideológica; é a realidade.”

Também é gratificante saber que Greider é, apesar da sua visão descomplexada e cirúrgica em relação ao seu meio, um optimista: “Tenho fé na juventude, que ainda não conhece impossibilidades. Está menos carregada de passado e tentará o novo sem se incomodar se já foi tentado antes. Assim ocorrerão mudanças. Quando as pessoas imaginam um futuro diferente, desaparece o poder instituído.”

Mas são as questões dos métodos de humilhação da democracia apurada que me interessaram sobremaneira. De facto, mesmo por cá, sabemos que existem métodos não-guilhotinescos de humilhação e de tortura, que um amigo – muito mais experiente e inteligente do que eu – denomina sabiamente de “fuzilamento psíquico” dos adversários. Este fuzilamento admite imensas variantes, desde a destruição da vida privada à destruição da vida profissional ou ao lançar de boatos sobre a sanidade mental dos visados (uma arma em moda desde o escândalo Watergate, quando a mulher do Procurador-Geral  dos E.U.A. era a “louca” de serviço, segundo o governo de Nixon… até que foi impossível esconder a verdade e ruiu um Império – sadismo patriótico? Ou medo, muito medo de que o povo viesse a saber que, debaixo das gravatas e dos saltos altos, estavam pessoas muito pouco recomendáveis, como dizia Martha Mitchell, a dita “louca”?)

Se várias destas variantes forem alcançadas, chegamos áquilo que também aprendi ser “a política da terra queimada”. Esta ideia da “terra queimada” significa tão só, na nossa aldeia, que se admite ser possível derrubar alguém completamente, a partir de pura conjugação de forças de poder e por razões pouco nobres, como sejam mal-querenças. Ora, isto não é novo… Na História, sempre se fizeram coisas semelhantes, desde a Inquisição que queimou pessoas por alegadas práticas nunca provadas (mas murmuradas por “gente de bem”) até à Caça às Bruxas de séculos passados em que bastava uma vizinha ter inveja de outra para a acusar de bruxaria e aí estava a pobre acusada reduzida a cinzas ou, no mínimo, a açoitamentos públicos.

Podemos mascarar a realidade. Podemos até nomear técnicos que nos apoiem nesse serviço – a CIA tem psicólogos e médicos que, alegadamente, impedem a tortura feita em interrogatórios de “ir longe demais…” (e todos já vimos, no Youtube, o quanto é possível ir longe demais). Podemos atirar areia para os olhos públicos para defender uma imagem. Mas, para quem o faz, deve persistir uma dúvida identitária que Gandhi colocou: “É um mistério para mim porque se sentem os homens honrados com a humilhação de outros seres humanos.” Não deixa de ser, no mínimo, estranho que há quem retire prazer ou (vã) glória disso. 

Friday, May 11, 2012

Portugal dos Pequeninos


Tive uma grande sorte na vida que foi ser educada pelos meus avós, sobretudo pela minha avó já que o meu avô morreu cedo. Ela tinha por hábito usar frases-chave cujo sentido eu não apreendia na totalidade, embora muito mais tarde na vida me fossem úteis. Este introito serve para dizer que um dos seus conselhos recorrentes era “nunca te compares com quem é pior do que tu, mas sempre com quem é melhor do que tu.” Na altura, isto não me dizia nada de especial (mas também não me fazia sentir mal, contrariando todas as habituais pedagogias de auto-estima); hoje, parece-me um santo remédio para a mediocridade. É uma frase que todos estamos a precisar de ouvir. Todos, na Região e no País.

Com efeito, o que mais se ouve dizer em Portugal é que “Portugal não é a Grécia.” Na mesma sequência de ideias, virou moda dizer-se na nossa Região que “Os Açores não são a Madeira.” Tendo em conta que o País e a Região são governados por forças políticas de quadrantes diferentes, só me ocorre que tais frases não façam parte de um discurso de propaganda (ou teriam ambos a mesma, o que denotaria muito pouco esforço de marketing) mas sim que sejam frases denotativas de um certo espírito cultural do português.

Qual é o objectivo quando, sistematicamente e em jeito de lavagem cerebral, insistem em comparar-nos com quem está pior do que nós? Será para nos incutir esperança, fazendo-nos ver que existem misérias maiores? Não sei se a táctica é boa, pois ao chamar a atenção para estas realidades, há quem pense que, se quiséssemos realmente apontar miséria, não faltam países e regiões com mais tristes economias no globo e que apontamos estes porque sabemos que não estamos tão longe assim da sua realidade, seguindo o velho ditado “quando vires as barbas do vizinho a arder… põe as tuas de molho!” É capaz de ser um conselho disfarçado. Mas já cansa. Além disso, tem um certo ar a “esconjuro” – dá a triste imagem de que por dizermos cem vezes que não somos a Grécia ou a Madeira, afastamos toda e qualquer possibilidade de nos encontrarmos nas mesmas alhadas. Mas, de facto, essa possibilidade (se ela existe) não tem a ver com palavras de negação. Aliás, costuma dizer-se que a negação é o contrário do primeiro passo para a cura…

