... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, July 20, 2012

Conforme (se)


Recentemente, assisti a um documentário sobre “criatividade”. Esta característica, a que não é exagero apelidar de motor da evolução, está na base de toda a criação, seja ela artística ou científica – pois mesmo um matemático terá de ter tido curiosidade para procurar a determinação das regras x e y. Não existem dúvidas, pois, de que é a criatividade que permite o avançar do Homem.


Porém, ser criativo implica romper com o estabelecido. O conformismo, oposto da criatividade por natureza própria e, logo, motor da estagnação, é uma força igualmente poderosa. Não é totalmente maléfico visto que sem determinadas normas de encaixe, haveria um colapso estrutural e social muito perturbador. Por isso, temos governos, finanças, transportes, direito penal. O problema é quando as instituições se tornam absolutas e, ao invés de servir o Homem, ditam a vida do mesmo – afogando o seu próprio criador. Mal comparado, é como um vício: a princípio, é bom porque temos controlo sobre o mesmo; mas quando é o “prazer” que controla quem dele usufrui, onde está o ganho?

Somos bombardeados com a ideia de que devemos motivar a imaginação dos nossos filhos e de que devemos ter mais iniciativa e empreendedorismo nas nossas profissões, mas a verdade é que qualquer tentativa de um estudante para expressar a sua opinião ou de um professor para ser mais criativo na exposição da matéria (ou mesmo de incluir outro tema para pôr os alunos a discutir e pensar) é olhada de lado e vista como “esquisita, desregrada, invulgar”. O coro geral é de que “se deve pôr cobro a isso.”

Porque terá a sociedade tanto medo do que, ao mesmo tempo, apregoa como mais desejável? Palpita-me que esta pergunta nos leva direitinhos ao âmago do problema do conhecimento e da maçã roubada do Jardim do Éden. Lamentavelmente, não temos tempo nem espaço para explorar esse receio profundo que sempre faz com que as mentes mais inovadoras e brilhantes sejam castradas no seu tempo de vida para serem louvadas alguns séculos depois.

Mas gostava de deixar aqui alguns pontinhos sobre a necessidade de conformismo que assola o Homem enquanto ser grupal e apaga no indivíduo (às vezes por decreto) a chama evolutiva. Para além das normas socio-culturais a que involuntariamente obedecemos em larga escala mesmo quando afastados da nossa sociedade, existem diversos factores que estão ligados ao conformismo, entre eles a nossa “natural” obediência a figuras de autoridade, necessidade de segurança estrutural, tendência para fazer parte de um grupo, necessidade de aprovação e de reciprocidade. Tudo muito humano, básico e compreensível. Talvez por isso seja mais difícil entender os indivíduos “dissidentes” – a expressão de opiniões próprias traz desconforto à organização social porque, afinal, aí está alguém que luta por si próprio. E o que seria de toda a estrutura se, subitamente, se percebesse que todos os homens têm a capacidade inata de se valerem por si? Consequentemente, ninguém balança o barco. E aquele que se levantar, recebe logo um empurrãozinho acidental: ou entra na forma ou cai ao mar.

Se sabemos que “Existem muitas maravilhas, mas a maior de todas elas é o Homem” desde Sófocles, é porque, precisamente, já os Antigos Gregos reconheciam que a capacidade de criar é o milagre maior de toda a Terra. E não é verdade que estamos muito precisados de mudanças, e talvez mesmo de milagres?

Friday, July 6, 2012

Mãe o Suficiente?



A revista Time de Maio provocou um curto-circuito de comentários por causa da sua capa, cuja foto era uma americana de 26 anos a amamentar o filho de 4. A fotografia é intencionalmente provocatória: a pose está longe de representar intercâmbio materno-filial entre ambos, dado o olhar frontal que mãe e filho lançam à câmara e a posição mão-na-anca da mãe enquanto o filho (muito corpulento para os 4 anos que dizem ter) está em pé para poder chegar ao seio descoberto. A legenda da foto atiça ainda mais: “Are you mom enough?” (“Você é mãe o suficiente?”). Um comentário abaixo explica que algumas mães se extremam em cuidados devido à sua crença na teoria do apego, hoje na moda.

