... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, March 15, 2019

Raciocínio Motivado


Quantas vezes, ao discutir com alguém ou ao apresentar uma ideia, verificamos que quanto mais evidências, factos, documentos, e demais bagagem lógica de suporte, apresentamos… menos a pessoa se convence; pelo contrário, mais se agarra à sua posição, ainda que praticamente nada de racional a suporte. Quando alguém acredita naquilo que somente confirma as suas esperanças e preconceitos, ao invés de usar as suas capacidades cognitivas, essa pessoa está a seguir um raciocínio motivado.

O processo é automático por parte de quem pretende atingir uma determinada conclusão a todo o custo e, como tal, dará o máximo valor a qualquer pequena coisa que lhe permita corroborar essa conclusão, ignorando e desvitalizando qualquer facto (ainda que muito mais importante) que contrarie essa mesma ideia. O indivíduo que se agarra ao raciocínio motivado pode mesmo inventar exemplos mirabolantes para conseguir justificar o que pretende face ao que prova a sua negação. Por exemplo: temos como cientificamente provado que o vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) causa SIDA; porém, há personalidades conhecidas que defendem absolutamente o contrário e, nessa sua senda de raciocínio motivado, dão conferências, escrevem livros, e continuam a sua carreira, embora digam frases como “Nunca foi provada a existência do HIV”; “SIDA é uma construção socio-cultural e não uma doença”; “O HIV não se transmite sexualmente, nem tão pouco causa SIDA.” Correntes de pensamento como esta podem ser encontradas, entre outros, em Henry Bauer, ex professor de química e escritor. Parece anedota, mas não é.

Claro que isto nos levaria a outro motivo de crónica que é a abundância e variedade de estudos (pseudo) científicos que demonstram uma coisa e o seu contrário. Qualquer que seja, hoje em dia, a nossa opinião, podemos “googlar” o tema e obter um “estudo” que a confirme… e outro que confirme o oposto. A ciência, atualmente sempre financiada por entidades privadas ou governamentais, tornou-se um smorgasbord: há de tudo, consoante o tal raciocínio motivado do financiador do “estudo”. Mas isso é outro tema, sobre o qual agora não me debruçarei.

O raciocínio motivado tem vindo a ser reconhecido, pelo menos, desde os anos 50. As pessoas que têm tendência a segui-lo são, sem surpresa, geridas pela emoção e não pela lógica e sentem-se facilmente ameaçadas por uma opinião diversa, que entendem como um ataque pessoal. Não possuem ceticismo científico, ou seja, não são capazes de observar uma questão sob ângulos diversos. Em vez de avaliação das fontes, espírito crítico, questionamento de situações, colocação dos factos em perspetiva, são direcionadas apenas por uma busca seletiva que lhes permita alcançar a meta da sua conclusão previamente estabelecida.

A este propósito, estudos (haha!) muito interessantes foram feitos, nomeadamente por Z. Kunda (Princeton University, 1990), Ditto e Lopez (Kent State University, 1992- 2004), Balcetis e Dunning (Cornell University, 2006). A propósito, nunca confiem numa mania que anda muito na moda, que é dizer “vários estudos” e depois não indicar nem um para confirmação… de modo que até pode ser a Tia Ermelinda a ter afirmado (bem mal andamos mas ainda não chegamos a esse ponto).

Como contrariar o raciocínio motivado? Nos outros, impossível. Onde zurra um, zurram logo mais, e com tais palavras que ninguém entende (sintomático de quem “quer parecer bem” mas não tem fundamento). Em nós, há que estar atentos: promover o debate de nós mesmos connosco para perceber se não estamos a levar uma ideia longe demais só porque sim, já distante do razoável e do lógico.

