... "And now for something completely different" Monty Python

Friday, July 19, 2019

A popularidade dos arguidos


Recentemente, li crónicas preocupadas com homens “públicos” constituídos arguidos, opinando como isso os poderia prejudicar. Nada mais errado! Noutra cultura, seria expectável que suspeitas legais fundadas em provas suficientes para julgamento beliscassem a imagem dos ditos. Mas em Portugal passa-se o oposto. Um homem arguido é envolvido por uma aura de compaixão, como se não fosse suspeito de crime mas sim vítima de armadilha social ou de desgraça do destino, trapaças que merecem a identificação do próximo que logo se solidariza com fervor.

Exemplos? Começo por Isaltino Morais. Todos conhecem o Presidente da Câmara de Oeiras que se tornou Ministro do Ambiente e se demitiu do Governo por suspeitas de rendimentos não declarados. “Calúnias!” Voltou à CM de Oeiras e seguiram-se processos de branqueamento de capitais, fraude fiscal, corrupção e abuso de poder. Isaltino saíu do PSD e foi constituído arguido. Que lhe aconteceu? Ficou mal visto aos olhos do povo? Pelo contrário! “Isaltino, o melhor presidente que a câmara já teve, digam o que disserem!”; “Este homem ficou órfão de pai e mãe antes dos 18 anos e soube fazer-se à vida!”; “É um ex combatente da Guerra, merece respeito!” e outras coisas que pouco tinham a ver com o caso em apreço mas tudo desculpavam segundo o vulgo. Isaltino perdeu a carreira política? Não só concorreu como ganhou, ironicamente tornando-se Presidente da Câmara quando estava detido. As figuras públicas desistiram de o apoiar? Não; mesmo o venerado Mário Soares, não obstante ser de “outra cor”, afirmou que “Isaltino foi um grande presidente e um homem muito injustiçado.” Conclusão: Isaltino arguido mais viu disparar o apreço que lhe manifestavam do que Isaltino a quem nada se apontava!

José Sócrates. Só há pouco se tornou persona non grata junto dos seus correligionários e, consequentemente, caíu no esquecimento. Actualmente, já não se vê um socialista seu apoiante depois de anos e anos de processos mediáticos (Marquês, Independente, Freeport) e de outras questões que, não sendo ilegais, demonstraram ética discutível, como as obras por si assinadas serem, afinal, escritas por outrem a quem pagou para abdicar dos direitos intelectuais. Porém, durante os anos de tempestade, foi fervorosamente defendido quando estava detido em Évora - havia uma comissão de centenas de pessoas para sua defesa e até “um hino socrático” escrito para o efeito. Deram-se “n” entrevistas de figuras do partido em sua defesa. Quando mudou para prisão domiciliária tornou-se meu vizinho, pelo que posso testemunhar que nunca o bairro foi tão movimentado numa romaria de suporte, havendo mesmo povo que lá ia na esperança de o ver à janela: “Coitado…é um homem muito bonito!” Esta simpatia hormonal mexia com imensas senhoras (e senhores). A verdade é que o Sr. Engenheiro, mesmo sem ter completado a Licenciatura em Portugal, conseguiu fazer um Mestrado no Institut d'Études Politiques de Paris após ser arguido e ter de ir para França! Há que admitir que, ao menos academicamente, a condição de arguido permitiu que subisse muito na vida!

Carlos Cruz, o conhecido apresentador condenado a sete anos de prisão por abusos sexuais de menores. Fizeram-se mil entrevistas ao próprio e seus familiares, onde se falava da “tristeza da filha” (das crianças vitimadas não rezavam estas entrevistas lacrimosas), “da dificuldade da vida prisional” e da “infância de Carlos Cruz”, tudo numa clara tentativa de vitimizar o criminoso, e fazer esquecer as reais vítimas da história, o que resulta muito bem. Não só Carlos Cruz escreveu 4 best-sellers, mas muitos “alguéns”(a julgar pelo estilo de escrita) se encarregaram de manter sites na internet sobre o seu “drama” com reflexões de apoiantes famosos deste país, que não deixaram de se manifestar. Em casos desta natureza, interrogo-me o que ganham com tal fervoroso apoio pois só me ocorre que seja um silêncio vantajoso do arguido/condenado.

Ronaldo. Quando foi constituído arguido, li que isso “acabaria com a sua carreira!” Oh tristes cidadãos, que cegueira do mundo onde habitais! A carreira do abusador é impulsionada quando não condenado, porque fica automaticamente conotado como mais viril e mais poderoso do que antes era – sobretudo se não tinha antes uma imagem que primava por estes adjectivos Reparem que apesar da admissão do email em que CR diz que, efectivamente, a senhora não consentiu (perfazendo, assim, o crime!), nem a justiça avança nem as pessoas se convencem. Pelo contrário, defende-se que “ela só queria ser conhecida”. É sabido que uma mulher não tem talento próprio e, para ser conhecida, apela logo para histórias destas que, aliás, é o que dá mais gosto contar.

Assim, não há que temer. Um homem arguido, mormente na cultura portuguesa, não cai em desgraça. O português tem um gosto faducho e popular que “guarda no coração o lugar do vilão.”

