... "And now for something completely different" Monty Python

Sunday, November 11, 2012

What Makes Açores Look Like Açores?



Na última edição do Fazendo, o Tomás Melo escreveu um texto chamado What makes Açores look like Açores? A pergunta é mais provocatória do que parece! Foi assim que nos surgiu a ideia de tentar saber o que torna os Açores únicos. A busca há-de continuar nas próximas edições do Fazendo. Para já, aqui ficam as respostas a essa pergunta de alguns estrangeiros que moraram ou moram nos Açores. Iniciámos a “busca” com estrangeiros porque nada mais claro do que o olhar de quem aqui chega e se encanta (ou não…) De propósito, escolhemos pessoas muito diferentes umas das outras. E, afinal, o que torna os Açores especiais não é tão óbvio como se possa pensar!



Eleni Kouris (grega, empresária, vive nos Açores)
O oceano que rodeia os Açores dá-nos uma mensagem de tranquilidade mesmo no Inverno; é selvagem e encantador! Quando, de manhã, passamos pela via rápida e vemos os pastos e colinas verdes cheios de vacas, lembramo-nos que há um Deus e que existe mais vida para além dos nossos dramas diários. O problema é que os estrangeiros não são muito bem aceites porque a sociedade é muito fechada, e isso faz com que a ilha se torne um pouco triste e melancólica!



Tom Quilty (inglês, consultor, viveu nos Açores)
É um sítio tão absolutamente diferente. A simpatia das pessoas, a topografia da terra, a geografia das nove ilhas e a possibilidade de poder escapar totalmente da vida citadina. Além disso, penso que o facto de sabermos que estamos tão longe de uma plataforma continental tanto a este como a oeste faz com que nos sintamos mais separados de tudo, e torna tudo mais remoto e mais excitante.



Cátia Benedetti (italiana, professora e tradutora, vive nos Açores)
Os Açores têm para mim a dimensão social certa: uma comunidade humana em que nem todos se conhecem, mas uma proximidade que nos protege das solidões metropolitanas. Nem o sufoco dos grupos fechados, nem o anonimato que nos nega o ser. Aqui todos, afinal, viemos de outro sítio qualquer, e longamente descobrimos as nossas histórias, partilhando os destinos, as memórias e o esquecimento. E depois: o mar, obviamente, a luz instável, a vegetação que logo toma conta de qualquer espaço que o homem abandona. Os vulcões, os ventos, os dias serenos e as chuvas torrenciais. Outras tantas lições de relatividade: a noção da impermanência que realça o valor das existências individuais.




François Dalaine (francês, professor, viveu nos Açores)
Paisagens… Pouca gente mas boa gente que nos dá comida e boleia… Estar fechado… O mar, baleias… Fajãs e caminhos… E uma amizade que não se esquece.


Irene Sempere (espanhola, bióloga marinha, viveu nos Açores)
O mar, a vida selvagem, as paisagens, a geotermia, o clima com quatro estações num dia, a vida dos marinheiros que passam e as suas histórias. Os Açores estão longe de ser as únicas ilhas que estão no meio do Atlântico, mas há qualquer coisa de muito diferente num sítio onde há mais vacas do que pessoas.



Eduardo Bettencourt Pinto (angolano, escritor, viveu nos Açores)
Em 2012, já não entro em Ponta Delgada como antigamente: pela Avenida Mónaco abaixo sob uma dança de nuvens, até desembocar emocionado na Rua de Lisboa. Logo a seguir, e voltando à esquerda na Rua da Vila Nova, subir devagar, como quem bebe o passado, até à casa da minha mãe. Agora quando saio do aeroporto, estou numa autoestrada europeia. No entanto, mesmo que perdidas algumas referências, reconheço que estou na ilha e rente aos braços do mar. Não sou objetivo, eu sei. Sou emocional. O amor, um grande amor, tem destas coisas. A verdade, porém, é que os Açores não são apenas as inúmeras vozes dos meus parentes e dos meus mortos. São também esta aliança de luz e sombra, esta catarse, estas lágrimas de pedra que acaricio com o olhar na viagem apaixonada pela cidade, passo a passo, redescobrindo em mim as mais inextricáveis raízes.