Andamos aqui como crianças no recreio da Primária, a apontar o dedo, orgulhosos de (ainda) não sermos tão caídos em desgraça como os nossos colegas, sendo mais que certo que esta atitude advém do receio profundo de virmos a estar nas mesmas condições. Vendar os olhos, apontando a miséria alheia para que se esqueça a nossa é um velho truque (usado até pelas coscuvilheiras de rua). Nada mais simples do que, em face de um problema que nos diz respeito, divergir a atenção das pessoas para outro problema com o qual se entretenham… Entretido e ignorante do real, qualquer um é mais fácil de levar.

Antes preferia ver discursos produtivos, que fossem exemplificativos de acção concreta para nos tirar da esfregona económica em que estamos. Discursos como aqueles que fazem os seleccionadores de futebol que são o melhor exemplo dos resquícios da força portuguesa - a restante acabou com a História dos Descobrimentos, e é talvez por esse resto de garra que há tanta gente a gostar de futebol por cá. Só no futebol é que Portugal arreganha os dentes a outras forças; noutros jogos, senta-se a estudar papéis e diz que não tem poderio para fazer negociação; só para “fazer contactos” (contactos para quê?).

Cheira-me que vamos continuar a fazer comparações que nos nivelem por baixo. E também me parece que assim não se evolui. Não é coisa pouca, já que a evolução devia ser a aspiração maior de qualquer sociedade – e até de todo o ser humano.

Inflando o nosso ego pequenino, lá vamos. Neste caso, ser pequenino não é ser David face a Golias; é colocarmos as nossas capacidades de seres pensantes e evolutivos em stand-by… enquanto nos deleitamos por ainda não estarmos tão mal como podíamos. Deve ser por isso que tanta gente responde ao “Tudo bem?” com “Não venha a pior!”

Friday, May 4, 2012

A Porta Estreita de André Gide



“Larga é a porta que conduz à destruição e muitos nela entram; mas estreita é a porta que conduz à vida e poucos a encontram.” É a partir da diferente interpretação deste excerto do Evangelho de S. Lucas escutado por duas crianças que se constrói o romance de Gide. Jerome (órfão de pai antes dos 12 anos, de maturidade e sensibilidade precoces) e Alyssa (desprezada ao extremo pela sua mãe adúltera pela descoberta das infidelidades conjugais desta) apaixonam-se sem jamais consumarem essa paixão adolescente no plano físico, o que ainda mais acentua o desejo e a luta constante que os une. Há, primeiro, o problema da idade que os faz optar pelo platonismo; mas a passagem do tempo só conduz ao sacrifício de Alyssa que opta por uma vida dedicada ao divino em vez da concretização do amor físico, julgando que este acto vai redimir todos os envolvidos na trama da sua vida dos castigos de além-mundo. Já Jerome, embora desiludido, não desgosta de se encontrar no papel de herói-mártir, sabendo que não deixa de ocupar o lugar maior no coração de Alyssa.

Esta misteriosa novela merece destaque na obra de Gide, que ganhou o Nobel em 1947 “pela sua escrita complexamente artística, onde a condição e problemas humanos são apresentados com um corajoso amor pela verdade e grande intuição psíquica.” Gide, autor polémico pela sua posição anti-família tradicional e a favor do livre-arbítrio do Homem, foi educado pelo pai (um professor universitário de Direito), e não foi sem reservas que Gide assumiu a sua homossexualidade, casando - apesar disso - com sua prima Madeleine com quem jamais consumou a união. Teve descendência da única mulher com quem manteve uma relação sexual na vida, a “Dama Branca” dos seus escritos (Elysabeth, filha de uma sua colega escritora). O seu desejo de verdade e a sua necessidade de ser aceite formam a coluna vertebral da sua escrita e foram, sem dúvida, o fermento de uma vida contraditória, onde receios profundos, proibições e liberdade deram as mãos.

Friday, April 27, 2012

Eleições Antecipadas


Não se assustem. Contrariamente a muitos (são muitos os cargos na nossa aldeia), não tenho poder para invocar o assunto. Mas, como cidadã, também eu posso falar de política. É muito raro, porque nisto e no futebol, somos todos especialistas… Aqueles que, como eu, não jogam mas se atrevem a emitir uma opinião sobre o jogo são imediatamente fulminados pela claque e não é inusitado que se peça ao árbitro que dê um jeitinho para nos passar cartão vermelho (apesar de estarmos na bancada).