Thursday, June 27, 2019

Os verdadeiros Acusados e os verdadeiros Acusadores


Foto: Jodie Foster no filme The Accused (1988)
Em memória de Cheryl A. Araújo

Em 1988, Jodie Foster teve o seu primeiro super êxito, recebendo da Academia o Óscar de Melhor Actriz pelo seu papel de Sarah Tobias em The Accused, protagonizando uma mulher que é violada num bar por três homens enquanto muitos outros assistem, aplaudem e incentivam.
O filme foi uma viragem decisiva na reflexão sobre violação, já que não havia até então filmes cujo tema fosse exclusivamente esse, embora outras longas-metragens abordassem o assunto como parte da trama narrativa.
cena da violação conjunta, aka gang-rape, (não abram o link na presença de crianças) continua, mais de 30 anos depois, a ser um dos três minutos mais violentamente gráficos da história do cinema. As filmagens – um simples faz de conta – foram tão traumatizantes que até os próprios actores que deram corpo aos violadores tiveram muita dificuldade em encarnar estas cenas, tendo vomitado e chorado frequentemente até as conseguir realizar, porque lhes custava a brutalidade das suas próprias personagens.
A violação tem lugar num espaço público, e o filme explora bem o animalismo da multidão de homens que, indirectamente (?) contribuem para o crime, fazendo literalmente o papel de claque para que a violação continue (outro vídeo que não devem abrir na presença de crianças). As cenas do interrogatório de Tribunal demonstram bem o quanto Sarah Tobias foi colocada pelo advogado de defesa dos criminosos numa posição de impossibilidade, pois se ela, a vítima, não tinha gritado “Ajudem-me!” mas apenas “Não, não, não!” não era taxativo, segundo este, que fosse clara a sua não-anuência. Esta cena, que parece legalmente ridícula aos olhos de quem nunca se sentou numa cadeira para prestar testemunho, é comum e não constitui nada de estranho num Tribunal onde se discute violação.
É, pois, muito claro no filme que a violação é um acto gratuito de violência, e ademais, violência exacerbada. Ainda assim, para espanto dos produtores, quando foram realizados os test screenings do filme (espécie de ante-estreia antes do lançamento perante uma audiência que fornece feedback em forma de questionário), Os Acusados recebeu a mais baixa pontuação que alguma vez um filme da Paramount tinha recebido até então, e a razão era simples: a audiência, em pleno 1988, manifestou-se dizendo que a personagem de Jodie Foster era provocante, sedutora e, por consequência merecia ser violada por três homens enquanto um restante bar repleto de público assistia e gritava por mais. No entanto, a produtora Sherry Lansing recusou a ideia de não lançar o filme – é para isto que servem os test screenings, para avaliar de um possível (in)sucesso ou não – e decidiu fazer novo teste com uma audiência de 20 mulheres, das quais 18 tinham experiência de uma violação, tendo sido vítimas ou conhecendo vítimas na sua esfera de íntimos. Os resultados foram inteiramente opostos. Foi desta forma que Os Acusados acabou por ver a luz do dia, tornando-se um sucesso tanto a nível crítico como a nível comercial.
Deve-se ponderar esta recepção inicial ao filme, e que ainda hoje, em 2019, 31 anos depois, podemos encontrar em qualquer caixa de comentários do YouTube, onde não faltam comentários do género “Mas o que fazia esta gaja num bar onde não iam gajas?” (o comentário mais suave) a outros, inteiramente gráficos, de comentadores que claramente têm prazer (sexual ou outro) em ver cenas de violação.
Mas esta não é a questão nem a história principal deste artigo.
O filme Os Acusados baseava-se, como os produtores disseram, numa história real, que ocorrera em 1983 na cidade de New Bedford, em Massachussets. Um caso que, pela forma como foi tratado pela Justiça, pelos Media e pela comunidade, acabou por se tornar notícia em todos os E.U.A. Tratou-se da gang rape feita à luso-americana Cheryl Araújo, onde foram réus em Tribunal não 3 mas sim 6 homens, todos eles portugueses.
A realidade da vida ultrapassa a ficção do cinema. Cheryl Araújo tinha 21 anos quando foi violada por quatro homens, sucessivamente, enquanto outros dois a agarravam e deram continuidade à violação, obrigando-a, ainda, a sexo oral (factos provados). Tudo isto aconteceu num bar, onde alguns dos presentes alegaram ter visto a violação – de facto, o testemunho de dois deles foi decisivo para que os violadores fossem presos – mas não terem conseguido impedir a mesma, ajudar a vítima ou sequer chamar a polícia por terem sido barrados por outros homens. As violações só terminaram porque Cheryl conseguiu libertar-se (não é claro se os homens se cansaram ou se houve um momento de confusão quando alternavam), tendo corrido para a rua em pânico, onde se colocou no meio do trânsito. Vestia apenas uma das meias e um casaco que estava completamente aberto. Dois dos violadores tentaram segui-la, mas vendo que um carro parava, voltaram rapidamente para dentro do bar.
O carro que parou ao ver “uma mulher nua no meio da estrada” era de dois americanos, os irmãos Michael e Dan O’Neill, onde também ia um seu amigo, Bobby Silva. Os homens, jovens na época, ainda hoje recordam como Cheryl estava aterrorizada. Agarrou-se ao pescoço de Dan com ambos os braços e à cintura dele com ambas as pernas e não mais o largou até que foi solta pela Polícia dessa posição, sendo que mesmo assim tiveram de lhe tirar os dedos um a um, tal o pânico que ela sentia, e que os três homens reconheceram imediatamente como genuíno. Cheryl conseguiu explicar-lhes que tinha sido violada no bar ali ao lado (Big Dan Tavern). Dan ficou com Cheryl, mas Michael e Bobby entraram no bar munidos de uma espécie de bastão para “ver o que se passava”, ideia que, mais tarde, Michael consideraria estúpida. Em Tribunal, disse que no bar toda a gente parecia normal, “a beber, a jogar” como se não tivessem violado nem visto uma violação. “Mas havia muito silêncio.” O silêncio ensurdecedor que, ainda hoje, é a marca das violações e de quem as esconde.
Cheryl foi analisada clinicamente e começou o calvário judicial que haveria de a tornar numa figura conhecida a nível nacional, ela que era uma jovem simples, filha de emigrantes portugueses, mãe de 3 filhas bebés e vivendo com o seu namorado da escola secundária, pai das suas filhas  – mas não era casada, o que viria a revelar-se um aspecto importante para que dela formassem “opinião”, essa ferramenta tão crucial em todos os casos que envolvem sexualidade.
 O juiz acabou por, mais tarde, afirmar que estava arrependido em relação ao modo como lidou com o caso, já que nunca devia ter permitido que o nome de Cheryl fosse conhecido nem que as sessões de Tribunal fossem transmitidas. Visto que não atribuiu a Cheryl o direito da protecção da identidade da vítima, esta acabou por ser conhecida em todo o lado e – como, aliás, também é de uso e de abuso nestes casos – tornou-se habitual falar no nome da vítima ao invés de gritar bem alto o nome dos criminosos. Além disso, em vez de questionar a motivação dos criminosos ou os seus antecedentes, foi a vida de Cheryl que foi passada a pente fino.
Contrariamente à história do argumento do filme, Cheryl não tinha ido a um bar divertir-se, e muito menos tinha dançado de forma provocadora como a personagem de Jodie Foster (embora nenhuma dessas situações justificasse violação, porque nenhuma atitude justifica violação). Cheryl tinha saído de casa depois da festa de aniversário em que a sua filha mais velha completara 3 anos, para ir comprar cigarros. O estabelecimento onde os costumava comprar estava fechado e ela dirigiu-se ao Big Dan, local onde nunca tinha entrado, para efectuar a compra. À saída, foi interpelada por dois homens que a “convidaram” para sair do bar com eles, o que ela recusou. Acto contínuo, foi agarrada pelos cabelos por um e pelos braços por outro, e arrastada para a parte de trás do bar até uma mesa de bilhar, onde foi violada por esses homens e por outros. As violações foram sucessivas e mais duras, se possível, do que no filme: Cheryl era agarrada por alguns, penetrada por outros, forçada a sexo oral por outros, enquanto outros homens incitavam. Foi testemunhado que dois homens (entre os quais o barman e dono do estabelecimento, que nem inglês falava e testemunhou em português no julgamento) tentaram intervir, mas foram barrados pelos tais coadjuvantes. Foram também ameaçados e, por medo, não chamaram a polícia. É curioso verificar, no entanto, que num bar cheio de gente, apenas Carlos Machado (o barman) e um cliente, Valdimiro Pacheco, tiveram o pensamento – ainda que frustrado – de parar uma gang rape. O resto do pessoal, mesmo que não violando Cheryl, sentia-se bem observando a prática. Devia ser, mutatis mutandis, como ver um filme pornográfico sádico.
defesa dos violadores e seus comparsas transformou esta história num filme de perguntas insidiosamente bizarras (à falta de melhor adjectivo): Que jovem mãe era esta que tinha saído de casa, à noite, deixando as filhas com o companheiro/pai das meninas para ir, viciosamente, comprar cigarros? Não sabia ela em que tipo de estabelecimento estava a entrar, local onde, habitualmente, não entravam mulheres “de respeito”? Teria ela realmente dito a um dos alegados violadores que ele “era giro” (como o próprio testemunhou) – frase que, como sabemos, faz logo saltar um magma testicular que depois não pode conter-se? Não teria ela bebido demasiado nessa noite? Como podia ela (de facto, o Ministério Público e não ela, mas enfim…) afirmar que as violações teriam durado entre 90 minutos a duas horas se os homens relatavam não mais que 35 minutos de sexo? Como pode ela afirmar q foi violada em cima da mesa de bilhar quando as restantes testemunhas afirmaram que primeiro ela foi violada no chão e só depois em cima da dita mesa? “Não nos parece que uma mulher esqueça assim o sítio exacto onde foi violada!” A vítima ficou quinze horas a responder a seis advogados de defesa, cujos comentários e opiniões – como é habitual – se seguiam às perguntas.
Importante foram também outros testemunhos, como referi. Se é verdade que os testemunhos de Carlos Machado e Valdimiro Pacheco foram determinantes para a condenação dos violadores (como é triste pensar que foi necessário chegar a isso!) , também é verdade que o testemunho de Adrian Medeiros, polícia, foi determinante para descredibilizar a vítima, ao afirmar que ela “não conseguiu identificar, a posteriori, dois dos seis atacantes na própria noite do ataque” (quando o agente a levou ao bar novamente, na mesma noite, para que Cheryl apontasse quem a violara!). Não ocorreu que Cheryl estaria em estado de choque. Não ocorreu que seria uma segunda tortura colocá-la frente aos violadores, no local da violação, poucas horas depois. Não ocorreu, sequer, ao insensato polícia que podiam já não estar todos no bar. Ocorreu que ela não os identificou a todos e que, logo, era uma mulher incoerente. Brilhante e muito científico.
Cheryl tinha sido educada na comunidade portuguesa, aliás na comunidade açoriana, da cidade de New Bedford, à qual também pertenciam todos os violadores e demais envolvidos neste caso. New Bedford é uma cidade americana para onde, tradicionalmente, emigram açorianos (vá lá, portugueses –  este regionalismo agora seria abrir outra conversa) desde o século XIX. Como este caso provou, pode perfeitamente viver-se e trabalhar por lá sem tão pouco falar inglês, numa mini transplantação que não pretendo sequer aqui analisar com a profundidade e as questões étnico-raciais que já outros fizeram, com justa causa, porque este artigo tem outro fim. No entanto, como dizia Vitorino Nemésio “a geografia vale outro tanto como a história”. Quanta ressonância e verdade nesta frase!
Até agora, ainda não nomeei os criminosos.: Victor Raposo, John Cordeiro, Joseph Vieira e Daniel Silva (acusados de violação agravada); Virgílio Medeiros e José Medeiros, sem conexão familiar entre os dois (acusados de coadjuvação de crime, i.e. de terem encorajado o crime). As acusações foram julgadas em separado e resultaram em sentenças diversas, até porque cada juiz sua sentença: os primeiros quatro foram condenados e os outros dois foram absolvidos. Também aqui a história real é substancialmente diferente do filme, pois que no filme os violadores são absolvidos devido a um acordo feito pela advogada da vítima (contra a vontade de Sarah Tobias, que não tem uma relação fácil com a sua advogada) mas a multidão que incita o crime é condenada.
É importante ressalvar que o máximo de pena que um destes violadores cumpriu foram seis anos e meio (apesar da condenação ser de 12 anos), tendo todos os restantes cumprido penas menores.
A maneira como os jornais – e imprensa em geral – retrataram o caso foi tão instigadora de uma versão anti-vítima que, dez anos depois, ainda havia quem escrevesse academicamente sobre isso. A princípio, o nome da vítima foi ocultado, sendo o caso tratado como uma violação “regular”. Mas assim que o nome dos envolvidos foi conhecido, vieram as descrições. Cheryl foi descrita como sendo uma mulher de costumes soltos, promíscua, de linguagem violenta e agressiva, com vícios vários, provocadora. Tudo se concentrou em descobrir quem era esta mulher sobre quem a atenção de um bar inteiro tinha caído. Que feitiço carregaria?
No início, as associações de mulheres contra a violência podiam ser vistas fora do Tribunal a apoiar Cheryl: há relatos do Boston Herald sobre 12 destas associações empunhando cartazes em sua defesa quando o julgamento começou. Eram cerca de 2000 a 4000 pessoas. Um ano depois, o dobro de seres humanos (8000 pessoas) fez uma vigília em frente ao mesmo Tribunal para protestar contra a condenação dos violadores, com cartazes, velas e símbolos em que se via a Justiça crucificada. Destas pessoas, a esmagadora maioria eram portugueses ou luso-portugueses e grande parte eram mulheres. É disto mesmo que trata outro espantoso artigo académico de 1987: The Before and After of a Group Rape. , na tentativa de explicar o porquê de alguém da mesma cultura, do mesmo sexo, se virar tão brutalmente contra outrem tão igual a si que acaba de sofrer um crime hediondo.
Voltemos à geografia, que não podemos esquecer. Os lugares pequenos (e a pequenez e circularidade das relações que ali se mantem) são determinantes para a sobrevivência das comunidades. Nesta cidade, a primeira reacção foi de choque (p.245) e nisto não diferiram os homens das mulheres, ambos os sexos reagindo com maior ou menor agressividade contra os agressores. Mas o sentimento foi breve. Pouco a pouco, a hostilidade relativamente aos agressores transformou-se em hostilidade contra a vítima, por razões várias: ela não era tradicional (um pecado nunca perdoado!), e tinha posto a nu um assunto que devia ter ficado esquecido. De facto, quanto mais a Media falava em “Portuguese rapists”, mais a comunidade portuguesa se indignava e tomava como insulto o adjectivo nacional. Ademais, os violadores tiveram intérpretes no julgamento enquanto que a vítima sabia falar inglês. Pouco a pouco, a comunidade portuguesa se identificava com os criminosos e lamentava-os. Depois, havia as mulheres ligadas aos próprios, por ex. Carol Maciel, namorada de um dos violadores desde a adolescência, que despertava simpatia por o defender sempre; e ainda a doença cardíaca de outro deles. Enfim, os próprios jornais portugueses que, em manchetes, se interrogavam se “teria havido tão grande onda de indignação se esta violação ocorresse noutra comunidade étnica que não a comunidadetrabalhadora portuguesa?” (p.250).
Quando finalmente os criminosos foram condenados, já os portugueses em geral e as mulheres em particular, pediam a cabeça desta vítima “sem a qual nada disto se teria passado” (p.248). Os comentários falam por si (p.251) – Alda Machado de Fall River “Os direitos dela eram estar em casa. Uma mulher portuguesa fica em casa com seus filhos.” Ann Botelho “Porque é que apenas eles foram condenados? Se ela foi violada, ela é que os instigou!” Virginia Faria de New Bedford “Sou portuguesa e mulher, mas não sou violada. Se atiras um osso a um cão, ele vai mordê-lo, entendes?”
Resta dizer que, depois do julgamento, não apenas Cheryl e família nuclear mas também a sua irmã e sobrinho viram-se forçados a abandonar o estado de Massachussets e a ir viver para Miami, na Florida, porque não eram bem vindos. Isso foi-lhes muito claramente mostrado. A sua sentença foi o exílio (p. 252)
Como explicar tal hostilidade? Segundo Chancer, era mais fácil paras as mulheres portuguesas aderirem à lealdade étnica do que à de género, pois admitir os contornos reais da situação era acabar com o seu próprio mundo tal como ele estava construído. Ou seja, a esmagadora maioria das mulheres (quer) acredita (r ) que, se fizer um bom papel como namorada, esposa, mãe, está livre de malfeitorias masculinas. Essas desgraças só acontecem a mulheres que se prestam a isso. Menos ainda podem conceber que homens que elas, mulheres, conhecem e com quem privam façam isso a mulheres de bem. Que façam, ainda vá que não vá. Mas só a “putas”, essa raça de fêmeas que são como infeciosos micróbios que entram no encéfalo masculino, ficando os homens acometidos de febres que lhes tiram todo o racional por 90 minutos (ou 35, no dizer da defesa). Seriamente falando: as mulheres reconhecem a vulnerabilidade das restantes, que é também a sua, mas imaginam que, distanciando-se delas, por virtude de as maldizer ou incriminar, ficam a salvo. É um raciocínio infantil, feito de deslealdade e de instinto de sobrevivência.
Que podemos dizer, em pleno 2019, 36 anos passados sobre este caso? Pouco mudou sobre a forma como se tratam, durante e depois de um caso de violação, os perpetradores e as vítimas. Victim blaming (expressão que, naquela época, ainda não estava catalogada como tal) continua a ser uma realidade, talvez mais do que nunca. Os governos, cá, lá e acolá, ainda não se convenceram a fazer programas de apoio à recuperação de vítimas de violação. Existem organizações como esta, a maior organização de apoio a vítimas de violência sexual nos EUA, mas só há 25 anos dá apoio a sobreviventes e convenhamos que muito por força impositiva das novas ideologias de género, ditas LGBTQI, que pediam apoio neste sector em particular. Em Portugal, há dois gabinetes recentes.
Por outro lado, em Portugal, não há falta de vontade pública nem governamental (tabela 20: programa para agressores sexuais em meio prisional), nem política e nem académicaem fazer programas de apoio a violadores, denominados programas de recuperação ou de (re)inserção. De facto, até existem em Portugal programas governamentais piloto desde 2009 (ironicamente, e ainda relembrando este caso, nos Açores!) que “recupera” agressores e um desde 2012 para abusadores sexuais de crianças e jovens, que afirma mesmo que consegue modificar “a empatia destes com a vítima”.
Será que, tal como no caso de Cheryl, a ninguém ocorreu uma epifania? São as vítimas que necessitam exactamente destas mágicas palavras: recuperação e (re)inserção. “Recuperação” de um trauma pois são elas que sofreram (sofrer do latim sufferre, isto é: quem está sob ferros, submetido, forçado a …); os violadores não foram submetidos a nada! “Reinserção” numa sociedade que, como vimos, não entende que ser vítima de violação não é ter “andado a pedi-las” e que as ostraciza ou mesmo as força ao exílio, como este triste caso de Cheryl Araújo bem demonstra.
Claro que, por trás de tudo isto, está algo que se chama dinheiro. Se o sexo é uma indústria, a verdade é que uma vítima de violência sexual é sempre vulnerável e não pode pagar a sua recuperação. Eventualmente, a rede do criminoso pode, até porque muitos criminosos são gente da alta. É isto mesmo que o sistema descobriu, porque os sistemas jamais são construídos por gente vulnerável. Assim, um (pobre) homem condenado poderá ter um vício por sexo ou por um determinado tipo de sexo, uma parafilia, uma doença, enfim… Algo passível de tratamento, e como o cancro ou a malária, de recuperação. É chocante a última frase? Pois é, sobretudo para quem realmente tem uma doença. Chocante é também a realidade que se vive, de re-traumatizar uma violação até à exaustão, vitimizando os criminosos ao fazer deles uns doentinhos e transformando as vítimas numas galdérias provocadoras, quais vírus que se meteram insidiosamente nos encéfalos desprevenidos dos pobres meliantes.
Infelizmente, Cheryl Araújo faleceu muito jovem, com 25 anos, em Miami, antes do filme com Jodie Foster ver a luz do dia. Morreu num trágico acidente de carro, quando a viatura que conduzia se despistou e bateu contra um poste. A notícia é curta, diz que duas filhas suas iam no carro mas sobreviveram. Cheryl continuava a ser uma jovem simples, vivia com a sua família de sempre e, contrariando tudo, era uma pessoa muito positiva. Em Janeiro deste ano, foi publicado um livro com testemunhos e fotografias inéditas do seu caso, tão tristemente célebre.
Cheryl Araújo mudaria o curso da história das violações nos tribunais e na imprensa: a primeira vítima de violação a ser filmada em Tribunal, a primeira cujo nome foi publicamente revelado, a primeira a ser “condenada” por uma nação, mas não a primeira a ser ostracizada por outras mulheres próximas de si em particular e pela sua comunidade em geral. Gostaria de a ter conhecido para lhe dizer que “dealing with what life gave her” é só para heroínas.