Elena Brindani (italiana, pintora, viveu nos Açores)
Os Açores são uma terra de passagem para muitos. Para mim, representam o período em que ganhei a independência verdadeira e só ficando tão longe do meu mundo o podia conseguir. As ilhas ficam impressas na história da minha vida.



Gerbrand Michielsen (holandês, guia de birdwatching, vive nos Açores)
Sempre sonhei viver perto do mar e num sítio onde pudesse apanhar o maior peixe do mundo. Depois fiquei mais velho e o desejo do peixe mudou para o sonho de encontrar o mais raro pássaro vindo do continente americano. As paixões fazem-nos ficar amarrados a um lugar e nem mesmo o maior temporal me podia agora arrancar destes rochedos verdes. A única razão que me permite conseguir viver no meio do oceano é que vivo em nove pequenos mundos e saltar de um deles para os outros permite-me escapar da claustrofobia de cada um.  



Anónima identificada (cidadã de Leste, professora, vive nos Açores)
É um povo com bom coração, caloroso e simpático. Mas, ao mesmo tempo, percebes que afinal é obrigado a ser simpático para sobreviver, é uma questão hipócrita. A “simpatia” alimenta a vida social num meio muito fechado e as pessoas usam isso para nunca serem odiadas pelos outros – é uma forma conveniente de existir. A nível profissional, a vida torna-se muito fácil, porque as pessoas são pouco exigentes, têm poucos objectivos de vida e dão muita “graxa”. Quanto mais vives assim, mais percebes que não é aceitável mas por outro lado já estás adaptado porque se não fizeres o mesmo não sobrevives.
A natureza é óptima.  Mas, culturalmente, faltam um teatro de ópera, um ballet e admiro-me como é possível viver assim… Para mim, este choque cultural foi e é enorme.
Ninguém cumpre prazos nem horários; as reuniões de trabalho não servem para resolver nada, servem para dizer mal de quem não está e concluir que não podemos modificar o estado geral. Mas o lado positivo é que as pessoas têm um grande sentido de humor e divertem-se com tudo.
Resumindo, a característica principal é o isolamento: Açores estão à parte do mundo, separados. Vivemos como que “a fingir”. O que quer que seja que se consiga, o comentário é “está muito bom, assim já é muito bom!” e nada avança para realmente bom. Os Açores são um paradoxo: um paraíso que te permite desligares-te do mundo, mas vivendo sempre dependente dele!



Jorge Bonet (espanhol, biólogo, viveu nos Açores)
São um lugar onde o ritmo de vida é mais lento para que se possa aproveitar a natureza que nos rodeia. Podes aí dar-te conta da imensidade do oceano e das maravilhas que o habitam. Outra coisa interessante destas ilhas é o modo como as tradições e costumes variam de umas para as outras, mesmo no que diz respeito à personalidade – base dos habitantes de cada ilha. Cada ilha é muito singular, embora pertença ao conjunto Açores.
A riqueza dos Açores também se mede pela gastronomia e aí os Açores estão em muito boa posição, porque têm uma excelente variedade culinária.
A nível pessoal, conheci gente incrível. Não os vejo muito, mas continuam a fazer parte da minha vida. Quem vai aos Açores, enamora-se das ilhas e não as pode esquecer.



Emilie Speleman Smith (sueca, empresária, vive nos Açores)
A maneira como o sol torna as casas amarelas durante o amanhecer; as colinas e os picos  verde-profundo; o Ilhéu da Vila; as hortênsias que cobrem a ilha e a fazem tão bonita no Verão… à distância parecem minhocas que se alongam, criando túneis pelas estradas; a cor do oceano.



Davide Alfano (italiano, músico, viveu nos Açores)
O cheiro do mar… a solidão e a imensidade no mesmo instante. Um dia, andando nas ruas de S. Miguel, sentei-me frente ao mar e um senhor começou a falar comigo e disse-me que cada pessoa que de alguma forma na sua vida compartilhou aí um olhar, uma emoção durante um dia ou um ano, ficará para sempre nos Açores. Mas também me disse que nascer e viver nos Açores pode, para muitas pessoas, ser uma limitação… mas na verdade é um privilégio para poucos. O que torna os Açores únicos para mim é que me deram esse privilégio e mudaram a minha vida para sempre.



