... "And now for something completely different" Monty Python

Wednesday, April 24, 2019

A Perda de Identidade da Vítima


Quadro Acrílico de António Trindade 

Não há dúvida: todos somos humanos. Dentro da nossa concepção do que é próprio da natureza humana, o ser “sujeito”, “agente”, ser de acção, ser transformador, é algo inerente. Ser sujeito e ser humano são conceitos inseparáveis na nossa psique. Além disso, atribuímos ao sujeito a titularidade de certos direitos, já que isso é acoplado à sua capacidade de ser e de fazer acontecer.

O que acontece, então, quando somos desumanizados e, por inerência, rebaixados à condição de objectos?

A frase parece forte, mas o conceito não é novo. A situação sempre aconteceu, com os grupos socialmente mais frágeis, fossem os escravos da Antiguidade, os servos da Idade Média, os negros segregados (ainda) no século XX ou os judeus na II Guerra Mundial. De facto, foi a partir do fim desta guerra que a atenção do mundo passou a focalizar-se nos oprimidos e nos torturados e que as Academias começaram a abrir espaço para estudos sobre os marginalizados e as vítimas. Até então, tinham sido as figuras de soberania a interessar: o que pensavam, como agiam, o que sentiam. Mas, após uma tragédia de tão grandes dimensões da qual o mundo se deu conta por meios visuais – tendo sido realmente crucial a importância da imagem e a divulgação em massa para o impacto que daí adveio – passou a colocar-se o foco não no sujeito, mas sim no humano objectificado.

Só se concebe que graus elevados de tortura possam ser feitos por um humano a outro se o dominador conseguir despersonalizar o dominado. Para isso, conceptualiza-o como um ser inferior, necessariamente menos humano (daí que se compreendam os sinais nas lojas durante a Segunda Guerra, e.g. “Proibida a entrada a cães e a judeus” ou a proibição dos negros se sentarem nos lugares reservados a brancos nos autocarros ou irem às mesmas escolas que eles na época da segregação nos Estados Unidos, por exemplo). Quem abusa pode mesmo reduzir o outro à condição de mero objecto, que, por não ser humano, serve apenas para o servir, como as restantes máquinas e objectos servem (as mesmas culturas e etnias anteriormente citadas foram amplamente utilizadas em contextos de servidão).

Porém, o que aqui me interessa não é a perspectiva do dominador/torturador/perpetrador de crimes, mas sim a perspectiva do dominado/vítima. Importa-me, aliás, desvalorizar o dominador (ele já se dá toda a importância!). Foquemo-nos sobre o dominado. O que acontece a esse alguém cuja humanidade e subjectividade lhe é retirada e que vive sob o domínio de um agente que continuamente o despersonaliza e lhe retira a sua identidade mais básica?

Se não falei nas mulheres e crianças quando, há pouco, mencionei os socialmente mais frágeis ao longo da História, fi-lo propositadamente. É porque continuam a sê-lo. Em muitos aspectos, as mulheres têm conseguido patamares importantes para assumirem a sua igualdade, e não há dúvida que a vida das crianças na generalidade dos países ocidentalizados é hoje melhor do que dantes, quando trabalhavam como adultos e nem havia leis que as protegessem da morte inflingida por maus tratos de familiares ou patrões; no entanto, ainda hoje, as crianças não são vistas como seres humanos em desenvolvimento, mas de pleno direito à humanidade, com opiniões, sentimentos e razões levados em conta, e nem as mulheres alcançaram a igualdade de sexo pela qual se continuam a bater. Basta darmos uma olhada nas sentenças judiciais de abuso sexual (desde já, quantas vezes um eufemismo para “violação” quando se trata de menores) ou de violência doméstica em Portugal para chegarmos a esta conclusão.

A vítima que vive numa redoma de despersonalização não é objectificada apenas pelo perpetrador do crime. Ele não é o único que lhe rouba a subjectividade (entendida aqui como a faculdade de ser sujeito e não objecto). Existe também todo um constructo social, que vai desde os vizinhos surdos, que nada escutaram nem escutam, aos colegas cegos que nunca as marcas de violência viram, e depois, mais tarde, a uma série de agentes despersonalizadores que fazem parte de um sistema (de apoio?): médicos, técnicos de acção social, técnicos judiciais, juízes.

Este sistema mais lato, perante o qual a vítima tem de efectuar um acto (habitualmente, variados) de revivalismo do crime (judicialmente ditos “testemunho”), avalia a qualidade desse revivalismo sob o ponto de vista historicista, apenas esperando uma confirmação da tese que os próprios já criaram e à qual se agarram, e retirando toda e qualquer afirmação que não a confirme. A vítima nunca é considerada, assim, um pleno agente da história, nem quando sobreviveu a esta, pois as suas revelações são sempre tidas como meias-verdades, suspeitas de trauma (aquando do crime ou presente ainda), de desequilíbrio, de emoções. É curioso, porém, que a mesma alegação de desequilíbrio por trauma que lhe é feita (e que carrega, em si, a vivência de um evento traumático) desaparece quando se tenta indagar o evento desencadeador (ou seja, o crime que ali se averigua!). Bizarro… Em resumo: a opressão e a subordinação continuam a pesar sobre a vítima, continua a ser-lhe negado o direito de plena voz, de credibilidade, de dignidade como sujeito. À vítima é dado o tratamento de objecto. Este facto é mais gritante no caso das crianças, essas verdadeiramente objectificadas no caso da justiça, pois que não têm voz. Quando são ouvidas, os seus testemunhos são cortados, considerados inválidos “porque muito jovens”, “emocionadas”, “não convincentes”, ou são coagidas a calarem-se.