Thursday, June 20, 2019

Meninos à Venda... Mas com Glamour



Há dias recebi uma petição de protesto contra uma notícia do Diário de Notícias que saiu na última semana de Maio e que se intitulava “Crianças para adopção desfilam em passerelle para eventuais interessados”.

O evento era isto: crianças e jovens, entre os 4 e os 17 anos, a desfilarem numa passerelle, maquilhados, bem vestidos, à moda, para que o público interessado no “produto humano” se manifestasse e os adoptasse. O desfile aconteceu em Mato Grosso e foi organizado pela Ordem dos Advogados do Brasil.

Já vai na terceira edição mas só este ano é que choveram as críticas, pelo menos internacionalmente, acusando o evento do que realmente é: espécie de cruel feira de gado humana, mercantilização perversa de crianças. Note-se que, tendo em atenção quem são os organizadores, o evento não podia estar mais dentro da legalidade! Isto não impede que a ética do mesmo seja inteiramente discutível.

Acontece que a “adopção” de crianças por meio de espectáculos de moda a pretendentes que as avaliam não é exclusiva do Brasil que, aliás, se limitou a copiar a ideia dos Estados Unidos, onde a prática já existe há muito. Um documentário feito em 2011, denominado Catwalk Kids, já registava esta prática como comum há vários anos nos E.U.A. (desde os tempos de Bill Clinton, pelo menos).
O documentário demonstra uns E.U.A. orgulhosos desse seu “marketing das crianças que estão em foster care ou ao cuidado do Estado” e que, caso contrário, nunca de lá sairiam e críticos “desses países que não fazem nada para que mais crianças sejam adoptadas.” Não traz nada de novo ao dizer que quanto mais velha uma criança mais difícil é de ser reintegrada numa família, e que se existirem irmãos mais complexa se torna a realidade da adopção.