Sabrina Steinmuller (belga, fotógrafa, viveu nos Açores)
Um pequeno paraíso em pleno oceano Atlântico, onde cada das 9 ilhas é um caleidoscópio de paisagens e gentes com tradições, vivendo em equilibro com uma Natureza muito bela e tão diversa!  

(as fotos que acompanham estas entrevistas são da autoria da própria Sabrina aquando do tempo em que morava nos Açores) 

Friday, November 9, 2012

Quotas e outras coisas do género



Porque trabalho para uma instituição profundamente conectada com os EUA, nas últimas semanas levei um “banho” de eleições presidenciais desse país. À primeira vista, é irrelevante, mas, na verdade, é muito mais importante Obama ser re-eleito do que foi importante ter sido eleito a primeira vez.

Quando Obama foi eleito, ficou sempre no ar a possibilidade de ele ter sido votado não porque trazia melhores políticas, mas sim porque era negro. Por muito que não seja politicamente correcto dizê-lo, a verdade é que todos os grupos que um dia já foram minorias – ou melhor, que um dia já ocuparam posições desfavoráveis na sociedade  e que se encontram, ainda hoje, a tentar justificadamente ganhar a sua posição igualitária – sofrem deste estigma que os anglo-saxões e o seu humor sardónico chamam “discriminação positiva”.  Ou seja, há uma espécie de tratamento preferencial dado àqueles que pertencem a minorias, precisamente porque durante tantos anos foram alvo de uma injusta posição contrária. Esta discriminação positiva existe nalguns empregos, por exemplo – aliás, legalmente, é para isso que servem as perguntas (facultativas) sobre género, etnia e religião que são feitas aquando das candidaturas. O tema é controverso, mas não deixa de ter apoiantes: se há quem advogue que todo o tipo de discriminação é errado, também há quem diga que esta é a única forma de as minorias chegarem ao poder e à igualdade no mundo de hoje, que continua a ser discriminatório. O ponto é que, aquando da primeira candidatura de Obama, não faltou quem dissesse que ele fora eleito devido à vontade de uma larga fatia de americanos quererem um “minoritário” no poder (ou porque eram minorias eles próprios ou porque se sentiam culpados de serem WASP…) É discutível. Indiscutível é que não se pode dizer o mesmo quando esse homem é re-eleito. Uma re-eleição significa sempre o premiar de um trabalho, o renovar de uma confiança.

A dita discrimininação positiva, porém, acontece em quase todo o mundo ocidental. Os inuits canadianos e os aborígenes da Nova Zelândia – ambos casos típicos de minorias severamente maltratadas pelos povos colonizadores – têm uma quota reservada, isto é, um número reservado de lugares no Parlamento. É uma espécie de pagamento pelos males passados – que, aliás, pouco compensa em termos de factuais bens presentes, ao que sei…

Mas não vamos tão longe. A Lei da Paridade em Portugal estabelece que as listas para o Parlamento (Europeu ou da República) e para as Autarquias “são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos.” Ora, isto, supostamente, vem favorecer a entrada de mulheres na política. Na prática, os partidos procuram incluir nem que seja uma mulher em lugar de destaque, não só por uma questão de agradar ao eleitorado feminino mas até porque já houve multas por não se cumprir esta lei. Mas a questão, quanto a mim e como mulher, é perigosamente discriminatória – ocuparemos lugares de destaque por sermos competentes… ou por sermos mulheres e se verem obrigados a preencher a quota?

Como mulher, continuo a achar que é bem mais fácil triunfar profissionalmente sendo homem. Não tenho dúvidas. Mas recuso uma discriminação positiva pelo facto de ser mulher… Parece-me limitativo da afirmação das minhas qualidades e competências reais.

Aliás, isto recorda-me um episódio da série Yes, Prime Minister em que membros do Governo falavam sobre a tal discriminação positiva e terminavam “Todos concordamos com este princípio fantástico que é ter mulheres a governar! Mas onde as colocamos, Sr. Ministro? Não há nenhum Ministério adequado para um toque feminino…”

A quota não acaba com o preconceito e não será a quota a mudar mentalidades.