Assim intimado, o sujeito deixa de fazer som. Não fala, não age, torna-se não agente de vida. Torna-se objecto. Torna-se, novamente, vítima de um ataque à sua identidade humana, prolongamento do ataque criminoso que já antes sofrera.

Há pouco falei no quão importante a visibilidade em massa tinha sido vital para que a carnificina do Holocausto fosse exposta. De facto, sem meios de visualização, as pessoas não se teriam consciencializado da tortura dos campos de morte e da imensidão do terror. A visibilidade é poder. Desde então até hoje, cada vez temos mais consciência disso, com a emergência da internet e dos smartphones. Os abusadores têm plena consciência disto. É por isso que jogam também com este factor, e fazem reconhecer o seu poder através de visibilidade. Por outro lado, retiram-na à vítima, tornando-a invisível. A vítima torna-se minúscula, não falada, não vista, não reconhecida. É uma marginal visual.

Para além desta perda de identidade em termos pictóricos (essencial no mundo moderno), a vítima é sempre solitária. Muito cuidado com esta palavra, que é frequentemente mal-usada. Grandes e belas obras nascem da solidão, e é de desconfiar de quem não sabe viver sozinho. O sentido de “solitário” aqui refere-se a quem é retirado da sua rede de suporte pelo abusador, o que frequentemente acontece. A energia colectiva é maior do que a energia individual, como pode atestar todo aquele que já esteve num concerto, mas também é possível que a nossa energia individual seja sugada pelo colectivo e que nos sintamos vazios e esgotados por pertencer a um grupo se esse grupo for tóxico, como sabem as pessoas que já foram parte de uma seita religiosa ou de uma família disfuncional. Nesses casos, antes só… fica-se melhor orientado.

Um ponto unificador da perda de identidade da vítima e do trauma de revivalismo do crime (pois o testemunho constitui uma repetição traumática do já acontecido perante espectadores que, ademais, avaliam e julgam não o crime mas a nossa memória dele) é a vergonha. A vítima tem sempre vergonha do acontecido, o que confunde os julgadores e diverte os criminosos. O julgador, não raro, não entende o porquê da resistência da vítima em falar de um acontecimento “se não foi você quem cometeu”… ou “considera que contribuiu para isso?” Neste momento, é razoável deitar o olho ao abusador que costuma estar intimamente deleitado com esta nova tortura.  É fácil de explicar o sentimento de vergonha da vítima, que pode manifestar-se de diversas formas (desde bloqueio, recusa, insensibilidade aparente, etc) mas tem sempre a mesma causa: a vítima não teve escolha, foi forçada a algo. Tornou-se marioneta de alguém. Confessa, ali, a sua inarticulação enquanto sujeito-agente (que deixou de ser aquando dos factos narrados) e que continua a não ser (porque obrigada a revivê-los perante plateia). Desprovida, assim, da sua identidade maior enquanto ser humano, a vítima é objecto, e o que é pior, é objecto de servidão para outro alguém, envergonhando-se de não ser humano como os demais.

Que tipo de reconhecimento quer, então, uma vítima ou, se quisermos, um sobrevivente? (embora eu tenha problemáticas com ambos os nomes, ainda não se inventou melhor designação; gosto de lhes chamar sobre-viventes, porque vivem para além de)

Logicamente, a questão da visibilidade é uma questão social. Todos nós temos um conjunto de crenças e, em boa verdade, vemos aquilo em que acreditamos. Daí, que haja tantos lobbies, influencers, e outros que tais, social, política e estrategicamente colocados. Portugal não está sozinho e, neste aspecto, é apenas um peixinho num tanque onde nadam muitos outros aos quais Portugal lá anda agarrado como pode. Em termos de violência e abusos, para dar exemplos concretos, encontramos ultimamente várias opiniões nas redes sociais e jornais nos últimos anos que dizem que as mulheres são as maiores abusadoras dos filhos, porque o amor maternal não seria inato. Na verdade, pesquisando mais um bocado, contactando com  pessoas que se dedicam há muitos anos a estudar abusadores e vítimas, a verdade é que há uma enorme taxa de vítimas sexuais infantis violadas pelos pais (homens), tanto em Portugal como no resto do mundo, há vendas de crianças estabelecidas na Europa e alem para fins de pedofilia, sobretudo a uma elite, com coração na Bélgica, uma rede com ligações a políticos e empresários de outros países e de outros continentes, de onde não é muito difícil seguir o rasto e acabar mais perto… Mas quem fala nisso costuma desaparecer em explosões ou outros acidentes misteriosos (eu própria já fui vítima de tal, e sou apenas uma pequeníssima gota que caíu mal e incomodou alguém). A questão é perigosa, pois como se depreende de todas estas notícias que incluo neste artigo em forma de link, tudo isto envolve homens extremamente poderosos, com vícios sádicos, que usam de “perversão da justiça” (cito o artigo de investigação do Miami Herald) para continuarem as suas vidas, incólumes.