O documentário é chocante, porque vemos crianças pequenas a tentarem vender-se, literalmente, ao desfilarem demonstrando toda a sua estrutura corporal na passerelle. Já para não falar dos adolescentes, quase desesperados, cuja forma de vestir e desempenho ao qual são obrigados no evento quase nos faz duvidar de qual vai ser o seu real papel e função nas famílias para onde vão viver.

Em qualquer país do mundo, as crianças são um negócio há muitos anos. Basta ler os artigos de David Akynsaya no inglês The Guardian, um (hoje) mediático que teve a sorte de sobreviver ao sistema do Estado para crianças-vulneráveis (ou crianças-problema, depende da denominação em voga),que põe a nu a realidade de um passado onde “sobreviver” é realmente um feito. São perguntas inquietantes: “se se retiram as crianças a pais inadequados, o objectivo seria dar-lhes cuidadores adequados. Então, porque é que isso não costuma acontecer?”

Quanto aos desfiles de “moda” para estratégica adopção: que efeito têm nas crianças – as tais cujo “superior interesse” está em causa? Que aprenderá uma criança que foi a) abandonada, b) retirada a uma família ou c) já anteriormente maltratada pelos pais quando lhe dizem “Agora vamos maquilhar-te e pôr-te esta roupinha e vais andar de forma dançante perante um grupo de avaliadores. Se algum te achar suficientemente interessante, leva-te para casa. Passas a ser o filho dessa família. Vê lá se fazes um bom trabalho.”

Sendo escolhidas, na melhor das hipóteses (?), nunca terão liberdade para serem crianças, jovens e pessoas. Estarão sempre a fazer um papel, o papel de entretenimento perfeito, esse papel de teatro-diversão para o qual foram adquiridas por estes (agora) pais. Já para não falar das que, não sendo escolhidas, se culpam pela sua falta de “qualidade”.

As verdadeiras perguntas são: que espécie de pais escolhem um filho de entre um desfile de crianças para encher a boca (ou as redes sociais) com o amor incondicional da paternidade/maternidade? Que espécie de leis temos onde esta situação é organizada pelos próprios actores legais? Não menos importante: que sociedade temos, que apenas entra na moda de protestar contra o Brasil e os E.U.A. em relação a esta prática, quando decide que não gosta do Bolsonaro e do Trump, líderes completamente alheios a estas decisões  que já há tanto tempo estão em voga?

Thursday, June 6, 2019

O Absurdo Caso do Esperma Congelado



Peter Zhu, um cadete da Academia Militar de West Point, nos E.U.A., sofreu um acidente de esqui há 3 meses atrás que o deixou com a coluna severamente fraturada. Cinco dias depois, foi pronunciada a sua morte cerebral. O jovem de 21 anos foi mantido vivo ainda durante dois dias mais, altura em que os seus pais obtiveram uma ordem do Tribunal para preservar o esperma do jovem, a fim de “obter descendência a partir deste”. A ordem acaba de ser confirmada na passada semana.

No seu pedido, os pais de Peter Zhu alegaram várias coisas.

A primeira foram as excelentes qualidades do filho, razões pelas quais “queriam preservar o seu material reprodutivo e genético.” Este motivo, que pareceu ao decisor retratar uns pais elogiosos do seu filho, parece-me a mim assustadoramente hitleriano, na onda da preservação da raça. Além de que, no elogio feito ao filho, nada mais encontro do que a extensão de um elogio aos próprios – pois o material genético do filho é o dos pais, aqui pretensos futuros avós.  

Alegaram, também, que o filho, “generoso e humanitário”, era um dador de órgãos consignado, razão pela qual, se iam retirar-lhe os órgãos para serem doados a outras pessoas, sentiam que seria igualmente possível e dentro da mesma bitola avaliativa legal, ser-lhe retirado o esperma (obviamente antes dos órgãos) e ser este entregue aos pais, para que estes pudessem utilizá-lo para fins reprodutivos. Ora, também com isto não concordo por não me parecer o mesmo, pois se Peter Zhu assinou um papel concordando em ser dador de órgãos, isso não é o mesmo que ser dador de esperma, nem daí se pode concluir a sua anuência em tal. Aliás, incorre-se aqui num erro de forma e de matéria, pois que o esperma não é um órgão. Seria necessário que Peter Zhu tivesse incluído na doação post mortem esta cláusula específica, a doação de fluídos reprodutivos – o que, aliás, nem sei se é possível, de tal forma me parece absurdo.

Finalmente, os pais de Peter alegaram que tinham a certeza de que o “desejo de Peter seria ter filhos, desejo esse que não lhe foi possível realizar […] pelo que tendo perdido o nosso precioso filho, rogamos ao Tribunal a possibilidade de preservar uma parte dele numa criança que venha a existir.” Claro que a dor de perder um filho é inconcebível para a generalidade dos pais e não se pode julgar a forma como cada um reage a essa dor. Mas outra coisa, bem diferente deste quadro, são as últimas linhas que aqui transcrevi, com as quais me arrepiei. Passando por cima do facto de ser impossível saber os desejos de Peter quanto à paternidade (estava cerebralmente morto e não deixou nada escrito neste sentido), é assustador a admissão de que a razão pela qual querem um neto é para ver Peter vivo outra vez, descobrir Peter noutra criança, enfim ter Peter de novo. O futuro neto (cuja mãe será, provavelmente, apenas um “vaso reprodutivo”) não passará de um espelho do filho perdido, não indivíduo por direito, servindo para compensar a solidão destes avós. Um fardo muito pesado e muito injusto para uma nova vida.

Ficam-me, ainda, outras interrogações éticas sobre este pedido tão rapidamente autorizado pelo Juiz Colangelo. Nesta época em que a sociedade despertou para a noção de “consentimento” nos atos sexuais e tendo em conta que profanar um corpo morto é crime, como se encara a manipulação masculina para obter esperma, tendo em conta que Peter Zhu nunca expressou o seu consentimento? Quanto a mim, não é claro seja lícito, pois mesmo a doação de órgãos (e insisto que esperma não é órgão) tem de ser autorizada pelo próprio, expressamente e em vida.

Para já, os futuros avós congelaram o esperma e ainda não revelaram o que se segue, visto que a ordem do Tribunal os autoriza a ficar com o esperma mas não os obriga a nenhum tipo de utilização consequente. Abriu-se uma caixa de Pandora, cujas respostas éticas não são claras e levantam muito desgosto.





Friday, May 24, 2019

Hey Joe, que fazes com esses tipos na mão?



Tenho lido, sem surpresa, esta novela mediática à volta do inquérito de Joe Berardo, clássico português em que toda a gente se finge extraordinariamente surpreendida com tudo. “Que inacreditável vergonha!” dizem da forma como Joe riu perante a comissão de inquérito. “Que lata!” dizem do jeito entre o paternalista e o trocista como Joe afirmou “Eu tentei ajudar”.

Que dizer da enorme fortuna do Sr. Comendador (não esquecer que é um homem condecorado pela nação), da fantástica Coleção Berardo, dos vinhos da Bacalhoa, etc.? Nada, porque Joe afirmou “Não possuo nada, não tenho nada!” Os bens não estão no seu nome, foram passados para a Metalgest (uma holding que salvaguarda os interesses do próprio) e para algo chamado Associação de Coleções (eu não percebi o objeto e fundamento desta porque não sou jurista, mas estou em crer que ninguém na sala conseguiu perceber bem).

A lógica é simples: Joe já não tem os bens… mas detém as associações e empresas que detém os bens. Nem todos os parlamentares demonstraram entender, ad pedem litterae, esta lógica. É por isso que eu sou uma miserável proscrita, por pouco sem direito a identidade, e os parlamentares e afins são abastados, embora (é certo) bem menos ricos que Joe – sendo também por isso que podem fingir-se enganados por ele.

Portanto, como afirma Joe, em resposta às alegadas dívidas de milhões, “pessoalmente, não tenho dividas.” Está correto. A chave está no advérbio “pessoalmente”, muito bem colocado.

Note-se: a CGD emprestou 50 milhões de euros ao mutuário de Joe. Joe explicou que o empréstimo até foi sugerido pela própria CGD; de momento já não era possível recordar bem o autor da sugestão, compreensível esvaimento da memória. O propósito deste empréstimo era investir em ações do BCP. Porquê? A julgar pelos depoimentos até agora colhidos (Joe incluído), havia a ideia de colocar no BCP uma nova administração, quiçá alguém da administração da CGD. Enfim, tudo tão português e natural. Acresce que os nomes citados implicam aquela situação tentacular da verdadeira “família” política.

É possível que o Banco de Portugal não soubesse de tal? Quem lá estava? Ah, a sólida questão dos poderes instaurados. Isto constitui burla ao património público? Bem, é um empréstimo de um banco público, cujas garantias foram defraudadas… Que lhe haveremos de chamar?

O Sr. Primeiro Ministro afirmou e cito “O País está chocado com o desplante de Joe Berardo”. Mais uma vez, uma excelente utilização das palavras. Quem está chocado? O País. Eu aplaudo a utilização de gramática dos intervenientes nesta sessão. Não entendo os comentários raivosos que li acerca da pobreza linguística da mesma. Pelo contrário; na minha opinião, falaram de forma certeira. O Sr. Primeiro Ministro disse ainda “Espero que a Justiça portuguesa funcione”. É outra brilhante e pequena frase, riquíssima em semântica.

Por curiosidade, fui ver quem é o advogado de Joe (porque na verdade, foi ele quem lhe “deu as indicações”). Li que é um “amigo do Sr. Comendador”, foi administrador nas suas empresas e detinha cargos no BCP. Além disso, tem ligações a famílias nobres em Portugal. Como diz um comentador conhecido “o pobre procura um advogado quando é acusado de um crime; o rico já tem um advogado informado na perspetiva de vir a ser acusado do crime”. Daqui resulta que ao rico nunca falta uma boa defesa.

