... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, March 15, 2013

Infantários para Pais, sff!



Gisèle Harrus-Révidi, diretora da área de investigação psicossomática da Universidade Paris VII, escreveu “Pais Imaturos e Crianças Adultos”, obra que nos fala do que a autora chama “o abandono de luxo”. Esse assunto secreto de famílias social e financeiramente bem estabelecidas não vai nunca parar aos Serviços Sociais, até porque falamos de pais que ocupam situações de destaque na comunidade. Estes pais têm filhos porque ter filhos faz parte da visão de sucesso que impera na sociedade e não porque sejam minimamente vocacionados para pater ou mater famílias. Consequentemente, estas “personalidades equívocas, no limite do normal” acabam por praticar uma violência surda sobre os filhos que, por não ser tão espetacular como outros abusos e ser mascarada pelos próprios, passa por não existente.

Révidi refere que, apesar de ser uma profissional muito experiente, só detetou o evidente absurdo da imaturidade dos pais ao ver que havia crianças hipermaduras, com uma mentalidade adulta já na infância. Os filhos, obrigados a crescer antes do tempo, nunca tiveram infância nem adolescência, porque desde sempre habituados a tratar das suas coisas como adultos independentes. Quanto aos pais imaturos, se lhes é sugerido visitar o psicólogo, de imediato assumem que os filhos são desenquadrados, mas eles – narcisistas crónicos - jamais, pois estão sempre bastante satisfeitos com a sua prestação na vida.

Um sintoma habitual a um pai imaturo é que, nunca tendo alcançado a sua autonomia, procura sempre um pai… Na falta dos seus (de quem nunca se separa), atira as suas responsabilidades para o Estado – o que não impede que o critique, mas pode, deste modo, permitir-se que alguém “faça o trabalho de criar os filhos por ele.”

Dos filhos, esperam mimos e satisfação dos seus caprichos. Estes pais vêem o ciclo da vida ao contrário. São os filhos que devem ajudá-los, protegê-los, realizar os seus sonhos, ser um amparo. Não é raro ver meninos de 10 anos a confortar pais de cinquenta que choram. Como é difícil para estes meninos perceber que são eles os guardiões dos pais! Esta inversão geracional até tem nome: parentificação.

O fenómeno é mais comum entre mães e filhas, talvez porque envelhecer seja mais difícil de aceitar para as mulheres. Dá-se o efeito “madrasta da Branca de Neve”: a mãe não suporta a frustração da filha ser mais jovem do que ela. Essa tentativa de abolição da passagem do ciclo da vida tem vários efeitos nefastos, acabando por se recusar qualquer ligação afetiva aos filhos, vistos como rivais.

Os pais imaturos são simpáticos e sociáveis, estão “sempre em festa”. As crianças adultos são tristes, mas sobretudo cansadas. Sofrem de “hipossedução”. Sendo órfãos psicológicos, bastaram-se a si mesmos e sempre ouviram dizer que eram “patinhos feios” pois é comum que os pais se portem como irmãos invejosos à medida que os vêem crescer e triunfar.

Paradoxalmente, estes meninos são, muitas vezes, brilhantes porque são mais esforçados e maduros. Mas a diferença paga-se caro.

Dizia-me uma adolescente com quem convivi muito: “Devia haver creches para os meus pais.” Parece piada de uma rebelde. Mas a verdade é que há pais e mães que têm filhos para auto-recreação. 

Friday, March 1, 2013

Vida


“A vida é o dia de hoje.” Nunca pensamos na fragilidade fugaz que é o fio da nossa respiração. Nunca nos detemos sobre isso, para nossa própria sobrevivência. Porque se nos dedicarmos a pensar que, a qualquer momento, por acidente rápido ou por insidiosa doença cultivada em silêncio, a vida se rompe, apercebemo-nos da nossa pequenez e impotência. Não há fé ou sistema de saúde que nos salve da hora em que o fio de vida acaba.

Difícil é escutar que a vida pode acabar já, inesperadamente. “A morte é a curva da estrada” apenas, assim o dizem os poetas, e dizem os cientistas que acreditam na eterna transformação da matéria e dizem os crentes que crêem na eternidade do espírito. Mas nenhuma destas opções nos agarra a mão e nos conforta o ânimo quando surge um aperto estrangulador, quando aparece o buraco fundo e se perde o pé na iminência possível da vida se acabar.