Friday, October 26, 2012

Neutros



Quantas vezes já ouviram dizer: “Sobre isso não me pronuncio porque tenho amigos dos dois lados da barricada…” ou “Não tenho opinião porque vejo vantagens e desvantagens nas posições de ambos” ? Muitas. De facto, cada vez está mais na moda ser neutro.

As pessoas neutras não gostam que lhes chamem neutras, isso não, porque a própria palavra é insonsa, incolor e atípica. Preferem ser denominadas diplomáticas, palavra sonora e de conotação sensata, racional, equilibrada, com um certo travo refinado e elegante. Porém, essa tentativa esconde em si mesma um desconhecimento da diplomacia. A diplomacia não é só representação; implica negociação e, dentro desta, um papel necessariamente duplo (como, aliás, a palavra “diplomacia” indica).

Mas um papel duplo está longe de ser neutro… Aliás, a duplicidade é uma faculdade que implica certa desonestidade à mistura – feita de modo tão requintado, no caso dos diplomatas, que parece ser mais desejável do que a honestidade pura e crua. Henry Wotton, um diplomata inglês do século XVII, deu uma definição célebre da diplomacia aquando de uma missão sua: “Um embaixador é um homem honesto que é enviado para o estrangeiro para mentir para o bem do seu país.” Logo, a neutralidade tem pouco a ver com esta postura tão delicada quanto perigosa. A diplomacia é a postura assumida pelo negociador astuto, cujos interesses em jogo ninguém ignora. É tão complexo ser um verdadeiro diplomata que a espécie entrou em extinção, sendo correntemente substituída pela hipocrisia simpática, que faz imenso furor mas não traz nenhuma consequência positiva porque, ao contrário da diplomacia, não resolve nenhuma questão.

A neutralidade é uma postura essencialmente egoísta. Por excelência, é o lugar que alguns ocupam quando deflagram conflitos entre dois outros partidos. Deste modo, asseguram que nenhum desses partidos os atacam, na eventualidade do conflito se agravar. É um direito, sem dúvida, mas não revela grande coluna vertebral porque se depreende um receio expresso em afirmar as suas convicções (independentemente das razões que estejam na base do medo).

Enquanto direito bélico, a neutralidade é um conceito com regras muito específicas. Quem escolhe ser neutro, não pode fazer concessões nem tão pouco passar informações a nenhum dos oponentes em causa. É por isso que hoje se questiona tanto a alegada neutralidade da Irlanda na Segunda Grande Guerra, sendo certo que passou preciosas informações aos Aliados, e da Suiça, que não deixou de conceder certos benefícios aos nazis.

Pessoalmente, o que mais me surpreende num indivíduo que se diz neutro é a facilidade e rapidez com que assume sempre a opinião do vencedor de uma contenda quando ela termina. Segundo os neutros, nunca tiveram outra facção e apenas por pudor é que antes não se revelaram.

Mas a convicção não tem pudores nem é independente de valores. Não se veste e despe consoante a estação. A convicção não é camaleónica. Uma “convicção” que age assim é um vira-casaquismo, dando origem a um vulgar “tacho”. E consta que foi o “tacho” que afundou o país.

Friday, October 12, 2012

Reflexão


Enquanto preceptor do adolescente que viria a ser Alexandre, o Grande, Aristóteles escreveu um conjunto de oito livros a que chamou “Política”. Aristóteles acreditava na política enquanto ciência cujo objectivo mais não era que contribuir para a felicidade humana. Assim, podia dividir-se a política em duas vertentes essenciais: a ética, que tratava da felicidade individual do cidadão, e a política efectiva, que tratava da felicidade colectiva da cidade (importa recordar que os gregos se organizavam em cidades-estado). Como se deduz, nesta visão filosófica, a política é indissociável dos costumes, e é apenas através da política que se pode conquistar o bem-estar.

Na sua “Política”, Aristóteles dissertou acerca da estratificação da sociedade grega da época – naturalmente diferente daquilo que hoje em dia a nossa sociedade apresenta, e mesmo eventualmente chocante aos olhos actuais no que ao papel da mulher diz respeito bem como à existência de escravos, embora neste ponto seja interessante notar a afirmação aristotélica de que escravos são, na verdade, todos os homens sem ideal próprio cuja finalidade é servir o ideal de outro homem, ou seja, há homens que são escravos pela sua própria natureza…

Porém, as grandes reflexões de Aristóteles acabam por recair na natureza constitucional, nomeadamente nas formas de governo que melhor serviriam o propósito do homem, propósito esse que é o “bem viver em conjunto”. “Viver em conjunto” sem que se viva “bem” de nada serve na concepção aristotélica.