Friday, March 1, 2019

Ana Filipa



Só a conhecem por este nome fora do mediatismo. Nos meios de comunicação social, era Esmeralda. “O caso Esmeralda” alimentou tribunais, notícias e opiniões durante anos até ser esquecido quando a menina de 8 anos foi entregue ao pai biológico em 2008. Era um caso que levantava no público desejos escondidos de punição e de moralismo burocrático sem conexão com a realidade. Mas Ana Filipa não era um “caso” e sim uma criança, com sentimentos e ideias claras. Recentemente, uma notícia deu a conhecer que “Esmeralda”, hoje com 17 anos, já vive há quase dois anos com o “casal de pais afetivos” a quem foi arrancada na altura. Saiu de casa do pai no Verão de 2017 e desta vez não houve aparato que a obrigasse a voltar ao que nunca quis.  Este “falhanço” daquilo que se considerou ser o “superior interesse” da menina – claramente contestado e negado pela própria assim que pôde - foi muito habilmente silenciado. Não é por acaso que não se vêm notícias a dizer que “Esmeralda” deu um pontapé à vida que lhe impuseram. Assim, o sistema progride, desconstruindo vidas e infâncias.

Esmeralda foi, realmente, o nome que lhe deram quando nasceu. A mãe entregou-a com três meses ao cuidado de um casal, pais que ela passou a conhecer como seus e que a re-baptizaram como Ana Filipa. O casal fez o capital pecado de não adotar formalmente a menina, embora se inscrevesse para tal na Segurança Social. Aqui começou a sua desobediência ao Estado. O pai de “Esmeralda” não a reconheceu como sua aquando do nascimento, demorando a perícia genética a oferecer resultados. Foi aos 4 anos da menina que a biologia se revelou, dando a confirmação do progenitor. Aí, o pai decidiu que a queria. Começou aqui um torturante processo legal que durou quatro anos para se completar. De não querida (em todos os sentidos), “Esmeralda” passou a ser desejada por todos: agora tanto os pais afetivos, como o pai biológico e também a mãe biológica disputavam a sua guarda em Tribunal.

Advogados de renome criticaram “o acordo” feito entre o casal e a mãe biológica, a “recusa sistemática” do casal em deixar a menina ir para o pai biológico (contrariamente à ordem do Tribunal), e a inércia do sistema em acelerar para que “Esmeralda” fosse viver com o pai, a quem o Tribunal rapidamente confiou a guarda, antecedida por um sistema de visitas “para que se fosse habituando à presença” do que era um estranho. É curioso que estes iluminados não critiquem, por exemplo, o acordo de Cristiano Ronaldo quando compra um filho (tanto mais razão teriam para o fazer sendo que, no seu caso, se trata de um contrato que envolve dinheiro); estranho, também, que critiquem a proteção dada a uma criança que, por razões óbvias, não queria mudar de vida.

Nesta história, o pai afetivo foi condenado a dois anos de prisão suspensa por subtração de menores (pois o casal chegou a esconder “Esmeralda”, novamente desobedecendo ao Tribunal que tanto primou pelo “superior interesse da criança”). O pai biológico obteve a guarda da menina e ainda uma indemnização de 15.000 euros do Estado, aquando de uma decisão do TEDH, que criticou a morosidade do processo. Mas… ganhou? A julgar pelos últimos acontecimentos, “ganhou” uma filha que não parece ter por ele bons sentimentos.

Hoje, talvez fosse diferente. A lei europeia obriga à audição das crianças para que exista uma mudança de guarda, bem como a ter-se a opinião da criança em conta. Porém, é certo que os tribunais desrespeitam com frequência certas leis que Portugal consignou.

O que é mais que certo é a lição a retirar deste “caso”: não vale a pena contrariar o coração. À primeira oportunidade, ele exibe a sua revolta. O Amor não se promove por sentença; ele é Lei ou então nem existe.

Friday, February 15, 2019

Morrer na haste


Há em “Os Maias” uma frase atirada como se Eça de Queiroz tivesse nojo da vida: “Caiu-me a alma a uma latrina, preciso de um banho por dentro!” É esta a frase que me vem à memória sempre que estão em causa os numerosos crimes contra crianças que são praticados em Portugal.

A semana passada, mais uma criança foi assassinada. Desta vez, uma bebé de dois anos. Há quem diga “com dois anos já não é bebé!” Será que têm noção mínima do desenvolvimento infantil? Já trataram de uma criança? Têm ideia da capacidade de defesa que tem uma bebé de dois anos perante o poder físico de um homem adulto motivado pela raiva? Não têm.