Em oposto a isto, há movimentos de mães denominadas “em fuga” que mais não fizeram que juntar provas do abuso dos filhos (são muitos movimentos, uns totalmente a céu aberto e outros underground; só apresento links aqui de alguns extremamente conhecidos, como este e este, e o já histórico children of the underground).

Nada disto é socialmente falado como mainstream. Não faz parte do reconhecido. Mutatis mutandis, este fenómeno de (in)visibilidade dir-se-ia que é mais ou menos o mesmo fenómeno que, nos anos 80 e na minha infância, levava as pessoas a dizerem que só os gays é que apanhavam SIDA. Foram precisos anos, mas foi sobretudo preciso muito lobby, para que a verdadeira opinião fosse veiculada. Outro bom exemplo do invisível “in plain sight”: nos E.U.A., ainda hoje a (in)visibilidade do homem negro ou do homem hispânico se faz sentir - é sempre ele quem vai à frente nas estatísticas de crime apresentadas oficialmente e é sempre ele quem é morto pela Polícia. Mas… quem são os atiradores das escolas? Homens caucasianos. E quem são os serial killers? Na sua maioria, homens caucasianos. Como vêem, um sistema de crenças faz-se… mas raramente corresponde ao real.

Outro problema, bastante mais profundo e eventualmente psicanalítico, é que a vítima necessita, em última análise, de ser reconhecida como ser humano por aqueles que a dominaram ou dominam. É uma questão complexa que, a meu ver, prende muitas vítimas a relações onde esperam vir a ser reconhecidas (ou têm essa esperança eventual). Infelizmente, e como é óbvio, o abusador será a última pessoa a reconhecer-lhes humanidade/identidade. Já encontrei este mesmo sentimento em mulheres agredidas pelos companheiros e em crianças agredidas pelos progenitores. A relação não se quebra até a vítima perceber que a inferioridade profunda que sente, a falha que entende ter em si, não será colmatada – pois a vítima está crente que apenas o abusador pode preencher essa lacuna, já que foi ele que a criou. A constante opressão cria esta necessidade de reconhecimento – é só aqui, a meu ver, que se pode falar de uma carência do oprimido, um conceito que certos técnicos usam com displicência, fazendo a vítima sentir que ela sofre de alguma patologia que terá levado o abusador a escolhê-la, como a melhor peça de caça, a mais frágil, a que já possuía “qualidade per se”.  A ideia é errada. Não é a vítima que cria o abusador; é o abusador que constrói a vítima.

É aqui que deveria entrar a justiça. É garantido que um abusador nunca restituirá à vítima a identidade que lhe roubou. Mas a justiça poderia fazê-lo, ao menos um pouco, reconhecendo os crimes, atribuindo penas, proibindo contactos futuros. Quase nunca o faz. Pelo contrário: torna a insistir na objectificação do vitimizado.

Ainda uma palavra para o testemunho. É frequente insistir-se em perguntas pormenorizadas como “que horas eram quando entraram no quarto?”; “que cuecas tinha nesse dia?”; “Lembra-se se ele tinha roupa interior?”; “terão passado cinco ou dez minutos durante esses momentos?”. Uma falha (se é que falha se pode considerar…) numa destas perguntas é, não raro, motivo para que os juízes desqualifiquem todo um testemunho, já que “claramente, não se recorda, inventou”, etc. Parece-me lógico que, no decurso da vida normal, raras são as pessoas que detém o controlo do tempo ao minuto e menos ainda será o número de crianças que saberão dar resposta com acuidade temporal. Ademais, perante uma situação de choque, o frequente é que qualquer adulto (e seguramente uma criança) não recorde pormenores e fique ainda mais aflito ao ser questionado sobre eles, como se dessa ínfima partilha dependesse a sua segurança actual e futura. Não será muitíssimo mais importante questionar dos factos acontecidos, ao invés de insistir nos minutos e bugigangas?

Outra revitimização e perda de identidade / humanidade são as ameaças que se fazem por parte de entidades que, devendo proteger as vítimas, acabam por compactuar com os abusadores, seja em processos judiciais irrealistas e kafkianos, seja na elaboração de relatórios sem nexo. Isto deu origem, nos últimos anos às hashtags #mommycide#, #kiddocide# e #freethekidsfromcourtorderedabduction#, i.e. “homicídio de mães”, “homicídio de crianças” e “salvem as crianças do rapto legalmente ordenado pelo Tribunal”. Procurem e encontrarão na internet muitos movimentos como este que de há uma dezena de anos a esta parte vem fazendo ouvir a sua voz e recuperou a sua IDENTIDADE e HUMANIDADE no mundo: desde mães que lutaram pelos filhos que não foram ouvidos, e os retiraram do inferno em que viviam (ou iam viver), a crianças que cresceram (algumas até casaram para se emancipar); pessoas que emitem programas de rádio ou têm canais no YouTube, páginas na net, fizeram e-books ou lançaram livros; investigadores, advogados, fotógrafos e jornalistas (alguns foram abusados na infância, e os abusadores não foram punidos), ou mesmo investigadores que se dedicaram a estudar abusadores durante décadas e conhecem muito bem o outro lado. Enfim, a lista é longa, quanto à rede de investigadores e whistleblowers.  Novamente, só coloquei aqui alguns nomes facilmente acessíveis que não comprometem.