Ora, se já na Macedónia Antiga se considerava que o Homem era um animal cívico, sendo essencial que se revisse no Estado que melhor o representasse, parece-me que é essencial que votemos hoje em dia. Sobretudo, porque é hoje muito claro que o Estado não se constitui na nobre base de claridade que Aristóteles previa, que não estamos piramidalmente organizados sendo governados por aqueles que são claramente os melhores de entre nós, que as acções tomadas não se dividem em “necessárias, úteis e honestas” nem os legisladores são os mais sábios e sensatos. Se a política não chegou a concretizar-se - e cada vez menos se concretiza - como a arte de bem viver em conjunto contribuindo para a felicidade do ser humano enquanto animal gregário, então é nosso dever dar-lhe a volta. E, para tal, temos no voto (mesmo no voto branco) um instrumento pacífico mas revelador do futuro que desejamos para nós e para os nossos filhos.

Por falar em futuro, a grande preocupação aristotélica dentro de um Estado de bem é a educação. Aristóteles não era apenas um preceptor de excelência, o que já seria dizer muito; foi a grande influência da vida de Alexandre, cuja personalidade – embora longe de ser unanimemente aclamada – criou um Império que uniu o Oriente ao Ocidente. Se é verdade que nos parece hoje criticável a eugenia patente nas ideias de Aristóteles e o seu excessivo pendor para a importância de pormenores físicos (talvez usuais em quem era filho de médico como ele era), a verdade é que é de louvar o modo como a formação deve, quanto a ele, ser soberana.  

Os governantes devem ser os mais admiráveis e, por conseguinte, os mais admirados; os mais justos; os mais honestos; os mais preocupados com o bem comum; os melhores de entre os cidadãos.  … E hoje em dia? Tenha uma palavra a dizer.

Friday, September 28, 2012

Literatura



Esta semana, Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu, afirmou que o problema dos países europeus que se encontram em crise é resultado “das más políticas dos últimos anos e da total ausência de uma política económica.”

Pouco depois de ouvir estas palavras, andava eu por um Centro Comercial e deparei-me com uma vulgar montra de uma casa comercial sem grande nome, com malinhas de senhora ao módico preço de mil euros cada. Como é que num país em crise como o nosso, em que o ordenado mínimo baixa para menos de 400 euros, em que centenas de pais retiram os filhos dos infantários porque não têm como os pagar, em que centenas de pessoas perdem os empregos… encontramos malas de prêt-à-porter a este preço? Foi então que me ocorreu uma frase de um colega de Economia: quando um país está em crise, há sempre uma pequena franja da população que enriquece muito.

Em Portugal, todos sabemos quem é a “franja”. É aquela a quem apontamos o dedo e, simultaneamente, baixamos a cabeça. Não tem só uma cor política – e nisto Mario Draghi tem razão. Pode Portugal mudar de governo, mas de política de fundo não tem mudado. O cidadão comum faz piadas acerca disto, pondo na internet as frases que Passos Coelho dizia na sua campanha eleitoral e as frases contraditórias que diz agora que é Primeiro Ministro; as promessas de jamais aceitar os pacotes de austeridade negociados entre Sócrates e a troika versus o país retalhado aos bocadinhos e a austeridade cada vez mais apertada. Este é o cidadão comum com sorte, que tem internet e riso para fazer piadas, é aquele que tem força. Há os que já não riem e acham que manifestar-se é utopia; ao falarem de revolução dizem que “o 25 de Abril foi bem sucedido mas foi porque estávamos fartos da Guerra, da Guerra a sério e ninguém gosta de matar e morrer.”

Os espanhóis, tradicionalmente mais ferventes, começaram a manifestar-se com violência antes que Espanha peça qualquer resgate, imputando ao seu também recente governo falta de legitimidade democrática porque “foram enganados” enquanto eleitores.