O facto de ter sido o pai da Lara a matá-la não desculpa o crime; pelo contrário: aumenta-o. Se um pai magoa um filho, seria capaz de fazer o mesmo a outro qualquer. Ou seja, se é verdade que acreditamos num “amor maior” pelos filhos, conversamente há que acreditar que a agressão grave a um descendente, no caso um que nem se pode defender, é prova da perversidade inenarrável de um ser humano.

Muitas foram as pessoas que comentaram a notícia da menina morta no Seixal como se o progenitor tivesse tido um acesso de loucura – o que é incompatível com o facto da mãe da Lara ter apresentado queixas contra as ameaças de morte que ele lhe fazia, tendo por alvo tanto ela como a filha, o que levou a Polícia a classificar o caso como “alto risco” há dois anos atrás. Aqueles que não sabem como funciona um processo de violência em Tribunal, acham que o arquivamento do caso por insuficiência de prova significa que não se passava nada. Outros tantos foram os que disseram que o pai estava desesperado porque era um “casal em conflito” que “estava a lutar pela guarda da menina”. Na realidade, os pais da Lara separaram-se quando a menina tinha meses (ou antes: a mãe quis separar-se, o que é o mais comum nos casos em que há violência e em que a própria processual não termina... o que só significa que o elemento masculino não consegue ir em frente com a sua vida emotiva, dando por finda a relação). A “luta” assim referida não passa de uma desculpa para poder continuar a exercer domínio e para continuar a ter contacto com a ex, seja para seduzir, seja para magoar. A importância dada à criança é só esta. A própria agressão à criança é uma forma de agredir a mulher. Veja-se o que deixou escrito o pai da Lara – a culpa era “dela”... “pelo menos, não ficas com a menina.” A vingança está feita. E a criança? A criança era propriedade, nem pessoa chegou a ser na sua óptica de homem feudal, era sua por direito e, como sua propriedade, ele usou como entendeu e acabou com ela quando achou por bem.

A sociedade diz revoltar-se profundamente com crimes cometidos contra os inocentes. As pessoas ficam chocadas com os assassinatos de crianças, com os assassinatos de mães que deixam órfãos (13 órfãos em Janeiro, em que morreram 9 mulheres às mãos de companheiros ou ex-companheiros em Portugal), com as violações de crianças que em Portugal se chamam suavemente “abuso sexual”, mesmo com penetração. Aqui começa o problema: ficamos incomodados com a realidade, usamos eufemismos, ficamos confortáveis ao virarmos a cara. Ainda bem que não é connosco. Excepto que, um dia, pode ser. É que ainda está para se inventar uma protecção contra o horror, apesar da soberana arrogância com que algumas pessoas dizem “Comigo nunca se passará...”

Esta tentativa de auto-protecção não passa de uma vã esperança dos seres humanos que se julgam a viver numa bolha, longe de todo o mal, auto-vacinados porque vivem na ilusão de que são capazes de distinguir a maldade nos outros. É à conta desta falsa ideia que lemos testemunhos como os que foram dados na morte da pequena Lara, em que os vizinhos da avó (também morta pelo pai da Lara) se diziam “muito chocados, são coisas que só se vêem nos filmes!” e acrescentavam que “somos um bairro de boa gente, e isto são cenas de bairro de lata!”. O português falsamente acredita que a violência e o horror são coisas que se passam no Bairro da Jamaica, porque o homem de classe média jamais se presta a cenas de sangue e de baixa extracção. Quanto ao economicamente bem posicionado, esse é sempre um senhor! É também esta a postura cega na qual se baseia a nossa Justiça – basta para tal ler os acórdãos que sempre referem “a boa posição social” dos arguidos.

De igual modo, os amigos do pai da Lara referem que ele era um “bom pai, incapaz destas coisas”. Mesmo confrontados com o assumir do crime no testemunho escrito e confessado do criminoso... não acreditam! Defendem-no! Era “bom pai”. Há que admitir, pois, que a nossa sociedade sofre de uma profunda dissonância cognitiva. Perante a prova provada, recusa ver, não quer, defende o oposto. Assassinou a filha, mas... tratou-a bem!