Apesar do risco, gostava de deixar alguns tópicos de reflexão. Primeiro, porque é que as campanhas políticas insistem sistematicamente no colectivismo, no “todos como um só”? As sociedades estão longe de ser homogéneas. Porque teremos de fingir que somos todos iguais? Uma coisa é agirmos solidariamente, outra coisa é sermos fundidos num mesmo pensamento (o que já me cheira à formação de soldadinhos). A política tende à submissão, ainda que encapotada, e o que é pior, “para nosso bem” - como se nós, deficientes mentais, não soubéssemos o que nos faz bem!

Segundo, porque é os membros de um grupo, sendo vários, obedecem a um só, ainda que muitas vezes o detestem subliminarmente? Nietzsche disse que as sociedades são um conjunto de promessas que os membros do grupo fazem uns aos outros, pelo que se pressupõe ter de haver uma autoridade que garanta o cumprimento destas. A autoridade, primus inter pares, tem sempre um certo halo de temor sagrado e venerável. O seu poder sobre-humano é-lhe dado pelos restantes e não raro se converte num tabu, eventualmente perigoso a longo prazo, até para o próprio. De facto, um líder tem sempre de lutar contra a sua própria sede de capricho absolutista e, ao mesmo tempo, manter uma aura. É por ser tão difícil que líderes existem poucos; mas governantes temos às centenas.

Terceiro, a democracia foi uma grande invenção e não conheço sistema melhor. Mas, dado que é a vitória da maioria, contém um paradoxo terrível: todos nós conhecemos mais pessoas ignorantes do que pessoas inteligentes e mais maldade do que bondade no mundo… Logo, é de prever que as soluções melhores não serão as escolhidas. Como exemplo, vejam as consultas públicas sobre qualquer assunto: toda a gente se atropela e verifica-se que os conhecimentos da maioria dos intervenientes são muito débeis.

Quarto, gostava de viver numa sociedade em que o Estado e o indivíduo não estivessem em guerra. Actualmente, são dois irmãos que se culpam do seu mal-estar. O Estado foi organizacionalmente criado para o indivíduo, decorre dele, e o indivíduo detém valores – isto anda esquecido. Hoje o Estado está convencido que ordena e institui valores ao indivíduo e este, por seu lado, demite-se, diz que o Estado “tem direito” e chora. O direito é uma convenção humana, não nasceu dos genes. Os Direitos Humanos, necessariamente genéricos e universais, carecem de adaptações e estas jamais existirão por parte daqueles que estão melhor instalados (ou alguém já ouviu falar de donos de escravos abolicionistas?).

Quinto, os partidos deveriam ser um meio de participação política… mas são um fim em si mesmos. A política, per se, trabalha em prol do desenvolvimento da sociedade; os políticos trabalham em prol da sua promoção esquecendo que o maior interesse humano é gregário.

Sexto, preocupa-me a enorme limitação de liberdades por parte das instituições. Será por medo? E que deduções tirar de um Estado com medo que nos limita “para nosso bem”? Os maiores inimigos da liberdade têm sido os grandes carniceiros da História. Não é pelo risco de haver quem se atire do nono andar que temos de ser todos obrigados a viver no rés-do-chão…

Sétimo, a política já não é a organização da vida dos cidadãos. Tornou-se, para uns, opressiva; para outros, um projecto de marketing. É esta a suprema ambição de um governante?

Assim, arriscamo-nos a que os abstencionistas ganhem as eleições. Arriscamo-nos àquela frase humorística do escritor açoriano Álamo de Oliveira: “Se os abstencionistas ganharem as eleições, eles que formem governo!” É a piada mais séria que já ouvi.

Friday, April 13, 2012

Responsabilidade



“A tendência do indivíduo médio é para regredir emocionalmente assim que se torna membro de um grupo” disse Scott Peck, médico ao serviço do Exército Americano durante a Guerra do Vietname. Nos seus escritos sobre o massacre de civis em Mylai pelas forças do batalhão americano “Charlie”, Peck começa por considerar os factos: os civis eram sobretudo crianças, mulheres e idosos; os soldados que puxaram das armas não terão sido mais de 50 (os restantes 200 terão assistido ao massacre sem o tentar impedir); no ano seguinte ao crime, ninguém na Força de Comando Especial ignorava as atrocidades cometidas e ninguém (sublinhe-se, ninguém) as revelou. O crime só se tornou público porque um ex-militar (não pertencente à Força, mas que ouvira o relato por via de um amigo) escreveu uma carta ao Congresso Americano que, como tal, foi compelido a agir.