Uma descoberta que fiz resume-se a esta verdade: um abusador necessita da sua vítima. São pessoas sem energia própria; precisam da energia de outros para conseguir estar e viver. Mas os sobre-viventes não precisam dos abusadores para nada. Têm tanta energia que chega para si, foram parasiticamente sugados por esses vampiros (os abusadores raramente são apenas um na vida de uma vítima), mas ainda lhes resta para viver a vida toda e continuar, com vitalidade.  


Friday, April 12, 2019

A importância da linguagem para a igualdade


Uma língua reflete sempre uma cultura. Daí, termos línguas vivas dentro de culturas em constante transformação. Leciono uma cadeira que inclui “Inclusive Language/Gender Neutral Language”, no fundo, o uso de linguagem que evita palavras que possam carregar um sentido discriminatório quanto a um determinado sexo (fatalmente, 98% das vezes o feminino), ou quanto ao uso de estereótipos relativamente a um determinado grupo de pessoas. Exemplifico: em vez de “fireman” será mais correto dizer-se “firefighter” que tanto pode ser homem ou mulher; o mesmo para “air hostess” que, para ser neutra, deve ser substituída por “flight attendant”. Não são preciosismos do milénio. Os profissionais destas profissões que são do sexo contrário ao indicado nas palavras não neutras veem as (novas) denominações como um seu direito de que não se assuma, à partida, que tais profissões são exclusivas do outro sexo.

A questão de fundo é que as palavras que dizemos, i.e. a língua que falamos, determina a nossa linha de pensamento. O nosso sistema linguístico programa-nos, sendo a Gramática de cada língua uma espécie de princípio da relatividade que guia a interpretação do mundo, com toda a parcialidade que daí advém. Dissecamos o mundo consoante a pré-conceptualidade da nossa língua. Esta teoria de Determinismo Linguístico não é minha, vem de Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf.

Posso observar isto quando, lecionando, encontro pessoas não nativas de inglês que se esforçam por fazer um paralelismo da Linguagem Neutra na sua língua-mãe. Para os chineses, japoneses e coreanos, quase inútil, visto que não há marca de género na língua original (embora o japonês tenha expectativas bastante altas quanto às palavras “polidas” a serem usadas por uma mulher, o que é outro assunto). Para outros, como os das línguas românicas, um quebra-cabeças no qual não tinham pensado.

O que me intriga, enquanto falante de português, é o machismo que esta sociedade patriarcal exibe no uso dos nomes. Vemo-lo quando as crianças aprendem a falar. Quantos de nós, sobretudo em Lisboa, não tivemos de explicar aos nossos filhos que puta não era o feminino de puto? Com prematura aflição, inculcamos nas crianças que “puto” é o miúdo, nome designando criança pequena do sexo masculino; mas o seu correspondente gramatical em flexão de género “não se pode dizer” porque é uma palavra feia, não designa meninas, designa “outra coisa”... Quantas caras de crianças ficam pasmadas com esta proibição, criada pela semântica adulta cultural? Todas. Mas rapidamente aprendem, interiorizam e passam à frente. Como passarão à frente tantas outras noções patriarcais, que denigrem a figura feminina, e que usamos por hábito. Mas elas aí estão e definem-nos como povo.

Outros exemplos. Um “cão” é um animal; já a “cadela” pode ser a fêmea do cão, mas também pode ser, particularmente na ilha de S. Miguel, uma mulher de costumes pouco respeitáveis. O mesmo correspondente feminino têm outros animais, em que o macho é neutro ou mesmo de valor mas a fêmea não presta: “touro” (homem potente) versus “vaca” (mulher ignóbil); “bode” (nomeadamente “bode velho”, homem de posição social alta e com sapiência malandra) versus “cabra” (o mesmo que vaca, cadela, essencialmente… puta).

E que dizer dessa semântica tão romanesca que os faialenses atribuem aos velejadores chamando-lhes “aventureiros”? Um aventureiro é o homem que atravessa mares, tem garra, espírito. Agora perguntem o que é “uma aventureira”. É essa mulher perdida, a quem convém virar a cara. Essencialmente… puta.

Reparo que ofendi o tal sentido japonês de que falei, esse de ser elegante nas palavras. Não costumo usar vulgaridade no falar. Mas neste caso é essencial chamar pelos nomes as coisas, sem receio do que pretendemos demonstrar. Quero também deixar claro que não defendo a prostituição como profissão – porque nunca conheci uma prostituta que defendesse ser isso a profissão por si escolhida. São mulheres por quem tenho respeito, considerando ademais que sobrevivem com muito sofrimento. Logo, o termo usado nesta crónica pretende apenas demonstrar a palavra que a sociedade usa e como o faz.

Vive-se, em Portugal, numa sociedade machista, enquanto subsistirem tais ideias latentes no discurso. Reparem que não é por acaso que puta é o insulto que se faz a uma mulher, mas o grande insulto que está reservado ao homem é… filho da puta.