E que dizer de alguma comunicação social que ajuda a esta paródia triste, dizendo que “apesar de asfixiada, a menina não apresentava sinais de agressão”?! O que é uma asfixia mortal senão uma agressão? Que esperava o jornalista? Que a bebé travasse uma luta de força? Pretende-se, com esta frase, que tenhamos o pensamento de que foi uma asfixia suave, uma morte doce?!

Portugal...Vai tomar (um) banho.


Friday, February 1, 2019

Açores: Caraíbas ma non troppo


Este mês li artigos de promoção turística dos Açores em diferentes publicações cujo título variava à roda desta ideia: “Açores, as Caraíbas do Atlântico”. Em amigável discussão com um açoriano do ramo do Turismo sobre este tópico, não conseguimos acordo, já que para o meu amigo é crucial a venda do produto (por óbvias razões) enquanto que para mim os artigos, pelo próprio título, são publicidade enganadora e, ademais, provocam o riso.

Atente-se, primeiro, num certo pauperismo dos conhecimentos geográficos do construtor da ideia “Açores, Caraíbas do Atlântico”. O problema é que as Caraíbas (as originais!) situam-se... no Atlântico. Para os que de mim duvidam, consultem um mapa. O mar das Caraíbas é no Oceano Atlântico. Não existe um oceano Caribenho dentro do Oceano Atlântico, como decerto aprendemos todos na instrução primária. Portanto, repare-se no nonsense que isto é.

Diz-me o meu amigo que o jornalista que concebeu esta ideia é um americano de New York. Se foi o caso, trata-se de um idiota sem par, dado que New York é na Costa Leste dos E.U.A. , estando as Caraíbas mais ou menos em frente dos E.U.A. (um pouco mais abaixo). Ou seja, o senhor tinha obrigação de saber. Tanto mais que Cristovão Colombo – historicamente, o descobridor do continente americano – descobriu as ditas Caraíbas, na verdade, e não a parte continental da América. Por este simples facto se atesta a proximidade. No entanto, como é que o dito jornalista veio aos Açores? Terá sido parte de uma daquelas viagens promocionais para jornalistas que, depois, são pagas com artigos? Se assim foi e se o artigo passou, primeiramente, pela aprovação do Turismo dos Açores, então... por amor à minha liberdade não comento, e até sublinho que tudo isto são perguntas apenas.

Outras questões sobre este conceito. As Caraíbas têm um clima tropical. São a imagem de ilhas tropicais com que estamos habituados a sonhar: mar turquesa, sol abrasador, calor de derreter. Além disso, há duas estações: a seca e a chuvosa, sendo que uma delas implica furacões que não são brincadeira – na zona, os furacões são categorizados numa escala até 5, e não é raro obterem a escala máxima. Isto é minimamente parecido com os Açores?…

Alguém que não conheça os Açores, lê estes artigos, mune-se de fato de banho, calção e chapéu de palhinha para passar um Verão tropical nos Açores... Aí vem ele de rede de estender... e depara-se com um Verão mais ao estilo do de Londres, em que chove quase de certeza metade dos dias. O turista pensava que se ia estender em praias de areia branca e fina... mas nada disso. Vê praias vulcânicas, claro, e paisagens ao estilo irlandês, verdes e luxuriantes, um bocado nevoentas quase sempre, sobretudo se se aventurar para Ocidente. Então o hino não oficial dos Açores não é “Ilhas de Bruma”? Brumas e nevoeiros não faltam! Quais “Caraíbas”?!

Tenho, pois, sincera dúvida sobre a eficácia e legitimidade desta publicidade em forma de artigo. Mas reitero com cuidado: esta é uma opinião baseada em questões, e não pretende ofender. É que todos sabemos que Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, pode dizer à vontade o que entende, mas uma mulher quando se expressa publicamente tem destinos como o de Maria de Lurdes Rodrigues (uma académica que foi efectivamente presa por 3 anos por bloggar na internet certas opiniões – presa por difamação desses dois irmãos, o Estado e a Justiça, embora ela não tenha dito nada de mais grave do que diz, por exemplo, Miguel Sousa Tavares, sendo que a amplitude de quem o ouve ou lê é, no caso, muito maior). Sim, isto é Portugal. Um Portugal de quem ninguém fala – não lhes vá acontecer o mesmo.