Mas a defesa do rico não é o seu advogado. Passa antes por aquilo que o acusado detém: monetariamente, em termos de informação e de projeção. Passa pela rede que construiu. O rico é um amicus curiae.  Os seus julgadores acabam por fazer parte dessa rede, fatalmente. Logo, os julgadores do rico, sobretudo num país pequeno, fazem parte da defesa do rico.

 Aliás, não fosse Joe quem é, teria ido ao Tribunal em vez de se sentar num “inquérito parlamentar” (estava em causa a Constituição ou o Governo?!), e responderia a um juiz em vez de responder a políticos. Mas, com palermadas destas, Portugal enche a boca a dizer que existe separação de poderes neste país.

Hey Joe, eu felicito-te. No inquérito, só mostraste, como dizem os italianos, que “li hai preso per i coglioni”.

Friday, May 17, 2019

O Fascínio do Homem Ocidental Pela Mulher Asiática


Foto: Ziyi Zhang em Memoirs of a Geisha (2005)

Não era novidade para mim que o homem ocidental tinha um fraco pela mulher asiática, mesmo antes de eu morar no Oriente. Quando morei na América do Norte, verifiquei que as mulheres da então chamada comunidade asiática eram sempre cortejadas de forma incisiva pelos ocidentais. Havia e há termos em calão usados para referir esta realidade, desde “Yellow fever” (não me refiro à doença tropical) a “Madame Butterfly” (não a ópera). Eu própria fui abordada fazendo referência ao facto de, supostamente, “ter genética japonesa” – uma ideia que ocorre a muitos desde a minha infância, não sei se pelo rasgado dos olhos se pela minha reserva e calma, traduzidas numa distância que alguns interpretam mal.

Este encantamento do homem ocidental pela mulher oriental não diminuiu com o tempo, o que seria de esperar numa época em que o mundo já pouca novidade oferece, pois tudo se torna conhecido à distância de um clique. Com tamanha proximidade geográfica e irrelevância temporal, já não há desculpas para invocar exotismo e mistério, ideias geralmente associadas com o desejar absoluto de outra etnia, tão absoluto que se transforma em fetiche. O certo é que o desejo continua e univocamente por parte de um dos sexos, ou seja, são apenas os homens do Ocidente que fantasiam com as mulheres do Oriente, não se verificando o mesmo fenómeno entre mulheres ocidentais e homens orientais.

Uma breve passagem pelo mundo internauta confirma esta realidade. Há centenas de sites onde mulheres asiáticas estão disponíveis para homens ocidentais, nalguns divididas por nacionalidade e tipo de relação. Não se pense que são procuradas apenas para encontros fortuitos; muito pelo contrário. De forma geral, a mulher asiática é tida como a esposa ideal pelo homem ocidental, como aliás se confirma pelo número de imigrantes ocidentais que se fixa na Ásia à procura de dinheiro e de casamento. Dos documentários feitos sobre o assunto, veja-se, por exemplo “Seeking Asian Female” (2012) da chinesa Debbie Lum. De volta aos sites construídos para que homens ocidentais encontrem mulheres orientais, é fácil verificar que não estão vocacionados para “one night stands” nem “casual dating”, mas sim para relações de compromisso, como, por exemplo, este.

O que está por detrás deste “Asian fetish”? Não saberei explicar o que leva um homem a sentir-se invulgarmente atraído diante de uma mulher (aparentemente) mais frágil do que a maioria das mulheres, sossegada, serena e leve, que parece necessitar de muito pouco para ser feliz e ostenta um ar seráfico e imperturbável. Este é o retrato imaginado da Asiática do Este / Sudeste, aquela que preenche a fantasia do Ocidental. Importa clarificar que a Ásia é um enorme e muito diversificado continente, injustamente visto como “todo igual” aos olhos e pensamento do Oeste. Esta imagem de mulher tão idealizada é um ideal restrito, sul coreano e japonês, que não se encontra de todo noutros países asiáticos, onde as mulheres são mais ruidosas, mais incisivas e ocupam mais espaço físico. Como dizia uma conhecida blogger “yes, there are fat Asian women!”  (a despropósito, senhoras com pouca auto-estima ou problemas de imagem não devem viajar para a Ásia, caso entendam as línguas faladas, porque comentários completamente demolidores sobre o aspeto são perfeitamente comuns e directos)

É muito claro que os homens se sentem mais masculinos diante destas personalidades imaginadas que percecionam como sendo “a mulher ideal”, dadas as suas qualidades de (aparente) submissão, docilidade, devoção à família, desejo de agradar tanto na vida diária como na sexualidade. São, sem dúvida, características que despertam o papel tradicional masculino, sobretudo nesta sociedade global onde o homem antiquado anda à deriva. De resto, o fetiche funciona nos dois sentidos (como, aliás, todos eles, caso contrário terminam!). Ou seja, também existe um largo número de asiáticas do (sud)este que procura o homem ocidental , entendendo-o como mais másculo, mais capaz de proporcionar uma vida estável e de desempenhar um papel protetor (um ideal que, paradoxalmente, julgo mais concretizável com truques marciais à Bruce Lee, mas talvez eu venha a entender com o passar do tempo).

Outras questões que me parecem imensamente relevantes para este fascínio do homem ocidental perante a mulher do (sud)este asiático tem a ver com a pornografia e a cultura kawaii, ou antes com a mistura destas duas coisas. Bem sei que parece um contra-senso misturar sexo puro e duro com a cultura do queridinho, fofinho e giro, cheio de cor de rosa e diminutivos. Mas é o que acontece. Esta forma de sexualizar o infantil começou no Japão, mas hoje também se encontra expressamente na Coreia e na China. Atenção: não se trata de sexo com jovens, muito menos com crianças. Trata-se, isso sim, de infantilizar as mulheres o mais possível, tanto física como psicologicamente, daí resultando um interesse por mulheres fisicamente muito frágeis, quando não de aparência púbere, e que simulem necessitar de proteção. Até aqui, cada um com sua mania… O problema é que depressa daqui se resvalou para a fantasia que ensina as mulheres a emitirem sons de dor ou mesmo chorarem durante o acto sexual. Daqui a uma elevada taxa de pornografia simulando violações foi um passinho muito curto (não coloco aqui links porque sou expressamente contra, mas descobri que encontrar pornografia com asiáticas neste contexto é tristemente quase tão fácil como ver areia no deserto). Aliás, quanto à simulação de violações, também acontece na manga, e não apenas com mulheres; é bastante comum no género yaoi, onde os papéis de seme (activo) e uke (passivo) são muito marcados.

São a subserviência e a inocência totais na sexualidade que excitam o ideal do homem ocidental, apimentados depois por uma série de “kinky scenes” como sejam a já clássica história dos tentáculos japoneses, que data de uma narrativa tão antiga como 1814, numa publicação de shunga. 

Mas não é apenas uma cultura da pornografia internauta ou da manga facilmente adquirível que explicam este desejo incandescente. No livro The Asian Mystique: Dragon Ladies, Geisha Girls and Our Fantasies of the Exotic Orient, a autora Sheridan Prasso procura ir mais além, traçando o exotismo das mulheres do (sud)este asiático como fascinante para os homens do Ocidente desde os anos de 1200 aquando das viagens de Marco Polo na sua Rota da Seda, que inspirou variada arte na Europa posteriormente.

Passaram vários séculos até à publicação da Madame Chrysanthème de Pierre Loti (1885), o romance que falava da japonesa Kiku que, em Nagasaki, teve um casamento breve com um marinheiro americano. Foi baseado neste romance e na xenofobia que nele existia que Puccini dramatizou a sua Madame Butterfly, onde Cio-Cio-San sacrifica a vida naquela trágica e digna maneira japonesa, após ser abandonada por Pinkerton.  Nas próprias palavras de Cio-Cio-San quando o aguarda, vemos toda a fé cega e a submissão que ela lhe devota:

“Esperarei por ele, durante muito tempo… e não me pesa essa longa espera… […] E quando ele chegar… Que dirá? Chamará Butterfly de longe… Eu não responderei, permanecerei escondida… Um pouco por brincadeira… Mas também para não morrer nesse encontro … E ele ficará transtornado e chamará “Minha pequena mulher, flor de laranjeira” Todos os nomes que me chamava quando estávamos juntos… Tudo isto se passará, não tenhas receio… Eu com toda a fé, espero por ele.”

Na Modernidade, as guerras entre os dois mundos, sobretudo já no tempo do mediatismo, com a guerra entre os E.U.A. e o Vietname mitificaram ainda mais um sentimento de Ocidente versus Oriente, de domínio e sujeição, e de mistura entre os povos, daqui renascendo estas teias novelescas, sempre com o homem ocidental como protagonista dominador e a mulher oriental como dominada (numa versão razoavelmente nipónica, independentemente da geografia escolhida para a situar): assim temos o musical Miss Saigon que recria os anos 70 mas foi à cena uma década depois.

Não esqueçamos o papel de Hollywood nos arquétipos culturais de todos nós. Não é de desprezar o papel que certos filmes recentes têm tido para alimentar o imaginário: Memoirs of a Geisha, que conta a história de Chiyo desde a infância até se tornar na geiko mais importante, sublinhando que as suas escolhas são limitadas e que ela depende, isso sim,  da boa vontade de quem a escolhe. O andar de passos curtos de Chiyo, o seu riso envergonhado, a técnica do olhar, as mãos e a cadência do toque, o corpo que pouco deixa entrever em pormenores, o ser “um objeto de arte em movimento” não é exagero; é a idealização de um feminino do Oriente mais profundo. Infelizmente, o reverso da medalha, que é a sua falta de opções, é também esse Oriente, talvez antigo, talvez não tão desaparecido.