Convenhamos: uma boa capa de revista é a que chama a atenção e, para tal, nada melhor do que desafiar o status quo e normas estabelecidas, pondo as pessoas a interrogarem convicções. Claro que existe uma linha frágil de elegância editorial que se tem de conseguir equilibrar, um meio-termo entre o desafio inteligente e a recusa de ofender o público, lato sensu. É provável que a Time o tenha conseguido com esta capa, chocante para muitos. Mas pergunto-me qual será a reacção do miúdo quando crescer e vir a revista…

Pessoalmente, não creio que, na nossa cultura e estilo de vida (importante sublinhar que outras culturas têm diferentes padrões), haja razões para amamentar miúdos cuja dentição completa permite que ingiram outro tipo de alimentos, que não causam danos no desenvolvimento físico posterior dos meninos e estão amplamente disponíveis no mercado… mais disponíveis do que a mama de uma mãe trabalhadora. Para além disso, uma amamentação tão extensa como esta - ou mais, porque há mães que, tendo bebés, ainda amamentam o filho de 6 anos “antes de dormir porque ele gosta” - não me parece propiciadora da autonomia da criança. Posto claramente, eu não quereria ser mulher de um homem que tivesse sido amamentado até à Primária pela mãe. Imagino as dificuldades relacionais de intimidade daí decorrentes… Penso que, como mães, temos também obrigação de saber que os filhos serão adultos, com vidas independentes, e, se tudo correr bem em termos evolutivos, desligados em grande parte da nossa afectividade física que deve ser premente, estável e constante enquanto eles são pequeninos.

Claro que a autonomização progressiva dos filhos, sem deixar de proporcionar segurança e carinho, não é fácil. Apesar de, como todas as mães, ouvir “x” opiniões sobre educação, é claro que faço o que eu considero ser mais adequado – pois, afinal, ninguém conhece melhor a especificidade do meu rebento do que eu. Outras mães haverá com outros filhos que tomam opções diferentes, válidas para os ditos.
É correcto? Só no futuro saberei. Não há receituário sobre como educar um filho (menos ainda sobre como educar os filhos dos outros).

Estou convicta de que a maioria das mães sabe por instinto o que fazer melhor, mesmo que seja diferente do que faz a mãe do lado. E sublinho que falo de Mães. Porque existem as que são progenitoras apenas. E dessas senhoras que apenas são progenitoras por direito comum de procriação da espécie… só a lei lhes reconhece o estatuto; mas para ser Mãe é preciso sentimento e isso não se compra em pacotes nem tão pouco vem das hormonas - só o filho ajuiza se é (ou foi) “suficiente”. 

Friday, June 22, 2012

Bichinhos não votam



Todos os que já viram uma campanha eleitoral ou, para tornar a coisa ainda mais corriqueira, já observaram uma “cena de engate”, sabem que não há nada que encante tanto o público como uma máscara de protector face a um desprotegido. Trocando em miúdos: aquele que procura seduzir (seja ele uma empresa, um político ou um simples cidadão) sabe perfeitamente que, se estiver acompanhado de um velhote, de um bebé ou de um bicho, tem muito mais hipóteses de se tornar apelativo. É ou não é verdade que os políticos se esforçam por tirar fotografias dando beijos em velhas e crianças? É ou não é verdade que os homens sem compromisso adoram passear cães e sobrinhos? É ou não é verdade que publicidade com seres fofos e carentes é meio caminho andado para prender corações? É verdade, sim senhor. E, o que é mais, os calculistas que procuram ser atraentes não o ignoram.

Dar uma imagem de carinhoso e responsável apela aos mais básicos instintos que nos observam. Ter fotos dos filhos no escritório e pagar quotas às mais variadas entidades de solidariedade social é coisa de quem trabalha muito para a sua imagem. Desconfiem sempre de quem fala muito de ética; não é necessário falar do que se pratica diariamente.