Enfim, reservo o direito de não concordar com o meu respeitável amigo. Talvez as nossas visões não mais sejam iguais desde o dia em que um de nós escolheu ficar nas ilhas e a outra escolheu sair. Já o disse Vitorino Nemésio que, ao regressar às ilhas de passagem, se interrogou: “Será que começamos a ser estrangeiros onde nascemos?”. Já tantos escritores escreveram magistralmente sobre as ilhas sem não mais as pisarem senão na escrita que só isto é prova que as ilhas pouco mudam mas o ser humano sim, e que certos desejos são melhor sonhados ao longe que desapontadoramente realizados in loco

Sendo certo que há desilusões que não conseguimos evitar, esta deste artigo pub é certamente evitável: não enganemos a fauna turística com vãs promessas - os Açores não são as Caraíbas. E, já agora, não passemos por idiotas: estamos todos no Atlântico, my friend.

Friday, January 18, 2019

Falar é Fácil


“Falar (inglês) é fácil” é o título de um livro escrito recentemente pela apresentadora Cristina Ferreira, agora tão na moda devido ao telefonema do nosso Presidente. Com o respeito devido, admito que não li o livro, mas a minha curiosidade foi desperta, não só porque o assunto diz respeito à minha formação mas também porque vi um curioso vídeo de publicidade à obra.
O livro, segundo a editora, tem a seguinte caracterização temática “Escrito em Português; Desenvolvimento Pessoal e Espiritual; Autoajuda; Guia de Conversação.” É uma caracterização infeliz para um livro que pretende, segundo a autora, ensinar a falar inglês, explicitando o método que a própria usou para aprender a língua! Um guia de conversação é o tipo de livro que carregamos numa viagem como “pronto socorro”, com estruturas básicas e vocabulário a serem usados em várias ocasiões. Não é, pois, um método consequente e gradual para aprender uma língua. Um guia é um auxiliar muito específico. De resto, um guia seria escrito em duas línguas. Quanto às etiquetas “desenvolvimento pessoal e espiritual; autoajuda”, tenho dificuldade em enquadrar métodos de aprendizagem de uma língua junto a livros que são enquadrados nestas categorias como sejam “Aprende a ser feliz”, “Meditação para todos” ou “Comunicação com o Além”. Embora se trate aqui de um método sem professor, a classificação é irrealista, quiçá perigosa, mesmo considerando que aprender uma língua torna todos mais realizados (vide observação da autora “este era o meu calcanhar de Aquiles”, sentindo-se, agora, muito mais realizada).
O vídeo em que a apresentadora fala do livro não é de bom augúrio. Primeiro, porque dura mais de 8 minutos e, durante todo este tempo, Cristina Ferreira fala apenas uns segundos em inglês. É certo que nos diz que muda de registo porque o vídeo se destina a portugueses... mas creio que eles gostariam de perceber que o método funciona?! Depois, porque ficamos a saber que a apresentadora teve aulas com um professor da Cambridge Assessment English Portugal e que passou num dos (vários) exames dos (vários) níveis que este centro tem. Não confundir, por favor, com a Cambridge University. Não são sinónimos. A Cambridge Assessment existe em vários países, funciona em centros que dão aulas e passam certificados que atestam os níveis de inglês dos alunos. Não são institutos universitários, nem é necessário sequer ter formação para se inscrever. Crianças de 7 anos podem fazer um Cambridge Assessment. Com isto, não pretendo menosprezar os certificados, mas sim esclarecer que a ideia que é passada no vídeo – de chapéu universitário na cabeça, falando em universidade – é uma ideia errada. Não se trata de uma certificação com este grau, nem pouco mais ou menos.
Se Cristina Ferreira quis fazer um livro sobre como “Falar (inglês) é fácil”, está no seu direito. Prevejo, aliás, bastante sucesso, porque se trata de uma figura pública muito conhecida e acarinhada – é o que interessa para ter razão em tudo, mesmo que não tenha.
O facto é que, às vezes, não tem. Nisto da informação que não é real, Portugal tem um problema e Cristina Ferreira ajuda. A informação não real (ou, se quisermos, falseada) acontece. Há que ter cuidado. Por exemplo, no (não tão ido) ano de 2016, Cristina Ferreira aparecia num programa com o psicólogo Quintino Aires, seu convidado, em que analisavam casos mediáticos e julgavam, a seu belo prazer e sem fundamento, a veracidade e “psicologia” dos mesmos. Nesse mesmo ano, Quintino Aires foi suspenso pela Ordem dos Psicólogos por má conduta profissional – aconselhou mães a desobedecer a um pedopsiquiatra, deixando de dar aos filhos os medicamentos receitados por este, fez afirmações públicas de racismo, entre outras, pouco ortodoxas, de natureza sexual. Isto em conversa(s) com Cristina.
Claro que a apresentadora não é responsável por isto; “apenas” conduz as questões, mete ou não lenha na fogueira, concorda, etc. Vale só o que vale a (ir)responsabilidade de um entrevistador em temas delicados.Regresso ao livro. Uma apresentadora pop escreveu um livro onde ensina (?) a falar inglês.
Há coisas que uma figura pública faz com desenvoltura e savoir faire, nomeadamente agradar às multidões. Outros assuntos devem ser ignorados ou tornam-se tiros no pé: cai-se num descrédito que prejudica a imagem, essa prenda que a vida raramente oferta consecutivamente.
Melhor seria deixar o inglês sossegado, que, em troca, os “estrangeiros” também não incomodariam...