Temos, é claro, o reverso da medalha (favor ver o título do livro de Sheridan Prasso!). De facto, também nos aparecem narrativas de “ice-cold” asiáticas, declaradamente marciais e capazes de rebentar com tudo. Embora este relato seja raro, remeto para Kill Bill, onde a actriz Lucy Liu interpreta uma japonesa que é a cabecilha de uma yakuza. No entanto, é de sublinhar que aqui toda a história se reveste de violência no feminino, e mesmo quem é caucasiano “gosta de brincar com espadas de samurais” (para usar uma citação do filme).

Propositadamente, não me quero debruçar sobre a origem mais profunda do mito da mulher do (sud)este asiático e da sua (aparente) servidão face ao ocidental dominante, já que isso radica no Imperialismo Europeu e na nossa tão cara noção de que fomos nós a dar mundos aos outros, olvidando que mundos já eles tinham – os seus! No fundo, foi do apetite europeu pela dominância político-económica, aliada a uma certa arrogância cultural onde o Oriente foi (é!) visto como uma terra mística, exótica, fascinante… na mesma medida em que era religiosamente absurda, higienicamente pobre e intelectualmente atrasada. Deste modo, não admira que, a partir de vários séculos e séculos onde as palavras “multiculturalismo” e “pluralidade” ainda não eram populares, fosse nascendo um conceito de dominador e dominado, que melhor se encaixava numa óptica de masculino e feminino, até pela própria construção social patriarcal (em qualquer destes dois mundos, infelizmente).

A este respeito, Orientalism (1978) de Edward Said, é uma interessante e ainda actual obra que explora as representações paternalistas do Ocidente em relação ao assim chamado Oriente (ainda que aqui não o “Far East”), onde se pretende provar que todos os estereótipos, convenções, enfim, representações que o mundo ocidental (por definição, mais poderoso e com maior marketing cultural) faz do Oriente são isso mesmo: representações. Feitas por si, à medida dos olhos do observador ocidental, caricaturas desenhadas por povos que, de forma geral, se interessaram pelo Oriente na perspectiva arrogante de povo que o anexara, vulnerabilizara ou intentava compactar.

Voltemos, então, ao fascínio do homem ocidental pela mulher do Extremo Oriente. A celeuma é tal que, no mês passado, surgiu o hashtag “#NotYourAsianSidekick”. De facto, só há algo maior do que “white privilege”; esse algo chama-se “ego”.

Encontro alguns receios nestas mulheres quanto à relação inter-etnia. O maior receio é tão velho como o mundo: “será que ele está fascinado por mim ou pelo facto de eu ser asiática?” A percepção entre a identidade humana individual e cultural torna-se um factor de perturbação, daí surgindo imensas tentativas de chamar a atenção, utilizando o humor, como esta e esta.

Dos casamentos que ocorrem na Ásia entre Asiáticos e não Asiáticos, quase 80% são entre homens ocidentais e mulheres locais. Destes, a esmagadora maioria gera “eurasians”, nome pouco usado para definir mistos entre caucasianos e asiáticos. A mulher do Extremo Oriente é uma mãe tigre, que domina dentro da sua casa - conceito oriental levado à letra -, coisa que geralmente o homem ocidental não previa, nem consegue encaixar muito bem no seu ideário de “chefe de família”. Os conceitos de Yin e Yang são-lhe estranhos, e a ligação quase visceral da asiática aos filhos não raro confunde os caucasianos, mais autónomos quanto às crianças.

É possível aceitarem a realidade que se segue ao fascínio? Certamente. O mundo é grande e o interior do ser humano maior ainda. Suspeito que, a seguir, rotina instalada, se siga uma vida 马马虎虎 “ma ma hu hu” como dizem os chineses, uma expressão que significa “mais ou menos”, mas que traduzida à letra quer dizer “cavalo cavalo tigre tigre” (não me perguntem o porquê desta expressão; eu ainda não a percebi!)

Thursday, May 9, 2019

Racismo à Portuguesa


Todos conhecemos o conceito muito propagado “Portugal não é racista”. Portugal, um país onde todos, mais ou menos coloridos, e vindos de todos os quadrantes, se sentem bem! Os outros países enfermam todos de racismo, mas Portugal não. A esta ideia não é alheia a História já que, contam os livros, o povo português sempre adorou a ideia de miscigenação, tendo criado novos povos através da mistura de etnias, daí nascendo o mulato, o mestiço, o cabrito, o crioulo, o caboclo, o cafuzo, o mameluco, o pardo, o mazomba e sei lá que mais. Uma epifania neuronal levaria à conclusão de que só a existência de nomenclaturas várias para designar pessoas conforme a cor ou a origem étnica dos progenitores é demonstrativa de racismo mas, como sempre, uma História escrita com tinta cor de rosa, chama a esta miscigenação “amor entre as raças” (como se houvesse mais do que uma raça quando só existe a raça humana!).

Esta abertura vem a propósito de incidentes recentes entre a juventude universitária portuguesa. O primeiro na Queima das Fitas da Universidade de Coimbra onde os “doutores” de, precisamente, o curso de História queriam fazer desfilar um carro chamado “Alcoholocausto” com o símbolo de um comboio a lembrar o transporte dos judeus para os campos de extermínio. A ideia foi alimentada desde a Latada, onde uns caloiros foram vestidos de judeus e outros de nazis no Cortejo das Latas. Aquilo que “não passa de uma celeuma sobre o que é uma piada” (segundo o responsável, que declinou mais comentários) é grave. Grave pela insensibilidade, grave pela falta de empatia, de bom senso e bom gosto, de respeito e de justiça, e grave por se tratar de alunos que dentro de um mês são licenciados em História e que, assim, demonstram total falhanço de conhecimento da História do seu continente no século XX naquilo que teve de mais aterrorizante e abominável como foi a Shoah.

O caso torna-se mais flagrante nas declarações de professores da FLUC, que falam em “discurso antissemita” dos seus alunos, razão pela qual fizeram pressão para que o cortejo com referência ao extermínio judaico não se realizasse. A petição que levou à mudança incluía nomes de docentes e de alunos, mas a FLUC, enquanto órgão institucional, não se pronunciou.

O segundo caso deu-se na Universidade de Lisboa, na Faculdade de Direito, onde seria de esperar que existisse mais noção de igualdade, ética e justiça por parte de futuros atores do sistema. Os alunos de Mestrado (longe de qualquer infantilidade) colocaram uma caixa no corredor com pedras para serem atiradas em “zucas”, termo calão para referir brasileiros. A explicação (como se pudesse existir explicação ou razão para apedrejamento, senhores juristas!), foi dada: os alunos brasileiros tinham passado à frente nas colocações para o Mestrado. Ao que parece, no ano anterior, a seleção para o Mestrado foi aberta antes dos alunos da UL concluírem a licenciatura, razão pela qual a maioria dos inscritos no Mestrado é de nacionalidade brasileira. Agora pergunto: foram os alunos brasileiros quem determinou a data de abertura do concurso? Mal estamos com estas cabeças jurídico-pensantes, que nem avaliar sabem da causa e desatam à violência contra o beneficiado, por dor de cotovelo! Que se sintam injustiçados é um assunto; que não saibam reagir nem avaliar da culpa é outro bem diverso!

Neste caso, a FD veio dizer que estavam em causa eleições para a Associação Académica, desculpando a atitude com política. Pior a emenda: em política, xenofobia, aceita-se?! Já a UL foi severa e, através do seu Reitor, afirmou a abertura de processo disciplinar aos alunos em causa.

O futuro de Portugal – que ainda é um dos quatro países europeus, a par da Irlanda, Malta e Luxemburgo, que não tem a extrema-direita no Parlamento – é sombrio. Quanto mais tempo poderá Portugal mascarar o real sobre o racismo e a xenofobia no país? 

Friday, April 26, 2019

Fugas (d)e informação



É irónico que Julian Assange tenha feito uma base de dados denominada “Wikileaks” (“leak” traduz-se por “fuga”) e depois tenha tido de fugir por causa disso. A história ainda não terminou, nem deve ter um fim próximo, porque os caminhos do Direito Internacional são sempre complexos, longos e, não raro, atropelam-se em contradições pelas leis dos países envolvidos.

Um dos artigos mais interessantes escritos após a prisão de Assange é “Um homem sem pátria”, publicado no New Yorker. Combinando este com outros artigos de quem conviveu com Assange, percebemos dezenas de histórias por detrás da narrativa do site que deu a conhecer ao mundo documentos secretos governamentais, fazendo dos seus fornecedores e jornalistas algumas das pessoas mais procuradas do planeta.

Os apoios de Assange são frágeis. Ele personifica o “cavaleiro solitário” e nómada. As suas duas nacionalidades (Austrália e Equador, a primeira por nascimento e a segunda obtida) lavaram as mãos da questão; os seus filhos espalhados pelo mundo, e de várias nacionalidades, nem sequer têm contacto com o pai, desde o mais velho (um australiano adulto) até ao mais novo (uma criança francesa); dos seus amigos faziam parte várias figuras conhecidas, que, entretanto, foram deixando de levantar a voz em sua defesa fosse por receio, exaustão ou descrédito, restando hoje poucos para além da actriz Pamela Andersson, e da sempre resistente e fiel à sua causa Chelsea Manning, que se encontra presa por ter fornecido a Assange vários dos documentos secretos que este publicou e deu a conhecer ao mundo.