A propósito de bichinhos, uma história recente impressionou-me. Não recordo nenhum momento da minha vida que não tivesse sido acompanhado por animais ditos irracionais. É difícil expressar o companheirismo que se tem com eles e igualmente falar da revolta que se sente em relação à crueldade que é apenas (mais) um sintoma da insensibilidade daqueles que a perpetram. E digo “mais um” com justeza, porquanto todos sabemos que raro é o serial killer que não se entretivesse, anteriormente, na tortura de animais…

Avançando: a notícia dá conta de que a Câmara Municipal da Horta abateu cães, “por engano de leitura de um e-mail”. A história é esta: enquanto decorria o evento Feira do Mundo Rural, a CMH – que partilha um canil com a Associação Faialense de Amigos dos Animais (AFAMA) – abateu 7 cães, 3 dos quais pertencentes à dita associação e ainda cães que se encontravam à guarda provisória da CMH a pedido da dona, que se encontrava temporariamente impossibilitada de os ter em casa. 

Já sabemos: as Câmaras abatem animais, não é bonito, tem de ser feito com métodos próprios e na presença de um veterinário, mas está previsto na lei para prevenir animais errantes e eventualmente agressivos nas cidades. A AFAMA – que funciona unicamente com voluntários e posso atestar que trabalham como cães, passe a piada, para tratar dos seus bichos e ainda dos bichos que a CMH recolhe… - enviou um e-mail à edilidade, notificando-a de quais eram os animais recolhidos pela CMH demasiadamente agressivos e, no dizer da AFAMA, “irrecuperáveis”. A CMH não os identificava, porque não trata dos ditos e, logo, não os conhece. Pese embora o facto de nos dirigentes da CMH nesta área, haver quem tenha cartão de sócia da AFAMA e não deixe de utilizar o facto de defender os animais para atestar da sua enorme sensibilidade às causas…

À conta do e-mail ser mal interpretado, Goldie, Lobo e Laika (cães da AFAMA) foram abatidos. Abatidos foram também os cães de quem tinha lá deixado os seus animais temporariamente. Os animais a serem abatidos, afinal, não o foram… porque foram confundidos com outros. A AFAMA refere que os procedimentos legais pré-abate nem sequer foram seguidos pela CMH, que não publicou edital nem contactou a associação; por seu lado, a CMH diz que seguiu tudo direitinho (apenas ainda não consegue ler e-mails, apesar de ter gente pós-graduada sentada na instituição…)

Embora a custo, vou abster-me de opinar sobre a conduta da CMH. O que sei é que um canil municipal e um canil de protecção aos animais não podem nunca dar as mãos (coisa que, de momento, é da conveniência da edilidade); que mulheres grávidas esfregaram canis voluntariamente e não fizeram gala disso nem o usaram para aparecer nos jornais; que merecíamos políticos que, ao menos, soubessem ler; e que de boa política só para (a)parecer já estou um bocado enjoada.

Friday, June 8, 2012

Paizinho


Há menos de um mês, o Sr. Primeiro Ministro fez reconfortantes declarações ao país na tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e Inovação. De facto, nada melhor do que aproveitar a ocasião de um Conselho para a Inovação para nos trazer ar fresco. Nesse sentido, o Sr. Primeiro Ministro dirigiu-se, sábia e calorosamente, aos que mais sufocados se encontram: os desempregados, naturalmente em dificuldades. Cito: “Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade”.

É a esperança e o optimismo em todo o seu esplendor. Estar sem emprego (e o que é mais, ser demitido!) não é mau, não. É uma oportunidade. É o Novas Oportunidades II - e todos aqueles ligados à Educação conhecem os efeitos do I… É incrível como o povo português cuja “cultura média […] tem aversão ao risco” (estou a citar novamente) ainda não se tinha apercebido da chance que é levar um chuto da entidade patronal e ficar sem dinheiro ao fim do mês. Felizmente, temos um PM que nos abre os olhos para um novo caminho a desbravar. É como um pai que mostra aos filhos perdidos no mundo, queixinhas, pessimistas, ou – no dizer do próprio – uns “piegas”, que existem imensas possibilidades. Enquanto povo, podemos não ter uma vida fácil, mas lá que temos um dirigente superior que nos ajuda a ver a razão, disso não haja dúvidas.