A complexidade do acontecimento não cabe numa crónica, muito menos a ramificação mental de fragmentação da consciência que ocorreu num grupo de homens convencidos de que massacrar inocentes não só não era crime como era um dever patriótico à causa grupal a que esse Outro se opunha pela sua existência de pertencente a um grupo que não o seu. Não confessaram porque, no seu distorcido esquema mental, não havia culpa a registar, mas sim o cumprimento de um dever.  

Mas os restantes? Porque não falaram de Mylai? Primeiramente, por cobardia. Esses sentiam a culpa do sucedido e sabiam que os esperava uma lei marcial se o acontecimento fosse descoberto (encobrir um crime constitui crime em tempo de guerra). Segundo, por anestesia psíquica, um conhecido fenómeno de quem sobreviveu a situações de stress intenso e prolongado: após algum tempo em condições sub-humanas, as defesas emergem e o ser humano protege-se pela anestesia de emoções, i.e. o que antes o perturbava deixa de ser relevante (exemplo extremo: se antes o horrorizava ver queimar corpos, passada uma semana é ele mesmo que os atira para a fogueira se entender que de tal depende a sua sobrevivência, ainda que seja apenas a sobrevivência social). Em terceiro lugar, por imaturidade emocional – aqui, seria necessário explanar o modo como se escolhem os indivíduos para pertencer a um determinado grupo e porque é que alguém é “cão de caça” ao invés de “caçador”. Regra geral, soldados têm personalidades influenciáveis, dependentes e descontroladamente agressivas, servindo para a linha da frente, enquanto oficiais fazem lavagens de cérebro, usam de frieza e maquiavelismo e jamais se colocariam em situações de perigo. Qual deles o mais perigoso? E o mais culpado?

Os seguidores de Hitler estavam convencidos que a purificação da raça não era um pecado… era um dever para com os humanos e o mundo. Já para o esquemático Hitler, a convicção era outra: a sua questão pessoal encontrou um escape na matança e, adicionalmente, o seu ego ficou satisfeito por encontrar uma multidão de seguidores que, ainda que não pela mesma razão, o apoiavam.

Uma das formas mais seguras de fomentar o ódio contra o Outro é convencer “soldados” de que fazem parte de um grupo, coeso e orgulhoso, sendo o Outro uma ameaça (este simples esquema funciona nos jogos de futebol, na política e até nas reuniões internacionais). De acordo com todas as teorias sobre as tribos, tenhamos em conta que se um indivíduo não tolera bem a crítica nem o falhanço, um grupo – ferido no seu orgulho ou em risco de queda – é triplamente mais rancoroso e perverso nos seus ataques de narcisismo e de (suposta) defesa exacerbada.

Resta uma questão: e a opinião pública? Ao saber de Mylai, ao saber de “n” atrocidades, porque não se manifesta? Porque dizemos “não é comigo” e desresponzabilizamos as questões, empurrando para o patrão, o vizinho, o Governo ou os especialistas? Porque é que nunca sabemos de nada nem queremos confusões com ninguém? Não será pelas mesmas razões - inércia, cobardia, protecção da própria pele, anestesia de grau elevado?

Existe uma velha expressão judaica da Ética dos Pais que vos deixo aqui “se não eu para mim, quem para mim? E quando eu sou só para mim, quem sou eu? E se não agora, quando?”  

Tuesday, April 10, 2012

O Grande Enigma de Tomas Tranströmer



Colectânea de poemas de um autor que, segundo o próprio, é conhecido pela sua “pouca produtividade literária”. Com efeito, Tranströmer, vencedor do Nobel em 2011 pelas “suas imagens condensadas e translúcidas que nos dão um novo acesso à realidade”, escreveu pouco mais de uma dezena de livros de poesia, mas está traduzido em mais de 50 línguas. O Grande Enigma são cinco pequenos poemas e vários haiku (note-se que são haiku feitos à moda sueca, adaptando esta forma japonesa, o que, em versões traduzidas, nos transporta, ainda para um terceiro universo linguístico!). A estrutura simples e silábica surpreende porque consegue encaixar em si uma profundidade que não necessita de arranjos barrocos.

A vida de Tranströmer foi peculiar, como a de todos os homens notáveis. Educado apenas pela mãe numa melancólica ilhota da Suécia, formou-se em Psicologia e Literatura. Trabalhou como psicólogo num casa de correcção juvenil, o que mais acentuou a sua veia trágica e nostálgica. Mais tarde, sofreu um AVC que lhe deixou paralisado o lado direito do corpo e o impossibilitou de falar. Mas Tranströmer, lutador por natureza e por experiência de vida, continuou a escrever poesia e a tocar piano, auto-ensinando-se a fazer ambos apenas com a mão esquerda, de modo tão notável que chegou a dar recitais líricos. Na Suécia, alcunharam-no de “poeta milhafre” (buzzard poet) pois dizem que a sua poesia perspectiva o mundo como se ele planasse em grandes alturas.