Friday, March 29, 2019

A culpa é dos políticos?


Esta semana, tive o privilégio de falar com um homem extremamente sábio, cujo nome não quero revelar agora. Assisti a uma conferência sua sobre Direitos Humanos e deixei-me ficar, com o propósito de encetar conversa. Feita a apresentação, depressa nos debruçámos sobre as várias indignidades e injustiças que se praticam, nomeadamente sobre as franjas mais frágeis das populações.

Conversávamos sobre um país em particular, do qual ele tem um conhecimento profundo e que eu também conheço. Nesse momento, eu afirmei que gostava muito do dito país e suas pessoas, mas que o problema “era o governo, não o povo.” Ele sorriu, e retorquiu pausadamente: “Mas o que é um governo senão o reflexo do seu povo?” Surpreendida, disse-lhe que não concordava inteiramente com a sua opinião. “Porque tem sangue de europeia do Sul” respondeu-me ele, “é típico, e perdoe-me se a ofendo, fazerem esse exercício de distância entre a comunidade e o Estado, nomeadamente quando se sentem desiludidos. Desta forma, podem reclamar sem se responsabilizarem. Mas numa sociedade livre – parto do princípio que falamos de sociedades livres, pelo menos em teoria! – o Estado não é mais do que o espelho da esmagadora vontade dos cidadãos que o constituem… e pelo tempo que esse povo assim o desejar. Repare que se o povo desejar mudança, tem o instrumento de mudança nas suas mãos, seja por meio do voto, seja por meio da revolução: qualquer uma destas situações é viável e comprovada, uma mais amena e com data marcada pelo próprio Estado, outra menos serena, mas igualmente eficaz no que a uma mudança diz respeito.”

Admiti que sim, e que, na verdade, o meu sangue talvez tivesse influência, já que o português não é um povo que pensa na realidade como um destino moldado pelas suas mãos – excetuando a áurea época dos Descobrimentos. Mas admito também que a descendência dessa famosa geração de descobridores deve ter ficado preferencialmente além-mar, ao passo que a descendência que vingou em Portugal é precisamente a dos que, cobardemente, não se aventuraram na partida das caravelas. Talvez por isso nunca mais o país tenha tido uma época dourada.

“Não podemos falar de decadência e de problemas sociais, não podemos indignar-nos, como se não fizéssemos parte do problema” continuou ele. “A sociedade somos todos nós e o Estado são alguns de nós que decidimos ou não manter em destaque... Logo, todos somos culpados das injustiças. A partir do momento em que temos conhecimento de algo indigno e silenciamos, somos cúmplices. Trata-se do silêncio de que falava Martin Luther King, que é tão penoso como o próprio crime e igualmente útil à proliferação da desigualdade.”

A esmagadora maioria da sociedade portuguesa sofre deste jogo do empurra. “Não é comigo.” Claro que há os que vão orar para que as coisas corram melhor (inclusive ao próximo). É um sentimento nobre, mas Nossa Sra. e o séquito celestial não têm feito muitas aparições nos últimos anos, apesar da devoção que lhes confiam.

De resto, o povo português, brando e sem pachorra para se mexer, lá vai observando e suspirando “Ai, paciência!” do cimo da sua Varanda de Pilatos (que me perdoe Vitorino Nemésio), onde lava as mãos como se não tivesse nada a ver com o rumo que a História vai tomar.

Friday, March 15, 2019

Raciocínio Motivado


Quantas vezes, ao discutir com alguém ou ao apresentar uma ideia, verificamos que quanto mais evidências, factos, documentos, e demais bagagem lógica de suporte, apresentamos… menos a pessoa se convence; pelo contrário, mais se agarra à sua posição, ainda que praticamente nada de racional a suporte. Quando alguém acredita naquilo que somente confirma as suas esperanças e preconceitos, ao invés de usar as suas capacidades cognitivas, essa pessoa está a seguir um raciocínio motivado.

O processo é automático por parte de quem pretende atingir uma determinada conclusão a todo o custo e, como tal, dará o máximo valor a qualquer pequena coisa que lhe permita corroborar essa conclusão, ignorando e desvitalizando qualquer facto (ainda que muito mais importante) que contrarie essa mesma ideia. O indivíduo que se agarra ao raciocínio motivado pode mesmo inventar exemplos mirabolantes para conseguir justificar o que pretende face ao que prova a sua negação. Por exemplo: temos como cientificamente provado que o vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) causa SIDA; porém, há personalidades conhecidas que defendem absolutamente o contrário e, nessa sua senda de raciocínio motivado, dão conferências, escrevem livros, e continuam a sua carreira, embora digam frases como “Nunca foi provada a existência do HIV”; “SIDA é uma construção socio-cultural e não uma doença”; “O HIV não se transmite sexualmente, nem tão pouco causa SIDA.” Correntes de pensamento como esta podem ser encontradas, entre outros, em Henry Bauer, ex professor de química e escritor. Parece anedota, mas não é.

Claro que isto nos levaria a outro motivo de crónica que é a abundância e variedade de estudos (pseudo) científicos que demonstram uma coisa e o seu contrário. Qualquer que seja, hoje em dia, a nossa opinião, podemos “googlar” o tema e obter um “estudo” que a confirme… e outro que confirme o oposto. A ciência, atualmente sempre financiada por entidades privadas ou governamentais, tornou-se um smorgasbord: há de tudo, consoante o tal raciocínio motivado do financiador do “estudo”. Mas isso é outro tema, sobre o qual agora não me debruçarei.