Numa questão de minutos, pensa-se no que se pode fazer para evitar a perda de ar e sangue, para evitar que desapareça o fio breve da vida. O que se pode fazer é sempre uma ingénua tentativa perante o inexorável que um dia chegará – essa dor que todos os dias se esquece e se esconde surge, então, ali como ferida aberta.

Há uma opção única na vida, da qual derivam todas as outras: escolher viver. Perante essa vontade férrea está provado que muitas células foram obrigadas a regenerar-se. O porquê não se sabe (interessa sabê-lo? Há ciências exactas que digam respeito a algo tão volúvel e único como o ser humano?)

Mas não basta a força do ser. Por não bastar, em desespero, muitos se voltam para o transcendente. Outros, agarram-se com esperança à ciência dos cirurgiões. E há ainda os que hesitam entre o Deus que nunca viram e o deus de bata branca, cada qual inacessível a seu modo, cada qual pensando que o ser humano que ali está é mais um dentro da espécie – e é, de facto, não diferente do que veio antes ou do que vem a seguir excepto talvez por alguma curiosidade genética; o que faz o ser humano único não cabe na rede de células da qual Deus e deus tratam e não lhes compete saber disso. A vida, no que tem de mais cru, não trata de pormenores particulares e não tem relação com o Amor que lhe dá fôlego.

“A vida é pra valer/ E não se engane não/ tem uma só/ Duas mesmo que é bom/ Ninguém vai me dizer que tem/ Sem provar muito bem provado/ Com certidão passada em cartório do céu”. Ao lado, está uma mãe que tem uma filha que já saíu do Bloco e correu tudo bem. É uma senhora imensamente triste. Pergunto porquê, imaginando que a menina terá outras sequelas ou talvez dramas que Deus e deus não tratam. A senhora diz: “Esta filha é uma gémea de 10 anos.” E corrige: “Era uma gémea. A outra morreu há dois anos.” Não sei se Deus e deus sabem que esta é a última filha desta senhora; que a mãe sabe que é injusto pensar na outra quando esta sofre, mas nunca há-de evitá-lo. Talvez a menina, que perdeu a gémea, se sinta também com menos de si do que antes, menos da tal vontade férrea de viver e, paradoxalmente, valendo por dois.

Assim, por momentos, acompanhada na dor de outro, o terrível sentimento humano de ver a nossa dor mais pequena. “ A vida é curta mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre.”

Friday, February 1, 2013

Cinzentão



Há muito tempo que não havia um sucesso editorial tão grande como “Fifty Shades of Grey”, superando o último mega-vendas “Harry Potter”, curiosamente este sobretudo infantil enquanto o primeiro é para maiores de 18. 

“Fifty Shades of Grey” não é apenas “soft porn para donas de casa”; é, sobretudo, um livro sobre o sado-masoquismo, o domínio e a submissão levados ao extremo nas relações homem-mulher. Sempre que um mega sucesso editorial acontece, nem se questiona se a literatura é boa ou má – até porque, enquanto peça literária, é má… - ; o que apetece analisar é o fenómeno sociológico que está por trás desta corrida à obra.

 O que leva, então, a que 40 milhões de pessoas tenham adquirido um livro com uma historieta em que uma rapariguinha virgem, insegura e confusa aceita entrar num jogo contratual com um bilionário que assume um carácter negro e distante? A autora quer convencer-nos que isto é uma história de amor e que o Sr. Grey implora ser salvo pela mocinha, embora lhe bata. A parte mais reveladora de que 40 milhões de pessoas estão necessitadas de psiquiatra é que as críticas a “Fifty Shades of Grey” fazem assentar o jogo de domínio na parte sexual somente (onde, em última análise, sempre haverá domínio… embora sejam escusados e invulgares os jogos de humilhação que nesta obra se encontram). 