A Grécia também mudou de Papandreou para Samaras e continuou na escala de cortes económicos e violência nas ruas.

Reconheço razão ao BCE: todos nós enquanto países andamos de salvador em salvador da pátria… para continuarmos nas mesmas políticas de afogamento de nações.

Hoje, ninguém acredita em Portugal. As pessoas têm vergonha de serem portugueses. Dizem “sou português” ao pé de um estrangeiro como se fosse uma fatalidade. Só a já longínqua história dos Descobrimentos os anima, essa lembrança antiga de que já foram grandes. Parece impossível que Portugal tenha começado porque um rapaz chamado Afonso Henriques tenha decidido levantar espada contra a sua poderosa mãe. Hoje, nem a voz se levanta. Toda a gente tem medo e falta de ânimo. Poucos se lembram que todos os poderes são efémeros e que maiores impérios neste mundo já caíram.

Nada melhor, porém, do que ouvir hoje Passos Coelho citando Os Lusíadas como metáfora para o tempo que atravessamos, pois “por pior que seja a tormenta que nos arrasta para trás, temos sempre ventos favoráveis a soprar nas nossas velas.” O Sr. PM esquece o que qualquer professor sabe: que não se pode falar nunca de Literatura a quem não pôde tomar o pequeno-almoço em sua casa. 

Friday, September 14, 2012

Marido Com Sorte



Esta semana, assaltou-me a dúvida: se a mulher de um Presidente tem direito ao título de Primeira Dama, que título terá o marido de uma Presidente?

A minha questão não é sarcástica nem pretende criar polémica. É uma dúvida de cariz linguístico e verifiquei que é dúvida para muitos. A verdade é que não está consignado na língua portuguesa o título a atribuir ao marido de uma Presidente.

Verdade basilar é que as línguas expressam as culturas que as geram, portanto o natural é tirarmos daqui a ilação que Portugal não está culturalmente muito à vontade com senhoras em cargos de poder, embora as ache adoráveis (veja-se a doçura medieval de “dama”) enquanto acompanhantes de um homem poderoso. Podemos até arranjar mais exemplos, no campo da Monarquia: a esposa do Rei tem direito a ser Rainha, mas o esposo da Rainha não passa de Príncipe Consorte enquanto a esposa do Príncipe é automaticamente Princesa, mas o marido da Princesa não tem direito a título. No campo diplomático, sofremos do mesmo: a mulher do Embaixador, é Embaixadora; já o marido da Embaixatriz não passa de marido da Embaixatriz; a mulher do Cônsul é Consulesa e o marido da Consul é apenas isso, sem título. A este propósito, não resisto a recordar um episódio em que em certa cerimónia se lembraram de chamar a Sra Consolada para lhe oferecer um ramo de rosas (há lapsus linguae maravilhosos!).

Dir-me-ão que à medida que mais mulheres forem alcançando cargos de poder, o assunto fica arrumado! Mas talvez demore décadas.

Uma pequena prospecção por outras línguas e culturas fez-me ver que o assunto não deixou de ser polémico. Nos EUA, a questão da Sra Clinton poder alcançar o título de Presidente fez pensar bastante neste assunto denominativo porque a Sra Clinton era casada com um ex-Presidente, o que levantava a estranha questão da Casa Branca vir a ser habitada por uma Presidente e um ex-Presidente. Ora, nos EUA os ex-Presidentes não perdem título e seria realmente muito invulgar vir a dizer “Here we can see now President Clinton and former President Clinton waving at the crowd”. A dificuldade desta frase… Até que se lembraram que as Primeiras Damas ostentam o título de anfitriãs da Casa Branca para além de Primeiras Damas!... Mas seria demasiado pedir ao ex-Presidente que fosse anfitrião da Casa Branca, porque a ideia sugeria Bill Clinton de aventalinho. Parecendo que não, esta questão aparentemente pouco importante foi amplamente discutida.

Os franceses também não sabem como designar o marido da Presidente, pelo que foi uma sorte a Sra Ségolene Royal não chegar lá. Porém, agora temos o ex-marido da Sra Royal na cadeira e, portanto, o problema ficou resolvido.