O Sr. Primeiro Ministro defende uma “alteração da nossa cultura” por “um maior dinamismo e uma cultura de risco e de maior responsabilidade, seja nos jovens, seja na população em geral”. O problema, convenhamos, está em sermos uns amorfas. Como andávamos há imenso tempo na boa vida, com comida na mesa, dinheiro para medicamentos quando necessário e até houve alguns de nós que decidiram ter filhos, o PM – como qualquer pai preocupado e honesto – fez o que se impunha: cortou benefícios à criançada para que aprendam o que é a vida dura. Sem empregos e sem dinheiro, vamos lá a ver como se aguentam. Vamos lá a ver se é agora que arriscam e me desamparam a casa, que é como quem diz o País, e emigram lá para fora que aqui há mais bocas que ele necessita de alimentar.

Só tive dificuldades em perceber a parte em que se falou de “responsabilidade”. Afinal, todos nós, filhotes pertencentes ao povo, sabemos que a nossa admiração filial repousa, em última análise, no reconhecimento das qualidades dos nossos pais / governantes. Não creio que falar numa qualidade que eles próprios não tenham demonstrado ter até à data seja benéfico ou instaurador desta mesma qualidade no seu rebanho… Afinal, fazer mais um Conselho Nacional (de Inovação), cujos objectivos e existência são discutíveis em tempo de crise, leva, por si só, a pensar…

Quanto ao mais, todos conhecemos a técnica: submeter-nos o mais possível porque povo com fome é povo obediente. Dizem. Mas existe aí um pequeno senão: é que povo com fome revolta-se. Nunca se deve subestimar um adversário que foi levado até às últimas consequências.

Friday, June 1, 2012

"The Meaning of Life"



O Fazendo convidou os seus colaboradores a enviarem os artigos deste mês subordinados ao tema “O Sentido da Vida”. Como a mim me cabe cingir-me à Literatura, fiquei com este novelo: O sentido da Vida expresso na Literatura. Convenhamos que é um tema porreiro... Alguém aí tirou Doutoramento no assunto? Melhor: alguém chegou a acabar a Instrução Primária? Eu cá confesso as minhas limitações, mas farei o meu melhor (até porque estamos em colaboração com o Arauto e vamos chegar às jovens mentes da ESMA… quanta responsabilidade).

A primeira coisa que me ocorre são os Monty Python que têm, precisamente, um filme com este título de onde se conclui que o melhor é encarar a vida com muito humor, porque se formos dedicar-nos a teorizações fazemos perigar a nossa sanidade (e não chegamos a conclusão nenhuma!) Humor é a chave. Seguindo esta lógica, em todas as situações da minha vida adulta nas quais me interroguei filosoficamente sobre o sentido da vida, optei por olhar para o lado mais luminoso do mundo. Não acreditem nas pessoas que vos dizem que só há trevas e desgraças – primeiro porque não é verdade; segundo porque mesmo que vivamos situações de tortura (e ela pode acontecer a qualquer um) temos sempre a capacidade de criar um espaço interior equilibrado e bom, pois por muito que façam da nossa existência um inferno ninguém nos pode tirar a capacidade de pensarmos o que quisermos.