O raciocínio motivado tem vindo a ser reconhecido, pelo menos, desde os anos 50. As pessoas que têm tendência a segui-lo são, sem surpresa, geridas pela emoção e não pela lógica e sentem-se facilmente ameaçadas por uma opinião diversa, que entendem como um ataque pessoal. Não possuem ceticismo científico, ou seja, não são capazes de observar uma questão sob ângulos diversos. Em vez de avaliação das fontes, espírito crítico, questionamento de situações, colocação dos factos em perspetiva, são direcionadas apenas por uma busca seletiva que lhes permita alcançar a meta da sua conclusão previamente estabelecida.

A este propósito, estudos (haha!) muito interessantes foram feitos, nomeadamente por Z. Kunda (Princeton University, 1990), Ditto e Lopez (Kent State University, 1992- 2004), Balcetis e Dunning (Cornell University, 2006). A propósito, nunca confiem numa mania que anda muito na moda, que é dizer “vários estudos” e depois não indicar nem um para confirmação… de modo que até pode ser a Tia Ermelinda a ter afirmado (bem mal andamos mas ainda não chegamos a esse ponto).

Como contrariar o raciocínio motivado? Nos outros, impossível. Onde zurra um, zurram logo mais, e com tais palavras que ninguém entende (sintomático de quem “quer parecer bem” mas não tem fundamento). Em nós, há que estar atentos: promover o debate de nós mesmos connosco para perceber se não estamos a levar uma ideia longe demais só porque sim, já distante do razoável e do lógico.

Friday, March 1, 2019

Ana Filipa



Só a conhecem por este nome fora do mediatismo. Nos meios de comunicação social, era Esmeralda. “O caso Esmeralda” alimentou tribunais, notícias e opiniões durante anos até ser esquecido quando a menina de 8 anos foi entregue ao pai biológico em 2008. Era um caso que levantava no público desejos escondidos de punição e de moralismo burocrático sem conexão com a realidade. Mas Ana Filipa não era um “caso” e sim uma criança, com sentimentos e ideias claras. Recentemente, uma notícia deu a conhecer que “Esmeralda”, hoje com 17 anos, já vive há quase dois anos com o “casal de pais afetivos” a quem foi arrancada na altura. Saiu de casa do pai no Verão de 2017 e desta vez não houve aparato que a obrigasse a voltar ao que nunca quis.  Este “falhanço” daquilo que se considerou ser o “superior interesse” da menina – claramente contestado e negado pela própria assim que pôde - foi muito habilmente silenciado. Não é por acaso que não se vêm notícias a dizer que “Esmeralda” deu um pontapé à vida que lhe impuseram. Assim, o sistema progride, desconstruindo vidas e infâncias.

Esmeralda foi, realmente, o nome que lhe deram quando nasceu. A mãe entregou-a com três meses ao cuidado de um casal, pais que ela passou a conhecer como seus e que a re-baptizaram como Ana Filipa. O casal fez o capital pecado de não adotar formalmente a menina, embora se inscrevesse para tal na Segurança Social. Aqui começou a sua desobediência ao Estado. O pai de “Esmeralda” não a reconheceu como sua aquando do nascimento, demorando a perícia genética a oferecer resultados. Foi aos 4 anos da menina que a biologia se revelou, dando a confirmação do progenitor. Aí, o pai decidiu que a queria. Começou aqui um torturante processo legal que durou quatro anos para se completar. De não querida (em todos os sentidos), “Esmeralda” passou a ser desejada por todos: agora tanto os pais afetivos, como o pai biológico e também a mãe biológica disputavam a sua guarda em Tribunal.

Advogados de renome criticaram “o acordo” feito entre o casal e a mãe biológica, a “recusa sistemática” do casal em deixar a menina ir para o pai biológico (contrariamente à ordem do Tribunal), e a inércia do sistema em acelerar para que “Esmeralda” fosse viver com o pai, a quem o Tribunal rapidamente confiou a guarda, antecedida por um sistema de visitas “para que se fosse habituando à presença” do que era um estranho. É curioso que estes iluminados não critiquem, por exemplo, o acordo de Cristiano Ronaldo quando compra um filho (tanto mais razão teriam para o fazer sendo que, no seu caso, se trata de um contrato que envolve dinheiro); estranho, também, que critiquem a proteção dada a uma criança que, por razões óbvias, não queria mudar de vida.

Nesta história, o pai afetivo foi condenado a dois anos de prisão suspensa por subtração de menores (pois o casal chegou a esconder “Esmeralda”, novamente desobedecendo ao Tribunal que tanto primou pelo “superior interesse da criança”). O pai biológico obteve a guarda da menina e ainda uma indemnização de 15.000 euros do Estado, aquando de uma decisão do TEDH, que criticou a morosidade do processo. Mas… ganhou? A julgar pelos últimos acontecimentos, “ganhou” uma filha que não parece ter por ele bons sentimentos.