O bilionário - com direito a ter um helicóptero aos 27 anos para melhor encantar a mocinha em toda a sua grandiosidade - escreve-lhe uma lista “do que ela pode e não pode fazer” diariamente, que inclui o que ela pode e não pode comer. Além disso, rastreia-lhe as chamadas de telemóvel, persegue-a e outros mimos de verdadeiro psicopata. Mas os críticos do livro só se escandalizam com a tareia de cinto que o rapaz dá à moça… não encontrando nestas perfídias diárias nenhuma perversão! Desde quando o privar da liberdade individual não é indicador de uma patologia profunda? Parece-me estranho que se ache normal que um ser humano possa ser condicionado por outro a este ponto – como se a escravidão sexual fosse pecado, mas as outras formas de escravidão fossem aceitáveis na nossa sociedade! Pior: o livro defende que estas obsessões são prova de amor – desde que não sejam tiranias sexuais, toda a psicopatia é bem-vinda. Afinal, a emancipação feminina deu em quê? Em nada, pelos vistos…

Outro interessante fenómeno é o facto da autora nos passar a mensagem que o Sr. Grey é um ser humano cujo exacerbado domínio se deve a um insondável passado – repare-se que a própria família dele é obscura, porém metediça – e que a inexperiente mocinha pode ser o bálsamo que o vai “curar”, se jogar bem as cartas. O próprio Grey parece acreditar nisso, pois que ela – por alegadamente se “portar tão bem” – é a única mulher que ele leva a conhecer a sua mãe (Freud não faria melhor!). Por outro lado, a jovem tem também um deturpado sentido romanesco da vida, já que os seus heróis românticos são personagens complexas (o violador de “Tess” e o obsessivo amante de “Jane Eyre”). Que melhor companheira para um narcisista proveniente de uma família disfuncional do que uma dependente ansiosa pelo que ela imagina ser o perfeito galã, alguém que cultiva o falso (des)interesse, entre o “quero-te muito” e o “chega-te para lá” que mais a confunde.


Em conclusão: literariamente um fiasco, com figuras de estilo de uma pobreza deprimente e uma prosa que não se decide entre o rosa e o negro (as descrições dos orgasmos tornam-se hilariantes, de tão tontas e voyeurs que são); psicologicamente, leva a pensar porque é que tanta gente ficou excitadíssima com um livro sobre o domínio do homem sobre a mulher, pelas piores razões: acreditando que ele é natural em tudo, menos no sexo, e ainda achando que é da responsabilidade feminina modificar uma personalidade deturpada caso ela surja no caminho. E parece que esta saga já tem um volume 2. Está tudo doido. 

Friday, January 25, 2013

Entevista a Célia Cordeiro sobre "Ana de Castro Osório e a Mulher Republicana Portuguesa "



Ana de Castro Osório e a Mulher Republicana Portuguesa é o primeiro livro de Célia Carmen Cordeiro, acabado de lançar nas ilhas e na capital. A autora é açoriana, docente do quadro da Escola Básica 2, 3 da Maia (concelho da Ribeira Grande). Porém, os últimos anos da vida de Célia foram passados nos E.U.A. onde esteve na Universidade de Minnesota, a tirar Mestrado em Literatura, Cultura e Linguística Hispânica e Lusófona e ainda a leccionar. De tal modo se apaixonou pelos E.U.A., que por lá ficou na Universidade de Texas-Austin, onde é doutoranda de Literatura Luso-Brasileira. Para mais sabermos sobre este livro, resultado da sua tese de Mestrado, fomos conversar com a autora.


1.Porquê a escolha deste tema?

Cheguei à Universidade de Minnesota, em 2009, com o intuito de estudar e desenvolver pesquisa na área de Estudos das Mulheres. Assim sendo, comecei por estudar a Primeira Vaga dos Feminismos na Europa de modo a poder compreender e contextualizar como essa temática havia tomado forma em Portugal. Quando chegou o momento de escrever a tese de Mestrado, escolhi uma figura que se destacasse na luta pelos direitos das mulheres no contexto luso-brasileiro e, além disso, após a celebração do centenário da República em Portugal, pareceu-me que a obra de Ana de Castro Osório não tinha sido devidamente enfatizada neste enquadramento. Então, ela surge-me como a figura de eleição para a ponte que gostaria de fazer entre Portugal e o Brasil, concernente à luta pelos direitos das mulheres.


2.Ana de Castro Osório foi, efectivamente, uma mulher da Primeira República. Mas nota-se nela uma contradição entre os ideais dos direitos judiciais das mulheres – então uma novidade em Portugal – que defendeu na sua juventude e uma posição acomodada à sociedade patriarcal, já numa idade mais avançada. Como podemos entender tal?