Mas encomendaram-me um texto sobre Literatura e vou tentar ser obediente. Existem muitos livros sobre o sentido da vida. Alguns declaradamente bem dispostos, como “Hitchhiker’s Guide to the Galaxy” de Douglas Adams, onde o planeta Terra acaba e um grupo de gente pouco ortodoxa vai viajar pelo espaço. Prova-se que pouco é preciso para viver e que o essencial é manter a calma, o humor e o espírito de entre-ajuda. Porque o humor tem uma ética subjacente, é claro que os egoístas se dão mal…

Outros livros são sobre o modo como se lida com o sofrimento. Todos nós passamos por momentos de sofrimento extremo (uns mais do que outros, porque nisto, como em tudo na vida, não existe uma balança equitativa). Em livros como “The End of the Affair” do incontornável Graham Greene (uma história de amores e Amores passada na II Grande Guerra) ou “The People of the Lie” do médico Scott Peck (sobre pessoas perturbadas, nomeadamente pais que maltratam filhos sub-reptícia e constantemente, mesmo na idade adulta), é-nos dada a percepção de que fugir das más sensações nunca é a resposta para terminar com elas. Temos mesmo de enfrentar a realidade e o sofrimento que tal traz. Só admitindo as nossas dores é que nos damos conta que temos força para as ultrapassar. Além disso, ficamos a conhecer mais de nós, dos outros e dessa coisa que se convencionou chamar vida. Criamos defesas, mas daquelas a sério, feitas de coragem e não de fugas.

Há ainda livros sobre viagens e epifanias. Pessoalmente, poucos encontrei sobre o sentido da vida que fossem tão reveladores como os de Herman Hesse. Desde “O Lobo das Estepes” ao “Jogo das Contas de Vidro”, passando pelo “Siddharta” e pelos “Contos”, todos eles são um hino aos vários estímulos da vida, a tentar colher o máximo possível de sensações e emoções, a não abdicar da nossa condição de seres pensantes e do nosso direito à diferença, a caminharmos sempre no sentido de uma evolução enquanto seres humanos. Pessoalmente, creio nestas duas coisas: no direito à diferença e na evolução. Incomodam-me aqueles que ao longo da vida pensam e agem sempre do mesmo modo, porque acredito que, idealmente, o ser humano se vai modificando num sentido ascendente. No entanto, e porque também acredito que cada um tem direito a ser como quer – desde que não magoe o próximo, o que me parece premissa essencial - guardo o incómodo para mim, porque não tenho de emitir juízos sobre o sentido da vida de ninguém… a não ser sobre o meu e sobre o do meu filho, visto que escolhi conscientemente ser responsável por ele enquanto ele necessitar.

Os judeus expressam-no com os seus ditados. A Ética dos Pais, velho livro judaico, tem esta frase que explica o que estou a tentar transmitir “Se eu não for para mim, quem será para mim? E se eu for só para mim, quem sou eu? E se não agora, quando?”   

Claro que livros são palavras e as pessoas valem bem mais do que palavras. O sentido da vida é viver e, para além disso, viver o melhor possível - aqui incluindo, por laço, as vidas daqueles que nos dizem directamente respeito pelo amor que lhes temos e, logo, como dizia Saint-Exupéry n’O Principezinho, “quem cativamos”. Cada um de nós é a própria resposta à pergunta filosófica do sentido da vida. Sentido e não ciência. Pois toda a gente sabe que essa coisa de ciência da vida (Bios e Logos segundo os étimos gregos que deram em “Biologia”) é, como diria o poeta Alberto Caeiro, uma falta de nitidez. A vida não tem ciência nenhuma e o melhor deste mundo que muda a toda a hora é acordarmos dia a dia. O primeiro que conseguir escrever um livro de instruções e regras para a vida andou a perder tempo… e sentido na vida!

Por isso, o sentido da vida somos nós. Viver é, essencialmente, escolher: não há volta a dar a esta necessidade que é, também, um inegável direito. Quem tem 15 (ou mesmo, vá lá 65) anos e procura um sentido para a vida através da Literatura, experimente ler “Ética para um Jovem” que Fernando Savater escreveu para o seu filho adolescente. Termina assim: “Tenta gastar a tua vida a não odiar e a não ter medo.”

Para bem escrever e bem ler, é preciso antes viver muito. Viver e viver com gosto é o sentido da vida. Acho eu, mas deve haver opiniões de gente mais habilitada.