Informaram-me que, na Austrália, a Primeira Ministra Julia Gillard (que não é casada, mas tem um companheiro) resolveu a questão. O senhor tem o título de First Man, o que sugere uma coisa bastante mais impositiva do que First Lady.

A religião não vem ao caso. Não me recordo de título atribuído aos maridos de Margaret Thatcher (Primeira Ministra protestante), Benazir Bhutto (muçulmana), Indira Gandhi (hindu) ou Golda Meir (judia).

Portugal teve uma Sra Primeira Ministra, mas não lhe recordo companheiro. Talvez o problema linguístico espelhe uma certa incapacidade do homem (e do homem luso em particular) de estar à vontade com mulheres de ideias firmes. Porém, será preciso que se recordem que só há “damas” onde há cavalheiros… 

Friday, August 31, 2012

"Deixai Vir a Mim as Criancinhas"



As campanhas eleitorais não trazem nunca à tona o que há de melhor nas pessoas. Trazem os melhores sorrisos e as palavras mais cândidas, seguramente, mas há que ter sempre presente que a intenção dos candidatos é levar o povo a dar-lhes o seu voto, pelo que – passe a dureza da expressão – o que cada candidato está a fazer é a vender-se e, consequentemente, tem de apresentar o seu lado mais atraente, a sua melhor promessa, o seu melhor discurso regado a Colgate. Ninguém nos vende uma casa sem pintar as manchas de bolor que daqui a 5 meses nos vão, fatalmente, voltar a aparecer nas paredes.
Mas isto é óbvio, expectável e compreensível. Faz parte.

O que não devia fazer parte dessa auto-promoção fatal é a utilização de menores. Falo, concretamente, do uso de crianças nas campanhas eleitorais. Poucas coisas me revoltam tanto como o abuso de criancinhas, e esta é, quer queiramos quer não, uma forma de abuso. Se não, vejamos: está-se a usar a imagem e / ou a presença de um menor, que não faz ideia daquilo para o qual está a contribuir (pois ainda que grite o nome do partido porque lho mandaram fazer é mais do que claro que o menor não tem qualquer noção nem do ideal nem do que um voto acarreta, se é que compreende o sistema tão pouco). Não raras são as campanhas que o fazem. De facto, existem mesmo aquelas que pedem a crianças para se juntarem para tirar fotografias para a página do partido ou para distribuição nas redes sociais, que se juntem a gritar o nome do partido quando a televisão aparecer, enfim… Se se portarem bem, ganham um boné. Mal comparado, e desde já me perdoem o extenso exagero, a prostituição funciona um bocado assim – mas as consequências são, obviamente, bastante mais gravosas, tanto física como psicologicamente.

Isto é negócio antigo e vezeiro. Na campanha para as presidenciais dos E.U.A., a Sra Sarah Palin, experiente na política, não ignorava que a utilização de crianças e de desprotegidos é uma arma eficaz de campanha. Não se coibiu de usar a própria filha, que tem Síndroma de Down, e de andar com ela, acima e abaixo (nunca, nem antes nem depois, se viu a Sra Palin tantas vezes com a dita menina!), provando ser uma mãe extremosa e demonstrando que sentia na pele os problemas não só das mamãs mas das mamãs com filhos deficientes. Politicamente, não resultou porque a sra levou o embuste um bocado longe e o povo fartou-se de tanta aparição com a filha debaixo do braço… mas podia bem ter dado certo. Aliás, várias estações de TV fizeram piadas sardónicas (pós-campanha, naturalmente) ao ataque súbito de maternidade da Sra Palin, e a série Family Guy dedicou um episódio à filha, criando-lhe uma personagem, sendo imediatamente processada pela ex-governadora (que perdeu o processo, pois não tinha sido ela a primeira a usar e a ridicularizar a imagem do seu rebento para fins auto-promocionais?)

Sou totalmente contra o uso de crianças em comícios, campanhas, reuniões partidárias, festas de apoio, e tudo o que se relacione, sejam de que partido forem. “Uso” é a palavra certa. Tem sido esta uma grande batalha minha – infelizmente, pouco conseguida, lamento dizer. Avós, pais, tios, todos têm direito a proclamarem a sua visão e a promoverem-se, mas deixem de parte os meninos. Deixem-lhes o direito a ter infância.