A multiplicidade de nuances no seu pensamento parece-me ter a ver não só com o período conturbado e diversificado a nível político em que ela viveu (Monarquia, República e Ditadura), mas também com a sua decepção com o regime e, ainda, com motivos de ordem familiar e pessoal. A sua desilusão contínua com a República em 1911, e em 1913, na refutação do voto feminino (mesmo que apenas para as mulheres alfabetizadas), assim como a não institucionalização da educação feminina em todo o país, fez com que Ana de Castro Osório deixasse de confiar nas promessas dos republicanos. Além disso, os filhos filiam-se no Partido Nacionalista e Ana de Castro Osório tem problemas com o regime por causa disso. Finalmente, fica viúva em 1914. Essas são razões que a fazem querer ser conhecida mais pelas suas obras literárias e menos enquanto activista feminista. Ela quer ser reconhecida como escritora, precisa de dinheiro para viver e o seu público é a burguesia. Por conseguinte, ela escreve no tom que a audiência quer “ouvir”.


3.Outra dicotomia é a posição que Ana de Castro Osório defende em termos educativos e mesmo profissionais, sublinhando bem a diferença entre as senhoras burguesas e as mulheres operárias. Podemos considera-la uma elitista?

Ana de Castro Osório fazia parte de uma elite com nome, mas com pouco dinheiro. Ela passou por algumas dificuldades financeiras, socorrendo-se muitas vezes do pai e de outros familiares. Ela passou a escrever, a partir de certa altura, com o intuito de ganhar dinheiro. Na sua fase de militância política, ela lutou bastante pelos direitos das mulheres da classe operária, particularmente no acesso delas à educação e ao trabalho justamente remunerado. No entanto, ela ainda teme a “desordem social” no que diz respeito à igualdade de privilégios para todas as classes. Educação para todas as mulheres, por exemplo, mas diversificada, de acordo com a classe a que cada uma pertence, ou seja, com a noção clara das diferentes funções sociais de cada mulher. Neste sentido, o seu pensamento, tal como o de Dom António da Costa, vem na linha do pedagogo setecentista Ribeiro Sanches. Logo, há a preocupação de uma elitista em manter a ordem social estabelecida.


4. Na obra de Ana de Castro Osório, sublinha-se que a maior conquista da mulher é ser mãe, e que esse é o seu maior direito mas simultaneamente a sua maior responsabilidade. A sua visão da educadora como principal regeneradora da Nação contraria o sentimento de decadência nacional?

À mãe burguesa cabe educar os futuros cidadãos republicanos. Neste sentido, ela contribui para combater a decadência nacional através da formação ministrada em casa aos filhos. As mães das outras classes sociais deverão complementar a sua experiência profissional com a instrução necessária ministrada fora das horas de expediente e enviar os filhos à escola. As mulheres solteiras desenvolverão o seu instinto maternal educando os filhos das mulheres operárias e camponesas de modo a colmatar a elevada taxa de analfabetismo nacional. No entanto, é à mulher burguesa mãe que Ana de Castro Osório atribui a responsabilidade máxima da maternidade como antídoto da decadência portuguesa, seguindo a linha republicana, positivista, na qual é a mãe burguesa a regeneradora da nação.


5. Ana de Castro Osório considerava que o papel da mulher em Portugal estava muito aquém do das suas congéneres mundiais, como ser humano, como mãe, como filha, como esposa. Sendo a Célia açoriana e trabalhando nos E.U.A., que lhe parece a situação actual do papel da mulher de um e doutro lado do Atlântico?