Entretanto, assim no fim da folha, lembrei-me de um poema de Clarice Lispector que uma amiga (daquelas amizades de há 20 anos, que estão lá nos momentos em que tudo cai, apesar de nem sempre concordarmos e é isto, também, o sentido comovente e grande da vida) me ofereceu recentemente e que diz assim:

“A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre."

Friday, May 25, 2012

Guilhotinas Modernas



“Somos a democracia mais apurada do mundo. E, por isso mesmo, não usamos guilhotinas. Mas temos outros métodos, menos sanguinários, de humilhação, destinados a assegurar a população que a nossa ordem será restaurada e que a República será limpa” diz William Greider, jornalista americano e autor de vários livros sobre economia e identidade, nomeadamente “Volta para Casa, América: Ascensão, Queda e Promessa Redentora de um País”.

É interessante a perspectiva de um homem que a sociedade considera bem sucedido e que não teme dizer que o sistema constituinte dessa própria sociedade “não está apenas ferido, não está apenas partido; colapsou. E visto que o governo continua a brincar, colocando os pedacinhos que restam em cima de um muro periclitante, voltará a cair. Esta não é uma posição ideológica; é a realidade.”

Também é gratificante saber que Greider é, apesar da sua visão descomplexada e cirúrgica em relação ao seu meio, um optimista: “Tenho fé na juventude, que ainda não conhece impossibilidades. Está menos carregada de passado e tentará o novo sem se incomodar se já foi tentado antes. Assim ocorrerão mudanças. Quando as pessoas imaginam um futuro diferente, desaparece o poder instituído.”

Mas são as questões dos métodos de humilhação da democracia apurada que me interessaram sobremaneira. De facto, mesmo por cá, sabemos que existem métodos não-guilhotinescos de humilhação e de tortura, que um amigo – muito mais experiente e inteligente do que eu – denomina sabiamente de “fuzilamento psíquico” dos adversários. Este fuzilamento admite imensas variantes, desde a destruição da vida privada à destruição da vida profissional ou ao lançar de boatos sobre a sanidade mental dos visados (uma arma em moda desde o escândalo Watergate, quando a mulher do Procurador-Geral  dos E.U.A. era a “louca” de serviço, segundo o governo de Nixon… até que foi impossível esconder a verdade e ruiu um Império – sadismo patriótico? Ou medo, muito medo de que o povo viesse a saber que, debaixo das gravatas e dos saltos altos, estavam pessoas muito pouco recomendáveis, como dizia Martha Mitchell, a dita “louca”?)

Se várias destas variantes forem alcançadas, chegamos áquilo que também aprendi ser “a política da terra queimada”. Esta ideia da “terra queimada” significa tão só, na nossa aldeia, que se admite ser possível derrubar alguém completamente, a partir de pura conjugação de forças de poder e por razões pouco nobres, como sejam mal-querenças. Ora, isto não é novo… Na História, sempre se fizeram coisas semelhantes, desde a Inquisição que queimou pessoas por alegadas práticas nunca provadas (mas murmuradas por “gente de bem”) até à Caça às Bruxas de séculos passados em que bastava uma vizinha ter inveja de outra para a acusar de bruxaria e aí estava a pobre acusada reduzida a cinzas ou, no mínimo, a açoitamentos públicos.

Podemos mascarar a realidade. Podemos até nomear técnicos que nos apoiem nesse serviço – a CIA tem psicólogos e médicos que, alegadamente, impedem a tortura feita em interrogatórios de “ir longe demais…” (e todos já vimos, no Youtube, o quanto é possível ir longe demais). Podemos atirar areia para os olhos públicos para defender uma imagem. Mas, para quem o faz, deve persistir uma dúvida identitária que Gandhi colocou: “É um mistério para mim porque se sentem os homens honrados com a humilhação de outros seres humanos.” Não deixa de ser, no mínimo, estranho que há quem retire prazer ou (vã) glória disso. 