Tuesday, January 15, 2019

Breve recordação da eterna Amiga



A nossa Amizade (à falta de melhor e mais sólida palavra) durou 24 anos. Conheceu-me adolescente, e antes de eu ver em mim a pessoa que sou, já ela me via. Leu-me, como se eu fosse um livro aberto, antes de eu conhecer bem as minhas páginas.

Nada fazia pensar que nos tornaríamos tão próximas, porque um grande fosso etário nos afastava. Mas corria, subterrâneo, aquele fio de intuição rara que liga duas pessoas predestinadas a entenderem-se e a criarem laços fortes, apesar das suas diferenças condicionais.

Por conta dessa predestinação inexplicável, um dia deixei escapar na sua presença algo que vinha guardando na minha reserva habitual e que era de partilha dolorosa e difícil. Quando a encarei de frente, encontrei-a comovida para lá do expectável. Apercebi-me, então, de um mundo invisível de experiências comuns, no seu passado e no meu (então) presente, que nos unia e que nenhuma confessava de ânimo leve. “Se há coisa que não faço com frequência é abrir a arca destas memórias” dizia ela. Desde então, a sua personalidade resiliente e fibrosa, que passava por orgulho aos olhos de tantos, passou a ser minha confidente.

Tudo nela era firmeza de valores, pensamento claro, lógica dedutiva. “Não me desqualifiquem como ser pensante” dizia quando alguém a contestava com abstrações ocas e vazias, sem ligação à realidade. A sua inteligência singular era rara, porque conhecedora dos seus pontos mais fortes e menos fortes, anímica, viva, plural, com fome do que não conhecia ainda, sem tempo para o que sabia ser inútil e admiradora fervorosa do que considerava belo e grande.

Não se retraía em explicar os seus ideais a alguém: “Não tento converter ninguém; só explico. Quem quer pensar, use a cabeça.”

No seu coração enorme não cabiam todos, ao contrário dessa vazia frase popular. Confessava: “Nem todos merecem. Mas cultivo as sementinhas dos que são importantes, sempre.”

Tinha aquela força magnética das pessoas que transformaram as muitas dores e adversidades em criação, dos que nunca se derrubam, porque a sua energia corajosa a movia como uma mola para enfrentar fosse o que fosse, contra injustiças e crueldades, sobretudo em se tratando de crianças, cujas injustiças que sofriam sempre a tocavam particularmente.