Hoje, talvez fosse diferente. A lei europeia obriga à audição das crianças para que exista uma mudança de guarda, bem como a ter-se a opinião da criança em conta. Porém, é certo que os tribunais desrespeitam com frequência certas leis que Portugal consignou.

O que é mais que certo é a lição a retirar deste “caso”: não vale a pena contrariar o coração. À primeira oportunidade, ele exibe a sua revolta. O Amor não se promove por sentença; ele é Lei ou então nem existe.

Friday, February 15, 2019

Morrer na haste


Há em “Os Maias” uma frase atirada como se Eça de Queiroz tivesse nojo da vida: “Caiu-me a alma a uma latrina, preciso de um banho por dentro!” É esta a frase que me vem à memória sempre que estão em causa os numerosos crimes contra crianças que são praticados em Portugal.

A semana passada, mais uma criança foi assassinada. Desta vez, uma bebé de dois anos. Há quem diga “com dois anos já não é bebé!” Será que têm noção mínima do desenvolvimento infantil? Já trataram de uma criança? Têm ideia da capacidade de defesa que tem uma bebé de dois anos perante o poder físico de um homem adulto motivado pela raiva? Não têm.

O facto de ter sido o pai da Lara a matá-la não desculpa o crime; pelo contrário: aumenta-o. Se um pai magoa um filho, seria capaz de fazer o mesmo a outro qualquer. Ou seja, se é verdade que acreditamos num “amor maior” pelos filhos, conversamente há que acreditar que a agressão grave a um descendente, no caso um que nem se pode defender, é prova da perversidade inenarrável de um ser humano.

Muitas foram as pessoas que comentaram a notícia da menina morta no Seixal como se o progenitor tivesse tido um acesso de loucura – o que é incompatível com o facto da mãe da Lara ter apresentado queixas contra as ameaças de morte que ele lhe fazia, tendo por alvo tanto ela como a filha, o que levou a Polícia a classificar o caso como “alto risco” há dois anos atrás. Aqueles que não sabem como funciona um processo de violência em Tribunal, acham que o arquivamento do caso por insuficiência de prova significa que não se passava nada. Outros tantos foram os que disseram que o pai estava desesperado porque era um “casal em conflito” que “estava a lutar pela guarda da menina”. Na realidade, os pais da Lara separaram-se quando a menina tinha meses (ou antes: a mãe quis separar-se, o que é o mais comum nos casos em que há violência e em que a própria processual não termina... o que só significa que o elemento masculino não consegue ir em frente com a sua vida emotiva, dando por finda a relação). A “luta” assim referida não passa de uma desculpa para poder continuar a exercer domínio e para continuar a ter contacto com a ex, seja para seduzir, seja para magoar. A importância dada à criança é só esta. A própria agressão à criança é uma forma de agredir a mulher. Veja-se o que deixou escrito o pai da Lara – a culpa era “dela”... “pelo menos, não ficas com a menina.” A vingança está feita. E a criança? A criança era propriedade, nem pessoa chegou a ser na sua óptica de homem feudal, era sua por direito e, como sua propriedade, ele usou como entendeu e acabou com ela quando achou por bem.

A sociedade diz revoltar-se profundamente com crimes cometidos contra os inocentes. As pessoas ficam chocadas com os assassinatos de crianças, com os assassinatos de mães que deixam órfãos (13 órfãos em Janeiro, em que morreram 9 mulheres às mãos de companheiros ou ex-companheiros em Portugal), com as violações de crianças que em Portugal se chamam suavemente “abuso sexual”, mesmo com penetração. Aqui começa o problema: ficamos incomodados com a realidade, usamos eufemismos, ficamos confortáveis ao virarmos a cara. Ainda bem que não é connosco. Excepto que, um dia, pode ser. É que ainda está para se inventar uma protecção contra o horror, apesar da soberana arrogância com que algumas pessoas dizem “Comigo nunca se passará...”

Esta tentativa de auto-protecção não passa de uma vã esperança dos seres humanos que se julgam a viver numa bolha, longe de todo o mal, auto-vacinados porque vivem na ilusão de que são capazes de distinguir a maldade nos outros. É à conta desta falsa ideia que lemos testemunhos como os que foram dados na morte da pequena Lara, em que os vizinhos da avó (também morta pelo pai da Lara) se diziam “muito chocados, são coisas que só se vêem nos filmes!” e acrescentavam que “somos um bairro de boa gente, e isto são cenas de bairro de lata!”. O português falsamente acredita que a violência e o horror são coisas que se passam no Bairro da Jamaica, porque o homem de classe média jamais se presta a cenas de sangue e de baixa extracção. Quanto ao economicamente bem posicionado, esse é sempre um senhor! É também esta a postura cega na qual se baseia a nossa Justiça – basta para tal ler os acórdãos que sempre referem “a boa posição social” dos arguidos.

De igual modo, os amigos do pai da Lara referem que ele era um “bom pai, incapaz destas coisas”. Mesmo confrontados com o assumir do crime no testemunho escrito e confessado do criminoso... não acreditam! Defendem-no! Era “bom pai”. Há que admitir, pois, que a nossa sociedade sofre de uma profunda dissonância cognitiva. Perante a prova provada, recusa ver, não quer, defende o oposto. Assassinou a filha, mas... tratou-a bem!