Mas Assange nunca precisou muito de ninguém. A sua história pessoal demonstra um talento inato para a sobrevivência e para a rebeldia. Já fechado na Embaixada do Equador, onde viveu sem de lá sair durante os últimos sete anos e onde entrou usando um disfarce que incluía movimentar-se como se fora uma pessoa portadora de deficiência motora, afirmou que privarem-no de liberdade não era inteligente porque um homem encerrado com a mente em  atividade pode ser mais poderoso que um homem livre. Quem o procurava deve ter intimamente concordado porque só o Reino Unido gastou, diariamente, nos últimos sete anos, 10.000 libras por dia para policiar a Embaixada 24 sobre 24 horas.

A acusação que leva à extradição de Assange do Reino Unido para os E.U.A. não se trata da acusação de violação que foi levantada na Suécia após os E.U.A. iniciarem a caça ao homem, já que a vítima sueca retirou essa queixa. Aliás, se assim fora, Assange seria extraditado para a Suécia e não para os E.U.A. Porém, para complicar, a Suécia afirma agora que “talvez reabra o seu processo”, o que pode significar um mandato de detenção europeu em cima da ordem de extradição para responder a uma questão criminal nos E.U.A., implicando apenas prolongamento para discussão. Enquanto isso, Assange está na prisão de alta segurança de Belmarsh no Reino Unido – terra da sua última namorada conhecida, a britânica Sarah Harrison, também ela uma “wikileaker” e acompanhante do “wikileaker” americano Edward Snowden na viagem-fuga que o levou de Hong-Kong até ao exílio na Rússia.

O que preocupa muitos é a natureza da acusação criminal dos E.U.A. Afinal, poder-se-á colocar um processo à liberdade de expressão e ao direito à informação? Que significa tal e que implicações para aquilo a que ainda se chama democracia?…

Mas os E.U.A. são mais espertos que isso. Até ver, não é disso que Assange está a ser acusado e sim de ser coadjuvante de espionagem (o crime pelo qual Manning responde) e ainda hacking (por, supostamente, ter tentado entrar dentro de computadores governamentais). Seja como for, é de esperar que o processo de extradição demore anos e, em sua defesa, Assange tem argumentos vigorosos.

Entretanto, outra ironia é o Parlamento Europeu ter aprovado na mesma semana em que Assange foi preso, uma lei que protege os “whistleblowers”, isto é, os que dão a conhecer actividades imorais ou ilegais. Esta lei passou com o apoio de 591 MEPs contra 29. A juntar a isto, também na mesma semana, na poderosa Berlim, inaugurou-se uma estátua tripla de Assange, Manning e Snowden como novos heróis da cidade. O que dizer disto? Afinal, aparecem amigos em lugares inesperados mesmo para um controverso e solitário escapista.

Wednesday, April 24, 2019

A Perda de Identidade da Vítima


Quadro Acrílico de António Trindade 

Não há dúvida: todos somos humanos. Dentro da nossa concepção do que é próprio da natureza humana, o ser “sujeito”, “agente”, ser de acção, ser transformador, é algo inerente. Ser sujeito e ser humano são conceitos inseparáveis na nossa psique. Além disso, atribuímos ao sujeito a titularidade de certos direitos, já que isso é acoplado à sua capacidade de ser e de fazer acontecer.

O que acontece, então, quando somos desumanizados e, por inerência, rebaixados à condição de objectos?

A frase parece forte, mas o conceito não é novo. A situação sempre aconteceu, com os grupos socialmente mais frágeis, fossem os escravos da Antiguidade, os servos da Idade Média, os negros segregados (ainda) no século XX ou os judeus na II Guerra Mundial. De facto, foi a partir do fim desta guerra que a atenção do mundo passou a focalizar-se nos oprimidos e nos torturados e que as Academias começaram a abrir espaço para estudos sobre os marginalizados e as vítimas. Até então, tinham sido as figuras de soberania a interessar: o que pensavam, como agiam, o que sentiam. Mas, após uma tragédia de tão grandes dimensões da qual o mundo se deu conta por meios visuais – tendo sido realmente crucial a importância da imagem e a divulgação em massa para o impacto que daí adveio – passou a colocar-se o foco não no sujeito, mas sim no humano objectificado.

Só se concebe que graus elevados de tortura possam ser feitos por um humano a outro se o dominador conseguir despersonalizar o dominado. Para isso, conceptualiza-o como um ser inferior, necessariamente menos humano (daí que se compreendam os sinais nas lojas durante a Segunda Guerra, e.g. “Proibida a entrada a cães e a judeus” ou a proibição dos negros se sentarem nos lugares reservados a brancos nos autocarros ou irem às mesmas escolas que eles na época da segregação nos Estados Unidos, por exemplo). Quem abusa pode mesmo reduzir o outro à condição de mero objecto, que, por não ser humano, serve apenas para o servir, como as restantes máquinas e objectos servem (as mesmas culturas e etnias anteriormente citadas foram amplamente utilizadas em contextos de servidão).

Porém, o que aqui me interessa não é a perspectiva do dominador/torturador/perpetrador de crimes, mas sim a perspectiva do dominado/vítima. Importa-me, aliás, desvalorizar o dominador (ele já se dá toda a importância!). Foquemo-nos sobre o dominado. O que acontece a esse alguém cuja humanidade e subjectividade lhe é retirada e que vive sob o domínio de um agente que continuamente o despersonaliza e lhe retira a sua identidade mais básica?

Se não falei nas mulheres e crianças quando, há pouco, mencionei os socialmente mais frágeis ao longo da História, fi-lo propositadamente. É porque continuam a sê-lo. Em muitos aspectos, as mulheres têm conseguido patamares importantes para assumirem a sua igualdade, e não há dúvida que a vida das crianças na generalidade dos países ocidentalizados é hoje melhor do que dantes, quando trabalhavam como adultos e nem havia leis que as protegessem da morte inflingida por maus tratos de familiares ou patrões; no entanto, ainda hoje, as crianças não são vistas como seres humanos em desenvolvimento, mas de pleno direito à humanidade, com opiniões, sentimentos e razões levados em conta, e nem as mulheres alcançaram a igualdade de sexo pela qual se continuam a bater. Basta darmos uma olhada nas sentenças judiciais de abuso sexual (desde já, quantas vezes um eufemismo para “violação” quando se trata de menores) ou de violência doméstica em Portugal para chegarmos a esta conclusão.

A vítima que vive numa redoma de despersonalização não é objectificada apenas pelo perpetrador do crime. Ele não é o único que lhe rouba a subjectividade (entendida aqui como a faculdade de ser sujeito e não objecto). Existe também todo um constructo social, que vai desde os vizinhos surdos, que nada escutaram nem escutam, aos colegas cegos que nunca as marcas de violência viram, e depois, mais tarde, a uma série de agentes despersonalizadores que fazem parte de um sistema (de apoio?): médicos, técnicos de acção social, técnicos judiciais, juízes.

Este sistema mais lato, perante o qual a vítima tem de efectuar um acto (habitualmente, variados) de revivalismo do crime (judicialmente ditos “testemunho”), avalia a qualidade desse revivalismo sob o ponto de vista historicista, apenas esperando uma confirmação da tese que os próprios já criaram e à qual se agarram, e retirando toda e qualquer afirmação que não a confirme. A vítima nunca é considerada, assim, um pleno agente da história, nem quando sobreviveu a esta, pois as suas revelações são sempre tidas como meias-verdades, suspeitas de trauma (aquando do crime ou presente ainda), de desequilíbrio, de emoções. É curioso, porém, que a mesma alegação de desequilíbrio por trauma que lhe é feita (e que carrega, em si, a vivência de um evento traumático) desaparece quando se tenta indagar o evento desencadeador (ou seja, o crime que ali se averigua!). Bizarro… Em resumo: a opressão e a subordinação continuam a pesar sobre a vítima, continua a ser-lhe negado o direito de plena voz, de credibilidade, de dignidade como sujeito. À vítima é dado o tratamento de objecto. Este facto é mais gritante no caso das crianças, essas verdadeiramente objectificadas no caso da justiça, pois que não têm voz. Quando são ouvidas, os seus testemunhos são cortados, considerados inválidos “porque muito jovens”, “emocionadas”, “não convincentes”, ou são coagidas a calarem-se.

Assim intimado, o sujeito deixa de fazer som. Não fala, não age, torna-se não agente de vida. Torna-se objecto. Torna-se, novamente, vítima de um ataque à sua identidade humana, prolongamento do ataque criminoso que já antes sofrera.

Há pouco falei no quão importante a visibilidade em massa tinha sido vital para que a carnificina do Holocausto fosse exposta. De facto, sem meios de visualização, as pessoas não se teriam consciencializado da tortura dos campos de morte e da imensidão do terror. A visibilidade é poder. Desde então até hoje, cada vez temos mais consciência disso, com a emergência da internet e dos smartphones. Os abusadores têm plena consciência disto. É por isso que jogam também com este factor, e fazem reconhecer o seu poder através de visibilidade. Por outro lado, retiram-na à vítima, tornando-a invisível. A vítima torna-se minúscula, não falada, não vista, não reconhecida. É uma marginal visual.