Friday, May 11, 2012

Portugal dos Pequeninos


Tive uma grande sorte na vida que foi ser educada pelos meus avós, sobretudo pela minha avó já que o meu avô morreu cedo. Ela tinha por hábito usar frases-chave cujo sentido eu não apreendia na totalidade, embora muito mais tarde na vida me fossem úteis. Este introito serve para dizer que um dos seus conselhos recorrentes era “nunca te compares com quem é pior do que tu, mas sempre com quem é melhor do que tu.” Na altura, isto não me dizia nada de especial (mas também não me fazia sentir mal, contrariando todas as habituais pedagogias de auto-estima); hoje, parece-me um santo remédio para a mediocridade. É uma frase que todos estamos a precisar de ouvir. Todos, na Região e no País.

Com efeito, o que mais se ouve dizer em Portugal é que “Portugal não é a Grécia.” Na mesma sequência de ideias, virou moda dizer-se na nossa Região que “Os Açores não são a Madeira.” Tendo em conta que o País e a Região são governados por forças políticas de quadrantes diferentes, só me ocorre que tais frases não façam parte de um discurso de propaganda (ou teriam ambos a mesma, o que denotaria muito pouco esforço de marketing) mas sim que sejam frases denotativas de um certo espírito cultural do português.

Qual é o objectivo quando, sistematicamente e em jeito de lavagem cerebral, insistem em comparar-nos com quem está pior do que nós? Será para nos incutir esperança, fazendo-nos ver que existem misérias maiores? Não sei se a táctica é boa, pois ao chamar a atenção para estas realidades, há quem pense que, se quiséssemos realmente apontar miséria, não faltam países e regiões com mais tristes economias no globo e que apontamos estes porque sabemos que não estamos tão longe assim da sua realidade, seguindo o velho ditado “quando vires as barbas do vizinho a arder… põe as tuas de molho!” É capaz de ser um conselho disfarçado. Mas já cansa. Além disso, tem um certo ar a “esconjuro” – dá a triste imagem de que por dizermos cem vezes que não somos a Grécia ou a Madeira, afastamos toda e qualquer possibilidade de nos encontrarmos nas mesmas alhadas. Mas, de facto, essa possibilidade (se ela existe) não tem a ver com palavras de negação. Aliás, costuma dizer-se que a negação é o contrário do primeiro passo para a cura…

Andamos aqui como crianças no recreio da Primária, a apontar o dedo, orgulhosos de (ainda) não sermos tão caídos em desgraça como os nossos colegas, sendo mais que certo que esta atitude advém do receio profundo de virmos a estar nas mesmas condições. Vendar os olhos, apontando a miséria alheia para que se esqueça a nossa é um velho truque (usado até pelas coscuvilheiras de rua). Nada mais simples do que, em face de um problema que nos diz respeito, divergir a atenção das pessoas para outro problema com o qual se entretenham… Entretido e ignorante do real, qualquer um é mais fácil de levar.

Antes preferia ver discursos produtivos, que fossem exemplificativos de acção concreta para nos tirar da esfregona económica em que estamos. Discursos como aqueles que fazem os seleccionadores de futebol que são o melhor exemplo dos resquícios da força portuguesa - a restante acabou com a História dos Descobrimentos, e é talvez por esse resto de garra que há tanta gente a gostar de futebol por cá. Só no futebol é que Portugal arreganha os dentes a outras forças; noutros jogos, senta-se a estudar papéis e diz que não tem poderio para fazer negociação; só para “fazer contactos” (contactos para quê?).

Cheira-me que vamos continuar a fazer comparações que nos nivelem por baixo. E também me parece que assim não se evolui. Não é coisa pouca, já que a evolução devia ser a aspiração maior de qualquer sociedade – e até de todo o ser humano.

Inflando o nosso ego pequenino, lá vamos. Neste caso, ser pequenino não é ser David face a Golias; é colocarmos as nossas capacidades de seres pensantes e evolutivos em stand-by… enquanto nos deleitamos por ainda não estarmos tão mal como podíamos. Deve ser por isso que tanta gente responde ao “Tudo bem?” com “Não venha a pior!”