Parece-me que tal como no tempo de Ana de Castro Osório, há mais direitos legislados do que colocados em prática na sociedade portuguesa. Persiste a mentalidade patriarcal em Portugal, na medida em que aos dois sexos continua a ser exigido tarefas distintas na generalidade dos lares, mesmo que nas escolas se prima pela igualdade de desempenho de actividades. À excepção das grandes cidades, o resto do país continua a manter uma cultura de submissão feminina. Não é à toa que só em 2012 tenham morrido 39 mulheres portuguesas vítimas de violência doméstica, apesar das acções da ACCIG – Associação Cultura e Conhecimento para a Igualdade de Género – por todo o país. Nos Estados Unidos, essa questão da desigualdade de géneros não se coloca porque o sistema judicial funciona muito bem neste país e a assertividade inerente ao carácter dos americanos denuncia quando alguém se sente discriminado. Nota-se o desempenho das mesmas tarefas pelos dois sexos, quer seja a conduzir um autocarro, a cortar a relva ou a presidir a reuniões nos congressos federais. Isso não acontece em número diminuto e esporádico como em Portugal, mas em larga escala. Não há aqui a “finesse” europeia de dar lugar à mulher nos locais públicos como gesto de cortesia masculina porque ambos os sexos têm consciência plena da sua liberdade de acção para alcançarem todos os objectivos a que se propõem, confiando simplesmente na capacidade de cada um para tal. Penso que a influência da religião protestante neste país impulsionou muito a participação feminina na sociedade, desde logo, ao considerar homem e mulher de igual forma filhos de Deus e, por isso, com legitimidade para propagar a Sua Palavra. Foi com base nesse pensamento que as convenções religiosas deram lugar às convenções em prol dos direitos das mulheres americanas como, por exemplo, a de Seneca Falls, em 1848. Na Europa do Sul, os padres influenciaram negativamente as mulheres durante demasiado tempo e, ainda hoje, em muitas vilas e aldeias, teme-se a ira de Deus, lamentavelmente.  É nisso que entronca a nossa cultura judaico-cristã,  quer queiramos, quer não. 

Friday, January 18, 2013

Manifesto das Mães Coitadinhas



Liza Long (estudiosa da Antiguidade Clássica, segundo a própria) publicou um artigo sobre o seu problemático filho “Michael”, uma criança de 13 anos incompletos que ela denomina “o próximo Adam Lanza”. Para quem já se esqueceu, Adam Lanza foi o autor do recente massacre de Newton, matando 26 pessoas, 20 das quais crianças. Liza Long não se limita a escrever sobre Michael: mostra-nos fotografias e vídeos de um menino, demasiado franzino para os tais 13 anos que ela diz que ele tem, mas aparentemente normal e surpreendentemente risonho para quem, na infância, já é chamado “serial killer” por aquela que o deu à luz.

No seu já famoso artigo, a Sra Long explica-nos que só agora fala no drama em que vive, porque a América precisa de acordar para o problema da doença mental das crianças e das mães coitadinhas que vivem com filhos perturbados. Já aqui se começa a notar que a Sra Long é a estrela desta história: ela é uma vítima, e temos de lhe dar qualquer prémio, nem que seja a atenção que ela tão desesperadamente necessita. Após uma breve introdução sobre o drama Lanza, a Sra Long diz que vive “aterrorizada” com Michael, esse monstro pré-adolescente que se recusa a usar a farda da escola. Michael fala com a mamã num tom “de crescendo beligerante” e é um rebelde nato. Conclusão desta expert: é um doente mental. Vê-se que é o primeiro adolescente com quem a Sra Long lida na vida. Infelizmente, não será o último, pois a Sra Long tem mais 3 filhos. Mas com esses outros 3, a Sra Long não tem quaisquer problemas, porque nenhum deles (novamente segundo a própria) “tem o elevado quociente de inteligência de Michael” e, por conseguinte, “nenhum lhe desobedece”. É aqui que começamos a perceber que o problema da Sra Long não é apenas não saber ser mãe e, de facto, desconhecer o que a palavra “mãe” encerra; a Sra Long tem um problema adjacente – é uma narcisista nata e vê os filhos como suas extensões. Quando descobre que Michael tem personalidade própria, e até – para seu desgosto e não para seu orgulho, o que seria o sentimento maternal – é inteligente, a Sra Long sente-se ameaçada. Portanto, coloca um artigo na comunicação social a denunciar que tem entre mãos um futuro “serial killer”.

A Sra Long diz que tem de se proteger do filho e, para tornar a sua história mais verosímil (pois é difícil crer que aqueles 30 kg possam deitar abaixo alguém) diz que tem de proteger os restantes filhos do primeiro. Para tal, cada vez que Michael tem um dos seus “ataques”, a Sra Long leva-o ao hospital e chama os psiquiatras que o acalmam com drogas. Também chama a polícia. A Sra Long, controladora nata, aparentemente precisa da ajuda de toda esta equipa para ameaçar um menino de 13 anos que “se não obedecer à mamã, ficará internado na Psiquiatria.” Com este bom método, e alguns injectáveis pelo meio, a Sra Long diz que Michael se acalma e lhe pede desculpas a chorar por tudo o que fez, prometendo “nunca mais ser mau”. Quem é que vive aterrorizado nesta história, afinal?