Para além desta perda de identidade em termos pictóricos (essencial no mundo moderno), a vítima é sempre solitária. Muito cuidado com esta palavra, que é frequentemente mal-usada. Grandes e belas obras nascem da solidão, e é de desconfiar de quem não sabe viver sozinho. O sentido de “solitário” aqui refere-se a quem é retirado da sua rede de suporte pelo abusador, o que frequentemente acontece. A energia colectiva é maior do que a energia individual, como pode atestar todo aquele que já esteve num concerto, mas também é possível que a nossa energia individual seja sugada pelo colectivo e que nos sintamos vazios e esgotados por pertencer a um grupo se esse grupo for tóxico, como sabem as pessoas que já foram parte de uma seita religiosa ou de uma família disfuncional. Nesses casos, antes só… fica-se melhor orientado.

Um ponto unificador da perda de identidade da vítima e do trauma de revivalismo do crime (pois o testemunho constitui uma repetição traumática do já acontecido perante espectadores que, ademais, avaliam e julgam não o crime mas a nossa memória dele) é a vergonha. A vítima tem sempre vergonha do acontecido, o que confunde os julgadores e diverte os criminosos. O julgador, não raro, não entende o porquê da resistência da vítima em falar de um acontecimento “se não foi você quem cometeu”… ou “considera que contribuiu para isso?” Neste momento, é razoável deitar o olho ao abusador que costuma estar intimamente deleitado com esta nova tortura.  É fácil de explicar o sentimento de vergonha da vítima, que pode manifestar-se de diversas formas (desde bloqueio, recusa, insensibilidade aparente, etc) mas tem sempre a mesma causa: a vítima não teve escolha, foi forçada a algo. Tornou-se marioneta de alguém. Confessa, ali, a sua inarticulação enquanto sujeito-agente (que deixou de ser aquando dos factos narrados) e que continua a não ser (porque obrigada a revivê-los perante plateia). Desprovida, assim, da sua identidade maior enquanto ser humano, a vítima é objecto, e o que é pior, é objecto de servidão para outro alguém, envergonhando-se de não ser humano como os demais.

Que tipo de reconhecimento quer, então, uma vítima ou, se quisermos, um sobrevivente? (embora eu tenha problemáticas com ambos os nomes, ainda não se inventou melhor designação; gosto de lhes chamar sobre-viventes, porque vivem para além de)

Logicamente, a questão da visibilidade é uma questão social. Todos nós temos um conjunto de crenças e, em boa verdade, vemos aquilo em que acreditamos. Daí, que haja tantos lobbies, influencers, e outros que tais, social, política e estrategicamente colocados. Portugal não está sozinho e, neste aspecto, é apenas um peixinho num tanque onde nadam muitos outros aos quais Portugal lá anda agarrado como pode. Em termos de violência e abusos, para dar exemplos concretos, encontramos ultimamente várias opiniões nas redes sociais e jornais nos últimos anos que dizem que as mulheres são as maiores abusadoras dos filhos, porque o amor maternal não seria inato. Na verdade, pesquisando mais um bocado, contactando com  pessoas que se dedicam há muitos anos a estudar abusadores e vítimas, a verdade é que há uma enorme taxa de vítimas sexuais infantis violadas pelos pais (homens), tanto em Portugal como no resto do mundo, há vendas de crianças estabelecidas na Europa e alem para fins de pedofilia, sobretudo a uma elite, com coração na Bélgica, uma rede com ligações a políticos e empresários de outros países e de outros continentes, de onde não é muito difícil seguir o rasto e acabar mais perto… Mas quem fala nisso costuma desaparecer em explosões ou outros acidentes misteriosos (eu própria já fui vítima de tal, e sou apenas uma pequeníssima gota que caíu mal e incomodou alguém). A questão é perigosa, pois como se depreende de todas estas notícias que incluo neste artigo em forma de link, tudo isto envolve homens extremamente poderosos, com vícios sádicos, que usam de “perversão da justiça” (cito o artigo de investigação do Miami Herald) para continuarem as suas vidas, incólumes.

Em oposto a isto, há movimentos de mães denominadas “em fuga” que mais não fizeram que juntar provas do abuso dos filhos (são muitos movimentos, uns totalmente a céu aberto e outros underground; só apresento links aqui de alguns extremamente conhecidos, como este e este, e o já histórico children of the underground).

Nada disto é socialmente falado como mainstream. Não faz parte do reconhecido. Mutatis mutandis, este fenómeno de (in)visibilidade dir-se-ia que é mais ou menos o mesmo fenómeno que, nos anos 80 e na minha infância, levava as pessoas a dizerem que só os gays é que apanhavam SIDA. Foram precisos anos, mas foi sobretudo preciso muito lobby, para que a verdadeira opinião fosse veiculada. Outro bom exemplo do invisível “in plain sight”: nos E.U.A., ainda hoje a (in)visibilidade do homem negro ou do homem hispânico se faz sentir - é sempre ele quem vai à frente nas estatísticas de crime apresentadas oficialmente e é sempre ele quem é morto pela Polícia. Mas… quem são os atiradores das escolas? Homens caucasianos. E quem são os serial killers? Na sua maioria, homens caucasianos. Como vêem, um sistema de crenças faz-se… mas raramente corresponde ao real.

Outro problema, bastante mais profundo e eventualmente psicanalítico, é que a vítima necessita, em última análise, de ser reconhecida como ser humano por aqueles que a dominaram ou dominam. É uma questão complexa que, a meu ver, prende muitas vítimas a relações onde esperam vir a ser reconhecidas (ou têm essa esperança eventual). Infelizmente, e como é óbvio, o abusador será a última pessoa a reconhecer-lhes humanidade/identidade. Já encontrei este mesmo sentimento em mulheres agredidas pelos companheiros e em crianças agredidas pelos progenitores. A relação não se quebra até a vítima perceber que a inferioridade profunda que sente, a falha que entende ter em si, não será colmatada – pois a vítima está crente que apenas o abusador pode preencher essa lacuna, já que foi ele que a criou. A constante opressão cria esta necessidade de reconhecimento – é só aqui, a meu ver, que se pode falar de uma carência do oprimido, um conceito que certos técnicos usam com displicência, fazendo a vítima sentir que ela sofre de alguma patologia que terá levado o abusador a escolhê-la, como a melhor peça de caça, a mais frágil, a que já possuía “qualidade per se”.  A ideia é errada. Não é a vítima que cria o abusador; é o abusador que constrói a vítima.

É aqui que deveria entrar a justiça. É garantido que um abusador nunca restituirá à vítima a identidade que lhe roubou. Mas a justiça poderia fazê-lo, ao menos um pouco, reconhecendo os crimes, atribuindo penas, proibindo contactos futuros. Quase nunca o faz. Pelo contrário: torna a insistir na objectificação do vitimizado.

Ainda uma palavra para o testemunho. É frequente insistir-se em perguntas pormenorizadas como “que horas eram quando entraram no quarto?”; “que cuecas tinha nesse dia?”; “Lembra-se se ele tinha roupa interior?”; “terão passado cinco ou dez minutos durante esses momentos?”. Uma falha (se é que falha se pode considerar…) numa destas perguntas é, não raro, motivo para que os juízes desqualifiquem todo um testemunho, já que “claramente, não se recorda, inventou”, etc. Parece-me lógico que, no decurso da vida normal, raras são as pessoas que detém o controlo do tempo ao minuto e menos ainda será o número de crianças que saberão dar resposta com acuidade temporal. Ademais, perante uma situação de choque, o frequente é que qualquer adulto (e seguramente uma criança) não recorde pormenores e fique ainda mais aflito ao ser questionado sobre eles, como se dessa ínfima partilha dependesse a sua segurança actual e futura. Não será muitíssimo mais importante questionar dos factos acontecidos, ao invés de insistir nos minutos e bugigangas?

Outra revitimização e perda de identidade / humanidade são as ameaças que se fazem por parte de entidades que, devendo proteger as vítimas, acabam por compactuar com os abusadores, seja em processos judiciais irrealistas e kafkianos, seja na elaboração de relatórios sem nexo. Isto deu origem, nos últimos anos às hashtags #mommycide#, #kiddocide# e #freethekidsfromcourtorderedabduction#, i.e. “homicídio de mães”, “homicídio de crianças” e “salvem as crianças do rapto legalmente ordenado pelo Tribunal”. Procurem e encontrarão na internet muitos movimentos como este que de há uma dezena de anos a esta parte vem fazendo ouvir a sua voz e recuperou a sua IDENTIDADE e HUMANIDADE no mundo: desde mães que lutaram pelos filhos que não foram ouvidos, e os retiraram do inferno em que viviam (ou iam viver), a crianças que cresceram (algumas até casaram para se emancipar); pessoas que emitem programas de rádio ou têm canais no YouTube, páginas na net, fizeram e-books ou lançaram livros; investigadores, advogados, fotógrafos e jornalistas (alguns foram abusados na infância, e os abusadores não foram punidos), ou mesmo investigadores que se dedicaram a estudar abusadores durante décadas e conhecem muito bem o outro lado. Enfim, a lista é longa, quanto à rede de investigadores e whistleblowers.  Novamente, só coloquei aqui alguns nomes facilmente acessíveis que não comprometem.

Uma descoberta que fiz resume-se a esta verdade: um abusador necessita da sua vítima. São pessoas sem energia própria; precisam da energia de outros para conseguir estar e viver. Mas os sobre-viventes não precisam dos abusadores para nada. Têm tanta energia que chega para si, foram parasiticamente sugados por esses vampiros (os abusadores raramente são apenas um na vida de uma vítima), mas ainda lhes resta para viver a vida toda e continuar, com vitalidade.