E que dizer de alguma comunicação social que ajuda a esta paródia triste, dizendo que “apesar de asfixiada, a menina não apresentava sinais de agressão”?! O que é uma asfixia mortal senão uma agressão? Que esperava o jornalista? Que a bebé travasse uma luta de força? Pretende-se, com esta frase, que tenhamos o pensamento de que foi uma asfixia suave, uma morte doce?!

Portugal...Vai tomar (um) banho.


Friday, February 1, 2019

Açores: Caraíbas ma non troppo


Este mês li artigos de promoção turística dos Açores em diferentes publicações cujo título variava à roda desta ideia: “Açores, as Caraíbas do Atlântico”. Em amigável discussão com um açoriano do ramo do Turismo sobre este tópico, não conseguimos acordo, já que para o meu amigo é crucial a venda do produto (por óbvias razões) enquanto que para mim os artigos, pelo próprio título, são publicidade enganadora e, ademais, provocam o riso.

Atente-se, primeiro, num certo pauperismo dos conhecimentos geográficos do construtor da ideia “Açores, Caraíbas do Atlântico”. O problema é que as Caraíbas (as originais!) situam-se... no Atlântico. Para os que de mim duvidam, consultem um mapa. O mar das Caraíbas é no Oceano Atlântico. Não existe um oceano Caribenho dentro do Oceano Atlântico, como decerto aprendemos todos na instrução primária. Portanto, repare-se no nonsense que isto é.

Diz-me o meu amigo que o jornalista que concebeu esta ideia é um americano de New York. Se foi o caso, trata-se de um idiota sem par, dado que New York é na Costa Leste dos E.U.A. , estando as Caraíbas mais ou menos em frente dos E.U.A. (um pouco mais abaixo). Ou seja, o senhor tinha obrigação de saber. Tanto mais que Cristovão Colombo – historicamente, o descobridor do continente americano – descobriu as ditas Caraíbas, na verdade, e não a parte continental da América. Por este simples facto se atesta a proximidade. No entanto, como é que o dito jornalista veio aos Açores? Terá sido parte de uma daquelas viagens promocionais para jornalistas que, depois, são pagas com artigos? Se assim foi e se o artigo passou, primeiramente, pela aprovação do Turismo dos Açores, então... por amor à minha liberdade não comento, e até sublinho que tudo isto são perguntas apenas.

Outras questões sobre este conceito. As Caraíbas têm um clima tropical. São a imagem de ilhas tropicais com que estamos habituados a sonhar: mar turquesa, sol abrasador, calor de derreter. Além disso, há duas estações: a seca e a chuvosa, sendo que uma delas implica furacões que não são brincadeira – na zona, os furacões são categorizados numa escala até 5, e não é raro obterem a escala máxima. Isto é minimamente parecido com os Açores?…

Alguém que não conheça os Açores, lê estes artigos, mune-se de fato de banho, calção e chapéu de palhinha para passar um Verão tropical nos Açores... Aí vem ele de rede de estender... e depara-se com um Verão mais ao estilo do de Londres, em que chove quase de certeza metade dos dias. O turista pensava que se ia estender em praias de areia branca e fina... mas nada disso. Vê praias vulcânicas, claro, e paisagens ao estilo irlandês, verdes e luxuriantes, um bocado nevoentas quase sempre, sobretudo se se aventurar para Ocidente. Então o hino não oficial dos Açores não é “Ilhas de Bruma”? Brumas e nevoeiros não faltam! Quais “Caraíbas”?!

Tenho, pois, sincera dúvida sobre a eficácia e legitimidade desta publicidade em forma de artigo. Mas reitero com cuidado: esta é uma opinião baseada em questões, e não pretende ofender. É que todos sabemos que Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, pode dizer à vontade o que entende, mas uma mulher quando se expressa publicamente tem destinos como o de Maria de Lurdes Rodrigues (uma académica que foi efectivamente presa por 3 anos por bloggar na internet certas opiniões – presa por difamação desses dois irmãos, o Estado e a Justiça, embora ela não tenha dito nada de mais grave do que diz, por exemplo, Miguel Sousa Tavares, sendo que a amplitude de quem o ouve ou lê é, no caso, muito maior). Sim, isto é Portugal. Um Portugal de quem ninguém fala – não lhes vá acontecer o mesmo.

Enfim, reservo o direito de não concordar com o meu respeitável amigo. Talvez as nossas visões não mais sejam iguais desde o dia em que um de nós escolheu ficar nas ilhas e a outra escolheu sair. Já o disse Vitorino Nemésio que, ao regressar às ilhas de passagem, se interrogou: “Será que começamos a ser estrangeiros onde nascemos?”. Já tantos escritores escreveram magistralmente sobre as ilhas sem não mais as pisarem senão na escrita que só isto é prova que as ilhas pouco mudam mas o ser humano sim, e que certos desejos são melhor sonhados ao longe que desapontadoramente realizados in loco

Sendo certo que há desilusões que não conseguimos evitar, esta deste artigo pub é certamente evitável: não enganemos a fauna turística com vãs promessas - os Açores não são as Caraíbas. E, já agora, não passemos por idiotas: estamos todos no Atlântico, my friend.