Não é Michael que é um assassino em potência; agora, quanto à Sra Long não tenho dúvidas que já começou a matar o filho socialmente e que, dentro dela, já o assassinou há muitos anos. Trata-se de um filicídio, coisa que na Antiguidade Clássica (na qual a Sra Long se diz especialista) era prova irrefutável de um carácter inseguro, ciumento, incapaz.

Eça de Queiroz opinou em Farpas: “Diz-me a mãe que tens, dir-te-ei quem serás.” Mas eu sei que este Michael, se tiver força para sobreviver à infância e adolescência com uma Sra Long como mãe, terá força para ser, depois, o que ele quiser. Esperemos que ele o descubra, a tempo.  

Thursday, January 3, 2013

Call Girls



Há dias, fiz uma legítima pergunta no Facebook (e agradeço muito a todos os que perderam tempo a esclarecer-me, directamente ou por mensagem): sendo a prostituição ilegal em Portugal, como é que pode ser publicitada nos orgãos de comunicação social? De facto, não faltam exemplos desde a "Menina atraente, calma, simpática, muito experiente, atende em privado” às “Quentes e fogosas, vindas de longe, para satisfazer as tuas fantasias” tudo isto seguido do número de telefone xxx. Portanto, fiquei confusa sobre a ilegalidade de uma actividade cuja publicidade em órgãos públicos não é ilegal!

Algumas das respostas tinham retóricas invejáveis, mas o ponto mantinha-se: como é que era possível promover uma actividade ilegal? Não era óbvio que bastava às autoridades competentes ligarem para esses números para apanharem as ditas transgressoras? Como é que os órgãos de comunicação social podiam ganhar dinheiro com a inserção de publicidade livre de uma actividade punida por lei? Inclusivamente, o também cronista deste jornal, Paulo Mendes, sugeriu, numa excelente frase “é ilegal, mas depois criamos um quadro de aceitação colectiva para que a coisa aconteça”, o que expressa bem um certo “laissez faire, laissez passer” que em Portugal, infelizmente, não tem a ver com liberalismo económico...

Entretanto, houve quem generosamente me elucidasse sobre o verdadeiro contexto legal da actividade sexual com fins lucrativos: ao que me explicaram, desde 2001 que a prostituição não é nem deixa de ser crime em Portugal, pois que pura e simplesmente nem sequer se encontra regulamentada – é um conveniente “vazio legal” ao qual se vira a cara, fingindo que nem existe. O que é crime, punido pela lei, é o aproveitamento de terceiros desta actividade, ou seja, o crime dito de lenocínio, que se constitui pela intenção de fomentar ou facilitar o exercício de prostituição de outra pessoa (naturalmente lucrando com isso). Ou seja, na realidade, um possível “patrão” destas “meninas” é que age contra a lei, sobretudo se ficar provado que usou de ardil ou ameaça para as coagir a prostituírem-se – o que, aliás, é quase impossível provar em tribunal, mas adiante… Logo, dentro da Lei portuguesa, podem as meninas publicitar o seu negócio, desde que sejam trabalhadoras por conta própria!

Como me dei conta que havia muitas pessoas com a mesma dúvida que eu, aqui vos deixo este esclarecimento. Afinal, a Assembleia da República é mais sábia do que pensamos. Vai deixando estes buracos legais, e fica todo o país a ganhar: ganham os trabalhadores, ganham os clientes, ganham os tribunais que ficam com menos processos, ganham os jornais que recebem dinheiro pela publicidade inserida, ganha, enfim, a economia que gira. Só não percebo como é que estes trabalhadores independentes passam recibos e gostaria que, muito justamente, descontassem para a Segurança Social como eu – alguém o sugira a Vítor Gaspar, por favor. Por outro lado, podiam passar a ter direitos e deveres concretos, como inspecções relativamente às doenças sexualmente transmissíveis e protecção contra abusos. Ah, mas já me esquecia… Isso era se legalizássemos a actividade. Em bom rigor, legalmente, não se pode falar de uma actividade que não existe – a não ser que seja promovida por outrem (estão a ver como a Lei tem lógica?)