Nunca lhe pedi ajuda, mas ela sempre se ofereceu para me auxiliar. Recordo a sua postura, como uma árvore, à minha frente. Não tinha receio de enfrentar perigos, mas mesmo assim não se julgava corajosa. “Sou só menos borboleta do que tu” dizia, referindo-se à minha fragilidade física.

Tinha por hábito discutir certos assuntos da actualidade comigo e fazia-o de forma muito peculiar. Começava por apresentar o assunto que tinha lido ou ouvido nos media. Depois, perguntava a minha opinião (fundamentada e não simplesmente uma opinião “porque sim” ou um capricho pessoal). Só em seguida dava a sua. Como tínhamos sempre ideias muito parecidas, não havia grande discussão. Mas não era raro que uma dissesse um pormenor em que a outra não tinha pensado.

Outro entretenimento eram os seus esquemas escritos. Não era adepta das novas tecnologias, das quais até troçava um pouco. Mas não desistia do papel e da caneta. “Queres ouvir uma coisa?” Tinha ideias originais, era contrária a seguir a carneirada das multidões, e, sobretudo, era sagaz a ler pessoas. Por isso mesmo, retorquia, frontal, a certas hipocrisias sociais. Creio bem que era, secretamente, temida por isso. Ouvi certa pessoa de nomeada dizer que a “Prof. Maria Simas era uma instituição!” Quando lho contei, ela riu-se muito alto e contestou: “Mais acção e menos palavreado, isso é que sim!”

Muitas vezes lhe disse que ela podia ter feito uma carreira académica, mas a todos os elogios respondia “Não me carregues de adjectivos!” De resto, importavam-na mais o grande carinho dos ex-alunos, crianças que tornou em adultos, sonhos que ajudou a construir.

Falava sempre do filho, netos e nora no superlativo. Mas não era adepta da família tradicional, como fardo e obrigação. Quanto a companheiros, era firme: “não uses a palavra para nomear quem nunca acompanhou.” De progenitores, tinha a mesma visão directa: “Há pais e mães dos quais duvidamos se os filhos terão nascidos deles ou de uma flor, tal é a falta de afecto... Olha que até as ratazanas defendem os filhos quando são atacados!”

Tive a sorte de ela copiar para mim (ou antes, para o meu filho) as suas dicas de como ensinar uma criança a ler, bem como as primeiras noções de matemática, isto quando ele ainda tinha três anos. Achei prematuro, mas ela disse-me que já tinha visto muitas crianças e que tinha a certeza que ele era muitíssimo precoce, o que se veio a confirmar. “Nunca me enganei!...” disse-me, sem esconder o seu orgulho de mestra.

Fiel à sua veia de pedagoga, ouvi dela das melhores frases de orientação, das quais destaco: “Não ouças conselhos de ninguém, olha antes para as suas vidas. Se forem exemplo para ti, podes aprender alguma coisa. De contrário, segue a tua cabeça.”; “Se te desapontares com A ou com B, lembra-te que a natureza do burro é dar coices.”; “Não tenhas problemas em que certas pessoas te considerem diferente deles; isso é uma grande distinção.”; “As pessoas são como os alimentos: um pouco de todos é bom, de alguns guarda muita distância; e nunca devemos recriminar-nos por uma indigestão, porque a embalagem, geralmente, é apelativa.”; “Certos seres não têm emenda, pois sabes que o direito do anzol é ser torto.”

Porém, ultimamente, dizia-se exausta. Confidenciou um dia: “Este mundo tornou-se tão incompreensível e feio que já vou tendo menos pena de o deixar.” Deixou-o, e assim ficou um fosso onde antes estava a sua presença, a sua voz, o seu amor.

Querida Maria, jamais nos esquecemos, apenas nos habituamos à perda definitiva de alguém. O nosso encontro continua, continuará... sempre.

Thursday, January 3, 2019

Cegueira de Escolha



Suspeito que 2019 seja ano de eleições para algo, pois raro é o ano que não o é, já que há uma multiplicidade de cargos (não sei o que alguns trazem de novo, mas isso seria outra crónica).