A terminar, sugiro-vos que vejam o filme português “Call Girl” de António Pedro Vasconcelos, um exemplo perfeito de como estas “meninas” são importantes na esfera política das cidades pequenas deste Portugal. No mais, estou como uma boa amiga que me respondeu no Facebook: “Há anos que tenho vontade de ligar para uma senhora cujo número vem no jornal, porque ela promete realizar todas as minhas fantasias. Vejo-a chegar a minha casa e eu dizia-lhe “Esta é a tábua de engomar, o ferro está aqui e esse montão são as roupas.” Cada um é que sabe, secretamente, do que mais precisa!


Friday, December 21, 2012

Boas aparências


Estamos na época delas, geralmente mascaradas de boas vontades: acções solidárias em praça pública, grandes campanhas de instituições que se dedicam “a aliviar o sofrimento dos mais desfavorecidos” (”pobre” é tabu), recolhas de brinquedos e roupas usadas, a generosidade em escaparate de montra, com focos de luz incidindo para que se torne ainda mais notada.

A caridade de fachada sempre existiu. Mas as novas tecnologias elevaram-na ao seu expoente máximo. Qualquer rede social, como boa ferramenta publicitária, serve também para este novo conceito que se chama “O marketing da generosidade” – se alguém duvida desta noção, basta googlar “generosity marketing strategy” e verificará que muitas empresas utilizam a generosidade como ferramenta de marketing, ensinando que parecer é muito mais importante do que ser.

Se o importante é parecer, nada melhor do que chamar a atenção para a aparência. Os que são realmente bons actores conseguem aparentar um ar bastante interessado nas misérias humanas (malgré o seu absoluto desinteresse até pelos que com eles vivem). Os “social media” são, pois, os canais perfeitos para fazer circular a ideia desta grande construção com pés de barro que é a generosidade falsa. Por cá, temos muitos exemplos, mas quase todos pecam pela óbvia natureza – portanto, deixo aqui um conselho aos nossos falsos generosos (dando-lhes do mesmo remédio): atentem no Facebook de alguns políticos nacionais.

Nestas coisas, o mestre é Paulo Portas. Apesar de Paulo Portas ser pouco amado, nenhum soube dar como ele a impressão de que é o maior e o mais querido. Posts e fotografias cuidadosamente escolhidos dão a impressão de estarmos perante um ser absurdamente dinâmico e trabalhador, porém atento ao pormenor, e ainda amigo de todos - as pessoas são “um bálsamo de força”, ele “agradece as opiniões e conselhos de todos (nós)”, dá graças pelo “apoio e comentários que ainda não li mas vou agora ler”, e outras coisas que colocam qualquer ser, por mais tolinho e longínquo do Ministro (desde que com acesso ao Facebook) um imediato seu correligionário, inchado da sua aparente importância. E isto em todo o país: Portas adora “as ilhas dos Açores”, acha “lindíssimo” o Alentejo, não consegue ficar muito tempo longe do centro – todos estamos lá, todos pertencemos a este largo coração viajante, mas concentrado no que importa. Com tanto elogio generoso e grátis que faz ao mundo, Portas facilmente consegue o que qualquer narcisista procura: que o elogiem de volta. Este senhor, essencialmente snob por todas as razões (incluindo berço mas sobretudo feitio) transmite a ideia de ser um Lula da Silva à portuguesa, fruto e filho da terra, não tardando que alguns sonhem com ele a cantar a Grândola.

As fotografias são outra maravilha. Portas sabe que podia ser mais atraente… Mas tem fotos tão bem tiradas, com um riso tão resplandecente que qualquer um esquece o seu ar habitual e nada indica aquela vida íntima tão murmurada (absolutamente contrária a todos os seus preceitos ultra-cristãos). De resto, para além de rasgados sorrisos, abraços e paisagens, Portas tem fotos “de equipa”, uma equipa que ele também não se cansa de elogiar, ou não fossem os colaboradores outra fonte de ego-trip.

Caros cultivadores da aparência, só se pescam peixes se lhes dermos isco. Mas, já agora, façam a coisa como deve ser. Por sermos pequenos, não somos palco para amadores.