Como tal, quero falar-vos de uma experiência da Universidade de Lund – a universidade mais bem cotada da Suécia, entre as melhores do mundo – que se intitula “Choice Blindness”. Lá, existe um laboratório de Ciência Cognitiva onde, desde 2005 até hoje, Peter Johansson, Lars Hall e outros estudam este fenómeno de cegueira de escolha e mudanças de atitude transformativas. Trata-se de perceber o fenómeno da escolha individual: até que ponto o indivíduo tem consciência plena da sua escolha e, segundo esse plano racional, porque a defende. Naturalmente isto aplica-se a todos os campos da vida, não somente à política, mas à vida pessoal, profissional, etc.

As primeiras experiências foram simples. Apresentaram-se aos sujeitos duas fotografias, para que escolhessem o rosto mais atraente. Escolhido um, tinham de justificar a sua escolha. Posteriormente, foi feito um truque, acabando os sujeitos por ficar com o rosto que tinham rejeitado. Surpreendentemente, quase ninguém reclamou (e raros deram por isso). Em seguida, foi pedido aos sujeitos para justificarem porque gostavam mais do rosto que tinham à frente. De notar que todos justificavam muito bem. Por ex: “Escolhi este porque gosto mais de morenas” (sendo que, na verdade, tinham inicialmente escolhido o rosto de uma loira que lhes tinha sido retirado!) Os resultados mostraram que, em 75% dos casos, as pessoas fantasiaram razões para os rostos que lhes calharam e que, recordo, na verdade não tinham escolhido. Tão bem o fizeram que acreditaram terem sido eles a escolher este resultado! Para “picar” os sujeitos, foi-lhes perguntado se seriam capazes de notar algum tipo de manipulação indevida na experiência. 84% responderam que sim. Finalmente, quando confrontados com a sua escolha correcta (i.e. a inicial) rejeitaram-na. 

Isto é “choice blindness”, ou, se quisermos, manipulação das nossas escolhas e a nossa própria fantasia justificativa de que estamos a escolher o que, na verdade, nunca escolhemos. Parece incrível mas raras são as pessoas que escapam a isto, por pura pressão social.

Claro que experiências posteriores incluiram questões bem mais complexas do que rostos. Uma experiência interessante intitulava-se “Levantando o Véu da Moralidade” e jogava com questões éticas. As pessoas são capazes de mudar as suas opiniões sobre questões morais, com o mesmo simples “truque de cartas” usado na experiência dos rostos, e fazem-no com a mesma rapidez e de forma assumidamente descomprometida (quanto à escolha inicial, a sua) e ferozmente defensora (quanto à segunda escolha, que passam a ver como sua).

O mesmo se passa quanto a opções de natureza política, comprovado com outra experiência, que mostrou que estas opções não são construídas mas sim assumidas, sem qualquer argumento racional, e sim por simples persuasão íntima, cuja natureza é rápida e variável, embora não tida como tal pelo indivíduo.

Mais se comprovou que os efeitos desta “cegueira de escolha” podem não raro influenciar futuras escolhas e julgamentos. Quanto mais justificativas os sujeitos davam para as escolhas finais das experiências (que não tinham sido as suas, mas que agora assumiam, inequivocamente, como tal) mais hipóteses tinham de para sempre assumir estas “novas” hipóteses como sendo mesmo suas futuramente e, assim, agarrar-se a elas. Esta ideia, denominada auto-feedback, cria raizes no facto dos indivíduos terem tendência a continuar a assumir o que já disseram publicamente (isto piora na proporção de quanto mais publicamente um assunto foi dito ou quanto mais pública determinada figura é, como se calcula).

Claro que certas questões paralelas são interessantes aqui, como seja a questão do debate. No fundo, e de acordo com estes resultados, notamos que a generalidade das pessoas não debate para discutir a sua ideia ou convicção mas tão só para fervorosamente “ficar por cima” pois, quantas vezes, nem tão pouco estará certo de qual é a “sua” ideia! Podia ser outra qualquer que a defenderia da mesma forma, desde que ganhasse!

Porém, Johansson e Hall admitem que há excepções à “cegueira de escolha”. Existem indivíduos que resistem à pressão. Para tal, basta-lhes usar de senso comum e da coragem de manter a sua individualidade.

Tenhamos, todos, um 2019 de olhos bem abertos.